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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A Rapariga no Comboio. Paula Hawkins. «Depois de se terem ido deitar, lembrei-me de que não tinha bebido a segunda garrafa e então abri-a. Sentei-me no sofá e fiquei a ver televisão com o som muito baixo»

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«(…) Tenho a camisa desagradavelmente apertada, os botões espremidos contra o peito, com manchas de suor pegajoso debaixo dos braços. Doem-me os olhos e a garganta. Esta tarde não quero que a viagem se arraste; só me apetece chegar a casa, despir-me e enfiar-me no duche, onde ninguém pode olhar para mim. Olho para o homem sentado no lugar à minha frente. Deve ter a minha idade, 30 e poucos anos, com o cabelo preto, já um pouco grisalho de lado. Um ar macilento. Trazia um fato vestido, mas tirou o casaco e poisou-o no banco ao seu lado. Têm um MacBook finíssimo aberto à frente dele. É lento a escrever. Tem um relógio prateado com um mostrador enorme no pulso direito: parece caro, talvez seja um Breitling. Vai roendo o interior das bochechas. Talvez esteja nervoso. Ou só a pensar profundamente. A escrever um e-mail importante para um colega no escritório de Nova lorque, ou a medir bem as palavras para acabar com a namorada. Levanta a cabeça de repente e surpreende-me o olhar; fita-me de cima a baixo, assim como à pequena garrafa de vinho na mesa à minha frente. Desvia os olhos. Há qualquer coisa na expressão da boca dele que sugere desagrado. Acha que eu sou desagradável. É verdade que não sou a rapariga que era dantes. Já não sou apetecível, tornei-me até de certa forma repelente. Não se trata apenas do peso que ganhei, ou de ter a cara inchada de toda a bebida e falta de sono; é como se as pessoas conseguissem ver à primeira vista que caí em desgraça: ler-ma na cara, na forma de me sentar, na maneira de eu andar. Há umas noites, na semana passada, quando saí do quarto para ir buscar um copo de água, ouvi a Cathy a falar com o Damien, o namorado dela, na sala. Fiquei no corredor à escuta. Ela anda muito sozinha, estava a dizer a Cathy. Estou preocupada com ela. Não ajuda nada, estar assim sempre sozinha. Não conheces ninguém no trabalho ou na equipa de râguebi?, acrescentou. O Damien perguntou: que possa estar interessado na Rachel? Desculpa lá, Cath, mas acho que não conheço ninguém assim tão desesperado.
Quinta-feira, 11 de Julho de 2013
Manhã
Estou a desfazer o penso no meu dedo. Faz comichão, molhei-o quando estava a lavar a minha chávena de café hoje de manhã; parece peganhento e sujo, mas estava bem limpo quando acordei. Não quero tirá-lo, porque tenho um golpe profundo. A Cathy não estava em casa quando eu cheguei, por isso fui até à loja de bebidas e comprei duas garrafas de vinho. Bebi a primeira e depois pensei que poderia aproveitar, já que estava sozinha, para fazer um bife com cebola caramelizada, com uma salada de alface a acompanhar. Uma refeição saborosa e saudável. Cortei a ponta do dedo a fatiar as cebolas. Devo ter ido à casa de banho limpá-lo, e depois deitei-me só um bocado e esqueci-me completamente do jantar, porque acordei por volta das 10 e ouvi a Cathy a falar com o Damien, a dizer que era inacreditável que eu tivesse sido capaz de deixar aquela confusão. Ela subiu as escadas para ver como eu estava, bateu suavemente à minha porta e abriu-a ligeiramente. Pôs a cabeça de lado e perguntou se estava tudo bem. Eu pedi desculpa, sem ter bem a certeza do quê. Ela disse que não fazia mal, mas perguntou se eu me importaria de ir arrumar as coisas. Havia sangue na tábua de cortar, a cozinha cheirava a carne crua, o bife ainda estava em cima da bancada, com um aspecto cinzento. O Damien nem sequer me cumprimentou, limitou-se a abanar a cabeça quando me viu, e subiu as escadas para ir ter com a Cathy ao quarto. Depois de se terem ido deitar, lembrei-me de que não tinha bebido a segunda garrafa e então abri-a. Sentei-me no sofá e fiquei a ver televisão com o som muito baixo, para eles não ouvirem. Não me consigo lembrar do que vi, mas a certa altura devo ter-me sentido sozinha, ou animada, ou outra coisa qualquer, porque me apeteceu falar com alguém. A necessidade de contacto deve ter sido irresistível, e não havia ninguém a quem eu pudesse ligar além do Tom. Não há ninguém com quem eu queira falar além do Tom. O registo de chamadas do telemóvel diz que eu lhe liguei quatro vezes: às 23h02, às 23h12, às 23h54 e às 00h09. A julgar pela duração das chamadas, ter-lhe-ei deixado duas mensagens. Até pode ter atendido, mas não me lembro de falar com ele. Lembro-me de deixar a primeira mensagem; acho que só lhe pedi para me ligar de volta. Talvez tenha sido isso o que eu disse nas duas mensagens, o que não é assim tão mau». In Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio, 2015, tradução de José Leiria, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-880-054-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

