Mostrar mensagens com a etiqueta David V Barrett. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta David V Barrett. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «Tal como Pitágoras viajou pelo Médio Oriente, e possivelmente pelo Extremo Oriente, na sua busca pelo conhecimento, acabando por instalar a sua escola numa comunidade grega em Itália»

jdact

Entre o Tigre e o Eufrates.
Neoplatonismo
«(…) Ao tentarem abordar este ponto, os oponentes cristãos evangélicos da Maçonaria, bem como autores antimaçónicos como Stephen Knight e Martin Short, passam-lhe completamente ao lado. Ao contrário do que Knight e outros afirmam, o Deus da Maçonaria não é uma deidade composta por três personalidades separadas fundidas numa só, uma amálgama de Javé, Baal e Osíris no nome sagrado Jahbulon. Deus pode ser tratado por este nome composto, ou através de qualquer das suas partes (supondo que se trata da derivação correcta), ou através de qualquer dos muitos nomes de Deus ao longo dos milénios. Afinal de contas, o homem é apenas humano; é útil dispor de um nome, de um rótulo, de um conjunto de atributos que nos ajude a nomear o inefável. Mas Deus não se limita a estes rótulos humanos. Esta crença num Deus Único Supremo também explica como os judeus, os cristãos e os muçulmanos místicos conseguiram partilhar os seus conhecimentos ao longo dos séculos.
A igreja Ortodoxa sempre teve mais capacidade para lidar com os aspectos místicos do Cristianismo, mesmo antes da separação formal de Roma. Bizâncio, ou Constantinopla, era um cadinho mais flexível de culturas e ideias do que Roma alguma vez seria. São Máximo de Bizâncio (580-662), por exemplo, ensinou algo que no Ocidente poderia ser visto como uma heresia profunda: que o objectivo último do crente é ser Deus. Esta posição une o desejo neoplatónico de comunhão extática com o ser puro e a crença cristã inicial de que a iniciação completa fez do crente um Cristo. Essas crenças estão no cerne do Cristianismo esotérico; não surpreende, assim, que a Igreja, detentora do monopólio da salvação, tenha sempre tentado eliminar tal afronta à sua autoridade.

Egipto
É relevante notar que a palavra alquimia, recorrente ao longo deste livro, deriva do árabe al kimiya, que vem, quase de certeza, do grego chemeia, do antigo nome do delta do Nilo no Egipto, khem, que significa terra negra: o solo profundamente fértil de onde vem a vida, o silte escuro do Nilo, no meio do deserto árido. As conotações alegóricas não serão, de todo, acidentais. Embora a verdadeira alquimia seja a transformação da alma, não esqueçamos que os primeiros (e os posteriores) alquimistas também eram químicos. (De igual forma, a distinção entre astrólogos e astrónomos é relativamente recente). Quem conhecia os efeitos, regra geral espectaculares, da mistura de quantidades diferentes de vários pós, aquecendo-os a temperaturas específicas, podia associar os misteres de cientista e de artista; para quem vê de fora, para as pessoas comuns, ambas são formas de magia.
Já em 2900 a. C., os egípcios haviam descoberto como refinar ouro, reservado à realeza, pois tratava-se de um metal precioso difícil de obter. Os sacerdotes que guardavam esse segredo não eram meros metalúrgicos, sendo, isso sim, para todos os efeitos, os primeiros químicos. Assim, religião, magia, secretismo, conhecimento científico e a produção física de ouro estão ligados desde há milénios. A mitologia egípcia é complexa. Tal como se passa com todas as mitologias, ela evoluiu ao longo dos séculos. No entanto, e ao contrário do Judaísmo, que se desenvolveu e tornou um monoteísmo universal, parece que o panteão familiar de Osíris, Ísis, Anúbis, etc., foi um desenvolvimento posterior, sendo a crença egípcia inicial num único Deus, o Deus Sol Ré ou Rá.
Numa das primeiras versões do mito da criação egípcio, o Deus Criador Aton-Ré, que se ergue sozinho do caos primevo, masturba-se para criar vida. Na religião antiga, o sexo era encarado como sendo uma força poderosa. Entre os humanos, tal como entre os animais, o sexo dá origem a vida nova; com os Deuses deveria ser o mesmo. A energia sexual, e os fluidos sexuais, dão vida, são poderosos, sagrados.
Tal como Pitágoras viajou pelo Médio Oriente, e possivelmente pelo Extremo Oriente, na sua busca pelo conhecimento, acabando por instalar a sua escola numa comunidade grega em Itália, outros filósofos passaram anos em países que não os seus, a aprender e a estudar, a comparar e a assimilar conhecimentos». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.
                                          
Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «A distinção entre demónios e demons é importante. Alguns neoplatónicos ensinavam a teurgia, que pode ser chamada de convocação de espíritos, mas é, mais corretamente…»

