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quarta-feira, 27 de outubro de 2021

A Cidade Perdida. James Rollins. «A ansiedade impediu-a de voltar a subir ao quarto andar para o recuperar. Ela tinha de saber o que acontecera no museu»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro

«(…)

02h22, GMT Londres, Inglaterra

Safia postava-se diante da barricada, uma vedação em A preta e amarela. Mantinha os braços cruzados, ansiosa, gelada. O fumo impregnava o ar. O que acontecera? Atrás da barricada, um polícia segurava a sua carteira na mão e comparava a fotografia com a mulher à sua frente. Ela sabia que ele tinha dificuldade em fazer corresponder às duas. Na sua mão, o cartão de identificação do museu retratava uma mulher cuidada de trinta anos de idade de tez cor de café com leite, cabelo de ébano apanhado atrás numa eficiente trança e olhos verdes escondidos por trás de uns óculos de leitura escurecidos. Em contraste, diante do jovem guarda apresentava-se uma mulher ensopada e enlameada, com o cabelo desregradamente colado em longas faixas ao rosto. Os olhos dela pareciam perdidos e confusos, centrados para lá das barreiras, para lá do frenesim do pessoal e equipamento de emergência. Equipas noticiosas ponteavam a paisagem, aureoladas pelos focos das suas câmeras. Alguns camiões de reportagem televisiva estavam estacionados em cima dos passeios. Reconheceu igualmente dois veículos militares entre as equipas de emergência além de efectivos empunhando armas.

A possibilidade de um ataque terrorista não podia ser descartada. Ela ouvira tais rumores entre a multidão e de um repórter que tivera de evitar para chegar à barricada. E não poucos lançaram olhares suspeitosos na sua direcção, a árabe solitária na rua. Ela tivera uma experiência em primeira-mão com o terrorismo, mas não da maneira que eles suspeitavam. E talvez ela interpretasse mesmo erradamente as reacções à sua volta. Uma forma de paranóia, designada como hiper-ansiedade, era uma sequela frequente de um ataque de pânico. Safia prosseguiu por entre a multidão, respirando pesadamente, centrando-se no seu propósito ali. Lamentou ter esquecido o guarda-chuva. Ela deixara o apartamento imediatamente após a chamada, demorando-se apenas o suficiente para vestir umas calças de caqui e uma blusa branca floreada. Pusera um casaco Burberry pelo joelho, mas na pressa, o guarda-chuva a condizer fora deixado no seu posto junto à porta. Só quando chegou ao primeiro andar do edifício e se precipitou para a chuva, percebeu o erro. A ansiedade impediu-a de voltar a subir ao quarto andar para o recuperar. Ela tinha de saber o que acontecera no museu. Passara a última década a construir a colecção e os últimos quatro anos a dirigir os seus projectos de investigação fora do museu. Quanto fora arruinado? O que poderia ser salvo?

Lá fora, a chuva crescera de novo para uma bátega persistente, mas pelo menos os céus nocturnos estavam menos coléricos. Quando alcançou o posto de controlo de emergência que coordenava o acesso, estava ensopada até aos ossos. Estremeceu quando o guarda se mostrou satisfeito com a identificação. Pode seguir. O inspector Samuelson está à sua espera. Um outro polícia escoltou-a até a entrada sul do museu. Ela olhou para cima para a sua fachada de colunata. Mostrava a solidez de uma caixa-forte, uma permanência que não podia ser questionada. Até essa noite... Foi conduzida pela entrada e por uma série de escadas abaixo. Passaram por portas assinaladas: Reservado ao Pessoal do Museu. Ela sabia para onde estava a ser levada. Para a base de segurança subterrânea. Um guarda armado postava-se de sentinela à porta. Assentiu à sua aproximação, claramente à espera deles. Abriu a porta. A sua escolta passou-a a um novo elemento: um homem de tez negra envergando traje civil, um indistinto fato azul. Era alguns centímetros mais alto que Safia, o cabelo completamente cinza. O rosto parecia de couro gasto. Ela reparou numa mancha prateada de restolho nas suas faces, por barbear, muito provavelmente arrancado da cama. Ele estendeu uma mão vigorosa. Inspetor Geoffrey Samuelson, disse com a mesma firmeza do seu aperto de mão. Obrigado por ter acorrido tão prontamente. Ela assentiu, demasiado nervosa para falar. Se quiser fazer o favor de me acompanhar, doutora al-Maaz, necessitamos da sua ajuda na investigação da causa da explosão. Minha?, conseguiu pronunciar. Passou por uma sala de descanso, atulhada de pessoal de segurança. Parecia que todo o pessoal, de todos os turnos, tinha sido convocado. Ela reconheceu vários dos homens e mulheres, mas fitavam-na agora como se fosse uma estranha. O murmúrio do seu arrazoar silenciou-se enquanto ela passava. Eles deviam saber que ela fora chamada, mas tal como ela não pareciam conhecer a razão. Contudo, era clara a suspeição por detrás do silêncio. Endireitou mais as costas, a irritação a faiscar por entre a ansiedade». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, James Rollins, Literatura, A Arte, 

terça-feira, 23 de abril de 2019

A Cidade Perdida. James Rollins. «Pela ausência de desenvolvimento adicional, Thomas soube quem trataria do assunto. Desenhou um símbolo grego na margem do jornal. O caminho será preparado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) As mãos tremiam-lhe. Teve de agarrar uma com a outra para afastar um novo ataque. Só queria rastejar para dentro da cama e puxar a colcha sobre a cabeça. Billie fitava-a, os olhos a reflectir a luz do candeeiro. Eu fico bem. Está tudo bem, disse Safia em voz baixa, mais para si própria do que para o gato. Nenhum dos dois se convenceu.

