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sábado, 9 de dezembro de 2017

A Mensageira. Daniel Silva. «O cabelo preto brilhava como a asa de um corvo. Os olhos eram também quase pretos, mas cintilavam com outro fulgor. Seu nome era Hamida al-Tatari. Dissera ser refugiada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O seu último livro fora basicamente um apelo a uma Reforma Islâmica. Os membros da jihad acusaram-no de ser herege. Os moderados proclamaram que tinha a coragem de Martinho Lutero. Nessa tarde, argumentara, para consternação de Sayyid, que a bola se encontrava no campo palestino. Enquanto os Palestinos não abandonassem a cultura do terror, alertara Massoudi, não se poderia esperar que os Israelitas cedessem um milímetro que fosse da Cisjordânia. Nem o deveriam fazer. Sacrilégio, bradara Sayyid. Apostasia. O professor Massoudi era alto, tendo um pouco mais de um metro e oitenta de altura, e era demasiado bem-apessoado para um homem que trabalhava com jovens mulheres impressionáveis. Tinha o cabelo escuro e encaracolado, malares largos e fortes e um queixo quadrado com uma covinha marcada ao centro. Os olhos castanhos e profundos conferiam-lhe ao rosto um ar de inteligência acentuada e tranquilizadora. Vestido como estava, com um casaco desportivo de caxemira e uma camisola de gola alta creme, parecia o arquétipo do intelectual europeu. Era uma imagem que lhe dava muito trabalho a transmitir. Com gestos deliberados, guardou metodicamente os papéis e as canetas na pasta coçada e desceu os degraus do palco, ao que se dirigiu ao corredor central, em direcção à saída. Vários elementos da assistência demoravam-se na entrada. A um lado, uma ilha tempestuosa no centro de um mar de tranquilidade, estava a garota. Vestia jeans desbotados, um blusão de couro e um kaffiyeh palestino axadrezado ao pescoço. O cabelo preto brilhava como a asa de um corvo. Os olhos eram também quase pretos, mas cintilavam com outro fulgor. Seu nome era Hamida al-Tatari. Dissera ser refugiada. Nascera em Ama, fora criada em Hamburgo e era agora uma cidadã canadiana que residia no Norte de Londres. Massoudi conhecera-a nessa tarde, durante uma recepção na associação de estudantes. Com um café na mão, acusara-o com fervor de mostrar insuficiente afronta contra os crimes dos americanos e dos judeus. Massoudi gostara do que vira. Tinham combinado tomar uma bebida nesse serão, no bar ao lado do teatro de Sloane Square. As intenções dele não eram românticas. Não queria o corpo de Hamida. Queria o seu entusiasmo e o seu rosto limpo. O inglês perfeito e o passaporte canadiano. A jovem lançou-lhe um olhar furtivo quando ele cruzou o hall, mas não tentou falar-lhe. Mantém a distância após o simpósio, indicara-lhe ele nessa tarde. Um homem da minha posição tem de ter cuidado com quem é visto. No exterior, abrigou-se por um momento debaixo do pórtico e olhou o trânsito que se arrastava ao longo da estrada molhada. Sentiu alguém a encostar-se ao seu cotovelo e depois observou Hamida a mergulhar silenciosamente na chuvada. Esperou que desaparecesse, pendurou a pasta no ombro e afastou-se na direcção oposta, para o hotel em Russell Square.
Deixou-se transformar, a mudança que ocorria sempre que alternava entre vidas. A aceleração do ritmo cardíaco, o aguçar dos sentidos, a repentina inclinação para os pormenores. Como o jovem calvo que vinha em sua direcção, ao abrigo de um guarda-chuva, e cujo olhar pareceu demorar-se no rosto de Massoudi por um instante mais do que deveria. Ou o vendedor do quiosque que fitara, sem pudor, seus olhos, quando comprara o Evening Standard. Ou o taxista que o observou, trinta segundos depois, quando jogou esse mesmo jornal numa lixeira em Upper Woburn Place. Um autocarro cruzou-se com ele. Enquanto passava ruidosamente, Massoudi espiou as janelas embaciadas e viu uma dúzia de rostos cansados, quase todos negros ou castanhos. Os novos londrinos, pensou, e, por um instante, o professor de Administração Global e Teoria Social debateu-se com as implicações. Quantos apoiariam em silêncio a sua causa? Quantos assinariam por baixo, se lhes apresentasse um contrato de morte?
Logo depois e o autocarro ter passado, viu no passeio oposto um único pedestre: capa de plástico, rabo-de-cavalo, duas linhas estreitas como sobrancelhas. Massoudi reconheceu-o de imediato. O jovem estivera na conferência, na mesma fila de Hamida, mas no lado oposto do auditório. Ocupara o mesmo lugar nessa manhã, quando Massoudi fora a única voz opositora durante uma discussão sobre os benefícios da proibição de académicos israelitas nas costas europeias. Massoudi baixou os olhos e continuou a andar, levando involuntariamente a mão à alça da pasta. Estaria a ser seguido? Se assim fosse, por quem? O MI5 seria a explicação mais plausível. A mais provável, pensou, mas não a única. A BND alemã poderia tê-lo seguido de Bremen até Londres. Ou talvez estivesse vigiado pela CIA». In Daniel Silva, A Mensageira, 2006, Bertrand Editora, 2007, ISBN 978-972-251-544-3.