jdact

Entre o Tigre e o Eufrates.
Neoplatonismo
«(…) Todavia, mais importante para as nossas necessidades é a influência que o neoplatonismo teve sobre o lado esotérico do Cristianismo e de outras religiões maiores e, logo, sobre as sociedades secretas. As ideias neoplatónicas alteraram-se e desenvolveram-se ao longo dos séculos, à medida que os diferentes líderes aprimoravam ou rejeitavam os ensinamentos dos antecessores. Tal como acontece com o Gnosticismo, não existe um conjunto fixo de crenças neoplatónicas. Assim, Plotino (204/5-270), que se opunha à magia, defendia a virtude, a castidade e a contemplação mística de Deus. O seu aluno e sucessor, Porfírio (c. 232/ 4-c.305), que organizou os trabalhos de Plotino, procurava modos éticos práticos (boas acções) para que a alma chegasse a níveis mais elevados. O seu aluno Jâmblico (c. 250-c. 330), que, à semelhança de Porfírio, escreveu uma Vida de Pitágoras, acentuou muito mais o lado experiencial da filosofia mística: usando o ritual religioso e ritos mágicos para a teurgia, invocar o poder de Deus ou dos seres espirituais. Esta ênfase levaria a um conflito entre o Neoplatonismo e o Cristianismo emergente, além de dar aos imperadores romanos motivo para impedir, de tempos a tempos, as práticas religiosas não cristãs.
Até agora, no que diz respeito a este livro, os dois mais importantes legados, a longo prazo, do Neoplatonismo para a religião esotérica e as sociedades secretas foram a ênfase do experiencial (ou seja, o real poder do ritual) e o ensinamento quanto às hierarquias dos seres espirituais que, resumidamente, trouxe uma solução para a dicotomia entre politeísmo e monoteísrno. Acima de tudo havia um Deus infinito, universal e incompreensível; a filosofia (do grego, amor pela sabedoria) era o grande meio de aproximação a esse Deus, sendo as religiões tentativas menores de abordar deuses menores, na prática servos, ou daemons, do Deus Único.
O termo demónio, é a forma incorreta de daemon, que incluía seres bons e maus, bem como Deuses menores e os espíritos dos mortos. O seu uso pejorativo para referir, especificamente, espíritos malignos é uma alteração cristã posterior do seu significado. Na teologia cristã, o termo poderia ser substituído por autoridades e poderes, criados pelo Deus Único e que podem ser bons ou maus. Os anjos enquadram-se nessa mesma categoria.
A distinção entre demónios e demons é importante. Alguns neoplatónicos ensinavam a teurgia, que pode ser chamada de convocação de espíritos, mas é, mais corretamente, a invocação de demons bons. Na magia ritual tardia dos filósofos herméticos e dos alquimistas, e na Ordem Hermética da Aurora Dourada de finais do século XIX e início do século XX (banalizada e erroneamente representada como magia negra nos romances de Dennis Wheatley, por exemplo), a ideia não era, habitualmente, invocar o diabo e a hoste infernal, algo muito raro e reconhecido como sendo extremamente perigoso, mas sim os deamons, os deuses menores, os anjos, as autoridades e poderes, e os espíritos poderosos de quem fora espiritualmente poderoso em vida.
O conceito do Deus Único, acima e além de todos os deuses, está no centro das crenças espirituais das sociedades secretas. Isto explica por que razão a Maçonaria e o Rosacrucianismo, embora sejam cristãos na sua origem e expressão, estão abertos às crenças de outras fés, sobretudo das outras Religiões do Livro. O Grande Arquitecto do Universo não se limita ao Cristianismo». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.
                                          
Cortesia de CdoAutor/JDACT

Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «As ideias de Pitágoras influenciaram profundamente Platão (429-347 a. C.), um dos mais influentes filósofos gregos. Pode dizer As -se que sem Pitágoras não haveria Platão»

jdact

Entre o Tigre e o Eufrates.
Pitágoras
«(…) Embora, hoje em dia, Pitágoras (581-497 a. C.) seja conhecido, sobretudo, pelo seu trabalho matemático, ele foi um dos mais destacados filósofos religiosos dos séculos anteriores a Cristo, detendo a sua influência sobre a religião esotérica e as sociedades secretas uma importância de monta. A Encyclopaedia of Dates and Events diz sobre ele, de forma lapidar, que foi um grande filósofo e matemático, mas a abordagem científica foi prejudicada pelo misticismo. Isto é o mesmo que dizer que William Blake foi um grande poeta e artista, cujo trabalho foi estragado pelo seu misticismo. Diz-se que Pitágoras terá vagueado durante muitos anos pelo Egipto e pela Mesopotâmia, chegando talvez à Índia, e terá estudado religião, filosofia e ciência numa tentativa de encontrar uma teoria do campo unificado que abrangesse todo o conhecimento. (Vários fundadores de movimentos esotéricos recentes, entre eles H. Blavatsky e Georgei Gurdjieff, seguiram o seu exemplo, quer na realidade, quer com um mito da sua própria criação.) Por volta de 530 a. C., Pitágoras instalou-se na comunidade grega de Crotona, no Sul de Itália, e fundou uma academia com critérios de acesso muito rígidos.
A matemática, a música e a astronomia faziam parte dos ensinamentos, não enquanto disciplinas individuais, mas sim como parte do sistema pitagórico de crenças, ao qual a famosa citação de E. Forster Apenas ligar!, se adequaria na perfeição. A matemática e a geometria, as propriedades ocultas dos números e a relação entre eles, estavam por trás do mundo e dos céus lá em cima. Julga-se que Pitágoras terá formulado a ideia da oitava musical e explicado a base matemática dos intervalos e das harmonias musicais. Todo o Universo está em vibração, a cantar a produzir a música das esferas. Diz-se que terá calculado a Proporção Áurea, o rácio matemático por trás de grande parte do significado esotérico da arquitectura (ligando-se assim ao simbolismo da Maçonaria).
Ensinou sobre a reencarnação, crença base da Tradição do Mistério Ocidental. Ensinou sobre a relação entre o homem e o cosmo, o microcosmo e o macrocosmo; isto está naturalmente ligado à astrologia, que na altura, e durante vários séculos depois disso, era o mesmo que astronomia. Os seus ensinamentos sobre o significado esotérico dos números continuam a estar por trás da numerologia moderna. À semelhança de muitos fundadores de sociedades ocultas, Pitágoras assumia características semidivinas para os seguidores: era referido como a deidade harmónica, a meio caminho entre os Deuses e os homens. Insistia num modo de vida asceta, com muitas proibições para os seguidores: tinham de seguir uma dieta vegetariana, por exemplo, mas não podiam comer feijões. A pureza de corpo e de comportamento, a par da completa dedicação mental, eram essenciais. Eram precisos três anos para passar a primeira fase de iniciação e cinco para a segunda; um seguidor pitagórico necessitava de grande empenho.
As ideias de Pitágoras influenciaram profundamente Platão (429-347 a. C.), um dos mais influentes filósofos gregos. Pode dizer-se que sem Pitágoras não haveria Platão, e sem este não haveria Neoplatonismo (onde se incluía o Neopitagorismo), de suma importância para o pensamento esotérico do início da era cristã e durante o Renascimento. Já foi sugerido que Pitágoras terá, a dada altura, sido ensinado pelos druidas do Noroeste da Europa, ou que ele e os seus seguidores os ensinaram.

