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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O Crime do Padre Amaro. Eça de Queirós. «Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto bom rapaz! E esperto... Parece mesmo João VI»

 

jdact

«Foi no domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o pároco da Sé, José Miguéis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O pároco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilão dos comilões. Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica, que o detestava, costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado: lá vai a jiboia esmoer. Um dia estoura! Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe, à hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.

Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionário, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera por isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia! E quando as beatas, que lhe eram fiéis, lhe iam falar de escrúpulos de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando: ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus! Mais miolo na bola! As exagerações dos jejuns sobretudo irritavam-no: coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!

Era miguelista e os partidos liberais, as suas opiniões, os seus jornais enchiam-no duma cólera irracionável: cacete! Cacete!, exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho. Nos últimos anos tomara hábitos sedentários, e vivia isolado, com uma criada velha e um cão, o Joli. O seu único amigo era o chantre Valadares, que governava então o bispado, porque o senhor bispo dom Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho. O pároco tinha um grande respeito pelo chantre, homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovídio, que falava fazendo sempre boquinhas, e com alusões mitológicas. O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hércules. Hércules pela força, explicava sorrindo, Frei pela gula. No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rapé da sua caixa de ouro, disse aos outros cónegos, baixinho, ao deixar-lhe cair sobre o caixão, segundo o ritual, o primeiro torrão de terra: é a última pitada que lhe dou!

Todo o cabido riu muito com esta graça do senhor governador do bispado; o cónego Campos contou-o à noite ao chá em casa do deputado Novais; foi celebrada com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito que sua excelência tinha muita pilhéria! Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praça, o cão do pároco, o Joli. A criada entrara com sezões no hospital; a casa fora fechada; o cão, abandonado, gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, que tinha vagas semelhanças com o pároco. Com o hábito das batinas, ávido dum dono, apenas via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sóis; o cão, repelido como um pretendente, toda a noite uivava pelas ruas. Uma manhã apareceu morto ao pé da Misericórdia; a carroça do estrume levou-o e, como ninguém tomou a ver o cão, na Praça, o pároco José Miguéis foi definitivamente esquecido.

Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro pároco. Dizia-se que era um homem muito novo, saído apenas do seminário. O seu nome era Amaro Vieira. Atribuía-se a sua escolha a influências políticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposição, falou com amargura, citando o Gólgota, no favoritismo da corte e na reacção clerical. Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre. Não, não, lá que há favor, há; e que o homem tem padrinhos, tem, disse o chantre. A mim quem me escreveu para a confirmação foi o Brito Correia (Brito Correia era então ministro da Justiça). Até me diz na carta que o pároco é um belo rapagão. De sorte que, acrescentou sorrindo com satisfação, depois de Frei Hércules vamos talvez ter Frei Apolo. Em Leiria havia só uma pessoa que conhecia o pároco novo: era o cónego Dias, que fora nos primeiros anos do seminário seu mestre de Moral. No seu tempo, dizia o cónego, o pároco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...

Parece que o estou a ver com a batina muito coçada e cara de quem tem lombrigas!... De resto bom rapaz! E esperto... O cónego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões. O tio Patrício, o Antigo, negociante da Praça, muito liberal e que quando passava pelos padres rosnava como um velho cão de fila, dizia às vezes ao vê-lo atravessar a Praça, pesado, ruminando a digestão, encostado ao guarda-chuva: que maroto! Parece mesmo João VI». In Eça de Queirós, O Crime do Padre Amaro, 1875, 2002, 2005, Livros do Brasil, ISBN 978-989-711-090-0.