Cortesia de BEditora/JDACT

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A Mensageira. Daniel Silva. «Palestino de nascimento, jordano de passaporte e europeu de formação e estudos, o professor Massoudi surgia ao mundo como um homem moderado»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Gabriel Allon, restaurador de arte e espião, está prestes a enfrentar o maior desafio da sua vida. Um alegado simpatizante da Al-Qaeda é morto em Londres, e no seu computador são encontradas fotos que levam o serviço secreto israelense a desconfiar de que a organização terrorista prepara um dos mais arrojados atentados no coração do Vaticano. Allon avisa o seu velho amigo, monsenhor Luigi Donati, secretário pessoal do papa, e parte para Roma a fim de ajudar na segurança. O que nem ele nem Donati sabem é que o inimigo já se infiltrou no Vaticano. Nas semanas seguintes, Allon travará mortífero duelo de astúcia contra um dos homens mais perigosos do mundo, que o levará de uma galeria londrina a uma ilha paradisíaca no Caribe, a um isolado vale na Suíça e, por fim, de volta ao Vaticano. Allon monta uma armadilha e espera não ser ele a presa. Com intriga intensa e imprevisível, A Mensageira consolida a reputação de Daniel Silva.

Londres
Foi Ali Massoudi quem, involuntariamente, arrancou Gabriel Allon do seu apartamento breve e inquieto: Massoudi, o grande intelectual e livre-pensador eurófilo que, num momento de pânico, se esqueceu de que os ingleses dirigem do lado esquerdo da estrada. O cenário de sua morte foi um fim de tarde chuvoso de Outubro, em Bloomsbury. A data, a sessão final do primeiro Fórum Político anual para a Paz e Segurança na Palestina, Iraque e Países Vizinhos. A conferência tivera início nessa manhã bem cedo, por entre votos de esperança e grande fanfarra. Ao fim do dia, contudo, assumira a qualidade de uma peça medíocre em digressão. Até mesmo os manifestantes que ali tinham comparecido, na esperança de partilhar um pouco da luz da ribalta, pareciam ter consciência de que representavam um guião já muito batido. O presidente americano foi queimado em efígie às dez. O primeiro-ministro israelense foi lançado às chamas purificadoras às onze. Por volta da hora de almoço, sob um dilúvio que por momentos transformou Russell Square num lago, tivera lugar uma qualquer tolice relacionada com os direitos das mulheres na Arábia Saudita. Às oito e meia, quando o painel final foi dado por encerrado, as duas dúzias de estoicos que tinham permanecido até o fim arrastaram-se para as saídas. Os organizadores do acontecimento detectaram pouco apetite para uma repetição do encontro, no Outono seguinte.
Um aderecista adiantou-se e removeu do púlpito um cartaz que dizia: Gaza foi libertada e agora? O primeiro congressista a levantar-se foi Sayyid, da London School of Economics, defensor dos homens-bomba suicidas e apologista da Al-Qaeda. Em seguida, o austero camareiro-mor de Cambridge, que falava da Palestina e dos judeus como se estes ainda fossem uma pedra no sapato dos elementos sisudos do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ao longo de toda a discussão, o idoso camareiro servira de Muro de Separação entre o inflamável Sayyid e uma pobre alma da embaixada israelita, chamada Rachel, que suscitara apupos e vaias de desaprovação sempre que abrira a boca. O camareiro procurava agora servir de soldado da paz, com Sayyid a perseguir Rachel até a porta, lançando-lhe invectivas em que lhe dizia que os dias de colonizadora chegavam ao fim.
Ali Massoudi, professor de Administração Global e de Teoria Social da Universidade de Bremen, foi o último a levantar-se. Tal não seria de surpreender, poderiam ter dito os colegas invejosos, pois no mundo incestuoso dos estudos sobre o Médio Oriente, Massoudi tinha a reputação de ser alguém que nunca abandonava de bom grado um palco. Palestino de nascimento, jordano de passaporte e europeu de formação e estudos, o professor Massoudi surgia ao mundo como um homem moderado. O futuro brilhante da Arábia, assim lhe chamavam. O rosto do progresso. Era conhecido por desconfiar da religião em geral e do islamismo militante em particular. Aproveitava todas as oportunidades, quer fosse em editoriais de jornais, nas salas de aula ou na televisão, para se lamentar da disfunção vivida pelo mundo árabe. Do seu fracasso em educar o povo. Da tendência para culpar os Americanos e os Sionistas pelas maleitas de que padecia». In Daniel Silva, A Mensageira, 2006, Bertrand Editora, 2007, ISBN 978-972-251-544-3.

Cortesia de BEditora/JDACT