domingo, 11 de abril de 2021

Poesia. Sonetos. Monforte. «Busquei-te no deserto longamente... Como Rebeca outrora, condoída, surgiste, calma, na poeira ardente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Velho Motivo

«Soneto de Jacob, pastor antigo,
soneto de Raquel, serrana bela...
Oh! quantas vezes o relembro e digo,
pensando em ti, como se foras Ela!

O que eu servira para viver contigo,
tão doce, tão airosa e tão singela!
Assim, distante do teu rosto amigo,
em torturar-me a ausência se desvela!

E vou sofrendo a minha pena amarga,
pena que não me deixa nem me larga,
bem mais cruel que a de Jacob pastor!

Raquel não era dele, e sempre a via,
enquanto que eu não vejo, noite e dia,
aquela que me tem por seu senhor!»

No Deserto
«Chegaram os camelos junto ao poço,
Quando Rebeca tinha a urna cheia.
Foram momentos esses de alvoroço,
Bem raros de encontrar em terra alheia.

Também meu coração, menino moço,
Nos cardos do caminho se golpeia.
Ouço-te os passos, dentro de alma eu ouço
O eco dos teus passos sobre a areia.

Busquei-te no deserto longamente...
Como Rebeca outrora, condoída,
Surgiste, calma, na poeira ardente.

De ânfora baixa, à boca da cisterna,
Ficaste assim, para toda a tua vida,
Matando a minha sede, que é eterna!»
Sonetos de António Sardinha, in CHUVA DA TARDE, 1923

Cortesia de PVercial/JDACT

António Sardinha. Alto Alentejo, Poesia, Monforte, A Arte, 

Poemas. «Eu sei que não se ama sozinho, talvez, devagarinho, possas voltar a aprender. O que a gente faz agora? Quando já não há o que falar, apaga a luz, deixa somente a dos teus olhos…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Amar pelos dois

«Se um dia alguém perguntar por mim
Diz que vivi pra te amar
Antes de ti, só existi
Cansado e sem nada p’ra dar

Meu bem, ouve as minhas preces
Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Meu bem, ouve as minhas preces

Peço que regresses, que me voltes a querer
Eu sei que não se ama sozinho
Talvez, devagarinho, possas voltar a aprender

Se o teu coração não quiser ceder
Não só ter paixão, não quiser sofrer
Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

Poema de Luísa Sobral, in Universal Music Publishing Group

O que a gente faz agora

«O que a gente faz agora?
Quando já não há o que falar
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos
P’ra me acender

Sonhos pelo céu-da-boca
Qual estrela deve ser você?
Na imensidão
Onde a paixão da gente mora

Num beijo seu
Num sonho meu
Será que o nosso filme tem final feliz?

E aconteceu
Você e eu
Ninguém sabe dizer como você me diz
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos

O que a gente faz agora?

Quando já não há o que falar
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos
P’ra me acender

Sonhos pelo céu-da-boca
Qual estrela deve ser você?
Na imensidão
Onde a paixão da gente mora

Num beijo seu
Num sonho meu
Será que o nosso filme tem final feliz?

E aconteceu
Você e eu
Ninguém sabe dizer como você me diz
Apaga a luz
Deixa somente a dos teus olhos

O que a a gente faz agora?»

Poema de Marina Elali e de Carlos Falcão, in Midia Hits Ltda

Cortesia de Wikipedia/MHits/UMPGroup/JDACT

JDACT, Marina Elali, Luísa Sobral, A Arte, Poesia, 

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «Enviarei, sem remetente, uma poesia ao Pirahí. Trabalharei as quadras ao gosto do tempo, misturando fanatismos de amor, palpites de morte, melancolia de Outono…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

Piraí, sede de O Pirahí. Março de 1893

«(…) Deus levou Nicota numa tarde de Verão. Seu rosto expressava tristeza serena. Ela morreu com essa tristeza. Morreu quietamente, como se cala um passarinho ao fim do seu bem voado dia. Depois que acabou o estertor e o corpo se esvaziou, dizem que remoçou: linda, novamente. Deus seja louvado por essa graça. O próprio cura, tio da moça, não queria acreditar, pois ungiu-a hesitante, como se ungisse a própria mãe. No dia em que o enterro saiu, a condessa adormecida num caixão com alças de bronze, a família, os amigos, os ex-escravos, criados e empregados da fazenda, todos faziam as mesmas perguntas. Porque nunca teve descendência, quando tantos sobrinhos, crianças e jovens seguiam o cortejo? Porque se casou com o estrangeiro, quando irmãos e irmãs se uniram aos primos e tios como era tradição na terra? Alguém lhe viu a alma sair do corpo? Deixou qualquer sinal? Para mim, Nicota foi só qualidade. Ninguém lhe pronunciava o nome sem emoção. Alegre, respeitada, caridosa, seu riso nunca foi licença. Todas as bocas mastigaram orações por sua alma. O cortejo entoou O Senhor amado. Cantei junto.

