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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras: «… era servida por duas entradas, uma a sul, com acesso directo ao átrio e salas envolventes e outra a norte, com entrada directa para o peristilo e compartimentos que se erguem em torno deste vasto espaço aberto»

Planta da casa na fase 1, finais do século I
jdact

Cronologia e evolução da Casa das Carvalheiras
«Bem documentados estão os silhares que suportavam as colunas, quer nos pórticos exteriores, quer em volta do peristilo. Trata-se de blocos de granito predominantemente quadrados (45x45cm).
A habitação das Carvalheiras obedece a uma métrica rigorosa, verificando-se a utilização de dois módulos dominantes. O módulo de 10 pés (2,96 m) caracteriza a estrutura dos pórticos exteriores, estando presente tanto na largura e altura dos mesmos, como no distanciamento entre os eixos das colunas. Por sua vez, o porticado do peristilo oferece uma modulação alternada de 10 e 12 pés, quer na altura, quer na profundidade, quer ainda entre os eixos das colunas que o compunham. Nos lados menores domina o módulo de 10 pés entre os eixos das colunas, enquanto nos lados maiores o módulo é de 12 pés.
Muito embora não tenha sido conservado qualquer vestígio de madeira, esse material deve ter sido abundantemente utilizado na construção, sendo certamente usado nos telheiros, vigamentos e travamentos que sustentavam os telhados. Dos pavimentos correspondentes aos espaços da casa nada se conservou. No entanto, pressupomos que alguns deveriam ser feitos com tijoleiras e outros, seguramente, com mosaico, tendo em conta a descoberta de vestígios dos mesmos noutras habitações romanas de Braga.



A casa das Carvalheiras era servida por duas entradas, uma a sul, com acesso directo ao átrio e salas envolventes e outra a norte, com entrada directa para o peristilo e compartimentos que se erguem em torno deste vasto espaço aberto.
A entrada sul dava acesso a um pequeno corredor, fauces, (A1), com 18 pés de comprimento (5,2 m) por 5 pés de largura (1,5 m). Este corredor comunicava ainda com um compartimento, situado a oeste, que sabemos corresponder a uma loja (A6), uma vez que possuía uma entrada directa pelo pórtico sul. Tratar-se-ia, muito possivelmente, de um espaço comercial explorado directamente pelo proprietário da casa.

Ampliação
jdact

O corredor formaliza a passagem para o interior de um átrio aberto (A), em torno do qual se desenvolvia um conjunto de compartimentos que, pelas suas características, definiria uma área preferencialmente usada pelo dono da casa nos seus negócios.

Estrutura e funcionalidade dos espaços
O átrio (A), implantado à cota de 182,2 m possui uma área útil de 45 m2. Dispunha de um pequeno tanque, ou impluvium, lamentavelmente muito destruído. Com uma área estimada de 10 m2, dele se conservou apenas uma conduta, indicadora do escoamento das águas, bem como vestígios dos limites do mesmo. Este tanque recolheria a água das chuvas, através de uma abertura no telhado, comptuvium, que permitia também o arejamento e iluminação desta área da casa.
A nascente do átrio desenha-se um amplo compartimento (A2), com uma área útil de 30 m2, interpretado como sala de estar, em jeito de exedra, o qual podia funcionar como espaço de apoio às actividades desenvolvidas no átrio». In Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2000, ISBN 972-9382-11-5,fotografias de Jaime Manso, Pedro Vasconcelos e Manuel Santos, modelos 3D do LMUAU do Minho.

Corte N-S da casa na fase I
continua
Cortesia de Cortesia de Roteiros Arqueológicos/JDACT

terça-feira, 17 de julho de 2012

Cidade Romana. Bracara Augusta. Manuela Martins. «Observa-se um bom ritmo de importações de cerâmica, ao longo de todo o século IV, sendo de destacar o funcionamento dos ateliers de produção de cerâmica local, cujos produtos continuaram a difundir-se na região»


