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sexta-feira, 23 de setembro de 2022

O Sem Pavor. António Costa Neves. «Assim de repente e a frio, a ideia parece-me boa. Alguns monges-cavaleiros pediram-me, há algum tempo, o castelo de Soure para aí se instalarem»

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«(…) Mesmo os criminosos, senhor dom João!?, admirou-se o rei. Quando o arrependimento é sincero. Ora, ora, um criminoso é sempre um criminoso, com bom senso sempre haveremos de alcançar algum equilíbrio, senhor dom Afonso. Muito bem, e que mais? Deixei para o fim a bula papal, Omne datum oPtimum, que aprova a ordem dos Pobres cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, fundada em 1118 por alguns dos mais proeminentes monges de Cister, e que, em toda a cristandade, já é conhecida por Ordem dos Cavaleiros Templários. E essa Ordem, como mui bem sabeis, senhor dom João Peculiar, já está a ser formada em Portugal, atalhou o cavaleiro Gualdim Pais, que, como os demais, em silêncio, se mantinha atento a tudo o que se dizia. Pois era minha intenção convidar os cavaleiros presentes, a começar por Sua Alteza Real, a aderirem a essa irmandade quanto antes. Até porque, para além da defesa do Santo Sepulcro, também a guerra contra os infiéis, na Hispânia, passa a estar equiparada, para todos os efeitos, a uma cruzada.

Sendo assim, não vejo como não nos poderemos associar nessa santa iniciativa, interveio, de novo, Gualdim Pais, para logo se dirigir ao rei. Se Vossa Majestade não vir inconveniente. Assim de repente e a frio, a ideia parece-me boa. Alguns monges-cavaleiros pediram-me, há algum tempo, o castelo de Soure para aí se instalarem. Pretextavam que minha mãe já lho teria prometido antes. Terei de ver a bula primeiro e discutir a questão com o senhor arcebispo João Peculiar. Pois estas foram as principais decisões religiosas que trago de Latrão. Quanto à questão principal que me fez voltar à Santa Sé, que é o reconhecimento de Vossa Alteza como rei, tudo estava bem encaminhado. Infelizmente, quando cheguei ao Vaticano, depois de terdes assinado o Tratado de Zamora, o papa Inocêncio II tinha acabado de falecer. Mas que infortúnio, senhor dom João!, exclamou, claramente desapontado, o rei.

Ainda por cima, o bispo dom Pedro Helías, de Santiago de Compostela, continua a sua campanha contra nós. Por isso lá fiquei durante todo este tempo, procurando, junto da nova cúria, os apoios necessários. Porém, o pontificado do papa Lúcio II nem durou um ano, o pobre de Deus logo se finou, com uma pedrada, quando combatia o patrício Giordano Pierleone, irmão do antipapa Anacleto II, já em Fevereiro deste ano. E agora, senhor dom João, que papa temos em Roma e que esperanças nos trazeis?, interrogou o rei, profundamente agastado com tantas contrariedades. Pois agora temos o papa Eugénio III, um antigo monge de Cister. Dessa Ordem fundadora dos Templários, a quem autorizámos o Convento de São João de Tarouca!? Parece-me bom augúrio esse tal papa Eugénio III. E vós o que achais, senhor dom João?» In António Costa Neves, O Sem Pavor, Saída de Emergência, 2022, ISBN 978-989-773-439-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

JDACT, António Costa Neves, Literatura, História, Geraldo Sem Pavor,

quinta-feira, 22 de setembro de 2022

O Sem Pavor. António Costa Neves. «Por mim, só me dou satisfeito quando estivermos instalados no castelo de Silves!, exclamou Lourenço Viegas, conhecido por o Espadeiro…»

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«(…) Sim, como se fosse possível, agora que já estamos em Coimbra, voltarmos de novo a Guimarães. O nosso caminho só pode ser para a frente: Santarém, Lisboa, Alcácer e, quiçá, Évora, e todas aquelas praças que, ao longo do Odiana, defendem Badalhouce!, entusiasmou-se Afonso Henriques, como que antecipando as campanhas que, com os mais próximos, vinha, desde há algum tempo, congeminando. Por mim, só me dou satisfeito quando estivermos instalados no castelo de Silves!, exclamou Lourenço Viegas, conhecido por o Espadeiro, pela sua habilidade no manejo da espada contra a moirama.