Dor tranquila e sombria a do viúvo. Afinal, a morte era a morte. O conde russo, por sua vez, arrastava uma reputação sulfurosa. Rumores o cercavam. Não faltava curiosidade sobre o prestígio do seu título, sua liberalidade, as intrigantes viagens a Paris, de onde voltava para sacudir letargias. Caloroso, ele agradava, seduzia. Acenando com a ideia de um grande amor, tirou Nicota da gaiola. Mas foi só para jogá-la na tristeza, comentava o povo no cortejo do enterro. Serei eu a fazer o necrológio para o jornal de Piraí. O que contar? Queria dizer que essa foi a história de uma esposa infeliz, de um marido infiel e de sua amante. De infidelidades feitas de feridas minúsculas, de humilhações, de remorsos e solidão. Do uso e abuso de máscaras. Infidelidades feitas não só de deslealdade amorosa, mas de mentiras. Mentiras sobre quem se é. Mentiras sobre de quem se gosta. As dele, as dela. Mas na pedra do túmulo vai estar escrito: Tributo do amor conjugal. Essa é uma história triste, sobre a qual todos acham que sabem muito. E nada ou quase nada conhecem. Vontade de embebedar-me. Brindar à morte, talvez, murmurando: Celebrarei na minha flauta amena, teus olhos, morena. Hei-de procurar em Musset ou Byron algumas linhas que falem da dor da perda. Perda de um coração de ouro. Enviarei, sem remetente, uma poesia ao Pirahí. Trabalharei as quadras ao gosto do tempo, misturando fanatismos de amor, palpites de morte, melancolia de Outono e tristezas da separação. Feita de versos gastos, será minha homenagem anónima:

É chegado o momento de partir

Dor e luto se apossam do meu ser

Longe de ti, ó anjo feiticeiro

A vida é treva, não posso viver.

A bordo do Équateur, Novembro de 1864

Chère Maman

Estou saudoso. Lembro-me de lhe dar o braço até à rua Daru. No frio Inverno, os oito braços das cruzes apoiados em meias-luas, as flechas e os bulbos dourados da igreja de São Alexandre Nevski guiavam o nosso caminho. Reunidos com a mais profunda veneração na cela do seu guia espiritual, fomos abençoados pelo homenzinho magro de olhos brilhantes. À frente de numerosos ícones de revestimento cintilante, uma Virgem de grandes dimensões e reproduções de pintores italianos, se prosternou aos seus pés, cabeça no chão, à russa. Que grande santo esse starets! Aliviou minha alma e lhe beijar as mãos descarnadas. Maman, reze por mim e para que essa viagem me traga o tesouro que procuro. Graças à conjunção de vapor e vela, o Équateur entra, rapidamente, nas águas do Brasil. O Cruzeiro do Sul cintila entre farrapos de nuvens. Respiro o cheiro das matas tropicais. É diferente do odor das nossas florestas de pinheiros, da imensidão dos campos de feno cobertos de um véu azul que parece preso ao céu por pregos prateados. Longe da agitação de Paris, mergulho no silêncio das noites no Hemisfério Sul. Silêncio só quebrado pelo riso de Vera e Luís César na cabine ao lado. Ah, os recém-casados! Tranquilize-se. O diplomata brasileiro faz minha irmã feliz!» In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Mary del Priore, Literatura, Narrativa,

Beije-me onde o Sol não Alcança. Mary del Priore. «Quem não se lembrava da jovem de longos cabelos, olhos grandes, mãos e pés de fada, arrebatada pelo estrangeiro? Há vidas mortas, mas não esquecidas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Fazenda Bela Aliança. Março de 1893

«(…) Quem está ao pé do leito se curva, une as mãos, se abraça, troca palavras com Maurice. Fragilizados pelo meu fim próximo, vão encontrar reconforto nos gestos e palavras, fortificando o mundo dos vivos. Tais ritos protegem os que ainda estão nele. Bruscamente compreendi: como são importantes, uns para os outros, aqueles que seguem vivendo. Não, não haverá milagre, nem vou sentar no caixão como fez a moça que julgavam finada, na matriz de Nossa Senhora das Dores de Piraí. Fecharei os olhos para sempre. Hoje mesmo. Agora, tudo escuro. Frio. Muito frio. O Senhor é meu Pastor, nada me faltará. Mal consigo acompanhar as preces e mexo os lábios com dificuldade. As palavras não têm som. Sinto os toques da extrema-unção: nos olhos, orelhas, nariz, boca e mãos, instrumentos do pecado. Quero despedir-me de Maurice. Dizer-lhe que o amei. Não, que o amo. Mas o odeio, também. O amor: foi mais fácil fazer do que viver. Beije-me, Maurice, beije-me Maurice, beije-me onde o sol não alcança. Silêncio. Mais frio. Novamente, a boca que mais parece um buraco negro.