terça-feira, 1 de novembro de 2016

A Rapariga no Comboio. Paula Hawkins. «Também não sei como se chamam, por isso tive de lhes dar nomes. Jason, porque ele é bonito ao estilo de uma estrela de cinema inglesa, não como um Depp ou um Pitt…»

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«(…) Eu e a Cathy éramos amigas na universidade. Meias-amigas, aliás: nunca fomos assim tão chegadas. Ela vivia no quarto em frente ao meu no primeiro ano, e andávamos no mesmo curso, por isso fomos aliadas naturais naquelas primeiras semanas assustadoras antes de conhecermos pessoas com quem tivéssemos mais em comum. Não nos vimos muito uma à outra após aquele primeiro ano e quase nunca depois do curso, tirando algum casamento esporádico. Porém, na minha hora de aperto, ela tinha por acaso um quarto livre a arrendar, e fazia sentido que eu ficasse com ele. Tinha a certeza de que seria só por um ou dois meses, no máximo seis, e não sabia o que fazer. Nunca tinha vivido sozinha, tinha passado da casa dos meus pais para o apartamento com os colegas e depois com o Tom; achei a ideia irresistível, por isso aceitei. Entretanto passaram-se quase dois anos.
Não é horrível. A Cathy é uma pessoa simpática, de uma maneira algo forçada. Faz-nos sempre reparar que está a ser simpática. É uma simpatia agressiva, é aquilo que a distingue de toda a gente, e ela sente que tem de ser reconhecida por isso, muitas vezes, quase diariamente, o que se pode tornar cansativo. Contudo não é assim tão mau, consigo lembrar-me de defeitos piores numa companheira de casa. Não, não é a Cathy, não é sequer Ashbury que me incomoda mais na minha nova condição (ainda a considero nova, apesar de se terem passado dois anos). É ter perdido o controlo. No apartamento da Cathy, não consigo deixar de me sentir uma convidada à mercê dos limites da sua hospitalidade. É o que sinto na cozinha, quando disputamos o espaço para fazer o jantar. É o que sinto quando me sento ao lado dela no sofá, o comando ao alcance ostensivo das mãos dela. O único lugar que me sabe a meu é o pequeno quartinho onde enfiámos uma cama de casal e uma secretária, tão acanhado, que quase não dá para passar. É suficientemente confortável, mas não é um sítio onde nos apeteça estar, de maneira que eu me vou deixando ficar na sala ou sentada à mesa da cozinha, pouco à vontade e de braços cruzados. Perdi o controlo sobre tudo, até sobre os lugares dentro da minha cabeça. 
Quarta-feíra,10 de Julho de 2013
Manhã
O calor está a aumentar. Ainda pouco passa das 8 e meia e o dia já está abafado, o ar saturado de humidade. Eu bem podia pedir uma tempestade, mas o céu está insolentemente limpo e azul. Enxugo o suor do rosto. Quem me dera ter comprado uma garrafa de água. Não consigo ver o Jason e a Jess hoje de manhã, e sinto uma tremenda desilusão. É idiota, eu sei. Perscruto a casa, mas não há nada para ver. As cortinas estão abertas cá em baixo, mas as portas duplas estão fechadas, com o sol a reflectir-se nos vidros. A janela de guilhotina do primeiro andar também está fechada. Pode ser que o Jason esteja fora em trabalho. Ele é médico, acho eu, provavelmente numa daquelas organizações internacionais. Está constantemente de prevenção, com a mala feita no cimo do roupeiro; basta haver um terramoto no Irão ou um maremoto (tsunami) na Ásia para largar tudo, agarrar na mala e se meter no aeroporto de Heathrow em menos de nada, pronto para apanhar o avião e ir salvar vidas. A Jess, com os seus vestidos garridos e os ténis Converse e toda a sua beleza, a sua atitude, trabalha na indústria da moda. Ou talvez esteja ligada à música ou à publicidade: pode ser estilista ou fotógrafa. É uma excelente pintora, também, com uma veia artística. Estou mesmo a vê-la, no quarto de hóspedes lá em cima, com a música aos berros, a janela aberta, um pincel na mão, uma tela enorme encostada à parede. Há-de lá ficar até à meia-noite; o Jason sabe perfeitamente que não a pode incomodar quando ela está concentrada. É claro que não a estou a ver. Não sei se ela pinta mesmo, ou se o Jason tem uma bela gargalhada, ou se a Jess tem as maçãs do rosto bonitas. Não lhe consigo ver bem a cara daqui, nem nunca sequer ouvi a voz do Jason. Nunca os vi de perto, eles não moravam na casa quando eu vivia na rua. Mudaram-se depois de eu me ter ido embora há dois anos, não sei bem quando. Acho que comecei a reparar neles há cerca de um ano, e pouco a pouco, à medida que os meses foram passando, eles acabaram por se tornar importantes. Também não sei como se chamam, por isso tive de lhes dar nomes. Jason, porque ele é bonito ao estilo de uma estrela de cinema inglesa, não como um Depp ou um Pitt, mas sim como um Firth ou um Jason Isaacs. E Jess, só porque condizia com Jason, e o nome assenta-lhe bem. É bonito e despreocupado como ela. Fazem um bom par, aqueles dois. São felizes, dá para ver. São tal como eu era antigamente, o Tom e eu, há cinco anos. São aquilo que eu perdi, tudo o que eu sempre quis ser». In Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio, 2015, tradução de José Leiria, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-880-054-1.
Cortesia de Topseller/JDACT

