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quinta-feira, 16 de julho de 2020

O Galante. Século XVIII. 1900. Cavaleiro de Oliveira. «O amor é o complemento e compêndio de todas as leis. Consoante o verbo divino e por sua vera essência pode-se-lhe chamar também caridade»

Cortesia de wikipedia e jdact

Arte de amar; galãs e galantins. Libertinagem não é amor
«Chegado à idade dos cinquenta, ainda não renunciei ao amor. Sei muito bem onde estou e é por isso mesmo que me decido a falar antes do ano que vem, que me carregará mais um pouco, quanto basta para ter menos direito de o fazer. As pessoas de idade não estão aptas a versar semelhante matéria; devem ocupar-se com as coisas do outro mundo de preferência a coisas terrenas, sustentara moços impertinentes. É bem verdade,
Todavia:

L'amour qui nous attache aux beautés éterneiles
N'étouffe pas en nous l'amour des temporelles.

O homem, emquanto homem, é incapaz de desembaraçar-se desta paixão; vive, tem de amar; vive porque ama. Certo que o amor, nos velhos, é susceptível de derivantes para as riquezas, as honrarias, as dignidades. Simplesmente tudo isto, perfeitamente cómodo e cobiçável, pouco é na vida. Francisco Solano, secretário de embaixada em Portugal, ao tempo de Pedro II, e que foi das minhas relações em Viena, onde vivia ainda em 1744, tinha setenta e cinco anos e comportava-se como um rapaz de vinte. Seu bel-prazer era falar de amor e de namoros e cultivar a galantaria. Ninguém lhe dissesse que o amor se cifrava numa fonte de dissabores. A moral, que lhe era própria, ditava-lhe precisamente o contrário; daí o seu conselho aos rapazes:

Soyez toujours amoureux;
C’est le moyen d'être heureux.

O conde Copola, que seguia o partido de Carlos III, emquanto Solano estava ao serviço do imperador Carlos VI, declamou um dia diante dele:

La vieillesse affaiblil le soldal et l’amant,
La jeunesse en tous deux triomphe également,
Tons deux sont sans honneur quand ils sont sans courage.

Tanto bastou para Solano, sentindo-se melindrado em seus brios, romper as relações com o conde. Luiz da Cunha, que representou Portugal no Congresso de Utrecht e foi ministro plenipotenciário em Londres, na Haia e em Paris, onde faleceu no ano de 1750, amou até à última. As suas aventuras foram muito faladas em toda a Europa, mormente em Paris onde estadeou como amante madame Salvador, dama de origem israelita, com farta parentela em Inglaterra e Holanda, ia êle nos oitenta anos. Esta paixão prejudicou muito o seu nome, porque a França é o país do bom senso.
Tive ocasião de conhecer Luiz da Cunha na Haia, à volta de 1734, e mesmo de cear na companhia dele e da amante. O seu carácter e o seu temperamento amoroso foram-me assim desvendados. A arte de ser feliz está em amar, dizia-me êle. A melhor página da vida escreve-a a paixão, com os seus tormentos, dúvidas e desesperos. Prazeres onde não entre o amor são uma sensaboria. Madame Salvador, ainda mais espirituosa que bela, cantava às vezes, bem embora a sua voz não lhe valesse as honras de cantarina, uma canção que êle muito apreciava:

Que peut-on mieux faire
Qu'aimer et que plaire?
C’est un soin charmant
Que 1'emploi ã'un amant.
Quelle chaíne,
Qu'un amant preune,
La liberte n'a rien qit soit si doux.
                                                     

Luiz da Cunha, homem de alta envergadura como era, tinha o fraco pelas mulheres, e a amante, com duas piruetas e uma ária de ópera, levava-o aonde muito bem lhe aprouvesse. Luiz Álvares Aguiar, prebendado de S. Jorge, em Lisboa, foi incorrigível erotómano até o fim da vida. Desgotoso com cortar relações de amor, que tinham raízes profundas, acicatado pelo temperamento de fogo, vingou-se em arranjar uma espécie de serralho com tenras e jovens beldades de que se inculeava o director espiritual, mas de que era em realidade o incondicional sultão. Todavia, nem por palavras nem por obras se denunciava nele o luxurioso. A sua reserva quebrava-se apenas com dizer:

O amor é o complemento e compêndio de todas as leis. Consoante o verbo divino e por sua vera essência pode-se-lhe chamar também caridade.

E, em verdade, posto amasse de morte as raparigas bonitas e de boa condição, a sua boca andava cheia do amor de Deus. Eu próprio o cria inundado desse amor a avaliar pelas grandes obras de caridade que tão desinteressadamente praticava. Denunciaram-no ao santo tribunal da Inquisição (maldita) como pervertedor de donzelas, em despeito dos seus sessenta e cinco anos de idade». In Cavaleiro de Oliveira, Amor e Amores, 1751, O Galante. Século XVIII, 1900, RB Rosenthal, Lisboa, Tradução de Aquilino Ribeiro, Imprensa Portugal-Brasil, Livraria Bertrand, 1900.

Cortesia de Imprensa Portugal-Brasil/Livraria Bertrand/JDACT

terça-feira, 12 de abril de 2016

Quando os Lobos Uivam Aquilino Ribeiro. «O mano tinha posto a tigela na pilheira e esperava de pé, os braços a escorrer pelas ilhargas, que o pai se dignasse deitar-lhe os olhos. Mas já ele erguia as mãos: a bênção, senhor pai...»

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«(…) Toda a gente a dizer-me que tinhas morrido, que nunca ninguém mais te vira, que botasse luto e te fizesse os responsos... e o coração a dizer-me: não, o meu homem é vivo. Se não fosse vivo, a alma tinha-se botado cá do outro mundo a dizer-mo!, lambuzava-o com os grandes beiços amorosos, húmidos como uma esponja empapada de água salgada. Está bem, mulher, está bem! Deixa-me… Olha que me esganas... O pai? O pai está rijo e fero. Ia fazer-lhe outra pergunta, quando pela espalda desabou sobre ele, rosto, lábios, cabelos de que uma melena fugia para a testa, uma haste florida que adivinhou ser Jorgina. Ah, pois não tinha ela também os seus direitos? Tinha e ainda os não usara. Um minuto ele a vira meio indecisa. Notou que se pusera a identificá-lo e não quis interrompê-la na operação. Então seu pai era aquele homem de ar exótico, lurido do clima, tocado na figadeira, com um traje diferente ao da terra, sarja azul tão lustrosa que lhe devolvia a tinta dos olhos, relógio de prata em pulseira de oiro, sapatos amarelos, esta espécie de sapatos meio pantufos, que parecem botas de elástico aparadas por baixo do tornozelo, e ele comprara em Asunción?! Por uma nesga, dir-se-ia, da consciência seguira todo o desdobre da fita sentimental. E, zás, vencendo o acanhamento, eis que ela se lhe atirava ao pescoço. Sorrindo à amorosa freima, Manuel Louvadeus apenas sabia dizer-lhe: que moça você está! Que moça! Com quem se parecia? Com quem se pode parecer a Primavera...? Lembrava-lhe, fragrante e risoteira, a flor dum cacto, de certos cactos martirizados dos chapadões incandescidos, que desatam numa flor tão bonita que fazem pasmar os ares e chamam todos os moscardos à volta. Que moça você está!... Este é o mano?
O mano tinha posto a tigela na pilheira e esperava de pé, os braços a escorrer pelas ilhargas, que o pai se dignasse deitar-lhe os olhos. Mas já ele erguia as mãos: a bênção, senhor pai... Manuel Louvadeus enterneceu-se com aquela prática à antiga da rendição filial e, ao mesmo tempo que admirava a valente racha, cobria-lhe a cabeça com a mão, olhos embaciados de lágrimas, não achando outra palavra: seu capoeira! O avô?, perguntou-1he pela segunda vez, ao cabo da grande pausa que se seguiu. O avô está rijo e fero, respondeu ele, repisando as palavras da mãe. Já não é criança...! A exclamação diluiu-se no silêncio, sem eco, desprovida de sentido temporal. Olhavam muito estranhos uns para os outros, ele possuído da estupefacção involuntária de se ver ali e de os ver, ao contrário do resto, bem mudados, eles da sua imprevista e surpreendente presença. A candeia, bafejada pela aragem que se coava da telha-vã, passeava deste para aquele o seu espectro facecioso, carregando-lhes as feições. Foi ao envelhecer mais o pai, que Jaime acordou: pois não, mas é como se fosse. Entrou há muito na casa dos setenta. Olhe que é ele que faz a lavoira quase toda da Rochambana. Eu mal lá meto o arado. Ainda hoje pega dum saco de dez alqueires pela boca, dá-lhe o balanço, e atira com ele para as costas.
Mas sempre aflito de génio, interpôs Jorgina. Quer saber, senhor pai? Doía-lhe um queixal. Em vez de ir ao barbeiro que lho tirasse, não senhor, atou a ponta duma guita a um prego, outra ponta ao dente e, zás, deu tal safanão, que lá o botou fora. Foi o primeiro. Tinha raízes que nem uma giesta! Fartou-se de deitar sangue. Vimos modo de não haver nada que lho vedasse… Homens assim estão-se a acabar!, proferiu Manuel Louvadeus. Já não quero que haja-tornou o filho. E correr? Outro dia, pelas neves, atirou a uma lebre. Partiu-lhe a perna. Pois deitou-se atrás dela e foi apanhá-la meia légua mais longe. Dizia o Caxarreto caçador: às vezes as lebres com uma perna partida até escapam aos cães. Um homem danado! Lá está para a Rochambana... Sózinho...?» In Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, Libraria Bertrand, Lisboa, 1958, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia de LBertrand/JDACT