Piraí, sede de O Pirahí. Março de 1893

Eu a conhecia desde criança. Nascida Ana Clara Breves Moraes, Nicota, condessa Haritoff, neta do barão de Piraí, fechou os olhos. Jovem, tinha quarenta e três anos ao falecer. Do que morreu? Falaram muito: tristeza, histeria, envenenamento. O corpo frágil, pois Nicota era miúda, foi repousar no cemitério da família, na fazenda Três Saltos, a sede dos potentados da região. A pequena colina coberta de túmulos ao lado da igreja particular, dedicada a São Joaquim, dorme tranquila, abraçada aos seus mortos. Piraí e seus arredores se cobriram de luto. Da serra do Sinfrónio a São João Baptista do Arrozal, de Rio Claro a São João da Barra, de Vassouras a Valença, os sinos chamaram para as missas em sufrágio da sua alma. Às margens do rio Piraí, rio dos peixes ou do Paraíba, mar ruim, à hora das avé-marias, recomendou-se a falecida à ultima misericórdia. Alfaiates, seleiros, sapateiros, ferreiros, boticários, bilhares e até fogueteiros fecharam suas portas na cidade. Casas de secos e molhados fizeram o mesmo. Nos becos do Gil, do Alexandre, do Camarão, as mulheres emudeceram e rezaram o terço. A família distribuiu esmolas entre os mais pobres. Era o costume. Em toda a parte, a gente perguntava: o que a levou?

Quem não se lembrava da jovem de longos cabelos, olhos grandes, mãos e pés de fada, arrebatada pelo estrangeiro? Há vidas mortas, mas não esquecidas. Nicota cresceu nos terreiros de café, brincando com as molecas, festejando São João, bordando roupinhas para o Menino Jesus da matriz de Sant’Ana. Vi seus peitinhos nascerem atrás da camisa e, depois, vir a doença. Todos conheciam a filha do coronel de polícia Silvino José, a irmã do futuro visconde de Benevente, a sobrinha dos reis do café, Joaquim José e José Souza Breves. O avô virou barão de Piraí vinte anos antes do casamento de Nicota com o conde russo. Embora ostentassem títulos, os membros da família tinham raízes nas classes mais humildes dos lugares de onde saíram para o vale fluminense, e, apesar de ostentarem fulgurantes brasões, eram oriundos das periferias. Não vieram de mais que as terceiras, quartas ou quintas linhas da pequena nobreza portuguesa. Muitos queriam esquecer as suas próprias origens. Delas despontavam avós negras e cativas.

O primeiro deles a chegar à região de São João Marcos foi o patriarca António Souza, que adoptou por alcunha familiar o Breves, e ficou conhecido por António Cachoeira. Ele é o tronco dos dois ramos que, posteriormente, de forma curiosa, se denominavam e separavam pela riqueza, com os epítetos de Breves Graúdos e Miúdos. Ainda que, pela força da origem insulana, fossem todos miúdos. Todos descendentes de Maria Oliveira, mulher solteira, e de pai incógnito.

O pai, coronel Silvino, mandava em todos, do padre à força policial, e se encarregava de manter a ordem nas terras da família. Negro fujão, quilombola, ladrão, roubo de gado, invasão de terras? O couro comia. Protegia o comércio de víveres e escravos feito pelo cunhado, Joaquim Breves, do litoral de Marambaia e Itacuruçá para o alto da serra. Contrariá-lo, ninguém se atrevia. Sua mulher, Ana Clara, era um dos nove filhos sobreviventes de quinze, dos barões de Piraí. Bela? Não. Um rosto oval, regular e severo emoldurado pelos cabelos em trunfa. A boca era um traço descendente. O casal possuía três fazendas, Bela Aliança, Botafogo e Bela Vista, em Piraí, além de cinco sítios. Muito feio, Silvino tinha uma cabeça simiesca, olhos apertados, lábios grossos e grande distância entre o nariz e a boca, cabeça que repousava sobre um tronco atarracado. Além de Nicota, tiveram mais cinco filhos: José Feliciano, a graciosa Cecília, Caetano, Manuel Eugênio e Rita Belmira». In Mary del Priore, Beije-me onde o Sol não Alcança, 2015, Editora Planeta, 2015, ISBN 978-854-220-588-6.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Mary del Priore, Literatura, Narrativa, 

sábado, 10 de abril de 2021

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«(…) Neste período, o lugar de Vale de Figueira, e a sua ermida, pertenciam à paróquia e freguesia de São Vicente do Paúl. Entretanto, o crescimento populacional, necessidades de ordem pastoral, e as inspirações do Concílio de Trento, alteraram este quadro.

O nascimento de uma paróquia (1571)

Num manuscrito conservado no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa (Expediente 1848, Caixa 1) encontramos um treslado, com a data de 12-04-1848, realizado a partir de um documento antigo, no qual se relata as circunstâncias da criação da paróquia de Vale de Figueira (Anexo I). De acordo com este testemunho, a freguesia de São Domingos de Vale de Figueira foi desmembrada da de São Vicente do Paúl por ocasião da visitação feita pelo licenciado Marcos Teixeira no ano de 1570. Esta alteração administrativa e de fronteiras chocou, naturalmente, com inúmeras resistências, colidindo com privilégios e direitos adquiridos, e hábitos seculares. A decisão do visitador foi por isso contestada por Pêro Costa, Prior de São Vicente do Paúl, no Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa, que escutou também os moradores de Vale de Figueira. Esgrimindo as partes argumentos contrários, que o treslado documenta, consideremos as razões apresentadas pelos habitantes de Vale de Figueira, naturalmente favoráveis à criação da paróquia. Em primeiro lugar, lamentavam-se estes da distância que tinham de percorrer para poder assistir às celebrações na Matriz de São Vicente, dificultosa sobretudo para as pessoas de mais idade e para as mulheres. Em segundo lugar, deploravam não serem assistidos devidamente pelo Prior de São Vicente, especialmente por ocasião de cheias no rio Alviela, que inundavam a ponte de pedra, ainda hoje existente, impedindo a passagem para a Matriz de São Vicente, e impossibilitando a participação nos sacramentos, com dano para as crianças, que ficavam por baptizar, e para os defuntos, que não tinham enterro condigno. Depois de ouvir as partes, o Tribunal da Relação Eclesiástica de Lisboa confirmou a decisão da visitação por Carta de Sentença dada a favor dos fregueses da Ermida de São Domingos de Vale de Figueira, publicada pelo Doutor João Lorena Homem, Desembargador, em audiência de 16 de Agosto de 1571, e lavrada a 12 de Dezembro do mesmo ano. Em todo o caso, embora podendo levantar pia baptismal na Ermida de Vale de Figueira, a nova paróquia permanecia com estatuto de curato filial da Matriz de São Vicente, ficando responsável o Prior de São Vicente por nomear o cura da paróquia de Vale de Figueira, que dele dependia, situação que se conservou até 1834, conforme o documento que vimos a comentar. Depois da criação da paróquia, os moradores de Vale de Figueira não apenas levantaram a pia do baptismo, sinal indelével da sua autonomia, como se começaram a organizar para ampliar o espaço de culto, erguendo a Igreja Matriz no lugar da ermida.

A edificação da Igreja Matriz

A Igreja Matriz de Vale de Figueira, dedicada a São Domingos de Gusmão, encontra-se edificada em situação altaneira, em plataforma artificial formando um adro fechado por muro em alvenaria, junto ao principal eixo viário da povoação. Desconhece-se a data da sua edificação, mas as características formais do edifício, projectado em estilo-chão, permitem-nos enquadrar a sua construção no decurso do século XVII. A igreja estaria pronta nos começos do século XVIII, quando recebe, em 1708, o retábulo-mor e os retábulos laterais, entalhados e dourados, bem como o cruzeiro paroquial, edificado no centro da escadaria principal de acesso ao adro, conforme as inscrições patentes nestes bens». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

JDACT, Tiago Moita, São Domingos de Vale de Figueira, Património, Cultura, Santarém,

A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém. Tiago Moita. «Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão»

Cortesia de wikipedia e jdact

História e Património

«A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, concelho de Santarém, oferece aos seus visitantes a presença de um património artístico de grande interesse. Para além da arquitectura do seu templo, inclui numerosíssimas peças de vários géneros artísticos, desde imaginária em madeira, terracota, e marfim, pintura a óleo e a fresco, retabulística, azulejaria, paramentaria, mobiliário, pratas e alfaias litúrgicas, entre outras. Significativamente, parte deste património é oriundo do antigo Convento de Santa Maria de Jesus de Vale de Figueira, da Província da Arrábida, fundado no século XVII por Henrique de Portugal, e sua mulher, dona Ana Ataíde, e extinto em 1834, na sequência da revolução liberal.

O património religioso de que aqui falamos tem vindo a ser beneficiado na última década com intervenções de conservação e restauro, quase sempre realizadas por profissionais qualificados e respeitadores das boas práticas, que lhe têm vindo a devolver valor e autenticidade. Estes trabalhos de beneficiação não seriam possíveis sem a sensibilidade da comunidade local, e da sua enorme generosidade, que fazem de Vale de Figueira um caso singular no que respeita à salvaguarda patrimonial. Entendemos que a recém-valorização deste conjunto de obras de arte impõe agora a necessidade de um estudo sistemático e da sua divulgação. Este livro visa cumprir esse objectivo, analisando o património artístico da Igreja de Vale de Figueira sob o ponto de vista da História da Arte, sensibilizando as pessoas para a sua fruição, não apenas enquanto peças ligadas ao culto, mas como autênticas obras de arte que se devem estimar e apreciar. A análise empreendida segue, naturalmente, a metodologia própria da História da Arte, integrando a investigação dos arquivos (em muitos casos, trazendo à luz documentos inéditos), os dados resultantes das intervenções de conservação e restauro, e o estudo estilístico, iconográfico e comparativo das obras de arte.