domingo, 12 de junho de 2016

A Rapariga no Comboio. Paula Hawkins. «Aquela foi a minha primeira casa. Não a casa dos meus pais, nem um apartamento partilhado com colegas: foi a “minha” primeira casa»

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… 8 de Julho de 2013
«(…) Consigo imaginar o toque das mãos dele, a sua leve pressão, revigorante e protectora. Às vezes dou por mim a tentar lembrar-me da última vez que tive alguma espécie de contacto físico relevante com outra pessoa, nem que tenha sido um abraço ou um aperto de mão caloroso, e sinto o coração estremecer-me.

… 9 de Julho de 2013
O monte de roupa da semana passada ainda ali está, e parece mais sujo e mais abandonado do que há uns dias. Li algures que um comboio, quando nos atropela, é capaz de nos arrancar a roupa do corpo. Não é assim tão invulgar, ser atropelado por um comboio. Duas a três centenas de mortes por ano, é o que dizem, portanto pelo menos uma dia sim, dia não. Não sei quantas serão acidentais. Olho com atenção, enquanto o comboio passa lentamente, à procura de sangue nas roupas, mas não vejo nada. O comboio pára no semáforo, como de costume. Consigo ver a Jess de pé no pátio à frente das portas duplas. Tem um vestido rosa-choque e os pés descalços. Está a olhar por cima do ombro, para dentro de casa; deve estar a falar com o Jason, que deve estar a fazer o pequeno-almoço. Fico de olhos presos na Jess, na casa dela, enquanto o comboio vai arrancando. Não quero ver as outras casas; não quero sobretudo ver a casa quatro portas abaixo, aquela que dantes era a minha.
Morei no n.º X de Blenheim Road durante cinco anos, anos de uma felicidade absoluta e de uma miséria completa. Agora não consigo olhar para lá. Aquela foi a minha primeira casa. Não a casa dos meus pais, nem um apartamento partilhado com colegas: foi a minha primeira casa. Simplesmente não consigo olhar para lá. Ou consigo, e até olho, e quero olhar, mas não quero, pelo menos tento não olhar. Todos os dias digo a mim própria para não olhar, e todos os dias olho para lá. Não consigo evitar, ainda que não haja lá nada que eu queira ver, ainda que tudo o que eu vir só poderá deixar-me magoada. Ainda que me lembre perfeitamente do que senti naquela vez em que olhei para cima e reparei que as persianas beges do quarto do primeiro andar tinham desaparecido, substituídas por umas cortinas quaisquer cor-de-rosa-claras; ainda que ainda me lembre da dor que senti ao ver a Anna a regar as roseiras junto à cerca, com a t-shirt esticada por cima da sua grande barriga, e de ter mordido o lábio até fazer sangue.
Fecho os olhos com força e conto até dez, quinze, vinte. Pronto, agora já desapareceu, nada há para ver. Entramos na estação de Witney e voltamos a sair, com o comboio a acelerar a marcha à medida que os subúrbios se diluem na suja e pardacenta região norte de Londres, as casas geminadas substituídas por pontes cheias de grafiti e edifícios vazios com as janelas partidas. Quanto mais nos aproximamos de Euston, mais ansiosa me sinto; a tensão aumenta; como será o dia de hoje? Há um prédio asqueroso de betão do lado direito da linha, uns 500 metros antes de entrarmos em Euston. Alguém desenhou na parede uma seta a apontar para a estação junto às palavras fim de viagem. Penso na trouxa de roupas junto à linha e sinto a garganta apertada.
O comboio da tarde, o das 17h56, é um pouco mais lento do que o da manhã: a viagem leva uma hora e um minuto, sete minutos a mais, apesar de parar nas mesmas estações. Pouco me importa, porque não tenho grande pressa de voltar a Ashbury tal como não tenho grande pressa de chegar a Londres de manhã. Não só por ser Ashbury embora o sítio seja suficientemente mau, uma cidade-dormitório dos anos 60 que se espalhou como um tumor no coração de Buckinghamshire. Não é melhor nem pior do que todas as outras cidades iguais a essa, o centro cheio de cafés e lojas de telefones móveis e sucursais da JD Sports, cercado por uma faixa de subúrbios, seguida pelo grande cinema multiplex com hipermercado da Tesco. Vivo num quarteirão finório (mais ou menos) e novinho em folha (assim-assim), que fica no sítio onde o coração comercial da cidade se começa a fundir nos arrabaldes residenciais, mas não é essa a minha casa. A minha casa é a vivenda geminada vitoriana junto ao caminho de ferro, aquela de que eu era dona a meias. Em Ashbury não sou dona da casa, nem sequer inquilina: sou uma mera ocupante, instalada no pequeno quarto de hóspedes do duplex desenxabido e inofensivo da Cathy, vítima do seu favor e da sua misericórdia». In Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio, 2015, tradução de José Leiria, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-880-054-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A Rapariga no Comboio. Paula Hawkins. «Conheço cada tijolo, a cor das cortinas no quarto do primeiro andar, e sei que a tinta dos caixilhos da janela da casa de banho está descascada e que faltam quatro telhas no telhado…»

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Rachel. 5 de Julho de 2013
«(…) Um sol magnífico, o céu azul, mas ninguém com quem os partilhar, nada que fazer. É mais difícil viver assim no Verão, da maneira como eu tenho vivido, quando os dias são tão longos, há tanta luz, tão pouca ajuda da noite, com toda a gente na rua a ser tão obviamente e tão agressivamente feliz. É esgotante, e faz-nos sentir ainda pior, por não nos podermos juntar à festa. Tenho todo o fim de semana pela frente, 48 horas vazias para matar. Levo a lata uma vez mais à boca, mas não sobra uma única gota.