02h13, GMT (21h13, EST)
Fort Meade, Maryland
Thomas Hardey detestava ser incomodado quando estava compenetrado na resolução das palavras cruzadas do New York Times. Era o seu ritual de domingo à noite, que incluía igualmente um agradável copo de scotch de quarenta anos e um bom charuto. O fogo crepitava na lareira. Recostou-se na sua poltrona de couro e fitou o puzzle meio preenchido, forçando a ponta da sua esferográfica Montblanc. Franziu uma sobrancelha face ao 19 vertical, uma palavra de cinco letras. Dezanove. A soma de todos os homens. Enquanto ponderava sobre a resposta, o telefone soou na sua secretária. Suspirou e subiu os óculos de leitura da ponta do nariz até a testa. Provavelmente era apenas um dos amigos da filha a contar como correra o encontro do fim-de-semana. Quando se inclinou para diante, viu que a linha número cinco estava a piscar, a sua linha pessoal. Apenas três pessoas tinham esse número: o presidente, o director da Joint Chiefs e o segundo-comandante na hierarquia da National Security Agency.
Pousou o jornal dobrado no colo e premiu o botão vermelho da linha. Com esse simples toque, um código algorítmico variável tornava ininteligível qualquer comunicação. Levantou o auscultador. Aqui, Hardey. Senhor director. Endireitou-se, cauteloso. Não reconhecia a voz do outro. E ele conhecia a voz das três pessoas que tinham o seu número privado tão bem como a sua própria família. Quem fala? Tony Rector. Peço desculpa por incomodá-lo a estas horas. Thomas percorreu a sua Rolodex mental. Vice-almirante Anthony Rector. Ele ligou o nome a cinco letras: DARPA (Defense Advanced Research Projets Agency). O departamento fiscalizava o braço de investigação e desenvolvimento do Departamento de Defesa. Tinha um lema: ser o primeiro. No que tocava aos avanços tecnológicos, os Estados Unidos não podiam chegar em segundo lugar. Nunca. Uma formigante sensação de temor começou a desenhar-se. Em que posso ajudá-lo, senhor almirante? Deu-se uma explosão no British Museum em Londres. E procedeu à explicação da situação em grande pormenor. Thomas verificou o relógio. Tinham-se passado menos de trinta minutos desde a explosão. Ele estava impressionado com a capacidade da organização de Rector em reunir tanta informação em tão pouco tempo.
Quando o almirante terminou, Thomas colocou-lhe a questão mais óbvia: e qual é o interesse da DARPA na explosão? Rector respondeu-lhe. Thomas sentiu a divisão arrefecer uns dez graus. Tem certeza? Já temos uma equipe organizada para aprofundar o assunto. Mas vou necessitar da cooperação do MI5 britânico..., ou melhor ainda... A alternativa ficou em suspenso, não proferida mesmo numa linha codificada. Thomas compreendia agora a chamada clandestina. O MI5 era o equivalente britânico da sua própria organização. Rector queria que ele lançasse uma cortina de fumo para que a equipe da DARPA pudesse entrar e sair rapidamente do local, antes que alguém suspeitasse da descoberta. E tal incluía a agência secreta britânica. Compreendo, disse finalmente Thomas. Ser o primeiro. Rezou para que estivessem à altura da missão. A equipe está pronta? Estará pronta pela manhã. Pela ausência de desenvolvimento adicional, Thomas soube quem trataria do assunto. Desenhou um símbolo grego na margem do jornal. O caminho será preparado, disse para o aparelho.
Muito bem. A comunicação morreu. Thomas pousou o auscultador no gancho, já a planear o que tinha de ser feito. Teria de actuar rapidamente. Fitou as palavras cruzadas por completar: 19 vertical. Uma palavra de cinco letras para a soma de todos os homens. Que apropriado. Pegou numa caneta e preencheu a resposta nas quadrículas. SIGMA». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. «Sentiu os joelhos a fraquejarem. A ala norte..., a sua ala. Ela sabia que o buraco fumegante conduzia à galeria no final. Todo o seu trabalho, uma vida de pesquisa, a colecção…»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Lá em baixo, a habitualmente calma e digna rua de candeeiros de ferro e amplos passeios tinha-se transformado num campo de batalha surrealista. Carros de bombeiros e da polícia entupiam a avenida. Fumo ondeava apesar da chuva, mas pelo menos a terrível tempestade abrandara para o habitual lacrimejar londrino. Com os candeeiros da rua apagados, a única iluminação vinha das luzes de sinalização no cimo dos veículos de emergência. Contudo, no fundo do quarteirão, um brilho carmesim mais intenso cintilava por entre o fumo e a escuridão.
Fogo.
O coração de Safia bateu com mais força, a respiração estrangulou-se, não por antigos terrores, mas por novos receios pelo presente. O museu! Deu um sacão aos cordões dos estores, esventrando-os, e atrapalhou-se com o fecho da janela. Abriu de rompante a vidraça e inclinou-se para fora de encontro à chuva. Mal notou os pingos gelados. O British Museum ficava a poucos metros do apartamento. Ficou assombrada com a visão. A parte nordeste do museu ficara reduzida a uma ruína a arder. Chamas tremulavam através das janelas superiores, enquanto o fumo se precipitava para fora em manchas espessas. Homens, cobertos com máscaras de oxigênio arrastavam mangueiras. Jactos de água atingiam grande altura. Escadas erguiam-se no ar a partir dos carros dos bombeiros. Mas, pior que tudo, um buraco escancarado fumegava no segundo piso da parte nordeste. Fragmentos e blocos enegrecidos de cimento jaziam espalhados pela rua. Ela não devia ter ouvido a explosão ou simplesmente atribuíra-a ao ribombar da trovoada. Mas não se tratava da queda de um raio. Mais provavelmente a explosão de uma bomba..., um ataque terrorista. Outra vez não...
Sentiu os joelhos a fraquejarem. A ala norte..., a sua ala. Ela sabia que o buraco fumegante conduzia à galeria no final. Todo o seu trabalho, uma vida de pesquisa, a colecção, uma infinidade de antiguidades da sua terra natal. Era impossível de imaginar. A descrença tornou a visão ainda mais irreal, um pesadelo do qual acordaria a qualquer momento. Recuou para a segurança e sanidade do seu quarto. Voltou as costas aos gritos e às luzes relampejantes. Na escuridão, libelinhas de vitral ganharam vida. Abriu os olhos, incapaz de compreender a visão por um instante, depois fez-se luz. A energia voltara. Nesse momento, o telefone tocou no seu suporte nocturno, assustando-a. Billie levantou a cabeça da colcha, as orelhas espetadas face ao chocalhar. Safia apressou-se para o telefone e levantou o auscultador. Estou? A voz era austera, profissional. Doutora al-Maaz? S-sim? Daqui fala o comandante Hogan. Houve um acidente no museu. Acidente? O que quer que tivesse acontecido era mais do que um simples acidente.
 Sim, o director do museu solicita a sua presença na reunião de avaliação da situação. Pode juntar-se a nós na próxima hora? Sim, comandante. Irei imediatamente. Óptimo. O seu nome será indicado ao comando de segurança. O telefone produziu um estalido enquanto o comandante desligava. Safia olhou em volta do quarto. Billie martelava a cauda em clara irritação felina pelas constantes interrupções nocturnas. Não vou demorar, murmurou ela, sem saber se era verdade. As sirenes continuavam a gemer do   outro lado da janela. O pânico que a despertara recusava-se a desaparecer por completo. A sua visão do mundo, a segurança da sua posição dentro das paredes serenas de um museu, tinham sido abaladas. Há quatro anos atrás, ela fugira de um mundo onde as mulheres atavam explosivos ao peito. Fugira para a segurança e normalidade da vida académica, abandonando o trabalho de campo pelo trabalho de gabinete, largando picaretas e pás por computadores e folhas de cálculo. Escavara um pequeno nicho para si no interior do museu, onde se sentia segura. Fizera ali o seu lar. Contudo, o desastre encontrara-a». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sábado, 20 de abril de 2019