Importa referir que embora praticamente desconhecido no contexto da historiografia da arte portuguesa, o património de arte sacra da paróquia de São Domingos de Vale de Figueira mereceu referências pontuais em publicações científicas que devemos mencionar. Em primeiro lugar, encontram-se as notícias de Gustavo Matos Sequeira no tomo do Inventário Artístico de Portugal da Academia Nacional de Belas Artes dedicado ao Distrito de Santarém, de 1949, com um recenseamento superficial das existências. Os demais estudos dignos de registo são sobretudo análises sectoriais, referentes ao património azulejar e retabulístico da igreja. No que se refere ao primeiro destacam-se as palavras de João Miguel Santos Simões, na obra pioneira Azulejaria em Portugal no século XVIII, publicada em 1979, sem esquecer o recente contributo de Maria Rosário Salema Carvalho, na sua tese de doutoramento, ainda inédita (Carvalho, 2012, Anexo B: 1260-1267). No campo da retabulística merece referência o estudo colectivo orientado por Irina Crina Anca Sandu (2012), com uma análise multidisciplinar das técnicas e materiais utilizados no douramento do retábulo-mor e dos retábulos laterais.

Permanecendo no terreno da conservação e restauro, sublinhe-se o artigo de Carlos Costa (2017) sobre o restauro da escultura com a imagem do padroeiro, São Domingos Gusmão. Para além destes trabalhos, registe-se a ficha de inventário do património arquitectónico do SIPA/IHRU com o número IPA.00006781, da autoria de Paula Figueiredo, e o inventário dos bens móveis realizado pela Comissão Diocesana para os Bens Culturais da Igreja, da Diocese de Santarém, elaborado por Eva Raquel Neves. Embora apoiado nos estudos destes pesquisadores, o presente livro resulta, sobretudo, de um estudo aturado de novas fontes de informação, em alguns casos virgens de aproveitamento e ricas de informação histórica e artística, e da investigação pessoal.

Embora os primeiros registos de ocupação humana no território que hoje é conhecido como Vale de Figueira, no concelho de Santarém, nos reportem a períodos recuados do Paleolítico, do Calcolítico, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e da época Romana, que se localizam especialmente no campo arqueológico de Chões de Alpompé, é somente nos começos do século XIV que vamos encontrar referências explícitas a um pequeno povoado no lugar de Vale de Figueira, no termo de Santarém. Nascido provavelmente à sombra das numerosas quintas e casais que vieram a existir neste espaço, propriedades das elites urbanas, continuará a crescer ao longo do tempo, quando em 1527 assume estatuto de aldeia, com número populacional ascendendo a mais de duas centenas de habitantes. É possível que os frades dominicanos, residindo em Santarém, onde fundaram convento no século XIII, tenham incrementado a vida religiosa neste lugar, razão pela qual se ergueu ermida, dedicada ao Patriarca São Domingos, no local onde hoje se situa a igreja paroquial. Na recolha que pudemos apurar, a mais antiga referência a esta ermida, e seu orago, remonta ao ano de 1537, numa Mercê de João III aos mordomos de São Domingos do termo de Santarém de uma ração (ANTT, Núcleo Antigo 887)». In Tiago Moita, A Igreja de São Domingos de Vale de Figueira, Santarém, 2019, Design Gráfico e Paginação, David Matos Branco, Depósito Legal 453685/19.

Cortesia de DGePaginação/DavidMBranco/JDACT

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terça-feira, 6 de abril de 2021

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure

«(…) Um trecho antes de chegar à Porta Ticinese, o mais nobre dos acessos desse burgo, um amável mercador se ofereceu para me acompanhar até a torre de Filarete, a entrada principal da fortaleza do Mouro. Situado num dos extremos da urbe, o castelo dos Sforza parecia uma réplica em miniatura das enormes muralhas da cidade. O mercador riu ao ver minha cara de espanto. Disse que era curtidor em Cremona, um bom católico, e que me acompanharia com prazer até ao interior da fortaleza em troca da minha bênção para ele e sua família. Aceitei o acordo. O bom homem me deixou diante do castelo do duque exactamente à hora nona. Aquele lugar era ainda mais magnífico do que eu havia imaginado. Bandeirolas com a terrível insígnia dos Sforza, uma espécie de serpente gigante devorando um pobre infeliz, pendiam das ameias. Fitas azuis ondulavam ao vento, ao passo que meia dúzia de enormes chaminés, cravadas em algum lugar do interior da fortaleza, exalavam grandes lufadas de uma fumaça negra e densa. A entrada de Filarete constava de uma ameaçadora ponte levadiça e duas comportas rebitadas de bronze, dobradas sobre si mesmas. Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas.

Um daqueles homens uniformizados me indicou o caminho. Devia dirigir-me ao extremo oeste da torre, já dentro da fortaleza, e perguntar pela área de recepção de visitantes e o gabinete de luto que havia sido instalado para receber as delegações que viriam ao funeral de donna Beatrice. Meu cicerone de Cremona já me havia advertido de que toda a cidade pararia quando chegasse esse momento. E, de facto, a essa hora não havia muita actividade. Fiquei surpreso ao ver que o secretário do Mouro, um espigado cortesão de rosto inexpressivo, não demorou a me receber. O servidor se desculpou por não poder conduzir este servo de Deus até ao seu senhor. Ainda assim, examinou minha carta de apresentação com ar céptico, comprovou que o selo pontifício era verdadeiro e a devolveu acompanhada de um gesto de desolação. Lamento, padre Leyre, Marchesino Stanga, assim se chamava, desmanchou-se numa torrente de desculpas. Deve entender que o meu senhor não receba ninguém após a morte da sua esposa. Suponho que possa imaginar o difícil momento que atravessamos e a necessidade que tem o duque de ficar sozinho. Claro, assenti com fingida cortesia.

