Mostrar mensagens com a etiqueta Humanidade. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Humanidade. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «Representados à imagem dos homens, os deuses tinham, igualmente, uma esposa, e até as suas concubinas; constituíam família, tinham filhos. Neste plano, tudo se passava sem história, não se conhecendo nem mitos nem lendas que, como entre os Gregos…»

jdact

Tudo começa na Babilónia
O amor-sentimento
«(…) Quantos outros poemas e canções de amor análogos bem que todos eles com o mesmo sentido foram escritos e dados a conhecer! Mesmo que a sorte não nos tenha ajudado a conservá-los até aos nossos dias ou que os arqueólogos não os tenham ainda exumado, temos provas da sua existência através de um catálogo do fim do II milénio antes da nossa era, que reúne pelo seu título (ou melhor, pelas suas primeiras palavras) cerca de quatrocentos, dos quais nos restam quase um quarto. Como estas referências são por si só tão eloquentes, eis algumas que ajudam a compor um belíssimo quadro dos sentimentos amorosos:

Vai-te, sono! Quero apertar nos braços o meu querido!
Quando me falas, alivias-me imenso o coração!
Ah, como te piscaria o olho direito...
Eis-me apaixonada pelos teus encantos!
À noite, não cerrei os olhos: / Sim, estive desperta toda a
noite, meu querido!
Oh, felicidade! O dia só me trouxe boas notícias!
Uma, inferior a mim, pensou que podia suplantar-me!...
Por esta noite! Por este entardecer!
Como é encantadora! Como é bela!
Ela procura o belo Jardim do Prazer, que tu lhe vais dar!
Pois és tu, meu amado, quem prefere os meus encantos!
Ó, minha pomba! Minha rola! Gemes como quem se
lamenta!
É ele o jardineiro do Jardim do Amor!
O coração desta donzela incita-a ao divertimento!
Desde que dormi agarrada ao meu bem-amado!...

A estes cantos e canções de ternura, de alegria e de paixão, caracteristicos dos jovens e das donzelas na fase dos namoricos e dos amores puros, o catálogo acrescenta outros que introduzem na poesia amorosa uma pincelada de devoção:

Regozija-te, Nossa Senhora! Grita de alegria!
És a mais Sábia de entre as sábias: tu que velas pelos
homens!
A mais temível de entre os deuses, sou eu!
Quero cantar bem alto ao Rei Divino, ao Rei
Omnipotente!
Quem poderia ser a minha Rainha, senão tu, Ishtar?...

A verdade é que a maior parte dos poemas e canções de amor que chegaram até nós giram à volta da deusa, tida ao mesmo tempo como Protectora e como Modelo sobrenatural do amor livre: Inanna / Ishtar.

Deixa-me! Tenho de voltar para casa!

Representados à imagem dos homens, os deuses tinham, igualmente, uma esposa, e até as suas concubinas; constituíam família, tinham filhos. Neste plano, tudo se passava sem história, não se conhecendo nem mitos nem lendas que, como entre os Gregos, reflictam as discussões e os dissabores conjugais entre divindades. Certas solenidades, as mais invocadas no decurso do I milénio antes da nossa era, celebravam as suas bodas em redor das suas próprias estátuas de culto: depois de banhados, perfumados e esplendidamente vestidos, eram transportados com grande pompa para uma das capelas do templo, a que se chamava quarto nupcial. Passavam aí alguns dias, lado a lado, assim se considerando que era consumada a união, comemorada com banquetes e festejos e com todo o povo à sua volta.
Mas os deuses praticavam também o amor livre. Foi sobretudo a personalidade excepcional de Inanna / Ishtar, totalmente independente, sem o menor vínculo conjugal ou maternal, entregue às suas fantasias e paixões, quem inspirou grande número de narrativas e canções. A ela eram atribuídas muitas aventuras, mas aquela que deixou a mais viva recordação e da qual nos resta ainda uma documentação mitológica e lírica impressionante, foi a primeira, a do seu amor da juventude por Dumuzi (em sumério) / Tamuz (em acádico), sem dúvida um soberano muito antigo, tornado herói no princípio dos tempos e depois elevado à condição de deus. Ele era pastor e Inanna, segundo se contava, tinha hesitado, a princípio, entre ele e Enkimdu, o deus agricultor, eco provável de uma determinada situação económica e social que, de facto, nos escapa, tão recuada está no tempo, neste país em que terão persistido por muito tempo as rivalidades entre agricultores e criadores de gado, agentes principais da produção dos recursos locais. Pois bem, ela escolheu o pastor, como nos indica uma espécie de dueto com o coro, escrito em sumério:

Inanna; - E quanto a mim: minha vulva, minha colina carnuda, / Quem, então, me abre sulcos? / Minha vulva, a Rainha, minha terra tão húmida, / Quem te passará com a charrua?
Coro: - Ó Senhora Soberana, o rei é que te sulcará! / Será Dumuzi, o Rei, que te sulcará!
Inanna: - Pois bem! Sulca-me a vulva, sim tu, quem eu escolhi!...

In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT

terça-feira, 22 de abril de 2014

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «… temos maior possibilidade de encontrar alguns ecos destes suspiros, destes enlevos, desta chama, doçura e ternura, por vezes destes tormentos e deste furor, que traduzem a afeição visceral pelo ‘outro’»

jdact e wikipedia

Tudo começa na Babilónia
As loucuras amorosas
«(…) A este quadro da vida sexual, os textos médicos acrescentam o seu toque. São estes textos que nos dão conta das relações íntimas sacrílegas, e que por isso trazem a infelicidade, com as mulheres reservadas aos deuses; ou incestuosas, com parentes femininos mais próximos, a mãe ou a irmã; e relações sexuais com mulheres grávidas até uma data próxima da de darem à luz. Sublinham-se igualmente as doenças que o paciente podia contrair, aparentemente por contágio, no momento em que estava na cama com uma mulher, ou seja, quando com ela fazia amor, e infecções venérias a que se chamava doenças do coito. Era o caso, por exemplo, da uretrite: Assim que o paciente sente fortes dores no pénis, que perde naturalmente esperma quando urina, que já não tem erecção e se sente incapaz de fazer amor e que o seu pénis não deixa de criar pus, é porque sofre de uretrite [tradução literal: corrimento]. Duas ou três passagens, que contêm algo de comovente porque o retrato, afinal, sempre nos é familiar, descrevem até o mal de amor: quando o paciente não pára de tossir; quando frequentemente lhe faltam as palavras; quando constantemente fala sozinho e ri sem razão a todo o momento [...], quando se sente habitualmente deprimido, com a garganta apertada, sem prazer pela comida e pela bebida e repetindo sem parar e através de grandes suspiros: Ah, meu pobre coração!, ele sofre de mal de amor. E o texto, que, salvo algumas doenças específicas, se ocupa geralmente do sexo masculino, acrescenta uma vez esta referência, que não posso deixar de considerar enternecedora: Para o homem e para a mulher, vem tudo a dar no mesmo!

