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quarta-feira, 11 de março de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Deve haver por lá o resto da obra. Isto pertence a um monte de livros que vieram da França. Assim fiz. O tio Gil achava-se acompanhado por outro irmão…»

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A morte de Lancelot
«(…) Sentia o livro formar-se dentro de mim como um filho e passava os dias possuído por uma profunda e conturbada alegria, porque as dúvidas também me assaltavam. Estava no limbo, espécie de zona entre o sonho e a realidade, e movia-se dentro de mim como um feto no ventre de uma mulher. Era uma experiência nova. Obcecado pelo trabalho, falhei muitas vezes a mestre João Paz. Meu amigo alquimista copiou o que conseguiu. Que sonho é esse, rapaz? Estás absorto, pareces um fantasma, ou um velho meditabundo. Olhei-o. Se eu vos dissesse que tenho medo de não ter tempo, acreditáveis?, Ele sorriu. Acreditava. Sei o que isso é. Comigo, até eu aprender, foi a mesma coisa. Aquela necessidade de recuar dentro da nossa própria alma. É isso. Mas como foi possível aprender? Como? Terás tempo, o teu tempo, e aprenderás. Essa é a única coisa que te não posso ensinar. Agora vai ter com o teu tio e pede-lhe que alguém te ajude. Deve haver por lá o resto da obra. Isto pertence a um monte de livros que vieram da França. Assim fiz. O tio Gil achava-se acompanhado por outro irmão, talvez um pouco mais velho, de forte compleição, louro como eu, mas de olhos castanhos. Olha, filho, aqui tens o irmão Jerónimo. Veio de longe. Da Palestina. Vai ficar connosco por uns tempos. O irmão Jerónimo que parecia ocupar toda a cela, sorriu e apontou o grosso livro que eu embrulhara em pano e apertava sob o braço: precisas certamente de qualquer coisa, filho. Foi sempre a frase com que me recebeu, até há pouco tempo, quando me despedi dele. Com o apoio do tio Gil, mostrei o livro. Eu ajudo-te. Tens aqui um futuro sábio?, perguntou o meu tio. Ainda és muito novo, mas é de novo que se começa a aprender a arte e o caminho para a sabedoria. Vem ter comigo um dia destes, à biblioteca. Também estou a escrever. Uma encomenda. Para a Itália, para a casa de nossos irmãos no Norte de Itália. Continuei o trabalho durante todo esse ano até meados de Março de 1479. Resolvera festejar o meu aniversário na cela do tio Gil onde estariam também meu pai e minha mãe, além de mestre João Paz, homem culto e muito inteligente, de uma coruscante sagacidade. Eu iria ler-lhe os primeiros capítulos da obra iniciada. Fui combinar tudo para fazer surpresa a meu pai. Três dias depois, mestre João Paz chamou-me. Íamos partir para sul, ter com a mãe da Rainha. Um dos filhos não estava bem e o físico que por lá vivia não atinava com a febre. Fui contrariado, mas o trabalho exigia. Quando chegámos, deparou-se-nos uma azáfama inusitada. Uma das açafatas informou-nos de que a Infanta partia para Espanha. Que tomássemos conta do enfermo, o jovem Manuel.
Tanto a rainha Isabel de Castela como o príncipe João, pois o rei Afonso limitava-se a aceder, depois de perdidas as verdadeiras ilusões, desejavam concertar a paz. Dona. Beatriz, que era tia da rainha por parte de sua mãe, depois do infante João ter estado em secreto colóquio com a sogra na sua quinta de Belas, onde a viúva do infante Fernando passava longas temporadas, resolvera ajudar e, como se se tratasse de uma visita de cortesia (como instava, do outro lado, aliás, dona Isabel) encontrar-se com a esperta mulher de Fernando de Aragão. Seria em Alcântara, na zona fronteiriça. Para o efeito, dona Beatriz foi até ao seu paço de Beja preparar-se e organizar a cansativa viagem. Existia uma peça essencial neste jogo complicado de forças: a infeliz Beltraneja, a dona Joana que o próprio pai desacreditara, e que ingenuamente ainda assinava yo la Reyna, e se intitulava rainha de Castela, de Leão, de Portugal como herdeira de Henrique IV e esposa de Afonso de Portugal... La Chica, como se lhe referia Isabel de Castela, com o sorriso depreciativo dos que podem decidir, porque têm meios e força, o destino dos outros sem preconceitos nem hesitações. E Isabel estava decidida a crucificá-la. Em Beja, para onde seguimos no dorso de mulas, depois de várias paragens por hospedarias miseráveis onde dormíamos sobre enxergas coalhadas de percevejos, a ponto de colocar água à volta dos paus da cama que serviam de pés, pois as baratas e os percevejos percorriam o sobrado aos milhares, e sempre com um de nós de guarda por causa
das rapinas, fomos ver o jovem Manuel. O outro físico e mestre João lá se entenderam porque nisto de profissão não se deve arranjar problemas, mas colaborar...» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Há nas nossas vidas momentos aparentemente banais que determinam um destino ou parte dele. Foi num momento assim que conheci mestre João Paz»

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A morte de Lancelot
«(…) Em Toro ficara a cuidar da rainha dona Joana que depositara nele a sua defesa se a guerra se perdesse para Portugal. Tinha um incomensurável poder, a sua Casa aqui, em Castela, em Navarra e Aragão. Afonso compensou o filho com rendas, doações de terras, fortalezas, como Penamacor e o seu castelo, a alfândega de Setúbal, Mourão, Portalegre e Alegrete. Depois, a dízima das rendas de além-mar e o tributo dos mouros do Algarve e Marrocos. O pai, extasiado, perante a boa vontade do filho que lhe entregara nas mãos, de novo, o seu Reino bem-amado! Foi no ano em que morreu o Rei de Aragão e o marido de Isabel de Castela herdou o trono de seu pacífico pai, que foi o grande protector dos Judeus no seu tempo, e ainda os direitos sobre a Sardenha e as pretensões dinásticas sobre Nápoles e a Sicília. E João pensava: é preciso agir. E assim fez porque o Rei, de repente, após ter recebido uma embaixada de Castela, de fidalgos opositores a Isabel, começara novamente, cheio de sonhos miríficos, a pensar, como se nada anteriormente se tivesse passado nova aventura bélica para apoiar as frágeis pretensões da sobrinha Joana, que passara a ser conhecida como Excelente Senhora, no Reino de Portugal. Mas João estava alerta e Afonso, que se refugiava cada vez mais no seu retiro do Varatojo, não conseguiu o apoio do filho. Foi mais uma chaga que teve de sarar à sua custa, se é que a sarou ou ela seria para sarar, pois perdera toda a força perante a inteligente e arguta serenidade daquele jovem que o olhava com ternura, mas passara a manobra-lo à sua vontade.