Não obstante, acrescentou, quando passar o luto, eu lhe transmitirei a notícia da sua presença na cidade. Eu teria gostado de poder olhar nos olhos do Mouro e deduzir, como em tantos interrogatórios que havia presenciado, se ocultavam ou não as sinistras sombras da heresia ou do crime. Mas aquele servidor com um adorno de cabeça grená guarnecido de peles e gibão de veludo, que falava com ares de mesquinha superioridade, estava decidido a me impedir: também não podemos abrigá-lo, como é nosso costume, disse com secura.

O castelo está fechado e não recebemos hóspedes. Eu vos rogo, padre, que reze pela alma de donna Beatrice e que regresse passados os funerais. Então, nós o receberemos como o senhor merece. Requiescat in pace, murmurei enquanto me persignava. Assim farei. Também rezarei por vocês. Tive uma sensação estranha. Sem possibilidade de me acomodar perto do duque e sua família, frustrado no meu propósito de deambular com mais ou menos liberdade pelo seu castelo, minhas primeiras investigações tomariam mais tempo. Tinha de conseguir um alojamento discreto que me garantisse algum ambiente de estudo. Com os documentos de Torriani queimando na minha bolsa, precisaria de calma, três pratos de comida quente ao dia e uma boa dose de sorte para conseguir decifrar o seu segredo. Não era sensato que um frade buscasse pousada entre os laicos, de modo que minhas opções logo se reduziram a duas: ou me instalava no veterano convento de Santo Eustórgio ou no novíssimo de Santa Maria delle Grazie, onde a possibilidade de cruzar com o Áugure excitava a minha imaginação. Depois, com o tecto resolvido, teria tempo de me dedicar ao enigma que o mestre Torriani havia me entregue em Betânia.

Reconheço que a Divina Providência fez um trabalho exemplar. Santo Eustórgio logo se revelou como a pior das opções. Situado muito perto da catedral, junto ao mercado, costumava estar cheio de curiosos que não tardariam a se perguntar que tipo de assunto mantinha ali um inquisidor romano. Embora a sua localização pudesse dar-me certa perspectiva sobre as actividades do Áugure, poupando-me do risco de encontrá-lo cara a cara sem saber de quem se tratava, também sabia que me oferecia mais inconvenientes que vantagens. Quanto à outra opção, a de Santa Maria delle Grazie, além de ser o suposto refúgio do meu objectivo, só apresentava outro pequeno, mas superável, defeito: ali iam ser celebradas as multitudinárias exéquias de donna Beatrice. Sua igreja, reformada havia pouco tempo por Bramante, estava prestes a se transformar no foco de todos os olhares». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Javier Sierra, Literatura, Florença, Conhecimentos, 

domingo, 4 de abril de 2021

O Projecto Hades. Lynn Sholes e Joe Moore. «A mão forte do presidente agarrou-a pelo braço, obrigando-a a se levantar. Venha por aqui! Fique baixa! Mas o que está acontecendo? Quem está atirando em nós? Podem ser os rebeldes chechenos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A descida ao Hades é a mesma a partir de todos os lugares». In Anaxágoras, filósofo grego, 500-428 a.C.

A Tumba

«(…) Eles fizeram uma parada diante da iconóstase, uma colecção de 69 ícones pintados que se estendia do chão ao tecto. A história da Bíblia desde o Velho Testamento até ao Julgamento Final está ilustrada aqui. O presidente estendeu o braço direito num movimento amplo. Bem, agora acredito que já vimos tudo. Senhor Presidente, não sei como agradecer por ter compartilhado o espantoso esplendor destas magníficas igrejas com os nossos telespectadores da SNN. Este é o património da Mãe Rússia, observou ele. Temos orgulho de mostrá-lo. E o senhor deve orgulhar-se bastante. Cotten estendeu a mão para apertar a dele exactamente quando o ensurdecedor estrondo de uma explosão abalou o interior da Catedral da Assunpção, uma explosão tão forte que a atirou ao chão. No mesmo instante, os candelabros se apagaram, mergulhando o interior cavernoso da igreja na escuridão. Uma fileira intermitente de luzes de emergência tremulou no perímetro da igreja. Cotten levantou a cabeça, atordoada. Viu o cameraman da SNN no chão, o reflector montado sobre a câmera espatifara-se. Pequenas faíscas de luz cintilavam de diversos lugares da igreja, clarões de descargas de armas de fogo. As armas deviam ter silenciadores, pois ela só ouvia o ruído do impacto chocante das balas ao penetrar a carne macia das pessoas ao seu redor. O cameraman deu um grito, mas a escuridão impediu Cotten de ver a gravidade do ferimento dele. Foi atingido?, ela o chamou. Mas não houve resposta. Os agentes do SSP gritaram ordens, sacaram as armas e revidaram o fogo. Outra granada a alguns metros dali fez a catedral estremecer, e de maneira tão violenta, que Cotten esperou o tecto desabar e as colunas sagradas ruírem.

