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segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728. «Nas cartas que Metelo pediu aos missionários para que eles lhe dessem conselhos sobre o tipo de argumentos a tratar com o imperador, nenhum dos padres se atreveu a declarar que o embaixador tinha o dever de defender com força…»

jdact e wikipedia

«(…) Por esta razão o enviado real na última audiência com o imperador, para que fiquem claros os objectivos da missão, enfatiza a promessa imperial feita no primeiro encontro, dizendo a Yongzheng que comunicaria ao rei de Portugal: de que S. Mag.de Imperial tratava os Europeos do mesmo modo que o Imperador seu Pay, e que como este tinha expecial cuidado de favoresser aos moradores de Macau, esperava eu que tambem o actual Imperador lhe fizesse o mesmo favor, recomendando-os aos Men.os de Cantam. Metelo refere que a estas palavras não respondeu o Imperador, e ainda que alguns dizem que elle asenara com a cabeça, que sim, eu não reparey nesta acção. E a história confirma que o imperador não anuiu perante a afirmação de Metelo que pedia protecção para os macaenses e os outros portugueses presentes na China. A reticência imperial nasce sobretudo do facto de Yongzheng ter percebido que a situação mercantil estava extremamente comprometida com a realidade religiosa. O monarca chinês intuiu que na cultura portuguesa daquela época, política, economia e religião não se podiam facilmente separar: pertenciam todos a uma realidade complexa que se tinha instaurado de maneira unitária dentro do seu país. Ainda que o assunto da afirmação da catolicidade, pela extrema delicadeza que revestia e o melindroso confronto que apresentava, tivesse sido guardado sob prudente segredo o Filho do Céu era, sem dúvida, bem cônscio do facto de um dos interesses de João V que tinha feito do padroado católico português o seu baluarte religioso e político, era defender a presença dos cristãos portugueses no velho império: ele, em 9 de Julho, depois da primeira audiência, manda ao embaixador três mandarins para lhe dizer que o legado podia hir ver as Igrejas se [lhe] parecesse.
A corte imperial conhecia, portanto, a identidade explicitamenre católica da Coroa. Na carta de l8 de Dezembro de 1727, Metelo explica abertamente que o Imperador queria evitar audiencias, por reciar que eu lhe falasse na materia da missão, e talvez que entendesse lhe queria eu pedir pelo padre Mourão por entender-me não constava da sua morte. E sabemos que os temores de Yongzheng eram bem justificados. Por isso, o imperador, percebendo a atitude de João V, acusa explicitamente Parrenin e os católicos em geral de querer manipular a religiosidade chinesa, modificar os antigos usos sínicos e introduzir conceitos que podiam minar a paz no território oriental: que faria o Papa, e os outros Reynos da Europa, se eu lhe mandasse Bonzos, e Lamás rogando-os lhe dessem ajuda para introduzirem a sua Religião?.
Portanto, conhecendo a atitude fortemente anticristã do novo imperador, a Coroa considerava o problema da missionação e do jus patronatus estreitamente ligado a esta como um dado encoberto a não desvelar. O embaixador devia com habilidade aflorar o tema sem o abordar concreta e directamente: segundo as ordens que trago, sabia não era occazião oportuna de fallar na materia [da missionação]. Nas cartas que Metelo pediu aos missionários para que eles lhe dessem conselhos sobre o tipo de argumentos a tratar com o imperador, nenhum dos padres se atreveu a declarar que o embaixador tinha o dever de defender com força, perante Yongzheng, a fé católica. Logo em Macau, escreve o mesmo embaixador, me presentião de certificar os missionários, que o meio para comseguir algum alivio a misão da China, hera somente formarem os Chinas conseito de que seu Emperador se guardava daquella Embaxada, porque este agrado comprienderia todos os Europeos, e em consecoemsia delle serião os Mesionarios mais bem tratados dos Mandarins, e povo da China; porem que de nenhuma sorte comvinha fallar ao Emperador em revogar o seu decreto, porque suposto tinha sido expedido em consulta do tribunal dos ritos, por huma conta que tinha dado o Sumtó de Foquiem, me dizião que esta conta do Sumtó fora primeiro emsinuada da Corte, pella má vontade que o Emperador tinha aos Europeos.
Se de facto, verbalmente, podia existir algum jesuíta que favorecesse a intervenção directa perante o imperador, no momento de pôr as palavras por escrito todos mostram incerteza, medo e temor: as cartas são actos públicos ou que se podem tornar como tais; e situação começa a ser arriscada devido à perseguição e a comunidade cristã encontra-se perturbada; a documentação, toda assinada, podia chegar às mãos do imperador que não tinha hesitado, poucos dias antes da chegada de Metelo, em mandar matar o padrão Mourão. São estas só algumas das muitas razões que poderíamos aduzir para um velado silêncio eclesial que inibiu uma intervenção directa. E Merelo sai, portanto, justificado da sua atitude pouco explícita, mas confortado pelas suas decisões, livre de eventuais escrúpulos: vendo que os Missionarios que devião pelas suas experiências mostrarme os caminhos erão os mesmos, que me impedião os passos com os seus vottos. e com as ponderações que fazião do evidente risco que me perpunhão». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Cortesia de F. Oriente/JDACT

