terça-feira, 18 de agosto de 2026

A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Senhor Carlos, acho que está com sorte. Tenho aqui um livro antiquíssimo, está datado de 1797. Foi um grande amigo que mo arranjou, disse o homem num sussurro, trabalha no Palácio Nacional de Mafra»


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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Há cerca de vinte anos atrás, Carlos Nóbrega tinha conseguido comunicar com um nómada vendedor de antiguidades, que ia estar um dia inteiro num pequeno mercado medieval nas Caldas da Rainha. O Historiador tinha conseguido o seu cartão-de-visita através de um amigo, também fascinado por história e literatura em geral, que lhe houvera referido que o homem tinha sempre umas raridades literárias de se lhes tirar o chapéu. Num telefonema que o Historiador fez para o número iniciado por 02, que o cartão dizia pertencer a Bernardo Faria, ficou a saber que o homem detinha algo que lhe poderia interessar. Sim?... Boa tarde... Boa tarde, rosna uma voz dura do outro lado. É o senhor Bernardo Faria, das antiguidades?..., perscruta o Historiador. O próprio. Estou a falar com?... Carlos Nóbrega, Historiador e um fascinado por raridades da literatura... Nacional...

Já entendo a razão da sua chamada. Onde viu o meu número?! Carlos Nóbrega percebeu uma desconfiança na expressão do homem, talvez algum trauma com as autoridades. Não sou Polícia, esteja à vontade comigo. Foi um grande amigo meu que me facultou o seu cartão-de-visita, diz que lhe comprou umas revistas de mil oitocentos e tal, aqui há tempos, estava o senhor a vender antiguidades numa pequena feira nas imediações do Palácio de Queluz... Isso foi há dois anos... Sim, confirmou o homem, impregnado de uma forte pronúncia nortenha. Dessa forma, estou a ligar-lhe porque o meu amigo me referiu que o senhor tinha mesmo muita coisa interessante, em variedade e quantidade... Sim, sim. É verdade. Fruto também de uma paixão por tudo o que é antigo. Procuro exaustivamente coisas de interesse histórico... Cá para nós, diz o homem num sussurro, fotocopio aquilo que acho verdadeiramente interessante e vendo tudo o que compro ou me dão, tenho que comer, certo?... Claro, claro. Não seriam os originais em si que lhe dariam de comer. Negócio é negócio... Mas diga-me uma coisa, dirige-se Carlos Nóbrega à razão da chamada, tem algo relacionado com a vila de Óbidos ou com a sociedade secreta Rosa-Cruz?..., no deixe-me pensar do homem e no barulho do remexer de coisas que o telefone deixava ouvir, o coração do Historiador acelerou, não vendo o momento de lhe voltar a ouvir a voz.

Senhor Carlos, acho que está com sorte. Tenho aqui um livro antiquíssimo, está datado de 1797. Foi um grande amigo que mo arranjou, disse o homem num sussurro, trabalha no Palácio Nacional de Mafra. Quando andaram lá com obras, alguns dos livros da biblioteca andavam para lá aos pontapés. Pensou em mim, pegou no exemplar, guardou-o, telefonou-me naquele dia e encontrámo-nos na semana seguinte na Ericeira... Qual é o título, senhor Bernardo? Lendas e factos de Óbidos... Autor ou autores? O único nome que vislumbro por aqui é Pedro José Gonzaga Morgado... Nunca ouvi falar! Tenho que pesquisar sobre este nome, o Historiador aponta o nome num bloco de notas.