A Cidade Perdida. James Rollins. «Tudo culpa minha... Choro e gritos encheram de novo a sua mente, fundindo-se com as sirenes do presente»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Um ribombar surdo passou pelo edifício do apartamento e afastou-se. As vozes das equipas de emergência trouxeram-na de volta à sua cama, de volta ao presente. Ela estava em Londres, não em Telavive. O ar longamente reprimido escapou-se. Lágrimas subiram-lhe aos olhos. Limpou-as com dedos trémulos. Ataque de pânico. Sentou-se enrolada na colcha da cama por mais algumas arfadas. Ainda sentia vontade de chorar. Era sempre assim, dizia a si própria, mas as palavras não ajudavam. Cingiu a colcha de lã em volta dos ombros, os olhos fechados, o coração a martelar nos ouvidos. Praticou os exercícios de respiração e tranquilização ensinados pela terapeuta. Inalar em dois tempos, exalar em quatro. Deixou que a tensão se esvaísse em cada movimento. A sua pele fria aqueceu gradualmente. Alguma coisa com peso aterrou na sua cama. Um som ténue acompanhou-a. Como uma dobradiça a chiar. Estendeu uma mão, acolhida por um ronronar de agrado. Anda cá, Billie, sussurrou ao persa negro anafado.
Billie encostou-se à palma da sua mão e roçou a base do focinho pelos dedos de Safia, depois desmoronou simplesmente sobre as coxas dela como se os fios invisíveis que sustentavam o gato tivessem sido cortados. As sirenes deviam tê-lo perturbado da habitual ronda nocturna pelo apartamento. O suave ronronar continuou no colo de Safia, um som de satisfação. Isso, mais do que os exercícios de respiração, relaxou-lhe os músculos dos ombros. Só então notou o arquear cauteloso das suas costas, como que receando um golpe que nunca chegara. Forçou-se a endireitar a postura, alongando o pescoço. As sirenes e a agitação continuavam a meio quarteirão do seu apartamento. Ela precisava de se pôr de pé, de descobrir o que estava a acontecer. Qualquer coisa, simplesmente para se mexer. O pânico transformara-se em energia nervosa. Moveu as pernas, com cuidado para fazer deslizar Billie para a colcha da cama. O ronronar interrompeu-se por um instante, depois recomeçou quando ficou claro que não estava a ser expulso. Billie nascera nas ruas de Londres, criatura dos becos, uma mistura selvagem de pêlo emaranhado e fúria. Safia encontrara o gatinho estatelado e ensanguentado à entrada do edifício de apartamentos, com uma perna partida, coberto de óleo, atingido por um carro. Apesar da sua ajuda, ele tinha-a mordido na parte carnuda do polegar. Os amigos disseram-lhe que levasse o gatinho para o abrigo de animais, mas Safia sabia que tal lugar não era melhor que um orfanato. Assim, recolheu-o numa fronha de almofada e transportou-o até a clínica veterinária local.
Teria sido fácil passar ao lado dele nessa noite, mas já estivera tão abandonada e só como o gatinho. Alguém também a recolhera nessa altura. E tal como Billie, ela fora domesticada, mas nenhum deles acabara completamente domado, preferindo os lugares selvagens e o esquadrinhar pelos cantos perdidos do mundo. Mas tudo isso terminara com uma explosão num resplandecente dia de Primavera. Tudo culpa minha... Choro e gritos encheram de novo a sua mente, fundindo-se com as sirenes do presente. Respirando com dificuldade, Safia procurou o candeeiro de cabeceira, uma pequena réplica Tiffany representando libelinhas em vitral. Premiu o interruptor do candeeiro mais algumas vezes, mas o candeeiro permaneceu apagado. Não havia electricidade. A trovoada devia ter deitado abaixo uma linha de distribuição. Talvez fosse essa a razão de toda a agitação. Que fosse tão simples quanto isso. Balançou para fora da cama, descalça, mas dentro de uma aconchegante camisa de dormir de flanela, que lhe chegava aos joelhos. Foi até a janela e desviou os estores para espreitar para a rua em baixo. O seu apartamento ficava no quarto andar». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. «Safia al-Maaz acordou num pânico de morte. Sirenes soavam de todos os lados. Clarões de luzes rubras de emergência entrecortavam as paredes do quarto»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Por fim, alcançou a sala mais distante, uma das maiores. Esta continha objectos de maior interesse para um naturalista, todos da região: pedras e jóias raras, restos fossilizados, ferramentas neolíticas. A fonte do brilho tornou-se clara. Perto do centro da sala abobadada, um globo de luz azulada com meio metro de diâmetro flutuava indolentemente cruzando o espaço. Tremulava e a sua superfície parecia envolta numa chama de óleo azul prismático. Enquanto Harry o observava, o globo atravessou um armário de vidro como se fosse feito de ar. Estacou aturdido. Um odor sulfúreo chegou-lhe às narinas, emanando da bola de luz cerúlea. O globo rolou por uma das lâmpadas de segurança carmesins, eliminando-a com um estoiro chiante. O ruído fez Harry recuar um passo, assustado. O mesmo destino devia ter calhado à câmara cinco na sala anterior. Lançou um olhar rápido à câmara da sala onde se encontrava. Uma luz vermelha cintilava sobre ela. Ainda estava a funcionar. Como que notando a sua atenção, Johnson voltou ao rádio. Por alguma razão, não havia perturbação estática. Harry, é melhor saíres daí! Permaneceu paralisado, em parte por medo, em parte por assombro. Além disso, o fenómeno flutuava para longe, em direcção ao recanto escurecido da sala.
O brilho do globo iluminou uma massa de metal dentro de um cubo de vidro. Era um pedaço de ferro avermelhado do tamanho de um vitelo, um vitelo ajoelhado. A ficha de exposição descrevia-o como um camelo. A semelhança era no melhor dos casos evasiva, mas Harry percebeu a representação pretendida. O objecto tinha sido descoberto no deserto. O brilho ficou suspenso sobre o camelo de ferro. Harry recuou com precaução e pegou no rádio. Céus! A tremeluzente bola de luz desceu através do vidro e pousou sobre o camelo. O seu brilho extinguiu-se tão rapidamente como uma vela soprada. A súbita escuridão cegou Harry por um instante. Ergueu a lanterna. O camelo de ferro permanecia no interior do cubo de vidro, imperturbado. Desapareceu... Estás bem? Sim. Que raio era aquilo? Johnson respondeu, o receio estampado na voz: uma estuporada bola de raios, acho eu! Ouvi histórias de tipos em aviões de guerra quando atravessavam tempestades de trovões. A trovoada deve tê-lo cuspido. Mas diabos me levem se não foi brilhante!
Já não é mais brilhante, pensou Harry com um suspiro e abanou a cabeça. O que quer que fosse, pelo menos tinha-o salvo da embaraçosa chacota dos colegas. Baixou a lanterna. Mas quando desviou a luz, o camelo de ferro continuou a brilhar na escuridão. Um brilho vermelho intenso. Que raio é agora?, resmungou Harry e agarrou no rádio. Um forte choque de eletricidade estática atingiu os seus dedos. Praguejando, sacudiu. Ergueu o rádio. Há algo de estranho. Acho que... O brilho do ferro inflamou-se. Harry recuou. O ferro fluía pela superfície do camelo, fundindo-se como se exposto a uma torrente de chuva ácida. Ele não foi o único a notar a mudança. O rádio ladrou na sua mão: Harry, sai daí! Não discutiu. Deu meia volta, mas era demasiado tarde. O receptáculo de vidro explodiu. Lanças penetrantes perfuraram-lhe o flanco esquerdo. Um fragmento denteado cortou-lhe a face. Mas ele mal sentiu os golpes, quando uma onda de calor abrasante o atingiu, cauterizando-o, consumindo todo o oxigênio. Um grito projectou-se nos seus lábios, para nunca ser expelido. A explosão seguinte arrancou Harry do chão e lançou o seu corpo até ao outro extremo da galeria. Mas apenas ossos em chamas atingiram o portão de segurança, fundindo-se no gradeado de aço.