domingo, 13 de dezembro de 2015

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728. «… aqui vos deixo em Pekim, e em Cantão para o commercio, e correspondencia com os Reys da Europa. Contudo, ele declara que não privilegiará as relações com os portugueses: eu no bom trato não faço distinção de estrangeyros, e ao mestiços»

jdact

«(…) O embaixador defende a identidade cristã, olhando para os missionários como pessoas úteis à causa social chinesa. À lógica contestação do governo chinês que tenta perceber as razões pelas quais se seguia a Vossa Magestade de mandar Homens a China a emsinar a Ley da Europa Alexandre Sousa Meneses responde simplesmente que um dos principais preceitos da lei de Cristo era amaremse os Homens huns aos outros, e ajudarem-se resiprocamente e que em nenhuma couza se podia exersitar tanto esta caridade como ensinando aos Homens a viver com fellicidade. Mas as demoradas conversas com os grandes mandarins sobre este assunto não parecem derrubar o muro da incompreensão: o Imperador me dizia que não nesesitava no seu Imperio da Ley da Europa, nem os Mesionarios lhe ensinavão couza que na China se não soubesse. Com a mesma capacidade diplomática, e talvez encontrando idênticas dificuldades, o embaixador português trata a importância da sobrevivência daquela parcela de mundo macaense e a expansão dos portugueses na terra asiática.
Para este assunto Alexandre Sousa Meneses, na presença do imperador, não fala directamente em favor do mercado macaense, mas apresenta o tema como uma vantagem para os chineses: a defesa dos portugueses contra os holandeses. O embaixador, de facto, não protege frontalmente as frotas mercantis de Macau: ele dá a conhecer ao imperador as atitudes antichinesas dos maiores adversários portugueses, os holandeses, defendendo os interesses da Coroa e denegrindo aos olhos de Yongzheng as atitudes morais deles: e porque sendome presizo aribar a Betavia, terra de Olandezes, ali vira ser a maior parte daquella povação de Homens da China muitos dos coais se conservavão do tempo que os Olandezes tiverão Ilha Fremosa, uzando dos seus antigos trages, e deyxando crescer o cabelo, e que o mesmo praticavão a maior parte dos chinas, que todos os annos navegavão para Betavia, encoanto estavão naquella Cidade vivendo ali contra os estillos, e leis da China, e que coando se querião recolher ao Imperio, tornavão a cortar o seu cabello, e conseryavão correspondensia com os Chinas de Betavia, aonde tinhão parentes, e amigos e que isto não sabia o Imperador pois não premetiria estas correspondensias externas, contra as leis de Imperio; e menos se soubese a grande forsa com que os Olandezes pretendião atrair a si os Chinas.
A estas considerações Metelo acrescenta um outro elemento escandaloso para o imperador, que era o de ser a Holanda um território que se achava sem Rey, couza que muito abominarão as doctrinas dos Reinos da China, e avisa Yongzheng das relações que correm entre os holandeses e o governo moscovita, cujo representante diplomático tinha precedido o mesmo embaixador português: que tinhão estreita amizade com os Moscoviras, e que o Zar defunto marido da Imperatriz, então Reynante coando andou vendo varias cortes da Europa se demorou em Olanda com gosto, e com estreita união com os Olandezes, e dispois contraiu com elles serto parentesco espiritual, que os Cristãos contrae na ocazião em que Batizão os filhos. Diselhe tambem que heu não sabia com que fim o Embaxador de Moscovia pretendia comersio por mar com a China porque os olandezes lhe podiam dar as mesma conveniencias sem os navios de Moscovia virem a China, porque dentro de Betavia se achavão as fazendas da China, pelos mesmos presos que tinhão dentro do Imperio, aonde avião de pagar direitos de saida.
Mas, perante estas apaixonadas motivações, os mandarins ficam impassíveis, como se através das palavras percebessem outras finalidades. E a atirude imperial para com o pedido de protecção dos portugueses sintetiza-se nas seguintes palavras: a minha primeyra attenção foy imitar a meo Pay no seu modo de governo com tudo e principalmente na affeyção que teve aos esrrangeyros, o vos mesmo (falando para o reverendo padre Parrenin) o sabeis. Em relação ao quadro económico, Yongzheng mostra-se aparentemente disponível: no mesmo relatório do secretário de Metelo, o monarca chinês afirma: aqui vos deixo em Pekim, e em Cantão para o commercio, e correspondencia com os Reys da Europa. Contudo, ele declara que não privilegiará particularmente as suas relações com os portugueses: demais todos sabem que eu no bom trato não faço distinção de estrangeyros, e ao mestiços». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Cortesia de F. Oriente/JDACT