É um livro grosso, capa dura com incrustações douradas, e está um pouco deteriorado... Quanto é que está a pedir por ele? Seis contos. Parece-me bem, é uma obra do século XVIII, pensa Carlos Nóbrega, não conseguindo conter a excitação que lhe percorria as veias. Onde e quando é que me posso encontrar consigo? O senhor é de onde? Vivo e trabalho em Lisboa. Vou estar amanhã todo o dia numa pequena feira medieval nas Caldas da Rainha, no jardim das termas. Vá até lá. Sim, sim. Estou a pensar nisso. Conto lá estar por volta das dez. Ficou assim marcado o encontro para um sábado do Verão de 93. Carlos Nóbrega foi logo relatar à mulher a conversa que havia tido com o vendedor, dizendo-lhe que iriam no dia seguinte, logo de manhã, até à cidade das Caldas da Rainha, onde já haviam estado uma meia dúzia de vezes. Maria João ficava feliz com a felicidade do marido, não obstante o achar demasiado obcecado com todas aquelas coisas que o moviam, principalmente com aquela ideia de que por baixo dos seus pés se escondiam incontáveis tesouros à espera de serem vislumbrados pela luz. Naquele dia acordaram bem-dispostos, tomaram um bom pequeno-almoço e fizeram-se à estrada. Nada fazia prever que aquela viagem iria terminar de trágica forma pouco depois do Bombarral». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

JDACT, Jorge Durão, Óbidos, Literatura, 

 A Herança de RosaCruz. Jorge Durão. «Temos de conseguir!. Agarrando toda a réstia de força e motivação, o homem leva o cavalo a se encostar de repente ao do seu perseguidor»


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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Eles estão mesmo atrás de nós!, gritava o último dos três, mais próximo dos guardas que os outros, tão próximo que quase via as expressões de fúria estampada nos seus rostos. Vamos! Vamos! Temos de conseguir!, todos eles imprimiam a máxima força aos cansados equídeos, que exalavam um denso e branco vapor que se misturava no gélido ar que por eles passava. As espadas estavam já em riste, os guardas sentiam que os estavam a alcançar, e os fugitivos sentiam que estavam prestes a ser capturados. Cavalgaram alguns quilómetros tendo guardas e fugitivos essa sensação. Mas a sensação acabara por se materializar. Um guarda alcança o último dos cavaleiros e coloca-se a seu lado. O fugitivo tenta imprimir mais força ao cavalo, mas o animal estava esgotado, não conseguindo responder à sua demanda. A espada é içada para o golpe sobre o homem, que a olha com temor, aquela lâmina brilhante, reflectindo um Sol frouxo, o seu laranja a passar pela aragem. Um turbilhão de imagens, sons e emoções o assola. Vamos conseguir! Temos de conseguir!. Agarrando toda a réstia de força e motivação, o homem leva o cavalo a se encostar de repente ao do seu perseguidor. Nesse instante, levanta a perna esquerda e imprime movimento ao pé recorrendo a todas as reservas de força de que ainda dispunha. Com a força do impacto, o guarda cai para o lado ainda com a espada no ar, o que atrapalhara momentaneamente o avanço de todos os que cavalgavam atrás. O cavalo solitário continua com o galope, detendo-se a pastar alguns metros para lá do trilho. Os restantes guardas estão quase a intersecptar os três homens, que dão no momento o tudo por tudo para passarem os marcos... Quando os fugitivos voltam a olhar para trás, já os guardas se estão a deter no trilho, sabendo perfeitamente que haviam chegado aos germânicos limites administrativos, não tendo qualquer autoridade nas terras onde aquelas três figuras cavalgavam no momento. O baú e tudo o que o mesmo protegia e escondia estavam no momento a salvo.

Lisboa. Junho de 2003

Senhor doutor, os livros acabaram de chegar, diz a elegante secretária da Biblioteca Nacional, entregando a Carlos Nóbrega uma folha A4 dos CTT com o registo da entrega. Ah... Obrigado, Dulce... Obrigado, diz o sexagenário, esticando o braço para a folha. Todos os anos, o Historiador tinha legitimidade para gastar 100€ na aquisição de novos volumes, raridades que procurava na Internet recorrendo a importantes contactos e ao estatuto que as provas dadas como Historiador e como Bibliotecário da Biblioteca Nacional lhe conferiam. Onde estão? No momento a serem transportados para a sala de catalogação... Muito bem. Dulce, não quero ser incomodado até dar ordens em contrário! Apague todos os fogos que se atearem! Pode vir o Presidente, a chanceler alemã, o Papa... Não quero ser incomodado!