Neoplatonismo
Neoplatonismo é um termo moderno para a última encarnação dos filósofos gregos nos primeiros cinco ou seis séculos da era cristã; encerrava em si ensinamentos de várias fontes e influenciou bastante o Cristianismo exotérico e esotérico. Muitos dos Pais da Igreja conheciam o pensamento neoplatónico, era impossível que homens formados, como S. Paulo, não conhecessem a filosofia grega nesses primeiros séculos, e algumas das batalhas teológicas que terminaram na criação do dogma cristão basearam-se nos desacordos entre os defensores e os críticos das ideias neoplatónicas». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.
                                          
Cortesia de CdoAutor/JDACT

terça-feira, 23 de outubro de 2018

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «Outras religiões de mistério baseavam-se, entre outros Deuses, em Dioniso, Ísis e Osíris, Cibele e Átis, Deméter e Perséfone (os mistérios eleusinos), e Orfeu; este último, o movimento órfico…»

jdact

Entre o Tigre e o Eufrates
«(…) Embora monoteísta, o Zoroastrismo também ensinava o princípio de um poder bom e de um poder mau. Este, o Angra Mainyu, com os seus demónios e o controlo do mundo através do homem, com o seu conhecimento da lei de Deus, consegue desviar-se das trevas para a luz. Será esta, provavelmente, a origem das crenças dualistas dos gnósticos. Os Reis Magos do Evangelho de Mateus e de cada representação da natividade eram zoroastrianos; havia muito comércio entre persas, judeus, gregos e egípcios, sendo a capital síria Antioquia, onde Mateus terá escrito o seu Evangelho, um movimentando porto comercial. Alguns zoroastrianos dos nossos dias são conhecidos como Parses ou Pársis (Persas), sobretudo na Índia, ou como Mazda-yasnianos (que veneram Ahura Mazda).

Mitraísmo
Mitra foi um dos Deuses persas incorporado no Zoroastrismo; era a divindade dos contratos e dos acordos, e estava associada ao Sol. O Mitraísmo foi uma religião popular no Império Romano entre os séculos II e V, sobretudo entre os soldados e os agentes do Império. Enquanto no Zoroastrismo havia alguma igualdade de tratamento entre homens e mulheres, o Mitraísmo era uma religião exclusivamente masculina. Vestígios arqueológicos romanos na Grã-Bretanha mostram que o Mitraísmo era uma religião muito mais disseminada e importante entre os romanos do que o Cristianismo, tendo esta ido beber muito àquela durante o seu desenvolvimento. Mitra era, a um tempo, um Deus do Sol (o termo persa Mihr significa Sol) e um Deus salvador; Plutarco referia-se a ele como sendo o Mediador entre o homem e o Deus supremo. É provável que o dia de louvor a Mitra fosse o domingo; um dos principais festivais realizava-se no solstício de inverno, celebrado a 25 de Dezembro. Existem ainda indícios de que os seguidores de Mitra celebravam uma refeição ritual, embora com pão e água, em vez de vinho.
Os rituais eram realizados em grutas, caves ou templos decorados que para parecerem grutas, representando a gruta cósmica ou universo. Havia sete níveis de iniciação: Corvus (Corvo), Nymphus (Noiva), Miles (Soldado), Leo (Leão), Perses (Persa), Heliodromus (Mensageiro do Sol) e Pater (Pai). Não era invulgar, por exemplo, que um soldado de patente média chegasse a um nível mais elevado de iniciação do que um superior militar. Pouco se sabe acerca dos rituais, salvo que eram realizados em segredo, contando apenas com a presença do iniciado. Julga-se que os novos iniciados teriam de encontrar o caminho através de passagens escuras até chegarem à luz: um simbolismo óbvio. Aparentemente, o ritual também incluía uma representação simbólica da morte e da ressurreição. Nem todos os soldados seguiam o Mitraísmo, mas os que a ele pertenciam partilhavam uma sensação especial de camaradagem no mundo exterior, reconhecendo-se, porventura, através de sinais secretos.
Embora, a nível histórico, possa não haver grandes ligações entre eles, quando as há de todo, existem paralelos óbvios com a estrutura, o secretismo, os rituais e a camaradagem e apoio mútuo exclusivamente masculinos da Maçonaria e outras sociedades iniciáticas posteriores. O Mitraísmo foi apenas uma das várias religiões de mistério nos séculos imediatamente antes e depois de Cristo. Uma religião de mistério era um culto, ou sociedade religioso-mágica, que só revelava os seus segredos, ensinamentos e rituais aos iniciados; o termo mistério tem raízes gregas que significam coisa ou cerimónia secreta e iniciado. A iniciação envolve amiúde a morte e o renascimento simbólicos, marcando esse simbolismo uma presença acentuada nos outros rituais. Os segredos da religião eram ainda revelados progressivamente, através de uma série de iniciações, a cada vez menos pessoas à medida que os iniciados subiam os degraus da carreira espiritual.
Outras religiões de mistério baseavam-se, entre outros Deuses, em Dioniso, Ísis e Osíris, Cibele e Átis, Deméter e Perséfone (os mistérios eleusinos), e Orfeu; este último, o movimento órfico, ensinava que existe uma centelha do divino no fundo da natureza material de cada pessoa». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «Todos os panteões (para usar o termo grego) apresentam relações familiares entre deuses, por vezes com famílias rivais, e regra geral com rivalidades no seio das famílias»