Anel de vidro, MDDS
jdact

«O afastamento de “Bracara Augusta” do palco de perturbações que afectaram a Hispânia, entre finais do século II e meados do III e o facto da cidade garantir a sua sobrevivência, basicamente a partir da região envolvente, poderão tê-la poupado de maiores sobressaltos, permitindo uma vida regular aos seus habitantes, ainda que sem grande incremento das actividades construtiva e comercial.
Entre finais do século III e inícios do IV “Bracara Augusta” registou um importante programa de renovação urbana, que compreendeu remodelações significativas de edifícios públicos e privados e a construção de uma muralha com torreões. Esse programa parece associar-se à promoção da cidade a capital da província da Galécia, criada por Diocleciano, que integrou os três conventos jurídicos do Noroeste e parte do de Clunia. As remodelações realizadas nessa época, observadas em grande número de construções em diferentes sectores da cidade, permitem constatar que as elites mantiveram aí a sua residência, procedendo a significativos melhoramentos das suas habitações, as quais passaram a incluir, generalizadamente, quer banhos privados, quer pavimentos com mosaicos.
Por outro lado, observa-se um bom ritmo de importações de cerâmica, ao longo de todo o século IV, sendo de destacar o funcionamento dos ateliers de produção de cerâmica local, cujos produtos continuaram a difundir-se na região. “Bracara Augusta” manteve, assim, ao longo daquele século, uma significativa actividade comercial e artesanal, não parecendo conhecer qualquer processo de retracção económica, ou de despovoamento. A persistência de uma vida económica e social activas, durante todo o século IV, pode ser uma consequência das novas responsabilidades políticas e administrativas da cidade, decorrentes da sua promoção a capital provincial. Essas responsabilidades terão sido mesmo acrescidas quando “Bracara Augusta” se tornou sede de bispado, nos finais do século IV, o que garantiu à cidade a administração de um importante território. Os numerosos cargos políticos e religiosos que se ofereciam às elites urbanas representaram um importante factor de fixação, justificando a sua residência na área urbana.

Inscrição do tempo de Augusto conservada numa parede da Sé

De Bracara Augusta à Braga medieval
As fontes históricas disponíveis para o período entre os séculos V e XI, são reduzidas. Por outro lado, a Arqueologia não fornece um registo claro sobre a ocupação suevo-visigótica da cidade, nem tão pouco sobre as consequências das incursões muçulmanas na região. Neste sentido, é ainda muito mal conhecido o período histórico que medeia entre 411, data da instalação dos Suevos na região de Braga, e o século XI, em que se organizou a cidade medieva, em torno da Sé.
Tendo em conta os dados fornecidos pela Arqueologia é possível afirmar que a ocupação suévica de “Bracara Augusta” não determinou o imediato declínio da cidade. Se algumas construções foram abandonadas, como aconteceu com as termas públicas do Alto da Cividade, outras foram entretanto erguidas, como parece ter acontecido na zona da Sé e um pouco por todo o extenso perímetro da cidade romana. A continuidade da vida urbana, ao longo do século V, surge-nos igualmente demonstrada pelos enterramentos realizados nas diferentes necrópoles romanas conhecidas, por um bom ritmo de importações de cerâmica e pela persistência de ateliers de cerâmica comum local e regional. Quer os materiais, quer as remodelações de edifícios públicos ou privados, observados nas escavações, revelam que a cidade resistiu às perturbações decorrentes do saque de Teodorico, em 455, referido com grande dramatismo por Idácio». In Bracara Augusta Cidade Romana, Manuela Martins, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2000, ISBN 972-9382-10-7.

Perspectiva da rua oeste das Carvalheiras

continua
Cortesia da UA da Universidade do Minho/
JDACT

domingo, 15 de janeiro de 2012

Cidade Romana. Bracara Augusta. Manuela Martins. «Os vestígios arqueológicos mais antigos conhecidos no sítio de Braga datam do Bronze Final. Estão representados por fossas e cerâmicas procedentes do Alto da Cividade, onde deve ter existido um povoado e por uma presumível necrópole identificada na área dos Granjinhos, na vertente Sul»