Há nas nossas vidas momentos aparentemente banais que determinam um destino ou parte dele. Foi num momento assim que conheci mestre João Paz. Foi bom porque me tornei seu secretário, o cirurgião a seu serviço, com o apoio da família, pois descobrimos, o nosso parentesco. Ele baptizou-se com a mulher e o irmão, Ambrosius de nome como eu, que passara a residir no Porto. Tinha filhos que mais tarde mestre João adoptou. João Paz recebeu o apelido que o Príncipe lhe conferiu dada a sua devoção a Nossa Senhora da Paz. A mulher também aceitou o baptismo e recebeu o nome da mãe do Príncipe, Isabel. Foi por essa altura que Afonso o deu como médico ao filho e à nora, e foi por esse tempo também que a princesa dona Leonor o indicou para físico do seu jovem irmão Diogo. Sabia que João Paz nunca vivera na judiaria e, como homem conceituado e protegido da casa Real, teve sempre direito a habitação própria na cidade, perto da de Abravanel, morando parte do tempo com os Príncipes que servia, e na casa dos Bragança. Chegou a deslocar-se a Beja, onde cuidava de dona Beatriz e dos filhos, e a Vila Viçosa. As suas relações com a casa de Bragança nunca esmoreceram. Foi já pouco antes de Setembro de 1478, recordo-me perfeitamente, que, numa tarde muito quente, no intervalo de meus afazeres, na cera do tio Gil, conheci também outro dos mais puros homens que o destino fez cruzar com o meu e do qual me separei com desgosto, verdadeira consternação.
Trabalhava com afinco no meu livro. A cópia que meu tio Gil encontrara era um pedaço de um trecho de Plutarco sobre Alexandre. Um monge tinha raspado o pergaminho na oficina de um qualquer mosteiro e outro escrevera, por cima, a história dos mártires de Lyon. Mestre Tadeu retirou o que pôde da pele e começou a limpá-la com o auxílio de um líquido que ele guardava numa ampola de vidro azulado. Agora copia-se o que puderes e depressa, cabritinho! Porquê? Extasiado olhava-o a trabalhar. Terei de pedir a alguém. Não sei Grego. Não faz mal. Eu sei. De resto este texto parece uma cópia grega com poucos séculos. Como conseguiu? Com um ácido que eu retirei de uma espécie de noz. Mas não podes demorar muito tempo pois isto vai ficar tudo negro. De repente, ante meu olhar deslumbrado, começava a aparecer a cor avermelhada dos caracteres antigos. É um milagre, proferi, em êxtase. Não, Ambrosius, o seu rosto, muito sério, voltou-se para mim. Não é um milagre. É muito simples. Desde a antiguidade romana e grega que isto se faz. Só parece milagre o que o nosso espírito não pode ainda explicar. Mas isso é uma heresia! E é. É heresia para os néscios, os mal-intencionados, os fanáticos. A verdade é sempre simples e o tempo irá conceder-te também, se o quiseres, claro, esse dom da sabedoria. A simplicidade das grandes verdades, das grandes descobertas». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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domingo, 16 de fevereiro de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Pelo início do ano seguinte o duque de Bragança, o filho do rancoroso e velho Barcelos, adoeceu gravemente. Não era antipático. Até boa pessoa, pois não herdara o feitio cruel e conflituoso do pai…»

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A morte de Lancelot
«(…) Todas as qualidades que não servem em política. Acusaram-no, os Braganças, de desejar a morte do pai, até de o ter envenenado, como em Castela anunciou bem alto, depois do drama de Évora, o Montemor. Não creio. Que ele amava o pai é indiscutível. Eu sei. Todos o sabem e Antão Faria, Pina, Resende, a irmã, a tia Filipa que ele visitava amiúde para ouvir falar da mãe e do avô, confirmaram-no sempre. Mas queria o poder. É justo. É normal. Desejava ardentemente testar as suas capacidades e reformar as estruturas judicial, administrativa, económica, política do seu país. Com o pai vivo, isso seria impossível. A extensão do império colonial exigia uma gigantesca tarefa, uma nova concepção do poder real, a centralização das forças vivas da nação nas mãos do Monarca. Com Afonso isso seria completamente inviável, fora de questão. Nem mesmo reria compreendido. A força colocada nas mãos do Rei torná-lo-ia forte para a defesa da nação e das classes populares. João compreendeu cedo que por inimigos, como o avô, tinha apenas a alta nobreza, o que sucedia, aliás, em todo o lado e a França, com a labiríntica acção política daquele Rei Luís, que comera as papas na cabeça do seu pai, era bem um exemplo típico... Com João passou-se o que acontece no choque inevitável entre os filhos e os pais, por muito que estes sejam amados. Geralmente na doença, numa prolongada doença. Por mais amor que exista, a velhice é cansativa e cruel e, por muito que os filhos amem os progenitores, um dia, embora receiem esse terrível momento, também anseiam por ficar livres. A liberdade ganha-se sempre à custa de qualquer coisa. João sabia-o, como compreendia que a fraqueza do pai era a grande doença mortal daquele homem de quarenta e cinco anos, prematuramente envelhecido. Castela e Aragão continuavam a fazer escoar o que restava do erário público numa guerra sem fim. As Coroas de Portugal e Castela seriam unidas sob a égide de Portugal, mas isso levaria tempo e, no meio da questão, além disso tudo, estava aquele pai Rei, inconsciente de seus deveres, cavaleiro de eras devolutas, num mundo em mudança, inexorável e cruel. Ora a missão do Rei é divina e consiste na defesa intransigente do seu povo, da pátria, da nação. Não iria afastar-se nunca dessa missão. Sei tudo o que ele pensou. Só lamento que nesse jogo terrível estivesse, a partir de determinada altura, comprometida a minha alma pelo amor e o desespero.
Logo em Janeiro de 1471, nas Cortes de Montemor, o Príncipe explanara a necessidade da geral reformação do Estado. A carta do pai punha-o num dilema. Enviou o seu querido Antão Faria a França, em sigilo. A decepção do Rei e os seus desgostos convenceram o fiel camareiro do Príncipe... O duque de Bragança opunha-se à abdicação e, com ele, toda a nobreza, mas o Rei decidira e tinha-se de lhe obedecer, pois assim era a realidade de momento.
João é aclamado em Santarém, no Paço de São Francisco, em Novembro. O Rei não voltaria. A nobreza amava Afonso e o povo também, por motivos diferentes, mas o Rei era generoso e a todos custava o desfecho. Â 14 de Novembro Afonso escreve ao filho de França. Volto para Portugal, regresso ao Reino. Mais uma vez a nobreza, em terra estrangeira, aconselhara-o ao volta-face. O filho, como sempre, nada disse. Não acredito que se tenha aconselhado com ninguém. O que correu por aí (lá no Reino) foi que ele perguntara ao Bragança como o deveria receber, ao pai, e ele lhe respondera rispidamente: como quereis que o seja? Como pai e como Rei! João não perguntou, até porque não valia a pena. Conhecia as respostas e sabia melhor que ninguém que não poderia jamais impor o seu programa político com o pai vivo a custodiar a nobreza. Afonso abraçou-o comovido, à chegada, em Oeiras, e ficou encantado quando o filho, ajoelhado, recusou a coroa e até a divisão, pois Afonso propôs ficar Rei dos Algarves apenas. Tudo voltava à mesma com a diferença de que era necessário fazer a paz com Castela.
Pelo início do ano seguinte o duque de Bragança, o filho do rancoroso e velho Barcelos, adoeceu gravemente. Não era antipático. Até boa pessoa, pois não herdara o feitio cruel e conflituoso do pai, mas adoeceu e perderam-se as esperanças de o salvar. Sangraram-no até ficar exangue, discutiram, fizeram-no emborcar mezinhas... Nada feito. Sobreveio-lhe uma apoplexia que o deixara desfeito mentalmente. As sangrias já de nada lhe valiam. Tinha setenta e cinco anos de idade e por lá se finou, em Vila Viçosa, no primeiro dia de Abril. Foi pintado também, então homem mais novo, dos seus sessenta anos, nuns painéis que estavam na Catedral ou no Convento de S. Vicente, já não recordo bem, que estiveram alguns meses a ser pintados no armazém do município por ordem de El Rei Afonso e onde quis que ficassem gravados seus familiares e figuras gradas do Reino. Recordo-me do velho Duque. Com o seu rosto queimado pelo sol do Alentejo, o bigodão ainda preto e um certo ar de bonomia, apesar do olhar pesado e escuro. O filho, cunhado do Príncipe, tinha então quarenta e oito anos. Estivera com Afonso em todos os grandes momentos do Reino». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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domingo, 2 de dezembro de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Entretanto chegavam cartas de Lisboa a pedir o regresso do Soberano... Mas em simultâneo, em Lisboa, era recebida a carta de abdicação e o filho…»

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A morte de Lancelot
«(…) Nunca se sentira tão infeliz na vida. Agora, longe do solo pátrio, aterrorizado, levava dias a rezar como se isso pudesse restaurar-lhe a confiança em si próprio e na sua pobre alma partida onde sir Galaad e Lancelor dormiam o pesado sono da morte, porque o cavaleiro que julgara ser e o Rei que se orgulhara da sua missão tinham expirado em terras de França. Quando Deus, enfim, levasse a sua alma, ela estaria pronta para percorrer as novas paragens. Era apenas uma questão de tempo. Assim pensava e o confessava, com lágrimas nos olhos, aos seus companheiros, mirando o Sol nascente daquele Outubro frio, o mesmo Sol que fazia refulgir os telhados, as muralhas e as colinas em redor da sua Jerusalém ansiada onde desejava acabar a sua peregrinação, o seu caminho de sofrimento e aprendizagem.

