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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «… que ele mesmo teve o cuidado de lhes transmitir, um Deus que tem cóleras ou ternuras no seu trato com a humanidade, um Deus sentimental, humanizado, intervindo na História dos humanos»

jdact

Aleph
«(…) Só o silêncio desnudo e desvinculado de qualquer estratagema artístico me permitiria homenagear uma força que chamo Deus e cuja grandeza inimaginável tento vagamente imaginar sabendo que apenas o meu silêncio pode render homenagem digna a uma força que eu mesmo conceberia como demasiado poderosa para poder ser vista em todo o seu esplendor imenso, como se fosse uma única areia do deserto que tentasse imaginar como seria o céu constelado que cobre o universo visível. Só o silêncio atemorizado, à maneira daquele que Pascal angustiadamente sentia, esse silêncio eterno dos espaços infinitos e tácitos, me pode socorrer para imaginar o que Deus possa ser: algo que só pelo meu absoluto e resignado silêncio posso respeitar e temer na sua suposta grandeza excessiva. Calar-me, em suma, seria a forma suprema de imaginar aquilo que excessivamente me ultrapassa e a que talvez eu pudesse dar o nome cómodo, ou convencional, de divino. Mas nada disto me aproximaria um milímetro daquilo que concebo como podendo ser a infinitude de um ser chamado Deus, uma vez que apenas me dispensaria de ter uma ideia antropomorfizada do conceito de Deus, tornando-lhe, ainda assim, incapaz de conceber a sua luminosa treva sem fundo.

Beth
Nunca entendi como é que se pode querer, ou intentar querer, provar Deus, demonstrá-lo. Há mesmo qualquer coisa de absurdo e fátuo nesse intento, como se ele fosse uma paródia da divindade que se quer mostrar como demonstrada ou demonstranda. Como é que algo tão transcendente pode ser demonstrado como se fosse o teorema de Fermat ou ainda qualquer outro enigma matemático ou lógico ou de qualquer outra natureza afim? Falar de Deus é, desde logo, verbiagem frívola, acto de loucura atrevida, desfaçatez da razão humana: porque é que durante séculos de fez teologia em vez de se ter ficado calado, humildemente calado diante de tamanho mistério incompreensível, desse mysterium tremendum e sem solução possível que era poder haver ou dever haver uma entidade transcendente anterior ao tempo, fundadora do tempo, actuante no tempo e, apesar disso, intemporal? Só a teologia negativa medieval ousou intentar um caminho diferente para Deus, atrevendo-se a dizê-lo impossível de ser nomeado, descrito, explicado, demonstrado, etc. Mas essa via negativa da teologia ficou-se pelo caminho, subsumiu-se na corrente da teologia positiva, mesmo quando alimentava subterrâneos veios místicos heterodoxos, não tendo decisiva sequência no pensamento cristão ocidental, ainda que todo ele tivesse sido marcado pela sua influência seminal, estabelecendo-se como prólogo de outras aventuras místicas mais intrépidas, mais fundas, a dois passos da heresia.
O mistério de Deus, e da sua improvável relação com as suas criaturas, devia ter sido sempre tomado como mistério, apenas como mistério, portanto de todo em todo insusceptível de demonstração ou prova alguma, filosófica, racional, teológica ou científica. A única prova de Deus só poderia ser fornecida pelo próprio Deus, comparecendo diante de nós e, ante nossos olhos mortais, varando-nos com a sua terrível presença, agindo de modo que o entendêssemos, ouvíssemos e víssemos, ou seja, de maneira que os nossos sentidos e a nossa pobre razão não tivesse outra solução a não ser a de aceitar a prova provada de um Deus que assim se abaixaria a provar-nos que é. No fundo, as duas grandes religiões do Livro optaram por um Deus pessoal, que se personaliza e antropomorfiza, que convive com os homens por ele criados, que intercede junto deles, se intromete nos seus negócios temporais e amorosos, lhes barra o caminho ou, ao contrário, propõe rotas para a salvação, lhes abre o mar para que passem, lhes dá as tábuas da sua Lei ou fulmina-os quando estes desobedecem a ditames que ele mesmo teve o cuidado de lhes transmitir, um Deus que tem cóleras ou ternuras no seu trato com a humanidade, um Deus sentimental, humanizado, intervindo na História dos humanos. Em suma, estamos diante de um Deus que se faz humano, sobretudo no cristianismo, a ponto de baixar à terra numa dada época da História humana, para se misturar com os homens e por estes ser crucificado. Ou um Deus que, em pleno século oitocentista, vindo do desaguar das Luzes, se digna convocar o Príncipe das Trevas para lhe perguntar como vai e se pode participar num repto lançado a um sábio germânico, já que é assim que pode ser entendido o Prolog im Himmel do Fausto de Goethe, ainda que coubesse a Mefistófeles garantir que não lhe interessam nem o mundo nem os sóis mas tão só como os homens se atormentam, prólogo no céu, do Fausto…» In João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

domingo, 6 de julho de 2014

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «… aquilo que excede todo o pensamento e que habita para além das alturas da morada celestial (...) Aquele que está acima de toda a essência e toda a inteligência…»