… 8 de Julho de 2013
É tão bom estar de volta ao comboio das 8h04. Não estou propriamente desejosa de chegar a Londres para mais uma semana, não me apetece por aí além estar em Londres, aliás. Só quero recostar-me neste banco de veludo coçado, a sentir o calor do sol que entra pela janela, a sentir a carruagem a abanar para um lado e para o outro e para trás e para a frente, a cadência reconfortante das rodas nos carris. Prefiro muito mais estar aqui, a olhar para as casas junto à linha, do que em quase todos os lugares do mundo. Há um sinal avariado na linha, algures a meio da viagem. Presumo que esteja avariado, pelo menos, porque está praticamente sempre vermelho; temos de ficar ali parados na maioria das vezes, às vezes só uns segundos, outras vezes minutos a fio. Se eu me sentar na carruagem D, como faço normalmente, e se o comboio parar no sinal, como acontece quase sempre, tenho uma perspectiva perfeita para a minha casa preferida junto à linha: o n.º 15. O n.º 15 é muito parecido com o resto das casas ao longo deste troço da linha: uma vivenda vitoriana geminada, de dois pisos, com vista para o pequeno e bem-cuidado jardim das traseiras, 6 metros de terreno delimitados por uma cerca e depois mais uns metros de terra de ninguém à beira da linha do comboio. Conheço esta casa de cor e salteado. Conheço cada tijolo, a cor das cortinas no quarto do primeiro andar (beges, com um estampado azul-escuro), e sei que a tinta dos caixilhos da janela da casa de banho está descascada e que faltam quatro telhas no telhado do lado direito da casa.
Sei que, nas noites mais quentes de Verão, os moradores da casa, o Jason e a Jess, costumam saltar a janela de guilhotina para se sentarem no terraço improvisado por cima do alpendre da cozinha. Fazem um casal perfeito e luminoso. Ele tem o cabelo preto e um belo corpo, é forte, protector e bondoso. Têm uma gargalhada magnífica. Ela é uma daquelas mulheres pequeninas, uma boneca com a pele branquíssima e o cabelo louro bastante curto. Tem uma estrutura óssea que lhe permite esse género de corte, com as maçãs do rosto salientes salpicadas de sardas e um queixo bem desenhado. Procuro-os enquanto estamos parados no sinal vermelho. Principalmente no Verão, a Jess costuma estar lá fora de manhã, a beber café. Às vezes, quando a vejo ali, sinto que ela também me vê, sinto que ela também me observa e apetece-me acenar-lhe. Mas sou demasiado acanhada. Não costumo ver tanto o Jason, anda muitas vezes fora em trabalho. Porém, mesmo quando eles não estão lá, penso no que andarão a fazer. Talvez hoje de manhã tenham tirado um dia de folga, e ela esteja deitada na cama enquanto ele faz o pequeno-almoço, ou talvez tenham ido correr os dois juntos, porque é o género de coisa que eles fazem. (Dantes, o Tom e eu íamos correr os dois ao domingo, eu um pouco mais depressa do que a minha passada normal, o Tom a abrandar o seu ritmo, só para podermos correr lado a lado.) Talvez a Jess esteja lá em cima no quarto de hóspedes a pintar, ou talvez tenham ido tomar banho juntos, as mãos dela contra os azulejos, as mãos dele a apertarem-lhe as ancas.
