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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Contos e Lendas. Luís Augusto Rebelo Silva (1822-1871). «Interpretar fielmente a natureza, expressar os grandes rasgos, de que se compõe a fisionomia de uma época, e não desvairar muito na análise do coração humano, decifrando por ele o mistério da existência…»

Cortesia de wikipedia

A Pena de Tálio. Romance histórico
«Mais uma novela sai a tentar a fortuna. Que sorte a espera em caminhos tão perigosos? Como outras mais dignas de acolhimento, recebida pela indiferença, irá jazer no silêncio, ou ditosa, sem prendas, descansará nos braços dessa hospitalidade benévola, que em uma hora paga meses e anos de vigílias? Deus o sabe! São estas as criações do aceso imaginar, de que falavam os trovadores, e por mais que se queira disfarçar, o coração do autor, verdadeiro coração de pai, é inseparável delas, seguindo-as ansioso pela beira ao precipício, e acompanhando-as de cuidados até alcançarem o suspirado termo da jornada. Será orgulho só, e cobiça de glória? Não! É que as filhas da inteligência também são filhas queridas, e levantando-se para entrar no mundo, levam-nos consigo a alma e o amor! Nasceram de nós, e vimo-las balbuciar e crescer, e nas longas noites, em que o pensamento percorre as ruínas do passado, e os espaços infinitos, que a imaginação povoa, conversaram com o nosso espírito, e fizeram seu enlevo. De que modo brotam, e quem dá o ser a estes entes e ideais que a chama do engenho torna mais duráveis muitas vezes do que a própria realidade? Um raio de luz, um sorriso da fantasia, um acaso basta! Entre mil confusas sombras, que se agitam, a mente escolhe, e infunde-se em algumas. Então o quadro surge sem podermos dizer como; a tela anima-se pouco a pouco, e as figuras, já com as cores da vida, começam a existir, umas para não morrerem como as de Romeu, de Hamlet, e de Beppo, outras para brilharem um só momento, e logo se apagarem no tropel das outras que vêm chegando.
A forma o que faz depois é pintar ou cinzelar seguindo a visão interior; mas a imagem está dentro da alma; só ela a vê e a sente, e nem tinta, nem palavras a revelam como nos apareceu, com metade da viveza com que nós a conhecemos. Este romance nasceu assim, e do mesmo modo nasceram e hão de nascer outros. A leitura de alguns capítulos do segundo volume da História de Portugal do meu amigo A. Herculano suscitou o assunto. Disposta a imaginação, um dia acordou de repente aquilo que um escritor alemão denomina o nosso sexto sentido, e boa ou má, feliz ou deplorável, estava traçada como havia de ficar, e como hoje se oferece, porque a reflexão e a lima podem polir as grossuras e os defeitos superficiais, mas na essência não tocam, sob pena de sair um monstro, ou talvez pior, uma estátua regelada. Depois de feito o livro era fácil ligá-lo a remontadas cogitações, e administrar-lhe o baptismo filosófico; mas tendo a desgraça, ou a ventura, de acreditar pouco na missão política da arte, deixei as teorias sociais e os problemas grandiosos no lugar que lhes pertence. Sempre entendi que se invadiam assim, mas talando-as, duas províncias independentes; e que a preconizada conquista de uma pela outra seria vitória efémera, e pouco digna de louvor se em verdade é lícito dizer-se que seja vitória!
Interpretar fielmente a natureza, expressar os grandes rasgos, de que se compõe a fisionomia de uma época, e não desvairar muito na análise do coração humano, decifrando por ele o mistério da existência, pareceu-me sempre não ser a menor dificuldade do género; e como raros a têm atravessado incólumes, acho que os Cooper, os Walter Scott, e tantos imaginadores da mesma escola, ocupam de direito o posto, que o triunfo lhes granjeou. Se eles, que foram os mestres, temeram passar além, e se os seus monumentos nem por isso deixam de ser vistos de toda a parte, enquanto desabam em ruínas, dias depois, as construções ambiciosas dos inovadores, creio que não merecerá censura o ater-se qualquer tão obscuro como eu aos bons modelos, e de longe, na mesma distância, a que se reputa deles, fazer por agradar sem se atrever a mais. De Cervantes a Walter Scott e a Goethe, desde o imortal romance do Quixote até à soberba epopeia em prosa de Ivanhoe, e à sombria e esplêndida manifestação de Fausto, a forma tem adiantado muito. Não sei se resta ainda que inovar, ou se a reforma deverá parar por aí, por maior prudência. É delicada e espinhosa a questão! Entretanto não duvido acrescentar que a verdadeira originalidade reside para mim na ideia, na propriedade com que se retrata, na expressão e na cor dos costumes, que se avivam». In Luís Augusto Rebelo Silva (1822-1871), Contos e Lendas, publicado originalmente em 1873, Projecto Livro Livre, 582, 2014.