A mão forte do presidente agarrou-a pelo braço, obrigando-a a se levantar. Venha por aqui! Fique baixa! Mas o que está acontecendo? Quem está atirando em nós? Podem ser os rebeldes chechenos. Assassinos. As balas cravavam-se no mármore, arrancando farpas de pedra que atingiam as pernas dela enquanto ele a empurrava para trás de uma das colunas enormes. Atrás dele estavam dois agentes do SSP, descarregando as suas armas. Ela olhou por cima do ombro no momento de ver o seu sonoplasta levantar-se do chão para segui-la, apenas para ser derrubado por uma barreira de balas. O cameraman jazia imóvel numa montanha disforme. Ao lado dele estavam os corpos de três oficiais da segurança russa. Um dos dois agentes do SSP voltou-se para o seu comandante e falou rapidamente, o seu russo soando com uma gravação tocada em velocidade dobrada. O segundo agente disparou uma rajada de tiros na direcção dos atacantes.

Abaixem a cabeça! Os quatro saíram correndo o mais rápido possível pelo espaço vazio até à coluna seguinte. Eles se aglomeraram atrás do grosso pilar enquanto uma salva de tiros arrancou flocos de mármore da obra de arte de quinhentos anos de idade mais acima. Outra granada explodiu, uma supernova na escuridão, a onda de choque reverberando nos ossos de Cotten. O agente principal tentou falar pelo rádio. Não houve resposta. O presidente voltou-se para Cotten. Estamos sem comunicação, e eles bloquearam as saídas. Como vamos sair daqui? Uma torrente de balas chocou-se violentamente contra a coluna, fazendo chover mais lascas da antiga obra de arte. Vamos rezar com o czar, avisou ele, depois instruiu os agentes. Antes que Cotten pudesse pedir uma explicação, eles estavam correndo para um canto da catedral. Mergulhada em um estranho mundo das sombras produzido pelas minúsculas luzes de emergência, Cotten viu uma construção com cerca de seis metros de altura rodeada por uma grade de metal. A base da estrutura devia medir uns três metros quadrados. Com as flechas da cobertura apontadas para cima, ela lembrava uma catedral em miniatura semelhante a um pagode chinês, a sua superfície branca esculpida com motivos decorativos complicados.

Enquanto corriam na direcção do pagode, o presidente gritou sobre o ombro: a capela de Ivã, o Terrível. Os dois agentes começaram a cobrir o fogo enquanto Cotten e o presidente pulavam a grade. Por aqui, instruiu o presidente, guiando-a através do espaço exíguo por trás do local de orações do czar e a parede. Ali, ele abriu um portão e conduziu-a para dentro de uma catedral em miniatura. Ela viu a cadeira isolada onde o czar se instalava durante a missa. O presidente empurrou a cadeira para o lado, revelando um alçapão no soalho. Um dos agentes que os acompanhavam caiu bruscamente, segurando o queixo enquanto o sangue jorrava entre os seus dentes. Um segundo depois, as balas atingiram o outro agente, arremessando-o contra a grade, a parte de trás da cabeça transformada numa massa de sangue e tecidos. Com um ruído seco, a sua arma caiu sobre o piso ao lado da cadeira de orações.

O presidente escancarou o alçapão. Enquanto o alçapão caía de encontro ao piso de madeira, ele caiu de joelhos, uma bala atingindo-o no braço. Pegue a pistola, ordenou ele para Cotten, a voz entrecortada. Com as balas ricocheteando por todo lado na construção toda ornamentada e a madeira rachando ao seu redor, ela agarrou a arma do agente morto. Quando se voltou, o presidente já estava na abertura. Depressa!, gritou ele. Cotten sentou-se na borda da entrada e sentiu com a sola do pé o primeiro degrau da escada enquanto o ar ao seu redor zumbia por causa das balas e dos detritos arrancados. Encontrou o degrau com o dedão e deixou-se cair. Depois de uma dezena de degraus mais ou menos, ela chegou a uma plataforma. O presidente inclinou-se de encontro à parede. Ele gemeu e disse: encontre o interruptor de luz. Cotten correu a mão ao longo da pedra fria e localizou um pequeno interruptor redondo instalado na parede. Ela o ligou, fazendo uma luz sob a plataforma se acender. Viu então uma escadaria que levava para baixo». In Lynn Sholes e Joe Moore, O Projecto Hades, 2007, Publicações Europa-América, 2008, ISBN 978-972-105-888-0.

