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segunda-feira, 23 de maio de 2011

Augusto Reis Machado: A escrita biográfica de Frei Luís de Sousa. Parte II. «O trabalho de frei Luís de Sousa está naturalmente dentro deste defeituoso condicionamento, agravado pelo critério histórico da época. Por outro lado os escritos de frei Bartolomeu dos Mártires, que chegaram até nós (vários se perderam), não fornecem suficientes elementos para completar o trabalho de Sousa no sentido dum melhor conhecimento do arcebispo»

Cortesia de auladeliteraturaportuguesa

A escrita biográfica de Frei Luís de Sousa
A «História de S. Domingos» e a «Vida de frei Bartolomeu dos Mártires», apresentou a dominante preocupação de exaltar a Ordem dominicana, enaltecendo a piedade, as virtudes e letras dos seus membros.
Na «História de S. Domingos» essa preocupação traduz-se especialmente pelo relato de numerosos milagres, êxtases e visões, de interesse mais religioso do que histórico; na «Vida de frei Bartolomeu dos Mártires» pelo relato dos merecimentos do arcebispo.
Foi a «Vida» do arcebispo tirada dum acervo enorme de apontamentos, que ele ampliou com várias particularidades obtidas por ele próprio, e que ordenou e pôs em estilo. A maior parte dos apontamentos tinham sido tomados por frei Luís de Cácegas. Referindo-se a eles, escreveu Alexandre Lobo:
  • «as Memórias de Cácegas eram indigestas e informes, ele (frei Luís) tirou do confuso caos um corpo regular, aptamente conformado, que da prudente disposição recebe alma, claridade e formosura» e mais adiante: «apontamentos e rascunhos mal alinhados e muito perplexos».


Cortesia de memoriasdomeubairro

E é o conhecimento da realidade viva e da totalidade concreta que a história principalmente visa; objectivo de extrema dificuldade, pois não só é procurado através dos documentos (matéria morta), mas é perturbado pelas crenças' paixões, predilecções, interesses do historiador. Quantas falsas visões, quantos informes omitidos, quantos acrescentamentos fantasiosos!
O trabalho de frei Luís de Sousa está naturalmente dentro deste defeituoso condicionamento, agravado pelo critério histórico da época. Por outro lado os escritos de frei Bartolomeu dos Mártires, que chegaram até nós (vários se perderam), não fornecem suficientes elementos para completar o trabalho de Sousa no sentido dum melhor conhecimento do arcebispo; são sobretudo doutrinários e de devoção.
Francisco Alexandre Lobo, referindo-se às obras de frei Luís de Sousa, diz que «não pintam homens, representam anjos, não são corpos de história são panegíricos em que a mesma vaidade move desconfiança ou se despreza como fábula vaidosa».
Seria frei Bartolomeu um «presuntuoso» um «altivo», como lhe chamavam os seus inimigos? (Livro III, cap. IX), - um espírito naturalmente orgulhoso (que procurava ocultar-se sob uma forçada modéstia); pouco sociável, refractário a qualquer ingerência alheia, sobranceiramente apegado a estudos, devoções e costumes em que gostosamente se sentiria embalado e superiorizado?

Cortesia de biblioviso

Costumes que ostensivamente contrapunha aos duma época, que ele estigmatizava do alto do púlpito como, por exemplo, quando, em Coimbra, se referia a «uma vanglória que hoje vejo devassadamente introduzida ou entronizada em Portugal, de pompas, de gastos e estados, que nunca usaram vossos avós, nem vos fazem melhores, nem mais honrados; de invenções de trajos que vos trazem os membros emprensados, cativos e aleijados, que tevéreis merecimento se por penitência os sofrêreis; de gulodices e superfluidades nas mesas que efeminam os ânimos e enfraquecem os corpos» (Livro IV, cap. III).
As autoridades terrenas, parece que pouco o interessavam, parece não ter por elas especial deferência. Vários casos levam a suspeitá-lo. Assim por exemplo: constrangido se encontrou com Filipe II, ao regressar de Trento:
  • «bastantemente vinha enfastiado de honras e favores de príncipes e do maior de todos que era o papa» e «não pôde acabar consigo falar por Majestade a um rei da terra», «parecia-lhe que fazia agravo à Divina, que sempre trazia presente na alma, se comunicasse aquele tão alto título a quem era terra» «Majestade só Deus a tinha». (Livro II, cap. XXXIII).
Deus e ele, e os pobres como representações de Cristo, e portanto divinas. Nada mais». In Augusto Reis Machado, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia da Fundação Gulbenkian/JDACT