Cortesia de PLLivre/JDACT

domingo, 12 de outubro de 2014

A Mocidade de D. João V. Rebelo da Silva. «… grandioso hospital de Todos-os-Santos, pelo sítio aonde estão hoje S. Domingos e a Praça da Figueira. Depois, descobriu as estiradas canelas do irmão Tomé, a quem o zelo emprestava asas, para pedir as alvíssaras do resultado da demanda…»

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«(…) Frei João rondou de passeio a arcada até à escadaria do grandioso hospital de Todos-os-Santos, pelo sítio aonde estão hoje S. Domingos e a Praça da Figueira. Depois, quando voltava cismando, descobriu as estiradas canelas do irmão Tomé, a quem o zelo emprestava asas, para pedir as alvíssaras do resultado da demanda, que estava longe de supor perdida. Duas palavras agora para explicar a provisão, que tirava o sono ao padre procurador, e fazia da cara do Tomé a pública-forma de um miserere. O hospital de Todos-os-Santos era proprietário de alguns dos arcos do Rossio, e arrendava-os aos lojistas a dois mil-réis anuais cada arco. A Ordem de S. Domingos possuía os que ficavam do lado do adro e debaixo do dormitório de cima, e os frades contentaram-se por muito tempo com a metade do preço exigido pelo hospital. Corria isto em santa paz, quando, eleito novo provincial, este, contra o voto do seu definitório, levantou a renda, a ver se dava uma bofetada sem mão na soberba do vizinho. Ardeu Tróia! Os vendilhões gritaram aqui d’el-rei protestando sem pejo nem temor contra a lesão enorme, que lhes fazia pagar as culpas de terceiro.
Em tão melindrosas circunstâncias, o antecessor de frei João, chamado frei Crisóstomo Borrego, caiu na simplicidade de citar os refractários para arrendarem as tendas da parede, sob pena de dois mil-réis de multa. Não esperaram os vendilhões por segunda intimação; e requerendo vistoria do senado da Câmara, vieram pôr a feira diante da testada dos arcos. Daqui se originou a perdição dos frades. Com o auto de vistoria os belfurinheiros provaram que não ocupando terreno do convento lhe não deviam nada; e a demanda, muito feia desde o princípio, concluiu pela famosa provisão do desembargo, declarando as testadas dos arcos livres, e absolvendo os feirantes de arrendamento e aluguer pelas ocuparem. Ainda por cima o convento pagou as custas! Foi assim que os padres de S. Domingos deram os seus arcos de graça pelos quererem alugar muito caros. Quando frei João dos Remédios entrou a servir, estava muito mal figurado o negócio; tratou de lhe valer; mas já tarde. Pouco habituado a reveses, caiu-lhe este como um raio em cima da cabeça, e não o querendo imputar à notória injustiça da causa, preferiu atribuí-lo ao ódio e antiga rivalidade de S. Roque com S. Domingos, dos Jesuítas com os Pregadores. Se ele se enganava, não sabemos; mas que a provisão deu gosto aos padres da Companhia, é caso averiguado.
Desta opinião do procurador da comunidade nasciam as pesadas reflexões, que lhe ouvimos, a respeito dos filhos de S. Inácio, vizinhos e inimigos da ordem inquisitorial. O padre-mestre Remédios ainda estava informando Tomé do sucedido, e o nosso andador, moralizando o caso com o notável adágio ninguém diga: eu desta água não beberei, quando um homem, escapando pelas costas do domínio e do seu acólito, ainda no maior calor da conversação, passou por eles como sombra, e foi coser-se com a pilastra do primeiro arco, depois de observar os oradores. O chapéu de abas largas e copa baixa era um chapéu de jesuíta, e, carregado na testa, encobria-lhe a parte superior do rosto. A capa de pano preto, embuçada, escondia-lhe a barba e todo o corpo. Donde se colocou podia ver e ouvir perfeitamente. Um quarto de hora depois, outro homem, atravessando do palácio do duque de Cadaval, entrou na igreja, e feitas as suas devoções, tomou água benta, e veio para o adro assentar-se no poial da cruz, defronte da portaria. Ali, cofiando uma cabeleira mal empoada e de cachos à antiga, pôs o chapéu de lado sobre a copa, arregaçou os punhos de Holanda encardidos, afinou o laço da gravata, e sacou por fim do bolso da esbeiçada casaca de tafetá um tinteiro de chifre e um coto de pena. Depois, montando o joelho direito sobre o esquerdo, principiou a rabiscar em um papel com o maior sossego do mundo. Assim dispostas as figuras, sucedia que o sábio teólogo tinha nas suas costas o homem embuçado, e que o andador das almas cobria com a longa pessoa o risonho escrevente; tudo isto decerto sem nenhum deles se ter ajustado, nem o pensar, à excepção do jesuíta. Esse provavelmente sabia por que razão viera ali.

Vale mais só, que mal acompanhado
Depois do episódio da esmola o padre procurador e o devoto acólito ficaram calados, um defronte do outro, por alguns instantes. As sobrancelhas de Tomé das Chagas ora subiam à raiz do cabelo, ora baixavam a tocar nas capelas dos olhos, o que significava que esta honrada pessoa, reflectindo no caso, não percebia, e desejava perceber. Frei João cismava carregando as rugas frontais, e dobrando os polegares. Era o seu gesto usual quando compunha. Afinal o andador arremeteu com as dúvidas, expeliu da garganta o pigarro matutino, e com a vozinha arrastada como preguiça do Brasil, continuou o diálogo interrompido pela jaculatória às almas. Com que, disse em tom insinuante, vossa reverendíssima julga que o papel não tem cura, e é obra… Dos hereges, dos cristãos-novos, dos inimigos de Deus e da sua glória. Digo, creio e afirmo, irmão Tomé, respondeu frei João, irado». In Luís Augusto Rebelo da Silva, A Mocidade de D. João V, Biblioteca Iniciação Literária, 73, volume I, Livraria Chardron de Lello & Irmão Editores Porto, 1852.