sábado, 25 de abril de 2015

Quando os Lobos Uivam Aquilino Ribeiro. «E, ao passo que se lhe enroscava ao pescoço, desengonçada e temível como a onça, gemia num ricto de angústia e vexame: Que tonta eu sou que te não reconheci logo à primeira!»

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«(…) Notou que o silêncio, um silêncio precaucioso, enchia a casa como a luz da candeia que se acende no escuro. Um segundo... dois... três, nem que passassem as alpoldras dum rio. Então Filomena não reconhecia o metal da sua voz?! Que não lhe havia de parecer de todo estranho, estava em que lhe ouviu proferir subitamente e de afogadilho: Vai ver quem é, Jorgina! Sentiu correr o fecho, e Manuel Louvadeus empurrou a porta. E, sem aguardar sequer que se abrisse de todo, mal lhe ofereceu passagem, de ilharga, quase acotovelando a moça, entrou com uma golfada de vento. Estavam, como palpitara, de malga em punho à roda do lume. O cepo ardia ao fundo na pedra lar e a sua lumalha verde descompunha a claridade da candeia que voltejava ao centro na ponta do nagalho. Viu a todos suspensos. A mulher olhava para ele, atónita. Os filhos olhavam para ele sem o conhecer, pudera! O gato maltês, com o espalhafato da entrada, cobrara medo e pinchara assarapantado para um canto, donde o observava com pupilas a fuzilar de cólera e inquietação. E Manuel Louvadeus, risonho, sem os deixar respirar, lançou de chofre por cima de suas cabeças perplexas: Santas noites lhes dê Deus! Só então Filomena pulou na esteira. Muito pesada tinha a rabadilha! Pois a ela, que era perra fina, não devia saltar ao entendimento que um homem com aquele rompante, aquele traje, em cabelo, não era senão o seu homem que voltava?! Seria que a penumbra da casa o desfigurasse! Qual! De relance, um relance de nada, notou que ela estava ainda a afirmar-se, dir-se-ia incrédula ou meio timorata, olhos postos nele mais fixos que os tições no braseiro. E foi como se lhe dessem com uma moca. Caramba, assim estaria mudado!? Não, não tinha desculpa que, embora andasse há uns dez anos pelo mundo, sem que há uns seis desse novas nem mandatos, morreu, está preso, mataram-no, por muito, mesmo muito que os trabalhos e o trópico picassem a fisionomia de um homem, o coração lhes não advertisse logo quem ali estava. E, cheio de ressentimento, metade mágoa, metade raiva, ia a cometer o despropósito de despir o paletó e pôr à mostra o lanho que uma gadanha antiga lhe deixara no braço: sou o Manuel Louvadeus ou quem sou?, quando ela se atirou para ele: Ah, marido da minha alma!
E, ao passo que se lhe enroscava ao pescoço, desengonçada e temível como a onça, gemia num ricto de angústia e vexame: Que tonta eu sou que te não reconheci logo à primeira! O coração bem me dizia que eras tu! Mas quem o havia de crer, mudado como tu me vens?! Quem o havia de crer depois de tantos anos sem dares sinal de vida!? E, a esconder a vergonha, abraçava-o tão abraçado, que toda a sua cabeça se lhe amassagou contra o perto mamaçudo, sob a asa do lenço de ramagens, que se lhe soltara do queixo. Coitada, tresandava ao fumo da lareira e ao feno! E tal impregnação bastou para ressuscitar nele os odores antigos, subir-lhe ao olfacto dormente o aroma da caçoila familiar e da casa paterna, e reviver a lida com pai e mãe, a trabucada dos estábulos pelas sementeiras, aqueles estábulos onde antes de casarem muitas vezes se encontraram a horas mortas. E instantaneamente a sua imaginação desferiu voo para outro quadrante. Bons tempos: raparigas em barda, saúde, sol, a mão calejada do rijo cabo da sachola, sim, mas satisfeito com um pataco no bolso para cigarros e o seu quartilho. E que mais!? Depois, outra volta à imaginação, e, por contraste, perpassou-lhe diante dos olhos Mato Grosso com a lava infernal dos garimpos, as pirogas dos rios de águas verdes improfundáveis, o silêncio das catingas em que o sertanejo, sozinho debaixo do sol a pino, se afoga como num mar morto, o sócio, ladrão na quinta casa! Que relâmpagos na cabeça dum homem!» In Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, Libraria Bertrand, Lisboa, 1958, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia de LBertrand/JDACT

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Quando os Lobos Uivam. Aquilino Ribeiro. «Tornou a olhar para a aldraba. Bato, não bato, que é a que me prende os dedos?, ouviu uma voz… A voz de Filomena, e estacou. Era lua cheia, pelos fins de Março Marçagão, na altura do ano em que os dias são iguais às noites…»

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«Manuel Louvadeus de um galão subiu os degraus. Em cima, no patamar, topou a porta fechada e deteve-se, quando ia para bater, como quem toma fôlego. Com a breca, achava tudo tal qual! Os dez anos de ausência apagaram-se como um sopro perante a obsessiva eternidade que se lhe oferecia ao lance de olhos. Tudo na mesma, a velha aldraba, puída de tanto se lhe pegar, o espelho da fechadura escantilhado a uma banda, a couceira de lenho fibroso e terso, não chamassem ao castanho os ossos de Portugal. Quer à roda, o alpendre de telha-vã e os esteios esgrouviados, a pedra negra da parede em que o musgo pastava seus herpes lucilantes, e ainda o silêncio, ah, este silêncio da moradia rústica, a desoras, humilde, suspicaz e atento como um rafeiro no ninho, quer por largo, os carvalhos do vale e os telhados próximos, se envolviam na antiga paz vesperal do céu e da terra, fusca e intáctil como a cobertura duma gare. Que distância, anos e anos que correram na levada do tempo, e as coisas conservarem-se ali iguaizinhas, estáticas, teimosas no seu ar de encantamento! Talvez mais velhas... Sim, mais velhas, ferradas mais fundo pelos dentes da morte e a despenhar-se na voragem como as telhas do beiral. E haviam, porventura, de resistir aos vaivéns mais que o coirão de um homem, entretanto que se fartava de dar tombo por esses mundos de Cristo?! Este sentimento, a transudar amargor, acabou por confortá-lo e absolver a pobre casa da sua inalterável fisionomia.
Tornou a olhar para a aldraba. Bato, não bato, que é a que me prende os dedos?, ouviu uma voz… A voz de Filomena, e estacou. Era lua cheia, pelos fins de Março Marçagão, na altura do ano em que os dias são iguais às noites, e pelo tinir dos garfos e pausas intermitentes assentou para consigo que estavam a cear. Miga bem a tigela!, dizia a voz materna, amorável no seu sotaque ralhado. Miga bem, Jaime, que só tens caldo! Depois as vozes calaram-se. Ressoam assim os córregos quando descem das serras e tropeçam nos seixos solevantados. Mas ele que tinha que especular?! Decidiu-se. Bateu uma... duas... três vezes, e postou-se, parado, à escuta, como os mendigos de pois de rezarem o padre-nosso. Mentalmente pôs-se a orçar o tempo que ia passando pelo tempo que levariam a apreender o apelo, a erguer-se da esteira, a poisar a malga, e a abrir-lhe a porta. Demoravam-se... Pareceram-lhe delongas a mais. Não teriam ouvido! Considerando afinal que as pancadas, percutidas frouxas e irresolutas, não se tivessem imposto à atenção, martelou rijo e afoito. Agora sim, uma voz juvenil, abelhuda, destas que no cortiço estão sempre prontas a acudir ao rumor, ergueu-se: Quem está lá? Gente…» In Aquilino Ribeiro, Quando os Lobos Uivam, Libraria Bertrand, Lisboa, 1958, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Cortesia de LBertrand/JDACT

sábado, 29 de novembro de 2014

Viriato. O nosso avô. Príncipes de Portugal. Suas grandezas e misérias. Aquilino. «Como se chamava, antes da imposição das vírias, esse homem que deu água pela barba aos pretores e cônsules de Roma? É possível que a essa data já houvesse um onomástico pessoal. Os homens, em regra, chamavam-se pelo prenome que não pelo apelido. E a origem dos prenomes?»

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Viriato. O nosso avô
«(…) Nos primeiros alvores da manhã radiosa o esquadrão de bandoleiros caía sobre a pequena cidade, confiadamente adormecida sob as brisas tépidas do mar, com vilas brancas, casas de campo de hispanos latinizados, lojas de quincalharia, armazéns, columbários, e levavam tudo raso. Ao que podiam deitar mão, deitavam; se os habitantes reagiam alçava.-se no ar o cutelo ou a espada. Manhã fora, tropeavam as coortes romanas nas ruas da localidade posta a saque. Bandoleiros? Já lá eram levados de rédea abatida, a caminho de seus valhacoitos nos fragoais das serras. Como resgatar as ricas terras, com seus colonos fiéis, seus romanos sibaritas, deste pesado tributo de bens e de vidas? Como pôr cobro ao pesadelo? Os romanos organizaram expedições sumptuosas e, de par e passo, pelo ferro e pelo fogo, pelo afago e pela blandícia procuraram correr com os abutres da montanha.. A montanha era o reparo infernal; a montanha era o inçadoiro. Oh, quem pudesse arrasá-las com seus penedais, seus barrocos, seus desfiladeiros, seus covões, e estava resolvido para os romanos o problema da colonização ibérica!
Como se chamava, antes da imposição das vírias, esse homem que deu água pela barba aos pretores e cônsules de Roma? É possível que a essa data já houvesse um onomástico pessoal. Segundo explicam os etnólogos, estes nossos nomes corriqueiros foram pedidos ao facto ou à coisa rnais relevante na existência dos indivíduos. Fulano chamou-se de Carvalho em virtucle de qualquer circunstância, efémera ou intemporal, o haver associaclo àquela árvore, imprimindo-lhe momentâneo relevo. Igualmente o nome de Lobo assentaria àquele cuja existência uma destas feras fortuitamente ilustrasse. Os homens, em regra, chamavam-se pelo prenome que não pelo apelido. E a origem dos prenomes? O apelido é já uma distinção. Nas sociedades primitivas eram todos iguais, como hoje nas aldeias todos são tios. Aquele que mais tarde entrou na História com a designação de Viriato teria antes um nome comum, dado que os homens da tribo fossem designados por mais que o epíteto gentílico. O facto da designação singular dar-se-ia exclusivamente com ele e com os homens de prol, isto é, aqueles que se salientassem por dotes pessoais ou feitos de distinção. O nosso léxico de patronímicos releva mais que tudo do germânico e do latim. Onde estão os apelativos de origem hispânica, celtibéricos, turdetanos ou vasconços? O homem desenganado e resoluto que a tribo julgou digno das vírias, chamasse-se como se chamasse, a partir da imposição não teve outro nome: viriato. Viriato quer dizer, investido com as vírias, como um monarca pela graça de Deus. De certo era a mais alta dignidade conferida por aquele povo, pastores honrados na tribo e piratas temíveis na terra alheia. Vírias eram grandes argolas de metal, tantas vezes de oiro, com que guarneciam o braço que segurava a espada ou que ornavam a perna dos cavaleiros. Divisas do comando, com significação gradual talvez, representavam simultâneamente o emblema de um posto, um enfeite e ainda um emparo contra a lança e a espada. Algumas, pelo diâmetro, só podiam destinar-se à coxa; outras, pela largura da banda, equivaliam a um pequeno broquel para o braço.
Pela sua grossura, uma vez enfiadas na perna e apertadas com uma martelada ou pressão nas duas pontas, mantinham a rigidez, cinginclo o fémur como uma precinta. Já as vírias do braço eram uma. espécie de anilhas que se introduziam pela mão. Todos os guerreiros podiam trazê-las ou eram apanágio exclusivo dos capitães? Ao seu número andava adstrita a ideia de patente, ou a investidura pública das vírias era como que uma formaliclade graciosa, complementar, da aclamação? É possível que com o tempo o nome de Viriato tenha acabado por degenerar na Lusitânia para um trivialíssimo patronímico. Nas legendas das lápides, com efeito, citam-se muitos e vários Viriatos. Mas tudo leva a crer que de princípio se tratasse do guerreiro que recebia as insígnias de capitão-general. As vírias seriam as suas dragonas. Na Punica, Caio Sílio Itálico celebra a morte de Viriato, comandante dos lusitanos, caído na batalha de Canas». In Aquilino Ribeiro, Príncipes de Portugal, Suas grandezas e misérias, Livros do Brasil, Lisboa, 1952.

Cortesia de LB/JDACT

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Também me minguava a pachorra. A pachorra e o tempo. O ‘rat de bibliotèque’ é um bicho especial que tem por si a eternidade e uma sorte de pulmões de pescador de pérolas. ‘Podia, não podia?’ Não sei. Naturalmente, estava fora da esfera a natureza do seu artesanato»

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Uma aventura Literária
«(…) Missanga, é possível. A obra, uma vez realizada, parece fácil. Não é tão fácil como isso. A figura do Cavaleiro estava, de facto dentro dos seus livros, como os Lusíadas estão dentro do dicionário de Morais. Tudo vai em acertar o mosaico, em que cooperam engenho, inteligência e saber. A figura do Cavaleiro, social, vivedoira, com os seus cinco sentidos, aquela sua agilidade de pintalegrete, estava de pé e, embora com as suas sombras esfumadas, era palpite meu que não era nenhum manequim convencional, nenhuma personagem do Museu Grévin siderada aos olhos do espectador. Entretanto Jordão Freitas, um operoso garimpeiro de tombos, começou a publicar, ipsis verbis, no jornal a Época, documentos exumados dos arquivos, concernentes ao Cavaleiro. Eram todos de essência oficial e reportavam-se à sua actividade em tanto que empregado de secretaria, na embaixada de Viana, ao serviço do conde de Tarouca. Além destes, transcritos na sua secura tabelionar, poucos mais, e todos procedentes dos cartórios e arquivos públicos como fica dito, publicou Jordão Freitas. Aconteceu porém que veio a lume nos jornais diários o programa cultural da Biblioteca. Como nesse programe se anunciasse o meu trabalho sobre o Cavaleiro de Oliveira, Jordão Freitas, a fugir à contingência de ser ultrapassado na publicação dos documentos, deu-se a publicá-los à lufa-lufa, ou pelo menos mais aceleradamente do que até ali. Tal conjuntura vinha favorecer os meus desígnios.
Nunca eu pensara em disputar-lhe a -glória de pioneiro. A velha papelada, com suas surpresas esplêndidas embalsamadas em bolor e miasmas, nunca me seduziu. Também me minguava a pachorra. A pachorra e o tempo. O rat de bibliotèque é um bicho especial que tem por si a eternidade e uma sorte de pulmões de pescador de pérolas. Respira na poeira dum sótão como o mergulhador no fundo do mar. Para e1e, a suprema volúpia é furar através de papéis arrumados desde o princípio dos princípios, por mão em fantasmas. Um múnus assim tem o seu quê dos limpa pára-raios. Há uma data a rectificar: … pois, senhores, não foi em 6 de Fevereiro de 1164 que se deu a batalha dos Chifres Esmurrados; foi em 7 de Janeiro. A prova é que..., o marechal do Chuço em Riste tivera na véspera um desaguisado sério..., etc., etc. Há que chumaçar a vida dum grande macabeu, dum apóstolo dos negrinhos da Guiné, dum navegador antártico?... Desmonta os maços pulverulentos dos armários, percorre os cartários das sacristias, folheia quantos armoriais os velhos fidalgos, desde Atanagildo, mandaram lavrar por seus capelães. E acaba por encontrar o pábulo precioso. Não raciocina como a gente de cuidados raciocina. Tem outra tábua de valores mentais.
João Freitas era destes. A sua biografia do marquês de Pombal não começa assim : … duas datas importantes há a considerar na vida deste estadista: a do seu nascimento e a da sua morte. O movimento de sofreguidão era mais que razoável. Observar-se-á: … Jaime Cortesão podia ter confiado a Jordão Freitas o encargo de fazer o referido trabalho... Podia, não podia? Não sei. Naturalmente estava fora da esfera de Jordão Freitas, dado que não superasse a natureza do seu artesanato. Este era particularmente um sacerdote de Hermes Trimegista, um verificador de mausoléus. E o que interessava no Cavaleiro não era o autor das Cartas nem do Amusement, livros de terceira ordem, plagiados noventa por cento, e, quanto a espírito, como muitos outros que vieram a lume nesse espiritual e sacripanta século XVIII». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

João Bermudes. Mestre-barbeiro. Patriarca de Alexandria. Aquilino. «Mestre João não representa o menor papel nestas farsadas com rixas e destampatórios. Mal se dá por ele. O testemunho mais ostensivo que há da sua presença é quando os vizinhos de uma aldeia, desconfiados com tais aves de arribação…»

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João Bermudes
«(…) Destes treze portugueses, escolhidos a primor, era Rodrigo de Lima o chefe pouco mais que nominal, visto todos eles saírem pessoas de arreganho, estrela, beta e pé calçado, para lá de toda e qualquer disciplina, incapazes de aceitar ordens ou seguir conselhos se estavam em jogo as suas paixões ou interesses. E iam, mais que tudo, em exploração da terra havida por sequaz da lei de Cristo e fabulosamente avantajada em matéria de riqueza e de armas. Levavam, para adjutório, com bem aprendida desculpa e acanhamento pela modéstia, um presente de panos e de armas, que o outro, adrede aviado em Lisboa pelo rei Manuel I, composto do que havia de raro em tapetes, jóias, livros impressos, obras de arte, perdera-se nas bolandas em que andara a Esquadra pelo Mar Vermelho, mercê da inépcia e cobardia de Lopo Soares, segundo testemunharam depois os próprios nautas. A cada passo este punhado de homens se digladiava entre si, insofridos, pouco tolerantes, conflituosos, bravos como eram do génio e inchados de soberba. Aconteceu o padre Francisco Álvares, o verdadeiro mentor da missão, que embora entrado nos anos não cedia a nenhum em rijeza e resistência, ter de meter-se no meio e apartá-los à cacetada, havendo puxado do ferro uns para os outros e acutilando-se.
Mestre João não representa o menor papel nestas farsadas com rixas e destampatórios. Mal se dá por ele. O testemunho mais ostensivo que há da sua presença é quando os vizinhos de uma aldeia, desconfiados com tais aves de arribação, se postam em três outeiros à sua passagem e fazem chover sobre eles um a granizada de pedras. Muitos ficam feridos e nesse rol está o Mestre. Para cúmulo carregam-nos de algemas. Na manhã seguinte, Rodrigo de Lima, que ia à frente obra de légua, ao voltar à retaguarda, desesperado e decidido a quebrar lanças pelos seus, dá de cara com ele, coberto de sangue, o rosto num santo sudário, mas fugido da prisão em que o haviam aferrolhado. Largara a mula em que cavalgava, mas o principal é que salvara o rico corpinho. Este passo retrata o homem. Sempre que os patrícios se mostram impetuosos ou temerários, ele reprime-se. A sua inferiorização parece espontânea ao que é de reflectida. Em hora folgada, do séquito do Preste lançam o cartel: - Não há quem queira jogar as lutas? Apresenta-se o pintor Lázaro Andrade, que em três tempos é, posto fora de combate com uma perna partida. Não há mais ninguém? Saem a terreiro dois portugueses, o mulato Gaspar Dias, que blasonava de valentão, e em menos de nada vai a terra com o braço desnocado. O segundo desiste, comprovada a força de Golias do competidor. Mestre João, entretanto, nem se mexe. O seu forte é a contenção. Devia observar e estudar. Observava usos e costumes e ia aprendendo a língua da terra.
Ao cabo de seis anos, quando todos suspiram por se verem livres daquela parvalheira, bárbara ao último ponto e inóspita, ele fica e deixa que os mais se desunhem a correr para o mar no receio de perderem a frota que está à mercê da monção. Fica com o pintor Lázaro Andrade em reféns, alega ele na sua Memória. O padre Francisco Álvares é mudo neste particular. As próprias circunstâncias em que se deu a despedida dos portugueses permitem conceber como duvidosa esta afirmação do Mestre. Deve ter ficado na Abissínia porque quis. Também a figura do pintor Lázaro Andrade se tolda de certo mistério e notícia contraditória. Álvares dá-o a certa altura como tendo perdido a vista; mais tarde menciona-o no número dos lutadores à beira da tenda do Preste. Estanceando largos anos em terras do Negus, este, agradado de Mestre João, tê-lo-ia tomado para padrinho do filho primogênito, precisamente aquele Claudius que havia de renegar da lei de Roma. Que falta para satisfação dum homem simples, plebeu, é provável que não dispondo na pátria mais que da sombra dos caminhos?! Mas a Etiópia Alta era uma imensa aringa em guerra, em que seria utópico buscar regalias estáveis. As tribos indómitas das montanhas vinham em torrente e talavam tudo como as nuvens de gafanhotos que periodicamente desabavam sobre as culturas, e da noite para o dia deixavam os campos debulhados. Por isso mesmo carecia o hiperbólico império de capital e este imperador, sempre de diadema no toutiço, de paços reais. A sala do trono, simultaneamente refeitório e camarata, era uma tenda móvel a que faziam plantão, além dos guerreiros de gládio em punho, quatro leões acorrentados e de barbilho. Mesmo assim, os leões, se não eram empalhados, constituíam os únicos troféus heráldicos daquela corte imperial. Do mesmo modo a chancelaria acampava ao sabor dos caprichos, quando não era a maré dos inimigos que a tocava de Herodes para Pilatos. Ora em dado momento viu-se o Preste assediado nas ambas mais recessas do seu reino. Quem lhe podia valer? Apenas, procurando bem, o rei cristianíssimo que mandava a sua gente bater-se a todos os cambais em que perigava ou fosse susceptível de acrescentamento a Fé cristã. Porque é que o potentado magnânimo não havia de acudir então ao neto de Salomão e da rainha de Sabá em perigoIn Aquilino Ribeiro, Portugueses das Sete Partidas, Viajantes, Aventureiros, Troca-tintas, 1950, Livraria Bertrand, Lisboa, 1969.

Cortesia da LBertrand/JDACT

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «A estratégia de Pombal é um iluminismo de Estado, aristocrático. O seu conflito com alguns sectores da aristocracia e a sua afirmação de que o comércio era uma profissão nobre concilia-os…»

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De Voltaire a Pombal
«(…) Já, a Restauração abrira a Portugal as portas da Europa. Di-lo José Sebastião Dias: Uma das consequências da restauração nacional de 1640 foi o reatamento das nossas relações culturais com o mundo exterior à Península. Os portugueses tiveram então uma bela oportunidade para descobrirem o novo pensamento universal, quer viajando por terras estranhas, quer ouvindo na pequena casa lusitana os peregrinos de outra origem. E isto não apenas porque nos libertámos do abraço sufocante, e aprisionante da Espanha, mas porque, politicamente, estrrategicamente, precisávamos de outros apoios, e a França, a França ambiciosamente europeia, continental e rayonnante de Richelieu, foi um deles, e esse apoio trazia uma aproximação cultural. Que será também ,oficial, pelo menos ate à Guerra da Sucessão. Portugal tinha sido, culturalmente, sob a ocupação espanhola, o inquisitorialismo, a escolástica, o insularismo. É contra a sobrevivência deste carácter, a sua transposição subtil para o Portugal restaurado, que se ergue o padre António Vieira. Ao qual se sucedem homens como os Ericeiras, com o seu cenáculo afrancesado do palácio da Anunciada, dos fins do século XVII e princípios do século XVIII, animado por Serrão Pimentel, Manuel Azevedo Fortes e, sobretudo, o padre Rafael Bluteau, crítico da escolástica, simultaneamente cartesiano e experimentalista, apologista dos modernos. Entram em Portugal homens como os padres João Baptista Carbone e Domingos Carpasso, o naturalista suíço Merveilleux, o inglês Luís Baden, que vem ministrar o seu curso de filosofia experimental, o anatomista Santucci, que, no entanto, será proibido de fazer dissecações em cadáveres humanos. Porque, se o século XVII português se acelerava, e se europeizava, e avistava já o século XVIII, o passado tinha o seu lastro, a sua força e os seus aliados.
É o combate entre os jesuítas e os oratorianos que, no seu centro de ensino do Convento das Necessidades, assumem Newton e Locke, combate que tem por pano de fundo outro combate maior, aquele que se trava entre o grupo conservador e o grupo cosmopolita. O médico judeu Jacob Castro Sarmento, que vivia em Londres, começa a traduzir, a, pedido de Lisboa, o Novum Organom, de Bacon. Surge, por ordem expressa do monarca João V, o grande monumento empirista, anti-inatista, anti-escolástico anti-feudal, de Verney, que defende a liberdade e igualdade originárias de todos os homens e aponta para a origem contratualista do poder político. Silva Dias afirma: A polémica do Verdadeiro Método é o colofon cultural do Barroco no nosso país, do mesmo modo que o duelo Pombal-jesuítas é o seu epílogo na ordem política. A expulsão dos filhos de Santo Inácio encerrou definitivamente o período doutrinário iniciado com a sua introdução no Colégio das Artes. Na verdade, o iluminismo não está à espera de Pombal para travar o seu combate contra o barroco e para se ir instalando. O ouro, o rendimento do tabaco, do açúcar, do pau-brasil, do comércio de escravos africanos, se não são investidos na criação de meios de produção, de um aparelho económico que nos permita resistir à dependência (apesar da criação de unidades fabris de papel, de vidro, da fundição de Santa Clara e Lisboa, da fábrica das sedas, etc….), pagam o fausto que a inteligência e a criatividade, em larga medida importadas, vão arquitectar, esculpir, pintar e musicar: será o aparato de Mafra, o estilo dito João V, as companhias de ópera italianas. O rei está já apoiado por estrangeirados: Bartolomeu Gusmão, Alexandre Gusmão, Luíz Cunha, o engenheiro Azevedo Fortes. Mas cuidado porque iluminismo, sim, ma non troppo. Tem o seu significado preciso o facto de o iluminismo ter sido, neste país, consideravelmente transportado, e proposto, por sectores da Igreja. E, sobretudo, ter sido assumido, instrumentalmente, operacionalmente, pelo poder político.
A estratégia de Pombal é um iluminismo de Estado, aristocrático. O seu conflito com alguns sectores da aristocracia e a sua afirmação de que o comércio era uma profissão nobre concilia-os ele com um ensino cuidadosamente ministrado segundo a função social de cada um e com o robustecimento da preparação da aristocracia ao serviço do aparelho de Estado. O facto de Pombal ter como aliados os homens do comércio colonial e os tabaqueiros e o facto de Pombal ter como adversários os Távoras e o Aveiro não significam nem uma opção nem o confronto entre o Estado e a aristocracia. O Estado pombalino é simultaneamente absolutista e aristocrático». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

sábado, 27 de setembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «O ‘cliché’ era que o século XVIII português foi o marquês de Pombal que o inaugurou, por decreto, e brutalmente. Portugal estava fechado a ‘sete chaves’. A primeira, a Inquisição (maldita); a segunda, a Companhia de Jesus; a terceira, a Universidade; a quarta, o teocentrismo; a quinta, a Escolástica…»

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De Voltaire a Pombal
«(…) É, desde logo, o Século das Luzes. Luzes claras, princípios nítidos, princípios universais: princípio da identidade, da não contradição, da causalidade, da legalidade. Século da Razão toda poderosa. Século da passagem da teologia da História à filosofia da História. Século do Optimismo. Século do Progresso. Século da consagração do direito à propriedade individual e do direito, digamos mesmo do dever, de a acrescentar. O Progresso não é uma intenção perdida no futuro. É uma prática e é um quotidiano. Um utilitarismo, um newtonianismo moral. O senso comum. Está à mão de semear. E de embolsar. A felicidade era ali, e então. Século eminentemente burguês, este. E, no entanto, é no século XVII que estão as grandes fontes: Galileu, Newton e Locke. O poeta inglês Pope escreve: A natureza e as suas leis estavam escondidas na treva; faça-se Newton, disse Deus, e tudo então brilhou. Herdeiro do século libertador que foi o XVII, o século XVIII é um século de divulgação, de propagação de enciclopédias, de dicionários, o de Voltaire, portátil, das gazetas, dos cafés, dos salões, das sociedades secretas, da franco-maçonaria, do combate polémico, da instrumentalização habilmente burguesa.
É isso, o século XVIII tem, não propriamente um protagonista, mas um homem-tipo. Na sua qualidade, no seu limite, na sua superficialidade: Voltaire. É o filósofo de combate, engagé, europeu, universal, enciclopédico, versátil, dramaturgo, historiador, romancista, dicionarista, jornalista, polemista, folhetinista, epistológrafo. Século do despotismo esclarecido; que os filósofos, um pouco ingenuamente, supuseram ensinar aos déspotas, mas que os déspotas, habilmente, pragmaticamente, beberam nos filósofos. Os déspotas iluminados acotovelam-se na Europa: são Frederico II, na Prússia, Catarina II, na Rússia, José II, na Áustria, Gustavo III, na Suécia, Estanislau Augusto, na Polónia. É a contradança, o minuete de que fala Paul Hazard, esse jogo de mesuras, entre déspotas e filósofos: Voltaire vai a Berlim, Diderot, a Sampetersburgo. E D’Alembert diz esta coisa enorme a Frederico II: Os filósofos e os homens de letras de todas as nações encaram-vos há muito, majestade, como o seu chefe e o seu modelo. Século, também, da contra-revolução aristocrática. Vã, aliás. Porque seria o século da revolução burguesa e da político-institucionalização da nova ordem social.
Século da laicização da inteligência, da mundanização da cultura, do regalismo, do antipapismo, do brado voltairiano Écrasez l’infâme!, já do ateísmo e do materialismo. Da inteligência feita tudo: filosofia, negócio, jogo, galantaria, amor, liberdade e libertinagem. Século da cultura francesa: da língua, do estilo, das réplicas europeias de Versalhes: Hampton Court, Coblença, Potsdam, Wurtzburg, Mannheim, Schönbrunn, Colorno, Caserta, Estocolmo, Peterhof, La Granja, Queluz. Século dinâmico, transformador e em transformação, móvel, viageiro, curioso, cosmopolita, cheio de cidades-palcos, de cidades-sóis, de cidades-luzeiros, à altura das esperanças e das ambições e das rivalidades dos reis-Estados, ele é o século da mobilidade social, da correspondência entre os reis e os filósofos, entre os príncipes e os charlatães, do teatro mundano, da aparência, das fortunas rápidas, das bancarrotas monumentais, à Law. Século, finalmente, das inquietações, das emoções, dos sentimentos, da subjectividade, do pré-romantismo, de Rousseau, do nacional-romantismo de Goethe, do que é, e mais será, o Sturm und Drang.
O cliché era que o século XVIII português foi o marquês de Pombal que o inaugurou, por decreto, e brutalmente. Portugal estava, dizia-se, fechado a sete chaves. A primeira, a Inquisição (maldita); a segunda, a Companhia de Jesus; a terceira, a Universidade; a quarta, o teocentrismo; a quinta, a Escolástica. E por aí adiante. Até que, por indicação testamentária de Luiz da Cunha a Lisboa, o rei José I nomeou Sebastião José Carvalho e fez-se, em Portugal, Europa. É um cliché. Está ve1ho. E está errado. Nem a mudança que Pombal exprime começa sob José I, nem sequer será Pombal a inaugurar, destacado, sob José I, a mudança levada por diante nesse reinado. Ela inicia-se ainda no período joanino. E Pombal começa por ser apenas um dos homens do grupo chamado ao poder. Mais. Esta mudança, definida por Jorge Borges Macedo como apontada ao reforço do Estado como entidade exclusiva, não só no domínio político e administrativo como cultural e até religioso, entronca, no plano cultural, num movimento mais amplo. Como o século XIX começou no seio do XVIII, também o nosso século XVIII começou no seio do XVII. As dinâmicas sociais, económicas e culturais não contam até cem para virar as grandes esquinas da História». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Tradução ou Adaptação? Autores Clássicos. A versão de Aquilino Ribeiro. «Um escritor que traduz outro abdica da personalidade, que é o principal timbre, se é escritor a valer, da sua arte. Acontece-lhe como ao alferes que perdeu a bandeira. Mas, repito, eu traduzi D. Quixote com o objectivo didascálico de o estudar»

Cortesia de wikipedia

A tradução de Xenofonte
A Retirada dos Dez Mil e O Príncipe Perfeito
«(…) Assim: A sua pedagogia era morta, inexoravelmente morta. Mas a parte viva, que representa a medula espinal da obra, seja o espírito de que está animado o protagonista, a sua clarividência quanto ao poder das reacções morais, a sua índole magnânima e a forma, em suma, de solucionar os problemas do desentendimento humano, constituem uma lição para os políticos semi-bárbaros dos nossos dias que apenas sabem resolvê-los pela brutalidade. (Xenofonte, 1952)  Na avaliação feita dos princípios norteadores da conduta ética, Aquilino acentua, no prefácio da edição de 1952, a grandeza dum soberano que soube ser clemente com os povos batidos e dominados pelas armas. Salienta, por isso, o contraste com os governantes da actualidade. Assim se poderão compreender estas considerações desiludidas: A verdade insofismável é que, no geral, os senhores que governam o mundo são do pior que tem engendrado, do fim do Renascimento para cá, o ventre podre da política. Eu não os queria para me gerir uma quinta. Tampouco daria licença que fossem conselheiros dos meus filhos. A que letras e ciências comprovadas pediram a sua disciplina mental, subsidiária da arte de governar? Ouviram alguma vez falar da República de Platão, desta Kirou Paideia ou da Lakedaimonion Politeia de Xenofonte? (Xenofonte, 1952) Ao finalizar a apresentação da obra, Aquilino questiona-se ainda sobre a missão do escritor e avalia o empreendimento realizado. Reconhece ter valido a pena retirar aquele livro do limbo, sendo por isso o trabalho de tradução bem mais do que um entretenimento benigno. Dada a sua actualidade para os tempos modernos, não podia o livro permanecer fossilizado sob a lava literária de vinte séculos. Por isso se dedicou a esta empresa, embora com a sensação de que o escritor português tem sempre diante de si duas tarefas: uma a de pensar como todo e qualquer artífice das letras do orbe civilizado; outra a de ir preparando a forma, dar curso ao seu estilo, o que exige tanto esforço, pelo menos, como ao padeiro estender em porções a massa levedada.

A tradução de Cervantes: Dom Quixote e Novelas Exemplares
Ao contrário dos contextos circunstanciais que ditaram os anteriores investimentos, a tradução de Dom Quixote de la Mancha e das Novelas Exemplares, de Miguel Cervantes, exigiu de Aquilino prolongado investimento. No Dom Quixote, já vertido anteriormente para a língua portuguesa, enfrentou a tarefa de recriar uma obra-prima de outra época, introduzindo uma revitalização idiomática e as suas inconfundíveis marcas estilísticas. Nas doze narrativas da colectânea cervantina, investiu na primeira tradução portuguesa integral das novelas. Ao enfrentar este desafio, o tradutor chega a questionar se valeria a pena o empreendimento; mais, se tinha o direito de verter para português um texto castelhano, quando a Espanha estava tão perto de nós por bifurcação do mesmo tronco. Contudo, os idiomas tinham-se afastado tanto que reajustar reciprocamente as obras da literatura, tendo em conta o temperamento e índole respectiva, eis a tarefa do tradutor. O autor explica as razões que o levaram a arcar com esse empreendimento: Para melhor me convencer de que o meu pensamento não era uma desmesurada e tonta fantasia, tendo-se-me oferecido o ensejo de traduzir D. Quixote de la Mancha, pus-me a fazê-lo com minuciosa atenção, desfiando-o frase por frase, pensamento por pensamento, e, em seguida, as Novelas Exemplares. O melhor processo de me integrar nos segredos estruturais do autor, reconhecer-lhe os defeitos, sentir como eram delineadas as personagens, apreendendo a sua irradiação metaplástica, seria este. Assim, filtrei pela minha pena tudo o que passara pelo cérebro de Cervantes, mas é claro, com o parti pris dum analista. Suponhamos que demoli um edifício e tratei de o reconstruir nas suas linhas, alçado e formas, pesando pedra por pedra na palma das mãos. E, isto feito, pareceu-me que teria alguma razão em julgar que não exorbitara de todo no meu conceito.
Estando nesta altura já bem vincada a língua literária de Aquilino, ter-se-ão sobreposto as suas opções estilísticas. Seria possível traduzir as obras, adaptando-as ao idioma português, aos seus referentes culturais e inclusivamente aos seus idiolectos? Para isso, nem seria necessário diluir as marcas idiossincráticas do autor. E não poderia o trabalho de tradução enriquecer a própria obra, na perspectiva do leitor português? Era preciso encontrar um correspondente idiomático que estivesse à altura de uma das obras maiores das letras universais. E nesta matéria, poucos como Aquilino estariam em condições de fundir o erudito e o popular e de preservar a idiossincrasia cervantina. O próprio escritor reflecte sobre o papel do tradutor, quando pondera: Um escritor que traduz outro abdica da personalidade, que é o principal timbre, se é escritor a valer, da sua arte. Acontece-lhe como ao alferes que perdeu a bandeira. Mas, repito, eu traduzi D. Quixote com o objectivo didascálico de o estudar, para mais numa hora em que nos estão vedadas as fontes da originalidade, se a linfa é outra que não a das bicas a que todos enchem o cântaro. Mas, devo declará-lo, entreguei-me a este labor, menos por furtar-me ao abraço de Caliban do que com o escopo bem assente de examinar a tessitura íntima da composição de Cervantes, com a secreção do pensamento (...) É isso que me traz ao proscénio público a expressá-lo, uma vez que adquiri esse direito desde que pretendi nacionalizar, digamos, o engenhoso fidalgo e o escudeiro fiel». In Henrique Almeida, Tradução ou Adaptação? A versão de Aquilino Ribeiro de Autores Clássicos, Universidade C. Portuguesa, Viseu, Revista Máthesis nº 15, 2006.

Cortesia de Máthesis/JDACT

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Como lutar contra tal potestade? O pobre pagão não vê caminho mais simples, mais barato e mais expedito nas suas pendências com tal entidade do que submeter-se e deixar-se espoliar»

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Uma aventura Lliterária
«(…) E mais por lhes ser agradável, do que pelos atractivos que encontrava em missão tão espinhosa, resignei-me a aceitar. Seria, bem entendido, um trabalho à margem dos meus deveres profissionais, regulado portanto pela carta estabelecida de direitos entre publicista e editor. Seja dito de passagem que nunca fui pago integralmente. A certa altura  interpôs-se a contabilidade do Ministério da Instrução na pessoa dum tal Codina, com as suas tricas protocolares, as suas verbas pré-orçamentadas, e não obstante a declaração de dívida, ratificada pelo inspector das Bibliotecas e Arquivos, Júlio Dantas, nunca houve meio de cobrar o que me pertencia. Certos funcionários do Estado julgam esta entidade um círculo restrito de interesses que é preciso defender à maneira cartaginesa. As revindicações de quem está de fora passam a plano secundário. A Fazenda Nacional beneficia de um respeito sagrado, noli me tangere. O contribuinte é apenas pagão. Se recalcitra e apela para os tribunais, o seu opositor tem por si todos os privilégios a começar pela comandita tácita que há de funcionários para funcionários e a recrescer com a razão supina de que não paga emolumentos de nenhuma ordem, tanto papel selado, como selos, como o mais processual lhe sendo gratuito.
Como lutar contra tal potestade? O pobre pagão não vê caminho mais simples, mais barato e mais expedito nas suas pendências com tal entidade do que submeter-se e deixar-se espoliar. Chama-se a essa sua atitude, comparável à da vítima sob o revólver do maítre chanteur, pagar e não bufar. É manifesto que o prepotente acaba por concitar de parte do contribuinte a mais revulsiva antipatia. Defraudá-lo torna-se represália tão legítima como ludibriá-lo. Mas como? Para quem apelar da cominação dos Codinas, arvorados em argos do patrão olímpico, mais fero, mais absoluto, mais invulnerável neste sobado ocidental do que em nenhuma parte do globo? Aceite a empreitada; pus mãos à obra. Como atrás se diz, não havia nada quanto às inquirições do Cavaleiro. Voltei a concentrar-me sobre as Cartas e Amusement com redobrado obséquio. Era como surpreender na areia movediça pisadas problemáticas; respigar no estratificado do solo esquírolas anatómicas dum bicho ante-diluviano e fazer a sua reconstituição. Não desdenhei de um elemento. Fui detective, romancista, fariscador de diamantes, e fiz todos os esforços para ser psicólogo. Aproximei factos de factos: verifiquei datas; ajustei referências a referências; pesei o concreto na balança de ourives; eliminei o inseguro; fiz um esbatido de gestos e feições; numa palavra, ressalvadas as distâncias, procedi para com o Cavaleiro como Cuvier para certos indivíduos da fauna extinta. O sábio com dois ou três fragmentos ósseos, umas vertebras, um ilíaco, reconstituía um esqueleto e daí um tipo. O Cavaleiro, mais certo, menos certo, mas com uma fisionomia determinada, emergia da noite que desceu sobre ele com o tempo, os nevoeiros de Londres, o silêncio expresso, graças à minha paciência chinesa e atenção precavidosa». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Cavaleiro de Oliveira. Aventureiro do Século XVIII. Artur Portela. «… o protestantismo deste homem é dado por Gonçalves Rodrigues ou como oportunista ou/e como superficial. (…) É, não o mistério da carta roubada, que isso só será no século seguinte, mas o mistério dos documentos sonegados»

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As questões
«O Cavaleiro de Oliveira é dado como escritor estrangeirado que começa libertino e acaba protestante. Mas, por um lado, é dado como estrangeirado menor: não é, de todo, nem um Verney, nem um Alexandre de Gusmão, nem um Luiz da Cunha. Por outro lado, os estrangeirados são, a, convite recente de Jorge Borges Macedo, um conceito a rever, e, de alguma forma, a despromover. Por outro lado, a libertinagem do Cavaleiro parece ser insistentemente contestada pelos seus protestos casamenteiros, moralizadores e machistas. Por outro lado, e ainda, o protestantismo deste homem é dado por Gonçalves Rodrigues ou como oportunista ou/e como superficial. Mais: abatem-se sobre este homem suspeitas graves. É, não o mistério da carta roubada, que isso só será no século seguinte, mas o mistério dos documentos sonegados. E desesperadamente negociados. Não tem sorte, o Cavaleiro de Oliveira. Nem escritor nem estrangeirado, nem libertino nem protestante.
E, no entanto, o Cavaleiro de Oliveira seria, não fundamentalmente o escritor, não essencialmente o candidato a estrangeirado, não predominantemente o libertino, não basicamente o campeão do protestantismo português, mas sobretudo o aventureiro do século XVIII. O que possa ser isso, de aventureiro, e de aventureiro do século XVIII, o significado que isso possa ter, social, cultural, historicamente, tentaremos vê-lo adiante. Para já, fiquemos pela distinção, referida ao Cavaleiro de Oliveira. É que escritores, estrangeirados ou não, tivemo-los mais sistemáticos. Libertinos, decerto os tivemos mais coerentes. Protestantes, decerto os tivemos mais consistentes. Aventureiros galantes, talvez não tenhamos tido, no século XVIII, outro tão rico, tão móvel, tão cambiante, tão travestido, tão capaz de ser lisboeta em Lisboa, vienense em Viena, holandês na, Holanda, protestante na Inglaterra, e tão capaz de dar a cada cidade vários nomes de mulher, de amar muitas e de casar com algumas, tão amputado do meio português, tão cosmopolita, tão lançado à descoberta da Europa, tão portuguesmente achador, embora em terra firme, tão portuguesmente achador, embora de cidades, tão ainda aristocrático e tão já afeito ao exercício do livre-exame, e de tudo isso ir deixando memória, viva, álacre, combativa, como Francisco Xavier Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira. Seria aí, nessa complexidade dinâmica, nessa contradição em movimento, nesse jogo, nessa, aventura, que estaria o homem, socialmente, culturalmente. Especificamente». In Artur Portela, Cavaleiro de Oliveira, Aventureiro do Século XVIII, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Temas Portugueses, Lisboa, 1982.

Cortesia da INCM/JDACT

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Em verdade, foi a partir dessa data que o livro passou a ter uma tal ou qual notoriedade e com o livro o autor debaixo da designação de ‘Cavalheiro de Oliveira’. “Mas que ideia, cavalheiro!”»

