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sexta-feira, 31 de maio de 2024

No 31. Idade Média. Umberto Eco. «… para que as cidades se mantenham como importantes centros organizativos e administrativos dos respectivos territórios circundantes, apesar da derrocada institucional e das transformações da sociedade, com o poder sempre crescente das estruturas eclesiásticas»

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Sés episcopais

«Com profundas transformações como o desaparecimento das cúrias e das magistraturas citadinas no século VI, os centros urbanos continuam a ser, na alta Idade Média, núcleos de poder reconhecível, em particular por efeito da presença dos bispos, autoridades cada vez mais influentes no campo político e administrativo. A decisão de instalar os bispos nas cidades administrativamente mais importantes do império, concretizada ainda na época romana segundo a orientação de Orígenes (c. 185-c. 253), contribui para que as cidades se mantenham como importantes centros organizativos e administrativos dos respectivos territórios circundantes, apesar da derrocada institucional e das transformações da sociedade, com o poder sempre crescente das estruturas eclesiásticas.

Do mesmo modo, de um ponto de vista urbanístico e construtivo, não no sentido da construção de igrejas, mas no da criação de novos espaços centrais e de uma completa reorientação urbanística, a cristianização das cidades é exactamente o mais forte sinal de transformação e de descontinuidade entre a cidade clássica e a cidade medieval. Ainda que sejam as diferenças locais a alcançar a supremacia e que estas transições ocorram com ritmos próprios nas diversas áreas, é possível indicar, de um modo geral, como momento de viragem crucial neste processo, os decénios da passagem do século VI para o seguinte.

Declínio e transformação

Devemos reconhecer a importância do papel desempenhado neste campo, especialmente a partir dos anos 70 do século XIX, pela arqueologia medieval, que por meio da identificação das estruturas edificadas possibilitou uma definição mais correcta dos espaços urbanos e da sua suposta retracção, não só com a identificação cada vez mais precisa de vestígios extremamente frágeis, como os furos de estacas e pilares, mas também com uma ampla revisão das cronologias até então utilizadas. A discussão deslocou-se, pois, do declínio para a transformação e, ao mesmo tempo, noutros aspectos, para a continuidade: os três são na realidade legitimamente utilizáveis para simples aspectos arquitetónicos, habitacionais ou sociais, mas dificilmente podem ser reunidos num quadro global.

Transformação e sobrevivência da cidade romana

É um dado de facto inelutável ter havido nas cidades da Antiguidade tardia uma mudança estrutural e funcional: a partir do século III, as magistraturas locais e as cúrias perdem visibilidade, as hierarquias eclesiásticas ganham-na e, com a construção ou reconstrução das cinturas muradas e a inserção das novas sedes do poder religioso e civil, o aspecto físico dos centros urbanos modifica-se. Ao mesmo tempo, vai-se perdendo gradualmente a especificidade administrativa e jurídica das cidades, que lhes é já homologada no âmbito de uma autoridade central mais forte, que no final do século III lhes retira, por exemplo, o direito de cunhar moeda autonomamente. Demonstra-o o facto de Menandro de Laodiceia, na época diocleciana, numa obra destinada a definir o modo correcto de escrever o elogio de uma cidade, e que atesta, portanto, uma prática retórica ligada à celebração das estruturas citadinas, ainda florescente, sublinhar que todas as cidades, já governadas por uma só lei, são por isso todas iguais». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

No 31. Idade Média. Umberto Eco. «Em 476, não tendo obtido do magister militum Orestes (?-476) o estatuto de foederati, os soldados estacionados em Itália elegem Odoacro como rex (c. 434-493) e procedem à deposição do filho de Orestes, Rómulo Augústulo (459-476, imperador desde 475)»

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Da Queda do Império Romano do Ocidente a Carlos Magno

A instalação dos bárbaros

«No campo do direito, embora promulguem leis autónomas, os regna fazem-no num esforço de conciliação do seu direito consuetudinário com o ius romano: a uma primeira fase de coexistência de dois direitos diferentes para duas populações, segue-se a codificação em latim das leis, que já vencem limitações de aplicação e são entendidas como destinadas a toda a população. Ficam-nos como monumentos significativos o Breviarium Alaricianum (506), com que o rei visigodo Alarico II (?-507), soberano desde 484), dá ao seu povo (o primeiro para quem é produzida lei escrita com o Codex Euricianus, de c. 470) um resumo do Código Teodosiano, e as Variæ de Cassiodoro (c. 490-c. 583), que também retomam as formas do édito e do rescrito para testemunhar a actividade legislativa de Teodorico, o Grande. A própria presença de Cassiodoro, de Boécio e de outros membros da elite romana na sua corte já é apontada como sinal do desejo de integração do soberano ostrogodo.

A deposição de Rómulo Augústulo

Em 476, não tendo obtido do magister militum Orestes (?-476) o estatuto de foederati, os soldados estacionados em Itália elegem Odoacro como rex (c. 434-493) e procedem à deposição do filho de Orestes, Rómulo Augústulo (459-476, imperador desde 475). Este acontecimento, que é mais ou menos uma queda sem ruído, como lhe chama Arnaldo Momigliano (1908-1987), está inserido numa trama de longa duração e traz na sua esteira uma história de fragmentação regional, aquisição e desejo de autonomias cada vez mais acentuadas e de uma organização mediterrânica inicialmente integrada, que se desagrega numa série de regiões ávidas de auto-suficiência política e económica.

Ver também: História As migrações dos bárbaros e o fim do Império Romano do Ocidente, Justiniano e a reconquista do Ocidente; O Império Bizantino até ao período do iconoclasmo

Da Cidade ao Campo

A historiografia tradicional vê como um dos sinais do fim da Antiguidade o abandono das cidades e a preferência pelo campo. A realidade das estruturas urbanas tardo-antigas e alto-medievais é bastante mais complexa e deve ser explicada mais em termos de transformação do que de declínio: e facto, motivos propagandísticos, políticos, económicos e eclesiásticos  entrelaçam-se na determinação de um reposicionamento da cidade e do campo nas suas relações recíprocas.

O abandono das cidades

A historiografia tradicional do século XIX considerava o abandono das cidades e a transferência da população para os campos, para os latifúndios dos aristocratas, em conexão com a origem teórica do novo modo de produção feudal, também chamado sistema da curtis, fortemente baseado na auto-subsistência e com o declínio da actividade comercial, um dos traços distintivos da passagem para a Idade Média. Os centros urbanos iriam, portanto, despovoar-se e transformar-se parcialmente em simples aldeias com grandes extensões de áreas rurais até no interior dos muros.