De Alcântara a Alcáçovas pelo Bem do Mundo
João prosseguia, porque as circunstâncias a isso o obrigavam a guerra, a guerra de defesa, enquanto o pai abdicava de tudo, perdido em terras de França, desaparecendo, como um garoto, de sob a tutela paterna ou familiar, e assim o conseguiu uma vez, até que gente do Rei de França o foi encontrar num albergue miserável. Monsieur de Lébret apanhara um tremendo susto pois pensou que algo de terrível teria acontecido ao infortunado Rei português, cada vez mais instável no seu juízo e nas suas emoções. Os portugueses que acompanhavam o Rei achavam-se perfeitamente perdidos de aflição e pouco ajudavam, pois um dos criados do Rei trouxera-lhes uma carta onde Afonso informava que partia para Jerusalém. Sozinho, pelas estradas, tal um pedinte, o neto de Filipa de Lencastre, arrostando com intempéries, a fome, os salteadores... Lá o encontraram numa aldeia, onde se acolhera e já se deitara. Um tal Leboeuf foi quem o achou, acordou-o, pôs-se de guarda à estalagem e mandou avisar os portugueses. O conde de Penamacor, mais morto que vivo, acorreu e trouxe o desalentado Monarca. Entretanto chegavam cartas de Lisboa a pedir o regresso do Soberano...
Mas em simultâneo, em Lisboa, era recebida a carta de abdicação e o filho, interdito, como foi seu costume toda a vida, recolheu-se a meditar sobre a missiva. Guardou segredo até se decidir. Quando se decidia, pedia conselho. Era um método de trabalho como outro qualquer porque o conselho de nada servia. Só ele decidia e punha na mesa as pedras do jogo que sempre entendeu pôr. Não lhe levo a mal. Quando se deseja ordenar o mundo é assim que se faz. E um homem que, aos vinte anos, decide criar um império, tem de arrumar a casa primeiro. Aquele tempo de aprendizagem retirara-lhe muitas dúvidas, concedera-lhe as certezas possíveis, mas aplainara-lhe o difícil caminho que teria de percorrer. João era por de mais inteligente e lúcido e percebeu que o pai apenas servia para entravar-lhe o caminho nos negócios públicos, um inepto do ponto de vista político, embora um incapaz bem-intencionado, puro honesto». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «A resposta de Roma ao casamento não foi satisfatória. O Rei não percebia nada de política e o Príncipe compreendia que o Papa, que estava de boas relações com a França e com Isabel de Castela e o marido»

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A morte de Lancelot
«(…) Evidentemente que o Rei português, apesar de tudo, achou toda a conversação positiva, agradável, e saiu muito esperançado perante o olhar arguto do outro. Até se foi, em Dezembro, encontrar com o primo Carlos. A Casa de Borgonha achava-se nos espasmos finais, em estado de agonia, e Afonso não previra nunca isso. Nem ele nem ninguém. E o Duque avisou o primo que o outro, o Raposão, o intrujara. Ele apenas se divertira à custa do Africano, o herói da longínqua Arzila, de Tânger, o tal do Reino dos Algarves d'Aquém e Além Mar! O pobre Afonso soube logo em Janeiro, uns dias depois, que enquanto ele acreditara no Rei de França, este enviava-o para mediador e simultaneamente mandava reforços, um exército, para auxiliar o fim de Carlos e da Borgonha! O primo, esse, tivera a sorte do tio em Alfarrobeira. Pior sorte. Ficara em Nancy e o corpo, no meio do seu exército desbaratado, entregue à intempérie e à gula dos lobos que o devoraram em parte. Foi encontrado dois dias depois do desastre. O duque de Lorena vencera o filho de Isabel de Borgonha, o neto de João I de Portugal. O desastre arrastava a Casa de Borgonha, a bolsa florentina de Bruges, que os Médicis exploravam, e as esperanças do infeliz Rei de Portugal. Carlos, esse, não teve como o tio Pedro, quem chorasse por si e intercedesse junto do Papa pelos seus ossos aqui, em Portugal, como a mãe fizera pelos do irmão. O Rei Luís estava demasiado satisfeito para se importunar com o nefelibata Afonso de Portugal. Recebia, este, notícias de Portugal e sabia o filho aflito por falta de dinheiro. Sem dúvida a sua administração, a guerra, as suas loucuras e dissipações arrastavam o Reino para uma situação difícil que o rapaz era obrigado a solucionar.
A resposta de Roma ao casamento não foi satisfatória. O Rei não percebia nada de política e o Príncipe compreendia que o Papa, que estava de boas relações com a França e com Isabel de Castela e o marido, não teria intenções de promover a discórdia para as bandas do Ocidente... O Rei Luís XI, inclusivamente, deixou de o tratar com a dignidade que lhe cabia, como o demonstrara em Arras. Praticamente o despediu, apressado e impaciente, embora com frases de melíflua complacência. Só lhe restava partir para Honfleur e regressar a Portugal. O pobre imbecil (as más línguas afirmavam que assim se lhe referira Luís XI) ainda teve um breve movimento de revolta. Partiu, sim, mas para longe! Ele iria entrar em religião, visitar a Terra Santa, abdicar. Morrer por morrer, só em Jerusalém. Como cantara o seu astrólogo judeu, o Guedelha, aquele esperto judeu amigo do Abravanel (mas este era um Príncipe, claro!, descendente da Casa de David!): oh Jerusalém, oh, Jerusalém de Ouro, se eu te esquecer que o Senhor retire a luz dos meus olhos e a paz ao meu coração! Persignou-se.
Aqueles eternos Judeus sempre a falar da Cidade do Senhor como se lhes pertencesse, a Cidade Santa, onde o tinham crucificado e cuspido na sua face! Mas eram belas aquelas frases e mestre Guedelha fora sempre um homem culto, inteligente e fiel. A sua decisão estava tomada. Não voltaria atrás. Talvez nesse instante se tenha recordado do tio que visitara Jerusalém e descansara à sombra do que restava do velho templo. Seria, da família, o segundo a pisar as suas ruas por onde as legiões romanas tinham marchado no passado longínquo e, mais tarde, outros também, porque o tempo não pára de deslizar sob os nossos pés indiferente, quantas vezes, ao nosso destino. Portanto, para Jerusalém! De França escreve uma carta, em Setembro, destinada ao filho e onde anuncia a sua abdicação». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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sexta-feira, 30 de novembro de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Não sei quando o Príncipe teve tempo de a encontrar de novo, mas não a esquecera. Não conheço, igualmente, o que pensou a mulher do Príncipe, dona Leonor, jovem também…»

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A morte de Lancelot
«(…) Mas Carlos é meu primo! É uma questão de família! Vou falar com ele e servir de embaixador, de mediador entre Borgonha e a França! E lá foi, em Agosto, cheio de esperança, depois de abraçar a família, os amigos, a mulher-criança e entregar o Governo, mais uma vez, ao Príncipe herdeiro. Era a derradeira etapa da sua desilusão, o fim do sonho do Lancelot de Portugal.