Cortesia de wikipedia

Aleph
«(…) Contudo, ao escrever e pensar estas limitações ao acesso do divino pela mente humana, não estarei, afinal, a imaginar Deus, a postulá-lo com uma hipótese ou uma premissa garantida? Creio que não. Limito-me, sim, a conceber que Deus é uma entidade desde logo inconcebível, porque, se existisse, ultrapassaria tudo quanto a nossa pobre mente seria capaz de pensar dele: inconcebivelmente vasto, complexo, misterioso, transcendente, inacessível, inatingível, incompreensível, etc. Só recorrendo ao quia absurdum seria o meu espírito capaz de o aceitar como graniticamente existente e susceptível de ser conhecido. Não intento sequer aproximar-me desse deserto imenso e interminável que seria Deus ou desse mar profundo e infinito sem margens finais em lado nenhum do espaço universal que seria, assim, a sua imensidão inexaurível, a sua prodigiosa e derrotante grandeza sem quaisquer termos ou fronteiras ou limites.
Por isso, à maneira da teologia negativa da Idade Média, desde o corpus areopagiticum do chamado pseudo-Dionísio (século VI d.C.), que imprimiu um selo platónico a toda a escolástica e mística da Idade Média, fascinando todo o seu pensamento, o pseudo-Dionísio definia Deus como extra-ser, aquilo que excede todo o pensamento e que habita para além das alturas da morada celestial (...) Aquele que está acima de toda a essência e toda a inteligência (De mysthica Theologia), só posso conceber a minha própria incapacidade de o conceptualizar e abarcar, a minha nativa e insuperável inabilidade para imaginar o que Deus possa ser ou como possa ser, definindo-o negativamente. Nenhum voo vertical me levantaria, assim, do chão miserável onde rasteja o meu espírito, como a serpente bíblica condenada por Deus por ter auxiliado Adão e Eva a julgarem pelos próprios intelectos. Deus fica sempre para além de tudo quanto eu possa imaginar ou intentar racionalmente exprimir, a menos que desde logo o decretasse como cognoscível, ser a amar, ser amado, e nessa medida susceptível de ser atingido pelo meu caminho persistente para ele ou de algum modo erguido até ele pelo próprio amor que ele me tivesse, à maneira de todos os utopistas individuais que se chamam místicos, viajantes temerários que buscam tão ardentemente uma incógnita terra buscada e sonhada, a qual, mesmo que não existisse, Deus a criaria para que a achassem algum dia.
Crer em Deus supõe, ao fim e ao cabo, a graça de crer nele, a vontade que é só dele de se fazer amado por mim, a graça que ele me desse para que eu o amasse, o pudesse ou quisesse amar. Só com a sua ajuda, portanto , a minha alma poderia achá-lo ou concebe-lo, o que é, evidentemente, absurdo para quem não parta de um pressuposto de crença prévia nele, como é o nosso caso. Como é que eu posso imaginar esse espantoso ser inimaginável, a menos que previamente me sinta dotado da capacidade, ou do mérito, de por ele ser encaminhado, ou erguido, para a sua esfera transcendente, ou capaz de anular a infinita distância que me separa do seu trono pela simples presença de uma vontade que, no fundo, me anula e supera, de molde a encurtar essa infinidade espacial que me separa de Deus e, deste modo, tornar possível o meu caminho para ele? Simone Weil, ardente enamorada de Cristo, supunha que o ser humano é uma flor que Deus se abaixa a colher porque só ele é capaz do infinito amor que tal gesto de humildade implica. A vinda do seu filho à terra e o seu sacrifício eram uma prova suprema deste mesmo amor desta infinita humildade dadivosa e sacrifical do amor de Deus pelos homens, deste sacrifício por nós. Mas como posso aceitar esta postura, se não creio em Deus nem no seu filho feito homem?
Que fazer então, em relação a uma realidade tão vasta que não se deixa conceptualizar pela mente humana sem o auxílio do próprio divino, a menos que ela mesma se digne auxiliar esse pobre e grotesco instrumento de medida com o qual se intenta medir o incomensurável? O registo poético permite-me, talvez, superar distâncias infindas, imaginando tropos que me ajudariam a esboçar o que Deus possa ser. O que, desde logo, me parece ser um recurso de astúcia artística que pode satisfazer um esteta mas não a alma que buscasse uma certeza íntima e satisfatória, ou seja, artifício que não passa afinal de uma vaidade ridícula de substituir a questão da transcendência divina pelo mero sortilégio do violino quebrado que, afinal, toda a arte dos homens é. Não há maneira de escapar a esta aporia: se Deus não me ajudasse a pensá-lo e a chegar até ele, eu seria incapaz de o pensar e de chegar até ele, mesmo que andasse séculos e subisse verticalmente de avião em direcção aos céus. Tal hipótese suporia que Deus se interessasse desde logo pela minha patética busca dele, o que não passaria de uma maneira inaceitável de erguer o meu pobre Ego miseravelmente pequeno de humano a dimensões de vertigem: o que é que me pode tornar digno de ser amado e acolhido pelo amor de DeusIn João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «Mesmo que andássemos ao longo de séculos, não faríamos mais do que andar à volta da terra. Mesmo de avião, não faríamos outra coisa. Não nos é possível avançar verticalmente»