Subitamente, todos começaram a falar ao mesmo tempo, alimentados pelo entusiasmo gerado pela lembrança dos últimos sucessos alcançados contra os sarracenos. Bradaram-se hurras, bravos e vivas, gritou-se por Santiago e por Santa Maria, até que o rei resolveu pôr cobro à algazarra. De novo com uma valente punhada na mesa, que a todos fez estremecer. Sempre quero ver-vos, bravos cavaleiros, na hora da verdade. Agora, porém, deixai falar o senhor dom João Peculiar, que desde Zamora não o oiço com a atenção devida. E, mesmo aí, a nossa conversa versou apenas as questões relacionadas com o tratado que Vossa Alteza firmou com vosso primo Afonso VII. Por sinal um passo importante na concretização das nossas pretensões. Mas, se me permitis, disso falaremos mais à frente.

Dom João Peculiar olhou propositadamente o rei, que prontamente lhe correspondeu com um gesto de concordância, e logo prosseguiu: Depois de todos aqueles leigos feitos prelados à força, sem vocação, concubinários e debochados, cujos comportamentos mundanos e licenciosos tanto feriram a Santa Madre Igreja, terem sido despojados das suas investiduras, procedeu-se à aprovação dos trinta cânones propostos, a começar pela homologação da concordata de Vórmia, em que o imperador renunciou à capacidade de investir, pelo báculo e pelo anel, bispos de sua livre escolha. Pecado que aqui não cometemos; quer dizer, todos os bispos que escolhemos foram nomeados de comum acordo. Infelizmente não é isso que consta, Majestade. Não acrediteis em tudo o que ouvis, senhor dom João. Olhai que de Leão sempre me lançam as piores atoardas. E até em Roma e Pisa muitos adversários de peso tenho.

A quem o dizeis, Vossa Alteza. Que desacreditar essa gente tem sido o meu principal trabalho. Mas como eu ia contando, os cânones aprovados foram trinta. Muitos dízem respeito a questões internas como as vestes dos sacerdotes e o casamento dos padres. Dois ou três, porém, reputo da maior importância. E o primeiro dos quais é sobre a usura, o qual convinha ser posto em prática sem demora, porque muitos judeus, valendo-se das suas fortunas, põem e dispõem, a seu bel-prazer, da imposição de juros demasiado altos aos necessitados que deles se socorrem.

E mesmo alguns príncipes e reis, e, até nalguns casos, a própria Igreja se têm visto enredados nessa maldita trama. Na verdade, senhor dom João Peculiar, eu próprio, para fazer face aos custos da guerra aos infiéis, já tinha pensado em utilizar esse recurso. Só não o fiz, ainda, porque as razias que vamos fazendo têm dado para as despesas. Porém, uma empreitada como a tomada de Santarém ou de Lisboa... Deus há de ajudar-nos, como sempre nos ajudou, quando for o momento azado, Majestade. Mas dizia eu, um outro cânone igualmente importante trata da Paz de Deus. Paz de Deus, senhor arcebispo João, o que é isso da Paz de Deus? Doravante fica determinado que os lugares de culto, os conventos e as abadias são locais sagrados, onde os príncipes e os reis não têm jurisdição. Nem sequer para prender os perseguidos que neles busquem protecção». In António Costa Neves, O Sem Pavor, Saída de Emergência, 2022, ISBN 978-989-773-439-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