Dona Ana Mendonça veio no séquito da jovem Rainha para Portugal. Não sei quando o Príncipe teve tempo de a encontrar de novo, mas não a esquecera. Não conheço, igualmente, o que pensou a mulher do Príncipe, dona Leonor, jovem também, e apaixonada pelo marido. Ou não? Ao longo de toda a vida sei que o Rei esteve sempre ligado à mulher, à Rainha. Conheço até a sua dor se ela adoecia e a dor que ambos partilharam quando o destino lhes foi adverso, mas duvido que ela o tenha amado. Eu experimentei essa espécie de união e a outra não precisa de leis, normas, regras, a que marca definitivamente uma vida e, se o não faz até à morte, porque nada é eterno, deixa a sua marca funda em nós durante grande parte da nossa existência.
Não sei o que dona Leonor sentia pelo marido, no início, mas talvez fosse amor. No fim das suas vidas conheci melhor os seus sentimentos e sei que o ódio foi mais forte e o ódio é muitas vezes, também, a outra face de um grande amor. Dona Ana e João devem ter-se visto entre o regresso de Castela e o Outono de 1480, quando decidiram viver os dois a sua terna aventura em Cernache do Bonjardim, mas tudo se estabeleceu no silêncio do segredo, na discrição e na etiqueta da Corte que rodeava dona Joana. Nada transpirava. De resto, eram os admiráveis anos de aprendizagem do Príncipe. Quatro anos de admirável estudo e aprendizagem. Em França, o pai talhava com a sua proverbial imperícia o seu infeliz destino e o filho, por cá, governava o Reino e meditava, como o viu, mais velho, centenas de vezes, o bom do Resende (sempre gordo e reboludo, aquele simpático servidor de toda a gente, dos Reis, quero eu dizer, sejam eles quais forem), como o viu, ao Homem, pensativo, às vezes até triste pelas decisões que era obrigado a tomar, a organizar a vida dele, a do Reino, a do mundo, em frente do seu tabuleiro de xadrez, já longe dos amores, da paixão arrebatadora da carne, dos sentidos, na missão sagrada que o poder confere e que se não pode trair ou falhar.
A partida do Rei, que desceu no porto de Collioure, pressupunha o governo do Príncipe sem obstáculos, mas o jovem percebeu que ficavam no Reino, e disso deviam ter convencido o Monarca, Jorge Costa e o Bragança. É evidente que se devem ter prontificado a auxiliar o Regente enquanto o pai tratava da sua espinhosa missão... O cardeal, homem inteligente, deve ter percebido logo que a viagem do filho do eloquente Duarte I de santa memória seria infrutífera. O Bragança, não sei. Era demasiado terra a terra nas suas concepções políticas, de estado, para atingir um tal discernimento. Homem de terras, senhor de grande poder, homem do século devoluto como o pai e o avô, criado na velha tradição. Ao Príncipe, se não disse nada, não agradaram aquelas duas fastidiosas presenças. Compreendeu perfeitamente que apenas lhe serviam de censores, embora disfarçados, pois apenas queriam controlar as acções de alguém que adivinhavam adverso à sua causa.
Antes de Novembro, em Tours, o Rei Afonso de Portugal, que nunca estivera em local tão frígido, num Inverno, não teve esperanças de se encontrar face a face com o seu colega francês! Vira parte da bela França, os seus castelos, as cidades, e observara, com a devota atenção de um estudioso, os livros iluminados de Lanzarote e de Tristão. Finalmente, ricamente vestido, com o fausto comum à Corte portuguesa, Afonso lá se achou no vasto salão de recepção onde certamente ficou espantado com a ridícula e enfezada figura daquele rei literalmente atabafado em roupas, pálido mas com duas rodelas nas flácidas e magras bochechas, como os bêbedos, de nariz comprido e fonte grossa e arredondada e com chapéu sob o qual ainda usava dois capuchos e um barrete. Afonso não era um belo homem, estava prematuramente envelhecido, mas perante aquele ser de aparência mesquinha, era imponente. Tudo no outro era vulgar, ordinário, de má qualidade, menos a inteligência, a sagacidade de raposa, a sua astúcia.
O pobre Afonso de Portugal apenas recebeu promessas e esqueceu-se que só se negoceia em condições idênticas, senão um é o pedinte e o outro, o que regateia tudo, até a vida do que solicita, se for preciso. A fama do Rei de França chegou até nós, a toda a Europa. Afonso de Portugal perdeu mais essa batalha. Quantas mais crises e divisões na Península tanto melhor para o cristianíssimo Rei Luís... Divide et Impera já o escrevera Júlio César». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «… Carlos, que até também era português, diziam seus amigos, no feitio temerário e na cor dos cabelos, da tez, na compleição... Afonso não aprendera»

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A morte de Lancelot
«(…) Afonso protegeu o castelo e preparava-se para a batalha final. Formou três corpos com os seus homens: à esquerda estavam as tropas do arcebispo de Toledo, do duque de Guimarães e do conde de Vila Real, no centro, os homens chefiados pelo próprio Monarca; à direita, com a tropa mais adestrada, o Príncipe João. A batalha não foi ganha por ninguém, a não ser pela ala do Príncipe. Depois de uma renhida chacina de parte a parte, apenas o corpo de exército do Príncipe foi vencedor e desbaratou o inimigo. O rei Afonso deu ordem de recuo e, aterrorizado perante a extensão do que julgava ser o fim das ilusões e do conflito militar, fugiu para Castro Nuño. Os castelhanos debandaram também, mas clamando vitória que, aliás, entre eles e Afonso fora impossível, porque empatavam no mútuo desastre. Só o Príncipe ficou em campo, sereno, e preparou-se para os três dias da praxe, tomando o espólio, usufruindo do saque mais os seus homens. A verdade é que Fernando de Aragão assistira, impotente e indefeso, ao recuo da sua vanguarda perante o futuro Rei de Portugal e, por isso, abandonou também o campo, os seus homens, e regressou a Zamora.
A chuva caía numa densa cortina, mas o Príncipe continuou no campo, juntando os seus homens. Acendeu fogueiras e mandou tocar a festejar a vitória. Os tambores ecoavam pela planura como um canto vindo das profundezas da terra. O arcebispo de Toledo aconselhou-o a não permanecer tanto tempo. Não três dias. Bastavam três horas. Ele ficou parte da noite. Não o denotava, mas estava preocupado. Que acontecera ao pai? Gonçalo Pires entregou-lhe a bandeira real que Duarte Almeida, de coutos ensanguentados, ainda agarrava nos dentes, tendo ficado prisioneiro. Em Toro não se achava o Rei. Todos se lamentavam. E foi então que o conde de Guimarães, futuro duque de Bragança, pois o pai só morreu dois anos mais tarde, o increpou violentamente: podiam eles chamar-se cavaleiros? Vós que abandonastes vosso Rei e Senhor? João não reagiu. Ficou a olhá-lo e os olhos negros, que pareciam deitar lume, apenas se raiaram de vermelho. Muito circunspecto, acalmou-o e não respondeu directamente ao remoque. Mas não esqueceu. Depois souberam que tudo estava bem e o Rei salvo e de saúde.

O futuro duque fizera mal em atacar o Príncipe, pois fora injusto, mas não era tempo de quezílias. O problema, em rermos políticos, resolvera-se de forma inegavelmente positiva para Aragão e Castela. O Príncipe compreendia que a união das duas Coroas não podia ser consumada pela guerra, mas pela diplomacia e pela ciência política, e custava-lhe ver o pai perder todo o prestígio de uma vida de guerreiro e defensor da Fé que conseguira em África. Do lado de Castela todos lhe viravam as costas... O duque de Arévalo e os outros. As incursões de pirataria em território nacional continuavam e, por outro lado, a rapacidade dos nobres portugueses avolumava-se. O Rei não teria coragem de lhes recusar nada. Por isso lá conseguiu do pai um documento em que este prometia contenção nas doações e autorizava o Príncipe a decidir segundo seu parecer, se caísse em tentação...
João regressa a Portugal. Deve ter deixado o Rei como um pai larga o filho em terra estrangeira. Estava-se na Páscoa e só em Junho Afonso cruzou a fronteira e entrou em terra portuguesa. Isabel de Castela e o marido também tinham compreendido que o grande jogo não se faria já com o infeliz e confiante Afonso, mas com aquele seu filho, o primo reservado, calado, de olhar severo e voz fanhosa. O Monarca, entretanto, enviara cartas para França a pedir auxílio ao astuto Rei Luís, e Álvaro Ataíde regressava da sua missão, felicíssimo. Novamente o pai de João, impante de alegria, preparou-se para viajar até à Corte do raposão que afirmara ao embaixador português que tudo faria logo que as coisas, se resolvessem com o opositor, o duque de Borgonha, aquele determinado e teimoso (saía à mãe portuguesa) Carlos, que até também era português, diziam seus amigos, no feitio temerário e na cor dos cabelos, da tez, na compleição... Afonso não aprendera. Jamais aprenderia. Eterno menino crescido, agora calvo, de barbas sulcadas de fios de prata, não aprenderia nunca que em política nada se resolve com simplicidade». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Os exércitos sabiam que a batalha estava para breve e seria ali, perto do castelo onde se refugiavam o Rei de Portugal, a Rainha, o Príncipe e seus partidários»