Além disso, a transferência dos ofícios e do comércio para as zonas rurais envolveria a perda da especificidade económica das cidades. Ao contrário do mundo antigo, fortemente urbanizado, em que a cidade, símbolo da vida civil e em sociedade, é o centro de consumo e expedição dos bens produzidos no território circundante (quer se fale de cidade parasitária quer de cidade produtiva, o mundo da alta Idade Média seria, principalmente, rural. Em suma, é necessária uma definição a montante de cidade, não focada unicamente na sua construção, mas na componente política e social: é evidente que certos edifícios típicos da cidade antiga, como o teatro e o anfiteatro, desaparecem, mas este dado é significativo no aspecto cultural, não na definição das instalações urbanas». ». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

 Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivo suor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinoso do Equador, mole e quente…»

Cortesia de jdact e wikipedia

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«As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair os visons da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de Fátima e porta-chaves com a efígie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de ameaças do inferno bíblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em eficácia os inocentes diabos de garfo em punho do catecismo. Sempre imaginei que os pelos dos seus púbis fossem de estola de raposa, e que das vaginas lhes escorressem, quando excitadas, gotas de Ma Griffe e baba de caniche, que abandonavam rastros luzidios de caracol na murchidão das coxas. Sentadas à mesa do brigadeiro, comiam a sopa com a ponta dos beiços tal como os doentes das hemorroidas se acomodam no vértice dos sofás, deixando nos guardanapos de papel pegadas de copas de bâton de que se evolavam ainda desgostos com as criadas e restos de tiradas patrióticas, e reencontrei-as no portaló do barco na manhã da partida, encorajando-nos com maços de cigarros Três Vintes e apertos de mão viris em que as falanges, falanginhas e falangetas se articulavam entre si por intermédio dos anéis de brasão: Sigam descansados que nós na rectaguarda permanecemos vigilantes.

E com efeito, observando bem, pouca coisa havia a recear de nádegas tão tristes, em relação às quais as cintas se conformavam com o papel secundário de fundas herniárias.

E depois, sabe como é, Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilhão cada vez mais atenuados de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostos trágicos e imóveis de despedida, que a lembrança paralisa nas atitudes de espanto. O espelho do camarote devolvia-me feições deslocadas pela angústia, como um puzzle desarrumado, em que a careta aflita do sorriso adquiria a sinuosidade repulsiva de uma cicatriz.  

Um dos médicos, dobrado no colchão do beliche, soluçava aos arrancos em palpitações irregulares de motor de táxi que se engasga, o outro contemplava os dedos com a atenção vazia dos recém-nascidos ou dos idiotas que lambem longamente as unhas com os olhos extasiados, e eu perguntava a mim próprio o que fazíamos ali, agonizantes em suspenso no chão de máquina de costura do navio, com Lisboa a afogar-se na distância num suspiro derradeiro de hino. Subitamente sem passado, com o porta-chaves e a medalha de Salazar no bolso, de pé entre a banheira e o lavatório de quarto de bonecas atarraxados à parede, sentia-me como a casa dos meus pais no Verão, sem cortinas, de tapetes enrolados em jornais, móveis encostados aos cantos cobertos de grandes sudários poeirentos, as pratas emigradas para a copa da avó, e o gigantesco eco dos passos de ninguém nas salas desertas. Como quando se tosse nas garagens à noite, pensei, e se sente o peso insuportável da própria solidão, nas orelhas, sob a forma de estampidos reboantes, idênticos ao pulsar das têmporas no tambor do travesseiro.

Ao segundo dia alcançamos a Madeira, bolo-rei enfeitado de vivendas cristalizadas a flutuar na bandeja de louça azul do mar, Alenquer à deriva no silêncio da tarde. A orquestra do navio resfolegava boleros para os oficiais melancólicos como corujas na aurora, e do porão onde os soldados se comprimiam subia um bafo espesso de vomitado, odor para mim esquecido desde os meios-dias remotos da infância, quando na cozinha, à hora das refeições, se agitavam à volta da minha sopa relutante as caretas alternadamente persuasivas e ameaçadoras da família, sublinhando cada colher com uma salva de palmas festiva, até que alguém mais atento gritava: Cantem o Papagaio Loiro que o miúdo está a puxar o vómito.

Em resposta a este aviso terrível, todos aqueles adultos desatavam a desafinar em uníssono como no naufrágio do Titanic, de beiços arrepiados sobre os dentes de ouro, uma criada batia tampas de tacho a compasso, o jardineiro fingia marchar de vassoura ao ombro, e eu devolvia ao prato um roldão de massa e arroz que me obrigavam a engolir, desta vez sem coro, sibilando em voz baixa insultos furibundos.

Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivo suor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinoso do Equador, mole e quente como as mãos do senhor Melo, barbeiro do avô, no meu pescoço, na loja da Rua 1º de Dezembro, onde a humidade multiplicava o cromado das tesouras nos espelhos canhotos, o que com mais veemência me apetecia era que, tal como nesses tempos recuados, a Gija me viesse coçar as costas estreitas de menino num vagar feito da paciência da ternura, até eu adormecer de sonhos lavrados pelo ancinho dos seus dedos apaziguadores, capazes de me expulsarem do corpo os fantasmas desesperados ou aflitos que o habitam». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, Cultura e Conhecimento, Escrita,  

domingo, 25 de fevereiro de 2024

Idade Média. Umberto Eco. «… o pacto firmado com os ostrogodos, só acolhidos depois da queda do império dos hunos, em 456-457, entre o rio Sava e o rio Drava. O domínio das populações germânicas sobre o território só gradualmente se torna mais completo…»

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Da Queda do Império Romano do Ocidente a Carlos Magno

A instalação dos bárbaros

«Diferente é, pelo contrário, a génese dos reinos romano-bárbaros no território continental. Estes reinos não surgem da ocupação por potências estrangeiras de uma zona precedentemente imperial, mas estabelecem-se no território na sequência de negociação de foedera, instrumentos diplomáticos em uso desde o alto império, por meio dos quais Roma se intromete nas questões internas das tribos germânicas residentes fora das estremas imperiais. A partir da época de Marco Aurélio (121-180, imperador desde 161), inicia-se, de facto, o costume de acolher, no território do império, bárbaros inquilini, isto é, cultivadores ligados à terra; no tempo de Diocleciano junta-se-lhe o uso de os receber como læti e gentiles, cultivadores semilivres, vinculados a obrigações militares e talvez instalados em terras públicas e organizados, ao contrário dos precedentes, em grupos etnicamente compactos.