JDACT, António Costa Neves, Literatura, História, Geraldo Sem Pavor, 

O Sem Pavor. António Costa Neves. «E depois, senhor dom João?, impacientou-se, mais uma vez, Afonso Henriques, dando com o punho direito na mesa, e, com isso, fazendo saltar algumas lascas de pão»

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«(…) Agora que já temos as barrigas mais aconchegadas, contai-me, dom João Peculiar, meu bom amigo, que novas trazeis de Latrão, que tanto tempo por lá vos demorastes? Muitas e boas, senhor meu rei. E não só da Santa Madre Igreja, mas também da nossa missão de vos saberdes reconhecido pelo Santo Padre. Pois, começai por estas, que são mais interessantes, e deixai as outras para a ceia, que vem já a seguir. Basta que vos diga, por ora, que o nosso serviço ficou bem encaminhado, mas é forçoso que vos fale, primeiro, das outras para que melhor percebais a delicadeza da nossa missão e os ganhos que já alcançámos.

Por momentos, o rei pareceu enfadar-se. O seu interesse mais premente residia na desejada bula com que o papa haveria de lhe reconhecer o reino e o reinado. Há cinco anos que dom João Peculiar vinha fazendo todos os esforços, em longas e trabalhosas viagens a Pisa, para lhe conseguir a malfadada bula. Afonso Henriques reconhecia-lhe a persistência; por isso susteve a respiração, passou o punho da camisa pela boca, lustrosa da gordura do reco, e assentiu: Pois sim, dom João, falai então, primeiro, do concílio e do que lá se passou. Ora, este II Concílio de Latrão, o décimo da história da igreja... O décimo ou o décimo primeiro, senhor dom João?, interrompeu bruscamente, depois de um prolongado arroto e entre duas dentadas, dom Teodoro. Décimo, dom Teodoro. Sabeis bem que aquele Latrocínio de Efeso, convocado pelo imperador Teodósio II de Constantinopla, não é reconhecido pela verdadeira Igreja de Roma.

Sim, sim, mas prossegui, senhor dom João, logo atalhou o rei, pondo ordem nas prioridades. Como sabeis, estava em causa o grande diferendo que opunha o nosso papa Inocêncio II ao cardeal Pierleone, que, à socapa, se tinha feito eleger como Anacleto II. E sendo este filho de um banqueiro pontifício e apoiado pelas principais famílias da nobreza, com excepção dos Frangipani, desde logo ocupou o Vaticano, enquanto o nosso venerando papa Inocêncio teve de ficar em Pisa. Aprouve Deus que Pierleone, que a terra lhe seja leve, se finou a 25 de Janeiro de 1138. Então, o nosso querido papa Inocêncio II resolveu convocar, para Abril de 1139, o maior concílio ecuménico que a cristandade já presenciou. Olhai que mais de mil prelados de todas as partes do mundo cristão a ele acorreram, numa clara demonstração da vitalidade da nossa Igreja e de incontestável apoio ao múnus do nosso supremo bispo.

E depois, senhor dom João?, impacientou-se, mais uma vez, Afonso Henriques, dando com o punho direito na mesa, e, com isso, fazendo saltar algumas lascas de pão. Pois, foi uma vitória concludente, porque todos os que tinham sido nomeados pelo usurpador, bispos, arcebispos e abades, foram obrigados a depor o pálio, o anel e o báculo. Depois o concílio ocupou-se daqueles heréticos, como Arnaldo de Bréscia, e todos os espirituais que advogam os ideais de pobreza, de ascetismo e de despojamento. Enfim, o regresso à pureza original, como se fosse possível o mundo andar para trás. Gente lerda, senhor dom João, interrompeu o senhor Gonçalo Mendes Maia, que permanecera atento e, até então, calado». In António Costa Neves, O Sem Pavor, Saída de Emergência, 2022, ISBN 978-989-773-439-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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terça-feira, 20 de setembro de 2022