jdact

Entre o Tigre e o Eufrates
«(…) À luz da repressão política e religiosa de finais do século XX, talvez seja estranho recordar que o berço da civilização se situou no actual Iraque, na zona fértil entre os rios Tigre e Eufrates, e as cidades de Bagdade, a norte, e Baçorá, no topo do golfo Pérsico. Os Sumérios viveram à volta do Eufrates austral há mais de 6000 anos; os Acádios, o nome dado à raça semítica que se instalou na Suméria e na Acádia, especificamente a Babilónia, há 5000 anos. Estes povos dispunham de agricultura, de cidades e de uma sociedade sofisticada, com religião e sacerdócio organizados, e ergueram templos, os zigurates. As mitologias suméria, babilónica e assíria estão na base da mitologia da tribo de Abraão, Isaac e Jacob, de onde viria a desenvolver-se a religião judaica e, mais tarde, o Cristianismo. Já se provou que muitos dos mitos hebraicos remontam a versões babilónicas e sumérias muito anteriores a eles.
O Islão, que também reconhece os patriarcas e os profetas judaicos, desenvolveu-se, no início do século VII, naquela que é agora a costa sudoeste da Arábia Saudita e espalhou-se rapidamente, chegando aos actuais Iraque e Irão poucos anos depois da morte de Maomé, havendo uma grande influência persa sobre essa religião nos seus primeiros dias. Note-se que aqueles que hoje são conhecidos como Acádios se deslocaram para a Suméria, assimilando gradualmente os Sumérios sem os desalojar, eles levaram a sua língua, embora tenham adoptado a escrita cuneiforme suméria. No entanto, continuaram a usar a língua suméria, e não a sua, para os rituais religiosos, acabando os segredos sacerdotais por passar a ser ditos na língua dos deuses, ficando ocultos do povo. Não nos cabe esboçar aqui todos os mitos mesopotâmicos, sumérios, babilónicos/acadianos e assírios, mas muitos são ainda hoje conhecidos: o mito da Criação e o mito do Dilúvio, a par das suas versões bíblicas, a descida de Inanna, ou Ishtar, ao submundo, o mito de Gilgamesh, entre outros.
Um motivo para a desconfiança dos cristãos evangélicos em relação à Maçonaria, ao Rosacrucianismo e outras formas esotéricas de crença religiosa prende-se com a insistência por parte dos evangélicos na verdade literal e no carácter único das histórias bíblicas, e com a sua aceitação, bem como de outros mitos não bíblicos equivalentes, como sendo alegóricos e de igual valor, por parte dos movimentos esotéricos mais liberais.
Todos os panteões (para usar o termo grego) apresentam relações familiares entre deuses, por vezes com famílias rivais, e regra geral com rivalidades no seio das famílias. Os deuses discutem, enganam, lutam e matam-se entre si, assemelhando-se aos humanos neste aspecto. Os mitos das disputas entre deuses, como Dumuzi e Enkimdu na mitologia suméria, ou entre homens, como Caim e Abel na mitologia hebraica, reflectem, amiúde, alterações sociais verificadas nos povos, como, por exemplo (nestes dois casos), a mudança de um estilo de vida nómada e de pastoreio para uma vida fixa e agrícola. Outros conflitos entre os deuses poderão ser as recordações populares de batalhas pela supremacia entre diferentes cidades, diferentes culturas, diferentes povos. Desde há muito que se observou que nos países celtas, quando um novo povo chegava e controlava os povos originais, regra geral, mais primitivos e próximos da terra, e com uma relação com os espíritos telúricos que era invejada e temida pelos recém-chegados, estes acabavam por se tornar as pessoas pequenas, na memória popular dos invasores.

Zoroastrismo
O Zoroastrismo, seguundo o sacerdote persa Zoroastro ou Zaratustra, pode gabar-se de ser a primeira religião monoteísta de grande dimensão, com uma profunda influência sobre as Religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) que a seguiram. (As crenças destas religiões num Deus único, céu e inferno, ressurreição dos mortos, julgamento final e vitória final do bem contra o mal derivam do Zoroastrismo). Viria a tornar-se a religião oficial do Império Persa, mantendo-se forte até às invasões muçulmanas do século VII.
Zaratustra, que terá vivido por volta de 660-583 a. C., ou possivelmente em 1000 ou até 1400 a. C., reformou o complexo politeísmo da Pérsia (atual Irão), pejado de rituais e sacrifícios, declarando a existência de um Deus único, Ahura Mazda, o Sábio; todos os outros deuses venerados pelos persas eram meros assistentes e servos do ser supremo. A pureza de Ahura Mazda era representada pela pureza do fogo, e os zoroastrianos rezavam junto de uma chama. Recordemos que o Deus judaico Aquele Que É falou a Moisés a partir de uma sarça ardente (Êxodo), e que muitos movimentos religiosos esotéricos actuais, incluindo os rosa-cruzes e a Igreja Universal e Triunfante inspirada por Aquele Que É, representam Deus, e a presença divina no interior do homem, como sendo uma chama». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