De uma ulterior evolução destas práticas, que não constituíram, portanto, uma inovação tardo-antiga, resultam os foedera do século V, que preveem a instalação da população bárbara numa determinada zona do império, em que um soberano governa em vez do imperador e as tropas, bárbaras, devem para todos os efeitos ser consideradas de foederati romanos, em 451, por exemplo, os visigodos combatem ao lado dos romanos contra Átila (?-435) nos Campos Cataláunicos.

A legitimação do poder do rei provém de uma delegação imperial que se concretiza com a recepção não só do título de rex no interior das suas comunidades mas também de um cargo oficial romano que era, em geral, o de magister militum. Estas realidades só são, pois, possíveis no interior do império, onde o elemento bárbaro é sempre muito inferior numericamente ao romano. E também as estruturas fiscais e administrativas romanas são, geralmente, mantidas; a organização provincial, por exemplo, chefiada por duces, mantém-se no reino visigótico, conservando frequentemente nos seus postos os mesmos indivíduos, e, de um modo geral, é dos cargos romanos de dux e de comes que provêm os duques e condes francos e lombardos.

Entre os mais importantes foedera deste tipo são, certamente, de recordar: o que em 382 é negociado por Teodósio I com os godos, a quem é permitido instalar-se na Trácia depois do desastre de Adrianópolis; os dois pactos de 411 e 443, que dão origem aos dois reinos burgúndios; o pacto que em 418 concede aos visigodos, que já em 413 haviam sido autorizados a estabelecer-se na Gália Narbonense, a Aquitânia II, com a inclusão de alguns territórios da Novempopulânia e da Narbonense I, com capital em Toulouse, de onde se expandem até conquistar a Espanha sueva; o que em 435 é concedido aos vândalos, que depois o violam ocupando três províncias da África setentrional; e, por fim, o pacto firmado com os ostrogodos, só acolhidos depois da queda do império dos hunos, em 456-457, entre o rio Sava e o rio Drava.

O domínio das populações germânicas sobre o território só gradualmente se torna mais completo e independente do poder imperial, que continua formalmente superior no plano hierárquico: a autoridade dos reges é-lhes delegada durante todo o século V pela autoridade imperial. Isto vê-se, por exemplo, nas moedas e, em particular, na de ouro: os regna começam mais ou menos imediatamente a cunhar moeda própria, mas fazem-no em nome do imperador, e nem em caso de conflito com o império colocam nas moedas o nome do rex; quando muito, substituem o imperador da época por um dos anteriores, por exemplo, aquele que estabelecera originalmente o foedus. É o caso dos solidi ostrogodos de Totila e de Teia com o busto de Anastácio». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Idade Média. Umberto Eco. «Mas enquanto o império do Oriente permanece como Estado centralizado, embora com diversas vicissitudes e até com uma notável redução territorial no decurso do século VII…»

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Da Queda do Império Romano do Ocidente a Carlos Magno

Tendências secessionistas

«São sintomáticas deste estado de coisas as revoltas dos bagaudas, uma série de movimentos de revolta que se prolongam, com diversas fases agudas, entre os séculos III e V na zona gaulesa, da destruição de Autun (269) e intervenção militar de Maximiano (c. 240-310, imperador desde 286) às explosões de violência periódicas no século V e, por fim, o derradeiro episódio conhecido, a sua derrota, infligida em 453-454 pelo visigodo Frederico.

As revoltas dos bagaudas são nitidamente de carácter étnico: o próprio nome parece ter origem céltica, e o movimento caracteriza-se pela forte reivindicação de uma identidade indígena e rural contraposta à cultura urbana romanizada.

Reorganização do poder

Além disso, é frequentemente o próprio poder imperial que procede à repartição de territórios por diversas figuras reinantes, embora em graus diversos, dada a dificuldade de governar o império como uma unidade e de responder às especificidades, cada vez mais acentuadas, de macrorregiões diferentes (torna-se, principalmente, forte a diferença geral entre o Oriente e o Ocidente). Depois de a tetrarquia de Diocleciano (243-313, imperador de 284 a 305) se ter ocupado desta repartição, não só com a divisão do império em quatro partes mas também com a reestruturação do sistema das províncias e a sua articulação nas dioceses e nas prefeituras com o pretório,  estrutura piramidal que permite um melhor conhecimento das especificidades locais, quer nas micro quer nas macro-áreas, Constâncio II (317-361, imperador desde 337) decide nomear césares, primeiro, Galo e, depois, Juliano, consciente de que um poder central é de gestão difícil e favorece o aparecimento de usurpações.

Em seguida, Valentiniano I (321-375, imperador desde 364) é responsável por uma verdadeira repartição do império ao associar ao poder o seu irmão Valente (328-378, imperador desde 364), a quem confia o governo do Oriente para manter o domínio do Ocidente. A historiografia mostra cada vez mais como esta repartição, que já prefigura a grande cisão do império de 395, cria de facto duas verdadeiras realidades institucionais, em que, por exemplo, a promulgação de uma lei numa das partes não implica a sua automática validade na outra e os exércitos são transferidos de uma parte para a outra em caso de necessidade, mas mediante um pedido específico de ajuda, como se fosse outro Estado a pedi-la, conforme acontece durante as invasões góticas de 378, quando o exército ocidental, conduzido por Graciano, é mobilizado a pedido de Valente, mas não chega a tempo de impedir o desastre de Adrianópolis. Convém, portanto, atribuir um peso muito menor ao gesto de Teodósio (347-c. 395, imperador desde 379) que, prestes a morrer, deixa o império aos seus dois filhos: o Ocidente a Honório (384-423, imperador desde 393), o mais novo, sob a orientação de Estilicão, e o Oriente a Arcádio, o mais velho (377-c. 408, imperador desde 383). A ideia de Teodósio não é, pois, muito diferente da de Valentiniano, tanto mais que é dito explicitamente que o império continua a ser apenas um, divisis tantum sedibus.

O que realmente assinala uma viragem é a falta de aceitação no Oriente da supervisão de Estilicão, talvez desejada pelo próprio Teodósio sobre ambas as partes, que cria uma situação de conflito, e até armado, entre as duas metades e a ausência, deste momento em diante, de uma figura que reúna ambas as coroas na sua pessoa.