01h53
Safia al-Maaz acordou num pânico de morte. Sirenes soavam de todos os lados. Clarões de luzes rubras de emergência entrecortavam as paredes do quarto. O terror apertou-a como num torno. Não conseguia respirar; um suor frio gotejou na sua testa, espremido pela pele comprimida. Os dedos em gancho agarraram os lençóis junto à garganta. Incapaz de pestanejar, ficou presa por instantes entre o passado e o presente. Sirenes a retinir, explosões a ecoar à distância..., mais perto ainda, os gemidos dos feridos, dos moribundos, a sua própria voz ajuntar-se ao coro de dor e de choque... Altifalantes rugiam desde as ruas abaixo do apartamento. Deixem passar os carros de combate! Abram caminho! Inglês..., não árabe, não hebreu...» In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A Herança de Judas. James Rollins. «O chão estava coberto de pássaros, caídos nas praças de pedra como se tivessem sido atingidos no céu em pleno voo. Nada fora poupado. Homens, mulheres e crianças»

jdact

1293. Meia-noite. Ilha de Sumatra, Sueste Asiático
«(…) Nós jamais deveríamos ter entrado ali, Niccolò, ele censurou o irmão, mas as suas palavras acusatórias eram, na verdade, dirigidas a Marco. Fez-se silêncio entre os três, carregado de segredos comuns. O tio dele tinha razão. Marco imaginou o delta do rio quatro meses antes. O ribeirão negro desaguava no mar, ladeado por densa folhagem e trepadeiras. Eles procuravam apenas renovar os seus suprimentos de água doce enquanto dois navios eram consertados. Jamais deveriam ter-se arriscado a ir mais longe, porém Marco ouvira histórias de uma grande cidade além das montanhas baixas. E, como o conserto dos navios deveria demorar dez dias, ele se arriscara, com quarenta homens do Khan, a subir as montanhas e ver o que havia além. Do topo de uma delas, Marco avistara uma torre de pedra nas profundezas da floresta, estendendo-se alta, brilhante à luz da aurora. Como sempre fora curioso, ela o atraiu como um farol.
O silêncio enquanto eles caminhavam pela floresta na direcção da torre, no entanto, deveria tê-lo advertido. Não houvera nenhum som de tambores, como agora. Nenhum pio de aves, nenhum guincho de macacos. A cidade dos mortos simplesmente estivera à espera deles. Foi um terrível erro penetrar na floresta. E isso lhes custou mais do que apenas sangue. Os três olharam fixamente enquanto as galeras ardiam lentamente na linha d’água. Um dos mastros tombou como uma árvore cortada. Duas décadas atrás, pai, filho e tio haviam partido da Itália, sob a chancela do papa Gregório X, para se aventurar pelas terras dos mongóis, até aos palácios e os jardins do Khan em Shangdu, onde haviam permanecido por tempo demais, como perdizes engaioladas. Como favoritos da corte, os três Polo viram-se presos, não por correntes, mas pela imensa e sufocante amizade do Khan, incapazes de partir sem insultar o seu benfeitor. Assim, finalmente se julgaram afortunados por estarem regressando a Veneza, dispensados do serviço ao grande Kublai Khan para escoltarem a dama Kokejin até seu noivo persa. Oxalá a nossa frota nunca tivesse partido de Shangdu…
O sol vai nascer logo, disse o pai de Marco. Vamos embora. É hora de ir para casa. E se chegarmos àquelas praias abençoadas, o que diremos a Teobaldo?, perguntou Masseo, usando o nome original do homem, outrora amigo e defensor da família Polo, agora chamado papa Gregório X. Não sabemos se ele ainda está vivo, respondeu o pai. Nós nos ausentamos por muito tempo. Mas, e se ele ainda estiver vivo, Niccolò?, insistiu o tio. Nós lhe contaremos tudo o que sabemos sobre os mongóis, os seus costumes e suas forças, conforme fomos instruídos há tantos anos, de acordo com o édito dele. Mas sobre a praga aqui..., não resta nada sobre o que falar. Acabou.
Masseo suspirou, mas havia pouco alívio na sua exalação. Marco interpretou as palavras por trás de sua profunda carranca. A praga não havia ceifado a vida de todos aqueles que foram perdidos. O pai repetiu com mais firmeza, como se falar fizesse com que as coisas simplesmente fossem assim. Acabou. Marco ergueu o olhar para os dois homens mais velhos, seu pai e seu tio, emoldurados por cinza incandescente e fumaça contra o céu nocturno. Aquilo jamais terminaria, não enquanto eles se lembrassem. Marco olhou para os pés. Embora a marca tivesse sido removida da areia, ela ainda ardia intensamente por trás de seus olhos. Ele havia roubado um mapa pintado em cortiça laminada. Pintado com sangue. Templos e torres espalhados pela selva. Todos vazios. A não ser pelos mortos. O chão estava coberto de pássaros, caídos nas praças de pedra como se tivessem sido atingidos no céu em pleno voo. Nada fora poupado. Homens, mulheres e crianças. Bois e animais do campo. Até mesmo grandes serpentes pendiam frouxas dos galhos das árvores, com a carne cheia de furúnculos em baixo das escamas. Os únicos habitantes vivos eram as formigas. De todos os tamanhos e cores. Fervilhando em pedras e corpos, elas lentamente devoravam os mortos. Mas ele estava errado..., alguma coisa ainda aguardava o pôr-do-sol.
Marco repeliu aquelas lembranças. Ao descobrir o que Marco roubara de um dos templos, seu pai queimou o mapa e espalhou as cinzas no mar». In James Rollins, A Herança de Judas, 2007, Bertrand Editora, 2018, ISBN 978-972-252-977-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Herança de Judas. James Rollins. «Eu guardarei segredo, prometeu por fim. Até ao meu leito de morte e além. É o que eu juro, meu pai…»