Cortesia de Lello & Irmão/JDACT

sábado, 27 de outubro de 2012

A Mocidade de D. João V. Rebelo da Silva. «A simplicidade era à superfície; mas por dentro tudo era velhacaria. Eis um resumo a vera efígie do Tomé das Chagas, andador das almas, primeiro servente do padre frei João dos Remédios, e sacristão da missa dos domingos e quintas-feiras…»

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«Sobre o enganado pescoço tremia a cabeça do Tomé, cabeça esguia na fronte, alterosa na coroa, e empinada na nuca. Uma peruca insolente arrepiada em molhos, e cor de laranja, caía-lhe aos lados em sanefas e, terminava num bico à flor das sobrancelhas, espavoridas à raiz da mais deprimida testa. Seguia-se a cara do servo de Deus. Imaginem-se dois queixos afunilados, e revirados; sobre os queixos e maçãs do rosto grude-se uma pele cor de coquilho, áspera como lixa; arme-se esta quase caveira de um nariz agudo como ponta de lanceta, ornado do cavalete de rigor; e bem considerado este escândalo de carne e osso, digam todos se acaso seria possível criar Deus uma figura mais exótica e repugnante. Os gestos condiziam com a pessoa. É pecado escarnecer do próximo; mas quem não riria vendo aqueles pés eternos e inchados de cotovelos, com os calcanhares a meia légua de distância um do outro? Quem ficaria sério quando o esqueleto caminhava em passo fúnebre, içado sobre duas pernas de cegonha, volteando os braços com a elegância de um morcego? A todas as outras prendas juntava certo ar à bolina no lado esquerdo e um mau jeito no pescoço.
Enormes óculos de azelha, apertados no nariz, proporcionavam ao devoto a comodidade de frechar a todos com a vista de lince por baixo dos vidros. As canelas embainhavam-se em meias bicolores de lã parda com passagens azuis, tomadas nos buracos numerosos. Calções velhos e sujos, matizados de um xadrez de remendos, cobriam-lhe as delgadas coxas. A véstia, cor de pulga, encolhia-se no encovado peito, para dançar em plena folga sobre o suposto ventre; e o gibão verde-garrafa, já no fio, de uma baeta lanzuda, fugia do corpo ao dono, como os judeus ao fogo do Santo Ofício (maldito).
O Chagas, Deus tinha misericórdia da sua alma, animava as graças da fisionomia com um risinho amarelo e beato. Se alguma coisa merecia o seu agrado, caso raro, ouviam-se em aplauso estrepitoso as suas estrídulas gargalhadas, desafinadas em falsete. Debaixo dos beiços sorvidos encavaleiravam-se os mais negros e limosos dentes, arremetendo pela boca fora. Os olhos vesgos enviesavam-lhe o olhar, e a voz de tiple agro-doce salgava as reticências e momices abeatadas, a que tinha a condescendência de chamar as suas boas maneiras.
Sobre o trajo profano o irmão Tomé pendurava o inseparável balandrau das almas, desbotado e roto, com um registo de S. Domingos e do Rosário cosido à murça, e um relicário de prodigioso tamanho, pendente de vistosas camândulas. Em uma das mãos trazia a salva, representando as almas do Purgatório entre chamas. A outra dava a beijar aos fiéis um nicho de porta de vidro, ralo de mealheiro por baixo, e dentro de S. João Baptista com a ovelhinha. O todo deste embirrento figurão era mais astuto do que boçal. A simplicidade era à superfície; mas por dentro tudo era velhacaria. Eis um resumo a vera efígie do Tomé das Chagas, andador das almas, primeiro servente do padre frei João dos Remédios, e sacristão da missa dos domingos e quintas-feiras no oratório de Diogo de Mendonça Corte Real, secretário das mercês de el-rei Pedro II.
Resta dizer que o lugar da cena era o adro do convento de S. Domingos de Lisboa; e a hora as sete da manhã do dia 20 de Novembro de 1706. Já se vê que o diálogo entre os dois fora matinal. Nossos avós madrugavam, porque seguiam o adágio, não dizia ele: “deita-te ao sol-posto, e ergue-te com as estrelas?” Demais, tendo a provisão do desembargo sobre o bufete, como havia o padre procurador de conciliar o sono? Depois de muitas voltas na cama, levantou-se, chegou à janela, espreitou o dia, e por fim, aos primeiros clarões da aurora, resolveu-se a tomar um banho de ar. Vestiu-se, pegou na provisão, desceu à portaria, e como o Inverno corria seco, daí a instantes tinha o gosto de tiritar de frio.
Deitando os olhos pela praça viu-a deserta. Perto do cunhal fitou os vinte e cinco infaustos arcos, que abriam sobre o Rossio, desde a Bitesga até ao adro do convento, e aumentou-se-lhe a melancolia. Tudo dormia. Nem uma das duzentas lojas portáteis, armadas debaixo deles, aparecia ainda. Ninguém pregava o toldo diante da testada dos lugares, não se movia um adelo, um capelista, ou um fanqueiro a arrumar o pano de linho, as rendas, ou as chitas da sua feira. Os próprios mariolas, tão buliçosos e activos, ressonavam profundamente nas pocilgas. Defronte do primeiro arco, ao murmúrio das águas, o Neptuno do chafariz estendia o seu tridente com marmórea indiferença». In Rebelo da Silva, A Mocidade de D. João V, volume I, Livraria Chardron de Lello & Irmão Editores Porto.