A instalação dos bárbaros

Mas enquanto o império do Oriente permanece como Estado centralizado, embora com diversas vicissitudes e até com uma notável redução territorial no decurso do século VII, em consequência das invasões árabes, a desagregação é rápida no Ocidente. Em 410, o ano em que as dificuldades políticas e militares do Ocidente conduzem ao saque de Roma por Alarico (c. 370-410, rei desde 395), é decidido abandonar a Britânia, que, entregue a si própria, não tarda a ser invadida por anglos, saxões e jutos (a partir de 449); estes, recebidos talvez pelas populações locais com base num pacto análogo aos que Roma firma na Europa continental, facilmente podem instalar-se neste território privado de autoridade estatal organizada». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

Idade Média. Umberto Eco. «A própria separação de Oriente e Ocidente, consequência das migrações bárbaras, das expedições islâmicas, da separação e primado da Igreja de Roma em relação às orientais, da distinção cada vez mais nítida da Europa…»

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Hipóteses para uma periodização da Idade Média

«Especialmente se considerarmos na sua totalidade o cadinho dos povos e das civilizações que contribuíram para a formação inicial da Europa medieval, bem como os seus contactos recíprocos, até os limites do continente nos aparecem móveis e permeáveis, constituídos, como são, mais do que por barreiras, por zonas cujas partes mais remotas estão implicadas em recontros cada vez mais esporádicos.

A própria separação de Oriente e Ocidente, consequência das migrações bárbaras, das expedições islâmicas, da separação e primado da Igreja de Roma em relação às orientais, da distinção cada vez mais nítida da Europa em relação a Bizâncio, que constitui um traço distintivo da primeira Idade Média, não foi, contudo, tão nítida como se poderia crer por um exame que levasse em conta, principalmente, a redução das vias de comunicação e do tecido urbano, a decadência dos portos e do tráfego, o desaparecimento das escolas e o aumento das distâncias no plano político e cultural. Basta pensar que Carlos Magno e até os otões se aperceberam da necessidade de manter relações com Constantinopla, que os árabes, como é bem sabido, transmitiram aos europeus o seu saber e o antigo, que os muçulmanos foram por várias vezes chamados por cristãos a socorrê-los contra outros cristãos e concordaram frequentemente com os poderosos locais em lutar com os seus correligionários, que os mouros penetraram em vastos territórios, como a Península Ibérica e não só, com forças reduzidas e confiados no apoio de populações deprimidas e oprimidas e que não faltaram casos, alguns deles importantes, de casamento entre fiéis de religiões diferentes.

É exactamente nesta vertente que estão em curso os estudos talvez mais inovadores, que se propõem mostrar a permeabilidade do islão e contribuir para abater as barreiras religiosas e culturais hoje ventiladas, sem por isso renunciar a reclamar o relevo da específica tradição europeia, baseada numa particular pluralidade de formas sociais e políticas e na sua variabilidade.

Da Queda do Império Romano do Ocidente a Carlos Magno

A desagregação do Império Romano do Ocidente é o termo de um percurso histórico de longa duração, já reconhecível no século III, de regionalização dos territórios imperiais, que cada vez mais se configuram como zonas autónomas e não integradas. A deposição de Rómulo Augústulo em 476 é apenas um momento, talvez o mais visível no plano historiográfico, desta longa transição.

Tendências secessionistas

A fragmentação política do Império Romano não é o resultado directo da deposição do último imperador do Ocidente em 476, data convencional do início da Idade Média. Com efeito, já dois séculos antes se manifestaram tendências centrífugas na estrutura imperial: no decurso da crise do século III e em particular durante o reinado de Galieno (c. 218-278, imperador desde 253), o império encontra-se dividido em três grandes troncos autónomos.

No Oeste, a revolta de Póstumo (?-c. 269, imperador de 260 a 268) dá origem à constituição de um império gálico (formado pela Gália, a Península Ibérica e a Britânia) que dura 13 anos sob o próprio Póstumo, Mário (?-269, imperador desde 268), Vitorino (?-c. 270, imperador desde 268) e Tétrico (?-273, imperador desde 271). No Oriente, pelo contrário, o poderio económico-comercial de Palmira leva à constituição de um verdadeiro império centrado nas cidades caravaneiras, primeiro sob Odenato (?-267, rei desde 258) e depois sob Vabalato (? -273, rei desde 267), mas governado principalmente, segundo dizem as fontes, por Zenóbia, mulher do primeiro e mãe do segundo (rainha de 267 a 273). Só Aureliano (214/215-275, imperador desde 270) consegue recuperar os dois reinos secessionistas em 273 e reconstituir a unidade do império. Mas já a partir desse momento, e ainda mais durante o século IV, se mostra cada vez com maior evidência a presença de ímpetos centrífugos e, mais em geral, de uma regionalização em zonas cada vez mais autónomas umas das outras e menos integradas num conjunto.

São disso prova as várias usurpações, cada vez mais ligadas a um determinado território. O objectivo é, com frequência, a constituição de reinos secessionistas e o reconhecimento de uma autoridade igual à dos imperadores já existentes: é o caso, por exemplo, da rebelião de Caráusio (imperador de 286 a 293), que domina a Britânia e a Gália setentrional, herdadas na sua morte por Aleto (?-296, imperador desde 293) e depois por Constâncio Cloro (c. 250-306, imperador desde 293), mas também por Magnêncio (c. 303-353, imperador desde 350), Magno Máximo (c. 335-388, imperador desde 383) e Constantino III (?-411, imperador desde 407)». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,  

sábado, 17 de fevereiro de 2024

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja!»

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«Pero Mafaldo vivia no século XIII e deve ser contado entre os trovadores alfonsinos da côrte castelhana. Escreveu um serventês a despedir-se da verdade e poetou contra Pero de Ambroa e a famigerada Balteira. Pero Mafaldo, ironicamente, declara que irá mudando e mentindo. Toda a gente faz o mesmo. Falar verdade ao amigo? Não! Quem mente ganha com isso. Juro, pois, e digo que vou separar-me da verdade e querer mal a quem bem quero. Hei-de prosperar assim, como cavaleiro que sou. Que hei-de eu fazer, se a verdade para nada me serve nem aumenta a minha honra? Dai-me um conselho, por caridade. Assim vai a minha vida: Se minto ao meu amigo e ao meu senhor, medra o meu proveito e cresço em importância. Sempre a eterna ironia: só medram os malandros e os hipócritas.

Um trovador desconhecido, mas de elevada categoria técnica e boa inspiração, deixou-nos uma poesia híbrida, de cantar de amor e de maldizer, contra o mundo e os homens. Também ele se lembra dos bons velhos tempos: Quem viu o mundo de antigamente e o vê agora, que há-de querer, senão desterrar-se algures? Mas o mundo é só um e este é falso. Para onde foram a mesura e a grandeza? Onde pára a verdade? Quem é leal ao seu amigo? Que se fez do amor e do trovar? Porque anda a gente triste e sem cantar? Ainda assim, vivo por amor duma senhora a quem muito quero, dos tempos em que amor havia. Fiquem, pois, a saber porque não me vou algur esterrar, / se poderia melhor mund’achar. E este pensamento vai batendo no final de cada estrofe, como condenação inapelável dos tempos que já não são nossos.