jdact

1293. Meia-noite. Ilha de Sumatra, Sueste Asiático
«(…) Os únicos sinais de sua intromissão eram os crânios, entrançados através das órbitas oculares com trepadeiras e pendurados dos galhos das árvores, protegendo contra uma invasão ou incursão mais profunda. A doença mantivera os selvagens à distância. Mas não por mais tempo. Com a fogueira cruel, a doença fora afinal vencida, deixando apenas aquele punhado de sobreviventes. Aqueles que não exibiam os vergões vermelhos. Sete noites atrás, os enfermos restantes haviam sido conduzidos acorrentados aos navios ancorados, abastecidos com água e comida. Os outros haviam ficado na praia, atentos a qualquer sinal de novos casos da doença entre eles. O tempo todo, os que haviam sido banidos para os navios gritaram através das águas, implorando, chorando, rezando, amaldiçoando e dando berros estridentes. Porém, o pior era a gargalhada ocasional, incitada pela loucura. Teria sido melhor ter cortado a garganta deles com um punhal misericordioso e rápido, mas todos receavam tocar o sangue dos enfermos. Por isso eles haviam sido enviados para os navios e aprisionados com os que já estavam mortos ali. Então, quando o sol se pôs naquela noite, um brilho estranho apareceu na água, acumulado em torno das quilhas de dois barcos, espalhando-se sobre as águas negras e paradas como leite derramado. Eles já tinham visto o brilho antes, nos tanques e canais sob as torres de pedra da cidade amaldiçoada da qual haviam fugido. A doença procurava escapar de sua prisão de madeira. Ela não lhes deixara escolha. Os navios, todas as galeras, excepto a que fora reservada para a partida deles, foram incendiados.
Masseo, o tio de Marco, andou por entre os homens que sobreviveram. Acenou para que eles voltassem a cobrir a sua nudez, mas um simples pano e lã tecida não podiam encobrir sua vergonha mais profunda. O que nós fizemos..., disse Marco. Nós não devemos falar sobre isso, respondeu o pai, e estendeu uma túnica na sua direcção. Diga uma palavra que seja sobre peste, e todos os países nos evitarão. Nenhum porto nos deixará entrar nas suas águas. Mas agora queimamos completamente o que restava da doença com um fogo que purificou a nossa frota e as águas. Temos apenas de voltar para casa. Enquanto Marco vestia a túnica, seu pai notou o que o filho havia desenhado antes na areia com uma vara. Contraindo os lábios, o pai rapidamente desfez o desenho com um dos calcanhares e encarou o filho. Città dei Morti. Um olhar suplicante fixou-se no seu rosto. Nunca, Marco... nunca...
Mas a lembrança não podia ser desfeita tão facilmente. Ele havia servido ao Grande Khan como erudito, emissário e até cartógrafo, mapeando os muitos reinos que este conquistara. Seu pai voltou a falar: ninguém jamais deve saber o que nós descobrimos..., é uma coisa amaldiçoada. Marco fez um aceno positivo de cabeça e não comentou sobre o que desenhara. Apenas sussurrou: Città dei Morti. A fisionomia de seu pai, já pálida, empalideceu ainda mais. Porém, Marco sabia que não era só a praga que amedrontava seu pai. Jure para mim, Marco, insistiu ele. Marco ergueu o olhar para o rosto enrugado do pai. Naqueles quatro últimos meses, ele havia envelhecido tanto quanto durante as décadas passadas com o Khan em Shangdu. Jura para mim, pelo abençoado espírito da tua mãe, que jamais voltarás a falar sobre o que nós descobrimos e fizemos. Marco hesitou. Uma mão segurou o seu ombro, apertando até ao osso. Jura para mim, meu filho, para o seu próprio bem. Ele reconheceu o terror reflectido nos olhos do pai, iluminados pelo fogo..., e a súplica. Marco não pôde recusar. Eu guardarei segredo, prometeu por fim. Até ao meu leito de morte e além. É o que eu juro, meu pai. O tio de Marco finalmente se juntou a eles, ouvindo por acaso o juramento do rapaz». In James Rollins, A Herança de Judas, 2007, Bertrand Editora, 2018, ISBN 978-972-252-977-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Herança de Judas. James Rollins. «Pelo menos os gritos dos torturados tinham terminado. Agora, apenas o crepitar e o rugido baixo das chamas chegavam à margem arenosa»