sábado, 3 de novembro de 2012

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728. «De resto, os objectivos das felicitações e dos pêsames eram os únicos que podiam ser claramente manifestos. Os outros deviam permanecer tacitamente filtrados através da diplomacia do embaixador e o último tinha que ficar tão oculto…»

jdact

«Examinadas as múltiplas razões que moveram os passos da coroa portuguesa para o Nascente parece claro que o ‘mimo’, como declara abertamente Francisco Xavier da Rua, secretário de Metelo, constituía só um pretexto: ‘sendo um dos fins desta diligência, além de outros mais superiores’.
De resto, João V não ia gastar enormes fundos monetários só para entregar uma oferta ao imperador: ’tendo Vossa Magestade mandado deregir hua acsão de tanta despeza para o que fosse comduzente a favor da propagação Evangelica’.
Com efeito, Alexandre Metelo chega a utilizar para esta embaixada, além dos cruzados da coroa portuguesa, ‘todos os meios de que dispunha o Senado’ da câmara macaense e todos os rendimentos de uma ‘especie de banco de seguros ultramarinos a juro de 20 por cento’, que se tinha criado em Macau e que conferira uma certa estabilidade e prosperidade à Cidade do Nome de Deus de Macau. A questão do ‘mimo’, não consegue enganar evidentemente o imperador, que, segundo nos relata Francisco Xavier da Rua, transcrevendo uma carta do padre Parrenin, ao saber que o embaixador vinha agradecer o presente do pai, alterando a voz, perspicazmente afirma:
  • ‘Esse ponto vos não pertence a vós eu fiz tudo pela minha honra, e não pela vossa.’
De resto, os objectivos das felicitações e dos pêsames eram os únicos que podiam ser claramente manifestos. Os outros deviam permanecer tacitamente filtrados através da diplomacia do embaixador e o último tinha que ficar tão oculto que nem os missionários o podiam conhecer:
  • ‘esta pratica tinha eu sem intrevemsão de misionario algum, asim porque eu lhes queria ocultar a elles, como porque se não entrase na descomfiamsa de que erão elles os motores do meu intento’.
O fim desta embaixada resulta portanto ser ‘hum importante negocio, de que se não rompeu o segredo’, e que hoje, só depois duma atenta leitura dos documentos ainda inéditos de Évora e de Braga, sobre esta embaixada, sabemos coincidir com a defesa do padroado da coroa portuguesa; apanágio que se entrelaça evidentemente com toda a contenda dos termos chineses que levou à tão complexa querelle dos ritos. Os jesuítas portugueses, segundo o parecer do rei e o referido pelo embaixador, eram os únicos que, graças a uma sensibilidade cultural obtida em longos anos de permanência no velho Catai, podiam garantir ao mesmo tempo a presença da fé cristã e a conservação moderada dos ritos chineses tão combatidos pelo papado. Pedindo ao imperador que fosse ele a exigir que a entrada dos missionários na China passasse através da ’joeira’, lusitana, a coroa portuguesa teria obtido o duplo efeito de manter a própria posição soberana no Oriente e de preservar a cultura chinesa de interferências religiosas para ela desagradáveis. O rei João V pretendeu com esta embaixada, reconstituir o processo de aceitação daquelas praxes religiosas chinesas que, em sua opinião (e só após muito tempo reconhecidas também pela Igreja), não comprometiam a difusão do Evangelho; recompor o tecido dilacerado da convivência das duas religiões; restaurar aquela confiança na instituição católica que tinha totalmente desaparecido depois das intervenções de Tournon e Mezzabarba. Os mandarins, aos quais o embaixador teve de referir previamente os conteúdos das audiências imperiais, perante a proposta da introdução de um sistema burocrático que obrigasse os missionários a pedir licença à coroa portuguesa para a entrada no Celeste Império, duvidaram que os mesmos lusitanos fossem capazes de controlar o sistema que eles queriam instituir. Mas a esta perplexidade respondeu o embaixador que ‘os Reynos da Europa tinhão fasil comunicação entre si, e que livremente entravão os vasallos de hum em outros, e que as relligioins ainda que estivessem em diferentes Reynos se comunicavão por via dos Prellados, e que por estes se podia tirar informasão dos sogeitos’.