Virando-me um pouco para a janela, de costas para o resto da carruagem, abro uma das pequenas garrafas de Chenin Blanc que comprei na Whistletop da estação de Euston. O vinho não está frio, mas vai ter de servir. Despejo dois dedos num copo de plástico, volto a atarraxar a tampa e enfio a garrafa na mala. Não é tão aceitável beber no comboio à segunda-feira, a não ser que tenhamos companhia, que não tenho. Há sempre caras conhecidas nestes comboios, gente que eu vejo todas as semanas, a irem e a virem de cá para lá. Reconheço-os como provavelmente me reconhecem a mim. Só não sei se me vêem mesmo, no entanto, tal como eu sou. Está uma tarde magnífica, quente, mas não demasiado, com o Sol a começar a descer preguiçosamente, as sombras alongando-se cada vez mais, a luz tingindo de ouro as folhas das árvores. O comboio chocalha acelerado, passando a correr pela casa do Jason e da Jess, quase indistinta à luz do final da tarde. Às vezes, raramente, consigo vê-los também deste lado da linha. Se não houver qualquer comboio a vir no outro sentido, e se formos suficientemente devagar, consigo ainda apanhar um vislumbre deles lá fora no terraço. Caso contrário, como hoje, posso sempre imaginá-los. A Jess há de estar sentada com os pés estendidos em cima da mesa no terraço, um copo de vinho na mão, o Jason atrás dela, de pé, com as mãos nos ombros da mulher». In Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio, 2015, tradução de José Leiria, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-880-054-1.

Cortesia de Topseller/JDACT

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Rapariga no Comboio. Paula Hawkins. «O comboio arrasta-se em frente; estremece por entre os armazéns e os reservatórios de água, pontes e barracões, passando por casas vitorianas modestas com as traseiras voltadas para a linha»

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«Ela está enterrada à sombra de uma bétula, ali junto aos velhos carris do comboio, com uma lápide a assinalar o túmulo. Não passa de um montículo de pedras, aliás. Eu não queria atrair atenções para a sua última morada, mas também não a poderia deixar sem lembrança. Há de descansar em paz ali, sem que alguém a venha perturbar, sem outra companhia além do canto dos pássaros e do troar dos comboios a passarem».

«Uma traz-nos dores; duas, alegrias, três, uma menina. Três, uma menina. E eu fico bloqueada no três, não consigo simplesmente passar daí. Tenho a cabeça cheia de ruídos, a boca empastada pelo sangue. Três, uma menina. Oiço as pegas a rirem-se, a fazerem troça de mim, com aqueles seus grasnidos roucos. Um presságio. Um mau presságio. Consigo vê-las agora, o preto recortado contra o sol. Não são as aves, é outra coisa qualquer. Vem aí alguém. Alguém está a falar comigo. Vê lá. Vê lá o que me obrigaste a fazer».

