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quarta-feira, 9 de junho de 2021

Lucinda Riley. O Segredo de Helena. «Querido Alex, feliz Natal! Procure manter este diário em dia, escrevendo com regularidade. Talvez seja interessante lê-lo quando for mais velho…»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Fechei a porta com firmeza, ainda incapaz de lidar com a Caixa de Pandora das lembranças que voariam de qualquer um daqueles cómodos, e bati em retirada para o térreo. Vi que a noite caíra e estava escuro como breu do lado de fora. Consultei o relógio, acrescentei duas horas por conta da diferença de fuso horário e constatei que eram quase nove da noite, meu estômago vazio roncava, pedindo comida. Descarreguei meus pertences que estavam no carro e guardei na despensa os mantimentos que havia comprado na loja do vilarejo, depois levei pão, queijo fecha e uma cerveja morna para a varanda. Ali, sentado no meio ao silêncio cuja pureza só era rompida por uma ou outra cigarra sonolenta, tomei a cerveja e me perguntei se tinha sido mesmo uma boa ideia chegar dois dias antes dos outros. Pensar no meu próprio umbigo é algo que domino, a ponto de, recentemente, alguém me ter oferecido um emprego para exercer essa actividade em carácter profissional. Essa ideia, pelo menos, me fez rir. Para tirar da cabeça a situação, abri o diário e li a dedicatória na primeira página: Querido Alex, feliz Natal! Procure manter este diário em dia, escrevendo com regularidade. Talvez seja interessante lê-lo quando for mais velho. Com todo o meu amor, um beijo, M.

Bem, mãe, vamos torcer para estar certa. Dei um sorriso desanimado e fui pulando as páginas de prosa cheia de empáfia, até chegar ao começo de Julho. E, à luz da lâmpada fraca e solitária pendurada acima de mim na pérgula, comecei a ler.

Meu rosto é perfeitamente redondo. Tenho a certeza de que se poderia desenhá-lo com um compasso. Eu detesto o meu rosto. No interior do círculo estão as maçãs do rosto. Quando eu era menor, os adultos costumavam puxar minhas bochechas, pegar minha carne entre os dedos e apertar. Esqueciam que não eram maçãs de verdade. As maçãs são inanimadas. São duras, não sentem dor. Quando se machucam, é só na superfície. Tenho olhos bonitos, é bom que se diga. Eles mudam de cor. Minha mãe diz que, quando estou vivo por dentro, cheio de energia, eles são verdes. Quando fico estressado, passam a ter a cor do mar do Norte. Pessoalmente, acho que passam um bom tempo cinzentos, mas são bem grandes e têm formato de caroço de pêssego, e minhas sobrancelhas, mais escuras que meu cabelo, que é muito louro e escorrido, formam uma bela moldura para eles.

No momento, estou-me olhando no espelho. Brotam lágrimas nos meus olhos, porque, quando não estou olhando para o meu rosto, na minha imaginação, posso ser quem eu quiser. Aqui, neste minúsculo banheiro de avião, a luz é cruel e brilha feito uma auréola acima da minha cabeça. Os espelhos de avião são a pior coisa do mundo: fazem a gente parecer um morto de 2 mil anos, recém-exumado. Sob a camiseta, posso ver a banha que cai por cima do meu short. Seguro um punhado dela e moldo uma imitação sofrível do deserto de Gobi. Crio dunas com buraquinhos entre elas, dos quais poderia brotar uma ou outra palmeira em torno do oásis. Depois disso, lavo minuciosamente as mãos. Na verdade, gosto das minhas mãos, porque parecem não ter se juntado à Marcha para a Gordolândia, que é onde o meu corpo resolveu morar no momento. Minha mãe diz que são dobrinhas, que o botão hormonal chamado cresça para os lados funcionou logo na primeira vez em que foi accionado.