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Uma aventura Lliterária
«No casarão de S. Francisco havia um exemplar, considerado único, do Amusement Périodique, par le Chevalier d’Oliveyra, Londres MDCCLI. Tudo leva a crer que Oliveira Martins o tivesse compulsado, colhendo, o seu tanto de arrepêlo, um ou outro dado pejorativo com que, ao compor a História de Portugal, pretendeu formular a tese da irremissível decadência do povo português. Mais tarde, no leilão da livraria Fernandes Tomás, foram postos em hasta dois tomos da obra, quando consta de três, adjudicados por seis libras a Camilo Castelo Branco. Seis libras ao tempo eram uma mancheia de dinheiro, provando o empenho que o romancista tinha em adquirir o livro, e a sua raridade. Aproveitou-se dele, salvo pequenas achegas perdidas por cem mil páginas, na composição do Judeu. Em verdade, foi a partir dessa data que o livro passou a ter uma tal ou qual notoriedade e com o livro o autor debaixo da designação de Cavalheiro de Oliveira. Mas que ideia, cavalheiro! Termo híbrido, de importação espanhola, mais de uso nas alfurjas do Ferregial, entre as horizontais e seus clientes, do que no cursivo da língua, dir-se-ia que por acinte ou em vista ao entono da personagem, como alcunha, lho aplicou o mestre. Se por um lado o termo indica o homem bem educado, ou a sua chalaça, por outro, regendo a palavra indústria, define o meliante de alto bordo. O que não significa é o que Oliveira era de facto: titular do primeiro grau da Ordem de Cristo e que ele, à falta de brasões, adoptou nas embófias de megalómano sob a forma exclusiva de nome próprio, 'quando se usava e usa apenas como apanágio de distinção ou se faz alarde de honrarias. O conde de Tarouca referia-se-lhe com desdenhoso sobrecenho: Oliveira, que ridiculamente se denomina de Cavaleiro de Oliveira... Todavia, se em Portugal cavaleiro de Cristo era apenas uma mercê, em Viena de Áustria, espada no talim, farda, bigodes calamistrados, pernas arqueadas sobre o jarrete, era como um margrave este jovem senhor do Ocidente.
Pela aragem se tira a carruagem. Em afidalgamento tão anómalo se cifra a índole deste homem, bicho raro, aventureiro que tomou a vereda escandalosa e iconoclasta em face da inquebrantável ortodoxia nacional, sujeito de singularidades, graças ao quê, mais do que pelas letras, se evidenciou e se tornou motivo de reparo e especulação. Foi cedendo a este móbil que em 1921-22, o director da Biblioteca Nacional, Jaime Cortesão, me propôs fazer o estudo e versão de textos seleccionados do Amusement e um ensaio biográfico do autor. Eu tinha da matéria escassa notícia, como aliás toda a gente; Barbosa, que manteve relações epistolares com o Cavaleiro, além de sucinto, cinge-se à sua vida literária. Mediante as referências pessoais, sempre à flor da pena dum egoísta como ele era, conheciam-se-lhe as efemérides de maior relevo, os pegões da ponte. Mas o molecular, que na história dos indivíduos é o que mais interessa, ignorava-se absolutamente. Quem era? Qual o seu estofo de cidadão? Qual o segredo e dinâmica de avatares que o conduziram dum meio crasso de beatério, bentinhos e procissões, até o recinto luterano, onde se ergue a conclamar contra o credo católico que bebera de leite? Como descobrir na noite envolvente o fantasma desvanecido do incréu?
Reservei a minha resposta e fui ler o Amusement, as Cartas, as Mémoires, do Cavaleiro; mergulhei em todas as possíveis fontes; procedi a uma minuciosa e paciente rebusca de informes, e disse a Jaime Cortesão que, muito obrigado, mas renunciava ao encargo. Raul Proença, director dos Serviços Técnicos da B. N., o homem construtivo que até certo ponto chefiava o movimento de renovação político-filosófico que, partindo daquela casa, se estava a operar no seio da República, idosa apenas de uma década de anos, combateu por todos os modos a minha desistência. Era pertinaz a sua dialéctica e obsessivamente tão cheia de aliciações como de recursos suasórios. Travou-se ali a batalha de Jacob com o anjo. Claro, Jacob era eu». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Tradução ou Adaptação? Autores Clássicos. A versão de Aquilino Ribeiro. «Este envolvimento com a obra de Xenofonte permitiu a Aquilino recorrer a uma série de referências intertextuais em diferentes momentos da sua produção de escrita. E tudo começou nos tempos da juventude…»

Cortesia de wikipedia

A tradução de Xenofonte
A Retirada dos Dez Mil e O Príncipe Perfeito
«(…) Como classificar uma obra revestida de pluridiscursividade, dispersa por vários livros e onde abundam posições críticas pessoais, por vezes discutíveis? A resposta, reveladora da sua apreciação pessoal, é dada nestes termos:
  • Se procurássemos demarcações na Anábase, sob o ponto de vista de género literário, teríamos que até o fim do primeiro livro se trata de correspondência de guerra, directa, rápida, com a sua nótula acidental histórica ou mitológica, como se faz hoje, daí em diante memórias, como é também de uso clássico. De singular na segunda parte há que o memorialista desborda a tal ponto sobre os mais figurantes que estas páginas chegaram a ser classificadas de patranha deliciosa.
Mas todas estas referências só serão compreensíveis se forem acompanhadas da contextualização histórica. Por isso, o tradutor mostra a preocupação de orientar o seu leitor. Desde início, no lugar privilegiado do paratexto, expõe uma síntese introdutória do que foi, do seu ponto de vista, a retirada dos Dez Mil:
  • Aí quatrocentos anos antes da era cristã, a Grécia não tinha ainda acabado de convalescer das feridas que lhe deixara a guerra chamada do Peloponeso, em que, durante vinte e sete anos, renhiram de morte as duas principais comunidades helénicas: Atenas e Esparta. A guerra acabou com a hegemonia de Atenas graças aos auxílios de toda a ordem que prestou aos Lacedemónios Ciro, filho do rei da Pérsia, sátrapa da Lídia.
Este envolvimento com a obra de Xenofonte permitiu a Aquilino recorrer a uma série de referências intertextuais em diferentes momentos da sua produção de escrita. E tudo começou nos tempos da juventude. A esse período alude no prefácio da 1ª edição, em 1938, quando lembra como a erupção da guerra interrompera os seus estudos do Grego e como fora devaneio puro abalançar-se a pôr pé num mundo morto. Lucrou, contudo, ter conhecido Xenofonte, homem extraordinário. Num olhar retrospectivo, o grande cometimento da tradução, abruptamente interrompido e só mais tarde continuado, terá nascido de inconsciente e alado desejo (o Prefácio foi escrito na Cruz Quebrada, em 1938, ano da primeira edição da obra, com capa de Eduardo Faria. Aquilino começa por contar como travou relações a fundo com Xenofonte e explica adiante a razão de ser da alteração do título da obra original e como o fez ressurgir após muitos anos de letargia: Foi em Paris, um ano antes da Grande Guerra – era eu estudante de letras na Sorbona – que travei relações com Xenofonte, natural da Ática, filho dum fidalgo rural de meia-tigela, Grilos. Conhecia-o muito pela rama, dos tempos em que estudei história pelo padre Alves Matoso, autor de consciência larga que principiava com os sete dias da Criação. Apresentou-mo certo francês que não era eclesiástico nem doutorado, pelos vistos, e tinha a unção e sabedoria dum velho mestre sulpiciano).
Mais tarde, já na década de 50, Aquilino regressa a Xenofonte, desta vez para traduzir Ciropedia (Kirou Paideia). A opção justificava-se por se tratar de uma obra-prima do género, cuja influência, como refere, se fez sentir pelos tempos fora até aos nossos dias. Tratado de pedagogia, de moral e das artes do comando, tudo isso se enfaixou numa bem urdida novela. Daí o seu encanto. Quanto ao título, Aquilino questiona-se por que razão, na tradução original do grego, se traduziu Kirou Paideia para Ciropédia. Ciropédia era, em seu entender, formação léxica abusiva, porquanto resultou daqui um substantivo comum, o que é contrário à lógica da denominação original. E explicava:
  • Ignoro se foi a filologia alemã, se a francesa a causadora do que julgo ser um dislate. Seja como for, o título vulgarizado é impróprio, e permitimo-nos dar-lhe aquele que corresponde ao pensamento e essência dramática das personagens que se agitam na obra. Trata-se da criação, no sentido lato da palavra, dum príncipe, príncipe ideal, imaginado, construído segundo o protótipo da pedagogia grega, perfeito por consequência. Julgamos que assim fica justificado o título com que o livro vai afrontar a luz crua e avessa do nosso século.
Já quanto à motivação para ter empreendido a tradução, foram, segundo afirma, motivos literários ou de conceito que o levaram a essa tarefa. Preferiu este a outros trabalhos de autores modernos, apesar de n’O Príncipe Perfeito ter encontrado muito de obsoleto e que seria absurdo tentar revigorizar. Contudo, muito havia a aproveitar, nomeadamente os ensinamentos relativos às relações humanas e ao governo da polis». In Henrique Almeida, Tradução ou Adaptação? A versão de Aquilino Ribeiro de Autores Clássicos, Universidade C. Portuguesa, Viseu, Revista Máthesis nº 15, 2006.

Cortesia de Máthesis/JDACT