Cortesia LdoBrasil/JDACT

JDACT, Eça de Queirós, Literatura, Cultura, A Arte, Amor,

domingo, 23 de fevereiro de 2020

A Relíquia. Eça de Queirós. «Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adélia, em vez de me chamar morcão, quando, esfalfado no serviço do Senhor, eu mal podia ajudá-la a desatacar o colete…»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) No meu guarda-roupa, nesse duro Inverno, houve apenas um casaco velho, tão renunciado me quis mostrar aos culpados regalos da carne; mas orgulhava-me de ter lá, purificando os cheviotes profanos, a minha opa roxa de irmão do Senhor dos Passos, e o devoto hábito cinzento da Ordem Terceira de São Francisco. Sobre a cómoda ardia uma lamparina perenal, diante da litografia colorida de Nossa Senhora do Patrocínio; eu punha todos os dias rosas dentro de um copo, para lhe perfumar o ar em redor; e a Titi, quando vinha remexer nas minhas gavetas, ficava a olhar a sua padroeira, desvanecida, sem saber se era à Virgem, ou se era a ela, indirectamente, que eu dedicava aquele preito da luz e o louvor dos aromas. Nas paredes dependurei as imagens dos santos mais excelsos, como galeria de antepassados espirituais, de quem tirava o constante exemplo nas difíceis virtudes; mas não houve de resto no céu, santo, por mais obscuro, a quem eu não ofertasse um cheiroso ramalhete de Padre-Nossos em flor. Fui eu que fiz conhecer à Titi São Telésforo, Santa Secundina, o beato António Estroncónio, Santa Restituta, Santa Umbelina, irmã do grão São Bernardo, e a nossa dilecta e suavíssima patrícia Santa Basilisca, que é solenizada juntamente com São Hipácio, nesse festivo dia de Agosto em que embarcam os círios para a Atalaia.
Prodigiosa foi então a minha actividade devota! Ia a matinas, ia a vésperas. Jamais falhei a igreja ou ermida, onde se fizesse a adoração ao Sagrado Coração de Jesus. Em todas as exposições do Santíssimo eu lá estava, de rojos. Partilhava sofregamente de todos os desagravos ao Sacramento. Novenas em que eu rezei, contam-se pelos lumes do céu. E o Setenário das Dores era um dos meus doces cuidados.
Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido, eu ia à missa das sete a Santana, e à missa das nove da Igreja de São José, e à missa do meio-dia na ermida da Oliveirinha. Descansava um instante a uma esquina, de ripanço debaixo do braço, chupando à pressa o cigarro; depois voava ao Santíssimo exposto na paroquial de Santa Engrácia, à devoção do terço no convento de Santa Joana, à bênção do Sacramento na capela de Nossa Senhora, às Picoas, à novena das Chagas de Cristo, na sua igreja, com música. Tomava então a tipóia do Pingalho, e ainda visitava, ao acaso, de fugida, os Mártires e São Domingos, a igreja do convento do Desagravo e a Igreja da Visitação das Salésias, a capela de Monserrate, às Amoreiras e a Glória ao Cardal da Graça, as Flamengas e as Albertas, a Pena, o Rato, a Sé! À noite, em casa da Adélia, estava tão derreado, mono e mole ao canto do sofá, que ela atirava-me murros pelos ombros, e gritava, furiosa: esperta, morcão!
Ai de mim! Um dia veio, porém, em que a Adélia, em vez de me chamar morcão, quando, esfalfado no serviço do Senhor, eu mal podia ajudá-la a desatacar o colete, passou, sempre que os meus lábios insaciáveis se colavam demais ao seu colo, a empurrar-me, a chamar-me carraça... Foi isto pelas alegres vésperas de Santo António, ao aparecerem os primeiros manjericões, no quinto mês da minha devoção perfeita. A Adélia começara a andar pensativa e distraída. Tinha às vezes, quando eu lhe falava, uni modo de dizer hem?, com o olhar incerto e disperso, que era um tormento para o meu coração. Depois um dia deixou de me fazer a carícia melhor, que eu mais apetecia, a penetrante e a regaladora beijoca na orelha. Sim, decerto permanecia terna... Ainda dobrava maternalmente o meu paletó; ainda me chamava riquinho; ainda me acompanhava ao patamar em camisa, dando, ao descolar do nosso abraço, esse lento suspiro que era para mim a mais preciosa evidência da sua paixão; mas já me não favorecia com a beijoquinha na orelha». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A Relíquia. Eça de Queirós. «Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazível fortuna do Comendador G. Godinho. Pois quê! Não bastavam ao Senhor os seus tesouros incontáveis; as sombrias catedrais de mármore…»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Estugando o passo pela Rua Nova-da-Palma, eu sentia agora bem claramente, bem amargamente, o erro da minha vida... Sim, o erro! Porque até aí, essa minha devoção complicada, com que eu procurara agradar à Titi e ao seu ouro, fora sempre regular, mas nunca fora fervente. Que importava murmurar com correcção o terço diante de Nossa Senhora do Rosário? Diante de Nossa Senhora em todas as suas encarnações, e bem em evidência para comover a Titi, eu devia mostrar habilmente uma alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo pisado, penitente, ferido pelos picos dos cilícios... Até ai a Titi podia dizer com aprovação: é exemplar. Era-me preciso, para herdar, que ela exclamasse um dia, babada, de mãos postas: e santo! Sim! Eu devia identificar-me tanto com as cousas eclesiásticas e submergir-me nelas de tal sorte, que a Titi, pouco a pouco, não pudesse distinguir-me claramente desse conjunto rançoso de cruzes, imagens, ripanços, opas, tochas, bentinhos, palmitos, andores, que era para ela a religião e o céu; e tomasse a minha voz pelo santo ciciar dos latins de missa; e a minha sobrecasaca preta lhe parecesse já salpicada de estrelas, e diáfana como a túnica de bem-aventurança. Então, evidentemente, ela testaria em meu favor, certa que testava em favor de Cristo e da sua doce Madre Igreja!
Porque agora, eu estava bem decidido a não deixar ir para Jesus, filho de Maria, a aprazível fortuna do Comendador G. Godinho. Pois quê! Não bastavam ao Senhor os seus tesouros incontáveis; as sombrias catedrais de mármore, que atulham a terra e a entristecem; as inscrições, os papéis de crédito que a piedade humana constantemente averba em seu nome; as pás de ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos pés trespassados de pregos; as alfaias, os cálices, e os botões de punho de diamantes que ele usa na camisa, na sua Igreja da Graça? E ainda voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um bule de prata, e uns insípidos prédios da Baixa! Pois bem! disputaremos esses mesquinhos, fugitivos haveres, tu, ó filho do carpinteiro, mostrando à Titi a chaga que por ela recebeste, uma tarde, numa cidade bárbara da Ásia, e eu adorando essa chaga, com tanto ruído e tanto fausto, que a Titi não possa saber onde está o mérito, se em ti que morreste por nos amar de mais, se em mim que quero morrer por não te saber amar bastante!... Assim pensava, olhando de través o céu, no silêncio da Rua de São Lázaro. Quando cheguei à casa, senti que a Titi estava no oratório, sozinha, a rezar. Enfiei para o meu quarto, sorrateiramente; descalcei-me; despi a casaca; esguedelhei o cabelo; atirei-me de joelhos para o soalho, e fui assim, de rastos, pelo corredor, gemendo, carpindo, esmurrando o peito, clamando desoladamente por Jesus, meu Senhor... Ao ouvir, no silêncio da casa, estas lúgubres lamentações de arrastada penitência, a Titi veio à porta do oratório, espavorida.
Que é isso, Teodorico, filho, que tens tu?... Abati-me sobre o soalho, aos soluços, desfalecido de paixão divina. Desculpe, Titi... Estava no teatro com o doutor Margaride estivemos ambos a tomar chá, a conversar da Titi... E vai de repente, ao voltar para casa, ali na Rua Nova-da-Palma, começo a pensar que havia de morrer, e na salvação da minha alma, e em tudo o que Nosso Senhor padeceu por nós, e dá-me uma vontade de chorar... Enfim, a Titi faz favor, deixa me aqui um bocadinho só, no oratório, para aliviar... Muda, impressionada, ela acendeu reverentemente, uma a uma, todas as velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem de São José, favorito da sua alma, para que fosse ele o primeiro a receber a ardente rajada de preces que ia escapar-se, em tumulto, do meu coração cheio e ansioso. Deixou-me entrar, de rastos. Depois, em silêncio, desapareceu, cerrando o reposteiro com recato. E eu ali fiquei, sentado na almofada da Titi, coçando os joelhos, suspirando alto, e pensando na viscondessa de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe atiraria por aqueles ombros maduros e suculentos, se a pudesse ter só um instante, ali mesmo que fosse, no oratório, aos pés de ouro de Jesus, meu Salvador!
Corrigi então a minha devoção e tornei-a perfeita. Pensando que o bacalhau das sextas-feiras não fosse uma suficiente mortificação, nesses dias, diante da Titi, bebia asceticamente um copo de água e trincava uma côdea de pão; o bacalhau comia-o à noite, de cebolada, com bifes à inglesa, em casa da minha Adélia». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A Relíquia. Eça de Queirós. «… e nesse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e felicitando o magistrado por o ver melhor do seu catarro. Deliciosa torrada!, murmurou o doutor. Excelente torrada!, suspirei eu cortesmente»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) O Margaride encomendou o chá, e vendo-me olhar com inquietação os ponteiros do relógio, afirmou-me que eu chegaria à casa ainda a horas de fazer a minha tocante devoção com a Titi. A Titi agora, disse eu, não se importa que eu esteja até mais tarde... A Titi agora, louvado seja Deus, tem mais confiança em mim. E você merece-o... Faz-lhe a vontade, é sisudo... Ela pouco a pouco tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro... Então lembrei-me da velha afeição que ligava o Doutor Margaride ao padre Casimiro, procurador da tia Patrocínio e seu zeloso confessor. E, arrebatando a oportunidade, dei um leve suspiro, abri o meu coração ao magistrado, largamente, como a um pai. É verdade, a Titi tem-me amizade... Mas acredite Vossa Excelência, Doutor Margaride, que o meu futuro inquieta-me às vezes... Olhe que tenho pensado mesmo em ir a um concurso para delegado. Até já indaguei se seria difícil entrar como despachante na alfândega. Porque enfim a Titi é rica, é muito rica; eu sou seu sobrinho, único parente, único herdeiro; mas... E olhei ansiosamente para o Doutor Margaride, que, pelo loquaz padre Casimiro, conhecia talvez o testamento da Titi... O silêncio grave em que ele ficou, com as mãos cruzadas sobre a mesa, pareceu-me sinistro; e nesse instante o criado trouxe a bandeja do chá, sorrindo, e felicitando o magistrado por o ver melhor do seu catarro. Deliciosa torrada!, murmurou o doutor. Excelente torrada!, suspirei eu cortesmente.
De vez em quando o Doutor Margaride esfuracava um queixal; depois limpava a face, os dedos; e recomeçava a mastigar devagar, com delicadeza e com religião. Eu arrisquei outra palavra tímida. A Titi, é verdade, tem-me amizade... A Titi tem-lhe amizade, atalhou com a boca cheia o magistrado, e você é o seu único parente... Mas a questão é outra, Teodorico. É que você tem um rival. Rebento-o!, gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas, esmurrando o mármore da mesa. O moço triste, lá ao fundo, ergueu a face de cima do seu capilé. E o Doutor Margaride reprovou com severidade a minha violência. Essa expressão é imprópria de um cavalheiro, e de um moço comedido. Em geral não se rebenta ninguém... E além disso o seu rival não é outro, Teodorico, senão Nosso Senhor Jesus Cristo! Nosso Senhor Jesus Cristo? E só compreendi, quando o esclarecido jurisconsulto, já mais calmo, me revelou que a Titi, ainda no último ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna, terras e prédios, a irmandades da sua simpatia e a padres da sua devoção. Estou perdido!, murmurei.
Os meus olhos, casualmente, encontraram, lá ao fundo, o moço triste diante do seu capilé. E pareceu-me que ele se assemelhava a mim como um irmão, que era eu próprio, Teodorico, já deserdado, sórdido, com as botas cambadas, vindo ali ruminar as dores da minha vida, à noite, diante de um capilé. Mas o Doutor Margaride acabara a torrada. E estendendo regaladamente as pernas, consolou-me, de palito na boca, afável e perspicaz. Nem tudo está perdido, Teodorico. Não me parece que esteja tudo perdido... É possível que a senhora sua tia tenha mudado de ideia... Você é bem comportado, amima-a, lê-lhe o jornal, reza o terço com ela... Tudo isto influi. Que é necessário dizê-lo, o rival é forte! Eu gemi: e de arromba!
E forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito... Jesus Cristo padeceu por nós, é religião do Estado, não há senão curvar a cabeça... Olhe, quer você a minha opinião? Pois aí a tem, franca e sem rebuço, para lhe servir de guia... Você vem a herdar tudo, se dona Patrocínio, sua tia e minha senhora, se convencer que deixar-lhe a fortuna a você é como deixá-la à Santa Madre Igreja... O magistrado pagou o chá, nobremente. Depois, na rua, ia abafado no seu casaco, ainda me disse baixinho: com franqueza, que tal a torrada? Não há melhor torrada em Lisboa, Doutor Margaride. Ele apertou-me a mão com afecto, e separamo-nos, quando estava dando a meia-noite no velho relógio do Carmo». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