Cortesia de wikipedia e jdact

Aleph
«(…) A impensabilidade de Deus, a impensabilidade de tudo quanto seja divino: Deus não pode ser pensado por nós, mesmo que ele nos tivesse criado. A magnitude abissal do que ele seria, se fosse, basta para não o tentarmos pensar, mesmo com metáforas e linguagem poética. Deus é sempre demasiado: demasiado grande, demasiado complexo, demasiado incompreensível, demasido misterioso, etc., para a nossa mente, limitada para a vertiginosa pequenez do ser humano, mortal e vão. A nossa mente não pode conceber o ilimitamente ilimitado que seria Deus, só o podemos imaginar vagamente, como quem passeia à beira de um oceano cujos exactos limites nem a nossa vista nem a nossa imaginação logram conceber na sua extensão total. Imaginá-lo na sua infinita extensão e grandeza relevaria de uma espécie de aposta, diferente daquela que imaginou Pascal, mas com igual sentido de tentar acertar por palpite, intento desde logo vão e nada seguro. Pensar Deus é, deste modo, um absurdo: só podemos imaginar vagamente, por exemplo, o que possa ser o Infinito ou a Eternidade ou o Tempo sem limites ou a simples morte.
Deus fica sempre para além de, para além de toda a nossa possibilidade conceptual ou mesmo imaginativa ou artística, humana, meramente humana, porque finita, vulnerável, incerta, limitada, de o conceber, de falar dele, de indicar as suas eventuais propriedades, dimensões, capacidades, etc. Deus é um absoluto absolutamente insusceptível de ser pensado, apreendido pelo nosso cogito. Mesmo almas tão crentes e ousadamente cristãs como a de Simone Weil não hesitaram em observar esse fenómeno de inacessibilidade da esfera do divino: … a infinidade do espaço e do tempo separa-nos de Deus. Como o procurarmos? Como irmos até ele? Mesmo que andássemos ao longo de séculos, não faríamos mais do que andar à volta da terra. Mesmo de avião, não faríamos outra coisa. Não nos é possível avançar verticalmente. Não podemos dar um passo em direcção aos céus. (Pensées sans ordre concernant l'amour de Dieu, 1942).
A mística francesa, saída de um judaísmo que nunca chegara a conhecer, caminhando em plena tormenta dos anos negros da ocupação e da barbárie nazi em direcção a um Cristo que ela amava com a paixão fervorosa de quem se converte a um ideal extremo e inevitável, com a mesma dolorosa e dadivosa vontade que a fizera bater-se pelos republicanos espanhóis, acrescentava, logo a seguir ao texto acabado de citar, que essa infinidade de espaço podia ser superada pelo amor de Deus: … para além da infinidade do espaço e do tempo, o amor infinitamente mais infinito de Deus vem-nos colher. Ele vem na sua hora. Semelhante asserção parte de um postulado místico apriorístico, o de que Deus ama quem o busca e quem quer por ele ser encontrado, cabendo-nos tão só acertar ou recusar essa socilitude do próprio divino: Deus ama-nos e vem buscar-nos movido por esse amor infinito por nós. Petição de princípio de raiz crente, que nada adianta para quem, como nós, não parte de semelhante premissa, de qualquer amor prévio e consentidor por parte do próprio Deus, não aceitando que Deus queira ser amado e procurado, antes duvida que a infinidade do espaço entre a alma humana e Deus alguma vez possa ser transposta, não fazendo sentido que seja Deus a tomar a iniciativa de ultrapassar essa distância. Muito ao invés da postura crente dessa alma esfolada que era Simone, a nossa atitude é de que, de facto, nunca faríamos mais do que andar à roda da terra se tentássemos ascender em direcção a Deus, até porque Deus é, desde logo, insusceptível de ser pensado ou abarcado pela nossa mente ou explicado, descrito ou sequer referido pela indigente palavra humana». In João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, Aleph,seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

segunda-feira, 30 de junho de 2014

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «Ao nosso camarada Belino este pequeno livro-recordação em que escreverá as datas memoráveis da nossa luta depois da formação em Eysses da nossa Amicale das B.I.»