As Grandes Sociedades Secretas. David V Barrett. «Os dois mais importantes legados, a longo prazo, do Neoplatonismo para a religião esotérica e as sociedades secretas foram a ênfase do experiencial»

jdact

«(…) As ideias neoplatónicas alteraram-se e desenvolveram-se ao longo dos séculos, à medida que os diferentes líderes aprimoravam ou rejeitavam os ensinamentos dos antecessores. Tal como acontece com o Gnosticismo, não existe um conjunto fixo de crenças neoplatónicas. Assim, Plotino (204/5-270), que se opunha à magia, defendia a virtude, a castidade e a contemplação mística de Deus. O seu aluno e sucessor, Porfírio (c.232/4-c.305), que organizou os trabalhos de Plotino, procurava modos éticos práticos (boas acções) para que a alma chegasse a níveis mais elevados. O seu aluno Jâmblico (c.250-c. 330), que, à semelhança de Porfírio, escreveu uma Vida de Pitágoras, acentuou muito mais o lado experiencial da filosofia mística: usando o ritual religioso e ritos mágicos para a teurgia, invocar o poder de Deus ou dos seres espirituais. Esta ênfase levaria a um conflito entre o Neoplatonismo e o Cristianismo emergente, além de dar aos imperadores romanos motivo para impedir, de tempos a tempos, as práticas religiosas não cristãs.
Os dois mais importantes legados, a longo prazo, do Neoplatonismo para a religião esotérica e as sociedades secretas foram a ênfase do experiencial (ou seja, o real poder do ritual) e o ensinamento quanto às hierarquias dos seres espirituais que, resumidamente, trouxe uma solução para a dicotomia entre politeísmo e monoteísmo. Acima de tudo havia um Deus infinito, universal e incompreensível; a filosofia (do grego, amor pela sabedoria) era o grande meio de aproximação a esse Deus, sendo as religiões tentativas menores de abordar deuses menores, na prática servos, ou daemons, Deus Único). O termo demónio é a forma incorreta de daemons, que incluía seres bons e maus, bem como Deuses menores e os espíritos dos mortos. O seu uso pejorativo para referir, especificamente, espíritos malignos é uma alteração cristã posterior do seu significado. Na teologia cristã, o termo poderia ser substituído por autoridades e poderes, criados pelo Deus Único e que podem ser bons ou maus. Os anjos enquadram-se nessa mesma categoria. A distinção entre demónios e daemons é importante. Alguns neoplatónicos ensinavam a teurgia, que pode ser chamada de convocação de espíritos,  mas é, mais correctamente, a invocação de daemons bons. Na magia ritual tardia dos filósofos herméticos e dos alquimistas, e na Ordem Hermética da Aurora Dourada de finais do século XIX e início do século XX (banalizada e erroneamente representada como magia negra, a ideia não era, habitualmente, invocar o diabo e a hoste infernal, algo muito raro e reconhecido como sendo extremamente perigoso, mas sim os daemons, os deuses menores, os anjos, as autoridades e poderes, e os espíritos poderosos de quem fora espiritualmente poderoso em vida». In David V Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT 

As Grandes Sociedades Secretas. David V Barrett. «Pitágoras assumia características semidivinas para os seguidores: era referido como a deidade harmónica»

jdact

Pitágoras
«(…) Embora, hoje em dia, Pitágoras (581-497 a. C.) seja conhecido, sobretudo, pelo seu trabalho matemático, ele foi um dos mais destacados filósofos religiosos dos séculos anteriores a Cristo, detendo a sua influência sobre a religião esotérica e as sociedades secretas uma importância de monta. A Encyclopaedia of Dates and Events diz sobre ele, de forma lapidar, que foi um grande filósofo e matemático, mas a abordagem científica foi prejudicada pelo misticismo. Isto é o mesmo que dizer que William Blake foi um grande poeta e artista, cujo trabalho foi estragado pelo seu misticismo. Diz-se que Pitágoras terá vagueado durante muitos anos pelo Egipto e pela Mesopotâmia, chegando talvez à Índia, e terá estudado religião, filosofia e ciência numa tentativa de encontrar uma teoria do campo unificado que abrangesse todo o conhecimento. (Vários fundadores de movimentos esotéricos recentes, entre eles Blavatsky e Gurdjieff, seguiram o seu exemplo, quer na realidade, quer com um mito da sua própria criação). Por volta de 530 a. C., Pitágoras instalou-se na comunidade grega de Crotona, no Sul de Itália, e fundou uma academia com critérios de acesso muito rígidos. A matemática, a música e a astronomia faziam parte dos ensinamentos, não enquanto disciplinas individuais, mas sim como parte do sistema pitagórico de crenças, ao qual a famosa citação de Forster, apenas ligar! se adequaria na perfeição. A matemática e a geometria, as propriedades ocultas dos números e a relação entre eles, estavam por trás do mundo e dos céus lá em cima. Julga-se que Pitágoras terá formulado a ideia da oitava musical e explicado a base matemática dos intervalos e das harmonias musicais. Todo o Universo está em vibração, a cantar, a produzir a música das esferas. Diz-se que terá calculado a Proporção Áurea, o rácio matemático por trás de grande parte do significado esotérico da arquitectura (ligando-se assim ao simbolismo da Maçonaria).
Ensinou sobre a reencarnação, crença base da Tradição do Mistério Ocidental. Ensinou sobre a relação entre o homem e o cosmo, o microcosmo e o macrocosmo; isto está naturalmente ligado à astrologia, que na altura, e durante vários séculos depois disso, era o mesmo que astronomia. Os seus ensinamentos sobre o significado esotérico dos números continuam a estar por trás da numerologia moderna. À semelhança de muitos fundadores de sociedades ocultas, Pitágoras assumia características semidivinas para os seguidores: era referido como a deidade harmónica, a meio caminho entre os Deuses e os homens. Insistia num modo de vida asceta, com muitas proibições para os seguidores: tinham de seguir uma dieta vegetariana, por exemplo, mas não podiam comer feijões. A pureza de corpo e de comportamento, a par da completa dedicação mental, eram essenciais. Eram precisos três anos para passar a primeira fase de iniciação e cinco para a segunda; um seguidor pitagórico necessitava de grande empenho. As ideias de Pitágoras influenciaram profundamente Platão (429-347 a. C.), um dos mais influentes filósofos gregos. Pode dizer-se que sem Pitágoras não haveria Platão, e sem este não haveria Neoplatonismo (onde se incluía o Neopitagorismo), de suma importância para o pensamento esotérico do início da era cristã e durante o Renascimento. Já foi sugerido que Pitágoras terá, a dada altura, sido ensinado pelos druidas do Noroeste da Europa, ou que ele e os seus seguidores os ensinaram.

