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sábado, 29 de setembro de 2018

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «Acresce a tudo isto o desempenho da administração da dupla governativa Filomeno Câmara / Morais Sarmento, respectivamente alto-comissário e inspector da Administração Pública naquela colónia»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) Preparada por Joaquim Nunes Mexia (grande latifundiário alentejano e ministro da Agricultura de I8/4 a 7/7/1929) e lançada pelo então ministro da tutela, Henrique Linhares Lima (8/7/29 – 21/1/30), tinha como principais objectivos apoiar a actividade da grande agricultura alentejana e promover o aumento da produção até, às necessidades da procura, por substituição de importações, dignificando a indústria agrícola como a mais nobre e a mais importante de todas as indústrias e como primeiro factor de prosperidade económica da Nação. O aumento da área de trigo cultivada, o desenvolvimento da indústria química, pela difusão dos adubos industriais, e, a reboque, o notável crescimento da produção, concluem o êxito (inicial) da campanha. Perto do final do ano, quando a Nação adquiriu já a plena consciência do seu estado e manifesta a vontade firme de seguir os caminhos do seu destino, Salazar, na ausência do Presidente do Ministério (em visita oficial a Espanha), consagra o princípio Nada contra a Nação, tudo pela Nação e, em nome da realidade nacional, apela ao desconhecimento das facções, dos partidos, dos grupos, quando os sectores oposicionistas da sociedade se limitam a contestar o fraco empenho demonstrado pela Ditadura nas comemorações do 5 de Outubro de 1910. Lopes Fonseca, mentor da manifestação dos municípios, tinha chegado à pasta da Justiça e dos Cultos por intermédio de Salazar e, tal como este, via em Ivens Ferraz o principal adversário na luta pelo poder no interior da Ditadura (a realização desta manifestação mereceu o comentário de Ivens Ferraz nas suas Memórias; durante a minha ausência passava-se em Portugal um incidente a que não posso deixar de me referir (...), porque, propositadamente, se procurou o afastamento do Chefe do Governo para tirar todos os efeitos políticos que daquele incidente poderiam resultar). Acusado de buscar uma aproximação aos partidos quando o momento exige um governo forte para que a Ditadura leve o barco a bom porto (designadamente, consolidar o equilíbrio do orçamento, realizar a reforma da moeda e completar a restauração financeira, lançar as bases decisivas da reconstrução económica da metrópole e das colónias (...) efectuar a reconstrução política e social do país, pelo regime municipal e corporativo (...) e pela preparação de condições que permitam e garantam a independência e harmonia dos poderes do Estado), Ivens Ferraz chega a apresentar a demissão. Mas será a polémica travada entre Salazar e Cunha Leal, o verdadeiro móbil da queda do seu ministério quando, a propósito das críticas tecidas por este à política financeira delineada para as colónias, o ministro das Finanças exige que o problema seja levado a Conselho de Ministros. Mais uma vez Carmona apoia-lo-á deixando cair o ministério de Ivens Ferraz.
Com o afastamento da presidência do Governo de Vicente Freitas, primeiro, e de Ivens Ferraz agora o republicanismo conservador perde o combate que a corrente salazarista vinha movendo no interior da Ditadura desde finais de 1928 e inaugura, com a constituição do Ministério presidido por Domingos Oliveira logo em 21 de Janeiro de 1930, uma ordem nova, quer do ponto de vista político-institucional quer do ponto de vista económico e social. Em conformidade com esta nova ordem, Salazar, interino das Colónias desde aquela data, demite Cunha Leal do cargo de governador do Banco de Angola e faz aprovar a sua estratégia nesta área de reforço do programa de obras públicas, apoio financeiro limitado, reforma do sistema bancário do império, e promulgação do Acto Colonial, a qual, pelo seu carácter nacionalista e civilizador, reduz o impacte das acusações de que Salazar não se importa com o Império.
Em Outubro de 1929, o crash da bolsa de Nova Iorque potenciara o aprofundamento da crise económica que se vinha avolumando desde o imediato pós-guerra na generalidade dos países do mundo. Em Portugal, embora refreados por factores de ordem estrutural e conjuntural, os seus efeitos vão fazer-se sentir com particular acuidade entre os sectores exportadores metropolitanos e coloniais. Na verdade, a quebra brutal das cotações mundiais dos principais produtos coloniais é a responsável pela redução das fontes de receitas dos circuitos de exportação e comercialização e, no Imperio (sobretudo em Angola), pela crescente tensão que a dependência da economia angolana relativamente à metropolitana cria nos sectores mais visados pela Grande Depressão, visivelmente afectados pela quase paralisação das transferências financeiras. Acresce a tudo isto o desempenho da administração da dupla governativa Filomeno Câmara / Morais Sarmento, respectivamente alto-comissário e inspector da Administração Pública naquela colónia: administrativa e financeiramente atrabiliária e descontrolada responde, em grande medida, pelos acontecimentos revoltosos que de 20 de Março a l0 de Abril se sucedem em Angola, cujo comando recai no Chefe do Estado Maior das Forças Armadas da colónia, coronel Genipro Cunha Eça Almeida. O tenente Morais Sarmento é morto no primeiro dia, Filomeno Câmara é exonerado em 10 de Abril quando, na metrópole, o governo de Domingos Oliveira, na pessoa do ministro interino das Colónias, Oliveira Salazar, (...) é obrigado a ceder às pressões da colónia (...)» In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar. 1926-1932. Cristina Faria. «A Ditadura era, pois, o garante da ordem e do equilíbrio. Reposta a disciplina nas ruas, acautelado o equilíbrio orçamental e desarticulada a oposição republicana democrática»

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Enquadramento Político, Económico e Social da Ditadura Militar
«(…) No campo oposicionista, porém, a dinâmica conspirativa mantém-se. Depois de solucionadas as divergências entre os comités militares e os linguistas e exilados no exterior acerca dos caminhos a seguir para derrubar a Ditadura, a revolução sai à rua no dia 20 de Julho por iniciativa do Batalhão de Caçadores 7, com o objectivo de pôr fim à degradante situação financeira e às soluções austeras preconizadas por Salazar e capitalizar, a seu favor, a agitação vivida nos três centros universitários do país e a situação de numerosos militares e civis. Paralelamente, o recente fiasco do pedido de empréstimo à SDN, o apoio inequívoco da Igreja, da Inglaterra e da Espanha à manutenção da Ditadura, a eleição de Carmona e a afinação dos métodos repressivos e policiais terão levado muitos a optar pela revolução. Uma revolução que, contudo, sai vencida à partida: ensaiada desde Maio, o processo de preparação que a antecedeu é desarticulado em inícios de Junho quando os seus principais organizadores (comandante Jaime Morais e capitães Chaves e César Almeida) são presos. Com ramificações a nível nacional, dura 12 horas na capital, salda-se em numerosos danos materiais e na prisão e deportação (Angola e Timor) de centenas de militares e civis (a grande componente do movimento) e potencia apoios à situação por constituir mais um forte impedimento à recuperação económica e financeira. Salazar, esse, continua a sua ditadura financeira e, em Setembro, reduz as despesas nos Ministérios da Guerra, do Comércio e das Comunicações e da Instrução Pública.
A Ditadura era, pois, o garante da ordem e do equilíbrio. Reposta a disciplina nas ruas, acautelado o equilíbrio orçamental e desarticulada a oposição republicana democrática, Salazar introduz um factor de confiança para os agentes económicos numa economia em que as políticas orçamentais (tendem) a dar prevalência à estabilidade sobre o crescimento económico e em que os saldos orçamentais passam a ser positivos a partir de 1928 - 1929: logo no início do ano, procede à liquidação de importantes prestações da dívida de guerra e da dívida flutuante, conquistando o reconhecimento internacional; reforma a Caixa Geral de Depósitos e o Banco de Portugal, lançando o crédito público às actividades económicas; anuncia medidas de reactivação das obras públicas (expansão da rede ferroviária e telefónica, aproveitamento hidroeléctrico dos rios Douro e Zêzere, programa de obras de hidráulica agrícola, infra-estruturas portuárias e viárias, etc.); em Junho faz aprovar o Orçamento para 1929 - 1930 com um saldo positivo de 8500 contos e anuncia ao país a extinção da dívida flutuante externa quedando-se saldadas as contas com o estrangeiro. Paralelamente, instaura a reforma tributária e desenvolve um rigoroso saneamento nas administrações coloniais, sobretudo em Angola. A Ditadura possui finalmente um projecto uno e coerente, com prioridades definidas e rumos certos, cujo conteúdo político se traduz na concertação de uma plataforma económico-social e política comum (síntese histórica das direitas portuguesas numa única direita) viabilizadora da crescente hegemonização da Ditadura Militar pela corrente salazarista.
Mas, na sequência da portaria de Junho de Mário Figueiredo, amigo de Salazar em Viseu e Coimbra e então tutelar da pasta da Justiça e dos Cultos (10/11/28 – 8/7/29), a questão religiosa precipita a demissão de ambos os católicos em sinal de protesto contra a revogação da portaria dos sinos pelo Conselho de Ministros do Governo de Vicente Freitas. Depois de reunir com Salazar, Carmona aceita o seu pedido de demissão formalizado em nome de todo o gabinete, e chama Ivens Ferraz para formar novo governo (8/7/1929 - 21/1/1930).
O êxito da prática financeira reconfirma Salazar na pasta das Finanças que prossegue, agora, uma estratégia de redução da oposição entre os sectores mais visados pelas dificuldades do momento. Por um lado, autoriza medidas de protecção à agricultura, sobretudo no Centro e Sul do país, e, em finais de Agosto, faz aprovar as bases para a organização da Campanha do Trigo». In Cristina Faria, As Lutas Estudantis Contra a Ditadura Militar, 1926-1932, Edições Colibri, Lisboa, 2000, ISBN 972-772-201-6.