Emílio Pereira foi deportado para o campo de Buchenwald, como atesta a sua ficha de prisioneiro
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«(…) Apesar de toda esta informação, Luiz continuava a ser apenas um conjunto de dados inseridos pelos nazis em documentos oficiais. Mas a Revista 2 encontrou, nos livros de baptismo do distrito de Braga, o registo no qual o padre Joaquim Rodrigues da Silva certificava ter baptizado solenemente, na igreja de S. Paio de Figueiredo, em Guimarães, um menino chamado Luiz, que nascera naquela freguesia às oito horas da manhã do dia dezoito do mês de Outubro do ano de mil novecentos e dois, filho legítimo de Lourenço Ferreira Martins, jornaleiro, natural desta freguesia e de Joanna de Oliveira, tendeira de cotim e natural da freguesia de S. Martinho de Leitões, deste concelho de Guimarães. Luiz nasceu nove meses depois de os pais terem protagonizado o primeiro casamento do ano em Figueiredo, a 9 de Janeiro de 1902, e haveria de ser o mais velho dos seis filhos do casal. O pai especializou-se como funileiro e viu a vida melhorar, fazendo vários acrescentos à casa que entretanto adquiriu em Airão, Santa Maria, para onde a família se mudou. Hoje, a velha casa ainda existe, em ruínas, abandonada às silvas, e há pelo menos uma sobrinha de Luiz, filha da sua irmã mais nova, Ana da Glória, que continua a morar em Airão. Mas é em Joane, Vila Nova de Famalicão, que encontramos Amélia Martins, a sobrinha favorita de Luiz, com 62 anos e uma colecção de memórias do tio. Amélia foi quem mais se aproximou do tio, quando ele, comunista, regressou ao religioso e conservador Minho do pré-25 de Abril. Nos anos seguintes, Amélia nunca parou de trocar correspondência com ele, de o visitar em França e até de o acompanhar em eventos do Partido Comunista francês. Quando morreu, foi a Amélia que Luiz confiou a responsabilidade de cumprir os seus desejos. E é ela quem guarda os seus livros relacionados com a II Guerra Mundial.
Amélia recebe-nos com essa pilha de livros e também com um álbum de fotografias do tio, dedicado a este conflito e à Guerra Civil de Espanha. Entre os volumes que Amélia trouxe de casa de Luiz, em Lyon, depois da morte deste, aos 89 anos, há um livro chamado La Déportation, feito pela Fédération Nationale des Déportés et Internés Résistants et Patriotes, que contém a inscrição, em francês: Impresso especialmente para Louis Ferrera Martins Deportado em Buchenwald. Neste livro, Luiz introduziu folhas pautadas, escritas à mão e dirigidas a Amélia, com o objectivo de a ajudar a compreender melhor as imagens a preto e branco que ocupam quase todas as páginas. Estas pequenas notas, cheias dos erros naturais de quem pouco fora à escola e abandonara o país há décadas, são um documento precioso para preencher as lacunas deixadas pelos documentos nazis e pelas memórias de Amélia. O meu tio foi uma pessoa que cumpriu bem a vida, porque entendeu tudo muito bem, apesar de todo o sofrimento. Cumpriu o papel dele no mundo. Penso que não era daquelas pessoas que chega ao fim e diz: a minha vida foi uma perda de tempo. Ele não podia dizer isso. Ele tinha a ideia de que tinha feito tudo o que podia, conta Amélia, enquanto vai correndo os olhos e os dedos pelas fotografias espalhadas pela mesa.
Segundo Amélia, o filho mais velho de Lourenço e Joana chegou a estar emigrado com o pai em Inglaterra e em França, antes de um desentendimento entre ambos o ter levado a permanecer neste país. Acho que o meu tio tinha algumas queixas do meu avô, já quando trabalhavam aqui, e lá as dificuldades acentuaram-se. Acabou por deixar o pai e desaparecer, já com vinte e tal anos. O meu avô teve de regressar sozinho, que ele nunca mais deu notícias. A minha avó perguntava, queria saber do filho, e o meu avô dizia o rapaz fugiu. Nada a fazer, conta. Os pais de Luiz haveriam de morrer, ela com 83 anos e ele com 95, sem terem mais notícias do filho. Sem fazerem a mínima ideia se estava morto ou vivo e, muito menos, que passara quase cinco anos em prisões francesas e em campos de concentração nazis.
Luiz começou a sua vida em França, sozinho, não se sabe exactamente em que ano, mas em 1932, conforme escreveu numa das notas deixadas à sobrinha, já militava no Partido Comunista Francês. Foi sindicalista até morrer, em 1991. Em 1936, partiu como voluntário para a Guerra Civil de Espanha e por lá ficou até 1938, usando o nome de código Simon. Nas notas que deixou a Amélia, uma foi colocada junto à fotografia do Coronel Fabien (Pierre Georges), morto em 1944 na frente da Alsácia, com a indicação: Foi combatente comigo na 12.ª Brigada (Madrid 1938). Luiz integrou o Batalhão André Marty, liderado pelo comunista Fernand Belino e, quando ambos estavam já detidos na Prisão Central de Eysses, em França, o português é um dos prisioneiros que lhe oferece, a 7 de Novembro de 1943, um caderno, ostentando na capa um desenho de um voluntário das Brigadas Internacionais e um texto (com a assinatura, entre outras, de Luiz Ferreira) em que se pode ler: Ao nosso camarada Belino este pequeno livro-recordação em que escreverá as datas memoráveis da nossa luta depois da formação em Eysses da nossa Amicale das B.I.; como testemunho da nossa fraternidade e dos serviços que ele prestou como oficial do Batalhão André Marty. Nas notas manuscritas inseridas no livro La Déportation, Luiz refere: Desde 1940 a Resistência se organiza. Eu fui apanhado a 15 de Outubro de 1940. Outros seguiram o mesmo combate. Junto a uma fotografia da Prisão Central de Eysses, o português escreveu: Foi uma das minhas várias cadeias em França, antes de ser deportado [para] Buchenwald». In Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «Além da morada de Michael, o documento indica que ele morreu às 15h20 do dia 24 de Julho de 1942, menos de um mês depois de chegar ao campo que, por esta altura, já se expandira para os terrenos em Birkenau e se tornara numa verdadeira máquina organizada de matar»