Até aqui, temos a impressão dum cortejo poético de velhos pranteadores. Contudo, esse cortejo não pára na Idade Média e salta aos olhos, por exemplo, na França do século XIX, mesmo entre escritores audazes e criadores. Alfred Musset condenava a geração nova por ser inculta, sans gaitê et sans amour. Chateaubriand escrevia, em 1831: Tout paraît usé, art, littérature, moeurs, passion; tout se détériore.

Lamartine afinava pelo mesmo diapasão e declarava que a França apodrecia numa esterqueira e tudo se desgastava e morria. Eles não pressentiam, entre tantos outros escritores, o advento de Baudelaire e do frisson nouveau que depois faria estremecer Victor Hugo.

Afonso X e os Soldados

Afonso X, o Sábio, está no centro dum ciclo satírico, onde a poesia é meio de ataque e de defesa, como os panfletos de hoje em dia. Atacou, atacaram-no. E cada um tinha, em geral, as suas razões e os seus pontos fracos. Às vezes, nada tão lúcido como o ódio.

Ainda infante, Afonso X troça dos maus conselhos do mordomo Rodrigo e dos peões todos calvos e sen lanças e con grandes çapatões. Os versos do rei valiam mais do que esta peonagem. E a sua indignação desafoga-se contra os que recusaram acompanhá-lo na guerra, ao sul, contra os muçulmanos:

Nunca eu cinja espada em boa bainha, se Pero Espanha, ou Pero Galinha, ou Pero Galego forem comigo! Outrem me acompanhará. Mendo Candarei pretextara também qualquer dificuldade e não fora com ele. Fuão deixou-o sozinho na guerra da Andaluzia e o rei sentia vontade de mandar ao demo a honra deste mundo, as armas e o batalhar. O que faz chorar um homem não é brincadeira nenhuma! Chorar e rir, por exemplo nesta sátira contra os guerreiros de menor categoria (coteifes), alguns deles a tremer no meio do Verão, diante dos cavaleiros mouros de Azamor:

O genete

pois remete

seu alfaraz corredor:

estremece

e esmorece

o coteife con pavor.

[…]

Vi coteifes de gran brio

eno meio do estio

estar tremendo sen frio

ant’os mouros d’Azamor;

e ia-se deles rio

que Auguadalquivir maior

Tem agilidade e graça, esta cantiga. Mas a que segue tem fúria: Quem passou a serra e não quis servir a terra, maldito seja! O que levou dinheiros e não trouxe cavaleiros, maldito seja! O que recebeu grande soldada e nunca fez cavalgada, se é rico-homem ou há mesnada, maldito seja! Não se trata de cantiga para rir.

Temos, aqui, uma invectiva, algo da maldição dum profeta atraiçoado e sozinho. Invectiva cheia de troça, como aliás noutra cantiga quase logo a seguir: Quem da guerra levou cavaleiros e foi guardar dinheiros à sua terra; quem não dava pão a comer aos soldados; quem, por medo, foi para casa beber vinho; quem fugiu da fronteira ou andou a roubar os mouros e foi para a sua terra roubar cabritos, esse non ven al maio. Quer dizer, não vem à revista da tropa, ao alardo. Iam para a guerra a fingir. E alguns levavam pendão, mas não levavam caldeira. N In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões, 

A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV). Mário Martins. «Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí»

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«As louvaminhas e cantares de galhofa recebem honras e poder. Nos lugares onde nobres ditos se ouviam, vejo eu expulsar gente honrada. Os que dizem mal, a esses acolhem-nos e louvam-nos com muito amor. Dantes dominava o saber, tinham formoso lugar a paz e a cortesia, quando a alegria morava no mundo. Mas ela foi-se embora, dizendo: dia a dia, hei-de ir faltando!

Chegara a sua hora, fugia para se esconder. Bem mereceu este descordo as honras de H. R. Lang, em The descort in old portuguese and spanish Poetry, e não menos de Luciana Stegagno Picchio, em Martin Moya.

Poesie. É a revolta contra a decadência cultural e contra o triunfo mesquinho dos vícios, à sombra de mecenas estúpidos.

Adiante, num serventes, conta-nos o poeta uma estória que serve de parábola: Depois de muito andar, entrei num sítio onde nem a lealdade, nem a boa manha, nem o juízo nem o saber tinham apreço de ninguém. Aí só prosperava quem gabava tudo o que o senhor da terra fazia, quem o lisonjeava, mesmo que o visse andar a semear sal. Quem ali chegar, sem mentir nem trocar o mal pelo bem, livre-se como eu me livrei. Ora, quando eu lá estava, sonhei muitas vezes que uma cerceta agarrava a poupa pelo penacho da cabeça. A cerceta, que significa ela? E como foi capaz de prender a poupa?

Quem poderá interpretar-me este sonho? Rodrigues Lapa faz deste sonho um símbolo de como os grandes poderiam ser dominados pelos pequenos: a certeza, mais forte, começou por arrancar a crista à pôpa, que acabou por vencê-la. Teríamos um incentivo à luta dos fracos contra os fortes opressores. Propomos outra hipótese. A cerceta (ave palmípede, mais pequena do que o pato vulgar, mas, ainda assim, mais forte do que a poupa) segurou bem firme a cresta da poupa e dominou-a. E esta última simboliza, talvez, os que se tiram porcamente das dificuldades. Com efeito, ajeitam-se ao querer dos fortes e estes prendem-nos pela gloríola da amizade e dos interesses, representados no lindo penacho de plumas. Por isso aconselha Martin Moxa a que não se desquitem como eu vi quitar alguen. Em qualquer hipótese, temos, neste serventês, a apologia de dignidade humana.

Pero Gómez Barroso, amigo de Afonso X e português, compôs outro serventês a dizer mal dos tempos de agora e bem dos tempos de outrora: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí. Que nele haja ou não objectividade externa, isso parece-nos secundário. É na objectividade interna desse estado de alma que enraíza a beleza triste deste pranto dos tempos de agora: Nunca vi andar assim o mundo. O outro era diferente e é desse que gosta o meu coração! Nada me importa morrer, pois em nada acho gosto nen sei amigo de que diga ben. E no fim de cada estrofe, ouve-se o mesmo protesto de inadaptação à vida, na velhice: ca vej’agora o que nunca vi / e ouço cousas que nunca oí.

É a angústia dum homem que ficou sozinho no meio da nova multidão anónima e sem rosto. Esta sátira aos tempos novos, repetem-na, em prosa, os velhos de todas as gerações, mesmo simples camponeses. Os amigos morreram e os costumes são outros». In Mário Martins, A Sátira na Literatura medieval Portuguesa (séculos XIII e XIV), Biblioteca Breve, Série Literatura, volume 8, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Centro Virtual Camões, 1986.

