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domingo, 14 de setembro de 2014

Chove. A chuva não molha neste Domingo. Poesia. «É tão frágil, tão doente! É como um fio amarrado entre o passado e o presente, entre o presente e o passado. Chove. A chuva não molha mas acorda a saudade dos ninhos conchegados e das luzes quebradas da tardinha»

jdact e wikipedia

«Deitem-me raras ternuras
sobre os cabelos serenos.
O branco das vestiduras
que me tape os pés pequenos.

Abram portas ao sacrário
para Jesus rodear
com braços de ventos mansos,
astros, pinhais e luar,
ânsias, almas e o incenso
das noites de recordar…

Abram-me ao sono das tardes
o escuro dos desconsolos,
sem ruídos nem alardes.

Ao zumbido dos insectos
roubem a vida escaldante,
que enerva as sombras nos tectos.


No fundo dos meus vazios,
tão saturados de gelos,
deitem a cal dos defuntos
 para roer pesadelos.

No fundo dos meus soluços
deitem mais água de chuva,
água embarcada com folhas,
água corrida com terra;
lama desfeita e refeita
nas fendas fundas da serra.

Depois, ante os fatos podres,
minha solidão de mundos,
meu sonho esparso e sem chão,
parem séculos e séculos.

Sobre esta fonte rebelde,
distante, erguida
e vencida,
inscrevam as agonias
que foram da minha vida.

……………………………

Sobre a dor do meu olhar
as agonias do mar!
Poema de Natércia Freire, in ‘Poesias Escolhidas’

JDACT

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Carlos de Oliveira: Um dos grandes poetas do século XX. Combina a preocupação de intervenção social com a reflexão sobre a escrita. Um escritor dotado de densidade e agudeza nos efeitos diversificados da sua leitura

(1921-1981)
Óleo de Mário Dionísio
Cortesia de humusl33

Bolor
Os versos
que te digam
a pobreza que somos,
o bolor nas paredes
deste quarto deserto,
o orvalho da amargura
na flor
de cada sonho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.
Carlos de Oliveira, in «Poesias»

Montanha
Sons sob a luz. Mosteiros,
torres sobrenaturais,
vibrando fluidamente no ar;
como? se o fluxo de mica,
os altos blocos de água,
cintilam sem rumor.

Toda esta arquitectura,
lenta percussão, perpassa;
sobre cerros sonoros;
com o seu contorno
infixo, fulgurando. Detenham-se
as estrelas quando
for noite; preguem-se
outros pregos de prata
fora do céu visível.
Sons já sem luz. Pastores
poisam as ocarinas, bebem;
entre colinas ocas;
o frio coalhado
pelas tetas das cabras.
Carlos de Oliveira, in «Pastoral»

JDACT