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A morte de Lancelot
«(…) Saqueando e violando como bárbaros. O Príncipe, numa noite, com um punhado de bons soldados, teve de tomar de assalto Ouguela, ao pé de Estremoz, que um contingente castelhano conquistara... Afonso escreveu uma carta ao filho, pedindo-lhe auxílio e marcando-lhe um encontro em Zamora. Em Miranda do Douro, o herdeiro da coroa, em vez da escolta prometida pelo pai, tinha à sua espera Vasco Martins Chichorro, capitão da guarda real. Por Deus, não avançasse! Dois alcaides traidores tinham prometido a Fernando e Isabel prendê-lo como refém! A traição fora descoberta pelo Rei em Zamora e este tentara liquidar os dois traidores. Em vão, entrincheirados, junto à ponte, os castelhanos ainda dizimaram mais portugueses! A cidade berrava traição!, todos corriam, discutiam, a paz perdera-se, a histeria instalava-se e o Rei e a Rainha, no meio da confusão geral dos populares em desvario e dos conselheiros, não sabiam o que fazer. Dona Joana olhava, atónita, aquele gordo tio e marido, indeciso, desesperado, impotente como um bebé, perante o descalabro que se avizinhava. Portanto, se a traição imperava, era preferível seguir dali para o castelo de Toro, para redobrada segurança, aconselhou o arcebispo de Toledo. E assim se fez, embora isso provocasse o desalento nas próprias hostes partidárias do lado castelhano, que desejavam manter Afonso em Zamora...
O Príncipe achou que era de mais e não podia consentir em ver o pai numa tal situação pela sua honra e dignidade. Foi à Guarda. Convocou as cortes. Precisava de gente e dinheiro para atravessar a fronteira. Conseguiu-o com empréstimos, inclusive dos eclesiásticos, e a prata das igrejas. Claro que assistiu ao saque que os fidalgos fizeram, aproveitando-se da situação..., mas não era tempo para censuras e dialécticas de tom moral. O tempo urgia. Estava-se a 24 de Janeiro de 1476. Deixou a regência à mulher, dona Leonor. Entretanto, recebia notícia de um primo, Carlos de Borgonha, que começava também, com as suas ambições, a declinar: os franceses preparavam-se para o vencer no duelo de vida e de morte que se estabeleceu entre a sua Liga do Bem Público e a Coroa francesa. No início de Fevereiro chega a Toro. Levava consigo um exército de emergência, mas coeso e disciplinado. Saqueou San Felices, entrou em Ledesma, que se lhe entregou, e reabasteceu-se. Quando chegou junto do pai, a esperança voltou e o Monarca revigorou-se, parecia mais novo, cheio de sonhos como uma criança que alcança o aconchego do lar, no colo protector da mãe. E a verdade é que o filho passara a ser a mãe e o pai do Rei português. Passara a ser tudo. A madrasta, jovem e alegre, abraçou-o como salvador, no meio das suas damas, algumas tão jovens como ela. João olhou uma que o fixou também e que não mais iria esquecer. Era filha de Afonso Furtado Mendonça e, como açafata da Rainha, acompanhara-a a Toro. Descendente de subida linhagem, muito grácil e bonita, agradou ao Príncipe que, pela primeira vez, se sentiu enfeitiçado, experimentando o fulgor de um sentimento que desconhecera até então, mas havia trabalho a fazer. E trabalho inadiável.
O Inverno era duro e, nas tendas, os soldados tiritavam. O rei Afonso tentou reconquistar Zamora, depois de negociações que não se concluíram. Chegou a Toro praticamente seguido pelas tropas de Fernando, que o espiavam. Os soldados não conseguiam manter as tendas secas nem, muitas vezes, de pé, devido à ventania. A chuva caía, insistente, gelada. Os exércitos sabiam que a batalha estava para breve e seria ali, perto do castelo onde se refugiavam o Rei de Portugal, a Rainha, o Príncipe e seus partidários. E assim aconteceu numa terrível tarde de nevoeiro, chuva, frio, onde homens e cavalos se enterravam no lamaçal pegajoso por entre os rasteiros arbustos». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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quinta-feira, 29 de novembro de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «O grande homem das conquistas africanas veria a sua estrela empalidecer nos ermos agrestes de Castela. Depois, pueril e sempre pusilânime, incapaz de uma decisão pensada…»

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A morte de Lancelot
«(…) Que desejariam eles, nascidos perto do mar, alguns mesmo com o Atlântico a beijar-lhes o corpo crestado do sol, na pesca, ou sobre as tábuas das naus, quando num ou noutro arremedo de aventura, tinham andado pelo mar, senão o chamamento do oceano e dessedentar-se nas soberbas e copiosas planuras verdes, sonhando com ilhas ricas e férteis que os esperavam?... São sempre os sonhos de quem sofre na carne o jugo das opostas realidades nos momentos de sofrimento e desânimo. As orações dos intervenientes na campanha e as de dona Filipa em Odivelas, certamente, por aquele primo Rei que lhe matara o pai mas já estaria perdoado porque não fora a raiz e razão do Mal que o levara, de nada serviram ao Rei. Dona Leonor, a nora, rezava também enquanto se entretinha com o filho que era o enlevo dos seus olhos e dos do pai. Em Aveiro, dona Joana seguia os acontecimentos através de informadores que lhe referiam as novidades dos correios que singravam entre Placência, Toro, Burgos, Samora e Lisboa, rezava também para que o pai levasse a bom termo a guerra, tal como sucedia em todo o reino, mas as coisas complicavam-se. Dona Joana, mirando uma das iluminuras do livro de horas que pertencera ao avô, os olhos fixos na imagem da virgem, lia Ave gratia dominus tecum, e naquela tocante cena da Anunciação devia inspirar-se para uma oração muito especial à Mãe do Salvador por aquele pai adorado, bonacheirão e audaz, tão audaz nos seus ímpetos cavalheirescos, que estava a arrastar-se para uma outra cena no palco difícil e inexorável da política, onde iria em breve descobrir que já não tinha lugar, ou nunca o tivera.
O grande homem das conquistas africanas veria a sua estrela empalidecer nos ermos agrestes de Castela. Depois, pueril e sempre pusilânime, incapaz de uma decisão pensada, meditada, definitiva, deixava-se levar pelas correntes opostas, controversas, dos próprios partidários. Ora o aconselhavam a marchar sobre Madrid, e ele aceitava a ideia, mas recuava sob a chuva de protestos dos nobres portugueses, ora cedia às instâncias destes para ficar quieto em Zamora e no castelo do Toro, cujas torres circulares o protegiam de qualquer ataque inimigo.
Perplexo, sempre em ânsias, no centro de um complexo jogo que o ultrapassava, ia devorando nas etapas de uma guerra sem fim nem quaisquer garantias de uma decisiva vitória, o dinheiro, as possibilidades de alimentar o exército e o manter activo e sem suspeita de desalento. Veio de seguida a doença, com as infecções, as diarreias que o calor provocava, as febres que a ingestão de água contaminada e os frutos verdes activavam. Veio o desânimo. Os alcaides começavam a mudar de planos e a escrever a Isabel de Castela. A simplicidade, a bonomia do Rei português, a sua infantil credulidade tinham-nos decidido a abandoná-lo. Essas deserções podiam ser fatais e, pior do que isso, era o jogo duplo, velhaco, dos nobres castelhanos.
Por cá, a situação era difícil porque o Príncipe governava um país pobre, enfraquecido pela guerra, e começava a compreender, com alguma dor, a nefasta amplitude da deficiente administração paterna. Mas nada disse e fez os impossíveis por se sobrepor a essas dificuldades com uma mestria superior ao que se exigia da sua experiência e idade. Afonso desejava ardentemente que o filho estivesse com ele, conversasse com ele. Nunca, mesmo agora, na companhia de seus amigos, de Fernando de Bragança, de seus nobres que o idolatravam, se sentira tão só. Era essa a solidão total: não poder abrir a sua alma à inteligente compreensão do filho, à sua perspicácia. Adorava aquele rapaz esbelto, de tez branca como a mãe e de olhos negros onde cintilava uma espantosa luminosidade e que Isabel lhe dera meses antes de morrer. Perante aquela rapariguinha, filha da irmã, sua mulher no leito logo que o Papa autorizasse, não sentia um décimo do que sentira outrora pela mulher amada. Nem sentia coisa nenhuma a não ser uma grande piedade e a certeza moral do dever de homem e cavaleiro de a defender. Ela poderia dar-lhe a Coroa de Castela, mas, de repente, embora ainda novo, começava a sentir-se distante, envelhecido. Ainda, por cima, sabia-se, ao fim de meses de campanha, inútil, quase indefeso. Não possuía forças militares suficientes para alicerçar as suas posições nos inevitáveis lugares estratégicos que ocupara e prosseguir, em campo, a guerra. Além disso, o esforço de guerra também tinha de ser mantido ao longo da fronteira, do lado de Portugal, onde os inimigos castelhanos entravam em incursões frequentes, queimando, arrasando aldeias e vilas». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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quinta-feira, 31 de maio de 2018