A Relíquia. Eça de Queirós. «A noite estava estrelada. E, descendo o Chiado em silêncio ao lado do Doutor Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da Titi fosse meu e dourasse a minha pessoa…»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) A Titi leu, a Titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizia-lhe que ia ouvir a Norma, beijava com unção os ossos dos seus dedos; e corria, ao Largo dos Caídas, à alcova da Adélia, a afundar-me perdidamente nas beatitudes do pecado. Ali, à meia-luz que dava através da porta envidraçada o candeeiro de petrolina da sala, os cortinados de cambraia e as saias dependuradas tomavam brancuras celestes de nuvem; o cheiro dos pós-de-arroz excedia em doçura o odor dos junquilhos místicos; eu estava no céu, eu era São Teodorico; e sobre os ombros nus da minha amada, desenrolavam-se as madeixas do seu cabelo negro, forte e duro como a cauda de um corcel de guerra. Numa dessas noites, eu saía de uma confeitaria do Rossio, de comprar trouxas-de-ovos para levar à minha Adélia, quando encontrei o Doutor Margaride que me anunciou, depois do seu abraço paternal, que ia ao São Carlos ver o Profeta. E você, vejo-o de casaca, naturalmente também vem... Fiquei varado. Com efeito vestira a casaca, dissera à Titi que ia gozar o Profeta, ópera de tanta virtude como uma santa instrumental de igreja.. E agora tinha de sofrer o Profeta, deveras, entalado numa cadeira da geral, roçando o joelho do douto magistrado, em vez de preguiçar num colchão amoroso, vendo a minha deusa, em camisa, comer o seu docinho de ovos. Sim, com efeito, também eu ia daqui para o Profeta, murmurei aniquilado. Diz que é uma musicazinha de muita virtude... A Titi gostou muito que eu viesse. Com o meu inútil cartucho de trouxas de ovos, lá fui subindo, melancolicamente, ao lado do Doutor Margaride, a Rua Nova-do-Carmo. Ocupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca e com tons de ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria da Adélia, e no desalinho das suas saias, quando reparei que de uma frisa ao lado uma senhora loura e madura, uma ceres outonal vestida de seda cor de palha, voltava para mim, a cada doce arcada das rebecas, os seus olhos claros e sérios.
Perguntei logo ao Doutor Margaride se conhecia aquela dama que eu costumava encontrar às sextas na Igreja da Graça, visitando o Senhor dos Passos com uma devoção, um fervor... O sujeito que está por trás, a abrir a boca, é o visconde Souto Santos. E ela ou é a mulher, a viscondessa de Souto Santos, ou a cunhada, a viscondessa de Vilar-o-Velho... À saída, a viscondessa (de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho) ficou um momento à porta esperando a sua carruagem, embrulhada numa capa branca que uma penugem orlava, delicadamente; a sua cabeça pareceu-me mais altiva, incapaz de rolar, tonta e pálida, num travesseiro de amor; a cauda cor de palha alastrava-se sobre as lajes; era esplêndida, era viscondessa; e outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos claros e sérios.
A noite estava estrelada. E, descendo o Chiado em silêncio ao lado do Doutor Margaride, eu pensava que, quando todo o ouro da Titi fosse meu e dourasse a minha pessoa, eu poderia então conhecer uma viscondessa de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho, não na sua frisa, mas na minha alcova, já caída a grande capa branca, despidas já as sedas cor de palha, alva só do brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os meus braços... Ai, quando chegaria a hora, doce entre todas, de morrer a Titi? Quer vir tomar o seu chá ao Martinho?, perguntou-me o Doutor Margaride ao desembocarmos no Rossio. Não sei se você conhece a torrada do Martinho... É a melhor torrada de Lisboa. No Martinho, já silencioso, o gás ia adormecendo entre os espelhos baços; e havia apenas numa mesa do fundo um moço triste, com a cabeça enterrada entre os punhos, diante de um capilé». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

domingo, 28 de outubro de 2018

A Relíquia. Eça de Queirós. «E não lhe bastava reprovar o amor como cousa profana; a senhora Patrocínio Neves fazia uma carantonha, e varria-o como cousa suja»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Corri, delirante a enfiar a casaca. E este foi o começo dessa anelada liberdade que eu conquistara laboriosamente, vergando o espinhaço diante da Titi, macerando o peito diante de Jesus! Liberdade bem-vinda, agora que Eleutério Serra partira para Paris, fazer os seus fornecimentos, e deixara a Adélia só, solta, bela, mais jovial, mais fogosa! Sim, decerto, eu ganhara a confiança da Titi com os meus modos pontuais, sisudos, servis e beatos! Mas o que a levara a alargar assim, com generosidade as minhas horas de honesto recreio, fora (como ela disse confidencialmente ao Padre Casimiro) a certeza de que eu me portava com religião e não andava atrás de saias. Porque para a tia Patrocínio todas as acções humanas, passadas por fora dos portais das igrejas, consistiam em andar atrás de calças ou andar atrás de saias; e ambos estes doces impulsos naturais lhe eram igualmente odiosos! Donzela, e velha, e ressequida como um galho de sarmento; não tendo jamais provado na lívida pele senão os bigodes do comendador G. Godinho, paternais e grisalhos; resmungando incessantemente, diante de Cristo nu, essas jaculatórias das horas de piedade, soluçantes de amor divino, a Titi entranhara-se, pouco a pouco, de um rancor invejoso e amargo a todas as formas e a todas as graças do amor humano.
E não lhe bastava reprovar o amor como cousa profana; a senhora Patrocínio Neves fazia uma carantonha, e varria-o como cousa suja. Um moço grave, amando seriamente, era para ela uma porcaria! Quando sabia de uma senhora que tivera um filho, cuspia para o lado, rosnava, que nojo! E quase achava a natureza obscena por ter criado dous sexos. Rica, apreciando o conforto, nunca quisera em casa um escudeiro, para que não houvesse na cozinha, nos corredores, saias a roçar com calças. E apesar de irem embranquecendo os cabelos da Vicência, de ser decrépita e gaga a cozinheira, de não ter dentes a outra criada chamada Eusébia, andava-lhes sempre remexendo desesperadamente nos baús, e até na palha dos enxergões, a ver se descobria fotografia de homem, carta de homem, rasto de homem, cheiro de homem. Todas as recreações moças: um passeio gentil com senhoras, em burrinhos; um botão de rosa orvalhado oferecido na ponta dos dedos; uma decorosa contradança em jucundo dia de Páscoa; outras alegrias, ainda mais cândidas, pareciam à Titi perversas, cheias de sujidade, e chamava-lhes relaxações. Diante dela já os sisudos amigos da casa não ousavam mencionar dessas comoventes histórias, lidas nas gazetas, e em que transparecem motivos de amor, porque isso a escandalizava como o desbragamento de uma nudez.
Padre Pinheiro! Gritou ela um dia furiosa, com os óculos chamejantes para o desventuroso eclesiástico, ao ouvi-lo narrar de uma criada que em França atirara o filho à sentina. Padre Pinheiro! Faça favor de me respeitar... Não é lá pela latrina! É pela outra porcaria! Mas era ela própria que sem cessar aludia a desvarios e a pecados da carne, para os vituperar, com ódio; atirava então o novelo de linha para cima da mesa, espetando-lhe raivosamente as agulhas de meia, como se trespassasse ali, tornando-o para sempre frio, o vasto e inquieto coração dos homens. E quase todos os dias, com os dentes rilhados, repetia (referindo-se a mim) que se uma pessoa do seu sangue, e que comesse o seu pão, andasse atrás de saias, ou se desse a relaxações, havia de ir para a rua, escorraçado a vassoura, como um cão.
Por isso agora as minhas precauções eram tão apuradas que, para evitar me ficasse na roupa ou na pele o delicioso cheiro da Adélia, eu trazia na algibeira bocados soltos de incenso. Antes de galgar a triste escadaria da casa, penetrava subtilmente na cavalariça deserta, ao fundo do pátio; queimava no tampo de uma barrica vazia um pedaço da devota resina; e ali me demorava, expondo ao aroma purificador as abas do jaquetão e as minhas barbas viris... Depois subia; e tinha a satisfação de ver logo a Titi farejar, regalada: Jesus, que rico cheirinho a igreja! Modesto, e com um suspiro, eu murmurava: sou eu, Titi... Além disso, para melhor a persuadir da minha indiferença por saias, coloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida uma carta com selo, certo que a religiosa Patrocínio, minha senhora e tia, a abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era escrita por mim a um condiscípulo de Arraiolos: e dizia, em letra nobre, estas cousas edificantes: saberás que fiquei de mal com o Simões, o de filosofia, por ele me ter convidado a ir a uma casa desonesta. Não admito destas ofensas. Tu lembras-te bem como já em Coimbra eu detestava tais relaxações. E parece-me ser uma grandíssima cavalgadura aquele que, por causa de uma distracção que é fogo-viste-linguiça, se arrisca a penar, por todos os séculos e séculos, amém, nas fogueiras de Satanás, salvo seja! Ora, numa dessas refinadíssimas asneiras não é capaz de cair o teu do C. Raposo». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

A Relíquia. Eça de Queirós. «Eu murmurei, requebrado, a babar-me de gosto devoto: lá o terço, Titi, lá o meu querido terço não perdia eu, nem pelo maior divertimento... Nem que El-Rei me convidasse para um chazinho no paço!»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Eu ia enfiar as botas; e, autorizado agora por ela a recrear-me fora de casa até às nove e meia, corria ao fim da Rua da Madalena, ao pé do Largo dos Caídas. Aí, com resguardo, encolhido na gola do meu sobretudo, cosido com o muro, como se o candeeiro de gás que ali havia, fosse olho inexorável da Titi, penetrava sofregamente na escadinha da Adélia... Sim, da Adélia! Porque nunca mais me esquecera, desde a noite em que o Rinchão me levou ao Salitre, o beijo que ela me dera, lânguida e branca, sobre o sofá. Em Coimbra procurara mesmo fazer-lhe versos; e esse amor dentro do meu peito foi, no último ano de Universidade, no ano de direito eclesiástico, como um maravilhoso lírio que ninguém via e que perfumava a minha vida... Apenas a Titi me estabeleceu a mesada das três moedas, corri em triunfo ao Salitre; lá havia as roseirinhas à janela, mas a Adélia já lá não estava. E foi ainda o prestante Rinchão que me mostrou esse primeiro andar, junto ao Largo dos Caídas, onde ela agora vivia patrocinada por Eleutério Serra, da firma Serra Brito & Cia, com loja de fazendas e modas na Conceição Velha. Mandei-lhe uma carta ardente e seria, pondo reverentemente no alto: Minha senhora. Ela respondeu, com dignidade: o cavalheiro pode vir aqui ao meio-dia. Levei-lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate, atada com uma fita de seda azul; pisando comovido a esteira nova da sala eu antevia, pela engomada brancura das bambinelas, a frescura das suas saias; e o rígido alinho dos móveis revelava-me a rectidão dos seus sentimentos. Ela entrou, um pouco constipada, com um xaile vermelho pelos ombros. Reconheceu logo o amigo do Rinchão; falou da Ernestina, com severidade, chamando-lhe porcalhona. E a sua voz enrouquecida, o seu defluxo, davam-me o desejo de a curar nos meus braços, de um longo dia de agasalho e sonolência, sob o peso dos cobertores, na penumbra mole da sua alcova. Depois ela quis saber se eu era empregado ou estava no comércio... Eu contei-lhe com orgulho a riqueza da Titi, os seus prédios, as suas pratas. Disse-lhe, com as suas mãos grossas presas nas minhas: se a Titi agora rebentasse, eu é que lhe punha a menina uma casa chic!
Ela murmurou, banhando-me todo na negra doçura do seu olhar: ora! O cavalheiro, se apanhasse o bago, não se importava mais comigo! Ajoelhei sobre a esteira, trémulo, esmagando o peito contra os seus joelhos, ofertando-me como uma rês; ela abriu o seu xaile; aceitou-me misericordiosamente. Agora, à noitinha (enquanto Eleutério, no clube da Rua Nova-do-Carmo, jogava a manilha), eu tinha ali na alcova da Adélia a radiante festa da minha vida. Levara para lá um par de chinelas, era o eleito do seu seio. às nove e meia, despenteada, envolta à pressa num roupão de flanela, com os pés nus, acompanhava-me pela escadinha de trás, colhendo em cada degrau, nos meus lábios, um beijo lento e saudoso. Adeus, Delinha! Agasalha-te, riquinho!
E eu recolhia devagar ao Campo de Santana, ruminando o meu gozo! O Verão passou, languidamente. Os primeiros ventos de Outono levaram as andorinhas e as folhagens do Campo de Santana; e logo nesse Outubro, de repente, a minha vida se tomou mais fácil, mais larga. A Titi mandara-me fazer uma casaca; e eu estreei-a, com permissão dela, indo ouvir a São Carlos o Poliuto, ópera que o Doutor Margaride recomendara, como repassada de sentimentos religiosos e cheia de elevada lição. Fui com de, de luvas brancas, frisado. Depois, no outro dia, ao almoço, contei à Titi o devoto enredo, os ídolos derrubados, os cânticos, as fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo veludo vestia a rainha.
E sabe quem me veio falar, Titi? O barão de Alconchel, o ricaço, tio daquele rapaz que foi meu condiscípulo. Veio apertar-me a mão; esteve um bocado comigo no salão... Tratou-me com muita consideração. A Titi gostou desta consideração. Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me do nédio decote de uma senhora imodesta, nua nos braços, nua no peito, mostrando toda essa carne, esplêndida e irreligiosa, que é a desolação do justo e a angústia da Igreja. Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a Titi, estava com nojo! A Titi gostou deste nojo. E passados dias, depois do café, quando eu me dirigia, ainda de chinelas, ao oratório, a fazer uma curta petição às chagas do nosso Cristo de ouro, a Titi, já de braços cruzados e sonolenta, disse-me dentre a sombra do lenço: está bom, se queres, volta hoje a São Carlos... E lá quando te apetecer, não te acanhes, tens licença, podes ir gozar um bocado de música... Agora que estás um homem, e que parece que tens propósito, não me importa que fiques fora, até às onze ou onze e meia... Em todo o caso a essa hora quero estar já de porta fechada, e tudo pronto, para começarmos o terço.
Ela não viu o triunfante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei, requebrado, a babar-me de gosto devoto: lá o terço, Titi, lá o meu querido terço não perdia eu, nem pelo maior divertimento... Nem que El-Rei me convidasse para um chazinho no paço!» In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

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quinta-feira, 5 de julho de 2018

A Relíquia. Eça de Queirós. «… um velho óculo de alcance, relíquia do comendador G. Godinho. Depois do café a Titi, lentamente, cruzava os braços; e o seu carão sumia-se, dormente e pesado, na sombra do lenço roxo»

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Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Então o doutor Margaride estendeu a mão pacificadora e solene: está tudo explicado! O nosso Teodorico foi imprudente, mas o sítio onde esteve é respeitável... E eu conheço o barão de Alconchel. É um cavalheiro da maior circunspecção, e um dos mais abastados do Alentejo... Talvez mesmo um dos mais ricos proprietários de Portugal... O mais rico, direi!... Mesmo lá fora não haverá fortuna territorial que lhe exceda. Nem que se lhe compare!... Só em porcos! Só em cortiça! Centenares de contos! Milhões! Erguera-se; o seu vozeirão empolado rolava serras de ouro. E o bom Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura: tome o seu chazinho, Teodorico, vá tomando o seu chazinho. E creia que a tia não deseja senão o seu bem... Puxei, com a mão a tremer, a minha chávena de chá; e, remexendo desfalecidamente o fundo de açúcar, pensava em abandonar para sempre a casa daquela velha medonha, que assim me ultrajava diante da Magistratura e da Igreja, sem consideração pela barba que me começava a nascer, forte, respeitável e negra.
Mas, aos domingos, o chá era servido nas pratas do comendador G. Godinho. Eu via-as, maciças e resplandecentes, diante de mim; o grande bule, terminando em bico de pato; o açucareiro cuja asa tinha a forma de uma cobra assanhada; e o paliteiro gentil, em figura de macho trotando sob os seus alforjes. E tudo pertença à Titi. Que rica que era a Titi! Era necessário ser bom, agradar sempre à Titi! Por isso, mais tarde, quando ela penetrou no oratório para cumprir o terço, já eu lá estava, de rojos, gemendo, martelando o peito, e suplicando ao Cristo de ouro que me perdoasse ter ofendido a Titi. Um dia enfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor metidas num canudo de lata. A Titi examinou-as reverente, achando um sabor eclesiástico As linhas em latim, às paramentosas fitas vermelhas, e ao selo dentro do seu relicário. Está bom, disse ela, estás doutor. A Deus Nosso Senhor o deves; vê não lhe faltes... Corri logo ao oratório, com o canudo na mão, agradecer ao Cristo de ouro o meu glorioso grau de bacharel. Na manhã seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba que, agora, tinha cerrada e negra, o padre Casimiro entrou-me pelo quarto, risonho e a esfregar as mãos.
Boa nova vos trago aqui, senhor doutor Teodorico! E depois de me acaridar, segundo o seu afectuoso costume, com palmadinhas doces nos rins, o santo procurador revelou-me que a Titi, satisfeita comigo, decidira comprar-me um cavalo para eu dar honestos passeios, e espairecer por Lisboa. Um cavalo! Oh, padre Casimiro! Um cavalo. E além disso, não querendo que o seu sobrinho, já barbado, já letrado, sofresse um vexame, por lhe faltar às vezes um troco para deitar na salva de Nossa Senhora do Rosário, a Titi estabelecia-me uma mesada de três moedas. Abracei com calor o padre Casimiro. E desejei saber se a amorável intenção da Titi era que eu não tivesse outra ocupação, além de cavalgar por Lisboa, e lançar pratinhas na salva de Nossa Senhora. Olhe, Teodorico, eu parece-me que a Titi não quer que você tenha outro mister, senão temer a Deus... O que lhe digo é que o amigo vai passá-la boa e regalada... E agora, ande, vá-lhe lá dentro agradecer, e diga-lhe uma cousinha mimosa.
Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do patriarca São José, a Titi, sentada a um canto do sofá de riscadinho, fazia meia, com um xale de Tonquim pelos ombros. Titi, murmurei eu encolhido, venho aqui agradecer... Está bom, vai com Deus. Então, devotamente, beijei-lhe a franja do xale. A Titi gostou. Eu fui com Deus. Começou daí, farta e regalada, a minha existência de sobrinho da senhora Patrocínio das Neves. As oito horas, pontualmente, vestido de preto, ia com a Titi à Igreja de Santana, ouvir a missa do padre Pinheiro. Depois do almoço, tendo pedido licença à Titi, e rezadas no oratório três Gloria Patri contra as tentações, saía a cavalo, de calça clara. Quase sempre a Titi me dava alguma incumbência beata: passar em São Domingos, e dizer a oração pelos três santos mártires do Japão; entrar na Conceição Velha, e fazer o acto de desagravo pelo Sagrado Coração de Jesus...
E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar estes ternos recados, que ela mandava à casa do Senhor. Mas era este o momento desagradável do meu dia: às vezes, ao sair, sorrateiro, do portão da igreja, topava com algum condiscípulo republicano, dos que me acompanhavam em Coimbra, nas tardes de procissão, chasqueando o Senhor da Cana-Verde. Oh, Raposão! Pois tu agora... Eu negava, vexado: ora essa! Não me faltava mais nada! Sou mesmo lá de carolices... Qual! Entrei aqui por causa de uma rapariga... Adeus, tenho a égua à espera. Montava, e de luva preta, a perna bem colada à sela, um botãozinho de camélia no peito, ia caracolando, em ócio e luxo, até ao Largo do Loreto. Outras vezes deixava a égua no Arco do Bandeira, e gozava uma manhã regalada no bilhar do Montanha. Antes do jantar, em chinelas, no oratório com a Titi, eu fazia a jaculatória a São José, aio de Jesus, custódio de Maria e amorosíssimo patriarca. À mesa, adornada apenas por compoteiras de doce de calda em torno de uma travessa de aletria, eu contava à Titi o meu passeio, as igrejas em que me deleitara, e quais os altares alumiados. A Vicência escutava com devoção, perfilada no seu lugar costumado, entre as duas janelas, onde um retrato do nosso santo padre Pio IX enchia a tira de parede verde, tendo por baixo, pendente de um cordão, um velho óculo de alcance, relíquia do comendador G. Godinho. Depois do café a Titi, lentamente, cruzava os braços; e o seu carão sumia-se, dormente e pesado, na sombra do lenço roxo». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

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A Relíquia. Eça de Queirós. «Cala-te, alma perdida, que até devias ter vergonha!... E fique entendendo! Para outra vez que venha a estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Baixei a cabeça, murmurei: e ainda nós não padecemos bastante... Tem a Titi razão. Que se não metesse com saias! Ela ergueu-se, deu as graças ao Senhor. Eu fui para o meu quarto, fechei-me lá, a tremer, sentindo ainda, regeladas e ameaçadoras, as palavras da Titi, para quem os homens acabavam quando se metiam com saias. Também eu me metera com saias, em Coimbra, no Terreiro da Erva! Ali, no meu baú, tinha eu documentos do meu pecado, a fotografia da Teresa dos Quinze, uma fita de seda, e uma carta dela, a mais doce, em que me chamava único afecto da sua alma e me pedia dezoito tostões! Eu cozera estas dentro do forro de um colete de pano, receando as incessantes rebuscas da Titi, por entre a minha roupa íntima. Mas lá estavam, no baú de que ela guardava a chave, dentro do colete, fazendo uma dureza de cartão que qualquer dia poderiam palpar os seus dedos desconfiados... E eu acabava logo para Titi! Abri devagarinho o baú, descosi o forro, tirei a carta deliciosa da Teresa, a fita que conservara o aroma da sua pele, e a sua fotografia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade, queimei tudo, amabilidades e feições; e sacudi desesperadamente para o saguão as cinzas da minha ternura.
Nessa semana não ousei voltar à Rua da Fé. Depois, um dia que chuviscava, fui lá, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-chuva. Um vizinho, vendo-me espreitar de longe as janelas negras e mortas do casebre, disse-me que o Godinho, coitado, fora para o hospital numa maca. Desci triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepúsculo húmido, tendo roçado bruscamente por outro guarda-chuva, ouvi de repente o meu nome de Coimbra, lançado com alegria. Oh, Raposão! Era o Silvério, por alcunha o Rinchão, meu condiscípulo, e companheiro de casa das Pimentas. Estivera passando esse mês no Alentejo, com seu tio, ricaço ilustre, o barão de Alconchel. E agora, de volta, ia ver uma Ernestina, rapariguita loura, que morava no Salitre, numa casa cor-de-rosa, com roseirinhas à varanda. Queres tu vir cá um bocado, ó Raposão? Está lá outra rapariga bonita, a Adélia... Tu não conheces a Adélia? Então, que diabo, vem ver a Adélia... É um mulherão! Era um domingo, noite de partida da Titi; eu devia recolher religiosamente às oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rinchão falou da brancura dos braços da Adélia; e eu comecei a caminhar ao lado do Rinchão, enfiando as luvas pretas. Munidos de um cartucho de pastéis e de uma garrafa de Madeira, encontrámos a Ernestina a coser um elástico nas suas botinas de duraque. E a Adélia, estendida num sofá, de chambre e em saia branca, com os chinelos caídos no tapete, fumava um cigarro lânguido. Eu sentei-me ao lado dela, comovido e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos. Só quando o Silvério e a Ernestina correram à cozinha, abraçados, a buscar copos para o Madeira, ousei perguntar à Adélia, corando: então a menina de onde é?
E eu, novamente acanhado, só pude gaguejar que era tristonho aquele tempo de chuva. Ela pediu-me outro cigarro, cortesmente, dizendo-me, o cavalheiro. Apreciei estes modos. As mangas largas do seu roupão, escorregando, descobriam braços tão brancos e macios, que entre eles a morte mesma deveria ser deleitosa. Fui eu que lhe ofereci o prato, onde a Ernestina colocara os pastéis. Ela quis saber o meu nome. Tinha um sobrinho que também chamava Teodorico; e isto foi como um fio subtil e forte que veio, do seu coração, enrodilhar-se no meu. Por que é que o cavalheiro não põe o guarda-chuva ali a um canto?, disse, rindo. O brilho picante dos seus dentinhos miúdos fez desabrochar, dentro em mim, uma flor de madrigal. É para não me tirar daqui de ao pé da menina nem um instantinho que seja. Ela fez-me uma cócega lenta no pescoço. Eu, aboborado de gozo bebi o resto do Madeira que ela deixara no cálice. A Ernestina, poética, e cantando o fado, aninhou-se nos joelhos do Rinchão. Então a Adélia, revirando-se languidamente, puxou-me a face, e os meus lábios encontraram os seus no beijo mais sério, mais sentido, mais profundo que até aí abalara o meu ser.
Nesse doce instante, um relógio medonho, com o mostrador fingindo uma face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o mármore de uma mesa de mogno, de entre dois vasos sem flores, começou a dar dez horas, fanhoso, irónico, pachorrento. Jesus! Era a hora do chá em casa da Titi! Com que terror eu trepei, esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as vielas escuras e infindáveis que levam ao Campo de Santana! Em casa, nem tirei as botas enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo, lá ao fundo, no sofá de balbuciei: Titi... Mas já ela gritava, esverdinhada de cólera, sacudindo os punhos: relaxações em minha casa não admito! Quem quiser viver aqui há-de estar às horas que eu marco! Lá deboches e porcarias, não, enquanto eu for viva! E quem não lhe agradar, rua! Sob a rajada estridente da indignação da senhora Patrocínio, padre Pinheiro e o tabelião Justiço tinham dobrado a cabeça, embaçados, o doutor Margaride, para apreciar conscienciosamente a minha culpa, puxou o seu pesado relógio de ouro. E foi o bom Casimiro que interveio, como sacerdote, como procurador, influente e suave. Dona Patrocínio tem razão, tem muita razão em querer ordem em casa... Mas talvez o nosso Teodorico se tivesse demorado um pouco mais no Martinho, a ouvir falar de estudos, de compêndios...
Exclamei amargamente: nem isso, padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe onde estive? No convento da Encarnação! É verdade, encontrei um condiscípulo meu, que ia lá buscar a irmã. Hoje era festa, a irmã tinha ido passar o dia com uma tia, uma comendadeira... Estivermos à espera, a passear no pátio... A irmã vai casar, ele andou a contar-me do noivo, e do enxoval, e do apaixonada que ela está... Eu morto por me safar, mas com cerimónia do rapaz, que sobrinho do barão de Alconchel... E ele zás, zás, a falar da irmã, e do namoro, e das cartas... A tia Patrocínio uivou de furor. Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente conversa para o pátio de uma casa de religião! Cala-te, alma perdida, que até devias ter vergonha!... E fique entendendo! Para outra vez que venha a estas horas, não me entra em casa! Fica na rua, como um cão…» In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

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sábado, 25 de novembro de 2017

A Relíquia. Eça de Queirós. «Falar à Titi! Eu nem ousaria contar à Titi que conhecia o Xavier e que entrava nesse casebre impuro onde havia uma espanhola…»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Nunca mais rosnei a delambida oração a São Luís Gonzaga, nem dobrei o meu joelho viril diante de imagem benta que usasse auréola na nuca; embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei a minha robustez, esmurrando sanguinolentamente um marcador do Trony; fartei a carme com saborosos amores no Terreiro da Erva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de Raposão. Todos os quinze dias, porém escrevia à Titi, na minha boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a severidade dos meus estudos, o recato dos meus hábitos, as copiosas rezas e os rígidos jejuns, os sermões de que me nutria, os doces desagravos ao Coração de Jesus à tarde, na Sé, e as novenas com que consolava a minha alma em Santa-Cruz no remanso dos dias feriados... Os meses de Verão em Lisboa eram depois dolorosos. Não podia sair, mesmo a espontar o cabelo, sem implorar da Titi uma licença servil. Não ousava fumar ao café. Devia recolher virginalmente, à noitinha; e, antes de me deitar, tinha de rezar com a velha um longo terço no oratório. Eu próprio me condenara a esta detestável devoção! Tu lá nos teus estudos costumas fazer o teu terço?, perguntara-me, com secura, a Titi. E eu, sorrindo abjectamente: ora essa. É que nem posso adormecer sem ter rezado o meu rico terço...
Aos domingos continuavam as partidas. O padre Pinheiro, mais triste, queixava-se agora do coração, e um pouco também da bexiga. E havia outro comensal, velho amigo do comendador Godinho, fiel visita das Neves, o Margaride, o que fora delegado em Viana, depois juiz em Mangualde. Pico por morte de seu mano Abel, secretário da Câmara Patriarcal, o doutor aposentara-se, farto dos autos, e vivia em ócio, lendo os periódicos, num prédio seu na Praça da Figueira. Como conhecera o papá, e muitas vezes o acompanhara ao Mosteiro, tratou-me logo com autoridade e por você. Era um homem corpulento e solene, já calvo, com um carão lívido, onde desatacavam as sobrancelhas cerradas, densas e negras como carvão. Raras vezes penetrava na sala da Titi sem atirar, logo da porta, uma notícia pavorosa. Então, não sabem? Um incêndio medonho, na Baixa! Apenas uma fumaraça numa chaminé. Mas o bom Margaride, em novo, num sombrio acesso de imaginação, compusera duas tragédias; e daí lhe ficara este gosto mórbido de exagerar e de impressionar. Ninguém como eu, dizia ele, saboreia o grandioso...
E, sempre que aterrava a Titi e os sacerdotes, sorvia gravemente uma pitada. Eu gostava do doutor Margaride. Camarada do papá em Viana, muitas vezes lhe ouvira cantar, ao violão, a xácara do conde Ordonho. Tardes inteiras vagueara com de poeticamente, pela beira da água, no Mosteiro, quando a mamã fazia raminhos silvestres à sombra dos amieiros. E mandou-me as amêndoas mal eu nasci, à noitinha, em sexta-feira da Paixão. Além disso, mesmo na minha presença ele gabava francamente à Titi o meu intelecto, e a circunspecção dos meus modos. O nosso Teodorico, dona Patrocínio, é moço para deleitar uma tia... Vossa Excelência, minha rica senhora, tem aqui um Telémaco! Eu corava, modesto. Ora, foi justamente passeando com ele no Rossio, num dia de Agosto, que eu conheci um parente nosso, afastado, primo do comendador Godinho. O doutor Margaride apresentou-mo, dizendo apenas: o Xavier, teu primo, moço de grandes dotes. Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que fora galante e desbaratara furiosamente trinta contos, herdados de seu pai, dono de uma cordoaria em Alcântara. O comendador Godinho, meses antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o recolhido por caridade à Secretaria da Justiça, com vinte mil-réis por mês. E o Xavier agora vivia com uma espanhola chamada Cármen, e três filhos dela, num casebre da Rua da Fé.
Eu fui lá num Domingo. Quase não havia móveis; a bacia da cara, a única, estava entalada no fundo roto da palhinha de uma cadeira. O Xavier toda a manhã deitara escarros de sangue pela boca. E a Cármen, despenteada, em chinelas, arrastando uma bata de fustão manchada de vinho, embalava sorumbaticamente pelo quarto uma criança embrulhada num trapo e com a cabecinha coberta de feridas. Imediatamente o Xavier, tratando-me por tu, faiou-me da tia Patrocínio... Era a sua esperança, naquela sombria miséria, a tia Patrocínio! Serva de Jesus, proprietária de tantos prédios, ela não podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se ali naquele casebre, sem lençóis, sem tabaco, com os filhos em redor, esfarrapados, a chorar por pão. Que custava à tia Patrocínio estabelecer-lhe, como já fizera o Estado, uma mesadinha de vinte mil-réis? Tu é que lhe devias falar, Teodorico! Tu é que lhe devias dizer... Olha para essas crianças. Nem meias têm... Anda cá, Rodrigo, dize aqui ao tio Teodorico. Que comeste hoje ao almoço?... Um bocado de pão de ontem! E sem manteiga, sem mais nada! E aqui está a nossa vida, Teodorico! Olha que é duro, menino! Enternecido, prometi falar à Titi.
Falar à Titi! Eu nem ousaria contar à Titi que conhecia o Xavier e que entrava nesse casebre impuro onde havia uma espanhola, emagrecida no pecado. E para que eles não percebessem o meu ignóbil terror da Titi, não voltei à Rua da Fé. No meado de Setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora, soube pelo doutor Barroso que o primo Xavier, quase a morrer, me queria falar em segredo. Fui lá, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A Cármen, na cozinha, conversava por entre soluços com outra espanhola, magrita, de mantilha preta e corpetezinho triste de cetim cor de cereja. Os pequenos, no chão, rapavam um tacho de acorda. E na alcova o Xavier, enrodilhado num cobertor, com a bacia da cara ao lado, cheia de escarros de sangue, tossia, desesperadamente: és tu, rapaz? Então que é isso, Xavier? Ele exprimiu, num termo obsceno, que estava perdido. E estirando-se de costas, com um brilho seco nos olhos, falou-me logo da Titi.
Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o coração; a fera não respondera. E, agora, ia mandar para o Jornal de Notícias um anúncio, a pedir uma esmola, assinando Xavier Godinho, primo do rico comendador Godinho. Queria ver se Patrocínio Neves deixaria um parente, um Godinho, mendigar assim, publicamente, na página de um jornal. Mas é necessário que tu me ajudes, rapaz; que a enterneças! Quando ela ler o anúncio, conta-lhe esta miséria! Desperta-lhe o brio. Dize-lhe que é uma vergonha ver morrer ao abandono um parente, um Godinho. Dize-lhe que já se rosna! Olha, se hoje pude tomar um caldo, é que essa rapariga, a Lolita, que está em casa da Benta Bexigosa, nos trouxe aí quatro coroas... Vê tu a que eu cheguei! Ergui-me, comovido. Conta comigo, Xavier. Olha, se tens aí cinco tostões que te não façam falta, dá-os à Cármen. Dei-lhos a ele; e sai, jurando que ia falar à Titi, solenemente, em nome dos Gordinhos e em nome de Jesus! Depois do almoço, ao outro dia, a Titi, de palito na boca, e vagarosa, desdobrou o jornal de Notícias. E decerto achou logo o anúncio do Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da terceira página onde ele negrejava, aflitivo, vergonhoso, medonho. Então pareceu-me ver, voltados para mim, lá do fundo nu do casebre, os olhos aflitos do Xavier; a face amarela da Cármen, lavada de lágrimas; as pobres mãozinhas dos pequenos, magras, à espera da côdea de pão... E todos aqueles desgraçados ansiavam pelas palavras que eu ia lançar à Titi, fortes, tocantes, que os deviam salvar, e dar-lhes o primeiro pedaço de carne daquele verão de miséria. Abri os lábios. Mas já a Titi, recostando-se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz: que se aguente... É o que sucede a quem não tem temor de Deus e se mete com bêbedas... Não tivesse comido tudo em relaxações... Cá para mim, homem perdido com saias, homem que anda atrás de saias, acabou... Não tem o perdão de Deus, nem tem o meu! Que padeça, que padeça, que também Nosso Senhor Jesus Cristo padeceu!» In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

A Relíquia. Eça de Queirós. «Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio lambisgóia. Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) O tristonho pátio de recreio, areado com saibro, cheirava mal por causa da vizinhança das latrinas; e o regalo para os mais crescidos era tirar uma fumaça do cigarro, às escondidas, numa sala térrea onde aos domingos o mestre de dança, o velho Cavinetti, frisado e de sapatinhos decotados, nos ensinava mazurcas. Cada mês a Vicência, de capote e lenço, me vinha buscar depois da missa para ir passar um domingo com a Titi. Isidoro Júnior, antes de eu sair, examinava-me sempre os ouvidos e as unhas; muitas vezes, mesmo na bacia dele, dava-me uma ensaboada furiosa, chamando-me baixo sebento. Depois trazia-me até à porta, fazia-me uma carícia, tratava-me de seu querido amiguinho, e mandava pela Vicência os seus respeitos à senhora Patrocínio Neves. Nós morávamos no Campo de Santana. Ao descer o Chiado, eu parava numa loja de estampas, diante do lânguido de uma mulher loura, com peitos nus, recostada numa pele de tigre, e sustentando na ponta dos dedos, mais finos que os do Crispim, um pesado fio de pérolas. A claridade daquela nudez fazia-me pensar na inglesa do senhor barão; e esse aroma, que tanto me perturbara no corredor da estalagem, respirava-o outra vez, finamente espalhado, na rua feita de sol, pelas sedas das senhoras que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e graves.
A Titi, em casa, estendia-me a mão a beijar; e toda a manhã eu ficava folheando volumes do Panorama Universal, na saleta dela, onde havia um sofá de riscadinho, um armário rico de pau preto, e litografias coloridas, com ternas passagens da vida puríssima do seu favorito santo, o patriarca São José. A Titi, de lenço roxo carregado para a testa, sentada à janela por dentro dos vidros, com os pés embrulhados numa manta, examinava solicitamente um grande caderno de contas. Às três horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do lenço, começava a perguntar-me doutrina. Dizendo o Credo, desfiando os Mandamentos, com os olhos baixos, eu sentia o seu cheiro acre e adocicado a rapé e a formiga. Aos domingos vinham jantar connosco os dous eclesiásticos. O de cabelinho encaracolado era o padre Casimiro, procurador da Titi; dava-me abraços risonhos; convidava-me a declinar arbor, arboris; currus, curri; proclamava-me com afecto talentaço. E o outro eclesiástico elogiava o colégio dos Isidoros, formosíssimo estabelecimento de educação, como não havia nem na Bélgica. Esse chamava-se padre Pinheiro. Cada vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava por diante de um espelho, deitava a língua de fora, e ali se esquecia a esticá-la, a estudá-la, desconfiado e aterrado.
Ao jantar o padre Casimiro gostava de ver o meu apetite. Vai mais um bocadinho de vitelinha guisada? Rapazes querem-se alegres e bem comidos! E padre Pinheiro, palpando o estômago: felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitela! Ele e a Titi falavam então de doenças. Padre Casimiro, coradinho, com o guardanapo atado ao pescoço, o prato cheio o copo cheio, sorria beatificamente. Quando, na praça, entre as árvores, começavam a luzir os candeeiros de gás, a Vicência punha o seu xaile velho de xadrez e ia levar-me ao colégio. A essa hora, nos domingos, chegava o sujeitinho de cara rapada e vastos colarinhos, que era o José Justino, secretário da confraria de São José, e tabelião da Titi, com cartório a São Paulo. No pátio, tirando já o seu casaco, fazia-me uma festa no queixo, e perguntava à Vicência pela saúde da senhora Patrocínio. Subia; nós fechávamos o pesado portão. E eu respirava consoladamente, me entristecia aquele casarão com os seus damascos vermelhos, os santos inumeráveis, e o cheirinho a capela.
Pelo caminho a Vicência falava-me da Titi, que a trouxera, havia seis anos, da Misericórdia. Assim eu fui sabendo que ela padecia do fígado; tinha sempre muito dinheiro em ouro numa bolsa de seda verde; e o comendador Godinho, tio dela e da minha mamã?, deixara-lhe duzentos contos em prédios, em papéis, e a quinta do Mosteiro ao pé de Viana, e pratas e louças da Índia... Que rica que era a Titi! Era necessário ser bom, agradar sempre à Titi! À porta do colégio a Vicência dizia: adeus, amorzinho, e dava-me um grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraçado ao travesseiro, eu pensava na Vicência, e nos braços que lhe vira arregaçados, gordos e brancos como leite. E assim foi nascendo no meu coração, pudicamente, uma paixão pela Vicência.
Um dia, um rapaz já de buço chamou-me no recreio lambisgóia. Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe lá a face toda, com um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Crispim saíra dos Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu alto amor pela Vicência desapareceu um dia, insensivelmente, como uma flor que se perde na rua. E os anos assim foram passando; pelas vésperas de Natal acendia-se um braseiro no refeitório; eu envergava o meu casacão forrado de baeta e ornado de uma gola de astracã; depois chegavam as andorinhas aos beirais do nosso telhado; e no oratório da Titi, em lugar de camélias, vinham braçadas dos primeiros cravos vermelhos perfumar os pés de ouro de Jesus; depois era o tempo dos banhos de mar, e o padre Casimiro mandava à Titi um gigo de uvas da sua quinta de Torres... Eu comecei a estudar retórica. Um dia, o nosso bom procurador disse-me que eu não voltaria mais para os Isidoros, indo acabar os meus preparatórios em Coimbra, na casa do Doutor Roxo, lente de teologia. Fizeram-me roupa branca. A Titi deu-me num papel a oração que eu diariamente devia rezar a São Luís Gonzaga, padroeiro da mocidade estudiosa, para que ele conservasse em meu corpo a frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O padre Casimiro foi-me levar à cidade graciosa, onde dormita Minerva. Detestei logo o Doutor Roxo. Em sua casa sofri vida dura e claustral; e foi um inefável gosto quando, no meu primeiro ano de Direito, o desagradável eclesiástico morreu miseravelmente de um antraz. Passei então para a divertida hospedagem das Pimentas, e conheci logo, sem moderação, todas as independências, e as fortes delicias da vida». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

Cortesia de ELBrasil/JDACT

A Relíquia. Eça de Queirós. « Apenas completei nove anos, a Titi mandou fazer camisas, um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colégio dos Isidoros»

Cortesia de wikipedia

Sobre a nudez forte da verdade. O manto diáfano da fantasia
«(…) Enfim, num domingo de manhã, estando a chuviscar, chegamos a um casarão, num largo cheio de lama. O Senhor Matias disse-me que era Lisboa; e, abafando-me no meu xale-manta, sentou-me num banco, ao fundo de uma sala húmida, onde havia bagagens e grandes balanças de ferro. Um sino lento tocava à missa; diante da porta passou uma companhia de soldados, com as armas sob as capas de oleado. Um homem carregou os nossos baús, entramos numa sege, eu adormeci sobre o ombro do Matias. Quando ele me pôs no chão, estávamos num pátio triste, lajeado de pedrinha miúda, com assentos pintados de preto; e na escada uma moça gorda cochichava com um homem de opa escarlate, que trazia ao colo o mealheiro das almas. Era a Vicência, a criada da tia Patrocínio. O Matias subiu os degraus conversando com ela, e levando-me ternamente pela mão. Numa sala forrada de papel escuro, encontramos uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um grilhão de ouro no peito; um lenço roxo, amarrado no queixo, caía-lhe num bioco lúgubre sobre a testa; e no fundo dessa sombra, negrejavam dous óculos defumados. Por trás dela, na parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava para mim, com o peito trespassado de espadas. Esta é a Titi, disse-me o Matias. É necessário gostar muito da Titi... É necessário dizer sempre que sim à Titi! Lentamente, a custo, ela baixou o carão chupado e esverdinhado. Eu senti um beijo vago, de uma frialdade de pedra; e logo a Titi recuou, enojada. Credo, Vicência! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no cabelo! Assustado, com o beicinho já a tremer, ergui os olhos para ela, murmurei: sim, Titi.
Então o Matias gabou o meu génio, o meu propósito na liteira, a limpeza com que eu comia a minha sopa à mesa das estalagens. Está bem, rosnou a Titi secamente. Era o que faltava, portar-se mal, sabendo o que eu faço por ele... Vá, Vicência, leve-o lá para dentro..., lave-lhe essa ramela; veja se ele sabe fazer o sinal da cruz... O Matias deu-me dous beijos repenicados. A Vicência levou-me para a cozinha. À noite vestiram-me o meu fato de veludilho; e a Vicência, séria, de avental lavado, trouxe-me pela mão a uma sala em que pendiam cortinas de damasco escarlate, e os pés das mesas eram dourados como as colunas de um altar. A Titi estava sentada no meio do canapé, vestida de seda preta, toucada de rendas pretas, com os dedos resplandecentes de anéis. Ao lado, em cadeiras também douradas, conversavam dous eclesiásticos. Um, risonho e nédio, de cabelinho encaracolado e já branco, abriu os braços para mim, paternalmente. O outro, moreno e triste, rosnou só boas noites. E da mesa, onde folheava um grande livro de estampas, um homenzinho, de cara rapada e colarinhos enormes, cumprimentou, atarantado, deixando escorregar a luneta do nariz.
Cada um deles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava Tedrico. O outro, amorável, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que separasse as sílabas e dissesse Te-o-do-ri-co. Depois acharam-me parecido com a mamã, nos olhos. A Titi suspirou, deu louvores a Nosso Senhor de que eu não tinha nada do Raposo. E o sujeito de grandes colarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e timidamente quis saber se eu trazia saudades de Viana. Eu murmurei, atordoado: sim, Titi. Então o padre mais idoso e nédio chegou-me para os joelhos, recomendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa, sempre obediente à Titi... O Teodorico não tem ninguém senão a Titi... É necessário dizer sempre que sim à Titi... Eu repeti, encolhido: sim, Titi. A Titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da boca. Depois disse-me que voltasse para a cozinha, para a Vicência, sempre a seguir pelo corredor... E quando passar pelo oratório, onde está a luz e a cortina verde, ajoelhe, faça o seu sinalzinho da cruz...
Não fiz o sinal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratório da Titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de seda roxa, com painéis enternecedores em caixilhos floridos, contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar roçavam o chão tapetado; os santos de marfim e de madeira, com auréolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camélias vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas nobres de prata, encostadas à parede, em repouso, como broquéis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia. Cheguei-me devagar até junto da almofada de veludo verde, pousada diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da Titi. Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei pensando que no céu os anjos, os santos, Nossa Senhora e o Pai de todos, deviam ser assim, de ouro, cravejados talvez de pedras; o seu brilho formava a luz do dia; e as estrelas eram os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo através dos véus negros, em que os embrulhava à noite, para dormirem, o carinho beato dos homens. Depois do chá, a Vicência foi-me deitar numa alcovinha pegada ao seu quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mãos, e ergueu-me a face para o céu. E ditou os Padre-Nossos que me cumpria rezar pela saúde da Titi, pelo repouso da mamã, e por alma de um comendador que fora muito bom, muito santo e muito rico o que se chamava Godinho.
Apenas completei nove anos, a Titi mandou fazer camisas, um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colégio dos Isidoros, então em Santa Isabel. Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz, Crispim, mais crescido que eu, filho da firma Teles, Crispim & Cia. Donos da fábrica de fiação à Pampulha. O Crispim ajudava à missa aos domingos; e, de joelhos, com os seus cabelos compridos e louros, lembrava a suavidade de um anjo. Às vezes agarrava-me no corredor e marcava-me a face, que eu tinha feminina e macia, com beijos devoradores; à noite, na sala de estudo, à mesa onde folheávamos os sonolentos dicionários, passava-me bilhetinhos a lápis chamando-me seu idolatrado e prometendo-me caixinhas de penas de aço... À quinta-feira era o desagradável dia de lavarmos os pés. E três vezes por semana o sebento padre Soares vinha, de palito na boca, interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor. Ora, depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de Caifás... Olá, o da pontinha do banco, quem era Caifás?... Emende! Emende adiante!... Também não! Irra, cabeçudos! Era um judeu e dos piores... Ora diz que, lá num sítio muito feio da Judeia, há uma árvore toda de espinhos, que é mesmo de arrepiar... A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e de estalo, fechávamos a cartilha». In Eça de Queirós, A Relíquia, 1887, Typographia de A. J. da Silva Teixeira, Porto, 1887, Editora Livros do Brasil, Obras de Eça de Queirós, 2011, ISBN 978-989-711-008-5.

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