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1293. Meia-noite. Ilha de Sumatra, Sueste Asiático
«Os gritos tinham cessado por fim. Doze fogueiras ardiam na baía à meia-noite. Il Dio, li perdona..., sussurrou o pai ao seu lado, mas Marco sabia que o Senhor não lhes perdoaria aquele pecado. Um punhado de homens esperava ao lado de dois escaleres puxados para a praia, as únicas testemunhas das piras funerárias sobre a lagoa escura. Quando a Lua nasceu, os doze navios, enormes galeras de madeira, foram incendiados com os tripulantes ainda a bordo, tanto os mortos como os poucos desgraçados que ainda viviam. Os mastros das embarcações apontavam flamejantes dedos acusadores ao céu. Flocos de cinza incandescente caíam como chuva sobre a praia e sobre aquelas poucas testemunhas. A noite recendia a carne carbonizada. Doze navios, murmurou o tio Masseo, apertando o crucifixo na mão fechada, o mesmo número dos apóstolos do Senhor.
Pelo menos os gritos dos torturados tinham terminado. Agora, apenas o crepitar e o rugido baixo das chamas chegavam à margem arenosa. Marco queria desviar o rosto daquela cena. Outros não eram tão corajosos e ajoelharam-se na areia, de costas voltadas para a água e rosto pálido como a cal. Estavam todos nus. Cada um revistara quem estava ao seu lado à procuta de qualquer sinal da mancha. Até a princesa do Grande Khan, que por recato se encontrava de pé atrás de um pedaço de pano de vela, usava apenas a tiara enfeitada com jóias. Marco reparou na sua figura graciosa através do pano, iluminado por trás pelas fogueiras. As aias da princesa, também nuas, tinham-na revistado. Chamava-se Kokejin, ou princesa Azul, uma virgem de dezassete anos, a mesma idade de Marco quando partiu de Veneza. Os Polos tinham sido incumbidos pelo Grande Kuan da missão de a entregar em segurança ao seu noivo, o Khan da Pérsia, neto do irmão de Kublai Khan. Tudo isso acontecera numa outra vida.
Tinham mesmo passado apenas quatro meses desde que a tripulação da primeira galera adoecera, exibindo vergões nas virilhas e nas axilas? A doença propagou-se como óleo a queimar, esvaziando as galeras de homens capazes e levando-os àquela ilha de canibais e feras estranhas. Nesse mesmo momento, ouviam-se tambores na selva escura. Mas os selvagens tinham bom senso suficiente para não se aproximarem do acampamento, como o lobo que se afasta das ovelhas doentes ao sentir o cheiro a putrefacção e decomposição». In James Rollins, A Herança de Judas, 2007, Bertrand Editora, 2018, ISBN 978-972-252-977-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

domingo, 18 de março de 2018

A Cidade Perdida. James Rollins. «Outros guardas vinham em auxílio. E se não fosse um intruso? E se fosse simplesmente o passar de faróis? Ele já se encontrava numa situação difícil com Fleming»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) A voz do homem respondeu à chamada, mas cortes engoliram a maior parte das palavras, interferência da trovoada. ... possível... Tens a certeza?... Espera até... Os portões estão fechados? Harry voltou a fixar os portões de segurança descidos. É claro que deveria ter verificado se tinham sido selados. Cada galeria tinha apenas uma entrada para o salão central. O outro acesso às salas seladas era através de uma das janelas altas, mas estas estavam protegidas contra quebra ou intrusão. E embora a trovoada tivesse deitado abaixo a energia central, os geradores de reserva mantinham o quadro de segurança activado. Nenhum alarme tinha soado no comando central. Harry imaginou Johnson já a ligar as câmaras, percorrendo a ala, aproximando-se rapidamente da Galeria Kensington. Arriscou um breve olhar à sequência de cinco salas. O brilho persistia no fundo da galeria. A sua passagem parecia errante, casual, não o perscrutar determinado de um ladrão. Verificou rapidamente o portão de segurança. O fecho eletrónico emitia uma luz verde. Não fora violado. Voltou a fixar o brilho azulado. Talvez fosse simplesmente a passagem dos faróis de um carro através das janelas da galeria.
A voz de Johnson pelo rádio, aos cortes, assustou. Não tenho nada nas câmaras... A câmara cinco está desligada. Fica onde estás... Outros a caminho. As palavras restantes se volatizaram pela descarga eléctrica da tempestade. Harry manteve-se junto ao portão. Outros guardas vinham em auxílio. E se não fosse um intruso? E se fosse simplesmente o passar de faróis? Ele já se encontrava numa situação difícil com Fleming. Só faltava pôr-se a ridículo. Arriscou e ergueu a lanterna. Está alguém?, gritou. Quis soar autoritário, mas resultou mais como um queixume agudo. Contudo, não se verificou alteração no padrão errante da luz. Parecia dirigir-se mais para o fundo da galeria, não numa retirada assustada, simplesmente num sinuoso andamento lento. Nenhum ladrão poderia ter tanto sangue-frio nas veias. Harry atravessou até o fecho eletrónico do portão e usou a chave-mestra para o abrir. Os selos magnéticos soltaram-se. Empurrou o portão para cima o suficiente para rastejar por baixo e entrou na primeira sala. Endireitando-se, ergueu de novo a lanterna. Recusou deixar-se dominar pelo pânico momentâneo. Devia ter investigado mais antes de fazer soar o alarme. Mas o mal estava feito. O melhor que podia fazer era salvar um pouco a cara, esclarecendo ele próprio o mistério. Gritou de novo, em todo o caso. Segurança! Não se mexa!
O grito não teve efeito. O clarão prosseguiu a sua marcha resoluta, embora errante, para o fundo da galeria. Olhou para trás para o portão de acesso à sala principal. Os outros estariam ali em menos de um minuto. Que se lixe, resmungou em voz baixa. Apressou-se para o interior da galeria, perseguindo a luz, determinado a eliminar a sua causa antes que os outros chegassem. Quase sem um olhar, passou por tesouros de importância intemporal e valor inestimável: armários de vidro exibindo placas de argila do rei assírio Assurbanipal; pesadas estátuas de arenito datando de tempos pré-pérsicos; espadas e armas de todas as eras; marfins fenícios retratando antigos reis e rainhas; até mesmo uma primeira impressão das Mil e Uma Noites, sob o seu título original, The Oriental Moralist. Harry continuou a avançar pelas salas, passando de dinastia em dinastia, dos tempos das Cruzadas ao nascimento de Cristo, das glórias de Alexandre Magno aos tempos do Rei Salomão e da Rainha de Sabá». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BEditora/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. «Bem dentro da Galeria Kensington, numa das salas mais distantes, um brilho azulado errava lentamente, alterando as sombras à sua passagem»