Cortesia de Lello & Irmão/JDACT

domingo, 7 de outubro de 2012

A Mocidade de D. João V. Luís Rebello da Silva. «Nunca me hão-de esquecer os mofinos pavões de ouro que tanto me citou, e que tive a simplicidade de andar procurando na torre do castelo no meio das risadas dos arquivistas…»

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A Mocidade de D. João V
Todos falam, e poucos entendem
«Então, querido abade, exclamou o comendador com jovialidade, ainda teimará que Horácio na sua ode quis citar o patriarca Japhet em lugar do Titão da fábula? Audax
Japeti genus?
 - Meu amigo, cada vez me convenço mais. Depois que nos separámos deparou-me a fortuna um manuscrito precioso em caracteres alemães minúsculos, vulgarmente chamados góticos; folheando descobri nele o comentário de algumas odes do poeta valido de Mecenas... Ora justamente entendeu o glosador do mesmo modo esta passagem... - Que série de prodígios! - gritou Lourenço Telles em ar zombeteiro - Com que o senhor abade viu o livro? Diga-me: e o frontispício tinha araras ou papagaios? Nunca me hão-de esquecer os mofinos pavões de ouro que tanto me citou, e que tive a simplicidade de andar procurando na torre do castelo no meio das risadas dos arquivistas…
Dizendo isto, o velho erudito cheirava pitadas sobre pitadas, batendo com os dedos a compasso de marcha sobre a tampa da sua caixa.
 - O livro existe, senhor Lourenço Telles! - acudiu com aspecto grave o autor da carta a Lúcio Floro, cuja ira se manifestava na cor violeta que lhe invadiu a calva. - Mas os pavões foram-se! - replicou o contraditor cada vez mais contumaz. - Deixe-se de remoques impróprios da sua idade e indignos do respeito que deve aos outros, atalhou o abade, crescendo sobre as imensas tíbias. Vi o manuscrito, sim senhor. Por sinal é um volume de capa de pergaminho e fechos de latão… Não tem araras, nem pavões, mas no rosto poderá admirar-lhe a bela cercadura iluminada, obra de bom mestre… talvez Francisco de Hollanda.
 - Nada! Raphael ou Benvenuto Cellini! - redarguiu o velho sábio com seriedade. Com que viu o livro, pôs-lhe os óculos em cima?... Noto a teima da fortuna. Não há dia em que não lhe dê um alegrão… Chovem manuscritos e araras em o senhor abade errando o seu latim.
E o comendador, esfregando as mãos, recostou-se com ar de mofa na imensa poltrona.
Escusa de tomar comigo esse tom, que me faz dó! — exclamou o investigador das bexigas doidas, corando e erguendo-se com ímpeto para tornar logo a sentar-se. Conhece a placidez do meu espírito e a vaidade dos seus chascos. Torno a repetir: vi o livro; estudei os seus caracteres góticos; e asseguro-lhe que é do tempo dos templários…
 - Justamente! Escrito por Gualdim Paes, que sabia Horácio como um mostre de meninos, e iluminado por Francisco de Hollanda que viveu três ou quatro séculos depois!... Dou-lhe os parabéns, desta vez não ressuscitou os mortos; fez mais que Jesus Cristo, meteu no bolso os seus trezentos ou quatrocentos anos por distracção. Pasmo como ainda lhe não caíram os dentes!... É preciso serem de ferro para mastigar semelhantes pilulas.
O abade colhido em flagrante e aflito agitava-se, mudava de cor, e estendia a mão com solenidade. - Não apanhe um lapso pelos cabelos! - gritou trémulo de raiva - O que eu queria citar era o século dezasseis. O livro existe. Pertence a um amigo meu; mas não sou denunciante: por isso prefiro calar-me.
 - Acho prudente! - redarguiu Lourenço Telles, sacudindo o tabaco da tira com um piparote - Pelo que vejo a raridade desceu da lua e volta para a lua em eu me convencendo de que Horácio chamou hebreu a um Titão!... Pelo amor de Deus! É capaz de jurar sobre umas horas que descobriu a ossada das éguas lusitanas, que os Romanos disseram concebidas do vento… Estou-o ouvindo descrever-me a história autêntica da relíquia.
 - Senhor Lourenço Telles, compadeço-me das trevas do seu espírito. O manuscrito há quem o tenha; fiquemos nisto. Se não acredita, perdoo-lhe a injúria em atenção às suas enfermidades. - Agradeço a clemência!... Jasmin, que horas são? - Uma hora menos um quarto - respondeu o escudeiro, inclinando-se com a bengala e o chapéu do abade ainda nas mãos.
 - Guarde no meu quarto esse capacete eclesiástico, e não se esqueça de arrecadar a taça egípcia da sedutora Cleópatra. Acudiu o latinista com um sorriso em que brincavam mil ironias aceradas - Deus nos livre de que monumentos de tanta estimação se desencaminhem. O museu pode requere-los (11)». In A Mocidade de D. João V, Luís Augusto Rebello da Silva, Obras Completas, PQ 9261, R4M58, 1907, Volume 4, Library University Of Toronto, Setembro 1967, Empresa da História de Portugal, Livraria Moderna, 1907.