Cortesia de EPEuropa-América/JDACT

Lynn Sholes, Joe Moore, JDACT, Mistério, Conhecimento,

sexta-feira, 2 de abril de 2021

A Bagagem do Viajante. José Saramago. «Mal me viria, porém, e mal-empregado o espaço desta página, se hoje me desse só para falar de tais coisas. A marquise não é mais do que uma varanda protegida do sol e da chuva, e as marquesas…»

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A Velha Senhora dos Canários

«(…) Se não fosse o ancestral respeito que nos tolhe familiaridades diante dos grandes deste mundo, chamaríamos marquesas àquelas varandas cobertas e envidraçadas que geralmente os arquitectos instalam nas traseiras dos prédios, concluindo assim o perímetro isolador das casas e facilitando, quantas vezes, a resolução dos problemas de dormida da criada ou de um parente que veio da província. Mas as marquesas, agora poucas e de pouca influência para fora dos círculos intangíveis da sociedade, ainda transportam consigo o prestígio dos tempos em que marquês era logo abaixo de duque, e este a seguir a rei. Por isso, chamamos àquelas varandas marquises, que significa o mesmo, mas disfarçado de francês. Realmente não seria correcto dizer, em casa de marquesa, que a marquesa estava mal arrumada ou a precisar de espanador: põe-se no lugar da marquesa a marquise, e é logo como quem fala doutra coisa. As palavras têm destas habilidades.

Mal me viria, porém, e mal-empregado o espaço desta página, se hoje me desse só para falar de tais coisas. A marquise não é mais do que uma varanda protegida do sol e da chuva, e as marquesas, se vivem, vivem nas salas da frente, sem nada terem que ver com estes canários que, na marquise, começam justamente agora a dar sinal da sua presença. Um deles tem a asa esquerda ligeiramente descaída, pesa-lhe, e inclina a cabeça de modo a ver-me melhor. Olho-me miniaturizado no círculo brilhante que de vez em quando se cobre, de baixo para cima, com uma rápida pálpebra acinzentada. Meto um dedo entre os arames da gaiola e suporto as bicadas débeis com que a ave recebe a invasão. Irá esvoaçar assustada quando a mão inteira pairar lá dentro, como um dragão. Então o coração agita-se aterrorizado e as asas atiram pancadas contra os arames. E se a mão se transforma em ninho e envolve a ave como um casulo, o contacto dá-lhe calma, embora interrompida por sobressaltos pouco convictos. O outro canário é mais novo. Prefere o poleiro alto, ou o baloiço, e ali, de cabeça erguida, fazendo oscilar bruscamente as penas longas da cauda, tem a vida toda à sua frente, e sabe-o. Se repito a manobra de introduzir os dedos pelos arames, dispara uma bicada única, violenta, e afasta-se ao longo do poleiro, com o ar de ter ganho a batalha logo na primeira escaramuça. Se fosse uma pessoa, diria dele que não dá confiança. Tão sensível ao medo como o companheiro, exprime-o lutando a frio. E se o agarro, sacode-se sem parar, inconformado. Logo que se apanha a salvo, atira um grito de cólera enquanto espaneja as penas desalinhadas.

Não vai mais longe a minha relação com estas aves. Uma ou duas vezes por semana dou-lhes meia dúzia dos meus segundos, distraidamente. Sei que não me estimam nem respeitam, sobretudo desde o dia em que vi a dona dos canários tratar deles, com gestos tão firmes e serenos, que as aves não esvoaçavam: limitaram-se a mudar de lugar, também serenamente, permitindo que a mão rugosa e sábia retirasse o comedouro e o bebedouro de faiança branca e os repusesse frescos e cheios, com os mesmos gestos sossegados. E a porta das gaiolas fechou-se com um pequeno estalido de mola protectora. Por isto que vi, posso imaginar certas horas na casa silenciosa. A dona dos canários vive sozinha. É já muito velha, mas firme como os seus gestos, e anda sem ruído, calma, eficiente. Tem quase sempre um fito, um pequeno trabalho que a ocupa, mas, com tanta idade, tem também horas de pausa, que seriam repouso se não fossem antes contemplação de um passado que se amplia constantemente, abrangendo, além da vida própria, também as múltiplas vidas que por muito ou pouco tempo interferiram na sua.

Então, a senhora dos canários vai sentar-se numa cadeira da marquise, com as mãos abandonadas no regaço, meio abertas e voltadas para cima como cascas de amêndoa, como barcas encalhadas. Fica muito direita, enquanto as recordações começam a afluir em vagas mansas que a submergem e escorrem por ela, pelos olhos brandos, pelas faces ainda lisas entre os sulcos fundos das rugas, até caírem nas mãos que são como taças de um jardim fechado. A casa, nestes momentos, parece cobrir-se de musgo. Um dos canários lança um trinado tímido. O outro responde. E como na casa nada se mexe e a senhora olha fixamente não se sabe o quê, as aves arremetem um canto interminável, rio sonoro que alastrasse em mil braços numa planície de silêncio. A senhora não se move. Talvez não ouça os pássaros, mas eles cantam, cantam, cantam». ». In José Saramago, A Bagagem do Viajante, 1969, Editorial Caminho, 1998, ISBN 978-972-212-339-6.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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