O amor-sentimento
Eis algo que ultrapassa o simples erotismo e que nos introduz no domínio do amor-sentimento. Sobre este capítulo, os documentos técnicos que a consulta das tábuas 103 e 104 nos possibilitou já não nos servem de ajuda. É na literatura propriamente dita que temos maior possibilidade de encontrar alguns ecos destes suspiros, destes enlevos, desta chama, doçura e ternura, por vezes destes tormentos e deste furor, que traduzem a afeição visceral pelo outro, a irreprimível necessidade que se experimenta pelo outro, o verdadeiro amor do coração, que por certo pode suscitar erotismo e dele se apossar, embora não precise dele para se alimentar, mas sim para o animar e fazer dele algo de nobre e à escala do homem. Poemas e canções de amor profanos são raros no que foi recuperado das literaturas mesopotâmicas. O único texto em nosso poder, quase completo, de cerca de 150 linhas e de que nos restam dois terços, é, contudo, verdadeiramente notável. Composto no ano de 1750 antes de Cristo, em acádico arcaico e ultraconciso, com um vocabulário específico e por vezes obscuro, repleto de símbolos que, decorridos trinta e oito séculos, nos escapam completamente, está dividido em estrofes curtas, que constituem os elementos de um diálogo entre dois amantes. Pelo menos é nítido que tudo se passa no simples plano dos sentimentos e do coração, não há a menor alusão ao sexo ou qualquer referência erótica! O tema é muito simples, a amante suspeita de que o seu bem-amado tem um fraco por outra mulher. Ela lamenta-se; grita o seu amor, que floresce naturalmente num ciúme ao mesmo tempo terno e impetuoso. Todavia, ela diz estar convencida de que vai reconquistar o leviano com a sua lealdade. Eis como, citando algumas estrofes ao acaso, ela se expressa:
  • Eu mostrar-me-ei fiel / Minha testemunha será Ishtar-a-Rainha. / O meu amor prevalecerá / e confundirá essa língua malvada [a rival]. / Doravante prender-me-ei a ti / E compensarei o teu amor com o meu! [...];
  • Não, ela não te ama! / Que Ishtar-a-Rainha a humilhe / E que, como eu, ela perca o sono, / E que as suas noites sejam perturbadoras e opressoras! [...];
  • Sim! Eu abraçarei o meu amado: / Cobri-lo-ei de beijos / E não cessarei de lhe consumir os olhos! / Assim vencerei a minha rival / Assim reencontrarei o meu bem-amado! [...];
  • Pois é o teu feitiço que procuro / É do teu amor que eu estou sequiosa!
Em face destas declarações enternecedoras e ardentes, o enamorado não consegue manter o seu papel: tal como todos os homens nesta situação, e podemos confirmá-lo ao longo da noite dos tempos!, ele limita-se às desculpas, ao mau humor e às grosserias que, apesar de tudo, não desencorajam a sua interlocutora:
  • Não digas nada! / Não quero discursos! / De que serve falar para nada dizer! / Mas não, eu não te minto! / Na verdade, é querer agarrar o vento / Esperar algo de sério de uma mulher! [...];
  • Mais do que tu, volto a pensar! / Nas tuas astúcias antigas! / Mas eis-nos bem despertos [do nosso sonho]! E, todavia, não sinto no meu coração / a mínima ternura por ela [sempre a rival!] [...];
  • Não acredites, pois, no que te repetem: / Que não mais serás a única dos meus olhos! / Mas, se queres a verdade, / Hoje, o teu amor não é meu, / Que inquietação e que desgosto! [...].
E, no entanto, vencido por fim pela fidelidade, sensatez e ternura da sua amante, ele volta, tal como ela esperava:
  • Sim, tu és a única que importa! / O teu rosto é sempre tão bonito! / Tal como antigamente, / Quando eu me agarrava a ti / E repousavas em mim a tua cabeça! / Nada mais te chamarei além de Sedutora, / E sábia será o teu único título, para mim! / Que Ishtar seja minha testemunha: / De ora avante, a tua rival será nossa inimiga!
Repito-o, este é um documento único, de real interesse, na medida em que é consagrado à exaltação do amor puro e desinteressado de uma mulher, espalhando uma sombra sobre o sentimento que lhe consagra o homem que ela ama». In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «Uma das partes desta monumental compilação (que, no seu estado original e enquanto permaneceu incólume perante os danos causados pelo tempo, compreendia cerca de 110 tábuas, o que representava entre dez e quinze mil presságios e oráculos»

jdact

Tudo começa na Babilónia
Preces para o êxito no amor
«(…) Eis dois desses documentos, o primeiro, colorido por manipulações confortantes, o segundo, constituído por clamores bem eloquentes!
Prece: Toma-me! Sem medo! Entesa sem temor! Por inspiração de Ishtar [a deusa do Amor], de Shamash, de Ea e de Asalluhi! [Os deuses que vulgarmente presidiam aos ritos sacramentais]. Esta fórmula não é minha: é da própria Ishtar, deusa do Amor [forma vulgarmente utilizada para sublinhar a origem sobrenatural e, portanto, a infalibilidade do rito.] Recolheremos alguns pêlos de um bode com cio, um pouco do seu esperma, alguns pêlos de um carneiro com cio.... Amassaremos tudo para aplicar no dorso do amante, depois de se ter recitado a prece sete vezes.
Prece: Excita-te! Excita-te! Entesa-te! Entesa-te! Excita-te como um veado! Entesa-te como um touro selvagem! [...] Faz amor comigo seis vezes, como um corço! Sete vezes como um veado! Doze vezes como um macho de perdiz! [todos estes animais eram famosos pelo seu vigor sexual]. Faz amor comigo porque sou jovem! Faz amor comigo porque sou ardente! Faz amor comigo como um corço! E eu, protegida pelo deus Ningirsu [que nesta matéria parece ter aqui uma autoridade que não é atestada em nenhum outro lado], eu apaziguar-te-ei!.