Rachel. 5 de Julho de 2013
«Há um monte de roupas ao lado dos carris do comboio. Um trapo azul-claro, uma camisa, talvez, misturado entre outros brancos encardidos. Provavelmente não passa de lixo, atiraram-no para aqui daquele pequeno bosque ao cimo da ribanceira. Ou podem-no ter deixado os homens que costumam andar a arranjar este troço da linha. Ou pode ser outra coisa qualquer. A minha mãe costumava dizer-me que eu tinha uma imaginação demasiado fértil; já o Tom dizia o mesmo. A culpa não é minha: basta-me ver uns farrapos largados, uma camisa suja ou um sapato abandonado e desato a pensar no outro sapato e nos pés que os terão calçado. O comboio sacode-se e chia e volta a arrancar, com o pequeno monte de roupas a desaparecer de vista, à medida que rolamos de novo a caminho de Londres em marcha lenta. Alguém atrás de mim solta um suspiro de desespero irritado; o comboio regional das 8h 04 consegue dar cabo da paciência até mesmo do passageiro mais cordial. A viagem deveria levar 54 minutos, mas raramente cumpre o horário: esta parte da linha está velha e decrépita, cheia de falhas de sinalização e obras intermináveis.
O comboio arrasta-se em frente; estremece por entre os armazéns e os reservatórios de água, pontes e barracões, passando por casas vitorianas modestas com as traseiras voltadas para a linha. Com a cabeça encostada à janela, fico a ver as casas a passarem por mim como num plano de um filme. Vejo-as como os outros não são capazes de as ver; provavelmente nem sequer os donos alguma vez as terão visto da minha perspectiva. Duas vezes ao dia, é-me oferecido um vislumbre das vidas dos outros, só por um instante. Há algo reconfortante em ver estranhos em segurança nas suas casas. Ouve-se o telemóvel de alguém a tocar, uma música incongruentemente alegre e animada. Demoram algum tempo a atender, e ela continua a soar e a cantarolar à minha volta. Consigo sentir os meus companheiros de viagem a remexerem-se nos bancos, a folhearem os jornais, a baterem nas teclas dos seus portáteis. O comboio dá uma guinada e inclina-se na curva, abrandando ao aproximar-se de um sinal vermelho. Tento não olhar para cima, tento ler apenas o jornal gratuito que me deram à entrada da estação, mas as palavras esborratam-se à frente dos meus olhos, não há nada que me prenda a atenção. Ainda consigo ver aquele pequeno monte de roupas na minha cabeça, atirado à beira da linha, completamente ao abandono.

O gin tónico de lata faz um barulho efervescente quando o aproximo da boca para dar um gole. Amargo e frio, o sabor das minhas primeiras férias com o Tom, naquela aldeia de pescadores na costa Basca, em 2005. De manhã nadávamos 800 metros até à pequena ilha no meio da baía, onde fazíamos amor nas praias desertas mais escondidas; de tarde sentávamo-nos na esplanada a beber gins tónicos gelados muito fortes, enquanto víamos os bandos de futebolistas de praia a disputarem jogos caóticos de 25 para 25 na areia molhada da maré baixa. Tomo outro gole, e mais outro; a lata já está meio vazia, mas é indiferente, tenho outras três no saco de plástico aos meus pés. É sexta-feira, por isso não tenho de me sentir culpada por estar a beber no comboio. Graças a Deus é sexta-feira. É quando a coisa se torna divertida.
Vai ser um belo fim de semana, é o que dizem. Um sol magnífico, o céu azul. Nos bons velhos tempos, íamos de carro até Corly Wood com um cesto de piquenique e os jornais, passávamos a tarde deitados num cobertor a aproveitar os raios de sol que atravessavam por entre as folhas das árvores, bebíamos vinho. Ou podíamos fazer um churrasco no quintal com os amigos, ou ir até ao The Rose e sentar-nos na esplanada a beber cerveja, com as caras rosadas do sol e do álcool, ao fim da tarde, antes de irmos para casa já tontos, de braço dado, para adormecermos os dois no sofá». In Paula Hawkins, A Rapariga no Comboio, 2015, tradução de José Leiria, Topseller, 20/20 Editora, 2015, ISBN 978-989-880-054-1.

Cortesia de Topseller/JDACT