Cortesia de Biblioteca Breve/JDACT

JDACT, Mário Martins, Literatura, Cultura e Conhecimento, Instituto Camões,

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Idade Média. Umberto Eco. «… imobilidade da sua história, dos islâmicos, que hoje, por motivos óbvios, atraem particularmente as atenções, ou de minorias como a dos judeus e dos heréticos, na construção da identidade e das vicissitudes europeias»

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História

«E interrogamo-nos se estamos a viver o declínio daquela Europa que aqui tem as suas origens, o fim de um ciclo de civilização, e também o dos Estados Unidos da América, filhos dessa mesma civilização, que, depois de terem dominado sem contestação no século passado, mostram sinais de cansaço, enquanto alguns países asiáticos parecem proceder prepotentemente à sua entrada no palco de uma história vista com olhos europeus. Uma recolocação do continente no quadro geopolítico mundial parece inevitável. É também evidente a crise de identidade dos europeus no momento em que as deslocações de país para país e de continente para continente já não são apenas factos individuais, mas são tão consistentes que nos induzem a falar de migrações iminentes ou já em curso; e em que se vão formando grupos que parecem ilhas com coesão interior e limites bem desenhados, mergulhadas em ambientes que se pretendem homogéneos ou que se descobrem como tais a despeito de todos os discursos sobre tolerância, multiculturalismo e interculturalismo. Ao mesmo tempo, entrevê-se a crise dos Estados nacionais, os seus primeiros núcleos localizam-se exactamente nesta parte da Idade Média, assediados pelo surgir e ressurgir de regionalismos e localismos, pela consolidação de organismos multinacionais e supranacionais, por uma economia globalizada, por meios de comunicação à escala mundial, rápidos ou instantâneos, que se não limitam a pôr em contacto áreas e sistemas de vida anteriormente isolados ou não imediatamente contíguos, mas implicam novas reflexões sobre a natureza, a licitude e a conveniência desses sistemas de vida e sobre sua recíproca compatibilidade.

Não menos influentes, embora à primeira vista menos estreitamente ligados ao plano histórico, são os avanços da ciência e da técnica que põem em crise alguns valores e comportamentos arraigados, como os bem conhecidos, mas que se tornaram problemáticos, da fecundação artificial ou relacionados com a morte e, principalmente, o próprio conceito de homem, a fronteira entre o humano e o não humano, entre umas máquinas cada vez mais inteligentes e uns homens recheados de componentes artificiais. Fala-se do regresso à natureza e à religião, à busca de pontos de referência seguros, postos fora do tempo.

Por um lado, procura-se esquecer que a natureza não pode ser separada da sua história, que não é possível considerar uma natureza primigénia e inalterada, só depois comprometida pela intervenção humana; e que nem a Idade Média, com os seus bosques habitados por animais selvagens, os seus mares sem embarcações, a raridade dos povoamentos e do tráfego e os seus pretensos comportamentos primordiais, pode ser um fundo imóvel capaz de nos dar a medida da mudança verificada até à idade contemporânea, como pretende certo medievalismo amaneirado.

Por outro lado, põe-se em evidência o papel da religião na constituição da identidade europeia, na formação da Christiana communitas, Christiana societas, Christiana respublica, ou Christianitas. E discute-se se a influência do cristianismo foi ou não fundamental, se deve ser remetida para o silêncio ou rejeitada como perigosa para a laicidade da vida pública e dos Estados, recentemente conquistada a partir do século XIX , ou se foi tão exclusiva que deva ser mencionada na constituição europeia, de preferência a outras características distintivas, como por exemplo a precoce formação de uma mentalidade capitalista ou de um espírito de aventura e de conquista, ou ainda de uma vontade de transformação da natureza e da realidade circundante, cujo desabrochar também poderia ser correctamente atribuído à Idade Média.

Neste tempo, que muitos dizem de pós-modernidade e pós-secularidade, mas cheio de incerteza, e, exactamente por isso, de subtil análise da história passada e do presente com base numa pluralidade de pontos de vista centrados em objectos de estudo anteriormente negligenciados, de relativismo e de medo do próprio relativismo, também a história perde a linearidade que lhe era atribuída pela visão eurocêntrica de um progresso sem fim. Parece agora o resultado, mais ou menos fortuito, da interseção de acontecimentos só em parte determinados e regulados por uma vontade humana consciente, ainda que em pequena parte, ou melhor, fragmentados em mil vontades diferentes e frequentemente contraditórias, de tensões e contratações, de êxitos parciais e de malogros.

A avaliação da Idade Média, considerada a partir dos humanistas como uma idade intermediária privada de valor próprio, uma época de barbárie, violência, miséria e anarquia, encravada entre o esplendor da idade clássica e a recuperação renascente dessa idade, não pode deixar de ressentir-se de tais orientações. O que ainda na idade do Iluminismo fora rejeitado em bloco, como o tempo do nascimento da feudalidade, da separação da sociedade em estratos distintos e dotados de regras e direitos próprios, destinados a percorrer um caminho pré-indicado e a deslocar para o Além sonhos e esperanças de resgate, em nome do descobrimento de uma razão universal, de uma natureza racional, de uma humanidade libertada de origens constituídas por superstições e abusos, e que o século seguinte revalorizara como um tempo de redescobrimento da espiritualidade, de fundação de uma unidade religiosa cristã, de formação das independências nacionais e comunais, parece hoje decomposto em segmentos que não encontraram uma sistematização unívoca.

Hipóteses para uma periodização da Idade Média

A data geralmente indicada como início da Idade Média é, como se sabe, o ano de 476, da deposição do imperador Rómulo Augústulo (459-476, imperador desde 475), considerada como o fim do Império Romano do Ocidente; mas não falta quem indique a entrada dos lombardos em Itália, em 567 ou 568, ou a chegada dos francos, em 774, e há também quem proponha que o período decorrido até o século VI seja atribuído à Antiguidade tardia e que só a partir do século seguinte se deve falar de alta Idade Média. É certo que a presença islâmica no Mediterrâneo a partir dos séculos VII e VIII constitui uma cesura importante, embora a tese de Henri Pirenne (1862-1935), segundo a qual este facto determinou o fim do mundo antigo, tenha sofrido algum redimensionamento. Igualmente importante parece a nova ordem imposta no centro do continente por Carlos Magno (742-814, rei desde 768, imperador desde 800).