As loucuras amorosas
Uma vez que estamos na alcova, demoremo-nos um instante, pois é isso que nos proporciona um documento assaz inesperado e sugestivo. É o capítulo de um volumoso tratado divinatório. Verdadeiros entusiastas pela adivinhação deductiva, os antigos Mesopotâmios tinham por princípio considerar como um presságio quase tudo o que no mundo em redor, na natureza e na vida do homem, podia ser visto como menos usual, fortuito ou singular. Segundo as normas da hermenêutica que tinham lucubrado, empenhavam-se em deduzir o futuro feliz ou infeliz a que estavam expostos todos os implicados em tais conjecturas. Uma das muitas obras a que se tinham consagrado reunia muitos acasos da vida quotidiana: todos os acontecimentos imprevistos, os encontros pouco comuns com que um indivíduo podia ter de se confrontar nos diversos sectores da sua existência. Uma das partes desta monumental compilação (que, no seu estado original e enquanto permaneceu incólume perante os danos causados pelo tempo, compreendia cerca de 110 tábuas, o que representava entre dez e quinze mil presságios e oráculos) era dedicada às relações sexuais e conjugais. Todo o início da tábua 104, que nos chegou quase completa, seguindo a 103, de que restam apenas palavras soltas, fala precisamente das relações amorosas. Não trata, evidentemente, dos seus aspectos rotineiros, banais e constantes, por exemplo, não faz a mínima referência às posições universalmente adoptadas e às mais correntes, simplesmente as fantasias mais incríveis ou então os acidentes que podiam sobrevir nos momentos de loucura.
Acontecia, por exemplo, que, para estes momentos era escolhido um enquadramento excêntrico, em lugar de se manter o seu espaço de eleição, o quarto de dormir. Podia meter-se-nos na cabeça fazer amor no terraço do telhado; no limiar da porta; no meio de um campo ou de um jardim; num lugar deserto ou numa estrada sem saída; ou ainda em plena rua, quer seja com uma mulher qualquer, à qual nos atiramos, ou com uma prostituta; podia-se, assim, sozinho ou com a sua parceira, ir com este intuito à taberna, que desempenhava ao mesmo tempo o papel de botequim e de bordel... Diversas posições pouco habituais podiam ser adoptadas: de pé; sobre uma cadeira; de través na cama; tomando a parceira por trás ou mesmo sodomizando-a; ou então cavalgado por ela, isto é, preferindo representar o papel feminino...
Existiam também sonhos eróticos: o homem podia voltar a excitar-se mesmo após ter feito amor e podia até experimentar uma forte ejaculação; ou então, na cama com a sua mulher, imaginava que ela mantinha por ele um desejo incessante (literalmente: fixar o olhar no seu membro). O tratado de oniromância, de que encontrámos igualmente alguns excertos, completa este quadro: o indivíduo sonha que está a fazer amor com a própria deusa Ishtar ou com uma sacerdotisa (o que era interdito); com a rainha do seu país; com a filha do rei; com a sua irmã… É de assinalar que não se tenha encontrado, nestes documentos ou noutros, a mínima alusão à prática do sexo oral, embora nos possamos interrogar se a relação ou a cunilíngua, bem conhecidas na época em muitos outros lugares como, por exemplo, no Egipto, não eram objecto de uma aversão particular ou de uma interdição. Em contrapartida, a sodomia era comum, tanto com homens como com mulheres: podemos confirmá-lo em várias gravuras e existem textos que nos falam da sodomia sem quaisquer subtilezas. Para além de ser o assunto da passagem mais importante da tábua 104 do tratado, é referenciada pelo menos quatro vezes no que resta da tábua 103. Podemos mesmo concluir que esta prática era utilizada como contraceptivo: num tratado de extispicina, ou arte de adivinhar, pelo exame das entranhas dos animais sacrificados, é mencionada uma sacerdotisa que se deixava sodomizar para evitar a gravidez. Parece mesmo que não eram conhecidos outros meios contraceptivos, as preces para não conceber, tal como as para conceber, para procriar ou para impedir a procriação, para [favorecer] o amor ou impedi-lo eram uma consequência da terapia mágica ou exorcista». In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «Elas revelam também que, numa sociedade aparentemente machista, a mulher, no amor, era realmente igual ao homem: ela, tal como o homem, tinha direito ao prazer, não era nem um objecto nem um instrumento, mas uma verdadeira parceira»

Henrique Medina e jdact

Tudo começa na Babilónia
Tabus...
«(…) Não é necessário dizer que não há interdição explícita, nem inibição consciente ou inconsciente, que nos possa condicionar o exercício de tal prerrogativa. Fazer amor era uma actividade natural, enobrecida pela cultura como o acto de comer é idealizado pela culinária. Em nome de quê alguém se sentiria caído em desgraça, ou diminuído ou culpado perante os deuses, praticando-o de qualquer maneira que fosse, desde que isto é evidente numa sociedade já civilizada, ao fazê-lo, não se prejudicasse terceiros ou não se transgredisse uma interdição aos costumes que preenchem o mosaico da vida quotidiana? Por exemplo, em determinados dias do ano (o dia 6 do mês de Tashrit, Setembro/Outubro, para citar um) era desaconselhado ou mesmo proibido, ignoramos por que razão, fazer amor. E ainda: certas mulheres pareciam ter sido por alguma razão reservadas aos deuses, na sua totalidade ou em parte, constituindo uma falta grave um homem deitar-se com a mulher principal ou fazer um filho às outras. Postas de parte estas restrições, não só a prática do amor não suscitava o menor problema de consciência, como os próprios deuses estavam prontos, mesmo que só lhes fosse pedido o que os ritos ditavam, a contribuir para o seu êxito.