Neoplatonismo
Neoplatonismo é um termo moderno para a última encarnação dos filósofos gregos nos primeiros cinco ou seis séculos da era cristã; encerrava em si ensinamentos de várias fontes e influenciou bastante o Cristianismo exotérico e esotérico. Muitos dos Pais da Igreja conheciam o pensamento neoplatónico, era impossível que homens formados, como S. Paulo, não conhecessem a filosofia grega nesses primeiros séculos, e algumas das batalhas teológicas que terminaram na criação do dogma cristão basearam-se nos desacordos entre os defensores e os críticos das ideias neoplatónicas. Todavia, mais importante para as nossas necessidades é a influência que o neoplatonismo teve sobre o lado esotérico do Cristianismo e de outras religiões maiores e, logo, sobre as sociedades secretas». In David V Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 27 de agosto de 2017

As Grandes Sociedades Secretas. Davis V. Barrett. «Nem todos os soldados seguiam o Mitraísmo, mas os que a ele pertenciam partilhavam uma camaradagem no mundo exterior, reconhecendo-se, porventura, através de sinais secretos»

jdact

Zoroastrismo
«(…) Embora monoteísta, o Zoroastrismo também ensinava o princípio de um poder bom e de um poder mau. Este, o Angra Mainyu, com os seus demónios e o controlo do mundo através do homem, com o seu conhecimento da lei de Deus, consegue desviar-se das trevas para a luz. Será esta, provavelmente, a origem das crenças dualistas dos gnósticos. Os Reis Magos do Evangelho de Mateus e de cada representação da natividade eram zoroastrianos; havia muito comércio entre persas, judeus, gregos e egípcios, sendo a capital síria Antioquia, onde Mateus terá escrito o seu Evangelho, um movimentado porto comercial. Alguns zoroastrianos dos nossos dias são conhecidos como Parses ou Pársis (Persas), sobretudo na Índia, ou como Mazda-yasnianos (que veneram Ahura Mazda).

Mitraísmo
Mitra foi um dos Deuses persas incorporado no Zoroastrismo; era a divindade dos contratos e dos acordos, e estava associada ao Sol. O Mitraísmo foi uma religião popular no Império Romano entre os séculos II e V sobretudo entre os soldados e os agentes do Império. Enquanto no Zoroastrismo havia alguma igualdade de tratamento entre homens e mulheres, o Mitraísmo era uma religião exclusivamente masculina. Vestígios arqueológicos romanos na Grã-Bretanha mostram que o Mitraísmo era uma religião muito mais disseminada e importante entre os romanos do que o Cristianismo, tendo esta ido beber muito àquela durante o seu desenvolvimento. Mitra era, a um tempo, um Deus do Sol (o termo persa Mihr significa Sol) e um Deus salvador; Plutarco referia-se a ele como sendo o Mediador entre o homem e o Deus supremo. É provável que o dia de louvor a Mitra fosse o domingo; um dos principais festivais realizava-se no solstício de Inverno, celebrado a 25 de Dezembro. Existem ainda indícios de que os seguidores de Mitra celebravam uma refeição ritual, embora com pão e água, em vez de vinho.
Os rituais eram realizados em grutas, caves ou templos decorados que para parecerem grutas, representando a gruta cósmica ou universo. Havia sete níveis de iniciação: Corvus (Corvo), Nymphus (Noiva), Miles (Soldado), Leo (Leão), Perses (Persa), Heliodromus (Mensageiro do Sol) e Pater (Pai). Não era invulgar, por exemplo, que um soldado de patente média chegasse a um nível mais elevado de iniciação do que um superior militar. Pouco se sabe acerca dos rituais, salvo que eram realizados em segredo, contando apenas com a presença do iniciado. Julga-se que os novos iniciados teriam de encontrar o caminho através de passagens escuras até chegarem à luz: um simbolismo óbvio. Aparentemente, o ritual também incluía uma representação simbólica da morte e da ressurreição. Nem todos os soldados seguiam o Mitraísmo, mas os que a ele pertenciam partilhavam uma sensação especial de camaradagem no mundo exterior, reconhecendo-se, porventura, através de sinais secretos.
Embora, a nível histórico, possa não haver grandes ligações entre eles, quando as há de todo, existem paralelos óbvios com a estrutura, o secretismo, os rituais e a camaradagem e apoio mútuo exclusivamente masculinos da Maçonaria e outras sociedades iniciáticas posteriores. O Mitraísmo foi apenas uma das várias religiões de mistério nos séculos imediatamente antes e depois de Cristo. Uma religião de mistério era um culto, ou sociedade religioso-mágica, que só revelava os seus segredos, ensinamentos e rituais aos iniciados; o termo mistério tem raízes gregas que significam coisa ou cerimónia secreta» e iniciado. A iniciação envolve amiúde a morte e o renascimento simbólicos, marcando esse simbolismo uma presença acentuada nos outros rituais. Os segredos da religião eram ainda revelados progressivamente, através de uma série de iniciações, a cada vez menos pessoas à medida que os iniciados subiam os degraus da carreira espiritual. Outras religiões de mistério baseavam-se, entre outros Deuses, em Dioniso, Ísis e Osíris, Cibele e Átis, Deméter e Perséfone (os mistérios eleusinos), e Orfeu; este último, o movimento órfico, ensinava que existe uma centelha do divino no fundo da natureza material de cada pessoa». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 26 de agosto de 2017