Luiz Ferreira numa fotografia da colecção familiar
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«(…) Apesar de a deportação e morte de Michael em Auschwitz ser algo de que Alberto se recorda de ouvir falar desde criança, não sabe precisar quando é que o primo emigrou para França, nem se se casou, se teve filhos ou em que condições é que foi preso. A neta de Raquel lembra-se de a avó contar que o irmão casara e que fora denunciado aos alemães por um cunhado francês. Alberto diz que essa é uma história que também já ouviu, mas que nunca foi confirmada. Pode ter acontecido que, à semelhança de outros passageiros do comboio n.º 813, Michael Fresco tenha respondido voluntariamente à convocatória para apresentação às autoridades feita a todos os judeus estrangeiros residentes em França, a 14 de Maio de 1941, pelo regime de Vichy, e que ficaria conhecida como a rafle du billet vert. Do que não há dúvidas é que Michael Fresco residia no Quai d’Orléans, n.º 11, em Nantes, antes de ser detido. Os nazis eram meticulosos nos registos que faziam dos prisioneiros e o certificado que atesta a morte do português em Auschwitz escapou à destruição organizada de todos os registos, pelos alemães, nos últimos meses da guerra. Além da morada de Michael, o documento indica que ele morreu às 15h20 do dia 24 de Julho de 1942, menos de um mês depois de chegar ao campo que, por esta altura, já se expandira para os terrenos em Birkenau e se tornara numa verdadeira máquina organizada de matar. Para aqueles que não eram imediatamente seleccionados para as câmaras de gás, a esperança de vida era de poucos meses, Graças ao trabalho escravo que eram obrigados a suportar, à subnutrição ou às experiências médicas ali desenvolvidas.
No caso de Michael, a causa de morte apontada pelos nazis é hidropisia cardíaca. Rebecca Boehing, directora do International Tracing Service (ITS), na Alemanha, avisa que estas certidões de óbito devem ser olhadas com reserva. Muitos dos nossos documentos foram criados pelas autoridades nazis, por isso se os nazis dizem: o seu avô morreu de um ataque cardíaco, numa situação normal… Bom, não havia nada de normal em estar num campo de concentração, por isso é preciso contextualizar. Talvez tenha havido um ataque cardíaco, mas o que se passou? Que esforço foi feito antes?, questiona. Esta norte-americana, historiadora na Universidade de Maryland, Baltimore County, dirige o ITS desde Janeiro de 2013. Criado ainda antes do final da guerra, em 1943, pelos Aliados, o ITS congrega toda a documentação relativa aos campos de concentração. Estão ali fichas de nomes, listas de entrada ou de transferência dos campos, os Livros dos Mortos, em que se registavam as vítimas, as fichas de avaliação médica e as relações dos bens que os prisioneiros transportavam, cartões de identificação e, até, listas de pessoas com piolhos em determinado campo, que pormenorizam quantos piolhos foram encontrados em cada uma no dia em causa (os piolhos eram os principais transmissores de tifo, uma das doenças que mais assolaram os campos de concentração).
O ITS guarda cerca de 30 milhões de documentos relativos aos prisioneiros dos campos, aos homens e mulheres submetidos a trabalhos forçados durante o regime nazi e aos sobreviventes, que passaram pelos chamados Campos de Deslocados. Em Outubro de 2013, os seus arquivos foram classificados pela UNESCO como Memória do Mundo, pelo valor excepcional e importância para a humanidade, pelo seu contributo para o conhecimento do impacto da guerra nas pessoas. Apesar da sua longa existência, o ITS só se abriu ao público em 2007. Até aí, apenas as vítimas directas do nazismo ou os seus familiares podiam aceder à informação guardada em três edifícios na pequena cidade no centro da Alemanha, Bad Arolsen. A digitalização de um elevado número de documentos e o alargamento dos objectivos do ITS, que passaram a incluir o acesso à pesquisa académica ou jornalística, disponibilizaram um manancial de informação de um valor inestimável. Permitiu, por exemplo, que se tornasse muito fácil responder a uma pergunta que até há pouco tempo não se fazia: houve portugueses nos campos de concentração?

Campo de Auschwitz II. Luiz, o militante
Nos arquivos do ITS os dados sobre Luiz Ferreira são abundantes. Só com a leitura dos documentos produzidos pelo regime de Adolf Hitler fica-se a saber que Luiz nasceu a 18 de Outubro de 1902, em Braga, Província do Minho. Que os seus pais se chamavam Lourenço (Laurent é a forma como aparece escrito nas fichas) e Joana Ferreira (Jeanine, de acordo com os documentos alemães), nascida Oliveira. Descobre-se também que Luiz foi internado no campo de concentração de Buchenwald como prisioneiro político, com o número 69369, e que era solteiro e sem filhos. As características físicas do português, anotadas na sua ficha do campo, indicam que media 1,58 metros, pesava 61 quilos, era louro, esguio, de olhos castanhos e não tinha todos os dentes. Além disso, falava francês, português e espanhol. Já a ficha médica indica que ele tivera um acidente em 1925, que lhe deixara a mão esquerda danificada e que, em 1937, sofrera uma fractura na parte inferior da coxa direita, classificada como ferimento de guerra, o que apontava para a sua presença na Guerra Civil de Espanha (1936-1939). O nome de Luiz Ferreira aparece ainda numa lista de oito sobreviventes portugueses do campo de Buchenwald, feita pelos Aliados após a libertação». In
Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

domingo, 29 de junho de 2014

A História Nunca Contada dos Portugueses nos Campos de Concentração. Patrícia Carvalho. «O comboio partiu às 6h15mim. Era o dia 25 de Junho de 1942 e no seu interior apinhavam-se mil homens. “Todos judeus”. Tinham passado os últimos meses no campo de internamento de Pithiviers, a 87 quilómetros a Sul de Paris, mas agora chegara a ordem de partida»

Certificado de morte de Michael Fresco, em Auschwitz
Cortesia de nelsongarrido

Com a devida vénia ao jornal diário Público

«A pergunta surgiu depois de uma visita a Auschwitz: seria possível que, de todos os prisioneiros que por ali passaram, de tantos países, nenhum fosse português? Em 2013, fomos à procura da resposta. Durante nove meses, vasculhámos arquivos, analisámos listas de transporte e registos de baptismo, percorremos Portugal e visitámos campos de concentração, bases de dados e familiares de vítimas em França, Alemanha e Polónia. A resposta está dada: houve muitos portugueses enviados para os campos de concentração nazis. O comboio partiu às 6h15mim. Era o dia 25 de Junho de 1942 e no seu interior apinhavam-se mil homens. Todos judeus. Tinham passado os últimos meses no campo de internamento de Pithiviers, a 87 quilómetros a Sul de Paris, mas agora chegara a ordem de partida. O destino, desconhecido para os passageiros do comboio n.º 813, era o campo de concentração de Auschwitz, na Polónia. A bordo ia Michael Fresco, um judeu português, nascido em Lisboa, a 15 de Setembro de 1911. Enquanto Michael era deportado para Auschwitz, Luiz Ferreira, um funileiro da região de Guimarães, emigrado em Lyon, já tinha sido apanhado pelo regime colaboracionista francês, por causa da sua filiação no Partido Comunista e da acção clandestina contra os ocupantes nazis. Maria Barbosa, natural de Ponte de Lima e também emigrada em Lyon, estava longe de saber que, dois anos mais tarde, em 1944, estaria a iniciar a sua viagem em direcção ao campo de concentração de Ravensbrück. Já Casimiro Martins, um algarvio que partira para os Pirenéus franceses, para se juntar a um irmão e trabalhar na construção civil, não podia ainda imaginar que dali a dois anos e meio seria uma das vítimas mortais do campo de concentração de Neuengamme. Portugal manteve a neutralidade durante a guerra que devastou a Europa entre 1939 e 1945, mas os portugueses não saíram incólumes do conflito. Dezenas foram transportados para os campos de concentração e alguns morreram lá. Um destino ignorado pelo seu país, esquecido por membros das suas famílias, desconhecido dos portugueses. Quase 70 anos depois do fim da guerra, as suas histórias são, finalmente, contadas.
Michael Fresco morreu com 30 anos, apenas por ser judeu. O Michael Strogoff, alcunha pela qual era carinhosamente tratado em família, nas tardes de reunião que os Fresco gostavam de partilhar com os primos, em Lisboa, abandonara Portugal para se instalar na cidade francesa de Nantes, como comerciante. Foi aí que o seu futuro foi definitivamente interrompido. Para trás, deixava uma vida lisboeta que parece doce e alegre, nas palavras dos descendentes da família. Alberto Fresco, 65 anos, filho de uma prima de Michael, nunca conheceu este parente distante, mas lembra-se de ouvir a mãe, Rebeca, falar dele. A família juntava-se toda e havia grandes brincadeiras. A minha mãe contava que o Michael era uma pessoa muito extrovertida, muito jovial, de tal modo que ele tinha uma alcunha, um petit nom entre os membros da família. Era conhecido como o Michael Strogoff. Estava-se numa época em que os livros do Júlio Verne eram muito apreciados e eu lembro-me sempre de ouvir falar do Michael como sendo o Michael Strogoff, o correio do czar. Uma sobrinha-neta de Michael, que prefere não ser identificada, também se lembra bem de ouvir a avó, Raquel, falar do irmão perdido na guerra. Eu adorava que a minha avó contasse histórias de família e ela falava muitas vezes do Michael, com grande tristeza. Contava como tinha sido deportado e morrera em vagões de gado, diz. A Comunidade Israelita de Lisboa ainda guarda o Termo de Nascimento de Michael Joseph Fresco, um dos seis filhos de Nissim e Sultana Fresco, dois judeus turcos de Constantinopla que se haviam fixado em Lisboa, no final do século XIX. Dos seis irmãos, Alberto, Miriam, Rebeca (que haveria de mudar o nome para Raquel depois de casar com um português de uma família profundamente católica), Vitória, Michael e Ventura, Michael é o único cuja morte nos campos de concentração nazis está confirmada». In Patrícia Carvalho (texto) e Nelson Garrido (fotografias), jornal Público, Junho 2014.