Sim senhor, dr. Carlos. Assim, anui a mulher. Carlos Nóbrega era um homem agastado, mal-humorado, possuidor de uma acutilante personalidade. O baixo e careca passa os olhos pela folha enquanto inicia a deslocação para a sala de catalogação, em frente e à direita em relação à recepção, onde estava Maria Dulce, a secretária que já pertencia à casa quando Carlos Nóbrega fora convidado para bibliotecário da Biblioteca Nacional. Dedicara toda a sua vida ao estudo, à busca de pistas de relíquias escondidas, sendo para ele uma espécie de obsessão o compilar de informação relativamente a possíveis tesouros escondidos pelos povos que passaram pelo nosso país durante os séculos da história. Para ele, o chão de todos os recantos do nosso pequeno país estaria impregnado de relíquias perdidas, riquezas escondidas para a posteridade, ou apenas para escaparem à pilhagem e à destruição.

A Urbe das Rainhas; Óbidos e os Séculos; História de Óbidos; Sociedades Secretas em Portugal; e A Fraternidade Rosa-Cruz eram os títulos adquiridos naquele ano, volumes que o homem ansiava por tocar, abrir, cheirar, folhear. Com licença, dr. Carlos... Sim, Armando. Força. Posso deixá-los aí na secretária? Ponha. Ponha aqui, Armando. Com licença. Estão-me a pedir lá em baixo esta folha assinada, a confirmar a recepção dos livros. Era o original da folha que Dulce lhe havia entregue. O Historiador assina o impresso e volta a olhar para os exemplares, ávido de os devorar mesmo antes de os catalogar e disponibilizar para leitura. Já está. Mais alguma coisa, Armando? Pergunta, esticando o braço de modo a facultar a folha ao funcionário. Está tudo. Já havia referido à Dulce que a partir deste momento não quero ser incomodado até ordens em contrário.

Muito bem. Com licença, o sexagenário despede-se do rapaz com um trejeito de cabeça. O rapaz sai e fecha a porta atrás de si». In Jorge Durão, A Herança de RosaCruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

 

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 A Herança de RosaCruz Jorge Durão. «Temos de continuar a cavalgar! Temos que chegar à França antes que os guardas nos alcancem!»


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Óbidos. 16 de Abril de 1650; madrugada

«A noite estava calma, serena, amena... O silêncio que a pautava era denunciador, acusador. A Lua projectava nas polidas pedras daquela principal rua a reflectida luz de um Sol que, naquele momento, iluminava e preenchia de vida outras paragens mais para oeste.

Três figuras haviam, no início da madrugada, começado a perscrutar o labirinto de ruas e ruelas da pequena urbe, munidas de um pequeno baú de madeira, sem quaisquer relevos, incrustações ou decorações, devidamente trancado, e de duas rudimentares ferramentas, um esguio ferro e uma pá. Àquela hora os guardas já haviam recolhido, e apenas as sentinelas que se encontravam nas portas da muralha estavam em riste face a quaisquer ameaças. Como aqueles três homens provinham da estalagem, que se situava logo na entrada este da urbe, nenhum tumulto fora suscitado ao guarda que fazia a vigilância daquele posto.

Os três homens olham a Lua pela janela e olham-se mutuamente, olhares que diziam que chegara o momento. Um deles deixa o quarto, desce cerca de um terço da escadaria que acede ao piso térreo e percebe que o pó que havia sido comprado naquele dia a um mercador, e que havia sido misturado na cerveja do estalajadeiro, estava a fazer o seu efeito. O homem dormia como uma pedra, ressonado de forma ensurdecedora, o que ajudaria a camuflar algum barulho que fizessem a descer as escadas e a sair. Todos os habitantes e os próprios guardas não viam com bons olhos aqueles alemães, que haviam chegado a Óbidos há cerca de três semanas, mas como eram grandes consumidores de cerveja e de tudo o que se mercava por ali, eram vistos como alguém que ajudava muito à pequena economia local.