As Grandes Sociedades Secretas. Davis V. Barrett. «Um motivo para a desconfiança dos cristãos evangélicos em relação à Maçonaria, ao Rosacrucianismo e outras formas esotéricas de crença religiosa»

jdact

«(…)
Entre o Tigre e o Eufrates
À 1uz da repressão política e religiosa de finais do século XX, talvez seja estranho recordar que o berço da civilização se situou no actual Iraque, na zona fértil entre os rios Tigre e Eufrates, e as cidades de Bagdade, a norte, e Baçorá, no topo do golfo Pérsico. Os Sumérios viveram à volta do Eufrates austral há mais de 6000 anos; os Acádios, o nome dado à raça semítica que se instalou na Suméria e na Acádia, especificamente a Babilónia, há 5000 anos. Estes povos dispunham de agricultura, de cidades e de uma sociedade sofisticada, com religião e sacerdócio organizados, e ergueram templos, os zigurates. As mitologias suméria, babilónica e assíria estão na base da mitologia da tribo de Abraão, Isaac e Jacob, de onde viria a desenvolver-se a religião judaica e, mais tarde, o Cristianismo. Já se provou que muitos dos mitos hebraicos remontam a versões babilónicas e sumérias muito anteriores a eles.
O Islão, que também reconhece os patriarcas e os profetas judaicos, desenvolveu-se, no início do século VII, naquela que é agora a costa sudoeste da Arábia Saudita e espalhou-se rapidamente, chegando aos actuais Iraque e Irão poucos anos depois da morte de Maomé, havendo uma grande influência persa sobre essa religião nos seus primeiros dias. Note-se que aqueles que hoje são conhecidos como Acádios se deslocaram para a Suméria, assimilando gradualmente os Sumérios sem os desalojar eles levaram a sua língua, embora tenham adoptado a escrita cuneiforme suméria. No entanto, continuaram a usar a língua suméria, e não a sua, para os rituais religiosos, acabando os segredos sacerdotais por passar a ser ditos na língua dos deuses, ficando ocultos do povo. Não nos cabe esboçar aqui todos os mitos mesopotâmicos, sumérios, babilónicos/acadianos e assírios, mas muitos são ainda hoje conhecidos: o mito da Criação e o mito do Dilúvio, a par das suas versões bíblicas, a descida de Inanna, ou Ishtar, ao Submundo, o mito de Gilgamesh, entre outros.
Um motivo para a desconfiança dos cristãos evangélicos em relação à Maçonaria, ao Rosacrucianismo e outras formas esotéricas de crença religiosa prende-se com a insistência por parte dos evangélicos na verdade literal e no carácter único das histórias bíblicas, e com a sua aceitação, bem como de outros mitos não bíblicos equivalentes, como sendo alegóricos e de igual valor, por parte dos movimentos esotéricos mais liberais. Todos os panteões (para usar o termo grego) apresentam relações familiares entre deuses, por vezes com famílias rivais, e regra geral com rivalidades no seio das famílias. Os deuses discutem, enganam, lutam e matam-se entre si, assemelhando-se aos humanos neste aspecto. Os mitos das disputas entre deuses, como Durnuzi e Enkimdu na mitologia suméria, ou entre homens, como Caim e Abel na mitologia hebraica, reflectem, amiúde, alterações sociais verificadas nos povos, como, por exemplo (nestes dois casos), a mudança de um estilo de vida nómada e de pastoreio para uma vida fixa e agrícola. Outros conflitos entre os deuses poderão ser as recordações populares de batalhas pela supremacia entre diferentes cidades, diferentes culturas, diferentes povos. Desde há muito que se observou que nos países celtas, quando um novo povo chegava e controlava os povos originais, regra geral, mais primitivos e próximos da terra, e com uma relação com os espíritos telúricos que era invejada e temida pelos recém-chegados, estes acabavam por se tornar as pessoas pequenas, na memória popular dos invasores.