Cortesia de O Público/JDACT

quarta-feira, 11 de junho de 2014

O Mundo em que Vivi. Memórias. Ilse Losa. «A dela era toda de linho caseiro e, portanto, são só bonita como também resistente, o que levava a avó a profetizar que eu, depois de crescida e já dona de casa, ainda me deleitaria com os lençóis de entremeios feitos à mão»

jdact

«O meu avô, homem alto e magro, de cara larga, ossuda e um tanto avermelhada, olhos claros e quase sempre tristes, tinha o costume de levantar as sobrancelhas espessas quando dizia alguma coisa importante. Isso impressionava-me; achava bonito, talvez extravagante e por isso mais me desgostava ver-lhe as pingas de sopa presas no grande bigode pendente pare cada lado da boca. Não ligava com ele, sempre apurado e cheio de brio, que penteava o seu cabelo grisalho, muito farto, com o máximo cuidado. Limpa a boca, avô, dizia eu. Ora, ora, respondia ele. A avó contrastava com a figura esguia e imponente do avô. Era baixa, multo baixa mesmo, tinha uma cara miúda, cheia de rugas, e puxava o cabelo branco para cima da cabeça onde o juntava num, puxozinho redondo apertado. Se tivesse vivido na Península e sido pobre, não teria necessitado da rodilha para transportar carretos na cabeça. Usava sempre vestidos escuros que cobria, em casa, com um avental da cor da cinza.
Eu, a julgar pelas velhas fotografias, não passava duma menina frágil, de cabelo loiro. Nas feições lisas, infantis, retocadas pelo fotógrafo da aldeia, não descubro mais nada que valha a pena destacar. Vivíamos os três numa pequena casa com a varanda deitada sobre a rua e coberta com vides. Ali minha avó passava as tardes de Verão a fazer meia ou a costurar. Ao certo não me recordo se ela costurava, mas suponho que o fazia, pois não me lembro de nenhuma costureira que lhe tivesse feito esse serviço. Seja como for: que fazia meia nunca o poderei esquecer. Vejo-a sentada na cadeira de espaldar, as agulhas a baterem rapidamente, enquanto observava o que se ia passando na rua. Tão treinada estava em fazer meia que nem precisava de olhar. Aliás, as meias eram infalivelmente pretas, fossem para ela própria, para o avô ou para mim. Por isso eu, apesar de tão pequena ainda, tinha de andar sempre de meias pretas. Isso causava-lhe desgosto porque nenhuma das crianças com quem convivia usava meias pretas e eu queria ser igual a elas. Cheguei a falar à avó nesse meu desgosto, mas ela repreendeu-me: - Não digas tolices, Rose. Se as outras crianças não usam meias pretas é porque as mães-delas não sabem ser práticas e económicas. Eis duas palavras que, cedo, aprendi a detestar: prático e económico.
Da varanda entrava-se, por uma porta alta e escura, para o corredor estreito e comprido, género funil. Das duas grandes plantas, em vasos pintados de roxo, a cada lado dessa porta, ficou-me gravado, na memória o seu cheiro triste, quase fúnebre. Talvez elas tivessem esse cheiro por nunca darem flores ou por as suas folhas fininhas serem tão profundamente escuras. Mas é difícil adivinhar quais os sentimentos e as reacções íntimas das plantas. O armário enorme, encostado à parede, também se me gravou na memória. Dum castanho tão brilhante como um espelho, e tão imponente, pelo seu tamanho, chegava a ser misterioso. Só a avó lá podia mexer. Abria-o com uma das chaves que trazia, num molho; no bolso do avental. Por vezes, chamava-me para me mostrar aquilo que considerava a coisa mais preciosa duma dona de casa: a roupa branca. A dela era toda de linho caseiro e, portanto, são só bonita como também resistente, o que levava a avó a profetizar que eu, depois de crescida e já dona de casa, ainda me deleitaria com os lençóis de entremeios feitos à mão, das toalhas, toalhinhas, guardanapos, toalhas de rosto e de cozinha. Eu fazia um esforço para conseguir apreciar toda aquela brancura, mas o único encanto que lhe conseguia encontrar era o cheiro. É que minha avó costumava encher saquinhos com alfazema e metê-los por entre as peças de roupa, que cheiravam a campos e relvados floridos». In Ilse Losa, O Mundo em que Vivi, Portugália Editora, Lisboa, Memórias, 1964.

Cortesia Portugália/JDACT

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Em Auschwitz. O Silêncio de Deus. João Medina. «A estada de alguns foi muito breve. Outros permaneceram meses e até anos. Alguns acabaram mesmo por se radicar na nossa terra, beneficiando das condições de acolhimento e de hospitalidade que o estatuto neutral do país durante a guerra favoreceu»