No 31. João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Não se podia exigir mais de uma rapariguinha tímida, frágil, sempre empurrada pelas ambições da Corte e ferida no seu íntimo orgulho pela terrível mácula de bastardia»

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A morte de Lancelot
«(…) Embora João sempre tivesse achado, o que evidentemente nunca referiu em público, que o pai era dotado de uma tremenda falta de senso político, e o jovem bem podia, já nessa altura, dar-lhe alguns ensinamentos, apoiava o pai contra as opiniões do Conselho. Evidentemente que o Príncipe era novo, nimbado recentemente dos louros da glória em Arzila, e a luta, a guerra, no plano pessoal, como guerreiro, agradavam-lhe, mas não tenho dúvidas de que a esse seu entusiasmo presidia mais que uma simples vaidade pessoal. O duque de Bragança sentiu-se aborrecido com a premente oposição do real primo e até a sua obstinada pressão sobre os conselheiros para apoiarem as pretensões do Rei a casar com a juvenil Princesa de Castela e envolver-se numa guerra que em breve se traduziria por muito mais que a simples interferência de um país, cujo exército ia meter-se na luta intestina entre duas facções que se digladiavam além-fronteiras, mas no grave litígio entre duas Coroas.
O chanceler Rui Gomes Alvarenga, um velho com idade de ser pai do Rei, opôs-se frontalmente e as razões eram muitas, de peso e, de entre elas, a que se prendia com o facto de o Rei não ser homem destinado a tal empresa. Mas o Príncipe sonhava com a Coroa de Castela. Na sua alma ávida, educada pela leitura dos textos latinos e gregos, por Aristóteles e Cícero, pela história de César, brotava a semente do futuro. Hoje sei o que ele pensou. Aliás, comecei a compreender logo antes da morte do pai… Fernando de Aragão e Isabel de Castela não estavam minimamente interessados em largar para Portugal a Coroa de Castela. Que o primo se casasse com a Beltraneja era redondo disparate, mas que pusesse em causa a legítima herança de Isabel, isso nunca! Era a guerra.
Não sei o que a jovem dona Joana, então apenas com treze anos, pensou daquele seu cavaleiro andante, quase com quarenta anos, ou já nos quarenta, de barba cerrada e calvo, que fora já elegante, mas começava a ficar obeso, respirando com dificuldade quando se cansava, embora de cândido e sorridente olhar. Ainda há pouco largara as suas bonecas de criança e, embora a sua idade fosse já a conveniente para umas bodas, não sei se teria visto nesse bem-intencionado Lancelot de meia-idade mais que a pedra necessária ao seu mantimento no trono do pai contra as violentas oposições e desejos exacerbados de Fernando e Isabel. De resto, ela foi, toda a vida o seria, apenas o peão no tabuleiro de xadrez do jogo peninsular, desde as estúpidas decisões do pai, que lhe negara a paternidade em Toros de Guisando, até, depois, às labirínticas opções do Príncipe João, em 1480 e, depois como Rei, quando ergueu o seu estandarte à custa dela e do seu nome para pressionar os Reis vizinhos. Dona Joana também não desejava morrer como o seu hipotético noivo, Afonso, talvez envenenado por Fernando e Isabel, como lhe sussurravam seus apoiantes, e, de entre eles, o arcebispo de Toledo.
Dona Joana era bonita, embora sem a estonteante beleza da mãe nem aquela auréola fascinante das mulheres que nascem com um destino especial. Não se podia exigir mais de uma rapariguinha tímida, frágil, sempre empurrada pelas ambições da Corte e ferida no seu íntimo orgulho pela terrível mácula de bastardia que a marcaria até à morte como um ferrete de patíbulo. Vítima eterna, dona Joana não teve nenhuma oportunidade na vida e também nunca ninguém a deixou exprimir-se em liberdade. Pertence àquele tipo de seres a quem o destino tudo roubou menos a agonia de se saberem condenados ao silêncio, porque só o facto de existirem lhes retira o direito mínimo a um lugar e à felicidade na Terra. Conheci, ao longo da minha vida, e sem sangue real, outras pessoas como ela.
Afonso de Portugal não conseguiu mais na sua campanha em Castela que andar em círculos como um cão atrás da cauda. Ele e o seu exército. O Verão escoou-se sem que uma saída definitiva brilhasse no escuro horizonte das ambições do Rei português. Não fui recrutado, como muita gente que conheci, mas dois serviçais do mercador Bartolomeu Lagos e três braceiros amigos de Rainiero por lá andaram e no regresso, um deles ficou sem uma perna e outro morreu, os sobreviventes contavam o que foi aquele cirandar sem descanso, com um Verão tórrido que fazia arder o couro e as roupagens debaixo das couraças e das cotas, e as lâminas e ferros, depois da soalheira, em água, até ferviam em vapores como os do Inferno. Nem um nem outro, que relataram a campanha, sabiam Latim, nem ler nem escrever, é o mais certo e, se o conseguiam, era à custa do suor e do tempo a juntar, letra a letra, a palavra que a tinta negra do copista desenhara, mas quantas vezes eu recordei, naquele quadro ardente de homens em guerra cirandando por terras estrangeiras, Horácio: nos manet Oceanus circumvagus; arua. beata petamus arua, divites et insulas...» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
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sexta-feira, 25 de maio de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Por alturas da aventura de Castela recordo que muitas vezes desejei com saudade as belas maçãs de Sintra, os frutos úberes como os figos…»

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A morte de Lancelot
«(…) A guerra trouxe os inevitáveis problemas económicos a todos e um apertar dos cintos aos mais pobres, como sempre. No curral da nossa casa, a horta fornecia o que a terra dava e no canto este meu pai até plantara um pomar de seis árvores de fruta que faziam a sua vaidade e que minha mãe também cuidava. Aldonça criava sempre dois porcos para os enchidos do ano o que, com o tempo quente, trazia um cheiro nauseabundo que entrava pelas janelas e chegava à rua. Aliás, não era a única. Lisboa está cheia de hortas, pomares, gaiolas e esterqueiras nos seus currais, o que torna o ar pestilencial e provoca, com os montouros de lixos, fezes e restos de toda a espécie das sobras insalubres da vida quotidiana, a peste. Por isso João, depois de Rei, tanto avisara a Câmara para limpar as ruas e retirar o lixo, queimando-o, e não só ele, mas nunca surtiu efeito em Lisboa como em outros lugares do mundo. A sociedade do meu pai sofreu reveses, pois a pirataria oriunda de Cádiz e Sevilha cobrava-se nos navios cristãos como a moirama e, às vezes, até dividiam os lucros. Houve, mesmo depois da guerra com Castela, períodos difíceis para nós. Nunca a fome, ou o espectro da miséria, mas tínhamos de nos apertar, pois o dinheiro mal chegava para as despesas. Só mais tarde, no contacto com a Corte, através de João da Paz, e com Abravanel e mestre Vizinho, a loja do pai começou a frutificar e em breve faziam-se cópias de cartas para a marinhagem. Recordo-me de meu pai ter encomendas frequentes de capitães ingleses, flamengos, de mercadores alemães, italianos, franceses... Por alturas da aventura de Castela recordo que muitas vezes desejei com saudade as belas maçãs de Sintra, os frutos úberes como os figos, as gordas pêras dos arredores da Serra da Lua, dos vinhedos da Costa Norte daquela Serra e da zona de Coimbra e ainda o pão alvo de trigo que eu sempre comi, e os camponeses e mesteirais só engolem em dias de festa, e pertence por direito ao dia-a-dia da gente rica. Comi castanha, bolota, centeio, cevada, favas, chícharos e lentilhas, como toda a gente, que vinham de fora de Lisboa, mais caros, é certo, mas vinham e vendiam-se nos mercados da cidade e saíam da horta do convento do tio Gil e das de alguns amigos com quem trocávamos as vitualhas. Depois os tempos melhoraram e, como disse, meu pai, desde as cartas de marear a panos que vinham de Itália, começou também a exportar para os países do Norte. Até bebi cerveja dessas zonas, que veio num barco da Liga, e não gostei. Nós, por cá, embora nalguns locais aqui e ali, no Norte, certos camponeses a tentem fabricar (é uma tradição velha e quase perdida), não a bebemos. Preferimos o vinho, mas provei. Era amarga e pesada, essa bebida forte, mas que quase não embriaga, da cor do mel, brilhante e espumosa e que quebra a sede.
Meu pai, depois, desenvolveu, com mais dois empregados de origem maiorquina, a sua oficina de cartografia, mas Rainiero, que era mais velho do que eu dez anos, e Salvago, um genovês emigrado, praticamente tomaram conta da loja e da sua orientação, pelo menos do grosso do trabalho mais importante. Foi assim que mestre José Vizinho passou a ser confidente e amigo de meus pais. Aldonça vendia pescado, desde o atum, ao pargo e golfinho que era apanhado junto da costa, onde se constroem armações para o prender. Vendia-o fresco ou salgado e até o secava ao sol para ser carregado nas viagens por mar, de longo curso. O seu casamento com Rainiero ficou marcado para um ano após a viuvez, mas o que é certo é que, pouco antes, ele já, lá dormia, às escondidas da vizinhança... E, em Castela, o nosso velho Rei caminhava para a grande desilusão da sua vida, depois da morte da mulher, e o Príncipe, sereno como sempre, pujante na sua juventude saudável que julgava não acabar nunca, traçava já na sua mente privilegiada, o grande plano, o esquema perfeito da sua imperial concepção de poder que o iria lançar na única e exclusiva guerra da sua vida e que só acabou sob o meu olhar, uns momentos antes de Alvor, nas terras da Serra de Monchique». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                             
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João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Rainiero era estrangeiro, mas em breve herdaria qualquer coisa dos pais lá para a Itália e Aldonça montara uma banca também no mercado dos legumes e outra no do peixe»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) A tinta púrpura, com o tempo, ficara violeta pálida e a prata das iluminuras e das grandes letras do início de cada capítulo, negra. Lá fui com o rolo embrulhado, num pedaço de flanela manchada, ter com mestre Tadeu ao seu laboratório. O primeiro gato dele que conheci mirou-me, cheirou-me e foi deitar-se, satisfeito, num escabelo semidestruído que jazia a um canto. Rufus. Dele, de meu amigo e mestre, o que me ficou, Santo Deus? A réstea da sua sabedoria que mal apreendi porque era demasiadamente jovem e o tempo, posteriormente, não me concedeu a paz necessária, e um gato que veio comigo. Em 1475 Rufus tinha um ano, nem tanto. Hoje, em Nápoles, afago um neto dele, tão fulvo e belo como ele, já com cinco anos de idade, e que morrerá no meu colo como sucede sempre quando não abandonamos os seres amados e os nossos fiéis companheiros de caminho durante a curta vida que Alguém nos concedeu.
Por dias, debruçado sobre o manuscrito, como um amante sobre o corpo da amada, não pensei na guerra, não pensei em mais nada. Queria apenas saber quem mais, além dos que conhecia, antes de mim, escrevera a história do homem que enchia o meu espírito e as minhas noites de insónia. Ao contrário da tradição antiga dos Reis portugueses, da Borgonha, da França, para quem Ciro e Dario representavam o exemplo máximo do poder real, eu amava Alexandre e iria escrever a sua história. Foi o meu primeiro contrato com a minha missão de escritor e decidi ainda tornar-me discípulo daquele velho simpático, solitário, sábio e muito terno que me recordou sempre uma criança nos momentos de alegria, mas que por detrás daquela bela fonte enrugada deixava cintilar o fulgor de uma profunda inteligência. Debruçado sobre o atanor, enquanto orava ou meditava, mexendo nos instrumentos do seu ofício, nos intervalos da sua função de físico, ele ia-se libertando de todo o sedimento humano, tornando-se tão livre que nem a morte o poderia tocar ou limitar e esse facto, que eu hoje compreendo finalmente, é o terminus, o fim da Grande Caminhada, a dissolução no Sol de Luz Negra, o Renascer do Espírito, o Caminho para Petra, que foi o meu e o é de todos os que buscam a Verdade, a Fase Derradeira, a Pedra Filosofal.

A morte de Lancelot
Meus estudos prosseguiam e a escrita também. Vivia então aquela euforia dos escritores jovens e inexperientes que julgam conter numa curta frase todo o talento do universo. O que não deixa de ser saudável, belo, comovente, tremendamente terno por confiança total no destino como num grande amor. Sentia a obra avolumar-se dentro de mim e, às vezes, na cama, na boa e pesada cama que era o único luxo do meu quarto, a sensação que eu tinha era de que ela tentava, para sair dos limites da minha alma extasiada, furar, estalar a minha carne, a minha pele. Por esse tempo, meu primo Diogo morreu no mar e Aldonça ficou viúva, sem amparo. Rainiero começou a rodeá-la de carinhos, inclusive até falou com meu pai. Ela era mais velha, embora, mas uma mulher ainda jovem, apetitosa... Rainiero era estrangeiro, mas em breve herdaria qualquer coisa dos pais lá para a Itália e Aldonça montara uma banca também no mercado dos legumes e outra no do peixe. A vida ir-se-ia compor, como sempre, e Aldonça aceitou.
Que lhe restava fazer com filhos para criar e sem homem para ajudá-la? Minha mãe retirou debaixo da enxerga, ou entre a enxerga e o colchão, não sei, umas moedas das suas economias e, durante dias, ela e a prima combinaram as coisas como duas irmãs. Até, como se se tratasse de uma noiva jovem, minha prima recebeu uma velha alfombra espesso e quente para o novo tálamo que era, aliás, o mesmo onde ela dormira com o marido, oferta de meu pai». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

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quarta-feira, 2 de maio de 2018

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «É! Vê esta palavra, filho. ALEXANDROS, soletrou. Fiquei tão comovido que me apeteceu chorar. Quem fez isto?»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) Existira outro pretendente ao trono de Castela, o infante Afonso, filho de Isabel de Portugal e de João II, e bisneto, portanto, do velho Bragança, dessa filha do infante João, que era mãe também da Isabel que agora se intitulava Rainha e herdeira do irmão pederasta ou impotente, o monstruoso e fraco Henrique IV. No entanto, cedo os que tinham apoiado Afonso passaram para o lado oposto porque o jovem morreu e as más-línguas diziam que envenenado…, depois da Beltraneja ficar (mais uma vez!) noiva desse tio. Entretanto, o Rei Henrique fizera Beltran duque de Albuquerque e as coisas complicaram-se. Levantou-se um portentoso motim. Henrique foi deposto, em Ávila, e a sua efígie, com a do irmão Afonso e a da filha, ferozmente queimadas. Foi então que a Rainha dona Joana procurara Afonso na Guarda, mas este, na altura, recusou a meter-se no vespeiro... Só que em Dezembro de 1474 Henrique morria e de novo, e definitivamente, se repunha o problema. Claro que Afonso pensava candidamente que a França o apoiaria, pois Luís XI estava em guerra com o Aragão mas tal não aconteceu. O ingénuo Afonso jamais poderia confrontar-se com o subtil Rei cie França nem a bem nem a mal..., e muito menos, como se viu, contar com ele.
Em Placência. o casamento não se consumou porque não fora concedida ainda a autorização papal, mas os títulos eram válidos para Afonso e dona Joana como Reis. A divisão em Castela apertava o seu cerco. Uns apoiavam dona Joana, mas as divergências avolumavam-se. As notícias chegavam ao Reino com grandes lacunas. Por essa altura eu já estudava os primórdios da Física e tornava-me aprendiz de cirurgião, com a ajuda de mestre Bartolomeu que me não curara, mas era bom físico e até operava as cataratas. Visitava um dia meu tio Gil quando lhe propus a leitura de um manuscrito que encetara sobre Alexandre. Ele sorriu e mostrou-me algo que me deixou siderado. No scriptorium do Mosteiro faziam-se cópias e raspavam-se obras antigas. Ele trouxe um rolo de pergaminho que o tempo tornara amarelo-escuro e com manchas cinzentas. Abriu-o cuidadosamente sobre a mesa de carvalho que o fogo da chaminé nas noites de Inverno também curtira e a que dera a cor do bronze fundido: vê bem, rapaz. Frei Sancho, o raspador, trouxe-me isto. Mirei, estupefacto. O monge raspara, mas a espessura da pele mantivera parte do texto porque a tinta penetrara fundo. Santo Deus! Está escrito em grego! É grego, não é, tio?
É! Vê esta palavra, filho. ALEXANDROS, soletrou. Fiquei tão comovido que me apeteceu chorar. Quem fez isto?, perguntei. Não te exaltes. É necessário aproveitar o pergaminho antigo. Bem sei que agora, com a nova técnica inventada na Alemanha, os livros são diferentes. Já há vinte anos, quase, no tempo de Gonçalo Enes, que vieram gramáticas da arte nova para as infantas dona Joana e dona Catarina, a mando do Rei. Gonçalo Enes era tesoureiro das infantas e mandou vir, parece, que da Alemanha, ou da França, não sei, os livros. Este é dos antigos, tal como a maior parte dos que possuímos nas nossas casas e bibliotecas. Leva-o a mestre Tadeu. Ele conhece o grego, esse malvado judeu! Em baixo, pois o manuscrito já fora raspado e reescrito, ainda li a frase: orai a Deus pelo copista. Orai a Deus! Onde estaria aquele monge morto há séculos, cego certamente, de uma vida inteira debruçado sobre velhas páginas de pergaminho, e onde estaria a sua alma e o seu corpo?» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

Cortesia de EPresença/JDACT

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Mais uma vez, no jogo político de Castela e Portugal faltava a peça que o infante Pedro, o infeliz tio de Afonso V, podia ter jogado se a sua visão política tivesse sido concretizada»

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O Homem de Alexandria e a Pedra Filosofal
«(…) Prontificou-se a defender a Rainha de Castela, a excelente senhora, a sobrinha, e a casar com ela. O Conselho reunido consistiu num diálogo de surdos porque o Rei, com o apoio do Príncipe, já decidira. Os nobres negaram-se, na sua maioria, a apoiar a ideia. Os renitentes foram liderados por Jorge Costa, a quem o Príncipe, depreciativamente, mais tarde e, depois, já Rei, chamava O Alpedrinha, referindo-se à aldeola suja onde o Cardeal nascera numa choupana humilde, e pelo futuro duque de Bragança, conde de Guimarães. Seria uma loucura, um acto suicida, o Rei de Portugal ir meter-se no vespeiro das controversas ambições das facções castelhanas... Só que, se para Afonso a questão era moral, familiar, para o Príncipe ela era de Estado. Isso eles não compreenderiam. Penso que na mente do Príncipe, o sonho da união das coroas de Portugal e Castela já nascera. Ele que lera Cícero, Séneca, a História dos Imperadores, a de Ciro e Alexandre, ele que conhecia já a ciência política e a sua filosofia de poder apoiava as pretensões do pai por razões que nem o duque, nem a maioria da fidalguia, nem o Alpedrinha conheciam. O futuro conde de Penamacor, Lopo Albuquerque, partiu para Castela e, depois, o avisado Rui Sousa, com cartas d’El Rei para fidalgos que o aceitassem como Rei e como embaixador a Valladolid aos Reis de Castela, Fernando e Isabel, mas isso de nada serviu, pois estavam, segundo suas razões, no direito de cingir a Coroa. Era a guerra.
Em Arronches, Afonso, perante as Cortes, pegando na mão do filho, disse aos seus homens bons, prelados e cavaleiro. Aqui vos entrego, vassalos, ao Príncipe, em amor mais vosso filho que meu, para que vos governe durante a minha ausência, porque só à sua virtude confiaria o vosso governo. Foi então que chegou a notícia de que a nora dera à luz, em Lisboa, um filho varão. Esse facto punha de novo o problema da sucessão, no caso do Rei ter filhos do seu casamento em Castela. Afonso, no entanto, já não levantava um dedo sem que ouvisse a opinião do filho. Aquele homem, que fora esbelto e perfeito, agora engordara, ficara calvo, cansava-se com certa facilidade, mas ainda era robusto e de alma viril. Com o filho deixava de ser o pai. Os papéis trocavam-se. O jovem Príncipe, sempre respeitoso, amável e cortês, no entanto, dominava a alma do pai. Às vezes até parecia embalá-lo, como se o Rei fosse uma criança, mas fazia-o sabiamente sem que ele se apercebesse ou se sentisse molestado. Não, a questão da herança seria regulada a contento de Portugal. Se algo acontecesse ao Príncipe, só o filho, Afonso, seria o Rei de Portugal e não quaisquer outros filhos de Afonso, se os tivesse em Castela.
O Príncipe acompanhou o pai e despediu-se dele em Pedra Buena. O Rei seguiu para Placência, onde oficialmente se realizaram os seus desponsórios com dona Joana. Passou a intitular-se Rei de Portugal, de Castela e Aragão. Bem-intencionado, mau político, habituado à sua Corte de nobres satisfeitos, de barriga cheia e repletos de bonomia perante um Rei cavaleiro, bondoso e aberto a todas as concessões e regalias que requeriam, Afonso não conseguiu reunir à sua volta o grosso do partido nacional castelhano que ia engrossando à custa da astúcia de Isabel de Castela e Fernando de Aragão que, por sua vez, se preparavam para abrir o caminho da glória na política e na história das Espanhas.
Mais uma vez, no jogo político de Castela e Portugal faltava a peça que o infante Pedro, o infeliz tio de Afonso V, podia ter jogado se a sua visão política tivesse sido concretizada e não acabasse no atoleiro miserável de Alfarrobeira. Ainda se Pedro Urgel, quarto de Aragão, tivesse sobrevivido! Mas morrera há anos. Henrique IV teria tido, ou a filha, outro apoiante. Agora isso não era possível». In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.

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