Cortesia de Livraria Moderna/JDACT

domingo, 10 de junho de 2012

A Mocidade de D. João V. Rebelo da Silva. «Aos doze anos media a altura de um homem razoável, e tinha a magreza de um galgo; depois dos vinte espigou de modo que fazia recear que nunca acabasse de crescer»


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«Quando muito, o padre-mestre inculcaria cinquenta anos, embora a certidão de baptismo, menos citada por ele do que as ordenações, adicionasse mais cinco ou seis à conta redonda. Apesar de gordo, os seus movimentos não eram acanhados nem desairosos, e a figura tinha mais de vistosa do que de esbelta. O rosto arredondado e cheio, graças a duas covinhas no meio das faces, espiritualizava-se com o riso; e a boca fina e chistosa dava-lhe grande animação. As mãos, bem tratadas e macias, e o pé sempre bem calçado e pequeno, não pareciam de frade. Já se vê, que se vivesse no século, podia contar com o voto feminino, voto absoluto em coisas de tanta importância.
Sem ler Lavater, notar-se-ia que a constante aplicação às letras sagradas e profanas, e o uso do púlpito, tinham gravado em ‘sua reverendíssima’ um cunho particular. As inflexões e os gestos do padre procurador ressentiam-se da exageração teatral, que se converte em segunda natureza para os que falam em público por muitos anos. Seria desempenada a sua estatura, se o trabalho do bufete a não houvesse curvado um pouco. O olhar teria mais viveza, e o sorriso mais agrado, se o primeiro não adormecesse tanto a miúdo, e se o segundo brincasse com menos ironia nos cantos dos beiços. A oscilação do lábio superior, alguma coiso grosso, e a das asas do nariz bastante vivas, mostravam que o frade doutor era menos humilde e paciente, do que pedia o seu estado monástico. Enfim, as grandes entradas de elevada e espaçosa testa, e a ruga de profunda reflexão cavada na fronte, acusavam a agudeza do espírito e do talento, como compensação dos defeitos de um carácter sincero, mas irascível e imperioso.
Mais gordo do que magro, mesmo até mais obeso do que gordo, as cores florescentes do seu rosto prestavam testemunho irrefragável à inclinação pelas doçuras da vida, e sobretudo pelos prazeres da mesa. Fr. João usava de barretinho curto, caído para a nuca. A provisão do desembargo do paço, enrolada na mão, servia-lhe de leque, ou de compasso, segundo a ira lhe fazia subir o sangue às faces, ou lhe descompunha o gesto em accionados violentos. Durante o diálogo que ouvimos, o padre-mestre tinha puxado e repelido o barretinho da nuca para a testa, e da testa para a nuca umas poucas de vezes, batendo o pé com ímpeto. Via-se que o reverendo batalhava com a ira, e que a cólera obscurecia, mais do que fora para desejar, este novo astro da doutrina teológica.
O segundo interlocutor era em tudo o antípoda do sábio jurisconsulto; trinta anos seriam a idade do milagreiro, se caras, como a sua, denunciassem idade possível, ou a deixassem apanhar em flagrante. Era um esqueleto desengonçado, com os ossos sempre em reacção contra a carne. Parecia um paradoxo da figura humana, desses a que a natureza logo quebra o molde, para não multiplicar as cópias.
Aos doze anos media a altura de um homem razoável, e tinha a magreza de um galgo; depois dos vinte espigou de modo que fazia recear que nunca acabasse de crescer». In Rebelo da Silva, A Mocidade de D. João V, volume I, Livraria Chardron de Lello & Irmão Editores Porto.

Cortesia de Lello & Irmão/JDACT

domingo, 6 de maio de 2012

A Mocidade de D. João V. Luís Rebello da Silva. «Os dois eruditos, admirando-se, mal puderam conter o riso contagioso. O abade achando na idade de Lourenço Telles a sátira das suas incorrigíveis elegâncias; o comendador colhendo em flagrante sob a cor de lagosta das segundas meias, e o quase escândalo dos calções funis, a tíbia aflautada e a coxa diminuta do venerando crítico»