Cortesia de wikipedia

Para que Nunca Mais
«O Holocausto, expressão habitualmente utilizada para referir o que os judeus designam por Shoah, continua a ser a ferida mais teimosamente aberta na memória do conturbado século XX. A crueldade indescritível do aparelho de extermínio nazi provocou a morte a mais de seis milhões de pessoas em campos de concentração espalhados por vários países da Europa Central, designadamente a Alemanha, a Polónia e a Checoslováquia. Esses campos de horror foram a trágica etapa final de milhões de vidas ceifadas por uma máquina de destruição que não poupou judeus, opositores políticos, ciganos, homossexuais e testemunhas de Jeová. Das vítimas conhecidas, seis milhões eram judeus. O seu único crime foi pertencerem a uma etnia e a uma religião, praticada ou não, transformando-se, só por esse motivo, no alvo daquilo que Hitler e os seus sequazes designaram por Solução Final.
O horror dos militares Aliados e das tropas soviéticas ao entrarem pela primeira vez nesses campos de extermínio, numa altura em que o regime nazi se encontrava já na fase de colapso final, continua a ser partilhado por todos quantos, nos nossos dias, tomam contacto com essa realidade que as palavras são sempre parcas para definir e classificar. Como disse um filósofo do século XX, o horror dos campos de concentração é imprescritível, ou seja, não pode nem deve ser apagado da memória contemporânea, tão volátil, tão apressada e tão esquiva que tenta condenar ao esquecimento tudo aquilo que a incomoda e põe em causa, sobretudo se estiver associado aos valores humanistas que consubstanciam o nosso pacto com a liberdade e com a condição humana.
O Espaço dos Exílios, criado pela CM de Cascais, em Fevereiro de 1999, pretende dar um contributo no sentido de que a memória dessa época não prescreva nem se apague. Por esta zona do país passaram dezenas de milhares de pessoas, na sua maioria judeus, que, fugindo do terror nazi, buscavam em Portugal condições para partirem para lugares onde uma nova vida pudesse iniciar-se. A estada de alguns foi muito breve. Outros permaneceram meses e até anos. Alguns acabaram mesmo por se radicar na nossa terra, beneficiando das condições de acolhimento e de hospitalidade que o estatuto neutral do país durante a guerra favoreceu.
Vários pontos do concelho, e, em particular, Cascais e Estoril, foram o ponto de abrigo para gente de várias origens e distintas culturas que fugia da humilhação e do extermínio, perplexa e acossada perante a sanha assassina que os elegera como vítimas preferenciais. Passaram décadas desde o Holocausto. No entanto, imagens como zaquelas conservam intacta a sua actualidade. Essa actualidade resulta da circunstância de, na Europa e noutros pontos do mundo, continuarmos a assistir, diariamente, ao atropelo reiterado e sistemático dos direitos humanos. Quer isto dizer que o ser humano continua a ser capaz da maior grandeza e maior vileza, consoante as condições históricas em que se encontra e as situações com que é confrontado. Historicamente, está provado que não tem povos incapazes de actos bárbaros dependendo o seu potencial de agressividade e beligerância das circunstâncias com que são confrontados». In José Jorge Letria, Para que nunca mais, João Medina, O Silêncio de Deus em Auschwitz, seguido de O Museu do Holocausto, Edição da CM de Cascais, 2001, ISBD 972-637-089-2.

Cortesia da CMCascais/JDACT

sábado, 12 de março de 2011

Annelisse Maria Frank. Anne Frank. «Ela e a sua família (mãe Edith, irmã Margot e pai Otto Frank), juntamente com mais 4 pessoas viveram 25 meses, durante a II Guerra Mundial, num anexo de quartos por cima do escritório do pai, em Amsterdão, denominado Anexo Secreto. Morre aos 15 anos de idade num maldito campo de concentração nazi»

(1929-1945)
Frankfurt am Main, Hesse, Alemanha
Cortesia de thingsthatinspiree

Annelisse Maria Frank, mais conhecida como Anne Frank, uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto, que morreu aos 15 anos de idade num maldito campo de concentração. Tornou-se mundialmente famosa com a publicação póstuma do seu diário, no qual relata as experiências durante o período em que a sua família se escondeu da perseguição aos judeus da Holanda.
O Diário de Anne Frank foi publicado pela primeira vez em 1947 e é actualmente um dos livros mais traduzidos em todo o mundo.

Ela e a sua família (mãe Edith, irmã Margot e pai Otto Frank), juntamente com mais 4 pessoas (Peter, Pfeffer,sr. e sra. van Pels) viveram 25 meses, durante a II Guerra Mundial, num anexo de quartos por cima do escritório do pai, em Amsterdão, nos Países Baixos, denominado Anexo Secreto.
 
Cortesia de eppsnet
Enquanto vivia no Anexo Secreto, Anne escrevia no seu diário, a que deu o nome de Kitty. No diário escrevia o que sentia, pensava e o que fazia. Kitty e, logo depois Peter eram seus únicos amigos dentro do Anexo Secreto. Os longos meses de silêncio e medo aterrorizante, acabaram ao ser denunciada aos nazistas e deportada para os malditos campos de concentração nazis.




















O local onde a família de Anne Frank e outras 4 pessoas viveram para se esconder dos nazis tornou-se um famoso museu após a publicação do diário. Há uma reprodução das condições em que os moradores do Anexo Secreto viviam, sendo apresentada a história dos 8 habitantes e das pessoas que os ajudaram a esconderem-se durante a guerra. Um dos itens apresentados ao público é o diário escrito por Anne, que viria a tornar-se mundialmente famoso após a sua morte, devido à iniciativa de seu pai, Otto. Hoje é um dos mais famosos símbolos do Holocausto.

Cortesia de joedreschwordpress
Dos 8 habitantes do Anexo, o único sobrevivente após a guerra foi Otto, pai de Anne, que veio a falecer em 1980.
Cortesia de Anne Frank's History/you tube/JDACT