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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «A conclusão que se impõe é que a escrita alegorizante está tão divulgada como a interpretação alegórica, mesmo em textos vernáculos, cuja leitura ou decifração não pode ser feita sem esta perspectiva»


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Conferências. Decifração
«(…) Um dos instrumentos mais úteis para a criação de parâmetros comuns foram as listas infindáveis de nomes próprios com explicação etimológica. Da autoria, pelo menos parcial, de S. Jerónimo, ou a ele atribuídos, chegaram até nós vários tipos desta espécie de elencos de significados etimológicos e simbólicos de nomes proprios. Às vezes as etimologias são forçadas, outras quase absurdas ou contra o génio da língua; a culpa não é de Jerónimo que assim as encontra já vulgarizadas. Dou um exemplo: Belial enim ínterpretatur absque jugo. Et notandum est quod omnes, qui ebrietatem sectantur, filií Belial vocentur.
Traduzo: Belial quer dizer sem jugo. E note-se que todos aqueles que seguem a embriaguês se chamam filhos de Belial. E uma sentençazinha de carácter moralizante que como tal estava destinada a ter futuro. Rabano Mauro, no século IX, repete-a ipsis verbis nos seus Comentários aos Livros dos Reis; e Angelomus de Luxeuil, do século IX, faz o mesmo nas suas Enarrationes in libros Regum. Haimo d'Auxerre (também do século IX) cita a primeira parte, Belial quer dizer sem jugo, omite a segunda parte, que associa sem jugo a embriaguês, mudando completamente o rumo da interpretação ao acrescentar: misticamente ordena-se à Igreja, oprimida pelo Diabo com o pesadíssimo jugo da idolatria, que, libertada pela paixão do Senhor, celebre as festividades etc.
Mas o mesmo autor, num comentário às Epístolas de S. Paulo, aplica a mesma etimologia de Belial a um outro contexto, extraindo dela este significado: Belial quer dizer sem jugo, significando o diabo que sacudiu da sua cerviz o jugo de Deus Omnipotente. Assim se foi propagando este pequeníssimo comentário de autor em autor, como aconteceu a muitos outros, até constituir um lastro de cultura, por enquanto no âmbito do texto escrito. Mas um dia um pregador, leitor destes comentários, utilizou-o num sermão. E daí passou para o domínio público. Foi exactamente isso que aconteceu, já que o mesmo Haimo de Auxerre utilizou essa expressão numa das suas homilias. Utilizou-a também Godefroid d’Admont no século XII nas suas Homiliae dominicales. E sobretudo foi utilizada por um autor desconhecido num dicionariozinho que serviu de índice às Homilias Dominicais e que exerceu, decerto, uma influência incalculável na elaboração de tantas homilias de que não nos resta hoje uma só palavra. Forma-se assim uma cadeia de transmissão que talvez venha a encontrar o seu destino final em alguma obra vernácula, e quem sabe se foi cientemente ou não que o seu autor utilizou essa expressão. Não sei se tal aconteceu. Só sei que a mesma expressão vai aparecer em Guibert de Nogent, séculos XI-XII, nos seus Moralia in Genesim, em Bruno Segui (séculos XI-XII) no Comentário ao Pentateuco, em Rupert de Deutz (séculos XI-XII), no tratado sobre a Santíssima Trindade e no comentário aos doze Profetas menores. Enfim, num autor desconhecido de uns sermões, em Pedro Abelardo (século XII), e em mais meia dúzia de Autores.
A conclusão que se impõe é que a escrita alegorizante está tão divulgada como a interpretação alegórica, mesmo em textos vernáculos, cuja leitura ou decifração não pode ser feita sem esta perspectiva. E quando lermos, num autor qualquer, que em hebraico Adam quer dizer Homem, ou que ou o texto grego ou o texto hebraico de determinado passo da Bíblia apresenta uma leitura diferente da versão latina, não vamos deduzir apressadamente que o autor lia essas línguas, mas simplesmente que retirou a sua informação de um comentário anterior ou de um lexicon do género daqueles que tenho vindo a considerar. E não nos precipitemos a indicar a sua fonte porque a origem da sua informação pode derivar de uma dúzia de autores.

Segundo as leis da alegoria
A alegorização do texto, quer como forma de escrita, quer como método hermenêutico, tem as suas leis. A expressão leges allegoriae é usada por S. Jerónimo (2 vezes), por Beda (5 vezes) e por João Escoto Erígena (1 vez). Dissemos há pouco que, em rigor, só pode ser objecto de decifração alegórica um texto construído sobre uma cifração alegorizante, no sentido, insisto, de que um sistema coerente de isotopias instaura um processo de remissões, termo a termo, para um universo referencial de outra natureza, pela coexistência sistemática de dois níveis de significado, o literal e o simbólico. S. Jerónimo é, talvez, o autor que revela uma consciência mais aguda da distinção entre poiética e hermenêutica, entre codificação e descodificação». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

Decifração em Textos Medievais. Apertio Libri. Arnaldo Espírito Santo. «É-lhe conferida uma dignidade e uma sublimidade que ultrapassa a simples interpretação de um texto. Por trás disso, está a leitura do plano de Deus, sobre o sentido da vida humana, do drama da história»

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Conferências. Decifração
«(…) Mas voltemos ao texto de S. Jerónimo. Epidémio, quando chegou a Belém da Judeia, entregou a Jerónimo, que aí fazia vida monástica, um rol de perguntas ou questões que lhe eram trazidas da parte de Algásia. E a alegorização do texto prossegue. Ao ler o bilhete, Jerónimo vê nas questões de Algásia um sinal de que nela se realizam de uma forma completa o interesse pela sabedoria que trouxera a Rainha de Sabá dos confins do mundo para ouvir a sabedoria de Salomão. E configura-se a seguinte isotopia per allegoriam: Jerónimo igual a Salomão, e Algásia igual à Rainha de Sabá. Mas ele não se considera à altura de Salomão, pois que nem antes nem depois houve homem que o superasse em sabedoria. Mas ela, sim, ela, Algásia, é uma verdadeira Rainha de Sabá, ela em cujo corpo domina o pecado e cujo espírito está inteiramente convertido a Deus, porque é isso que na língua latina significa Saba, a saber, conversão.
Estamos, pois, em presença de um de muitos exemplos de escrita alegorizante. Não se trata, na maior parte dos casos, do uso das técnicas retóricas da Antiguidade com o recurso à metáfora, à metonímia, ao símile e a toda a panóplia de tropos e figuras. Isso também existe em Jerónimo. Mas é mais que isso, é um desdobrar permanente de um significado em vários significados de realidades que estão a outro nível, no texto e além do texto. Não se trata apenas de uma isotopia coerente que remete termo a termo, metaforicamente, para um universo referencial de outra natureza. Trata-se, sim, de um discurso cujo significado é aberto porque se entra nele com a chave de decifração que é o alfa que estava no princípio e o ómega que estava no fim. Faço uma pergunta: acaso quem assim escreve, embrenhado nas florestas do significado, poderá seguir outro caminho na interpretação do texto que não seja per allegoriam? De certo que não. Aliás, a resposta está neste riquíssimo proémio da Epístola a Algásia, no qual, após uma análise preliminar das questões que lhe são propostas, Jerónimo faz de imediato o diagnóstico: dei-me conta de que as tuas questõezinhas dizem respeito apenas ao Evangelho e aos Apóstolos. Isso quer dizer que quanto ao Velho Testamento, ou não o leste bastante, ou não o entendeste. E porquê? A resposta é dada por Jerónimo: primeiro, porque o Velho Testamento está cheio de obscuridades; segundo porque está envolto em prefigurações do futuro; assim sendo, todo ele necessita de interpretação.
Em resumo, o que diz Jerónimo é que a questão não está em legere mas em legere satis e, mais ainda, em intellegere, ou seja, não está em ler, mas em ler bem e entreler ou ler entre: ler entre as obscuridades de um texto de outras épocas, por vezes de transmissão corrompida, e principalmente entre as obscuridades de sentido decorrentes do próprio mistério nele contido e da prefiguração futura escondida sob a capa dos acontecimentos presentes. O que é quase o mesmo que dizer: não é possível ler senão perspectivando o presente na mira do futuro, recorrendo para isso à interpretação per allegorian. Não há outra forma de passar do nível da lectio ao do intellectus, da lição ao da intelecção.
Há uma lei essencial da alegoria que vários autores repetem e que S. Jerónimo formula da seguinte maneira: a porta oriental do Templo, da qual surge a verdadeira luz e pela qual entra e sai o sumo-sacerdote, está sempre fechada, e só se abre a Cristo que tem a chave de David, que abre e ninguém fecha: fecha e ninguém abre. Nesta simples frase, com toda a beleza poética e majestade bíblica, Jerónimo, por uma série de referências em cadeia que passam pelo Profeta Ezequiel, pelo Apocalipse e pelo Cântico dos Cânticos, Jerónimo, digo, repete um princípio que, como já referimos, se encontra no comentário ao Apocalipse de Vitorino de Petau: a chave do Antigo Testamento é o próprio Cristo. A interpretação alegórica, ou simplesmente o comentário bíblico medieval é, deste modo, como que assimilado aos passos da tradição bíblica em que se fala da apertio tibrí. É-lhe conferida uma dignidade e uma sublimidade que ultrapassa a simples interpretação de um texto. Por trás disso, está a leitura do plano de Deus, sobre o sentido da vida humana, do drama da história, da criação e do universo. Mas por Ser uma tarefa grandiosa reservada a santos varões de reconhecida idoneidade, e atentamente vigiada pela Igreja para assegurar a sua ortodoxia, criou desde cedo uma certa padronização». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 23 de outubro de 2016

Decifração em Textos Medievais. Arnaldo Espírito Santo. «… eructavit cor meum verbum bonum; o que traduzido segundo a letra da versão latina daria: o meu coração arrotou uma palavra boa».