domingo, 22 de maio de 2011

Augusto Reis Machado: A escrita biográfica de Frei Luís de Sousa. «Tiveram especial valor os Anais de D. João III, sobretudo pelo importante material de investigação de que se serviu o autor. Utilizou ele e citou bastantes documentos, alguns dos quais Alexandre Herculano veio a aproveitar. Dentre eles são de especial interesse as Memórias de António Carneiro, secretário dos reis D. João II e D. Manuel»

Cortesia de lfawebfolio

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«Dois clássicos portugueses podem disputar a primazia da limpidez e correcção de linguagem: um é frei Luís de Sousa, outro Manuel Bernardes; mais simples ainda e mais desafectado que o autor da «Nova Floresta», com menos preocupações de artista, embora de quando em quando se perceba, pelo tom da prosa, que vai, conscientemente, escrever um trecho de antologia, frei Luís de Sousa encanta pela brandura do estilo, pela serena esfera em que consegue mantê-lo, ainda na descrição de acontecimentos que exigiriam porventura a linguagem nervosa e enérgica de Vieira; de uma delicadeza sem par, ingenuamente gracioso, perfumado das rosas e violetas do convento de Benfica, todo ele no ritmo da água que docemente vai correndo de fonte a fonte, nos jardins da casa, o estilo de frei Luís de Sousa reflecte a atitude essencial de uma alma que toda se votou a uma vida tranquila e que olha o espectáculo do mundo com a indulgência e o íntimo sossego do santo.

Cortesia de pauloborges

Completamente afastado de tentações retóricas, nem uma única vez se inclina ante a moda gongórica que mancha os melhores escritores do século; as acrobacias de pensamento e de linguagem não atraem quem escreve por obediência e dá o melhor da sua atenção ao desenho do biografado ou ao maravilhoso dos milagres.
Quer mostre o arcebispo nas serras do Barroso ou na discussão de Trento, quer passeie o leitor pela igreja da Batalha ou lhe descreva o cerco de Ormuz e a destruição de Vila Franca, jamais se turva a clareza do seu dizer, jamais se entretém o bom frade naqueles arrebiques e sábios equilíbrios de períodos a que por vezes, embora raramente, Bernardes se entregou.
Senhor da língua, sentindo-lhe perfeitamente o génio e as tendências, soube utilizar com propriedade, locuções tradicionais e dar cunho tão firme às que inventou, que não é hoje fácil tarefa destrinçá-las das outras. Nas imagens trabalhou como poeta e soube adaptá-las ao ritmo e às exigências da prosa com o tacto e a segurança dos verdadeiros escritores; nem por excesso de metáforas ficaram as páginas empoladas e artificiais, nem por defeito, pobres e sem vida.

Cortesia de cantosdaleitura

Cheio de pureza, de graça, de religiosa gravidade, de compassado movimento, sensível à ironia branda do moralista, exacto na expressão das ideias, animado de uma bondade que o embebe de finura e de modéstia, o estilo de frei Luís de Sousa aparece-nos como um dos que mais apuraram a nossa língua e contribuíram para a fazer abandonar de todo, as asperezas e incertezas de 500, tornando-a um instrumento maleável e sólido nas mãos dos futuros escritores.
Sob o aspecto histórico a obra de frei Luís de Sousa reflecte, em geral, a deficiência documental e crítica que caracteriza as «Crónicas e Anais» com que os antigos (especialmente os autores do século XVI relatavam os acontecimentos e retratavam os homens.
Tiveram especial valor os Anais de D. João III, sobretudo pelo importante material de investigação de que se serviu o autor. Utilizou ele e citou bastantes documentos, alguns dos quais Alexandre Herculano veio a aproveitar. Dentre eles são de especial interesse as Memórias de António Carneiro, secretário dos reis D. João II e D. Manuel. Nota-se nos Anais um especial interesse do autor por tudo quanto se refere à história ultramarina de Portugal, interesse que explica o longo relato que faz na Vida de frei Bartolomeu dos Mártires do cerco e defesa de Mazagão». In Augusto Reis Machado, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia da Fundação Gulbenkian/JDACT