Cortesia de uadauniversidadedominho

Antes de Bracara Augusta
«Entre 138-136 a.C. o cônsul romano Junius Brutus comanda a primeira expedição militar ao NW da Península Ibérica. Segundo fontes históricas, depois de passarem o Lima e atingirem o rio Minho, as legiões romanas terão retrocedido para Sul, envolvendo-se em feroz batalha contra os “Bracari”, um dos povos mais importantes que habitavam a Norte do rio Douro. Este povo, referido por Apiano, possuiria um extenso território que se estendia, talvez, entre Douro e Cávado, habitando, tal como os outros povos conhecidos no Noroeste da Península, em povoados fortificados.
Nos dois últimos séculos antes da nossa era, estes povoados sofrem um grande desenvolvimento agrícola, artesanal e comercial, dotando-se de uma complexa arquitectura que tem a sua melhor expressão nas fortificações.
Aniquilados os derradeiros focos de resistência peninsular, concentrados sobretudo na zona das Astúrias e Cantábria (27-24 a.C.), impôs-se ao imperador Augusto a organização administrativa do NW peninsular e a integração das suas populações no mundo romano. A fundação de cidades e a construção de vias foram alguns do meios utilizados na concretização desses objectivos, que consolidaram o poder de Roma e aproximaram as populações indígenas da região dos restantes habitantes do Império. A criação de “Bracara Augusta” insere-se nesta política do imperador Augusto.

Os vestígios arqueológicos mais antigos conhecidos no sítio de Braga datam do Bronze Final. Estão representados por fossas e cerâmicas procedentes do Alto da Cividade, onde deve ter existido um povoado e por uma presumível necrópole identificada na área dos Granjinhos, na vertente Sul. Apesar destes vestígios é pouco provável que a implantação da cidade se tivesse sucedido a um castro proto-histórico, pois o local não possui as condições topográficas adequadas para a fixação desse tipo de povoados.


Cerâmica da Idade do Bronze encontrada nas escavações realizadas nos Granjinhos
Museu de Arqueologia Diogo Sampaio (doravante, MDDS)
Cortesia de uadauniversidadedominho

Fundação e desenvolvimento de Bracara Augusta
Bracara Augusta foi fundada pelo imperador Augusto, no fim das guerras cantábricas, no âmbito do programa imperial de reorganização administrativa da Península Ibérica, provavelmente no ano 16 a.C.. Assim, tal como as restantes criações augústeas no Noroeste, “Bracara Augusta” nasceu da necessidade de dotar a região a Norte do Douro de estruturas sociais e políticas susceptíveis de firmar a presença romana e facilitar a integração das suas populações. Enquanto que os dados arqueológicos disponíveis permitem afirmar que “Bracara Augusta” surgiu “ex nihilo”, o material epigráfico conhecido sugere um contexto religioso para a sua criação, fortemente influenciado pelo carisma de Augusto e pela difusão do culto imperial.

Plínio inscreve “Bracara Augusta” na lista dos “oppida” peregrinos. No entanto, é provável que a nova colectividade tivesse centralizado, logo desde a sua fundação, importantes funções de carácter jurídico, religioso e económico, articuladas com as suas atribuições enquanto sede de convento jurídico. Por outro lado, permanece discutível o estatuto da cidade e dos seus habitantes. De facto, tradicionalmente considerou-se que “Bracara Augusta” teria sido promovida a município no último quartel do século l. Este facto teria beneficiado os seus habitantes com o direito latino, o que permitia a ascensão da aristocracia indígena à cidadania romana. No entanto, é possível que “Bracara Augusta” tenha sido criada já com direito latino, facto que teria beneficiado, logo de início, a aristocracia indígena residente. De qualquer modo, ou por privilégio de fundação ou, mais tarde, por promoção municipal, “Bracara Augusta” terá possuído estruturas de governo autónomas, com senado e magistrados.


Divisão sdministrativa da Hispânia; províncias, conventos e cidades
Cortesia de uadauniversidadedominho

Os dados arqueológicos e epigráficos apontam para um considerável desenvolvimento da cidade, ao longo da dinastia júlio-cláudia, sendo admissível que durante a primeira metade do século I se tivesse operado um povoamento sistemático do novo aglomerado, tendo então sido erguidos alguns dos seus edifícios públicos.
A Arqueologia testemunha que “Bracara Augusta” era uma cidade ortogonal, com ruas bem alinhadas, orientadas NW/SE, algumas das quais com pórticos que envolviam as “insulae” (quarteirões) em que se dividia o espaço urbano. A luz dos resultados das escavações realizadas em vários locais do perímetro urbano podemos afirmar que “Bracara Augusta” terá atingido a sua máxima extensão no século II.