Infelizmente, o botão cresça para cima deu defeito. E não parece ter sido consertado até hoje. Quem quer ter dobrinhas, além dos bebés? Talvez eu precise de um pouco de exercício. A boa notícia é esta: andar de avião dá uma sensação de ausência de peso, mesmo que você seja gordo. E há um monte de gente mais gorda que eu neste avião, porque eu vi. Se eu sou o deserto de Gobi, meu vizinho de assento é o Saara. Os braços dele monopolizam os dois braços da poltrona, e a pele, os músculos e a gordura dele invadem o meu espaço pessoal feito um vírus mutante. Isso realmente me irrita. Guardo minha carne comigo, no território que me foi designado, mesmo que, nesse processo, acabe com uma tremenda contratura muscular». In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

JDACT, O Segredo de Helena, Literatura, Crónica,

Lucinda Riley. O Segredo de Helena. «Abri a porta do Armário das Vassouras, apelido carinhoso que dei ao quarto que ocupei durante aquele longo e quente verão dez anos atrás»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A única coisa na sala que tinha mudado de forma a ficar irreconhecível era eu, é claro. Nós, humanos, completamos a maior parte da nossa evolução física e mental em nossos primeiros anos no planeta Terra, de bebés a adultos plenos num piscar de olhos. Depois disso, ao menos por fora, passamos o resto da vida mais ou menos com a mesma aparência, apenas nos transformando em versões mais flácidas e menos atraentes do nosso eu jovem, à medida que os genes e a gravidade fazem o que sabem fazer de pior. Quanto à dimensão afectiva e intelectual das coisas..., bem, devo acreditar que há algumas vantagens que compensam o lento declínio do nosso envoltório externo. Estar de volta a Pandora me mostrou com clareza que elas existem. Tornando a entrar no corredor, ri do Alex que eu era. E me encolhi diante do meu eu anterior, aos 13 anos, um completo egocêntrico e perfeito pé no saco.

Abri a porta do Armário das Vassouras, apelido carinhoso que dei ao quarto que ocupei durante aquele longo e quente verão dez anos atrás. Ao procurar o interruptor, percebi que eu não subestimara as dimensões do cómodo e que, para dizer o mínimo, o espaço parecia haver encolhido ainda mais. Entrei nele com todo o meu 1,85 metro e me perguntei se, caso eu fechasse a porta, meus pés precisariam ficar pendurados para fora da janelinha, bem ao estilo Alice no País das Maravilhas. Levantei os olhos para as estantes que preenchiam os dois lados do quarto claustrofóbico e vi que os livros que eu arrumara trabalhosamente em ordem alfabética ainda estavam ali. Num gesto instintivo, peguei um deles, Rewards and Fairies, de Rudyard Kipling, e o folheei até encontrar o famoso poema. Ao ler os versos de Se, os sábios conselhos de um pai para um filho, senti meus olhos se encherem de lágrimas pelo adolescente que eu fora, tão desesperado para encontrar um pai. E que, depois de encontrá-lo, reconhecera que já o tinha. Quando devolvia Rudyard a seu lugar na prateleira, avistei um livrinho de capa dura a seu lado e me dei conta de que era o diário que minha mãe me dera no Natal, alguns meses antes de eu vir a Pandora pela primeira vez.

Todos os dias, durante sete meses, eu escrevera nele com assiduidade e, sabendo como eu era na época, pomposamente. Como todo o adolescente, eu acreditava que minhas ideias e sentimentos eram únicos e inovadores, pensamentos que nenhum ser humano jamais tivera antes de mim. Balancei a cabeça, triste, e suspirei como um ancião diante da minha ingenuidade. Eu havia deixado esse diário para trás ao voltar para casa, na Inglaterra, depois daquele longo verão em Pandora. E ali estava ele, passados dez anos, mais uma vez nas minhas mãos, hoje muito maiores. Uma lembrança dos meus últimos meses de criança, antes que a vida me arrastasse para a idade adulta. Levando o diário comigo, saí do quarto e subi para o segundo andar. Ao caminhar pela penumbra do corredor abafado, sem saber exactamente em qual cómodo queria me instalar durante minha temporada aqui, respirei fundo e fui ao quarto dela. Com toda a coragem possível, abri a porta. Talvez fosse minha imaginação, após uma década de ausência, achei que devia ser, mas me convenci de que meus sentidos tinham sido tomados de assalto pelo aroma daquele perfume que um dia ela usara...» In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

JDACT, O Segredo de Helena, Literatura, Crónica, 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