Até o ano 1000, demoradamente carregado de significados apocalípticos, parece ter perdido, em parte, a sua carga periodizadora, principalmente para quem situa os séculos centrais da Idade Média entre o IX e o XII. De qualquer maneira, as passagens do século V para o VI e do século X para o XI continuam a representar viragens significativas na história europeia, às quais se optou por atender. A própria tendência para a multiplicação de referências e de acontecimentos que possam ser julgados fundadores, bem como a sua variedade consoante a zona geográfica e o ângulo de visão sob o qual são examinados, não só possibilita periodizações diferentes como salienta, além das transformações do mundo antigo, o fundamental contributo dos povos bárbaros, dos bizantinos, subtraídos à pretensa imobilidade da sua história, dos islâmicos, que hoje, por motivos óbvios, atraem particularmente as atenções, ou de minorias como a dos judeus e dos heréticos, na construção da identidade e das vicissitudes europeias». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

domingo, 24 de dezembro de 2023

Idade Média. Umberto Eco. «É um longo momento histórico em que se opera o nascimento e a desagregação de um novo império, o carolíngio, em que são postas à prova a tendência para a centralização dos poderes…»

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À maneira de conclusão

«Tomás tem uma visão muito biológica da formação do feto: Deus só introduz a alma no feto quando este adquire, gradualmente, primeiro, a alma vegetativa e, depois, a alma sensitiva. Só nessa altura, num corpo já formado, é criada a alma racional (Summa Theologica, I, 90). A Summa contra Gentiles (II, 89) diz que há uma gradação na geração por causa das formas intermédias de que o feto é dotado, desde o início até à forma final. E eis porque no suplemento à Summa Theologica (80, 4) se lê uma afirmação que hoje soa como revolucionária: depois do Juízo Universal, quando os corpos dos mortos ressuscitarem para que a nossa carne participe na glória celeste (quando, segundo Agostinho, reviverem na plenitude da beleza e completude adulta não só os nados-mortos como, numa forma humanamente perfeita, os próprios caprichos da natureza, os mutilados, os concebidos sem braços ou sem olhos), os embriões não participarão nessa ressurreição da carne. Não fora ainda infundida neles a alma racional e por isso não eram seres humanos. Salta aos olhos de qualquer pessoa que a posição de Tomás é muito diferente da actualmente sustentada em vários ambientes eclesiásticos e parece muito mais próxima das teorias hoje atribuídas à cultura laica. Não é aqui que se deve decidir quem tem razão nesta antiga polémica. Mas o certo é que este episódio deve tornar-nos cautelosos ao falar da Idade das Trevas.

História

Levantam-se questões de não pouca monta quando revemos as vivências do princípio da Idade Média, longa época de decadência assinalada inequivocamente por uma acentuada quebra demográfica. Na verdade, este período deve ser também compreendido como a época em que morre o mundo antigo e se forma lentamente um novo amálgama com os povos bárbaros, com as suas formas de agregação social, as suas línguas, as suas instituições e os seus direitos. É uma época em que se dissemina uma cultura religiosa comum, o cristianismo, que é a religião do Estado no Império Romano a partir de Teodósio (c. 347-395, imperador desde 379), que acabará por modificar profundamente o sentir das populações. É um tempo em que o baricentro da vida política e económica se desloca do Mediterrâneo para o Norte e para o Leste e começa a formar-se a Europa, como hoje a conhecemos, em redor de alguns espaços destinados a dar origem a futuras nações (visigótica, lombarda e franca, por sua vez dividida em Nêustria e Austrásia), embora durante muito tempo o limite oriental fique mais a ocidente do que o que estamos habituados a considerar como limite geográfico. É um longo momento histórico em que se opera o nascimento e a desagregação de um novo império, o carolíngio, em que são postas à prova a tendência para a centralização dos poderes e as forças centrífugas que irão actuar durante muitos séculos, em que se mede a relação de forças entre os príncipes e os papas, entre o Estado e a Igreja, e se avança para a construção de uma nova ordem social e económica baseada no sistema feudal, na grande propriedade fundiária, na hereditariedade dos ofícios, na servidão dos camponeses, que, apesar das muitas e profundas transformações e inovações ocorridas, será o tecido conectivo do continente até ao século XIX. São também os séculos em que gradualmente se define uma identidade europeia perante o islão e o Império Romano do Oriente, que, e não por acaso, é melhor dizer bizantino, e com novas vagas de bárbaros que pressionam as fronteiras orientais. Sendo verdade que qualquer período histórico só pode ser lido com base nas experiências do presente, alguns dos problemas que hoje se apresentam à atenção de políticos, economistas e estudiosos em geral, bem como aos meios de comunicação social e aos homens e mulheres que os enfrentam no dia a dia, chamam diretamente a terreiro justamente a Idade Média». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

 Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento,

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Idade Média. Umberto Eco. «… do mesmo modo que as pausas e os silêncios que, exaltando a beleza dos sons, faziam deles emergir, por contraste, os aspetos positivos. Deste modo, era a época, e não o indivíduo isolado, que dava a impressão de estar em paz consigo mesma»

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À maneira de conclusão

«No plano teórico, a Idade Média combatia o dualismo maniqueu e, teoricamente, excluía o mal do plano da criação. Mas, como o praticava e, em qualquer caso, o experimentava no dia a dia, tinha de entrar em compromisso com a sua presença acidental. Por isso até os monstros e os caprichos da natureza eram tidos por belos, pois estavam inseridos na sinfonia da criação do mesmo modo que as pausas e os silêncios que, exaltando a beleza dos sons, faziam deles emergir, por contraste, os aspetos positivos. Deste modo, era a época, e não o indivíduo isolado, que dava a impressão de estar em paz consigo mesma.

Mas agrada-nos terminar estas páginas com, pelo menos, uma das representações que a cultura medieval, na sua distância em relação a nós, tem sempre capacidade de repor fazendo-nos acreditar que tratava dos nossos problemas.

O autor é Tomás de Aquino, santo e doutor da Igreja. Se lhe perguntassem se era permitido abortar, responderia que não, evidentemente. E do mesmo modo responderia que não se lhe perguntassem se o mundo era eterno: era a terrível heresia averroísta, e também a nós nos parece que um mundo eterno é uma hipótese de absoluto materialismo. O cristão sabe pela sua fé que o mundo foi criado por Deus, mas por outro lado Tomás de Aquino tinha elaborado cinco maneiras de demonstrar que a fé num Deus criador não repugnava à Razão, antes era por ela confirmada. No entanto, quer na sua Summa contra Gentiles quer no seu opúsculo De Æternitate Mundi, Tomás apercebe-se de que não há argumentos racionais válidos para demonstrar que o mundo não é eterno. Mas, como acredita pela fé que o mundo foi criado por Deus, argumenta com vertiginosa subtileza para provar que a eternidade do mundo (co-eterno com Deus) não contradiz que seja um acto criador da vontade divina.