Zoroastrismo
O Zoroastrismo, segundo o sacerdote persa Zoroastro ou Zaratustra, pode gabar-se de ser a primeira religião monoteísta de grande dimensão, com urna profunda influência sobre as Religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo) que a seguiram. (As crenças destas religiões num Deus único, céu e inferno, ressurreição dos mortos, julgamento final e vitória final do bem contra o mal derivam do Zoroastrismo). Viria a tornar-se a religião oficial do Império Persa, mantendo-se forte até às invasões muçulmanas do século VII.
Zaratustra, que terá vivido por volta de 660-583 a. C., ou possivelmente em 1000 ou até 1400 a. C., reformou o complexo politeísmo da Pérsia (actual Irão), pejado de rituais e sacrifícios, declarando a existência de um Deus único, Ahura Mazda, o Sábio; todos os outros deuses venerados pelos persas eram meros assistentes e servos do ser supremo. A pureza de Ahura Mazda era representada pela pureza do fogo, e os zoroastrianos rezavam junto de uma chama. Recordemos que o Deus judaico Aquele Que É falou a Moisés a partir de uma sarça ardente, e que muitos movimentos religiosos esotéricos actuais, incluindo os rosa-cruzes e a Igreja Universal e Triunfante inspirada por Aquele Que É, representam Deus, e a presença divina no interior do homem, como sendo uma chama». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

domingo, 28 de maio de 2017

As Grandes Sociedades Secretas. David V. Barrett. «Enterramos uma semente e ela transforma-se em alimento. O cereal morre, e depois volta a ganhar vida»

jdact

«A história das sociedades secretas é a história da religião esotérica e é também a história da magia. Quaisquer que sejam as suas actuais práticas e ensinamentos, aspecto e prioridades, a maior parte das sociedades secretas tem raízes religiosas. A religião é tão antiga como o homem, e o ofício de sacerdote compete com o de prostituta e o de espião pelo título de mais velha profissão do mundo. O presente capítulo analisa brevemente algumas das muitas influências religiosas nas actuais sociedades secretas, desde o início dos tempos até finais da Idade Média. Note-se que as datas apresentadas para alguns dos primeiros mestres e autores variam de fonte para fonte. Além disso, as mitologias, filosofias e movimentos religiosos do presente capítulo não se seguem, necessariamente, por ordem cronológica; muitos sobrepõem-se.

Sociedade primitiva
As origens da religião são, a um tempo, externas e internas. O homem primitivo estava muito mais à mercê dos elementos do que nós, sendo o seu quotidiano afectado por trovões, relâmpagos, vento, chuva, inundações e seca. Acima dele estava o céu, com os mistérios do Sol durante o dia, e a Lua e as estrelas à noite. O que eram essas luzes? Porque se deslocavam pelo firmamento em diferentes alturas do dia, do mês e do ano, e porque variavam de brilho, forma e dimensão? O calor e a luz do Sol davam vida. Como ter a certeza de que voltaria a recuperar a sua força geradora depois de passar pelo ponto mais fraco, a meio do Inverno? Enterramos uma semente e ela transforma-se em alimento. O cereal morre, e depois volta a ganhar vida.
É fácil perceber como se desenvolveram os deuses: a partir dos grandes poderes da natureza, poderes que fogem ao controlo do homem. Poder-se-ia fazer pedidos a esses poderes? Responderiam favoravelmente, caso se fizessem sacrifícios? Qual seria o modo mais eficaz de abordar tais poderes? Seria perigoso? Poderia qualquer um fazê-lo, ou seria preciso um especialista, uma competência, uma arte, um poder? E assim nasceram os sacerdotes.
O homem queria ainda respostas para outras questões. O que acontece quando alguém morre? Eu vou morrer? O que me acontecerá quando eu morrer? A haver vida depois da morte, que forma ela assumirá? Onde é? É boa ou má? Como posso ter a garantia de que vai ser boa? Se há vida depois da morte, houve vida antes do nascimento? Se as colheitas vivem e morrem e voltam à vida, será o mesmo verdade para as pessoas? E ainda mais questões. Para onde vou nos meus sonhos? Porque não posso trazer coisas de lá? Os sonhos prevêem o futuro? Quem me poderá revelar o seu significado? Além disso, numa altura em que um ferimento ou uma doença poderiam facilmente levar à morte, quem conhecesse o tratamento correcto, as ervas certas, era merecedor de honras, tornava-se um dos mais importantes elementos da tribo.
O sacerdote, ou xamã, ou curandeiro, conhecia os rituais adequados para garantir que o Sol voltava todos os anos. Ele sabia como trazer chuva, como conseguir uma boa colheita ou uma boa caçada, como alcançar uma vitória contra uma tribo vizinha. Conhecia o significado dos sinais e dos presságios, o sentido oculto dos sonhos; e nos seus próprios sonhos viajava, a seu bel-prazer, até à terra dos espíritos. Sabia curar e amaldiçoar. Era um homem sábio, que até o chefe da tribo procurava em busca de conselhos. Ninguém vive para sempre, pelo que uma das tarefas mais importantes do sacerdote, tendo o bem-estar da tribo presente, era formar um sucessor nas artes complexas do seu mister. À medida que esse papel se foi tornando mais poderoso, também o conhecimento passou a ser mais bem guardado; criava-se a ligação entre o poder e o secretismo.
As sociedades desenvolveram-se e tornaram-se mais complexas, e o mesmo aconteceu às formas exteriores, mais públicas, da religião, a religião exotérica, bem como ao conhecimento secreto e ao secretismo do conhecimento, no cerne da religião, a religião esotérica. Esses dois aspectos tornaram-se cada vez mais distintos, até que os segredos internos da religião foram escondidos não só do público, mas também de grande parte dos sacerdotes». In David V. Barrett, As Grandes Sociedades Secretas, 1997, 2007, Clube do Autor, 2016, ISBN 978-989-724-333-2.

Cortesia de CdoAutor/JDACT