Lucinda Riley. O Segredo de Helena. «Mas ali, no centro do jardim, tendo ainda presa a ela uma ponta da rede em que a mãe costumava se deitar, as cordas parecendo espaguete velho e esfiapado, erguia-se a velha oliveira»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Comecei a ver a casa à medida que fui contornando com o carro os perigosos buracos, ainda não tapados, mesmo depois de dez anos, e cada vez mais fundos. Sacudi mais um pouco, depois parei e contemplei Pandora, achando que não era assim tão bonita, ao contrário das requintadas fotos de imóveis de classe alta que vemos em sítios que alugam por temporada. Em vez disso, ao menos vista pelos fundos, era uma casa sólida, sensata e quase austera, como sempre imaginei que teria sido seu habitante anterior. Construída com pedras locais de tom claro e quadrada como as casas de Lego que eu montava quando menino, Pandora se erguia da terra árida e pedregosa que a cercava e que, até onde a vista alcançava, estava coberta de tenras vinhas que começavam a brotar. Tentei conciliar a realidade com a imagem que eu levava na mente havia dez verões e concluí que a memória me prestara bons serviços.

Depois de estacionar o carro, contornei as paredes maciças até à frente da casa e o terraço, que é o que coloca Pandora acima do lugar-comum e a inclui numa espectacular categoria própria. Atravessando o terraço, fui até à balaustrada erguida na sua borda, no ponto exacto que antecede o início do declive suave do terreno: uma paisagem repleta de vinhedos, uma ou outra casa pintada de branco e extensos olivais. Ao longe, uma linha de um azul-turquesa cintilante separava a terra e o céu. Notei que o sol dava uma verdadeira aula magna ao se pôr, penetrando com seus raios amarelos no azul e o transformando em ocre. É interessante, pois sempre achei que a combinação de amarelo e azul resultava em verde. Olhei à direita, para o jardim abaixo do terraço. Os bonitos canteiros, tão cuidadosamente plantados por minha mãe dez anos antes, não tinham sido bem tratados e, sedentos de atenção e água, foram dominados pela terra árida e suplantados por um mato feio e espinhoso.

Mas ali, no centro do jardim, tendo ainda presa a ela uma ponta da rede em que a mãe costumava se deitar, as cordas parecendo espaguete velho e esfiapado, erguia-se a velha oliveira. Velha foi o apelido que lhe dei na época, por ter sido informado pelos adultos que me cercavam de que ela o era. De facto, enquanto tudo ao redor morrera e fermentara, ela parecia haver crescido em estatura e majestade, talvez roubando a força vital dos seus vizinhos botânicos depauperados, decidida, ao longo de séculos, a sobreviver. Era muito bonita: uma vitória metafórica sobre a adversidade, com cada milímetro do tronco nodoso a exibir orgulhosamente a sua luta. Eu me perguntei porque os seres humanos odeiam o mapa da sua vida que transparece no próprio corpo, enquanto uma árvore como essa, ou uma pintura desbotada, ou uma construção desabitada, quase em ruínas, são enaltecidas pela sua antiguidade.

Pensando nisso, me voltei para a casa e fiquei aliviado ao ver que, pelo menos por fora, Pandora parecia ter sobrevivido ao seu abandono recente. Na entrada principal, tirei do bolso a chave de ferro e abri a porta. Ao percorrer os cómodos na penumbra, protegidos da luz pelas venezianas cerradas, percebi que minhas emoções estavam entorpecidas, e talvez fosse melhor assim. Não me atrevi a começar a sentir coisas, porque esse lugar, talvez mais do que qualquer outro, guarda a essência dela... Meia hora depois, eu já tinha aberto as janelas do térreo e tirado os lençóis de cima dos móveis do salão. Parado numa bruma de partículas de poeira que captavam a luz do sol poente, lembrei-me de ter pensado, na primeira vez em que vi a casa, que tudo parecia muito velho. E me perguntei, ao olhar para as poltronas afundadas e o sofá puído, se, tal como a oliveira, o velho e ultrapassado em certo ponto se torna simplesmente velho, sem continuar a envelhecer de modo visível, como os avós grisalhos para uma criança pequena». In Lucinda Riley, O Segredo de Helena, 2016, Editora IN, 2018, ISBN 978-989-776-064-8.

Cortesia de EIN/JDACT

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