Além disso, Alexandre Metelo sublinha com habilidade a importância e a grande utilidade de que se revestem os religiosos nos países europeus, onde os padres têm a obrigação de fidelidade aos governos sob os quais efectuam o serviço:
  • diselhe tambem, dos pregadores, e confesores na Europa,que herão o mezmo que Missionarios na China, fazião hum grande serviço aos Monarcas, porque na doctrina Evangelica que insinuavão aos vasallos, se imvolviam os melhores preseitos do governo politico, na obediencia e fidellidade do Primsepe, e na caridade e verdade com os proximos, e que se o lmperador soubesse a grande utellidade publica que com esta dotrina tinhão os povos, hera de prezumir se aproveitase dos misionarios, como os reis da Europa se aproveitavão’.
In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

continua
Cortesia de F. Oriente/JDACT

terça-feira, 17 de julho de 2012

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728. «… missão secreta que só se desvela lendo atentamente os documentos manuscritos, ainda não publicados e conservados em Évora e sobretudo em Braga, garantir os exclusivos direitos inerentes ao padroado da coroa portuguesa…»


jdact

Objectivos e resultados da embaixada
«12. Pedir respeito e espaço para a missionação católica na terra chinesa - em particular e sobretudo para os portugueses da Companhia de Jesus, suspendendo as perseguições e as severas disposições anticristãs, abolindo o decreto desfavorável aos estrangeiros e permitindo a permanência dos religiosos europeus, sobretudo portugueses, no lugar estratégico da corte imperial:
  • O primeiro, e principal negócio em ‘que’ deve empregarse o vosso cuidado ‘he’ o da propagação do Evangelho, e restabelecimento daquella missão, ‘que’ atualmente se acha com evidente perigo de perderse à vista da noticia que ‘há’ de ter o Imperador publicado ‘hum’ decreto pello qual prohibe a propagação do Evangelho, e manda expulsar dos seus dominios todos os Missionarios, obrigando juntamente os Neophitos a apostatarem da Fe; ser intensão de ‘VossaMagestade’ favoreser a misão dos Misionarios; para por este meyo, se conseguir, a concervação, e aumento das Misões daquele imperio.
13. Interceder em particular pela salvação do padre João Mourão, ao qual o rei João V dirige pessoalmente uma carta e sobre o qual Metelo redige um documento hoje em dia ainda inédito, conservado na Biblioteca de Évora. Este objectivo, totalmente implícito nas instruções reais, revelou-se de todo o modo inatingível no momento em que o embaixador soube em Macau do martírio do padre Mourão.
14. E, por fim, missão secreta que só se desvela lendo atentamente os documentos manuscritos, ainda não publicados e conservados em Évora e sobretudo em Braga, garantir os exclusivos direitos inerentes ao padroado da coroa portuguesa, pedindo ao mesmo imperador, já que a Igreja começava a não respeitar o apanágio português, que exigisse dos missionários a licença do governo português, ‘sine qua non’ se tornasse impossível a aceitação dos padres em terra asiática:
  • [para por este meyo, se conseguir (...) o restabelecimento do meu real Padroado; deveis encaminhar esta negociação propondo ao Imperador que não admita para o futuro nos seus Dominios outros missionarios se não os que vierem por Macau, ou com Licença minha, e dos meus ‘Governadores’ de quem não pode verificarse mesmo receyo ‘que’ das outras nações de que perturbem o Imperio, à vista das experiencias ‘que há’ da boa correspondencia ‘que’ sempre tiverão os Portuguezes com os Chinas, e do sossego com que ‘há’ tantos annos se conservarão nos Dominios de ‘Sua Magestade Imperial’, sem ‘que’ em tempo algum houvesse a mais leve suspeita; tocar na materia que ‘Vossa Magestade’ me encarregou (...) sobre materia do ‘Servicio’ do Imperador e na materia da Misão: ou seja procurar que não sejam admetidos de novo missionários se não os que ‘fosem’ com ‘licença’ de ‘Vossa Magestade’ (...) ‘que he’ padroeiro dos Misionarios].
Além disso, o rei esperava de Metelo informações pormenorizadas sobre o estado económico e religioso do Oriente ‘com o mesmo cuidado, e exacção vos informareis do Estado das Missoens de Tumkim, Cochinchina, Reyno de Sião, e Ilhas de Solor, Timoro’, principalmente em relação à atitude dos missionários perante a questão dos ritos e à situação de conflitualidade entre os padroeiros e os outros missionários, sobretudo os propagandistas, dos quais o monarca português quer até averiguar uma eventual repreensibilidade em matéria de doutrina cristã com o intuito de acusá-los de jansenismo. Interessava-lhe, enfim, também aclarar uma situação político-económica conflituosa com o ex-governador de Macau Cristóvão Severim Manuel. Metelo satisfez a esta ordem enviando um dossiê de documentação proveniente de várias fontes». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

  
continua
Cortesia de F. Oriente/JDACT

sábado, 17 de março de 2012

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728: «Garantir a possibilidade de preservar intacto o poder administrativo autónomo que os portugueses tinham em Macau, ponto estratégico da sua difusão para o Extremo Oriente, e defender os direitos territoriais portugueses já adquiridos, mas dos quais a Coroa temia ser despojada por causa da ambição comercial de outros países, em particular da Holanda»

jdact

Objectivos e resultados da embaixada
Os objectivos desta ingrata, difícil e, ao mesmo tempo, considerável e complexa missão que o enviado da Coroa tinha de atingir assentavam, fundamentalmente, com graduais e diferentes matizes, nestes pilares.