Preces para o êxito no amor
Resta-nos ainda um certo número de preces e de práticas de devoção para [favorecer] o amor de um homem por uma mulher ou de uma mulher por um homem e mesmo de um homem por outro homem (se bem que o simétrico deste, de uma mulher por outra mulher, não figure na lista, sabemos por outros meios que o amor sáfico não era, evidentemente, desconhecido); outras eram para seduzir uma mulher; para conseguir fazer amor (literalmente: rir, um dos muitos sinónimos do imaginário da linguagem erótica quando se quer referir à união dos sexos); outras para o caso de um homem não estar ainda na disposição de dormir com uma mulher; outras ainda para que uma mulher se deixe seduzir, etc.
Eis uma prece para conseguir suscitar o desejo de uma mulher por um homem (mais explicitamente, para que ponha os olhos no pénis de um homem):

A mais bela de entre as mulheres inventou o Amor! Ishtar, que se deleitou com maçãs e romãs [frutos tidos por afrodisíacos], criou o Desejo. Sobe e desce, pedra-do-amor [termo erótico que, mais do que um simples estimulante, designa provavelmente o membro em erecção]. Entra em acção para meu prazer! É Ishtar quem deve presidir à nossa união!

Devia ser recitada três vezes, sobre uma maçã ou uma romã, convencendo depois a mulher desejada a comê-la: a partir desse momento, ela abandonar-se-ia e poder-se-ia fazer amor com ela. Outros procedimentos análogos, como que encantamentos, mas sempre mais ou menos subordinados ao tema da ajuda que se implora aos deuses e que, por esta razão, é mais correcto considerar como sacramentais ou mágicos, dos quais foram encontradas inúmeras preces que abrangem todos os sectores da vida individual ou social, são talvez ainda mais eloquentes. Um catálogo, em parte perdido, contava pelo menos umas setenta; no entanto, não foi possível recuperar mais do que uma trintena, na sua maioria danificadas. Todas elas são postas na boca da companheira (a mulher e não a esposa!), tendo por finalidade conseguir que o amante, resistindo até ao limite, lhe proporcione assim todo o prazer físico que ela tinha o direito de esperar da sua união. A esta capacidade de o homem levar, sem esforço, a mulher a atingir o orgasmo, chamava-se, na linguagem erótica, nish libbi (literalmente, levantar o coração, metáfora transparente).
Estas preces são de facto notáveis. Dirigidas aos deuses e às deusas, acentuam até que ponto prazer sexual e religiosidade eram compatíveis. Elas revelam também que, numa sociedade aparentemente machista, como hoje se diz, a mulher, no amor, era realmente igual ao homem: ela, tal como o homem, tinha direito ao prazer, não era nem um objecto nem um instrumento, mas uma verdadeira parceira, o que merece ser realçado. Enfim, o próprio conteúdo dessas preces era especialmente picante: de certo modo, podemos dizer que nos faz entrar na intimidade do casal em acção. Encontramos uma amante inflamada, arrebatada e ardente, que diz algumas loucuras e geme de desejo e de prazer. São excelentes documentos da vida amorosa». In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «Tal juízo depreciativo sobre os profissionais ao serviço do amor livre não impedia que tal serviço fosse mantido na maior estima, enquanto actividade humana, e que lhe fosse atribuída uma prerrogativa essencial, a que chamaríamos cultura requintada»

jdact

Tudo começa na Babilónia
Tabus...
«(…) Os próprios deuses não escapavam a tais desventuras. No mito sumério, o deus Enlil espreita a jovem deusa Ninlil, deita-se sobre ela, viola-a e engravida-a, de tal forma que os outros deuses, revoltados com este mau comportamento, acabam por o banir que não o impede de recomeçar! Inanna, a filha do deus An, deixa-se violentar pelo jardineiro do seu pai e, segundo um outro mito sumério, aquando da sua transposição para acádico, é ela quem o solicita desavergonhadamente e em termos bastante claros, transformando-o em rã devido à sua resistência. Na célebre Epopeia de Gilgamesh, em língua acádica, a mesma deusa oferece-se, igualmente sem vergonha, ao herói que regressa gloriosamente da sua expedição à Floresta dos Cedros; mas este consegue resistir a cair nas mãos da desavergonhada, atira-lhe à cara a lista dos numerosos amantes que ela abandonara e maltratara, depois de os ter amado.

O amor livre
Uma tal situação explica que, ao lado do amor subjugado às necessidades da sociedade, existiu espaço para o que apelidei de amor livre, praticado livremente por cada um e para seu próprio prazer. Para que não trouxesse prejuízo a ninguém, estava assegurado por especialistas que exerciam aquilo a que chamamos a prostituição. Em face dos gostos e das maneiras de ver daquele tempo e daquele país, segundo os quais o amor não era forçosamente heterossexual, os que estavam ao serviço do amor livre eram profissionais de ambos os sexos. Contudo, contrariamente ao que se passa na nossa cultura, existem fortes probabilidades de o seu ofício ter sido colorido por um toque de religiosidade. Não só tomavam parte, em tal qualidade, nas cerimónias litúrgicas, particularmente em certos santuários, como lhes foi concedida, como protectora e modelo, a deusa Inanna, em língua suméria, ou Ishtar, em acádico, a mais conhecida do panteão,onde lhe havia sido atribuído o título de Hieródula: prostituta sobrenatural. Por tudo isto, já se pode ter uma ideia das concessões que tal função lhes permitia...
A julgar pelas múltiplas denominações que conhecemos mas que, na sua maioria, não nos dizem muito mais, prostitutas e prostitutos aparecem-nos divididos em diversas categorias ou corporações, faltando assim os meios para podermos perceber diferenças e especializações. A julgar pela sua designação (ishtarianas), uma de entre elas poderia estar ligada mais directamente à pessoa de Ishtar e outra (consagradas), em contacto mais directo com o mundo religioso. Entre os homens, alguns deviam ser não simplesmente invertidos mas travesti, alguns, nada foi inventado!, usavam mesmo nomes de mulher a acreditar num surpreendente texto oracular, podendo fingir de esposas e mesmo parturientes...
Aparentemente, estes celebrantes do amor livre eram numerosos, sobretudo em redor de certos templos. O bom Hérodoto enganou-se: surpreendido por ver tantas criaturas a oferecer os seus serviços em hasta pública, acreditou que se tratava de uma atitude de obrigação de todas as mulheres do país, movidas por um costume desonroso, de se entregarem pelo menos uma vez na sua vida... Mas eles eram tratados como marginais, ficando relegados à fronteira do espaço socializado das cidades, nas suas muralhas, e pareciam não estar nada protegidos contra os maus tratos, humilhações e desprezos. Um mito em sumério sugere-nos a razão: em suma, cada um tinha fracassado o seu destino específico, as mulheres, de ter tido um só esposo a quem dessem filhos, e os homens, de desempenhar no amor o papel masculino.
Tal juízo depreciativo sobre os profissionais ao serviço do amor livre não impedia que tal serviço fosse mantido na maior estima, enquanto actividade humana, e que lhe fosse atribuída uma prerrogativa essencial, a que chamaríamos cultura requintada. Um outro mito em sumério explica-nos isso, sem quaisquer rodeios. É na história de Enkidu, o futuro amigo e companheiro de Gilgamesh, no início da Epopeia, em acádico, que tem exactamente o nome deste herói. Nascido e criado nas estepes, com os animais selvagens como únicos representantes da sociedade, espécie de força bruta e de belo animal, descobriu o amor verdadeiro, não animalesco, mas com uma mulher real, experimentada e lasciva, graças a uma prostituta que lhe haviam enviado para o amansar:

Ela deixou cair o lenço / e descobriu a sua vulva para que ele pudesse experimentar o prazer. / Ardentemente, ela beijou-o na boca (tomou-lhe a respiração) / E afastou-lhe a roupa. / Quando ele se estendeu sobre ela, / Pôde mostrar a esse selvagem / O que pode fazer uma mulher. / Enquanto, com os seus afagos, ele a acariciava.

Após seis dias e sete noites de intimidade, completamente subjugado por aquela feiticeira, Gilgamesh sentiu-se pronto para a seguir para todo o lado. Então, ela fê-lo deixar a sua estepe natal e os seus companheiros, que, aliás, já haviam fugido, e levou-o até à cidade, onde, graças a ela, ele se torna um homem, um homem no seu sentido pleno, cultivado e civilizado. Foi o amor livre que, a partir da natureza, o introduziu na cultura. Que melhor forma de acentuar até que ponto se avaliava um dos privilégios do apogeu da civilização do que esta possibilidade de exercer livremente e em plenitude, se necessário com a ajuda de especialistas, as nossas capacidades amorosas natas?»

In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Amor e Sexualidade no Ocidente. Pequena História. Georges Duby. «Tal como as necessidades vitais e os rituais do comer e do beber, o amor e a sexualidade que lhes está subjacente estão inseridos na nossa natureza mais profunda e primária. Cada cultura guardou-lhe, forçosamente, um lugar privilegiado no seu sistema»

jdact

O Amor já não é o que era
«Enquanto o véu dos conformistas se desfazia em farrapos, o mundo ocidental apercebeu-se, há bem pouco tempo, de que, na sua essência, os comportamentos transformavam-se: as maneiras de amar já não são o que eram, tal como o não é a relação entre o masculino e o feminino. E um dos aspectos mais perturbadores de uma modificação simultânea das relações familiares, uma mutação incómoda, talvez a mais importante das transformações que afectam a nossa civilização em vésperas do terceiro milénio. E bem mais do que todos aqueles sobressaltos a que os hábitos de linguagem nos impelem a considerar como revoluções. Não é, pois, surpreendente que os historiadores tenham virado, recentemente, a sua atenção para estes fenómenos. Mas a exploração revela-se singularmente difícil do novo espaço em que se aventuram as suas pesquisas. A observação dos factos já o é. Com efeito, entre os vestígios explícitos que nos chegam das civilizações do passado, os que se referem ao amor, à sexualidade, são bastante discretos: são o pouco que as fortes censuras deixaram filtrar e, muitas vezes, para melhor dissimular o que não parecia decente exibir. Assim, talvez fosse conveniente começar por escrever uma história apaixonante, brilhante, do pudor. Por outro lado, estes códigos, estes textos normativos ou mesmo estas narrações, estas canções, estas gravuras, que propõem formas de procedimentos nem sempre se deixam decifrar facilmente: quem pode assegurar que, nos poemas dos séculos XII e XIII, ao celebrarem o amor a que chamamos cortês, não se esconde um outro rosto, o verdadeiro, o masculino, por detrás do rosto da dama cantada?
Por último, o mais árduo continua a ser, sem dúvida, interpretar os raros vestígios, perceber os lentos movimentos que adivinhamos poderem adulterar profundamente uma formação moral que só conhecemos superficialmente e que, de tempos a tempos, a levam a modificar-se por completo. Sou tentado a seguir Paul Veyne, pensando, tal como ele, que estes movimentos correm o perigo de ficar por explicar. Estou convencido, em todo o caso, de que seria demasiado simples procurar as causas, ontem ou hoje, nos fluxos e refluxos do cristianismo.

O Amor em liberdade. A regra do jogo. Tudo começa na Babilónia
Tal como as necessidades vitais e os rituais do comer e do beber, o amor e a sexualidade que lhes está subjacente estão inseridos na nossa natureza mais profunda e primária. Cada cultura guardou-lhe, forçosamente, um lugar privilegiado no seu sistema, apresentando-os à sua maneira. Por isso, da mesma forma que não sabemos como os nossos antepassados da Pré-História confeccionavam os seus alimentos, não saberemos como faziam e sobretudo como apreciavam o amor: as imagens que nos deixaram sobre o amor são ambíguas e difíceis de interpretar. Só um documento escrito nos poderia oferecer um conhecimento circunstanciado e sem rodeios. Como o Antigo Egipto, a Mesopotâmia é o país que mais cedo conheceu e utilizou a escrita, tendo-nos deixado, entre o ano 3000 a.C. e os primórdios da nossa era, um monumental amontoado de documentos, algo como meio milhão de tábuas, que abrangem todos os géneros literários, desde os pormenores mais minuciosos do quotidiano até às criações de uma imaginação desenfreada. Seria uma verdadeira surpresa se, no meio de toda esta confusão, profusamente estudada pelos assiriólogos durante um longo século, não encontrássemos, entre outros tesouros, algum elemento que nos desse a ideia da vida sexual e amorosa dos muito antigos habitantes de um país onde nasceu, na viragem do IV para o III milénio, a primeira grande civilização realmente digna deste nome, complexa e requintada em todos os sectores da sua existência.

Tabus...
Se é verdade que os Mesopotâmios ignoravam muitos dos nossos tabus relativos ao sexo e ao comportamento sexual, pelo menos, ao contrário dos nossos contemporâneos, não gostavam de dar um valor exagerado, pelo menos por escrito, às suas preocupações, capacidades e proezas neste domínio. Eram atitudes tão naturais que não mereciam demasiada atenção. Mesmo na correspondência, a parte mais personalizada da sua literatura, parece terem guardado algum pudor no que respeita aos seus sentimentos mais íntimos, não encontramos a menor declaração de amor, nem mesmo de efusão de sentimentos ou de ternura. Semelhantes movimentos do coração só raramente aparecem à luz do dia e são mais frequentemente sugeridos do que exprimidos. É o que acontece na missiva em que a rainha de Mari, cerca de 1780 a.C., desejava que o seu marido, em campanha, voltasse o mais depressa possível ao lar, tranquilo e satisfeito, convidando-o a trazer a veste de lã que lhe havia preparado e que lhe enviava pelo mesmo correio. Ou no bilhete desesperado de uma jovem mulher, mais ou menos da mesma época, que anuncia ao seu marido a morte, aos sete meses de gravidez, do bebé que trazia no ventre, assim como o seu medo de morrer de doença ou de desgosto, abandonada por todos, longe do esposo que tão ardentemente desejava voltar a ver. Assim, não é de esperar que, no meio do seu património literário, possamos surpreender algo que o amor, sentimento, paixão ou simples divertimento, possa ter desencadeado, quer se trate de experiências, aventuras ou dramas pessoais». In Georges Duby, Jean Bottéro, Amour et Sexualité on Occident, Société d’Éditions Scientifiques, Paris, 1991, Amor e Sexualidade no Ocidente, Terramar, Lisboa, 1998, ISBN 972-710-053-8.

Cortesia de Terramar/JDACT

terça-feira, 22 de maio de 2012

Retratos da Vida de um Alcoólico. Mário Soares. «Não era caso para menos, pois eu estava metido em tudo o que fosse pancadaria. Mas para mim, era um título de glória. Sentia-me ufano do respeito que impunha aos outros. Um testemunho dramático que é, simultaneamente um alerta e uma mensagem de esperança»


Cortesia de teleios

Num dia sufocante, de intensíssimo calor,
Enecontrei, ao regressar da escola,
Um passarinho quase sem aida, caído na rua.
Levantei-o do chão perante olhares indiferentes,
Aninhei-o nas mãos em concha,
E trouxe-o para casa.

Meti-lhe, pela goela, gotas de água com a pipeta de
frasco de remédio,
Dirigi-lhe palavras carinhosas que ele pareceu entender,
E mal o achei melhor abri-lhe as mãos e dei-lhe a liberdade.

Todas me cumprimentaram pelo bondoso coração que
assim revelei.
Todas cumprimentaram a minha mãe pela boa educa-
ção que me soubera dar.
Todas as visitas me deram palmadinhas no rosto e fui
apontado, aos meninos maus das visitas como um
exemplo edificante que todos deveriam seguir.

Eu sorria-me porque me lembrava de ter ouvido contar
que um tio-avô materno, que não cheguei a conhecer,
também um dia encontrara um passarinho caído na
rua e fizera o mesmo que eu fiz.
António Gedeão, in  "Poemas Póstumos - Poema do tio-avô materno

jdact

Entrada no poço...
«Tinha eu 19 anos quando fui chamado a cumprir serviço militar obrigatório em Angola. Até aí tinha sido um jovem normal, que estudava e trabalhava, com vontade de vencer na vida. Já se notavam sinais evidentes de rebeldia, que me levavam a praticar desportos violentos e que em nada beneficiaram o meu bom nome, nem o da minha família, por eu os pôr em prática fora dos recintos desportivos próprios para o seu desempenho. Tudo isto valeu-me a alcunha de ‘Mário Planta’ que ficou registada, pela negativa, na memória das pessoas que me conheciam. Não era caso para menos, pois eu estava metido em tudo o que fosse pancadaria. Mas para mim, era um título de glória. Sentia-me ufano do respeito que impunha aos outros. Não tinha medo de nada nem de ninguém e estava sempre disposto a partir para a luta, resolvendo todos os problemas pela violência.
Nesse tempo, jogava futebol nas camadas jovens do Beira-Mar. Até tinha jeito e podia ter-me projectado para uma grande carreira futebolística. Fui conhecendo pessoas que, tal como eu, eram, de certa forma, violentas e que, ao contrário de mim, já consumiam bebidas alcoólicas. Lá me fui aguentando sem entrar no campo do ‘alcoolismo’. Só que, no convívio com estas pessoas, a minha agressividade e violência foram aumentando. O meu interesse pelo futebol foi esmorecendo. Mesmo assim, não era consumidor abusivo de bebidas alcoólicas.
A nível escolar, os meus resultados também não eram bons. No meu percurso de estudante na EICA, até aos l8 anoso não consegui acabar o curso, o que levou os meus pais a porem--me a trabalhar na construção civil e a estudar, simultaneamente. Foi pior a emenda que o soneto. Uma vez na construção civil, enquanto trabalhador por conta do meu pai, comecei a adquirir musculação, que fez de mim uma pessoa bastante forte e me convenceu que era imbatível, que podia fazer frente a todos.
Deixei definitivamente os estudos.
Nessa altura, e porque já existiam pessoas na firma do meu pai que abusavam das bebidas alcoólicas, fui sendo arrastado, lentamente e sem me aperceber, para o caminho do alcoolismo. Sem me ter tornado alcoólico, admito que este contacto foi o trampolim para que começasse a gostar do consumo do álcool, deixando mesmo de me interessar pelas grandes oportunidades de me tornar um grande exemplo para a sociedade, tanto na área desportiva, como na da sociabilidade. Os meus pais fizeram um grande esforço nesse sentido mas, infelizmente, foi inglório, uma vez que me tinha tornado estupidamente violento e sem respeito por ninguém.
Chegaram os l8 anos e, porque me julgava preparado para enfrentar a vida, decidi oferecer-me, como voluntário, para o exército, cometendo uma vez mais o grande erro de não ouvir quem me queria bem e só se preocupava com o meu bem-estar.
Fui à inspecção. Fiquei apurado para o serviço militar. Fui incorporado no aproveitamento do Curso de Sargentos, em Leiria, no R.I. 7. Não cheguei a concluir este curso por não mostrar grande interesse por esta nova faceta. Durante a minha estada em Leiria e depois de prestar provas, fui escolhido para o Curso de Comandos, por ter ficado em primeiro lugar nas provas físicas e desportivas.
Aí, não deixou de prevalecer a minha inclinação para a prática dos desportos violentos, tendo tido a nota máxima na prova de boxe. Felizmente, e porque alguém gostava de mim, o meu irmão foi sem o meu conhecimento, pedir a um comandante militar, a minha exclusão das provas dos Comandos, por se tornar perigoso em termos futuros. Fui então colocado, como lº Cabo, no Regimento de Transmissões do Porto, de onde, depois de concluir a especialidade de radiotelegrafista, fui mobilizado para Angola.
Tinha então completado 19 anos. Ingressei num batalhão de cavalaria em formação, no R.C.3 - Estremoz. Foi a partir dessa altura que comecei uma nova vida, pela negativa». In Mário Soares, Retratos da Vida de um Alcoólico, Pé de Página Editores, 2004, ISBN 972-8459-93-9.

Continua
Cortesia de Pé de Página/JDACT

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Feliciano Falcão. Memória Viva. Portalegre: «A questão, a questão é mais vasta e não se compadece com arranjos parcos. Para um corpo chagado e tão anémico, emolientes, remendos e paliativos de superfície, todos postos a brilhar como fachada, que deixam íntegro o núcleo estagnativo, mórbido e letal, nunca foram remédios salutares»

jdact

De Médico a Curandeiro em Terras Medievais
«Do ilustre conterrâneo, Feliciano Falcão, publicou o jornal “A República”, de 27 de Novembro de 1945, uma crónica interessante e exacta, sob o título acima mencionado, acerca dos meios que são facultados aos médicos que, por necessidades imperiosas da vida, têm de exercer a sua profissão nas aldeias e também sobre a forma como pode ser prestada a assistência médica em tais povoações.
Crónica dura, mas real, bem vinca o esforço titânico do médico, no meio em que os mais elementares princípios de higiene e profilaxia não existem, por deficiência da organização. O depoimento do destino médico é claro e insofismável e, estamos certos, contribuirá em muito para a reforma que terá de ser feita sobre assistência médica, nas povoações sem recursos e distantes dos meios hospitalares.

Porque é necessário divulgar as deficientes condições actualmente verificadas, com toda a nossa concordância, transcrevemos parte da sua brilhante crónica, lamentando apenas que a falta de espaço nos impeça a publicação integral:
  • [...] Para tarefa tão gigantesca, ficam só ao João Semana, em esquema pungente, que é o esqueleto de uma realidade negra, o tonendoscópio para, por veredas e azinhagas num burro lazarento, com, uma que outra vez, a amenidade do ‘cross-country’ e o alpinismo descobrir a doença no alquebrado corpo do aldeão, e as papas de linhaça como tratamento barato, por insuficiência da Organização Estatal e por mor da magra bolsa do doente.
Que a diagnose fina e uma terapêutica racional e o alicerce da profilaxia (sonhos idos...) vão sendo coisas inatingíveis e do domínio da utopia.

jdact

Esta é também uma pequena história do médico da aldeia, que vai de provação em provação, até precipitar-se na maior:
  • ‘a de, após ter-lhe sido cerceado o conforto e a cultura e limitado o fisiologismo gástrico, e o dos seus, não poder chegar - para fruição íntima, necessidade criada, e como dádiva imperativa à comunidade, à seiva pura da Medicina verdadeira, porque o amparo é flébil, e tudo se pantaniza’.
Mas... as casas do povo, neste binómio médico-camponês, não têm impulso decisivo, dir-se-á? Para os encarniçados que se contentam com palavras, que são expressão de uma evidência límpida, alguns números poderão servir: na aldeia onde exercíamos clínica, o inquérito às condições de vida, para efeitos do racionamento, mostrou que o agregado rural estava incluído nos grupos dos que ganhavam por mês entre 0 - 150$00 e 150$00 - 300$00. Indigência e roçar de indigência...
A casa do povo dava de subsídios ao trabalhador:
  • a) -Por invalidez: 2$50 por dia. É este o arrimo pata a velhice...
  • b) - Na doença: 2$00 por dia. Se a doença se prolongava além de dois meses, era-lhe cortado o subsídio, ficando a pedir por portas...
  • c) - Por nascimento de filhos: 20$00. Estes 20$00 que a jovem mãe ia receber com o rosado pimpolho ao colo, que ao fim de meses seria outro, amarelinho e raquítico - voltavam sistematicamente à Casa do Povo para pagar as cotas em atraso. Saíam por um lado e entravam por outro...
  • d) - Farmacêutico: 50% do custo da medicação para o trabalhador doente e nada para a mulher e para os filhos. Quantas vezes assistimos a verdadeiros dramas, com esta limitação de meios tão radical para atacar o morbo!
  • e) - Surgia um tuberculoso e queria-se mandar para o sanatório. Quando aparecia a vaga, após meses e meses, já o doente estava no cemitério. Mas surgiam outros na casa a ocupar o lugar e as coisas repetiam-se com a mesma terapêutica fúnebre.

jdact

Não é o salário calamitoso do trabalhador, não é o professor primário (outra generosa vítima da aldeia, apertando o cinto das calças), com a Escola tateante, por um lado, e despovoada, por outro, e crianças com barrigas vazias, como podem encher a escola? -, nem o clínico sem meios para exercer a sua acção que resolvem o problema angustioso. A questão, a questão é mais vasta e não se compadece com arranjos parcos. Para um corpo chagado e tão anémico, emolientes, remendos e paliativos de superfície, todos postos a brilhar como fachada, que deixam íntegro o núcleo estagnativo, mórbido e letal, nunca foram remédios salutares.
A via justa, a transfusão, a medida drástica, radical, elevar o baixíssimo nível de vida das populações rurais e nesta economia folgada articular, em engrenagem unitária, a Pedagogia e a Medicina actualizadas, não a perseguiram aqueles organismos. Não estava nos seus intentos.
E só assim os camponeses teriam um lugar ao sol. E o João Semana e o Mestre-Escola redimidos, cônscios e amparados, lhes levariam o seu trabalho fecundo. "República, nº5417,27-II-1945, pp. 4 e 5"». In Feliciano Falcão, Memória Viva, coordenação de António Ventura, Edições Colibri, CM de Portalegre, 2003.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

domingo, 2 de outubro de 2011

A Dez Anos da Morte de José Régio: Na morte de José Régio. «Nesta sala foi feita a câmara ardente do nosso grande Régio. Entrei. Dormia ele placidamente de mãos cruzadas sobre o peito, dentro da urna, última guarda do seu corpo. Quatro velas e uma lamparina de azeite ardiam e bailava a sua chama…»

Cortesia de editorialresistencia

«Duas cadeiras de braços, muito bem trabalhadas, muito ricas pertencem também a esta sala. Régio, no decorrer da sua doença, porque não podia estar deitado na cama, permanecia sentado, muito sustentado por almofadas, numa delas. Foi numa delas que ele morreu. Recorda-me agora um dia, do último verão, em que estávamos nessa sala a conversar. Louvávamos a beleza e até o conforto destas duas cadeiras. Eu, mais atrevido e jovem, sugeri que seria numa delas que ele, poeta, deveria adormecer para o sono da eternidade. Sorriu-se para mim mas acenou-me com um sinal de enfado como a indicar-me que não gostava que ,lhe falasse naquele assunto. Quase como quem vai dar uma sapatada, acenou-me que me calasse e eu assim fiz. Mas mal pensava eu e muito menos ele decerto que seria mesmo numa dessas cadeiras que ele iria morrer.

Nesta sala foi feita a câmara ardente do nosso grande Régio. Entrei. Dormia ele placidamente de mãos cruzadas sobre o peito, dentro da urna, última guarda do seu corpo. Quatro velas e uma lamparina de azeite ardiam e bailava a sua chama a um sopro de corrente que fazia. As empenas das janelas não haviam sido fechadas e o sol batia suavemente nos móveis da sala, nos seus pés juntos com um ramo de violetas já a emprestar um ar de vida. Uma pequena mesa junto à cabeceira, com uma linda Nossa Senhora com o Menino ao colo; por cima, o grande Cristo de braços abertos, sem dedos, preso na parede sem cruz e Régio dorme tranquilamente. Uma única pessoa, neste momento, vela junto do seu corpo, é o seu particular amigo, o poeta Alberto Serpa.

Cortesia de editorialresistencia

Ficámos os dois - eu e Alberto Serpa. Em breve, chegou o irmão de Régio, o Júlio. Alberto Serpa foi para junto dele. Eu fiquei sozinho com o corpo do poeta. Chegou depois o irmão mais novo, o João Maria. Falámos. Foi ele o primeiro a relatar-me a última noite e contou-me os pormenores daquele passamento suave. Foram chegando outras pessoas.
Voltei a casa e levei a minha filha, de seis anos, para ver o Régio. Ela foi e tagarela como todos os pequenos, gostou de ir e encheu-me de perguntas. Isabel Maria ficará sempre com uma imagem do poeta que dorme agora o sono eterno. Muitas vezes o viu aqui em casa, mas isso podia-lhe passar despercebido. Suponho que é a primeira pessoa morta que ela viu e isso ficar-lhe-á na memória.
No dia seguinte, foi o enterro, pelas 4 e meia da tarde. Um grande acompanhamento, muita gente, muitos amigos e admiradores vindos de fora da terra. Da Sua, porém, pouca gente. Ninguém é profeta na sua terra e Régio parece que tinha poucas pessoas que o admiravam na sua dimensão nacional. Entretanto, a família de Régio, pensando que cumpria um desejo dele, queria que fosse celebrada uma missa de corpo presente, na câmara ardente, em casa; essa missa seria celebrada pelo Padre João Marques. Tentou-se isso e, de princípio, parece que não houve dificuldades. O Prior de Vila do Conde, depois de conversar com o padre João, não via qualquer obstáculo e a missa seria celebrada às l0 horas da manhã. O prior, entretanto, fez consulta para o Paço arquiepiscopal sobre o assunto. O arcebispo, D. Francisco Maria da Silva, em resposta não permitia que se celebrasse a missa em casa do poeta; podia-se celebrar quantas missas se quisesse de corpo presente, mas não em casa, privilégio concedido a católicos exemplares que não era o caso de Régio.

Cortesia de editorialresistencia

Entre os assistentes, senhoras principalmente, gerou-se uma onda de protestos. Uma delas mesmo, depois do Dr. Cruz Pontes ter tentado com um telefonema seu demover o arcebispo da decisão tomada, tentou telefonar para o Cardeal Patriarca. D. Francisco Maria da Silva, em resposta ao telefonema do Dr. Cruz Pontes, continuava na negativa e justificava que, em consciência, não podia permitir tal privilégio a uma pessoa que, em vida, através dos seus escritos não se confessou católico e até tinha negado a divindade de Jesus Cristo. Não sei se a senhora, emocionada, chegou ou não a telefonar ao Cardeal-patriarca. O assunto ficou mais ou menos calmo, sem missa em câmara ardente, depois de um primo do poeta ter afirmado que se a José Régio agora fosse permitido optar ele estaria a dar razão ao arcebispo.
O P. João Marques, nesse dia, queria celebrar uma missa sufragando a alma de José Régio e, na presença do seu corpo ou longe dele, celebrá-la-ia. Em virtude da autorização desejada ter sido negada, resolveu-se que a missa seria rezada na Igreja de S. Francisco. Partiu-se para lá. O Dr. Luís Amaro dizia que era quem devia ajudar à missa. Seria uma maneira de tentar reconstituir uma outra missa celebrada, em Ponte de Lima, no dia 1 de Dezembro, suponho de 1967, pelo meio-dia, na Igreja Matriz. José Régio tinha assistido a essa missa celebrada em latim, pelo P. João Marques e acolitada por mim, com a devoção de cristão católico mais fervoroso. A várias pessoas confessou Régio que esta missa, lhe tinha tocado profundamente o interior. O Dr. Luís Amaro, numa homenagem a Régio, queria que esta fosse agora uma reconstituição daquela». In Paulo Ferro, A Dez Anos da Morte de José Régio, Editorial Resistência SARL, 1980.

Cortesia de Editorial Resistência/JDACT