Cortesia de E. Colibri/JDACT

domingo, 4 de setembro de 2016

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Barnabé recuava, assustado com a expressão do outro, que, mau-grado seu, manejava a espada na perfeição. Pronto, pronto, senhor fidalgo! Olhe que pode magoar-se com essa espada nas mãos! Não se altere!»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«Gualdim é o seu nome
destemido mascarado
ao povo mata a fome
ao ministro deixa preocupado».

«(…) Todos se voltaram ao ouvir a voz grave do mascarado. Vários pares de olhos brilharam de emoção. Capitão Gualdim! Barnabé estremeceu. Tinha ordens para avisar as autoridades sempre que visse a misteriosa personagem que fazia a vida negra ao ministro e seus comparsas. Só que o terror que lhe tinha também era muito. Por fim, decidiu-se pelo medo que sentia das torpes vinganças de Miguel Vasconcelos. Fez sinal a uma mulher que espreitava do lado de dentro da taberna. Virou-se, mais descansado, pois esperava ajuda rapidamente. O fidalgo não se meta onde não é chamado! Isto é um assunto que tem de ser resolvido entre mim e este bandido! O cavaleiro aproximou-se mais do outro homem., que começou a tremer que nem varas verdes, cobarde como todos os fanfarrões. Isso é o que você pensa. Ou deixa de bater no rapaz ou, juro por Deus!, trespasso-o imediatamente com a minha espada! O taberneiro fitou-o em ar de desafio. Eu não recebo ordens de um mascarado. Este desmontou e, de um salto, acercou-se dele. Arrancou-lhe a chibata das mãos e desembainhou a espada, encostando-lha ao pescoço. Barnabé recuava, assustado com a expressão do outro, que, mau-grado seu, manejava a espada na perfeição. Pronto, pronto, senhor fidalgo! Olhe que pode magoar-se com essa espada nas mãos! Não se altere! O rapazola observava a cena, boquiaberto. Nunca antes vira o enigmático cavaleiro. Já nem sentia as dores do corpo, tal era a emoção que o dominava. As pessoas observavam tudo, quase sem respirar. Sempre que o capitão Gualdim fazia uma das suas misteriosas aparições, era como se houvesse magia no ar. Todos pareciam viver o mesmo sonho, maravilhoso e emocionante. O que fez o pobre rapaz para o castigar desta maneira? Gostava que eu lhe fizesse o mesmo com a minha espada?, inquiriu o justiceiro, com os olhos brilhando ameaçadoramente. Com a ponta da lâmina fez-lhe um corte superficial no pescoço. O taberneiro soltou um grito de horror. Pela sua cabeça passaram mil horríveis imagens, entre elas a do mascarado cortando-o às postas fininhas, com ar maquiavélico. Recuou, violentamente, contra a parede. Atemorizado, os olhos reviravam-se-lhe de uma maneira esquisita. De branco, passou a esverdeado, enquanto o diabo esfrega um olho.
Tentou recuar ainda mais, só que a parede não lhe acompanhava o passo. Curiosamente, metera-se entre a espada e a parede... Ó, senhor fidalgo..., esse rapaz é um ladrão..., e um comilão! Saiba vossa senhoria que me roubou metade de um pão, depois de ter comido a parte que lhe cabia para um dia inteiro. Vossa majestade há-de concordar que é um bandido! Pior que um desses reles salteadores de estrada!, disse, com um suor frio escorrendo-lhe da testa. Gesticulava aflito com as mãos, como se quisesse impedir o mascarado de lhe tocar. Gualdim dobrou a espada, demonstrando a sua flexibilidade. Depois, com a ponta do dedo enluvado, carregou na ponta da lâmina. Tinha um ar desinteressado. De repente, fez uns gestos rápidos com a espada, mesmo em frente do nariz do avarento, deixando-o sem pinga de sangue. As pernas deste fraquejaram e caiu de joelhos no chão. O povo desatou a rir às gargalhadas, nada fazendo para disfarçar o seu contentamento por ver castigar um tão grande e nojento delator. Parece-me que a lâmina precisava de ser mais afiada…, observou o mascarado, com um esgar de contrariedade na boca trocista. Olhou de esguelha para o outro, sorrindo do seu pavor. Encostou-lhe de novo a espada ao pescoço, obrigando-o a levantar-se. A cara dele quase se confundia com a parede. Sabe o que se passa, Judas de trazer por casa? É que não aprecio nada quem denuncia os companheiros. E quando isso acontece, gosto de afiar a minha lâmina nos corpos desses infelizes. É uma fraqueza minha… Que hei-de fazer?! Não sujeis a espada em mim, meu querido e poderoso senhor! Não mereço tamanha honra de vossa senhoria! O capitão Gualdim soltou uma gargalhada, ao mesmo tempo que embainhava a espada. Um sorriso misterioso aflorou-lhe aos lábios. Fez-lhe uma vénia, que deixou o taberneiro desconfiado e ainda mais atemorizado. Pois tem muita razão. Realmente a sua reles pessoa não merece que manche a minha lâmina em tão ultrajante sangue! Terá um outro castigo que nada tem a ver com pauladas, chicotadas ou qualquer outra punição corporal... Toda a gente se entreolhou, sem evitar um sorriso e tentando adivinhar que castigo o justiceiro reservava ao sovina e cruel Barnabé. Um largo sorriso apareceu na cara dele, deixando ver uns dentes podres e amarelos, nunca limpos em toda a vida». In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 10 de junho de 2016

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Naquele momento, surgiu um cavaleiro todo vestido de negro, montado num cavalo. À ordem do dono, o animal estacou, empinando-se nas patas traseiras. Largue o rapaz!»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

Gualdim é o seu nome
destemido mascarado
ao povo mata a fome
ao ministro deixa preocupado.

«(…) Não me bata mais, senhor! Por favor, senhor, perdoe-me! Não me bata mais! Um rapaz de dezoito anos, baixo e esguio, de cabelo escuro encaracolado berrava como um possesso. Estava amarrado a um poste de madeira, que normalmente servia para prender as rédeas dos cavalos. Encontrava-se diante de uma taberna escura, de mau aspecto, com muitos cheiros à mistura, entre eles o do chouriço assado nas brasas e vinho entornado. Não primava pela limpeza. Uma tabuleta ferrugenta permitia que os transeuntes se apercebessem de que estabelecimento se tratava. Quem lhe batia era baixo e atarracado, gordo, de cabelo escorrido e oleoso e olhar traiçoeiro. Taberneiro de muito má fama, avarento e amigo de trair o próximo por duas patacas, era conhecido do povo o seu empenho em servir a coroa espanhola, tratando de informar aos capachos do ministro português o que fulano ou beltrano dissera a respeito dele, para conseguir proveitos a seu favor. Por isso a freguesia era escassa e quem lá ia tratava de permanecer de bico calado, senão, quando menos esperasse, encontrar-se-ia preso no castelo de São Jorge, como já a muitos infelizes acontecera.
Maldito!, gritou o taberneiro, com um olhar cheio de raiva. A expressão do rosto revelava a crueldade e a mesquinhez de carácter. Chicoteava o jovem com satisfação e ar sádico. Voltou a deixar cair a chibata sobre o corpo indefeso. Um grito de dor sucedeu à pancada. Alguma gente já ali se juntara, atraída pelos gritos doloridos de alguém. Tentavam saber qual a razão para haver tal cena, mas ninguém sabia responder e também não se atreviam a interferir no assunto, sabendo dos contactos que o avarento tinha com as autoridades. O que fez o rapaz para o taberneiro lhe bater desta maneira?, perguntou um homem, de farfalhudo bigode. Olhava para outro, que chegara primeiro ao local. O interpelado encolheu os ombros. Uma mulher de lenço preto na cabeça e cesto de limões enfiado no braço observava a cena, contristada. Coitado! Mas o que foi que ele fez? Ninguém sabia responder.
Uma carroça carregada de tonéis passou pela taberna, tendo de abrir caminho entre toda aquela gente curiosa. O condutor mastigava um palito, com ar aparvalhado, talvez de tanto carregar e beber o vinho daqueles recipientes. Arregalou os olhos ao observar a cena, esquecendo-se de trincar o que tinha na boca. Um sorriso maldoso fez ver poucos dentes, quase todos apodrecidos. Barnabé, o que é que o rapazola lhe fez? Roubou-lhe a mulher? E o condutor da carroça soltou uma gargalhadinha divertida, quase engolindo o palito. Só então o taberneiro se apercebeu de que estava a ser alvo das atenções gerais. Virou-se, colérico, colocando as mãos na gorda cintura. O diabo te carregue, Jeremias! Este bandido! É um ladrão! Dei-lhe metade de um pão para comer durante o dia, como faço com os outros criados, pois toda a gente sabe que não sou rico e a vida não está para graças, e não é que dei pela falta da outra metade do pão?! Além de ladrão, é glutão!, declarou, continuando a bater no rapaz, que, a cada chibatada, soltava gritos capazes de comover pedras. Ai! Ai! Eu tinha fome, senhor! Ai, não me bata mais, por Deus! Por favor tende piedade de mim! Só roubei porque tinha fome...
O avarento arregaçou as mangas da camisa, já a suar do esforço. Os calções de pano grosso atados por baixo dos joelhos davam-lhe um ar muito ridículo e os sapatorros com grandes laços não ajudavam muito. Parecia um porco pronto para a matança. O infeliz tentava imitar os elegantes que via, mas em vão. O resultado era sempre uma desgraça… Ah, ladrão! Seu bandido! E Deus não é para aqui chamado! Deixa-O estar descansado onde quer que esteja. Solte o rapaz, Barnabé! Sim, deixe-o! O garoto devia estar com muita fome e quem rouba para comer merece perdão!, gritou um homem magro, brandindo uma rústica bengala. Deixe-o em paz! Já deve ter aprendido a lição. O taberneiro virou-se, de sobrolho carregado. Pôs a mão na cintura, provocador. Solto-o, uma ova! Vai ser castigado por me ter roubado o pão! Metam-se mas é na vossa vida! O povo entreolhou-se. Não podemos fazer nada. O rapaz é criado dele, observou um velho, olhando para uma mulher ainda jovem que tinha os olhos cheios de lágrimas. Maldito seja! Se tivéssemos um rei português, não se permitiriam estes abusos! Diabos levem os Filipes e seus lacaios!
Os outros estremeceram e olharam em volta, receosos. Cala-te, Berta! Sabes bem que há ouvidos por toda a parte! Naquela época havia uma imensidão de espiões ao serviço do rei espanhol. Além das patrulhas nocturnas, impedindo qualquer reunião de tipo suspeito, as pessoas não podiam falar abertamente do que pensavam, com receio das consequências que dali adviriam. A qualquer pretexto eram presas ou então denunciadas ao Tribunal do Santo Ofício (maldito), pelos motivos mais estrambólicos. Eram tempos tenebrosos aqueles, em que o povo tinha de calar a sua dor e angústia pelo peso dos impostos e, principalmente, pela falta de um soberano português. Eram aliciados a acusar secretamente o pai ou o irmão, a esposa ou o marido... Andavam todos de coração nas mãos, apertadinho com tanto medo e terror. Pairava no ar uma conspiração silenciosa entre todos os portugueses contra a coroa espanhola. Parecia um barril de pólvora prestes a explodir à primeira faísca riscada por alguém. Seria uma reacção em cadeia o primeiro que soltasse o grito da revolta, ecoando por todos os cantos do país, em todos os corações, em todas as vozes o brado da independência. O taberneiro continuava a bater no criado, impiedosamente. Naquele momento, surgiu um cavaleiro todo vestido de negro, montado num cavalo. À ordem do dono, o animal estacou, empinando-se nas patas traseiras. Largue o rapaz!» In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Pode retirar-se, Sanchez. Quando se restabelecer, quero que me descubra o mascarado e os seus encobridores. Esmagá-lo-ei com as minhas próprias mãos!, declarou, fechando a mão com fúria»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«(…) Sanchez lançou-lhe um olhar capaz de aterrorizar um leão feroz, mas que não teve efeito algum no inimigo. A partir de hoy, señor enmascarado, tenéis un enemigo mortal para toda la vida y le juro que descubriré vuestra verdadera identidad y ay!, de vos cuando lo consiga!, ameaçou, estendendo-lhe a bolsa, com uma expressão dolorosa no rosto largo. O cavaleiro soltou um risinho trocista. Declaro a vossa mercê que já não dormirei nada descansado esta noite! O capitão e os seus soldados afastaram-se, mais feridos no orgulho do que na carne. Sentiam-se humilhadíssimos por terem sido derrotados por um único homem, apesar de este ser o terror dos mais temidos. Quando desapareceram de vista, o povo juntou-se à volta do misterioso cavaleiro, dando-lhe vivas. Ele sorriu e atirou-lhes a bolsa recheada de moedas de ouro. Tomem e distribuam por todos vós. É um presente do nosso querido ministro!, disse, com uma gargalhada irónica. As pessoas riram-se e as expressões dos seus rostos demonstravam a mais completa adoração pelo desconhecido. Até à vista, amigos!, despediu-se Gualdim, sacudindo levemente as rédeas. Com um aceno de despedida, desapareceu tão misteriosamente como surgira. Quem é que ajudou desta vez o capitão Gualdim a esconder-se dos soldados?, inquiriu um homem barbudo, interrogando com os olhos as outras pessoas. Acho que foi o padre Nicolau que lhe deu abrigo na igreja..., respondeu um outro, com um sorriso de contentamento. Agora, vamos distribuir o presente do nosso querido capitão Gualdim!
Passadas umas horas, algures num gabinete do Palácio da Ribeira, dois homens conversavam, com ar conspirador, e um deles tinha um braço ao peito. Temos de descobrir a verdadeira identidade desse mascarado. Decerto é um dos nobres que me desafiam a todo o momento..., comentou um indivíduo, engolindo de um só trago um cálice de licor verde. Passou a língua pelos lábios, deliciado. A expressão fria e cruel dos olhos contrariava a da boca. Las personas lo esconden, ministro, y hasta los padres lo hacen. Miguel Vasconcelos ficou pensativo. Tal como o fizeram com o Prior do Crato. Conseguiu estar escondido em Portugal um ror de meses até partir para o exílio. E nunca se soube quem o escondia, por mais dinheiro que se oferecesse para o denunciarem. Maldito! Se o pudesse ter nas minhas mãos! Sanchez tremeu de cólera, compartilhando o mesmo sentimento. Se sospecha que ese insolente estuvo envuelto en los motines de Évora… Lo vieron también distribuir los versos del Bandarra. Pero, se escapó siempre de las mallas de la ley.
Este era célebre pelos seus versos, que podiam ser interpretados de diversas formas, pois eram muito vagos. Falavam de um salvador que apareceria encoberto. Embora este sapateiro de Trancoso os tivesse escrito antes do nascimento do próprio rei Sebastião, o povo pensava que se referiam a ele. Achavam que Bandarra conseguira ver o futuro. Tenho de avisar Olivares do perigo que este mascarado representa para o reino. Daria tudo para o ter preso diante de mim, poder arrancar-lhe a maldita máscara e ver com os meus próprios olhos quem ele é. Você que o viu de perto, tem a certeza que não poderá ser o duque de Bragança disfarçado? O soldado abanou a cabeça com firmeza. No! No, señor! Este caballero es muy joven y totalmente diferente del duque. Además él está en Villa Viciosa. O ministro cofiou a barba, contrariado. Que pena! Se fosse ele o mascarado, poupar-nos-ia muitas preocupações. Tínhamo-lo na mão. Mas o duque é demasiado prudente para se meter numa coisa dessas. Nem lhe passaria pela cabeça! Si señor. Soy de la misma opinión.
O ódio que a população em geral votava ao ministro em parte era por ser filho do já falecido Pedro Barbosa, jurisconsulto estudioso e talentoso e o mais espanholado dos portugueses, que justificara com todos os argumentos possíveis a invasão castelhana, conseguindo, assim, o ódio e o rancor do povo e da nobreza, transformara-se no instrumento de vingança dos castelhanos. Acabou por ser assassinado de forma misteriosa, por espada desconhecida. Miguel Vasconcelos era um ambicioso sem escrúpulos, azedo, maldoso e vingativo, tal como o seu pai. Herdara-lhe o talento, a energia e o carácter estudioso. Nunca esquecera a humilhação que passara com a morte pouco honrosa do progenitor. Recordava-se bem do dia em que o povo furioso partira os vidros de sua casa, às pedradas, obrigando o seu pai a fugir pelos telhados. O seu desejo de vingança era desmedido. Com os vexames que fazia a população passar, principalmente a nobreza, esperava esquecer e, quiçá, consolar-se das injúrias feitas a si e a seu pai. Pode retirar-se, Sanchez. Quando se restabelecer, quero que me descubra o mascarado e os seus encobridores. Esmagá-lo-ei com as minhas próprias mãos!, declarou, fechando a mão com fúria. Levou novo cálice aos lábios e engoliu o líquido de um só trago. Um dos muitos defeitos desta personagem era o vício da bebida. Quero esse homem vivo ou morto, mas quero-o à minha frente! Entretanto, não muito longe dali, o mascarado tirava a máscara, mostrando totalmente o rosto, e sorria, misteriosamente...» In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 12 de junho de 2015

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Agora, se não desse muito trabalho a vossa mercê, gostaria de vos aliviar dessa bolsa que aí tendes à cintura; presumo ter sido resultado de mais um imposto mirabolante arrancado aos meus amigos...»

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«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«(…) Entretanto, os soldados continuavam a revistar as casas, atirando com tudo o que encontravam para a rua, tal era a raiva por não acharem quem procuravam com tanto ardor. De repente, ouviram-se os cascos de um cavalo no empedrado da rua. Os soldados não prestaram atenção e continuaram a espreitar Por todos os cantos capazes de esconder uma pessoa. Uma rapariguinha voltou-se para trás ao mesmo tempo que uma velhota e quando a primeira se preparava para soltar um grito de entusiasmo, a segunda tapou-lhe a boca, também ela com um grande sorriso na boca desdentada. Ei! Ei! De quem é que andam à procura? Não é de mim, com certeza!, gritou uma voz insolente, seguida de uma gargalhada trocista. A sua voz era grave e bem timbrada. Os soldados voltaram-se, dando de caras com a descarada personagem que tanto procuravam. O capitão Gualdim, como ele próprio se intitulava, era delgado e não muito alto. Aparentava ser bastante jovem, talvez na casa dos vinte anos, impetuosos e provocadores. Vestia com elegância um fato de veludo negro, cujas golas arrendadas brancas caíam sobre o peito. Uma magnífica espada, de copos de ferro artisticamente trabalhados, pendia-lhe do boldrié de veludo bordado a ouro. Sobre o lado esquerdo do peito brilhava uma cruz de ouro com o brasão português e as quinas estavam representadas por pedras preciosas. As mãos cobertas com luvas pretas e os punhos brancos da camisa surgiam cheios de renda, como era costume naquela época. Na cabeça tapada totalmente por uma máscara da cor do fato, tinha um chapéu de feltro mole e de abas largas, somente adornado por uma bela pluma branca presa por um travessão de ouro.
O rosto, parcialmente coberto com a máscara, deixava ver o bigode muito fino e elegante, formando uma linha recta, sobre uma boca de linhas bem pronunciadas e de lábios vermelhos carnudos, que fariam inveja à mais bela mulher do reino. Pelos contornos da máscara notava-se um nariz bem feito e quem observasse com atenção veria uns olhos azuis, que naquela precisa altura tinham uma expressão trocista. A pele do rosto e do pescoço era branca. Nos pés, umas botas de couro macio, de canos largos e dobradas sobre os joelhos, a dar com o resto da roupa. Para completar a indumentária do estranho cavaleiro, uma capa de veludo, escura como a noite, pendia-lhe dos ombros, presa por alfinetes de ouro. Vinha montado num cavalo puro-sangue árabe, preto, de belo porte e maneiras majestosas. Cavaleiro e cavalo formavam um todo, tornando quase impossível imaginá-los separados um do outro. Agarrenlo! No lo dejen escapar, por vuestras vidas! Os soldados lançaram-se sobre ele, mas este desviou-se, com um sorriso impertinente, e desembainhou a espada. Esta brilhou, reflectindo um raio de Sol, encandeando o primeiro homem que lhe surgiu à frente. Aproveitando aquela vantagem, desferiu-lhe uma estocada a fundo no braço que pegava na espada, obrigando-o a largá-la. Em pouco mais de cinco minutos, já o excelente espadachim desarmara todos os soldados, ferindo-os superficialmente, singularmente no mesmo sítio: o braço que segurava a arma.
A gente que ali se juntara observava, entusiasmada, a valentia do cavaleiro, voltando-se para um lado e para o outro, como mil demónios, desferindo golpes a torto e a direito. O cavalo parecia adivinhar-lhe os pensamentos e os movimentos seguintes, pois dava voltas e caracoleios, infatigável, virando-se sempre no momento propício. Sanchez, assim se chamava o capitão espanhol, parecia soltar fogo pelas ventas. O rosto, habitualmente avermelhado, estava de um roxo que até metia impressão. Os lábios brancos de raiva davam-lhe um aspecto ainda mais estranho. Tentou pegar na espada caída no chão, mas de novo o mascarado lho impediu, ferindo-o no outro braço. Maldito! Un rayo le caiga en cima, insolente! Um sorriso irónico aflorou aos lábios de Gualdim, deixando ver uns dentes brancos. De uma maneira tão insolente como elegante, tirou o chapéu, cuja pluma quase varreu o chão. Às vossas ordens, capitão Sanchez. Espero que ainda voltemos a nos encontrar e desta vez com uma melhor disposição da vossa parte...
Agora, se não desse muito trabalho a vossa mercê, gostaria de vos aliviar dessa bolsa que aí tendes à cintura; presumo ter sido resultado de mais um imposto mirabolante arrancado aos meus amigos... O capitão estremeceu de fúria e, apesar dos ferimentos, tentou sacar a pistola. Rápido que nem um relâmpago, o mascarado tirou da bota um punhal de lâmina reluzente e lançou-o com uma firmeza assombrosa, indo espetar-se no braço direito do espanhol. Este empalideceu e levou a mão ao braço ferido, largando a pistola. Os dedos abriam-se dolorosamente, sem os conseguir controlar. Agora, se já vos fartastes de brincar Sanchez, agradecia que fizésseis o que vos pedi com todas as boas maneiras que me ensinaram...» In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

sábado, 23 de maio de 2015

Memória do Fogo. Eduardo Galeano. «Longe, na costa, o monge Roberto falsifica selos como quem reza rosários, e assim as barras de ouro mal havidas mostram o selo da Coroa. Roberto, monge beneditino do convento de Sorocaba…»

jdact e wikipedia

As caras e as Máscaras. 1701 Ouro Preto. Artes Malabares
«(…) O morro de prata de Potosí não é miragem, nem os socavões fundos do México estão guardando apenas delírios e trevas; e os rios do centro do Brasil dormem em leitos de ouro de verdade. O ouro do Brasil é distribuído em sorteios ou punhaladas, pela sorte ou pela morte. Ganha imensas fortunas quem não perde a vida, embora o rei português fique com a quinta parte de tudo. A quinta parte, aliás, é modo de falar. Muito, muito ouro foge de contrabando e isso não pode ser evitado nem que ponham tantos guardas como árvores nos bosques fechados da região. Os frades das minas brasileiras dedicam mais tempo a traficar ouro que a salvar almas. Os santos de madeira oca servem de vasilhame para tais misteres. Longe, na costa, o monge Roberto falsifica selos como quem reza rosários, e assim as barras de ouro mal havidas mostram o selo da Coroa. Roberto, monge beneditino do convento de Sorocaba, fabricou também uma chave toda poderosa, que derrota qualquer fechadura.

1703. Lisboa. O ouro, passageiro em trânsito
Faz um par de anos, o governador-geral do Brasil lançou profecias tão certeiras quanto inúteis. Da Bahia, João Lencastre advertiu ao rei de Portugal que os bandos de aventureiros converteriam a região mineira em santuário de criminosos e vagabundos; e acima de tudo, anunciou ao rei outro perigo muito mais grave: em Portugal poderia acontecer, com o ouro, a mesma coisa que na Espanha com a prata; na mesma hora em que recebe a sua prata da América, a Espanha lhe diz adeus com lágrimas nos olhos. O ouro brasileiro poderia entrar pela baía de Lisboa e continuar viagem pelo rio Tejo, sem parar em chão português, rumo a Inglaterra, França, Holanda, Alemanha... Como se fosse eco da voz do governador, é assinado o tratado de Methuen. Portugal pagará com o ouro do Brasil os tecidos ingleses. Com o ouro do Brasil, colónia alheia, a Inglaterra dará um tremendo impulso ao seu desenvolvimento industrial.

1709. Ilhas de Juan Fernández. Robinson Crusoé
O vigia anuncia fogos distantes. Para buscá-los, os flibusteiros do Duke mudam a rota e põem a proa em direcção à costa do Chile. A nau se aproxima das ilhas de Juan Fernández. Uma canoa, um talho de espuma, vem ao seu encontro, lá da fila de fogueiras. Sobe na coberta um novelo de cabelos e imundície, que treme de febre e emite ruídos pela boca. Dias depois, o capitão Rogers vai entendendo. O náufrago chama-se Alexander Selkirk e é um colega escocês, sábio em velas, ventos e saques. Chegou à costa de Valparaíso na expedição do pirata William Dampier. Graças à Bíblia, ao punhal e ao fuzil, Selkirk sobreviveu mais de quatro anos numa dessas ilhas sem ninguém. Com tripas de cabrito soube armar artes de pescaria; cozinhava com sal cristalizado nas rochas e para a iluminação usava óleo de lobos-marinhos. Construiu uma cabana nas alturas e, ao lado, um curral de cabras. No tronco de uma árvore marcava a passagem do tempo. A tempestade lhe trouxe restos de um naufrágio e também um índio quase afogado. Chamou ao índio Sexta-Feira, porque esse era o dia. Dele aprendeu o segredo das plantas. Quando chegou o grande barco, Sexta-Feira preferiu ficar. Selkirk jurou que ia voltar, e Sexta-Feira acreditou. Dentro de dez anos, Daniel Defoe publicará, em Londres, as aventuras de um náufrago. Em seu livro, Selkirk será Robinson Crusoé, nascido em York. A expedição do pirata britânico Dampier, que tinha limpo a costa do Peru e do Chile, se transformará numa respeitável viagem de comércio. A ilhota deserta e sem história saltará do Pacífico para a boca do Orinoco, e o náufrago viverá nela vinte e oito anos. Robinson também salvará a vida de um selvagem canibal: master, amo, será a primeira palavra que ensinará em língua inglesa. Selkirk marcava com a ponta de uma faca as orelhas de cada cabra que capturava. Robinson projectará a divisão da ilha, seu reino, para vendê-la em lotes; marcará cada objecto que recolher do barco naufragado, fará a contabilidade de tudo que produza na ilha e fará o balanço de cada situação, o dever das desgraças, o haver das sortes. Robinson atravessará, como Selkirk, as duras provações da solidão, o pavor e a loucura; mas na hora do resgate Alexander Selkirk é um espantalho esfarrapado que não consegue falar e se assusta com tudo. Robinson Crusoé, ao contrário, invicto domador da natureza, voltará para a Inglaterra, com o seu fiel Sexta-Feira, fazendo contas e projetando aventuras.

1711. Paramaribo. Elas calaram-se
Os holandeses cortam o tendão de Aquiles do escravo que foge pela primeira vez, e quem insiste fica sem a perna direita; mas não há jeito de evitar que se difunda a peste da liberdade no Suriname. O capitão Molinay desce pelo rio até Paramaribo. A sua expedição volta com duas cabeças. Foi preciso decapitar as prisioneiras, porque já não se podiam mover inteiras através da selva. Uma chama-se Flora, a outra, Sery. Elas ainda têm os olhos pregados no céu. Não abriram a boca apesar dos açoites, do fogo e das tenazes incandescentes, teimosamente mudas como se não tivessem pronunciado palavra alguma desde o remoto dia em que foram engordadas e untadas de óleo e lhes rasparam os cabelos, desenhando-lhes nas cabeças estrelas e meias-luas, para vendê-las no mercado de Paramaribo. Todo o tempo mudas, Flora e Sery, enquanto os soldados lhes perguntavam onde se escondiam os negros fugidos: elas olhavam o céu sem piscar, perseguindo nuvens maciças como montanhas que andavam lá no alto, à deriva.

Elas levam a vida nos cabelos
Por mais negros que crucifiquem ou pendurem em ganchos de ferro que atravessam as suas costelas, são incessantes as fugas nas quatrocentas plantações da costa do Suriname. Selva adentro, um leão negro flameja na bandeira amarela dos cimarrões. Na falta de balas, as armas disparam pedrinhas ou botões de osso; mas a floresta impenetrável é o melhor aliado contra os colonos holandeses. Antes de escapar, as escravas roubam grãos de arroz e de milho, pepitas de trigo, feijão e sementes de abóbora. Suas enormes cabeleiras viram celeiros. Quando chegam nos refúgios abertos na selva, as mulheres sacodem as cabeças e fecundam, assim, a terra livre». In Eduardo Galeano, Memória do Fogo, As Caras e as Máscaras, 1997, tradução de E. Nepomuceno, L&PM Editores, 2004, ISBN 978-852-542-917-9.

Cortesia de LPM/JDACT

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Os Mastins. Álvaro Guerra. «Portanto, o caminho empedrado, a ponte, a nora, o poço e a igreja são os incertos sinais da idade, não da Aldeia, mas do Homem no Lugar. Há, ainda, ou havia, aquele pilar torneado com coroas e brasões…»

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Os lugares. A aldeia
«A Aldeia que fica no fim do mundo, para lá de brenhas e penedos, com a serventia ruim de caminhos lamacentos ou empoeirados, mudando de traçado e piso ao ritmo das estações, a Aldeia, onde o tempo se mede por colheitas e gerações e o sol, a lua, os ventos, granizo, chuva, geada, neve, calor e frio determinam o trabalho e o pão dos homens que lá vivem, a Aldeia embiocada nas duras trevas de muitos anos iguais e somados, rastejando, espalmada e quase engolida pela terra de onde nasceu, é um lugar onde o tempo deixou as suas marcas mas onde a História nada fez que mereça ser contado, alguma gesta, tratado, batalha, revolução, morte de homem público, a não ser tudo aquilo que invisivelmente a mudou dentro das quatro paredes de cada casa, ou visivelmente alterou o seu aspecto irregular. E, no entanto, o poço aberto no local a que, talvez impropriamente, se possa chamar o centro do povoado e a nora parada, abandonada e esquecida como um esqueleto sem sepultura, datam de há largos séculos, aberto e engenhada pelos antigos donos do território, gentes de outros lugares para onde regressaram empurradas por novos invasores; e a ponte sobre o ribeiro bem como o caminho empedrado que se afunda na planície, para lá da charneca, o único transitável todo o ano nas sete léguas em redor, são obra de um ainda mais remoto povo que veio do Nascente, sulcando mares e transpondo montanhas, em legiões eriçadas de lanças. Povos que chegaram e partiram com séculos de intervalo, apagando com as patas dos cavalos e as rodas dos carros a marca dos que os precederam, modificando mais a fisionomia dos homens do que a dos lugares, criando novos povos e raças de tal modo mescladas e híbridas que as origens do sangue que hoje corre nas veias dos camponeses da Aldeia se perde nas conjecturas e no muito tempo decorrido. Os últimos a chegar trouxeram cruzes, muitas cruzes, primeiro apenas nos punhos das espadas, nos pendões, nas armaduras, cruzes que depois espalharam pelos caminhos, pelos muros, pelas casas, marcos da posse e signos da verdade nova. Se todos deixaram o traço indelével da sua passagem fizeram-no nos objectos, nas coisas que, por um acto de orgulho e inconformismo, construíram ou criaram em matérias tão resistentes e duráveis que nem os incêndios, as pestes, as fomes, os terramotos, as inundações, as guerras ou, simplesmente, os anos foram capazes de beliscar na sua orgulhosa e inconformada perenidade.
Portanto, o caminho empedrado, a ponte, a nora, o poço e a igreja são os incertos sinais da idade, não da Aldeia, mas do Homem no Lugar. Há, ainda, ou havia, aquele pilar torneado com coroas e brasões em baixos relevos arredondados, erecto, no meio do que foi ou pretendera ser um largo, praça pública ou terreiro, aquele pilar a sustentar coisa nenhuma com três degraus de pedra a contornar a base e quatro ferros cravados lá em cima formando uma cruz horizontal de pontas em gancho, o pelourinho, mas isso era antes da gente da cidade ter vindo para laboriosamente o transplantar lá para onde entenderam ser necessário. Agora, são só vinte e seis casas, colocadas um pouco ao acaso com uma rua por traço de união, uma espécie de rua, forum, ou propriedade comum, debicada por escassas e assustadas galinhas, domínio de rafeiros escanzelados e refilões, devassado por ágeis travessias de gatos mais selvagens que domésticos, a rua, a espécie de rua, com lama de palmo no Inverno e um espesso tapete de pó avermelhado no estio, testemunha, desde o limite que a memória alcança, as desatinadas cavalgadas dos senhores da caça, as ronceiras e repetidas viagens dos carros de bois carregados de uvas, ou de molhos de espigas, ou de mato, ou de esterco, as guisalhantes passagens dos grandes rebanhos senhoriais, os melancólicos e numerosos passos dos ranchos de alugados e o mais que, segundo as épocas, por lá tem que passar». In Álvaro Guerra, Os Mastins, Prelo Editora, Lisboa, 1967.

Cortesia de EPrelo/JDACT

sábado, 25 de abril de 2015

Refúgio Perdido. Soeiro Pereira Gomes. «Quase à porta da Universidade, retrocedi em busca doutra estrada mais longa e, por isso, mais ruim. E fiquei na encruzilhada da Vida, receoso e pedinchão, a bater a todas as portas»

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Estrada do meu destino
«Tudo me foi estranho desde o primeiro dia. O chefe, rotundo e severo, indicou-me o lugar no escritório. Apresentou-me: O novo empregado, João Silva. Os outros tomaram ares solenes nas secretárias, como reis em trono, e miraram-me. Adivinhei-lhes o pensamento: um concorrente. Enfático, o chefe pronunciou, um a um, seus nomes pesados de gerações ilustres. Curvaram por favor o tronco altivo, sem que os
braços se afastassem dos braços das cadeiras. Seguros ao lugar, não fosse eu pretendê-lo. Depois, fiquei só, repassado do silêncio e angústia. Os outros fecharam a sete chaves as portas brazonadas das suas vidas. Olhei furtivamente a sala bafienta, pejada de papéis e mesas alinhadas, monotonamente iguais. Do subconsciente, afloraram-me impressões recalcadas… Era uma manhã nevoenta de outono, e eu, mala dos livros às costas a pesar como chumbo, arrastava na estrada os pés sonâmbulos, para não ouvir os estalidos irritantes das folhas secas dos plátanos. Meu pai deixara-me à porta da escola. Faz-te homem, dissera. Aprende a ser alguém na Vida. Alguém… João Silva, o novo empregado. Eu estava outra voz na aula, entre mesas alinhadas e caras estranhas, ignorante e tímido. Seu Silva, tem de melhorar essa caligrafia. O mestre, pensei, à espera que a vara me caísse sobre os dedos. Mas as palavras doeram mais. Aos olhares trocistas dos outros, juntou-se o olhar inquisitorial do chefe. Má letra, seu Silva. Se meu pai fosse vivo… Ele, que sonhava ver-me o doutor da família, dizia que eu tinha letra de médico. Enganou-se comigo e com várias outras letras que que arruinaram a loja. Más letras, certamente. Quase à porta da Universidade, retrocedi em busca doutra estrada mais longa e, por isso, mais ruim. E fiquei na encruzilhada da Vida, receoso e pedinchão, a bater a todas as portas. Por fim, entrei para ali, de fato roçado e estômago vazio. Porta de salvação, julguei. De manhã, o chefe aparecia no escritório, impante, pedagogo. Seu Silva, corrija essa conta. Afinal, você não sabe nada. Sabia. Vinham-me à ideia lições inteiras que me deram foros de bom aluno. Sempre notas altas em Ciências... Esforçava-me por gritar: Fiz o 6.º ano do liceu. Sei mais do que o senhor. Mas calava-me e ouvia. Quem recebe, deve seu Silva. Aquilo era piada aos duzentos escudos que eu recebia no fim do mês. Os outros riam, à sucapa. Que vergonha! Enervado, mais errava e confundia. E todo o dia o mesmo verrinar obsecante: Raspe, seu Silva... Emende! O pêndulo do relógio a embalar o tempo (cada minuto, uma hora de angústia). E o meu nome a rasgar o silêncio, Silva... Ó Silva... O toque das 6 horas punha fim ao suplício. Até amanhã, diziam. Até um dia, pensava eu. Recordava o liceu à hora buliçosa da saída, tu cá, tu lá com os amigos; capa e batina destacando a condição; passo firme a caminho de porta certa. E partia sozinho, alheio à liberdade retomada, fato ruço no fio e passo trôpego a caminho de porta incerta. À noite deambulava pelas ruas. Nos cafés, não entrava com vergonha dos antigos companheiros, já doutores. Decerto, fariam vista grossa. Mas o meu fato dava nas vistas… Certa vez, entrei numa taberna. Gente maltrapilha em volta de mesas toscas, a beber e fumar. Um copo do vinho branco, pedi a medo. Desconfiados, formaram grupos sussurrantes, que m olhavam de alto a baixo. Adivinhei-lhes as palavras: um intruso. E retirei-me consternado. O meu fato dava nas vistas…
Agora, tudo me parece um sonho. O suco gástrico corroeu-me o estômago e as ideias. No entanto, a tijela de sopa que os cantoneiros repartiram comigo, identificou-me com o mundo. Recordo. Eu estava aqui estirado na berma da estrada, à hora da sesta, e o sol entrava-me pelos rasgões das calças, suspensas da gravata que tirei do pescoço. Um lugar ao sol. Há um mês que deixara o escritório, de regresso à encruzilhada. Já não era o Silva, silva rasteira entre cedros do antanho. Encontrara-me. Os cantoneiros, a meu lado, levantaram-se de enxada no ombro. Então, camarada?, perguntaram, sorridentes. Olhei a estrada longa, reberberando ao sol. Estrada do meu destino e de todos os Silvas quo têm má letra. Peguei na enxada e segui-os». In Soeiro Pereira Gomes, Refúgio Perdido, Inéditos e Esparsos, (O Pastiure, publicado no nº 318 de O Diabo, de 26 de Outubro de 1940), Edições SEN, Porto, 1950.

Cortesia de ESEN/JDACT

domingo, 19 de abril de 2015

Refúgio Perdido. Soeiro Pereira Gomes. «Nunca pensara ser menino para alguém, depois que a mãe se finara. E ele, longe, muito longe, num mundo em que todos os garotos eram meninos e as quintas não tinham muros…»

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O Pastiure
«Mau como as cobras só ele. Pior. Porque as cobras, na verdade, não fazem mal a ninguém. E ele era mesmo mau. Os homens batiam-lhe, as mulheres detestavam-no, e até os garotos seus iguais fugiam dele a sete pés, mal punha pé na rua. Lá vem o Pastiure… Era o seu nome. Dera lho na pia do baptismo, havia onze anos, um lavrador opulento, que considerava Pasteur o salvador da humanidade e dos seus rebanhos. Dera-lhe o nome e nada mais. Embora profeticamente tivesse garantido que o afilhado seria digno do nome célebre. Aqueles olhos vivos não o enganavam. E lá vivo, era ele. Que o dissessem os caseiros de todas as quintas das redondezas. Não havia muro que não saltasse, ainda que cheio de vidros como facas. Aquele, nem a tiro. O padrinho queria-o sábio, e ali o tinha, sem rival na ladroeira de fruta. Outros roubos, não; mas fruta… A mãe, antes de morrer, bem lhe pedira que aprendesse. Escreves uma carta por teu punho ao padrinho, e pronto. Faz de ti um homem. Ora. Homem já eu sou.
E era mesmo. Ainda o vestido do baptismo não se puira no corpo dos irmãos, e já ele dava brado na rua e nos pomares. Que na escola, então, fora o fim do mundo e da carreira do sábio. Mas sabia de palavrões e indecências, como poucos. Pedrada ou asneira, tinha-as na ponta da unha e da língua. Fosse a quem fosse. Então não desafiou ele a classe inteira, mesmo nas barbas do mestre, só porque o acusaram de roubar um lápis? Quem foi? O Pastiure, senhor professor. De zangado que estava, o mestre nem se lembrou do corrigir a pronúncia. Quero provas. Alguém viu? Ninguém vira. Mas todos iam jurar que fora ele. Um ladrão de fruta… Sempre a agravante dos delitos passados, como se de um cadastrado se tratasse. O mesmo que no Posto, há um ano, quando preso por suspeita. Foste tu quem assaltou o pomar da Tapadinha… Fui. E quem varejou as amendoeiras do Cruzeiro... Sim senhor. Ora pois, cesteiro que faz um cesto, faz um cento. De nada valeu protestar. Culpado. E, no entanto, se quisesse, bem podia indicar o autor da façanha. Mas tinha brio. Denúncia, como os outros na escola, isso nunca. Antes chorar de raiva, apesar da troça dos guardas. Ah!, mas na escola, a afronta exigia desforço. Um ladrão… Ia a frase em meio, e já os tinteiros e livros andavam num borborinho. Escândalo tamanho, que, por vergonha, até o senhor professor deixou a escola. Desde então, o Pastiure foi o autor declarado de todos os delitos inconfessados. Capaz de tudo é ele, diziam.
Verdade seja, que uma vez, pelo menos, despejara os bolsos no bornal de um pobre, só porque este lhe chamara meu menino. Porém, esta e outras boas acções nuncaa foram levadas à conta dos seus desmandos. Meu menino… O estômago bem se contraíra a protestar. Mas deu tudo, e mais daria, se tivesse. Nunca pensara ser menino para alguém, depois que a mãe se finara. E a ruminar naquilo muitos dias, até se esqueceu dos frutos que sorvavam nos pomares, por falta de colheita. No povoado, pasmavam de tal sossego. Velhaco, como Judas. Anda a preparar algumaE ele, longe, muito longe, num mundo em que todos os garotos eram meninos e as quintas não tinham muros. Porém, tempos depois, fez aquela patifaria dos vidros partidos no cinema. Foi num domingo. Ainda o cartaz não estava na praça a anunciar a Vida de Pasteur e já havia bicha na bilheteira. E o caso não era para menos. Até o senhor regedor disse a quem o quis ouvir: Assim se perde a autoridade. Quem seria capaz de pensar que o tunante do Pastiure daria assunto para um fil. Contra o costume, a lotação esgotou-se. Ricos e pobres, todos foram ao cinema nossa noite. Até o caseiro da Quinta Grande, que prometera ao amo descobrir o ladrão dos dióspiros, andou a pé meia légua para confirmar a suspeita. Só o garoto, o herói, por mais que andasse, não conseguiu bilhete. Ficou cá fora, choroso, a pedinchar aos porteiros uma entrada por favor. O costume. Como se o senhor empresário fizesse favores a qualquer. Riram-se dele os porteiros. E foi então, de repente, que apedrejou as janelas e entrou à viva força, Tal e qual como o Tom Mix. … Levou pancada o foi preso. Que patife, o Pastiure. Ainda se alguém se lembrasse de chamar-lhe meu menino…» Agosto de 1940. In Soeiro Pereira Gomes, Refúgio Perdido, Inéditos e Esparsos, (O Pastiure, publicado no nº 318 de O Diabo, de 26 de Outubro de 1940), Edições SEN, Porto, 1950.

Cortesia de EdiçõesSEN/JDACT

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Memória do Fogo. Eduardo Galeano. «Lança raios, lança raios, colibri! Buscando o paraíso chegaram até às costas do mar e até ao centro da América. Rodaram selvas e serras e rios, perseguindo a terra nova, a que será fundada sem velhice nem doença»

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As caras e as Máscaras
«O tigre azul romperá o mundo. Outra terra, a que não tem mal, a que não tem morte, vai nascer da aniquilação desta terra. Ela pede que seja assim. Pede a morte, pede o nascimento, esta terra velha e ofendida. Ela está cansadíssima e, de tanto chorar por dentro, ficou cega. Moribunda, atravessa os dias, lixo do tempo, e quando é noite inspira piedade às estrelas. Logo logo, o Pai Primeiro escutará as súplicas do mundo, terra querendo ser outra, e então soltará o tigre azul que dorme debaixo da sua rede. Esperando esse momento, os índios guaranis peregrinam pela terra condenada. Tem alguma coisa que dizer para nós, colibri? Dançam sem parar, cada vez mais leves, mais voadores, e cantam os cantos sagrados que celebram o próximo nascimento da outra terra. Lança raios, lança raios, colibri! Buscando o paraíso chegaram até às costas do mar e até ao centro da América. Rodaram selvas e serras e rios, perseguindo a terra nova, a que será fundada sem velhice nem doença nem nada que interrompa a incessante festa de viver. Os cantos anunciam que o milho crescerá por sua conta e as flechas voarão sozinhas na floresta; e não serão necessários o castigo e o perdão, porque não haverá proibição nem culpa.

1701. Vale das Salinas. A Pele de Deus
Os índios chiriguanos, do povo guarani, navegaram o rio Pilcomayo, há anos ou séculos, e chegaram até à fronteira do império dos incas. Aqui ficaram, frente às primeiras alturas dos Andes, esperando pela terra sem mal e sem morte. Aqui cantam e dançam os perseguidores do paraíso. Os chiriguanos não conheciam o papel. escobrem o papel, a palavra escrita, a palavra impressa, quando os frades franciscanos de Chuquisaca apareceram nesta comarca depois de muito andar, trazendo livros sagrados nos alforjes. Como não conheciam o papel, nem sabiam que precisavam dele, os índios não tinham nenhum nome para ele. Hoje dizem pele de Deus, porque o papel serve para mandar palavras aos amigos que estão longe.

1701. São Salvador, Bahia. Palavra da América
O padre António Vieira morreu na mudança de século, mas não a sua voz, que continua abrigando o desamparo. Em terras do Brasil ecoam recentes, sempre vivas, as palavras do missionário dos infelizes e dos perseguidos. Eles não se enganavam, disse, quando liam o destino nas entranhas dos animais que sacrificavam. Nas entranhas, disse. Nas entranhas, e não na cabeça, porque o melhor profeta é aquele capaz do amor, e não o capaz da razão.

1701. Paris. Tentação da América
No seu gabinete de Paris, está em dúvida um sábio geógrafo. Guillaume Deslile desenha mapas exactos da terra e do céu. Incluirá o Eldorado no mapa da América, pintará o misterioso lago, como já é costume, em alguma parte do alto Orinoco? Deslile pergunta se existem de verdade as águas de ouro que Walter Raleigh descreveu grandes como o mar Cáspio. São ou foram de carne e osso os príncipes que mergulham e nadam, ondulantes peixes de ouro, à luz das tochas? O lago aparece em todos os mapas desenhados até agora. Às vezes, chama-se Eldorado; às vezes, Parima. Mas Deslile conhece, de ouvir falar ou de ler por aí, histórias que o fazem duvidar. Buscando o Eldorado muitos soldados da fortuna penetraram no distante novo mundo, lá onde se cruzam os quatro ventos e se misturam todas as cores e dores, e não encontraram nada. Espanhóis, portugueses, ingleses, franceses e alemães atravessaram abismos que os deuses americanos tinham cavado com unhas ou dentes, violaram as selvas aquecidas pela fumaça de tabaco soprada pelos deuses, navegaram rios nascidos de árvores gigantes que os deuses tinham arrancado pela raiz, e atormentaram ou mataram índios que os deuses tinham criado com saliva, sopro ou sonho. Mas no ar foi-se embora e no ar vai-se embora, sempre, o ouro fugidio, e se desvanece no lago antes que alguém chegue. Eldorado parece nome de uma tumba sem ataúde ou sudário. Há dois séculos o mundo cresceu e se fez redondo, e desde então os perseguidores de ilusões saem, de todos os cais, para as terras da América. Amparados por um deus navegante e conquistador, atravessam, comprimindo-se nos navios, o mar imenso. Junto a pastores e tropeiros que a Europa não matou de guerra, peste ou fome, viajam capitães, mercadores, vagabundos, místicos e aventureiros. Todos buscam o milagre. No outro lado do mar, mágico mar que lava sangues e transforma destinos, se oferece, escancarada, a grande promessa de todos os tempos. Lá se vingarão os mendigos. Lá se transformarão em marqueses os esfarrapados, em santos os 25 aventureiros e em fundadores os condenados à forca. As vendedoras de amor se farão donzelas de alto dote.

Sentinela da América
Na noite pura viviam os índios, os muito antigos, na cordilheira dos Andes. O condor trouxe o sol para eles. O condor, o mais velho dos voadores, deixou cair uma bolinha de ouro entre as montanhas. Os índios apanharam a bolinha e sopraram com toda a força dos pulmões, e soprando o ouro para o céu, no céu deixaram o ouro aceso para sempre. O sol suava ouro, e com o ouro de seus raios os índios modelaram os animais e as plantas que povoam a terra. Uma noite, a lua brilhou envolvida por três auréolas, sobre as montanhas: uma auréola de sangue, anunciadora de guerra; outra de fogo, anunciadora de incêndio; e uma auréola negra, de ruína. Então os índios fugiram para os altos paramos, carregando o ouro sagrado, e junto com o ouro se deixaram cair no fundo de lagoas e vulcões. O condor, aquele que trouxe o sol para os andinos, é o zelador desses tesouros. Com grandes asas imóveis sobrevoa os picos nevados e as águas e as crateras fumegantes. O ouro avisa a ele quando vai chegar a cobiça: o ouro geme, e assovia, e grita. O condor se lança, vertical, e seu bico arranca os olhos dos ladrões e suas garras estraçalham a carne deles. Só o sol pode ver as costas do condor, sua cabeça calva, seu pescoço enrugado. Só o sol conhece a sua solidão. Visto da terra, o condor é um voo invulnerável». In Eduardo Galeano, Memória do Fogo, As caras e as Máscaras, 1997, tradução de E. Nepomuceno, L&PM Editores, 2004, ISBN 978-852-542-917-9.

Cortesia de LPM/JDACT

sábado, 14 de fevereiro de 2015

O Último Conjurado. Isabel Ricardo. «Com o passar dos anos, a reacção contra o domínio espanhol foi-se tornando cada vez maior, como uma bola de neve, até se tornar numa perigosa avalanche»

jdact

«Maldito seja o cardeal que não apontou sucessor, deixando, assim, Portugal envolto em lágrimas e dor»

«Corria o ano de 1639 da GNS Jesus Cristo. Há quase sessenta anos que Portugal vivia sob o domínio espanhol. Ia longe o desgraçado dia da invasão castelhana, em que a maior parte da nobreza do nosso reino quase oferecera de bandeja a pátria, em troca de meia dúzia de moedas de ouro. Morrera António, Prior do Crato, em Paris, exilado, desgostoso de tanto batalhar para sacudir o jugo estrangeiro do seu querido país, sem, no entanto, o conseguir. O povo, esse, jamais esquecera o seu amado Prior do Crato, rei por apenas dois meses e a última esperança para a tão preciosa independência. Cioso desta, sempre detestou a agregação do nosso reino ao de Castela, alimentando o rancor pelos nobres, por estes nunca terem feito nada para modificarem aquela situação. Com a subida ao trono de Filipe IV em 1621, e do seu odioso ministro, o conde-duque Olivares, o descontentamento tornou-se geral. Este poderoso ministro, que votava um ódio irracional a Portugal, adoptou uma política de dureza e tomou medidas que desagradaram profundamente aos portugueses. Choviam impostos em cima de impostos e o povo não os queria pagar, pois sabia estar a contribuir para despesas alheias. O conde-duque desejava, com tantos impostos e humilhações, pôr Portugal de rastos, para depois o poder subjugar pela força das armas, reduzindo-o a uma simples província de Espanha. O seu desejo era esse: transformar Espanha num só país, com leis únicas e, assim, tirar a autonomia a Portugal e à Catalunha. Indo contra os foros do reino jurados pelo primeiro Filipe, segundo de Espanha, entraram oficiais e tropas castelhanas no nosso país, com o pretexto de defenderem a costa contra os corsários ingleses, porque a Espanha estava envolvida na Guerra dos Trinta Anos, guerreando-se com França, Inglaterra e Holanda.
Outra das medidas impopulares do conde-duque foi o recrutamento forçado das nossas tropas para combaterem nessa guerra. Com o passar dos anos, a reacção contra o domínio espanhol foi-se tornando cada vez maior, como uma bola de neve, até se tornar numa perigosa avalanche. O povo começou a revoltar-se a partir de 1623. Os motins sucediam-se uns aos outros, devido a novos impostos e a outros problemas, e o mais perigoso foi o de Évora. Nessa altura, o povo não recebeu ajuda alguma do clero nem da nobreza, que apenas procuraram acalmar os ânimos, receosos das medidas que o governo de Madrid iria fazer cair sobre Évora, o que não tardou a acontecer... O povo revoltou-se contra eles, desta vez sem razão, pois a maioria do alto clero e da nobreza compartilhavam do mesmo sentimento: o desejo pela tão ambicionada independência. Na altura em que a nossa história se desenrola era vice-rainha de Portugal, Margarida, duquesa de Mântua e prima de Filipe IV e os portugueses nada tinham a apontar-lhe, pelo contrário, até gostavam dela, por ser amável e muito religiosa. Para secretário de Estado foi escolhido o odiado e detestado Miguel Vasconcelos, que conseguia inventar os impostos mais injustos imaginados, para angariar mais e mais dinheiro para Madrid. Servil adulador do conde-duque, Vasconcelos odiava e humilhava igualmente a nobreza, o clero e o povo, semeando ódios e rancores. A sua nomeação dera-se em 1635, pouco tempo depois da de Margarida, e houve grande irritação dos ânimos de toda a gente. Os impostos que até ali tinham sido pesadíssimos tornaram-se exorbitantes. O dia estava chuvoso, mas, de tempos a tempos, o Sol espreitava, um pouco tímido, como se estivesse a jogar às escondidas. Havia um grande alarido numa parte bem conhecida da bonita e airosa Lisboa. Soldados castelhanos extremamente irritados, não só com a chuva, mas principalmente pelo motivo por que se encontravam ali, mexiam-se de um lado para o outro, interrogando os habitantes e invadindo-lhes as casas, sem cerimónia alguma. Quiero ese enmascarado preso hoy! El fué visto por aquí y no estará muy lejos. El ministro me dio orden para matarlo, si resistir a la prisión, afirmou o capitão dos soldados, cujo bigode farfalhudo tremia de nervosismo cada vez que falava. Era alto e ruivo, de feitio irritadiço, e empurrava, impaciente, quem lhe surgia à frente. Um grupo de populares rodeava-os, indignados com a confusão e refilando com eles. Já lhes dissemos mil vezes que o capitão Gualdim não está aqui! O que é que ele fez desta vez?, perguntou uma mulher baixa e robusta, em ar de desafio. Um soldado português voltou-se para ela e disse a meia voz, com os cantos da boca tremendo, como se tivesse uma imensa vontade de rir: O capitão Gualdim ontem fez uma emboscada a Vasconcelos quando ele se ia deitar. Deixou-lhe espetada na almofada da cama uma mensagem com ameaças terríveis e o ministro está doido de raiva... Os olhos das pessoas brilharam de prazer e reconhecimento.
Um velho, todo vergado pelo peso dos quase noventa anos e cabelos brancos como a neve, levantou a mão trémula ao céu. A luz que tinha nos olhos denunciava bem a vida que no corpo lhe faltava. Um dia, o rei Sebastião há-de voltar no seu cavalo branco para arrancar o país desta escória que nos governa! Os outros concordaram com ele, mais por respeito do que por outra coisa. Bem sabiam o quanto era impossível o que o velho dizia. O monarca Sebastião, se ainda estivesse vivo, devia estar tão idoso quanto ele; mas o sentimento é que contava... Naquele tempo ainda havia uma grande parte da população que acreditava que o rei desaparecido em Alcácer Quibir, em 1578, voltaria numa manhã de nevoeiro, tão jovem quanto partira, para libertar Portugal dos espanhóis. Os jesuítas, sobretudo, faziam do sebastianismo uma arma perigosa, pois alimentavam, assim, as esperanças da população na restauração de Portugal. Desconfiava-se deles nos motins de Évora, na tão falada revolta do Manuelinho, pois eles eram inimigos mortais do domínio espanhol e havia razão nessas desconfianças. Os eclesiásticos tentavam excitar o povo contra os espanhóis, de todas as maneiras possíveis. Apesar da rivalidade existente entre Jesuítas e Dominicanos, ambas as ordens haviam achado por bem trabalharem em conjunto na restauração da pátria. Recorrendo a profecias e com o auxílio do sebastianismo, pressagiavam a queda do domínio espanhol e o regresso de um rei português, João, duque de Bragança, que os mais crédulos acreditavam ter sido encarnado pelo desditoso Sebastião». In Isabel Ricardo, O Último Conjurado, Saída de Emergência, 2014, ISBN 978-989-637-676-5.

Cortesia de SEmergência/JDACT

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

História da cidade de São Paulo. Publicado originalmente em 1954. Alfredo Taunay. «Encetou-se em 1560 a vida municipal de São Paulo do Campo de Piratininga sob as mais graves apreensões. A 20 de Maio de 1561 pedia armas e reforço de povoadores»

Cortesia de wikipedia

«Parece impossível determinar-se quem haja sido o primeiro europeu fixado na costa paulista e no lagamar santista. De quantos, cujos nomes sobreviveram, imortal relevo a um coube pelos méritos excepcionais de civilizador e povoador: João Ramalho, que, talvez por volta de 1515, haja pisado em terra brasileira, não se sabe como nem por quê. Outros brancos, assaz numerosos para o tempo, umas poucas dezenas talvez, quase todos portugueses, congregaram-se nas cercanias de São Vicente e mantiveram contacto com Manuel I e João III, o que determinaria a expedição de Martim Afonso Sousa e a consequente fundação oficial, da primeira povoação estável do Brasil, a de 22 de Janeiro de 1532. Desde anos morador de Serra Acima, na região de Piratininga, foi João Ramalho o grande agente do êxito da colonização que surgia. Em 1536 encetou Brás Cubas as primeiras edificações de Santos. Dos emigrados com Martim Afonso diversos galgaram a Serra de Paranapiacaba atraídos pelo clima e as vantagens rurais estabelecendo-se nos campos de Piratininga a exemplo e em torno de Ramalho. Em 1549, instalou-se o Governo-Geral do Brasil. Em companhia do primeiro Governador chegaram Manuel Nóbrega e os jesuítas missionários de quem era o chefe. Pouco depois para São Vicente partiu o padre Leonardo Nunes, que em 1550 ali fundou o novo Colégio da Companhia, encetando com extraordinário vigor a obra catequística entre os numerosos gentios de Serra Acima. Decidiu Nóbrega realizar uma fundação bem no interior das terras e assim criou a missão de Maniçoba, na região de Itu. Em 1553, resolveu Tomé Sousa conceder foral de vila a um arraial de João Ramalho na região piratiningana, ordenando que se elevasse em torno de uma ermida consagrada a Santo André. Efectivou- se tal acto sendo Ramalho nomeado capitão-mor e alcaide-mor do campo, do seu novo azemel. Informado das condições que regiam o altiplano, Manuel Nóbrega, que viera a São Vicente, entendeu que a missão de Maniçoba se achava muito afastada do mar, ordenando-lhe a transferência para perto do núcleo ramalhense. Já em Agosto de 1553 fixara tal resolução, escolhendo o local onde queria se erguesse o primeiro colégio da sua Companhia, fundado no interior das terras brasileiras.
Foi nesse local que o padre Manuel Paiva, superior da nova missão, celebrou a 25 de Janeiro de 1554, a famosa missa evocadora da conversão do Apóstolo das Gentes, acto inicial da existência do pequenino arraial de São Paulo do Campo de Piratininga, vila em 1560 e cidade em 1711. A esta cerimónia inesquecível realizada no local chamado o Pátio do Colégio, assistiu um noviço de vinte anos, a quem caberia o epíteto glorioso de Taumaturgo do Brasil e as honras dos altares: o venerável José Anchieta. Encetou São Paulo a vida protegida pelo amparo do morubixaba guaianás de Inhapuambuçu, homem do maior prestígio, Tibiriçá, o guerreiro dos olhos encovados já afeiçoado aos brancos pelas relações de sua filha, Isabel, com João Ramalho, de quem houvera vários filhos, contando já considerável descendência. Aos invasores brancos e sobretudo aos jesuítas dedicava grande afecto outro tuxaua, Caiubi, cacique da taba de Jeribatiba. Mais esquivo do que estes grandes chefes talvez se mostrasse Pequerobi, maioral de Ururaí, cuja filha, Antónia, era a mulher de António Rodrigues, povoador de muito menor projecção do que seu grande companheiro de colonização. Infatigáveis encetaram os jesuítas intensa obra de desbravamento e catequese, o que lhes trouxe conflitos com os vizinhos, a começar por João Ramalho, dominados como viviam eles pela mentalidade escravista avassaladora de todos os colonos da América. Ergueu-se o pequenino e tosco Colégio inacino e, em torno desta cellula mater da magnífica metrópole hodierna, agruparam-se as choças de alguns brancos e suas progénies mamalucas. Mas os índios xenófobos circunvizinhos, não viam com bons olhos o crescimento do vilarejo. Um próprio irmão de Tibiriçá, o cacique Araraí, mostrava-se sumamente infenso à permanência dos brancos em seu território. Em Março de 1560, chegando o terceiro Governador-Geral a São Vicente, expuseram-lhe os jesuítas a precariedade da posse do planalto. Assim, em Junho ordenou que todos os civilizados se transferissem para junto do arraial jesuítico extinguindo-se vila de Santo André da Borda do Campo, acertadíssima medida.
Encetou-se em 1560 a vida municipal de São Paulo do Campo de Piratininga sob as mais graves apreensões. A 20 de Maio de 1561 pedia a Câmara da nova vila ao Governo-Geral, e com toda a instância, armas e reforço de povoadores à vista das contínuas e fortíssimas agressões dos índios à sua aldeia mal amparada pelas mais singelas e expugnáveis muralhas. Em Abril de 1562 agravou-se imenso a situação, sendo João Ramalho eleito pela Câmara e povo, capitão da gente de guerra que devia enfrentar os índios agressores. Afinal, a 10 de Julho de 1562, após cinco dias do maior sobressalto pela angustiosa espera, investiam os autóctones numa coligação de tribos guaranis, carijós e outros tupis, a que se deu o nome de Confederação dos Tamoios. Comandavam aos assaltantes Araraí e seu sobrinho Jaguanharo. Terrível o embate, repelido graças à bravura dos assaltados, a quem comandavam João Ramalho e Tibiriçá e certamente à superioridade embora ainda não muito considerável, na época, das armas de fogo de tiro muito lento e pequeno raio de alcance. Contra si tinham os sitiados a grande inferioridade do número de combatentes. Rechaçados os sitiantes com grandes perdas, reiteraram o ataque a 11 de Julho com redobrado vigor. Viram-se, porém, completamente derrotados e tomados de pânico debandaram, perseguidos pelos vencedores; brancos e índios, fiéis aos seus abarés, que com a maior serenidade tanto haviam cooperado na defesa da praça». In Alfredo Maria Adriano d Escragnolle Taunay, (1843 - 1899), Visconde de Taunay, História da cidade de São Paulo, publicado originalmente em 1954, Projecto Livro Livre, 2014.

Cortesia de PLLivre/JDACT