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In Memoriam de MLAC

A Mocidade de D. João V
Todos falam, e poucos entendem
«Faltavam vinte minutos para a uma hora da tarde, hora improrrogável marcada por Lourenço Telles aos comensais que tinha convidado. O erudito saía do seu quarto, viçoso como a Primavera, menos na frescura do rosto, cujas rugas contumazes pareciam o eterno cartaz dos anos. A preciosa renda dos punhos e da tira nada tinha a invejar na alva finura ás riquíssimas valencianas das duquesas do grande século. Os bordados e recamos da vestia de cetim azul celeste podiam sair do bastidor em que se lavraram os ramos de flores com que se enfeitou, em gala real, o peito de Luiz XIV, quando no orgulho de mancebo e de monarca escolhia o sol para divisa do seu esplendor. O feitio francês, a elegância do corte e da costura, a profusão das jóias e a magnificência do estofo, faziam de Lourenço Telles o réu de lesa-pragmática mais público e impenitente, não havendo um só artigo das severas leis económicas de Pedro II, que o seu trajo não deixasse de infringir.
Encontrando-o, Vattean dar-lhe-ia a imortalidade do seu pincel espirituoso. As damas mais caprichosas teriam de confessar com dor a primazia das essências usadas por ele nas roupas e no penteado. Frisada em canudos simétricos, a cabeleira, com as bolsas apanhadas em nós de fita cor de rosa, chamados laços de amor, caía com artificiosa graça, lambendo a testa, e acompanhando as faces.
Os sinetes de rubis dos dois relógios, os botões de brilhantes dos punhos, e a espiguilha admirável da gravata, fariam empalidecer de inveja qualquer dos fidalgos moços e presumidos da roda do príncipe real. Finalmente o espadim de copos cravejados e bainha de veludo bordado, apresentava uma folha de Toledo, que o capitão Jerónimo quereria ver montada com menos riqueza, e mais segurança, achando-a capaz de defender o coração de um soldado.
Apenas chegou ao escritório, revestido das maneiras corteses da escola de outro tempo, o comendador deu com os olhos no abade Silva, de pé, em hábitos maiores, entretido a folhear um livro, sem se esquecer de extasiar os olhos na ocasião própria. Regulando-se pelo exemplo do seu douto amigo, o autor das façanhas de Viriato não omitira uma só das preciosidades do guarda-roupa ou museu doméstico. Era uma verdadeira tabuleta de antiguidades. A meia de seda preta mostrava um lavor aberto, que mal interceptava o roxo claro da segunda meia unida á pele. O calção, laçado por cima do joelho e recamado nas costuras, estava tão justo, que deixava recear algum desastre. Nas fivelas dos sapatos brilhavam pedras de valor. À volta do pescoço formava um arabesco serpentino; os cinco sinetes pendentes de esdrúxulas cadeias assemelhavam-se ás numerosas correntes de um lampadário. Curta e de requifes, a capa ouriçada de folhos na murça, com guarnições de vidrilhos pretos, dava-lhe a aparência suspeita de um toureador castelhano. Sobre tudo a prodigalidade de estupendos camafeus que semeara com ostentação, e os desusados anéis romanos, egípcios ou hebreus que metera em todos os dedos, compunham uma panóplia singular dentro da qual esticava comprimido, mas sempre solene, sentencioso e engomado, o delicioso inventor do livro dos pavões!
Os dois eruditos, admirando-se, mal puderam conter o riso contagioso. O abade achando na idade de Lourenço Telles a sátira das suas incorrigíveis elegâncias; o comendador colhendo em flagrante sob a cor de lagosta das segundas meias, e o quase escândalo dos calções funis, a tíbia aflautada e a coxa diminuta do venerando crítico. O tio de Filipe da Gama, à parte a justa modéstia, reputando-se menos seco e muito mais vistoso, dava interiormente a si mesmo os parabéns por conservar todas as suas perfeições, opróbrio do Aristarco eclesiástico!
Jasmin, seguindo seu amo, tomou conta do tricórnio de borlas verdes e torçal de ouro do comendador das barbas históricas, recebendo ao mesmo tempo de suas mãos uma bengala, cujo castão raríssimo (dizia ele) não conhecia rival em toda a Europa, sendo a autêntica e vera taça egípcia em que a formosa Cleópatra bebera as pérolas desfeitas no banquete de Marco António. Na realidade o feitio não desmentia a versão. O que quer que era, que o abade chamava taça, tinha uma tampa de lavores, e abrindo -se patenteava certa cavidade, aonde o latinista incrédulo observou que se poderiam acomodar até seis pastilhas contra a tosse. O peso e as dimensões deste monumento mais o classificavam entre as clavas ou maçãs de armas, do que entre os canónicos e pacíficos bastões de uma coluna da igreja doutoral (8)». In A Mocidade de D. João V, Luís Augusto Rebello da Silva, Obras Completas, PQ 9261, R4M58, 1907, Volume 4, Library University Of Toronto, Setembro 1967, Empresa da História de Portugal, Livraria Moderna, 1907.