Com o homem a dormir que nem um urso, juntam-se os três naquele pequeno hall empedrado, abrindo um deles a porta com cuidado e olhando para o posto do sentinela. A luz da Lua deixava perceber a silhueta do guarda. O homem sai e desloca-se com cautela para uma sombra, arremessando para bem longe, por cima da muralha, uma redonda pedra que já tinha nas mãos. Enquanto o guarda tentava perceber se era animal ou se era gente que por ali se movimentava, já com a corneta em riste, os outros dois abandonam a estalagem, deixando a pesada porta encostada, deslocando-se todos para as sombras que iam encontrando no sentido norte. Mais à frente, perto da torre, sobem para a muralha e começam a caminhar de modo a circundarem a urbe e a verificarem se a calma seria real ou apenas aparente. As ruas estavam mortas, toda a gente jazia no sono da noite e o silêncio era límpido.

Descem a muralha já perto da porta sul e, segundo os esquemas já estudados, que tinham a ver com o momento e com a posição da Lua, colocam-se no início da rua principal, a qual desembocava na torre. Aí, uma das primeiras pedras do chão é levantada sob a força dos três transmitida ao esguio ferro, debaixo da qual fora colocado um pergaminho, a decifração dos latentes indícios que a luz da Lua imprimia nas paredes, consistindo muitos desses indícios em indicações configuradas em sombras. A pedra foi colocada no sítio, viraram depois à direita, à esquerda, de novo à esquerda, e subiram outra vez à rua principal. Caminharam uns metros na rua e viraram depois à esquerda, subindo até à base da muralha do lado oeste, virando depois à direita e detendo-se uns metros mais à frente. Aí, levantam uma grande pedra, escavam um pouco por baixo, colocam no pequeno buraco o pequeno baú, repõem a terra e selam tudo com a grande pedra, varrendo com as mãos e os pés os resquícios de terra que ainda por ali permaneciam. Olham uma última vez para o local e dirigem-se de novo para a estalagem. Ao virarem para esquerda, já na rua principal, a brilhante lâmina de uma adaga que um encapuzado ostentava petrificara os seus olhares. Uma rude luta entre as rudimentares ferramentas e a brilhante adaga começara. O barulho da luta atraíra para o local os guardas que perscrutavam nas ruas por algo que lhes fora relatado. Ao chegarem ao local, os três alemães encontravam-se prostrados no chão, golpeados de profunda forma e com as vestes abertas. Mais para sul, de sombra em sombra, aquela figura encapuzada, que fora impedida de seguir todos os passos dos três rosacrucianos pela movimentação dos guardas, dirigia-se para casa, transportando dentro das vestes a réplica do papiro enterrado com que os três homens haviam ficado. Entra em casa e no imediato parecera que não era aquela noite mais que uma igual a tantas outras... Silenciosa, a envolver no sono todos os habitantes das muralhas... Ou quase todos.

Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

Temos de continuar a cavalgar! Temos que chegar à França antes que os guardas nos alcancem!, profere um dos três cavaleiros, virado para trás, tomando a liderança da deslocação. Era fim de tarde de um dia gélido, e a gélida aragem parecia cortar a carne como adagas bem afiadas. Os três homens cavalgavam pela protecção de algo que lhes proporcionava serem perseguidos pelos guardas alemães, que lhes seguiam o rasto a alguns quilómetros atrás. Aquele líder transportava no regaço um pequeno baú de madeira, simples, sem quaisquer incrustações ou relevos. Os homens davam na altura tudo por tudo para chegarem a terras francesas antes que aqueles que os perseguiam os capturassem em terras germânicas, ficando os cavaleiros imunes assim que atravessassem a fronteira». In Jorge Durão, A Herança de RosaCruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

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