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The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«(…) Alcançou as portas de acesso à ala norte e mergulhou no interior, acolhido pela familiar mistura de mofo e amoníaco. Estava grato por ter de novo paredes sólidas à sua volta. Moveu a lanterna pela longa sala. Nada parecia errado, mas era-lhe exigido verificar cada uma das galerias da ala. Fez um cálculo rápido. Se se apressasse, poderia completar o circuito com tempo suficiente para outro cigarro rápido. Com a promessa de uma reparação de nicotina a tentá-lo, começou a percorrer a sala, o feixe da lanterna a precedê-lo. A ala norte expunha a colecção de aniversário do museu, uma colecção etnográfica, retraçando um quadro completo das realizações humanas através das eras, abrangendo todas as culturas. Como a Galeria Egípcia com as suas múmias e sarcófagos. Prosseguiu apressadamente, assinalando as diversas galerias culturais: céltica, bizantina, russa, chinesa. Cada série de salas estava encerrada por um portão de segurança. Com a falha de energia, os portões tinham descido automaticamente. Por fim, o outro extremo da sala surgiu à vista. A maior parte das colecções das galerias estava ali exposta apenas temporariamente, transferida do Museum of Mankind para a celebração do aniversário. Mas a última galeria sempre ali estivera, pelo que Harry se conseguia lembrar. Ela abrigava a exposição árabe do museu, uma inestimável colecção de antiguidades vindas da Península Arábica. A galeria fora comissionada e paga por uma única família, que enriquecera graças a temerários empreendimentos petrolíferos nessa região. Os donativos para manter tal galeria com exposição permanente no British Museum deverão exceder os cinco milhões de libras por ano.
Impunha-se respeitar semelhante tipo de dedicação. Ou não. Com um resfolego de desdém perante tal desperdício insano de bom dinheiro, Harry fez deslizar o foco da lanterna pela placa de latão gravada por cima da entrada: Galeria Kensington. Também conhecida como O Sótão da Megera. Embora Harry nunca tivesse encontrado lady Kensington, pelas conversas entre funcionários era claro que qualquer descuido em relação à sua galeria, marcas de pó num armário, uma ficha de exposição com manchas, um objecto antigo não correctamente posicionado, seria severamente penalizado. A galeria era o seu projecto de estimação pessoal e ninguém resistia à sua ira. Perderam-se empregos na sua sequência, incluindo o de um anterior director. Foi essa preocupação que manteve Harry por mais alguns momentos no seu posto do lado de fora do portão de segurança da galeria. Fez deslizar a lanterna em volta da sala de entrada com mais do que cuidado casual. Contudo, também aí tudo estava em ordem. Quando se afastava, desviando a lanterna, um movimento atraiu o seu olhar. Estacou, o foco apontando para o chão. Bem dentro da Galeria Kensington, numa das salas mais distantes, um brilho azulado errava lentamente, alterando as sombras à sua passagem. Outra lanterna..., estava alguém na galeria... Harry sentiu o bater do coração na garganta. Uma intrusão. Encostou-se à parede próxima. Os seus dedos procuraram atabalhoadamente o transmissor de rádio. Através das paredes, os trovões reverberavam, sonoros e profundos. Matraqueou o rádio. Tenho um possível intruso aqui na ala norte. Aguardo instruções. Esperou que o chefe do turno respondesse. Gene Johnson podia ser um pulha, mas era também um ex-oficial da RAF. Ele sabia do ofício». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BEditora/JDACT

A Cidade Perdida. James Rollins. « Harry pegou na sua lanterna eléctrica e apontou-a para o fundo da sala. Ele odiava fazer rondas à noite, quando o museu se perdia na obscuridade»

Cortesia de wikipedia e jdact

The British Museum. Londres. 14 de Novembro
«Harry Masterson estaria morto treze minutos mais tarde. Se o tivesse sabido, teria fumado o último cigarro até ao filtro. Em vez disso, esmagou o pequeno rolo após três puxadas e afastou a nuvem de fumo do rosto. Se fosse apanhado a fumar fora da sala de descanso dos guardas, seria posto na rua por aquele canalha do Fleming, o chefe de segurança do museu. Harry já estava sob vigilância por ter chegado duas horas atrasado ao turno, na semana anterior. Harry praguejou baixinho e meteu ao bolso o cigarro esmagado. Terminá-lo-ia na próxima pausa..., isto é, se houvesse pausa nessa noite. Os trovões ecoavam através das paredes de alvenaria. A trovoada invernosa acometera mesmo antes da meia-noite, iniciando-se com uma salva tumultuosa de granizo, seguida de um dilúvio que ameaçava fazer Londres desaparecer no Tamisa. Os relâmpagos dançavam pelos céus em configurações bifurcadas, de horizonte em horizonte. Segundo o meteorologista da BBC, tratava-se de uma das mais violentas trovoadas de há mais de uma década. Parte da cidade fora obliterada, subjugada por uma impressionante barragem relampejante. E para azar de Harry foi a sua parte da cidade que obscureceu, incluindo o British Museum em Great Russell Street. Embora dispusessem de geradores de reserva, toda a equipe de segurança fora convocada para protecção adicional do património do museu. Os outros elementos chegariam na meia hora seguinte. Mas Harry, escalado para o turno da noite, já se encontrava ao serviço quando as luzes normais se apagaram. E embora as câmaras de videovigilância continuassem operacionais no quadro de emergência, Fleming ordenou que ele e os colegas de turno procedessem a uma patrulha imediata dos quatro quilómetros de salas do museu. O que significava actuar em separado.
Harry pegou na sua lanterna eléctrica e apontou-a para o fundo da sala. Ele odiava fazer rondas à noite, quando o museu se perdia na obscuridade. A única iluminação vinha dos candeeiros da rua do lado de fora das janelas. Mas agora, com o apagão, até mesmo esses candeeiros se tinham extinguido. O museu escurecera para sombras macabras, entrecortadas pelos lagos carmesins das lâmpadas de segurança de baixa voltagem. Harry necessitara de algumas golfadas de nicotina para aplacar os nervos, mas não podia adiar mais o dever. Sendo o mais inferior na ordem de hierarquia do turno da noite, fora-lhe atribuído o patrulhamento das salas da ala norte, o ponto mais distante do seu abrigo de segurança subterrâneo. Mas isso não significava que não pudesse tomar um atalho. Voltando costas ao longo salão à sua frente, transpôs a porta que conduzia ao Grande Átrio Rainha Isabel II. Esse átrio central de 8.000 metros quadrados era circundado pelas quatro alas do British Museum. No seu centro, erguia-se a Sala de Leitura Redonda com a sua cúpula de cobre, uma das mais belas bibliotecas do mundo. Mais acima, a totalidade dos 8000 metros quadrados fora encerrada por uma gigantesca cobertura geodésica desenhada pela Fosters and Partners, criando a maior área coberta da Europa.
Usando a sua chave-mestra, Harry mergulhou no espaço cavernoso. Tal como o museu propriamente dito, o átrio estava perdido na obscuridade. A chuva tamborilava na cobertura de vidro lá bem acima. Mesmo assim, os passos de Harry ecoavam pelo espaço aberto. Um novo golpe de luz estilhaçou o céu. A cobertura, dividida em milhares de placas triangulares, iluminou-se num ápice com um brilho ofuscante. Depois a escuridão voltou a submergir o museu, abatendo-se com a chuva. Seguiu-se o trovão, sentido fundo no peito. A cobertura ressoou em consonância. Harry encolheu-se, receando que toda a estrutura se despenhasse. Com a sua lanterna apontada em frente, atravessou o átrio, dirigindo-se à ala norte. Circundou a Sala de Leitura central. Um relâmpago dardejou de novo, iluminando o lugar por ínfimas pulsações. Gigantescas estátuas, perdidas na escuridão, surgiram de lado nenhum. O Leão de Cnido ergueu-se junto à cabeça maciça de uma estátua da Ilha de Páscoa. Depois a obscuridade engoliu os guardiães quando o raio se extinguiu. Harry sentiu um arrepio e o eriçar de pele de galinha. Apressou o passo. A cada passada praguejava baixinho: maldito pedaço pulguento de mer… A litania ajudava-o a acalmar». In James Rollins, A Cidade Perdida, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-930-3.

Cortesia de BEditora/JDACT

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

A Sétima Praga. James Rollins. «A alta sacerdotisa ajoelhou-se nua na areia e soube que o momento havia chegado. Os presságios tinham-se acumulado, cada vez mais prementes»

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«As coisas têm aquecido ultimamente, não só as temperaturas globais, mas também o próprio debate em torno das alterações climáticas. Nos últimos anos, a discussão evoluiu de será que o aquecimento global é real?, para as quais as causas e o que poderemos fazer para o evitar? A verdade é que os antigos cépticos se viram obrigados a reconhecer que o planeta está a mudar, seja pelo degelo de glaciares por toda a parte, pelo desaparecimento acelerado da placa de gelo da Gronelândia ou pela subida progressiva das temperaturas dos oceanos. O próprio clima tornou-se mais extremo, com períodos de seca persistentes e inundações maciças. Tal como foi anunciado em Fevereiro de 2016, o território do Alasca registou o segundo Inverno mais quente de sempre, tendo-se verificado valores na ordem dos 12 graus Celsius acima da temperatura média habitual. Em Maio do mesmo ano, medições via satélite deram conta de uma diminuição do gelo ártico para novos níveis mínimos. Porém, a questão mais assustadora, é esta: para onde estamos a caminhar? Pouco discutida, a resposta é surpreendente, embora baseada em dados concretos e científicos. Mais chocante, ainda, já aconteceu no passado. Cépticos ou crentes, estarmos avisados significa estarmos preparados para o que aí vem. Está na altura de conhecer a verdade assombrosa sobre o futuro do nosso planeta.

Primavera, 1324 a.C.
Deserto da Núbia, sul do Egipto
A alta sacerdotisa ajoelhou-se nua na areia e soube que o momento havia chegado. Os presságios tinham-se acumulado, cada vez mais prementes, tornando-se uma certeza. A oeste, levantou-se uma tempestade de areia em direcção ao sol, transformando o céu azul num manto negro empoeirado, entrecortado pelo clarão de relâmpagos. O inimigo encontrava-se cada vez mais perto. Em preparação, Sabah rapara todos os pelos do corpo, incluindo as sobrancelhas por cima dos olhos pintados. Banhara-se nas águas à esquerda e à direita, dois afluentes que saíam do deserto profundo e corriam para norte, para depois se juntarem nessa sagrada confluência que dava origem ao poderoso rio a que os antigos reis dos heqa khasewet chamavam Nahal. Imaginou o seu curso sinuoso que banhava as cidades de Luxor, Tebas e Mênfis, a caminho do grande mar azul que se estendia para lá das terras férteis do delta. Apesar de nunca ter visto a região com os próprios olhos, ouvira histórias.
Essas eram as terras que os antepassados de Sabah tinham abandonado há mais de um século, para escaparem ao período das pragas, fome e morte, acossados por um faraó entretanto desaparecido. À maioria das outras tribos do delta procurara refúgio nos desertos a leste, conquistando essas terras e erguendo um reino que fosse deles, mas o povo de Sabah vivera numa área mais a sul ao longo do rio, perto de Djeba, no distrito egípcio de Wetjes-Hor, conhecido como o Trono de Hórus. Durante o período das trevas e morte, a tribo cortara as raízes que os ligavam àquele lugar, fugindo rio acima, para lá dos domínios do reino egípcio, rumo ao deserto núbio. Eram uma tribo de estudiosos, escribas, sacerdotes e sacerdotisas, guardiões de grande conhecimento. Tinham-se refugiado na vastidão do deserto com o propósito de protegerem esse saber durante os tempos turbulentos que se seguiram às pragas, quando o Egipto fora invadido por um inimigo a leste, um povo de guerreiros com bigas velozes e armas de bronze superiores, que logo conquistaram as cidades egípcias enfraquecidas, quase sem disparar uma única flecha». In James Rollins, A Sétima Praga, 2016, Bertrand Editora, 2017, ISBN 978-972-253-415-4.

Cortesia de BertrandE/JDACT