(Continuação)

«7. Continuar a manter redes de interesses políticos entre as duas monarquias: «significarlhe com as mais vivas expreções o muito que dezejava se conservasse incorrupta huma boa correspondencia entre ambas as Monarchias»;

8. Sustentar aquelas relações culturais que, consciente ou inconscientemente, se tinham implantado ao longo dos séculos entre o mundo ocidental e o oriental (a presença dos matemáticos e dos geógrafos ganha relevo nesta perspectiva);

9. Consolidar o sistema económico da Cidade do Nome de Deus, principalmente dos mercadores da Coroa, e as trocas comerciais bilaterais. O rei na carta de 29 de Maio de 1725 fica ‘esperando q. resulte grandes vantagens aos comerciantes de hua, e outra nação, pois cö esta reciproca utilidade se farão mais opulentas ambas as Monarchias’; e na instrução nº 1 declara explicitamente a Metelo de ser um dos objectivos desta missão: ‘aumento do comercio (de Macau), e mais intereses politicos’.
Em particular o rei estava interessado na ‘introdução do tabaco na China’, nomeadamente do tabaco em pó. A resposta de Metelo a essa ordem parece quase irónica: ‘Em observancia desta ordem de “Vossa Magestade” pouco fez minha diligencia, porque só pude acrescentar a despeza, e não a conveniencia, repartindo pelos ministros do Imperador da China as caixas, e o tabaco que “Vossa Magestade” me mandou entregar, e outro mais que comprei aos Administradores para o mesmo fim; e quando o uzo do tabaco de pó se venha a fazer commum na China ha de presumir que naquelle Imperio se farão fabricas delles, porque àquelles homens não falta industria ‘para’ imitar, e tambem lhe não falta a mesma erva de tabaco de ‘que’ uzamos, por que dellas tem largas cearas, por ser ‘muito’ commum o uzo do tabaco de fumo em todo aquelle Imperio’;
10. Garantir a possibilidade de preservar intacto o poder administrativo relativamente autónomo que os portugueses tinham em Macau, ponto estratégico da sua difusão para o Extremo Oriente, e defender os direitos territoriais portugueses já adquiridos, mas dos quais a Coroa temia ser despojada por causa da ambição comercial de outros países, em particular da Holanda. 
  • Instrução 29. Nem dos negocios referidos, deveis impregarvos com igual cuidado na Corte de Pekim em promover os interesses politicos da Cidade de Macau solicitando do Imperador tudo o que for possivel para augmento do seu comércio que tinhão os Chinas, e a liberdade, que logravão os Macaenses no tempo do Imperador defunto, no cazo que tenha havido alguma alteração nesta materia, impregando nella todas as diligencias possiveis, como tambem em facilitar a introdução do tabaco na corter; a concervação dos privilegios concedidos, pelo Imperador defunto, à Cidade de Macâo, e aumento do seo comercio, e mais intereses politicos; rogar-lhe, que comunique a sua protecção, e beneficiencia aos habitantes de Macao; e como tal me mandava agradecesse os favores, que os moradores de Machau, e mais Portuguezes tem recebido neste Imperior;

11. Rogar ao imperador que continue a oferecer protecção também aos outros portugueses presentes nos domínios dos manchus, comunicando aos seus súbditos o apoio dado para tornar mais favorável a atitude dos mandarins para com os lusitanos já enraizados no reino ‘e agradecerlhe juntamente os privilegios, e mercês, que estes tem concedido assim á Cidade de Macáo, como aos mais Portuguezes, existentes naquelle Imperio; com grande pretenção, que o Imperador Kamtti mostrava para favorecer os Portuguezes». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.




Continua
Cortesia de F. Oriente/JDACT

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728: «Os objectivos desta ingrata, difícil e, ao mesmo tempo, considerável e complexa missão que o enviado da Coroa tinha de atingir assentavam, fundamentalmente, com graduais e diferentes matizes… Agradecer os apoios recebidos até aquela altura por parte do imperador Kangxi…»

Cortesia da foriente

Um negócio de política internacional. As relações com o Brasil, a Holanda e a China
«Se, devido à paragem não programada no Brasil, o embaixador escreve directamente em 28 de Maio de 1727 um papel de apresentação ao governador do Rio de Janeiro, Luís Vahia Monteiro, para o responsável político de Batávia, ao invés, o mesmo D. João V redigira em Portugal duas cartas antes da saída da embaixada. A paragem de tipo técnico na ilha flamenga à procura de um guia local que conduzisse os lusitanos a Macau, através do insidioso mar chinês, resultou portanto menos casual e mais programada em relação à permanência no Rio de Janeiro. O interesse de Portugal para com os holandeses, sobretudo quando se atenuaram as desinteligências com a Vereenigde Oost-Indische Compagnie, referia-se em particular ao comércio com a cidade de Batávia, onde os macaenses negociavam chá em troca principalmente de pimenta. O contacto com a Batávia ao longo do tempo ‘transformar-se-ia numa estreita dependência à medida que outros mercados no Mar da China Meridional se fechavam aos Portugueses’.