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Conferências. Decifração
«(…) A alegoria está no trâmite final que identifica a minha carne com a minha palavra. A interpretação alegórica é pois um percurso que vai da análise da materialidade do discurso, passa pela sua integração no contexto, e remata com a extrapolação fundamentada nos dois níveis anteriores, Sobretudo no contexto, como acontece neste caso em que Cristo, um pouco antes, declarara que a sua carne era pão celeste, forçando de todas as maneiras, per allegoriam, os seus ouvintes a recordarem-se dos seus antepassados que preferiram o pão e a carne dos Egípcios ao chamamento divino. E foi por isso que disse: A carne de nada aproveita. Com este remate voltamos ao sentido literal do início, mas agora enriquecido de outros sentidos que lhe são conferidos pelo contexto. Digamos, por conclusão, que em princípio só deveria haver interpretação alegórica quando o texto contivesse em si uma linguagem já de si alegórica ou alegorizante, como no caso acima analisado; deveria, pois, imperar o princípio segundo o qual o nível da decifração deve corresponder ao nível da cifração, e deve haver uma corrente contínua entre sentido literal, contexto, e significação alegórica. Estes são os princípios que estão presentes em muitos escritores medievais, não apenas como exegetas do texto, mas também como fazedores dos seus próprios textos. 
Significado dos nomes próprios
Um dos fundamentos da interpretação alegórica foi desde tempos imemoriais a decifração dos nomes próprios a partir do seu significado como substantivo comum. O hebraico é uma daquelas línguas em que o nome próprio, em muitos casos, mantém viva e transparente a motivação do significado, no sentido que lhe foi dado por Stephen Ulmann. De facto Bethlehem é um nome próprio composto de dois substantivos comuns, dos quais Beth significa casa e lehem pão. É quase um processo natural que alguém comente, a propósito do nascimento de Cristo em Bethlehem, que ele aí nasceu porque é o pão da vida, como um dia afirmou de si próprio segundo o Evangelho de S. João; ou, como fez S. Jerónimo, diga: salve Bethlehem, casa do pão, onde nasceu o pão que desceu do céu. S. Jerónimo usa abundantemente deste processo alegórico na escrita das suas cartas, de tal modo que um editor moderno terá necessidade de lhes acrescentar umas notas para que o texto seja inteligível. Assim procedeu, por exemplo, numa carta a Algásia, onde relata que o seu discípulo Apodémio, fazendo jus ao significado do seu nome, fez uma longa viagem para o visitar. Esta alegorização tem como base a etimologia de Apodemius, que significa aquele que viaja fora do seu país. Umas linhas abaixo, continuando no mesmo estilo de discurso, Jerónimo escreve que o mesmo Apodémio, deixando Roma para trás, se dirigiu a Bethlehem, para encontrar nela o pão celeste, numa alusão clara a dois factos: um de carácter linguístico, que consiste em descodificar o nome próprio atribuindo-lhe o significado dos elementos que o constituem: Bethlehem = casa do pão; o outro facto é de carácter literário, pois subentende uma remissão implícita, mas apreensível no ambiente da cultura cristã do seu tempo, uma remissão, digo, para a afirmação de Cristo: eu sou o pão que desceu do céu. Avançando um pouco mais, diremos que a alegorização se constrói e se impõe pela associação destes dois factos, o linguístico e o literário. Sem um deles, o outro também não era suficiente para a construção do ambiente alegórico do discurso. Mas S. Jerónimo não se fica por aqui, e completa o seu raciocínio: dirigiu-se para Bethlehem para encontrar nela o pão celeste e, restaurado, arrotar no Senhor. Este estranho arrotar, quase de mau gosto, é simplesmente mais uma referência literária, que se encontra no salmo 44, e que aliás é citado na forma por ele consignada na Vulgata: eructavit cor meum verbum bonum; o que traduzido segundo a letra da versão latina daria: o meu coração arrotou uma palavra boa. É claro que a tradução latina é demasiado literal, já que no hebraico o verbo rahasch, que está subjacente a eructare, significa propriamente deitar cá para fora, exalar, exprimir. Daí que os tradutores mais recentes tenham traduzido por o meu coração transborda num belo poema, ou coisa parecida. Jerónimo, porém, alegoriza com o sentido literal de eructavit porque só assim podia associar os dois factos em que fundamenta a sua alegorização, isto é, a casa do pão (Bethlehem), o pão do céu, (referência ao Evangelho de S. João) e a saciedade que provoca em quem dele se alimenta, simbolizada no arroto do coração. Queria acentuar, mais uma vez, uma das leis da alegoria: a conservação do significado literal das palavras». In Arnaldo Espírito Santo, Da Decifração em Textos Medievais, IV Colóquio da Secção Portuguesa da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Lisboa 2002, Edições Colibri, Lisboa, 2003, ISBN 972-772-425-6.

Cortesia de Colibri/JDACT