Perante o problema da origem da vida, Tomás comportava-se com a mesma adamantina honestidade (sem, provavelmente, se interrogar quanto à importância do tema nas polémicas sobre o aborto). A discussão era antiquíssima e surgira com Orígenes, que afirmava que Deus criara as almas humanas logo nas origens. Esta opinião fora imediatamente contestada, e até à luz da expressão do Génesis (2,7) segundo a qual o Senhor formou o homem com a poeira do chão, instilou-lhe no nariz um hálito de vida e o homem tornou-se uma alma viva. Portanto, segundo a Bíblia, Deus cria primeiro o corpo e insufla-lhe depois a alma. Mas esta posição suscitava problemas com a transmissão do pecado original. Tertuliano defendia que a alma do pai se transmite de pai para filho pelo sémen. Posição logo julgada herética, porque presumia uma origem material da alma.

Quem se via embaraçado era Santo Agostinho, que tinha de enfrentar os pelagianos, que negavam a transmissão do pecado original. Por isso, ele apoiava, por um lado, a doutrina criacionista (contra o traducianismo corporal) e, por outro, admitia uma espécie de traducianismo espiritual. Mas todos os comentadores acham bastante contorcida a sua posição. Tomás de Aquino será decididamente criacionista e resolverá a questão da culpa original de um modo muito elegante. O pecado original é transmitido pelo sémen como uma infecção natural. (Summa Theologica, I-II, 81,1), mas isso nada tem que ver com a transmissão da alma racional. A alma é criada porque não pode depender da matéria corporal.

Recordemos que, segundo a tradição aristotélica, Tomás entende que os vegetais têm alma vegetativa, que nos animais é absorvida pela alma sensitiva, enquanto nos seres humanos estas duas funções são absorvidas pela alma racional, que torna o homem dotado de inteligência e, portanto, de alma no sentido cristão do termo». ». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

JDACT, Umberto Eco, Idade Média, Cultura e Conhecimento, 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Idade Média. Umberto Eco. «Sabia-se perfeitamente o que era o bem e recomendava-se o bem, mas, confiando na indulgência divina, aceitava-se que a vida fosse outra coisa. No fundo, a Idade Média virava do avesso…»

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Em que sentido a Idade Média foi radicalmente diferente dos nossos tempos

«Se não atendermos a estes pressupostos, não se compreendem, nem sequer no seu verdadeiro sentido, todas as discussões sobre as relações entre a Fé e a Razão ou sobre as demonstrações racionais das verdades de fé, e seria erro grave comparar o chamado racionalismo medieval com o racionalismo moderno.

A Idade Média tinha um sentido da beleza e da arte diferente do nosso. Não associava directamente a arte e o belo, como fazemos hoje. O belo era uma propriedade da natureza, do mundo e, naturalmente, de Deus, e muitos autores medievais discutem demoradamente e com grande finura os critérios da beleza (bem como os mecanismos psicológicos que a tornam perceptível e apreciável). Mas, para o medieval, a arte era simplesmente uma técnica, a capacidade de fazer bem os objectos segundo as regras: a construção de barcos era uma arte como a pintura ou a escultura, e um produto de arte só podia ser considerado belo se correspondesse à função para que se destinava. Portanto, uma vez que se achava possível representar de um modo belo o feio, o disforme e o mal, a relação da arte com a moral era, para o medieval, diferente da nossa.

Naturalmente, e estamos de novo perante as contínuas contradições internas da vida destes séculos, as opiniões do teólogo e do poeta eram diferentes, e em especial se o poeta era um clérigo itinerante que não desdenhava de ao longo do caminho ter relações afectuosas com uma pastorinha, de quem cantaria as graças poeticamente.

Existia uma distinção entre artes liberais, entre as quais, além da lógica e da retórica, figurava a poesia, e artes servis, em que se utilizava as mãos, e onde se incluíam a pintura e a escultura. Por isso, não conhecemos os nomes de muitos escultores do período românico, de muitos mestres que conceberam e construíram as grandes catedrais e de muitos miniaturistas; e só na Idade Média madura os nomes de alguns artistas se tornam míticos e exemplares, como no caso de Giotto. Diferente é, porém, a situação nas artes liberais, de que conhecemos os nomes dos poetas provençais e dos autores dos romances de cavalaria, para não falar da elevadíssima consciência de si que tinha um poeta como Dante.

À maneira de conclusão

Embora possa parecer fácil dizer o que a Idade Média não é e o que dela ainda hoje usamos, a exposição das diferenças que nos separam daqueles séculos poderia prolongar-se longamente; atendendo, contudo, às muitíssimas diferenças que nos separam dos decénios tão recentes em que os nossos pais viveram, este problema não deve perturbar-nos. Com efeito, aquele período era sempre diferente, até de si mesmo, com a ressalva de que procurava não o dizer. A nossa época moderna gosta de pôr em cena as suas contradições, mas a Idade Média sempre tendeu a ocultá-las. Todo o pensamento medieval deseja exprimir uma situação óptima e pretende ver o mundo com os olhos de Deus, mas é difícil conciliar os tratados de teologia com as páginas dos místicos, a arrebatada paixão de Heloísa, as perversões de Gilles de Rais, o adultério de Isolda, a ferocidade de frei Dolcino e dos seus perseguidores, os goliardos e as suas poesias que cantavam o livre prazer dos sentidos, o Carnaval, a Festa dos Loucos, a alegre assuada popular que escarnece publicamente os bispos, os textos sagrados e a liturgia e os paródia. Lemos os textos dos manuscritos que fornecem uma imagem ordenada do mundo, e não compreendemos como podia admitir-se que as suas margens fossem ornadas com imagens em que se via o mundo de cabeça para baixo e macaquinhos com vestes episcopais.

Sabia-se perfeitamente o que era o bem e recomendava-se o bem, mas, confiando na indulgência divina, aceitava-se que a vida fosse outra coisa. No fundo, a Idade Média virava do avesso o dito de Marcial: Lasciva est nobis vita, pagina proba. É uma civilização que da crueldade, da luxúria e da impiedade fazia um espectáculo público e ao mesmo tempo vivia segundo um ritual de devoção, crendo firmemente em Deus, nos seus prémios e nos seus castigos e almejando ideais morais candidamente infringidos». In Umberto Eco, Idade Média, Bárbaros, Cristãos, Muçulmanos, Publicações dom Quixote, 2010-2011, ISBN 978-972-204-479-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

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