Cortesia de foriente

Após a interdição, na China dos Ching, ao comércio externo em 1717, a ilha holandesa revelara-se uma fonte de negócio para os mercadores independentes portugueses em Macau que tinham assumido também a função de traficantes por parte de Cantão. A missão de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses penetra exactamente nesta dura e complicada situação comercial do Este do continente euro-asiático.
Mas em particular, incumbe ao legado do rei tratar negócios directamente com a China, na esperança de continuar a manter com este império boas relações políticas, económicas e religiosas. Metelo tinha de moderar a tensão política, temperar o novo monarca manchu e ajustar as condições diplomáticas com o desejo de conservar intactos os interesses de ambas as partes e de favorecer uma recíproca colaboração atenta às necessidades comuns.

Objectivos e resultados da embaixada
Os objectivos desta ingrata, difícil e, ao mesmo tempo, considerável e complexa missão que o enviado da Coroa tinha de atingir assentavam, fundamentalmente, com graduais e diferentes matizes, nestes pilares:
  • Agradecer os apoios recebidos até aquela altura por parte do imperador Kangxi. O rei escreve na carta enviada através de Metelo: «tendo na minha lembrança o m.to q. favorecia (Kangxi) aos meus vassallos q. rezidião nesse Imperio, e a grande propenção q. mostrava p.ª tudo o q. tocava aos interesses desta Coroa». O embaixador, referindo ao rei o êxito da missão, sublinha que comunicou ao imperador os agradecimentos pelo «bem» com que «sempre tratou os seus vassalos assistentes naquelle Imperio, e em Macau»;
  • Mostrar gratidão pelos presentes que Kangxi enviara a D. João V, «no acto de attenção que o Imperador fez em mandar ao meu Monarcha hum grandiozo mimo, poz a ElRey meu amo em hum grande reconhecimento»; «obrigado ao Imperador defunto, pela lembrança do mimo que lhe mandou pelo Padre Magalhães»;

Cortesia de foriente
  • Enviar ao novo soberano presentes do mesmo teor dos que o rei D. João V recebera do imperador Kangxi «gratificar-lho com o riquíssimo prezente de trinta caixões de exquisitas preciosidades»; «o acto da attenção que faz em mandar a Sua Magestade hum grande mimo»; «mandar-lhe com a remessa de hum inestimavel mimo»;
  • Manifestar a Yongzheng o profundo pesar pelo óbito do seu pai Kangxi «cumprimentar o Imperador reinante com o pezame da morte do seu pae»; «que com a notticia do dito Imperador ser falecido (o Rei) ficara summamente sentido»;
  • Apresentar cumprimentos, congratulando-se pela elevação de Yongzheng ao trono «mandar felicitar ao Imperador da China, da sua exaltação ao trono»; «dar (...) os parabéns da sua exaltação ao throno»; «este negocio se dirige a dar os parabens ao Imperador da sua assumpção ao throno»; «comprimentar o Imperador Reinante»;
  • Assegurar com o novo imperador a boa correspondência de amizade já encaminhada durante o período de regência de Kangxi, o mesmo rei na sua carta de 29 de Março de 1725 escreve: «meu mui claro e amado Amigo (...) q. como Irmão m.to amo, e prezo (...) o meu desejo é de continuar a mesma boa amizade, e correspondencia co a sua real pessoa»; e Metelo ecrescenta: «que o Rey N. Sñr. fazia tam grande estimação da amizade de S. Mag.de Imperial (...) congratula-lo por se achar digno sucessor do Imperio de seu Pay»; «tinha que pedir da parte de ElRey (...) que quizesse se conservasse entre ambos os reinos aquella reciproca amizade, e correspondencia que houve no reinado do Imperador defunto», «e cultivar a amizade do mesmo Imperador»;
In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Continua
Cortesia de F. Oriente/JDACT

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728: «A morte do soberano chinês e a subida ao trono do seu quarto filho, Yongzheng, que reinou de 1722 a 1735, veio alterar a perspectiva diplomática e o equilíbrio internacional, preocupando notavelmente a corte lusitana»

Cortesia da foriente

A História e a Diplomacia através dos Textos
Retrospectiva histórica da embaixada
«Quando o imperador Kangxi (1654-1722) enviou ao rei D. João V no dia 3 de Março de 1721 o Pe António de Magalhães (missionário em Macau desde 1696 e em Pequim a partir de 1716) em sinal de que entre Portugal e a China as relações podiam continuar no recíproco respeito e com o apoio e a protecção necessários aos jesuítas lusitanos, insinuou-se a possibilidade de reconstituir aquele tecido sociopolítico que a «questão dos ritos» e as divisões internas à mesma igreja tinham profundamente desgastado.
A morte do soberano chinês e a subida ao trono do seu quarto filho, Yongzheng, que reinou de 1722 a 1735, veio alterar a perspectiva diplomática e o equilíbrio internacional, preocupando notavelmente a corte lusitana: as circunstâncias favoráveis aos portugueses iam-se paulatinamente modificando. O desaparecimento de Kangxi e a sua sucessão acabariam por suscitar acontecimentos que produziram na China conflitos, divergências e desequilíbrios políticos.