Inscrição do tempo de Augusto conservada numa parede da Sé Catedral
CONDITVM. SVB/ IMP(eratoris). CAESARIS. PATRIS. PATRI(AE)
Moedas de ‘caetra’, cunhadas no tempo das guerras cantábricas (MDDS)
Cortesia de uadauniversidadedominho

Pouco sabemos da Primitiva cidade, da época de Augusto e do período Júlio-cláudio. Pelo contrário, são abundantes os vestígios de construções da época Flávia-antonina. O surto urbanístico e a monumentalização de “Bracara Augusta”, entre finais do século I/meados do II, realizados certamente a expensas municipais, foram acompanhados pelo florescimento das actividades económicas, associadas, quer ao abastecimento de uma população crescente , com razoável poder de compra, quer ao escoamento regional de produtos fabricados na cidade.

As importações estão bem representadas por cerâmicas, vidros e por objectos de adorno. Alguns produtos importados revelam mesmo, Pela sua grande qualidade, que em “Bracara Augusta” residiu, durante o Alto Império, uma clientela abastada, de refinado gosto, que constituiria, certamente, a elite da cidade. Muito embora pouco se saiba sobre as exportações, podemos destacar, entre as actividades artesanais mais representativas, o fabrico de cerâmica comum de apreciável qualidade, de vidro e de metais». In Bracara Augusta Cidade Romana, Manuela Martins, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2000, ISBN 972-9382-10-7.

continua
Cortesia da UA da Universidade do Minho/JDACT

Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras: «Estamos em presença de uma elegante construção de forma aproximadamente quadrada, que pode ser dividida em duas áreas funcionais diferenciadas, bem marcadas pelo desnível de cerca de 3m de altura entre a plataforma norte (mais baixa) e a plataforma sul (mais alta)»



Cortesia de roteiros arqueologicos

Cronologia e evolução da Casa das Carvalheiras
«Se o desnível do terreno é compensado pela própria estrutura da casa, numa solução que certamente se repetirá noutras habitações congéneres, no exterior, ao nível dos pórticos e ruas, ele seria vencido por pequenos lances de escadas, documentadas na rua leste.
Na primeira metade do século II, a casa da Carvalheiras sofreu uma primeira reforma que afectou todo o seu lado oeste. Na origem desta reforma, que define uma segunda fase construtiva do conjunto habitacional, esteve a implantação de um balneário que irá ocupar o quadrante noroeste da primitiva habitação. Simultaneamente, toda a fachada oeste é remodelada, sendo mesmo sacrificado o pórtico e as lojas que anteriormente se desenhavam nesse lado da casa.

Estamos em crer que esta habitação sofreu outras reformas, ainda mal definidas, anteriormente aos finais do século III / inícios do IV, registando-se, então, uma profunda remodelação da estrutura. Sabemos, entretanto, que a construção se manteve ocupada até aos finais do século IV inícios do V altura em que terá sido definitivamente abandonada.

Cortesia de roteiros arqueologicos

O facto dos terrenos não terem sido posteriormente construídos, pois ficaram fora da cidade medieval, favoreceu a preservação do conjunto das ruínas que viriam a ser recuperadas pela escavação. No entanto, tal como aconteceu noutros locais de Braga, muitos muros foram saqueados até à rocha, deles restando apenas as valas onde foram implantados. Esta situação revela-se mais frequente nos muros de boa qualidade, erguidos nos séculos I e II, cujo aparelho regular se adaptaria melhor a ser reutilizado pelos construtores medievais. Pelo contrário, os muros tardios, construídos nas reformas datadas do Baixo Império, estão melhor conservados, revelando mesmo alguns elementos arquitectónicos associados às entradas dos compartimentos, designadamente as soleiras e as ombreiras.
Tais circunstâncias permitem que a fase tardia das Carvalheiras seja aquela que mais facilmente é compreensível ao visitante, revelando um conjunto de muros com alguma monumentalidade.

O primeiro projecto da Casa das Carvalheiras
Sistema construtivo
O primeiro projecto arquitectónico, que deixou evidências construtivas, data do último quartel do século I da nossa era. Trata-se de uma grande habitação que ocupa uma área de 1156 m2 (110x120 pés), dos cerca de 1367 m2 correspondentes à área total do quarteirão.
A casa desenvolve-se adaptada às condições morfológicas do local, desenhando-se em dois planos distintos, mas interligados, que definem, no seu conjunto, uma residência unifamiliar.


Pormenor de um dos compartimentos do sector leste
Cortesia de roteiros arqueologicos

Estamos em presença de uma elegante construção de forma aproximadamente quadrada, que pode ser dividida em duas áreas funcionais diferenciadas, bem marcadas pelo desnível de cerca de 3m de altura entre a plataforma norte (mais baixa) e a plataforma sul (mais alta). Tal desnível foi resolvido através da construção de um muro interior, erguido aproximadamente a meio da habitação. Ambas as plataformas, que definem espaços funcionais autónomos, possuem entradas próprias que assinalam bem a diferenciação, não só das áreas, como das actividades que aí se desenvolviam.
Esta casa revela uma boa qualidade técnica que é característica das construções de Bracara Augusta nesse período. Solidamente implantada no saibro, rasgado para assentamento de argamassa e cascalho grosso que definem as sapatas dos muros estruturais do edifício, a casa das Carvalheiras ergue-se como um volume sólido e estável, de paredes de granito. Estas mostram um aparelho coeso, no qual dominam os blocos quadrados e sub-rectangulares, dispostos em fiadas horizontais, com ligante constituído por argamassa de saibro. A espessura dos muros mais representativos oscila entre 45 cm e 48 cm nas paredes interiores (1,5 pés) e 51 e 56 cm nas exteriores, valores que as aproximam da medida de 2 pés». In Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2000, ISBN 972-9382-11-5.


Planta da casa das Carvalheiras na fase I, finais do século I
Cortesia de roteiros arqueologicos



Cortesia de Cortesia de Roteiros Arqueológicos/JDACT

sábado, 20 de agosto de 2011

Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras: «A habitação das Carvalheiras representa um exemplo bem conservado do modo como se organizavam as áreas residenciais da cidade romana. Os pórticos que ladeiam as ruas e as numerosas lojas que se instalavam ao longo das fachadas, no piso térreo das casas…»

Inserção da ínsula das Carvalheiras na malha urbana de «Bracara Augusta»
Cortesia de roteiros arqueologicos

Localização e inserção urbana
«O conjunto das Carvalheiras situa-se no sector noroeste de «Bracara Augusta», encontrando-se limitado, a este, pelo cardo máximo e, a sul, pelo decumano máximo. Estamos, assim, perante uma área habitacional que se situava perto da zona monumental da cidade romana. Essa zona está definida pelo «fórum», localizado na plataforma mais alta da cidade.
Constituído pela totalidade de uma habitação, rigorosamente limitada por quatro ruas e ocupando a área de uma «ínsula», com um «actus» de área construída, o conjunto arqueológico das Carvalheiras oferece ainda vestígios de outras duas habitações desenhadas nos limites do terreno a sul e oeste, infelizmente mal conservados. No limite norte da área escavada foi igualmente descoberto parte do pórtico sul de uma outra habitação, actualmente não visível.

Cortesia de roteiros arqueologicos

A delimitação da casa das Carvalheiras, rodeada por outras construções similares, permitiu identificar um módulo construtivo urbano, definido por ruas perpendiculares. Esse módulo viria a ser confirmado noutros sectores da cidade, designadamente nos terrenos anexos ao Antigo Albergue Distrital e no Alto da Cividade, onde se ergue a construção mais antiga conhecida até hoje em «Bracara Augusta», datável dos inícios do século I.
A habitação das Carvalheiras representa, assim, um exemplo bem conservado do modo como se organizavam as áreas residenciais da cidade romana, oferecendo características urbanísticas e arquitectónicas, observadas também noutros locais de Braga. Entre essas características destacamos os pórticos que ladeiam as ruas e as numerosas lojas que se instalavam ao longo das fachadas, no piso térreo das casas. A abundância destas últimas nos lados sul e oeste da casa das Carvalheiras demonstra que esta se situava numa área de intensa actividade comercial. Tal actividade poderia justificar-se pela proximidade da zona do «fórum», ao qual era possível aceder através da rua que ladeia a casa pelo lado este.


Objectos de adorno
Cortesia de roteiros arqueologicos

Cronologia e evolução da Casa das Carvalheiras
As escavações realizadas na zona das Carvalheiras revelaram materiais datáveis da primeira metade do século I da nossa era. No entanto, os mais antigos vestígios de construções presentes no local não podem ser datados anteriormente ao último quartel desse século. Podemos, assim, afirmar que a casa das Carvalheiras foi erguida na época flávia, ou seja, posteriormente ao ano 70 da nossa era, desconhecendo-se o tipo de construção que aí poderia ter existido anteriormente.
O primitivo conjunto residencial corresponde a uma casa de átrio, «atrium» e peristilo «peristylium». Projecto de excelente qualidade, a habitação revela uma cuidada adaptação às condicionantes topográficas do terreno e uma métrica rigorosa que obedece aos típicos cânones vitruvianos.

A habitação desenvolve-se em duas plataformas distintas que solucionam de um modo hábil o declive natural da vertente. O desnível entre os dois tabuleiros é marcado por uma parede interna. Esta separa a plataforma mais alta, onde se situa o átrio e compartimentos envolventes, à cota da rua e do pórtico sul, da plataforma mais baixa, que se desenvolve em torno do peristilo». In Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2000, ISBN 972-9382-11-5.

(Continua)
Cortesia de Roteiros Arqueológicos/JDACT

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Bracara Augusta. A Casa Romana das Carvalheiras: «Recomeçadas em 1990, numa tentativa de definição dos limites da construção anteriormente descoberta, as escavações viriam a prolongar-se até ao ano de 1995. Ficou então totalmente delimitada uma unidade habitacional, circundada por quatro ruas, que ocupava a totalidade de um quarteirão residencial»

Cortesia de roteiros arqueologicos

Introdução.
«A identificação do conjunto arqueológico das Carvalheiras ocorreu em 1983, na sequência de uma escavação realizada num terreno livre, situado a oeste da R. dos Marchantes, onde se previa construir uma escola e infra-estruturas desportivas.
A abertura de algumas sondagens na parte sudoeste do terreno viria a pôr de imediato a descoberto o cruzamento de duas ruas e muros bem conservados de duas habitações distintas. O interesse das ruínas levou ao prolongamento dos trabalhos durante o ano de 1984, tendo sido abandonado o projecto de construção da escola.
Várias campanhas de escavação, que se prolongaram até 1986, permitiram, entretanto, descobrir cerca de metade de uma habitação romana, ladeada de pórticos dispostos ao longo de duas ruas.
Recomeçadas em 1990, numa tentativa de definição dos limites da construção anteriormente descoberta, as escavações viriam a prolongar-se até ao ano de 1995. Ficou então totalmente delimitada uma unidade habitacional, circundada por quatro ruas, que ocupava a totalidade de um quarteirão residencial de «Bracara Augusta». Nos limites das ruas descobertas desenham-se muros pertencentes a outras habitações e quarteirões.

Perspectiva aérea da zona arqueológica das Carvalheiras no início das escavações
Cortesia de roteiros arqueologicos

Para além de constituir a única casa romana totalmente escavada até ao momento em Braga, a habitação das Carvalheiras revela-se como um admirável exemplar da arquitectura urbana privada, constituindo, simultaneamente, um notável fragmento do urbanismo de «Bracara Augusta». Com efeito, o módulo urbano identificado no quarteirão das Carvalheiras permitiu, em conjugação com outros elementos, definir a matriz do urbanismo da Braga romana e elaborar a primeira proposta de um traçado ortogonal para a cidade.
Por sua vez, o estudo desta habitação forneceu indicadores do tipo de construção utilizado em diferentes épocas, pois foi objecto de várias remodelações ao longo dos cerca de quatro séculos da sua ocupação.
O conjunto arqueológico das Carvalheiras constitui um ponto de interesse essencial para o conhecimento do urbanismo e arquitectura privada romana da região norte-ocidental da Península Ibérica.

Sector escavado entre 1983 e 1986
Cortesia de roteiros arqueologicos

O conjunto arqueológico das Carvalheiras localiza-se num terreno limitado, a este, pelas traseiras dos prédios que se distribuem ao longo da R. dos Marchantes - por onde se faz o acesso às ruínas - e, a norte, pelas traseiras das casas da R. Cruz de Pedra. A sul, o terreno está limitado por um alto muro de suporte que separa o tabuleiro onde se encontram as ruínas de um outro mais alto. A oeste, existe actualmente um campo de jogos, construído em 1989, depois de terem sido escavados os terrenos. Estas escavações não revelaram estruturas arqueológicas conservadas.
O terreno onde se localizam as ruínas das Carvalheiras nunca foi construído, uma vez que, após o seu abandono como área residencial da cidade romana, passou a ser usado como espaço agrícola. Tal facto justifica o razoável estado de conservação das estruturas aí descobertas». In Bracara Augusta, Manuela Martins,  A Casa Romana das Carvalheiras, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, 2000, ISBN 972-9382-11-5.

Cortesia de Cortesia de Roteiros Arqueológicos/JDACT