O Sem Pavor. António Costa Neves. «Dom Afonso Henriques, a quem o povo começava a habituar-se a tratar por rei, tinha sido coroado, dois anos antes, na velha Sé de Coimbra, ainda em obras»

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«A grande mesa de carvalho, que o Espadeiro tinha trazido de Tarouca, estendia-se ao longo da nave. Nela cabiam, com largueza, vinte convivas. Porém, no paço da Almedina, naquele fim de tarde de Agosto de 1145, não eram mais de dez, entre prelados e cavaleiros. Leitões da Bairrada, enchidos de Lafões e queijos de Seia enfeitavam a mesa, a que os canjirões de vinho do Dão e o pão quente, acabado de cozer, emprestavam um colorido e um aroma que casavam bem com aquelas iguarias próprias da mesa de um rei. O salão de armas da alcáçova do paço real era robusto e arejado. A nave alta, que a colunata de cantaria sustentava, abria-se, do lado norte, em duas amplas janelas para o pátio interior, onde, no meio de um delicado jardim, um fontanário de granito borbulhava uma torrente contínua para um tanque onde nadavam alguns peixes coloridos. Era, porém, no lado sul, onde a colunata se projectava em forma de ferradura, que a vista era mais bela, alongando-se pelo arrabalde até ao Mondego, aos férteis campos de semeadura e aos montes fronteiros pejados de um arvoredo denso e refrescante.

Dom Afonso Henriques, a quem o povo começava a habituar-se a tratar por rei, tinha sido coroado, dois anos antes, na velha Sé de Coimbra, ainda em obras. Coroação sem presença do povo, mas afiançada pela clerezia que o rodeava e apoiava, assente nas Cortes de Lamego, onde cavaleiros e prelados de todo o território portucalense se tinham reunido, em data que ninguém sabia. Falava-se no grito do Almacave como se todos o tivessem ouvido, mas era duvidoso que algum vilão de Coimbra conhecesse Lamego e, muito menos, a Igreja de Santa Maria do Almacave, onde os mais informados juravam, a pés juntos, que as Cortes se tinham reunido, em data incerta e variada, entre 1139 e 1143, autenticadas pelo ouvir dizer e segundo a criatividade e a boa-fé de cada um.

No topo da mesa, numa cadeira de espaldas, o rei, de barbas e cabelos longos, como então se usava, na plenitude dos seus recentes 36 anos, dominava a assembleia. Os olhos eram profundos e as sobrancelhas abundantes, o riso e os gestos, com que amiúde pontuava a conversa, eram troantes e vigorosos. À sua direita, dom João Peculiar, desde há sete anos arcebispo de Braga e primaz das Espanhas, a tudo correspondia com acenos brandos e sorrisos seráficos. Do lado esquerdo, o bispo de Coimbra, dom Teodoro, calado e beatificado, vermelhusco do vinho que não largava, comia como um alarve, de boca aberta e pingo seboso a cair-lhe do canto da boca. Sete cavaleiros compunham o resto da mesa: Gonçalo Mendes Maia, de cabelos já a encanecer, um pouco recuados na testa, esfarripados e ralos; Lourenço Viegas, o Espadeiro, garboso e vivaz, um dos filhos mais velhos de Egas Moniz; seu irmão Mem Moniz, bem mais moço; o alferes-mor Pero Pais Maia, filho de Gonçalo Mendes; Gualdim Pais e Martim Moniz, cavaleiros da hoste real; e Gonçalo Sousa, o Bom, um cavaleiro de Ribadouro, de quem o rei muito se agradava. Completavam o quadro, junto às janelas viradas a Sul, dois enormes cães de pelo negro e farto, como os da serra da Estrela, que comiam, em silêncio, os ossos de leitão que lhes iam atirando». In António Costa Neves, O Sem Pavor, Saída de Emergência, 2022, ISBN 978-989-773-439-7.

Cortesia de SdeEmergência/JDACT

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