Afirma o Pe. Magalhães, na qualidade de cronista do texto B, que «não via nos Mandarins aquellas demonstrações, que esperava, e tinha experimentado quando parti para Europa. Estava a differença em que então reynava Cam Hi, e agora Yun Chin». Portugal precisava do seu pequeno recanto de Macau como base económico-política e como ponto de irradiação religiosa para a Ásia. Este território segundo uma definição de Pe. Manuel Teixeira, «na encruzilhada de dois mundos era a charneira de dois impérios, de duas culturas e de duas políticas, profunda e fortemente impregnadas de influência luso-chinesa».

Cortesia de wikipedia

Ao mesmo tempo a Coroa lusitana não podia perder o prestígio que tinha adquirido com paciência e vigor no decurso de séculos de presença no Extremo Oriente. Para consolidar e confirmar o relacionamento com o Império Oriental, D. João V, aceitando a sugestão de António de Magalhães e já anteriormente solicitado pelo procurador de Macau, que tinha pedido ao rei de Portugal que mandasse «um embaixador ao imperador da China para lhe agradecer o bom animo que mostra em rodas as dependências dos portuguezes e consiga ao mesmo sobrano alguns novos privilegios para alguma cidade», organiza uma delicada missão ao extremo leste, que confia a um zeloso diplomata de trinta e oito anos, já secretário da embaixada de Pedro de Vasconcelos em Madrid e com incontestáveis carismas políticos: Alexandre Metelo de Sousa e Meneses.
Para alcançar os efeitos diplomáticos desejados, Alexandre Metelo, cônscio de que a sua missão não ia ser isenta de dificuldades, terá usado de calma, inteligência e prudência. Ele será definido pelo imperador como «homem polido, e sabio, e digno de estimação» e o mesmo Metelo declara que realizou a embaixada «com a mayor felicidade que pudia ser no sistema prezente».

Yongzheng, sempre segundo a narração directa de Alexandre de Sousa e Meneses, parece ter-se apercebido de que o rei «soubera escolher pessoa a prepozito, e que», é o mesmo Metelo que o afirma, «conhecendo o meu talento, me encarregara desta função, a qual eu tinha feyto bellamente, de modo que elle Imperador se achava m.to satisfeyto».
Mas os resultados, que, pela contingência histórica e dificuldades da época, não podiam esperar êxito mais favorável, não corresponderam “in toto” aos esforços empreendidos.

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Um negócio de política internacional. As relações com o Brasil, a Holanda e a China
Tangencialmente às relações com o Oriente, a viagem de Metelo revelou-se também útil, graças às suas escalas técnicas, para reforçar os contactos com o Brasil (onde o grupo ficou na ida 4 meses e l8 dias; e pouco tempo no regresso) e com o governo holandês, ao qual o embaixador deixou em Batávia, actual Djacarta, onde permaneceu um mês, duas cartas da Coroa.
A paragem no Brasil, como se deduz da “Relação” feita por Francisco Xavier da Rua, foi decidida principalmente pelo capitão-de-mar-e-guerra Duarte Pereira e pelo capitão-tenente Henrique Nicolau contra as opiniões, não explicitamente declaradas, quer do embaixador quer do Pe. António de Magalhães, os quais teriam preferido chegar rapidamente à Batávia. No entanto, nesta colónia, 11 anos antes elevada a vice-reino, D. João V tinha de cultivar os interesses financeiros ligados tanto às fontes remunerativas estrangeiras como às novas explorações de metais preciosos. Ao mesmo tempo o rei precisava de manter os equilíbrios políticos internos para encarar as prolongadas guerras civis dos dissidentes locais. Enfim, também com as monarquias estrangeiras a Coroa portuguesa tinha de preservar boas relações, sobretudo para contrariar o poderio francês e holandês sempre às portas do território ultramarino. A escala na «opulenta cidade do Rio de Janeiro», como refere o texto B, tornou-se portanto útil, quer à Coroa, para o relacionamento entre a mãe pátria e a colónia brasileira, quer à embaixada, dada a oportunidade que Metelo logrou de obter subsídios substanciais destinados à prossecução da viagem.