 
Cortesia de Livraria Moderna/JDACT

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A Mocidade de D. João V. Rebelo da Silva. «Quando valia a pena, S. Rer.ª fechava-se na riquíssima livraria do convento, cobria de letra garrafal quatro cadernos de papel, e disparava sobre a parte adversa uma alegação, que fazia pular as venerandas cabeleiras do desembargo do paço»

Cortesia de leloeirmao

«Nos finais do primeiro quartel Do século XIX, mais precisamente a 2 de Abril de 1822, nasceu em Lisboa, onde também viria a falecer a 19 de Setembro de 1871, o grande polígrafo Luís Augusto Rebelo da Silva. Estudou Humanidades em 1838, ingressando ao mesmo tempo na Sociedade Escolástica Filomática. Seguidamente matriculou-se em Matemática na Universidade de Coimbra, cujo 1º ano frequentou, mas que grave doença o obrigou a abandonar. Mostrando grande propensão para as letras, aos 18 anos estreou-se com o romance histórico “Tomada de Ceuta”. Espírito muito vivo, Herculano franqueou-lhe a Biblioteca da Ajuda, onde o moço escritor se entregou apaixonadamente a investigações e estudos históricos. Assim é que em 1842 publicou o seu segundo romance, “Rauço por Homizio”, a que se seguiu, em 1848, “Ódio Velho não Cansa”, que dedicou a Alexandre Herculano. Mas é ainda neste mesmo ano que surgiu a sua primeira obra de grande fôlego, “A Última Corrida de Touros em Salvaterra”, traduzida em inglês por Edgar Prestage e, em 1852, “A Mocidade de D. João V”, sua obra-prima, que ora se edita.
Uma novela de caracteres e de costumes, cujo plano conserva na pasta há muitos anos, e se tem ido formando e amadurecendo no espírito apesar de outras preocupações, seguirá de perto esta edição da ‘Mocidade’. O fundo histórico, a época da acção, será ainda o reinado de João V, mas de João V mais velho, mais homem, mais absoluto no poder, e mais formado no carácter e nas paixões.

A verdade de um rifão
Ninguém diga: eu desta água não beberei. Não somos nada deste mundo, padre procurador. É verdade, Tomé das Chagas. Mas que quer? Os pecados pagam-se. E eu sem pregar olho toda a santíssima noite para nos sair uma destas! Os nossos padres como estão? Mortificadíssimos! Isto apesar de toda a grandeza de alma sempre chega ao vivo. Decerto! E o excomungado papel, não há meio de lhe acudir? A provisão do desembargo do paço? Não sei, por mais que cisme. É ‘Caesar in Caesare’ É ir de el-rei para el-rei! Como os padres de S. Roque não rirão a esta hora! Pois eles têm nisso alguma coisa? Tudo, irmão Tomé; Vossa Mercê não percebe? A pedra veio daquelas mãos; e os padres da Companhia atiram certo. Não importa! O jogo não acabou, e até ao lavar dos cestos é vindima…

Cortesia de leloeirmao

Ora esta! Com que então os jesuítas andam no forro desta heresia? Andam em tudo, irmão Tomé. Nestes reinos nada se faz que eles não cubram com a sua roupeta. Parece impossível! Até no desembargo do paço?!... Em toda a parte. A Companhia aparece à cabeceira de el-rei, se está doente, no seu oratório, se reza, á mesa dos tribunais, se despacha… Mas então é como Deus, está em toda a parte? Sabe e aconselha tudo. Só na Santa Inquisição (maldita, jdact) é que não meteu por ora o braço, nem há-de meter, enquanto florescer a Ordem dos Pregadores, instituída para confusão dos hereges e hipócritas… Belo texto para o meu primeiro sermão na capela real. Que me refutem os seus casuístas e doutores!... Só lhe digo, irmão Tomé das Chagas, que o plano dos jesuítas, o negro e maldito plano deles…Jesus da minha alma! É abolir a Santa Inquisição (maldita), e enterrar nas suas ruínas a Ordem de S. Domingos. A inveja rala-os. Por isso as profecias são tantas, e o povo anda inquieto. Sabe V. Reveren.ª o que dizem? Que há-de nascer em Babilónia o Anticristo! E é certo que para as bandas da Sé já apareceu um lobisomem; que ao pé de Santa Engrácia se queixam os vizinhos de verem sair à meia-noite… Um … parvo como eles e V. Mercê. Pois atreve-se com essa chocha cabeça a querer perscrutar os altos mistérios de Deus? O Anticristo nasceu. Santa Bárbara! S. Jerónimo! ‘Abrenúncio! Vade retro!’ Cale-se, homem. Que escarcéus são esses? A culpa é minha. Para que lhe estou eu a falar de coisas superiores à sua razão? Deixemo-nos disto. Mas a provisão, esta pedrada na cabeça, havemos de ficar com ela? Uma esmolinha por alma dos fiéis defuntos, minha devota! gritou o sr. Tomé, interrompendo ‘ex-offício’ o diálogo, já cortado pela súbita meditação em que o padre mestre se abismara.
Enquanto este, preocupado, passeia falando só, e aquele apara a esmola na bandeja mareada, observemos de perto os protagonistas da cena.

Cortesia de diasquevoam

Principiaremos pelo mais graduado.
O mestre Fr. João dos Remédios, da Ordem de S. Domingos, ex-definidor e digníssimo procurador do convento de Lisboa, era um frade de conceito na corte e na igreja. A opinião dos eruditos vacilava entre ele e o pe. Chagas, pregador de grande fama. Se o pe. Chagas limava melhor os sermões e possuía o segredo de comover o auditório, Fr. João não conhecia émulo na veemência dos afectos e nas explosões da voz sonora. Formado ‘in utroque jure’, no foro granjeara a reputação de um segundo Pegas.

Quando valia a pena, S. Rer.ª fechava-se na riquíssima livraria do convento, cobria de letra garrafal quatro cadernos de papel, e disparava sobre a parte adversa uma alegação, que fazia pular as venerandas cabeleiras do desembargo do paço, enquanto as unhas ao douto patrono contrário, roídas até aos sabugos, atestavam o seu dissabor». In Rebelo da Silva, A Mocidade de D. João V, volume I, Livraria Chardron de Lello & Irmão Editores Porto.

Cortesia de Lello & Irmão/JDACT

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Rebelo da Silva: «Figura» destacada do Romantismo português, historiador, romancista, dramaturgo e crítico literário. Discípulo e amigo de Herculano, trabalhou com ele na Biblioteca da Ajuda e imitou-o na prática do romance histórico

(1822-1871)
Lisboa
Cortesia de wikipédia

Luís Augusto Rebelo da Silva foi um jornalista, historiador, romancista e político português, colaborador activo de múltiplos periódicos e membro das tertúlias intelectuais e políticas lisboetas da última metade do século XIX. Foi um dos primeiros professores do Curso Superior de Letras, fundado em 1859 por D. Pedro V, leccionando a cadeira de História. Colaborando em múltiplos jornais e revistas, Rebelo da Silva afirmou-se como o mais prolífico dos escritores românticos portugueses, distinguindo-se ainda como orador e político.

Cortesia de lusolivros
Na senda de Alexandre Herculano e de Almeida Garrett, com os quais privou, publicou um vasto conjunto de obras sobre História de Portugal, com destaque para «História de Portugal nos Séculos XVII e XVIII», «Memoria sobre a População e a Agricultura de Portugal» e uma série de romances históricos à maneira de Alexandre Herculano. Embora de tema mais recente, localizado na fase inicial da Guerra Peninsular, obteve grande êxito o seu romance histórico «A Casa dos Fantasmas».

Cortesia de avozportalegrense
Também se deve a Rebelo da Silva um dos contos clássicos da literatura portuguesa, «A Última Corrida de Touros Reais em Salvaterra». Baseado num marcante episódio da História de Portugal e publicado em 1848, este conto está na origem de múltiplas obras posteriores, entre as quais o famoso fado de que é epónimo.
Contudo, as suas obras mais marcantes são a «A Mocidade de D. João V», um êxito literário e de vendas que o próprio autor adaptou ao teatro com a colaboração de Ernesto Biester, e a sua obra-prima «Lágrimas e Tesouros», publicada em 1863.

Cortesia de arquivohistoricomadeira
A maioria da sua obra foi inicialmente publicada nos múltiplos periódicos em que colaborou, com destaque para O Cosmorama Literário, a Revista Universal Lisbonense, O Panorama, A Época e a Revista Contemporânea de Portugal e Brasil. As suas Obras Completas incluem também um estudo em três volumes sobre a Arcádia Portuguesa, uma Memória biográfica e literária acerca de Manuel Maria Barbosa du Bocage e múltiplos outros trabalhos em que a crítica literária é o esteio fundamental, entre os quais «Apreciações Literárias», uma recolha póstuma, feita pelos editores, de textos dispersos pela imprensa da época.

As suas Obras
  • A Casa dos Fantasmas (Volume I);
  • A Casa dos Fantasmas (Volume II);
  • Contos e Lendas;
  • Varões Ilustres;
  • Odio Velho Não Cansa;
  • História de Portugal dos Séculos XVI e XVII;
  • Fastos da Igreja;
  • Rauço por Homizio.
«Publicou abundantemente sobre Literatura, e fê-lo de acordo com os padrões da sua época: desde a diferença primacial entre Poesia e Prosa até aos géneros dominantes entre o público seu coetâneo (Romance e Teatro), não hesitou em escrever História literária e política enquanto se ocupava dos acontecimentos do quotidiano (estreias, óbitos), sempre atento às adjacências ainda hoje usuais (Jornalismo e Politica). As suas Obras Completas (41 vols., Empreza de História de Portugal, Lisboa), datadas de1909, incluem também um estudo em três volumes sobre a Arcádia Portuguesa, uma Memória biográfica e literária acerca de Manuel Maria Barbosa du Bocage, bem como vários outros trabalhos em que a literatura é fundamental; em aprticular, Apreciações Literárias, uma recolha póstuma (em três volumes) feita pelos editores, de textos dispersos pela Imprensa da época, incluindo mesmo (no volume III) um estudo sobre o Infante D. Henrique que, os próprios editores o admitem, aí figura apenas por conveniência de paginação. Entre as apreciações, encontramos o cânone consensual, ou quase, das Letras portuguesas de meados de Oitocentos: Garrett (com quem debateu no Parlamento) e Herculano (com quem conviveu de perto na Biblioteca da Ajuda), Lopes de Mendonça (qua crítico) e já Camilo Castello Branco e Bulhão Pato». In Centro Virtual Camões, Carlos Leone.

In Contos e Lendas
Cortesia de Martim Maqueda (tinta da china, 1985)

Cortesia do Centro Virtual Camões/wikipédia/JDACT