Por outro lado, também com a Holanda D. João V tinha de manter os profícuos contactos já avançados por D. Pedro II e selados pela aliança de 1703, sem por isso ceder às pressões que o governo holandês continuava a exercer na ilha de Timor para a libertar totalmente do domínio português ou aceitar passivamente que os holandeses dominassem nos mares orientais». In Mariagrazia Russo, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, Fundação Oriente, 2005, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Cortesia de F. Oriente/JDACT


sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Fundação Oriente. Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728: «Sem contarmos com algumas iniciativas lançadas de Macau ou de Goa podemos inventariar 5 importantes missões diplomáticas gizadas e decididas em Lisboa e oficialmente recebidas pela corte imperial como embaixadas, no limite que esta palavra assumiu no quadro do sistema tributário chinês»

Cortesia da foriente

«Até aos meados do século XIX, dada a escassez ou a simples inexistência de laços ou de relações de outro tipo, culturais, comerciais ou sociais, e ainda hoje, para o bem e para o mal, a história das relações do Ocidente com a China esgota-se muitas vezes nas dinâmicas e nas vicissitudes da história diplomática. Algumas vezes, como uma «história de proveito e exemplo», outras de modo menos feliz pela extrapolação generalizada que o mero «acidente», diplomático uma embaixada também pode constituir. Há, no entanto, missões diplomáticas que nada têm de acidental; missões cujo contexto é em extremo revelador de um relacionamento mais ou menos continuado, justificativo e explicativo dessa forma continuada de contacto entre estados.

Na história da diplomacia europeia na China dos séculos XVII e XVIII, se o caso da Inglaterra tem uma relevância muito relativa, quer pela época em que tem lugar, quer pelo contexto político que a justifica, o mesmo se não poderá dizer da Rússia, da Holanda e, particularmente, de Portugal. No último caso, por uma série variada de razões.
Em primeiro lugar, pelo número considerável de missões diplomáticas, a maior parte delas efectivamente classificada como «embaixadas» em forma, que, frustradas ou não, indiciam desde muito cedo o estilo que Portugal considerou adequado às suas relações com o império.


Cortesia de visaodopassado e ibrhema

Sem contarmos com algumas iniciativas de carácter regional lançadas de Macau ou de Goa podemos inventariar cinco importantes missões diplomáticas gizadas e decididas em Lisboa e (à excepção da última) oficialmente recebidas pela corte imperial como embaixadas, no limite que esta palavra assumiu no quadro do sistema tributário chinês: a embaixada de Tomé Pires, 1516;
  • a de Manuel de Saldanha, 1667;
  • a de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses, 1725;
  • a de Francisco de Assis Pacheco de Sampaio, 1752;
  • a missão diplomática de D. Fr. Alexandre de Gouveia, bispo de Pequim, 1783.
Ainda que já meritoriamente sublinhada a importância dessa missão pelos trabalhos pioneiros de Eduardo Brasão e de João de Deus Ramos, o feliz acaso da descoberta de documentos que lhe são relativos nas Bibliotecas Apostólica do Vaticano e Nacional Central de Roma e, particularmente, na de Braga, onde se conserva o «processo» oficial da embaixada.

Ao buscar nas bibliotecas públicas de Roma documentos de interesse para a cultura lusitana por ocasião do congresso «L'epoca delle grandi scoperte geografiche. Problemi e metodologie della ricerca storico-letteraria della didattica e della divulgazione» (Mariagrazia Russo), encontrámos na Biblioteca Nazionale Centrale Vittorio Emanuele II de Roma (BNR) alguns manuscritos inéditos com interesse para o conhecimento das relações entre Portugal e a China no século XVIII; documentos relativos, em particular, ao regresso às terras sínicas do padre jesuíta António de Magalhães, enviado a Portugal pelo imperador Kangxi e à embaixada de Alexandre Metelo de Sousa e Meneses enviado do rei D. João V de Portugal ao imperador Yongzheng.

D. João V
Cortesia de wikipedia

Pesquisas sucessivas conduziram-me a desenvolver acerca deste tema uma mais atenta investigação na Biblioteca Apostólica Vaticana (BAV), onde estão conservados outros manuscritos inéditos em língua chinesa já citados pelo sinólogo Paul Pelliot. Posteriormente, em Portugal, tive a possibilidade de trabalhar em primeira mão no processo oficial da embaixada no Arquivo Histórico da Universidade do Minho de Braga (ADB).
O secretário do embaixador Alexandre Metelo, Francisco Xavier da Rua, afirmava no seu «Diário» que, enquanto o legado do rei português ia a Pequim, tinha sido entregue ao representante de D. João V «huma relação do successo, que teve o Muito Reverendo Antonio de Magalhães, quando chegou á Corte» e, na lista dos objectos pertencentes ao padre jesuíta António de Magalhães, conservada manuscrita na Biblioteca Pública de Évora (Évora), aparecem «dous livros para memoria».

Até hoje existiam da embaixada de Metelo muitos relatórios, cartas, papéis avulsos, em original e cópia, mas destes documentos respeitantes ao padre inaciano não se possuía rasto. De entre os textos que aqui se transcrevem aparecem dois trechos ligados exactamente a esta fase de regresso do padre jesuíta ao Império do Meio». In Mariagrazia Russo, Fundação Oriente, Embaixada de D. João V de Portugal ao Imperador Yongheng, da China, 1725-1728, António V. Saldanha, 2005, ISBN 972-785-083-9.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT