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terça-feira, 17 de março de 2020

Os Cinco Templários de Jesus. Didier Convard. «Alguns já começavam a preparar os cavalos. Longmaur não saiu do lugar e olhava, com desprezo, os champanheses se aproximarem…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os cinco cavaleiros
«(…) À sombra de uma das tendas encostadas nas paredes de um entreposto, dois cavaleiros terminavam a toillete. Um deles, que tinha por volta de trinta anos, cabelos louros, faces fundas e mal-barbeadas, orelhas ligeiramente de abano, inspirava simpatia imediata. Ele aspergia alegremente o próprio torso com a água retirada em grandes e generosas braçadas de uma tina. O segundo, mais velho, mais sombrio, de altura imponente, a pele queimada pelo sol, uma barbicha negra que agredia o queixo pontudo, vestia um colete feito de tecido grosso e coberto de couro. Apontando para a embarcação que estava sendo amarrada no cais, ele não dissimulou uma certa hostilidade para anunciar: eis os seus amigos, Sylbert. Tivemos de esperá-los demais! Estou com pressa de chegar a Jerusalém. O primeiro se sacudiu, olhou na direcção da nau e frisou: você não traz os champanheses no coração, Longmaur. Pode-se adivinhar só pelo tom da sua voz. Para ser sincero, não escondo que preferia que estivessem ao nosso lado com o seu exército na tomada da Cidade Santa. Sem dúvida, não teríamos perdido tantos bons companheiros. Sylbert vestiu-se rapidamente, apressado para ir receber os convidados. Longmaur demonstrou toda a calma para amarrar o cinto, equipar-se com a bainha da espada e enfiar as calças justas. Da prancha de desembarque do navio, desciam peregrinos, padres, monges e cavaleiros em pequenos grupos.
Estou vendo o meu primo Sylbert, disse Payns, apontando o homem de pernas compridas que vinha correndo na direcção deles, com cabelos desgrenhados e batendo os braços no ar para ser visto pelos recém-chegados. Eu o reconheci. Uma recepção bem insignificante!, observou secamente o conde. Balduíno deve ter ficado decepcionado por receber apenas cinco peregrinos acompanhados de um punhado de escudeiros, ressaltou Payns. Sem dúvida, ele preferia que o conde de Champagne viajasse à frente de uma grande tropa! Para todos os efeitos, viemos aqui a título particular. E é melhor assim. Cada um dos cinco cavaleiros estava acompanhado por um escudeiro. Mal puseram os pés no cais, Sylbert correu para o conde e estendeu os braços num gesto amigável. Senhor Hugues, estou muito contente por abraçá-lo. O mesmo acontece comigo, irmão. Um rosto amigo é um consolo para quem desembarca nesta terra desconhecida. Ainda mais porque não estou acostumado às viagens.
Em seguida, Sylbert, o amistoso Sylbert, literalmente se jogou sobre Payns para beijá-lo, lhe devorando as faces, a tal ponto estava entusiasmado. Meu primo! Meu bom primo! Que belo dia, não é? Faz três anos... Não, quatro... Sim, quatro anos que não nos vemos! E você não engordou nada. Continua a se alimentar de castanhas, água da chuva e pão duro? Payns havia segurado Sylbert pelo pescoço e se deixou abraçar por esse homem bondoso, por mais exuberante que fosse. Arcis, Geoffroy e Basile, ligeiramente atrás, se divertiam com o espectáculo e sorriram apesar das expressões alteradas, cansadas pela travessia. Quanto aos escudeiros, eles puseram a pesada bagagem no chão, para não se cansarem desnecessariamente, enquanto aguardavam que as intermináveis efusões terminassem. Sylbert levou o grupo para as tendas dos cruzados que tinham vindo recepcioná-los.
Alguns já começavam a preparar os cavalos. Longmaur não saiu do lugar e olhava, com desprezo, os champanheses se aproximarem. Payns e o conde Hugues andavam ao lado de Sylbert. Em voz baixa, de modo a que os escudeiros não ouvissem, Payns interrogou o primo: as buscas de Balduíno estão progredindo? Sylbert deu de ombros. Os engenheiros e os escavadores não cessam de esquadrinhar o Templo, convencidos do que se dedicam a procurar os tesouros de Salomão... Eles recolheram alguns bibelôs de ouro. Urnas e vasos. Para todos, o Túmulo do Cristo já foi liberado. Mas Bucelin, o núncio do papa, vive pressionando o rei para que seja descoberto o túmulo do Impostor. O papa Pascoal morre de vontade de passar à nossa frente, frisou Hugues. É evidente que Bucelin conhece a razão da vinda de vocês, apontou Sylbert. Devemos agir com muita discrição e desconfiar dos cruzados, recomendou Payns. A contragosto, Longmaur decidiu sair e demonstrar um pouco de polidez para com os champanheses. Imediatamente, Sylbert cochichou: nem mais uma palavra, eis que o cavaleiro Longmaur se aproxima, um fiel de Balduíno. Um soldado corajoso, tão subtil quanto uma ostra! Eu estava ao lado dele na tomada da Cidade Santa; esse homem é um verdadeiro carniceiro... Ele cortou os adversários melhor do que um esquartejador teria feito. Ah, deviam vê-lo patinhar no sangue, estripando e cortando homens, mulheres e crianças! Infatigável e labutador!» In Didier Convard, O Triângulo Secreto, Os Cinco Templários de Jesus, 2006, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-663-7.
                                                        
Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

segunda-feira, 16 de março de 2020

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «Gostaria de ler dentro de si, Renaud..., de adivinhar por que razão age assim. Digamos que seja pelo bem do reino, Sire»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
O Duplo Assassinato
«(…) A porta foi aberta. O médico saiu do quarto. Segurava uma bacia cheia de muco real. Por pouco ele não a derrubou, tal a ênfase dos cavaleiros em pressioná-lo com perguntas. Como está Filipe nesta manhã, mestre Othon? Com os diabos, como? O médico sorriu e respondeu com voz reconfortante: melhor! Está recuperando o aspecto humano e, em breve, o filho Luís não terá medo de visitá-lo. A companhia do cavaleiro Renaud parece contribuir para o restabelecimento. Mestre Othon saiu, deixando os dois cavaleiros sozinhos com a sua contrariedade. Então, eles, os amigos mais fiéis, estavam proibidos de entrar no quarto, enquanto o cruz vermelha passava ali a maior parte do tempo! De facto, nos aposentos de Filipe, Renaud desempenhava humildemente o papel de criado, trocando a roupa íntima do rei, ajudando-o a lavar-se e a comer, arejando o aposento, lendo para ele, tomando o cuidado de atiçar constantemente o fogo da enorme lareira por causa da humidade do Inverno...
Os clérigos estão progredindo na tradução, Renaud? O templário sorriu; já esperava que Filipe lhe fizesse essa pergunta. Eles mal dormem, tão dedicados estão ao trabalho, respondeu, dizendo a si mesmo que o rei já não sentia o medo supersticioso de abordar o assunto. Bom... Estou impaciente para ler esses textos. Se financiou uma parte da cruzada é porque eles são de grande interesse, não?, disse o monarca sentando-se na cama, procurando apoiar as costas nas volumosas almofadas. Realmente. Seria um perigo se, por azar, o rei Ricardo pusesse as mãos neles. Você ainda não me falou de dinheiro, cavaleiro... A Coroa lhe deve uma grande soma. Estou em dívida com você, murmurou Filipe, depois de encontrar a posição certa nos travesseiros.
Os Templários não são usurários. Sabemos esperar para recuperar nossos fundos. Isso significa que o investimento trará frutos que não o dinheiro sonante. Gostaria de ler dentro de si, Renaud..., de adivinhar por que razão age assim. Digamos que seja pelo bem do reino, Sire.

No mês seguinte, depois de duas longas semanas de neve, cinco cavaleiros cavalgavam em boa velocidade numa estrada parcialmente oculta, delimitada por duas fileiras de choupos. Eles se dirigiam a uma pequena abadia aconchegada numa bruma espessa. O sino da pequena capela soou as 19 horas. Os cavaleiros apearam, quase que num mesmo movimento. O vento levantou a aba do capuz de um dos homens; era o templário Renaud. Ele bateu na porta conforme o código combinado. Os outros quatro se mantiveram afastados e um deles prendeu as rédeas dos cavalos em argolas fixadas na parede. A porta foi aberta por um velho abade que havia passado um xaile em volta dos ombros. Corcunda, todo torto, o homenzinho ergueu uma lamparina a óleo para distinguir o rosto de Renaud. Ah..., reconheci o código, senhores. Entrem rápido; este frio é cortante e gela até o tutano dos ossos.
Os cinco cavaleiros entraram na abadia. Um deambulatório na frente deles ligava três modestas construções: o presbitério, a biblioteca e a capela. Renaud dirigiu-se ao velho, tirando a lamparina das mãos dele: pode nos deixar, abade. Volte às suas orações. Sinceramente, já está na hora de dormir numa boa cama aquecida. Não tenho a têmpera dos jovens e devotados Agnano e Nicolau! O corcunda se retirou e os cinco cavaleiros seguiram apressados pelo deambulatório até à biblioteca. Uma luz filtrava pelos batentes das estreitas janelas. Vou entrar sozinho, disse Renaud, entregando a lamparina a um dos companheiros. Esperem-me aqui e fiquem preparados. O templário empurrou a porta de madeira e entrou numa sala pequena que um braseiro não conseguia aquecer o suficiente. Dois homens, sentados às suas mesas, viraram a cabeça ao mesmo tempo: magros passarinhos, de pescoço descarnado, olhos redondos e febris, idade indefinida e tonsuras malfeitas. Eram Nicolau e Agnano Pádua. Usavam hábitos de pano grosso marrom, cordão amarrado na cintura, xaile nos ombros e mitenes de lã nas mãos». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «A Coroa lhe deve uma grande soma. Estou em dívida com você, murmurou Filipe, depois de encontrar a posição certa nos travesseiros. Os Templários não são usurários»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
O Duplo Assassinato
«(…) A porta foi aberta. O médico saiu do quarto. Segurava uma bacia cheia de muco real. Por pouco ele não a derrubou, tal a ênfase dos cavaleiros em pressioná-lo com perguntas. Como está Filipe nesta manhã, mestre Othon? Com os diabos, como? O médico sorriu e respondeu com voz reconfortante: melhor! Está recuperando o aspecto humano e, em breve, o filho Luís não terá medo de visitá-lo. A companhia do cavaleiro Renaud parece contribuir para o restabelecimento. Mestre Othon saiu, deixando os dois cavaleiros sozinhos com a sua contrariedade. Então, eles, os amigos mais fiéis, estavam proibidos de entrar no quarto, enquanto o cruz vermelha passava ali a maior parte do tempo! De facto, nos aposentos de Filipe, Renaud desempenhava humildemente o papel de criado, trocando a roupa íntima do rei, ajudando-o a se lavar e a comer, arejando o quarto, lendo para ele, tomando o cuidado de atiçar constantemente o fogo da enorme lareira por causa da humidade do Inverno... Os clérigos estão progredindo na tradução, Renaud? O templário sorriu; já esperava que Filipe lhe fizesse essa pergunta. Eles mal dormem, tão dedicados estão ao trabalho, respondeu, dizendo a si mesmo que o rei já não sentia o medo supersticioso de abordar o assunto. Bom... Estou impaciente para ler esses textos. Se você financiou uma parte da cruzada é porque eles são de grande interesse, não?, disse o monarca sentando-se na cama, procurando apoiar as costas nas volumosas almofadas. Realmente. Seria um perigo se, por azar, o rei Ricardo pusesse as mãos neles.
Você ainda não me falou de dinheiro, cavaleiro... A Coroa lhe deve uma grande soma. Estou em dívida com você, murmurou Filipe, depois de encontrar a posição certa nos travesseiros. Os Templários não são usurários. Sabemos esperar para recuperar nossos fundos. Isso significa que o investimento trará frutos que não o dinheiro sonante. Gostaria de ler dentro de você, Renaud..., de adivinhar por que razão age assim. Digamos que seja pelo bem do reino, Sire.
No mês seguinte, depois de duas longas semanas de neve, cinco cavaleiros cavalgavam em boa velocidade numa estrada parcialmente oculta, delimitada por duas fileiras de choupos. Eles se dirigiam a uma pequena abadia aconchegada numa bruma espessa. O sino da pequena capela soou as 19 horas. Os cavaleiros apearam, quase que num mesmo movimento. O vento levantou a aba do capuz de um dos homens; era o templário Renaud. Ele bateu na porta conforme o código combinado. Os outros quatro se mantiveram afastados e um deles prendeu as rédeas dos cavalos em argolas fixadas na parede. A porta foi aberta por um velho abade que havia passado um xaile em volta dos ombros. Corcunda, todo torto, o homenzinho ergueu uma lamparina a óleo para distinguir o rosto de Renaud. Ah..., reconheci o código, senhores. Entrem rápido; este frio é cortante e gela até o tutano dos ossos.
Os cinco cavaleiros entraram na abadia. Um deambulatório na frente deles ligava três modestas construções: o presbitério, a biblioteca e a capela. Renaud se dirigiu ao velho, tirando a lamparina das mãos dele: pode-nos deixar, abade. Volte às suas orações. Sinceramente, já está na hora de dormir numa boa cama aquecida. Não tenho a têmpera dos jovens e devotados Agnano e Nicolau! O corcunda se retirou e os cinco cavaleiros seguiram apressados pelo deambulatório até à biblioteca. Uma luz filtrava pelos batentes das estreitas janelas. Vou entrar sozinho, disse Renaud, entregando a lamparina a um dos companheiros. Esperem-me aqui e fiquem preparados. O templário empurrou a porta de madeira e entrou numa sala pequena que um braseiro não conseguia aquecer o suficiente. Dois homens, sentados às suas mesas, viraram a cabeça ao mesmo tempo: magros passarinhos, de pescoço descarnado, olhos redondos e febris, idade indefinida e tonsuras malfeitas. Eram Nicolau e Agnano de Pádua. Usavam hábitos de pano grosso marrom, cordão amarrado na cintura, xale nos ombros e mitenes de lã nas mãos. Agnano levantou-se da banqueta e deixou o manuscrito na mesa atulhada de rolos de um papel grosso. Atrás dele podia-se ver, em outra mesa, os estojos de couro dos rolos encontrados em São João de Acre.
Cavaleiro Renaud, terminamos na data prevista o trabalho que nos confiou, disse o primeiro tradutor com voz cristalina, arrastada e, surpreendentemente doce, com timbre de criança. Nunca tive queixas dos seus serviços, respondeu Renaud, examinando o livro grosso que Agnano, agora mais próximo, lhe indicara com um gesto amplo das mãos. O livro repousava num atril. O templário estremeceu. De frio? Não, não de frio». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

domingo, 8 de dezembro de 2019

Os Cinco Templários de Jesus. Didier Convard. «Aliás, ele escapou de inúmeras tentativas de assassinato e, agora, está recluso no seu palácio. Arcis retomou a palavra: esta cidade está prestes a se incendiar…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os cinco cavaleiros
«(…) Acompanhou-nos sem entusiasmo, meu amigo. Ao contrário! Mas confesso que sinto saudades de Hélène, a minha jovem esposa. Quanto mais rápido terminarmos, mais rápido estarei nos braços dela. Ele sabia muito bem que Hélène seria paciente. Ela lhe dera o seu amor e a sua adolescência. Ela o presenteara com os seus dezasseis anos, para recebê-lo no seu corpo e no seu coração, como um amante paternal. Venha, Payns, vamos descer. Payns não pôde deixar de perscrutar o convés uma última vez, certo de que não fora vítima de uma miragem. Havia, realmente, alguém atrás da porta da cabine. Alguém que, certamente, escutara o juramento. Payns seguiu Arcis, que iluminava a escada com a lanterna. Uma presença nefasta... O cavaleiro não quis confessar ao companheiro que, muitas vezes, era capaz de perceber o que os seus semelhantes ignoravam. A sua mente conseguia vasculhar a malha invisível das almas que o cercavam. No impalpável tecido do presente, às vezes, isolava uma impressão externa, um sentimento longínquo... E ali, naquela noite, ele sentiu o Mal tocá-lo.

Nove dias depois, a maioria dos peregrinos se apertava no lado leste do convés da nau para ver Ascalão emergir de uma bruma de calor que a tornava quase irreal. Dizem que os francos de Godofredo de Bulhão massacraram mais de dez mil pessoas no primeiro ataque à cidade, declarou Arcis de Brienne, que se havia reunido a Geoffroy de Saint-Omer perto do castelo de proa, de onde o capitão do navio comandava a manobra de aproximação. É, ouvi falar sobre isso, disse Geoffroy, novamente invadido pela náusea, menos incómoda depois que Payns passara a tratá-lo, massageando-lhe o abdómen e salmodiando as misteriosas fórmulas. Actualmente, a cidade é governada por um tal de Chams al-Khilafa, que só a tem sob controle devido à ajuda de Balduíno. Um equilíbrio precário que corre o risco de desabar de um dia para o outro.
O conde Hugues interveio: o rei de Jerusalém instalou uma guarnição de trezentos homens para apoiar Chams al-Khilafa, que se vendeu por setecentos dinares. A população nunca lhe perdoou essa traição. Aliás, ele escapou de inúmeras tentativas de assassinato e, agora, está recluso no seu palácio. Arcis retomou a palavra: esta cidade está prestes a se incendiar, não vamos nos demorar por aqui. Os egípcios ainda são muito numerosos e é entre eles que os fatímidas formam grupos armados prontos para cercar o refúgio do seu governante. A política!, suspirou Geoffroy. Não entendo muito do assunto. Ascalão é um ponto estratégico importante, meu amigo, esclareceu Hugues. Ela representa, sobretudo, a terra firme!, exclamou Geoffroy, observando a bruma a dissipar-se no porto.
Payns e Basile também subiram para o convés. Mais abaixo, no porão, os escudeiros dos cinco cavaleiros terminavam de reunir as bagagens dos patrões: alforjes de tecido grosso, bornais de pele de carneiro, sacos de couro... Payns abriu bem os braços e aspirou longamente o ar morno e salgado, enchendo generosamente os pulmões. Como isso cheira bem!, disse ele. Como é diferente da nossa fria Champagne! Imediatamente, Arcis atenuou o entusiasmo do amigo: quanto a mim, acho que cheira mais a sangue! Dos árabes, dos judeus e dos francos. Sem dúvida, meu amigo, prosseguiu Payns, mas é com sangue que se escreve a História. Estou falando da história verdadeira e que se deve tomar como religião. Temos de nos adequar a ela se fazemos questão de desmantelar a mentira da Igreja. Em seguida, Payns abaixou os braços. Ele se virou para os peregrinos, impacientes para chegar ao porto, descer do navio e pisar na Terra Santa. O Mal..., está entre eles! Escondido na multidão!» In Didier Convard, O Triângulo Secreto, Os Cinco Templários de Jesus, 2006, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-663-7.
                                                        
Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «Com um terrível esforço, Filipe tentou sentar-se no leito. Renaud acorreu para ajudá-lo e lhe ajeitar as costas com uma almofada»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
Os Três Rolos
«(…) Ao chegarem ao pavilhão de Filipe, Ricardo abriu violentamente as abas de tecido, apesar das injunções dos cavaleiros Benoit e Henri, enfurecidos por perturbarem o sono do mestre. Filipe jazia no leito, lívido, tez cerosa, olho direito oculto por uma bandagem, cabelos ralos, suando em bicas, arquejante, espavorido. A cena dessa degradação emocionou Ricardo, que se aproximou sem nem mesmo notar o abade, sentado na obscuridade com o livro de orações no colo. Minha bênção, Filipe!, proferiu Ricardo. Vejo que está nas mãos de charlatães que não curariam nem a sarna de um cão piolhento! A voz baixa, apagada e rouca do doente mal chegava aos ouvidos de Coração de Leão, que precisou se inclinar para compreender todas as palavras. É porque eu não tenho sarna, Ricardo. Sem dúvida, algum terrível veneno corre nas minhas veias...
O Plantageneta se inclinou ainda mais e examinou a pele descarnada do moribundo. Você está com a mente embaralhada, meu primo. Quem teria interesse em conduzi-lo à morte? Quando dois reis combatem juntos, sempre há um a mais. Talvez o Destino seja o único responsável pelo meu estado, desejando que você seja o único a continuar a nossa busca e a chegar ao Santo Sepulcro. Renaud interveio: como vê, Sire Ricardo, Sua Majestade prefere voltar para as suas terras o mais cedo possível. O inglês pareceu reflectir por um instante. Olhou os despojos deploráveis do doente, que tinha o rosto sacudido por espasmos dolorosos e as mãos trémulas. Uma carcaça emagrecida com um acre odor de suor, urina e outros humores que o calor da tenda tornava insuportáveis.
Filipe ergueu a mão febril, pôs o indicador no peito do soberano, gigante e maciço. Em seguida, sussurrou: vá, Ricardo... Leve seu coração de leão até Jerusalém. Controlando a repugnância, o inglês se obrigou a pôr a mão amigável na testa ardente do doente e respondeu: que seja. Ao beijar o solo, terei um pensamento afectuoso para você. Rezarei para o seu restabelecimento. E porei tanto ardor nas minhas súplicas que, aposto, em pouco tempo estará novamente de pé. Tenho a certeza, balbuciou Filipe. Agora, tenha a bondade de me deixar a sós com o cavaleiro Renaud. O senhor também, abade, saia um instante... O eclesiástico saiu da banqueta e, continuando a murmurar alguma litania em latim, retirou-se deixando o rei Ricardo sair na frente. Este lançou um olhar distraído aos dois fiéis amigos de Filipe, os cavaleiros Benoit e Henri, que mal o saudaram, preocupados que estavam com a doença de seu mestre. Com um terrível esforço, Filipe tentou sentar-se no leito. Renaud acorreu para ajudá-lo e lhe ajeitar as costas com uma almofada.
A minha doença não está ligada ao que fizemos na Torre maldita?, perguntou o rei. Não violaámos um santuário? O templário tranquilizou-o: fui eu quem pegou os rolos e não sofri nenhum sortilégio! Repito, Sire, fostes atingido por uma forte e maldita doença do suor, que o vosso organismo fragilizado pela tristeza não pôde evitar. Certamente, precisareis de tempo para recuperar vossas forças, mas o tratamento que administro poderá vencer essa febre. Enquanto isso, Ricardo vai colher os louros da tomada de Jerusalém. A Cidade Santa não passa de um odre vazio. Eu já disse, Sire, vamos deixar Ricardo com os seus sonhos de conquista e de hegemonia. Vamos deixá-lo atolar na areia. Enquanto ele permanecer aqui, não ficará de olho no vosso reino. O que há de tão importante nos pergaminhos que viemos buscar? Sabereis em breve. Os Templários entregarão os rolos a dois escribas, Agnano e Nicolau de Pádua, da abadia de Orbigny, clérigos que saberão traduzi-los para o latim. São dois homens sábios, embora sejam pervertidos e sodomitas. Dizem-se irmãos, mas não passam de homossexuais. Filipe foi tomado por um súbito acesso de tosse. Renaud imediatamente lhe serviu uma taça de água com mel diluído. Assim que deu um gole, o monarca recomeçou a tossir ainda mais forte, o peito entrecortado por convulsões violentas. Um jacto de sangue acre e negro jorrou da sua boca e manchou a túnica branca do templário.
O rei se dobrou, com uma espuma avermelhada nas comissuras dos lábios e os olhos revirados. Henri! Benoit! Ajudem, rápido!, gritou o templário. Imediatamente, os dois cavaleiros correram para o interior da tenda. Ao verem o estado de Filipe, ambos soltaram gritos e blasfêmias. Renaud havia deitado novamente o doente e limpava os lábios dele com um pano húmido. Se eu devo morrer, articulou o rei, com dificuldade, que seja na França..., ao lado do meu filho. Vamos apressar a partida! Não morrereis, respondeu Renaud. Vossa hora ainda não chegou. Não morrereis, meu irmão! Os cavaleiros Henri e Benoit se interrogaram com o olhar. Haviam escutado muito bem: o templário chamara o rei de irmão!

O Duplo Assassinato
De volta à França, a saúde do rei Filipe se estabilizou e, depois de algumas semanas, uma melhora notável tranquilizou as pessoas mais próximas. Os cavaleiros Henri e Benoit andavam de um lado para o outro em frente à porta do quarto do doente, incansáveis, controlando com dificuldade a impaciência e manifestando um mau humor que, na realidade, não era mais do que preocupação. Faz mais de um mês que Filipe não sai do quarto, reclamou um deles. O templário Renaud o obrigou a aceitar um médico que lhe administra drogas desconhecidas e remédios misteriosos, prometendo uma panaceia mágica, destacou o outro». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O Triângulo Secreto. Didier Convard. « Vamos sair deste túmulo. Podeis ir na frente, agora? Meus braços estão ocupados com este pacote colado ao meu peito. Naturalmente, você é o soldado que leva a carga, é isso?»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
Os Três Rolos
«(…) Não passo de um modesto peão, Majestade. Um peão no tabuleiro em que reinais. Não precisais vos sobrecarregar com essas pesadas cargas, pois alguns de nós as carregamos por vós. No xadrez, o peão tem de se sacrificar para preservar o rei. E o soldado quem carrega a bagagem, Sire... O soldado! Não o soberano. A lâmina de Renaud desfez todo o cimento que mantinha a pedra na parede. O templário pôde enfiar os dedos nos interstícios e tirar a pedra do lugar em que estava alojada. Afastai-vos, Sire... A pedra caiu no solo lamacento que salpicou as pernas do rei. Renaud mergulhou o braço no buraco que havia feito. Tirou um primeiro rolo de couro costurado com pontos grandes. Eis um deles, murmurou, enfiando novamente o braço e, depois, inclinando-se, revistou o cofre escuro, com repentina agitação. Iluminai-me, Filipe! O rei se inclinou, esticou o braço que segurava a tocha, tentou ver pela abertura da parede. E então?, impacientou-se o soberano. Peguei-os... Sim, eis os outros dois! Nos estojos de couro; sem dúvida, não sofreram com o tempo. Não quer certificar-se?, propôs Filipe. Não é hora nem lugar, Majestade. Seria correr um grande risco retirar esses pergaminhos dos estojos. Devemos fazê-lo conforme as regras, quando retornarmos à França. Conheço quem tem mãos peritas que saberão tratá-los com cuidado.
O rei Filipe não escondeu a decepção: pelo amor de Deus, ter percorrido todo esse caminho e matado essas pobres pessoas para voltar sem ter visto o que contêm estes rolos! Imaginemos que eu morra dessa doença do suor... Não morrereis, Sire. Eu vos disse, nós vos curaremos. Vamos sair deste túmulo. Podeis ir na frente, agora? Meus braços estão ocupados com este pacote colado ao meu peito. Naturalmente, você é o soldado que leva a carga, é isso? E vós sois o meu rei que, agora, segura a luz, Filipe. Isso não é uma parábola que, supostamente, deveria me ensinar? Renaud não respondeu. Limitou-se a sorrir interiormente, apertando contra si os três rolos que havia escondido por baixo da túnica. Ele pensou no homem que encheu os pergaminhos com a sua escrita. Dirigiu a ele uma oração de gratidão, como a um irmão mais velho.

A Doença de Filipe
Durante toda a semana seguinte, o rei Filipe permaneceu na tenda cujas abas de tecido foram cuidadosamente abaixadas; ali, a sombra lutava contra o calor húmido. Os cavaleiros Benoit e Henri guardavam a entrada como simples escudeiros. Ao longo do dia, ficavam sentados no chão e quase não conversavam; à noite, enrolavam-se em grossas cobertas e mal dormiam. Cães fiéis, amigos devotados, sofriam por saber que o mestre estava muito doente, espreitando o menor estertor, todo o tempo questionando Renaud, que administrava a medicação de manhã, à tarde e à noite, auxiliado pelo boticário e por um abade.
O rei Ricardo ficou preocupado com a saúde do monarca francês. No fim da semana, Renaud foi pessoalmente ao acampamento dele dar as informações. Pois bem, me traz boas notícias? Não, Sire! Meu rei emagreceu, perdeu o cabelo e as unhas, bem como o olho direito. Além disso, a pele dele está rachando. Dá muita pena vê-lo nesse estado! Ricardo pareceu sinceramente contrariado. Renaud acrescentou: confesso a minha impotência diante dessa doença e só posso amenizar os sofrimentos com a ajuda de drogas que o fazem adormecer mais do que o curam. Ele fica mais fraco de hora em hora. Às vezes, até delira e fala da defunta esposa e dos gémeos mortos. Se compreendi bem, cavaleiro Renaud, você veio preparar-me... Percebi as suas intenções: ele vai me pedir permissão para voltar para a França? Concordando com um movimento de cabeça, Renaud reforçou: seria, de facto, a melhor decisão a tomar, Sire. Ricardo saiu impetuosamente da tenda. Quero ver por mim mesmo o estado dele. Renaud e o rei Ricardo atravessaram o acampamento em grandes passadas, pulando os corpos dos cruzados que descansavam esticados no chão, entorpecidos pelo calor, esgotados pela recente batalha e pela comida que se seguiu». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «É aqui, bradou ele, de repente, mostrando um pedregulho com a imagem de um peixe. Agora o animal tem uma cruz em cima. Quem fez essas marcas, Renaud? E quando?»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
Os Três Rolos
«(…) Eis o torreão chamado Torre maldita, Sire. O caminho está livre. Vamos rápido... Estou cansado e o meu sangue está quente. Sem dúvida, é a doença do suor. Não é raro apanhar essa febre nessas regiões. Filipe e o templário entraram na escura construção por uma passagem ou porta disfarçada numa fortificação ou praça de guerra. Renaud virou-se para o rei. Estendeu-lhe a mão. Sinceramente, é verdade, estais ardendo! A noite ecoava lamentos e prantos longínquos, encobertos pelos risos dos cruzados embriagados e gritos das mulheres violadas. O templário abriu caminho com a ajuda da tocha e deu a mão ao rei para ajudá-lo a descer uma escada estreita de degraus desconjuntados, que se embrenhava na humidade e no odor de mofo. Em baixo da escada, apareceu um corredor, uma galeria apertada com chão de terra batida, na qual só se podia entrar abaixado. Cuidado, Sire, o tecto está cada vez mais baixo. Vamos dar uns vinte passos assim e, depois, escolher uma passagem entre outras três.
Como saberá qual dos caminhos deveremos seguir, cavaleiro? Vede, respondeu Renaud, sorrindo e indicando com a tocha um motivo gravado na parede. Um peixe estilizado, traçado grosseiramente com uma lâmina. Este era o sinal de reconhecimento dos primeiros cristãos, observou o rei. É verdade, Sire. Esses peixes nos guiarão até à cripta, onde encontraremos o que viemos buscar. Aos meus olhos, tudo isso tem um quê de prodígio! Não, Majestade! Não, não se trata de magia; os agentes do Templo informaram os comandos em todo o mundo. Sabeis que fazemos uma certa investigação há muito tempo. A Tradição preservou as informações relativas a este local ao longo dos séculos. É esse tipo de segredo que os irmãos Primeiros transmitem entre si nas assembleias?, perguntou Filipe. É, Sire. Uma memória oral que tomamos o cuidado de legar, sem nunca traí-la.
O rei e o templário chegaram à bifurcação indicada por este último. Graças ao motivo gravado na pedra, os dois visitantes podiam seguir confiantes por uma das estreitas passagens. Eles avançaram por longos minutos, curvados, raspando os ombros nas paredes estreitas, as botas patinhando na lama. Finalmente, saíram numa cripta minúscula, escavada com grandes golpes de picareta numa rocha toscamente consolidada com pedregulhos talhados às pressas. Chegamos, suspirou o templário, erguendo-se e soltando a mão do rei, que ele havia puxado como uma criança amedrontada. Por sua vez, Filipe esticou-se, queixando-se das costas. Vós vos entregastes como um diabo durante as lutas, observou o templário. Girastes a vossa espada como teríeis feito com um mangual nos trigos. É verdade que eu ceifava, precisou Filipe. Quebrei cabeças! Cortei braços! E transpassei alguns dorsos! Renaud varria as paredes com a tocha.
É aqui, bradou ele, de repente, mostrando um pedregulho com a imagem de um peixe. Agora o animal tem uma cruz em cima. Quem fez essas marcas, Renaud? E quando? Sabeis muito bem, Filipe. Um homem sábio, há doze séculos. Tomai, pegai a tocha e a segurai no alto para mim. Renaud tirou a adaga da bainha e começou a soltar a pedra. Ele arranhava o cimento de arenito para reduzi-lo a poeira. O trabalho era demorado, e o rei estava impaciente; a febre lhe queimava a carne e lhe gelava os ossos. Paciência, meu rei, disse Renaud, com voz suave. Assim que voltarmos ao acampamento, mandarei chamar o boticário e indicarei alguns remédios que melhorarão o vosso sangue. Também é versado em medicina, cavaleiro? Que conhecimento lhe falta? Continuando o trabalho, Renaud respondeu sorrindo: eu pratico matemática, retórica, filosofia, e me esforço para desenvolver as virtudes teologais: fé, esperança e caridade... Tenho a pretensão de conhecer as estrelas principais e o curso delas... Na verdade, essas são algumas das minhas qualidades, além do manejo da espada e de dois ou três rituais de magia, que realizo longe dos homens da Igreja. Ah, estava-me esquecendo... O quê?, disse o rei, deliciado. Leio e falo fluentemente uma boa dezena de idiomas, bem como várias línguas regionais e dialectos. Filipe soltou um suspiro: eu sinto-me bem idiota ao seu lado e temo não ter vida suficiente para adquirir uma centésima parte do seu conhecimento». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «Muito feio, realmente, enfatizou Renaud. Seja uma causa justa ou uma fraude, matar é uma tarefa horrível, pois mexe com instintos terríveis»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
Os Templários
«(…) Por certo, reforçou Filipe. Um a leste e outro ao sul. Estudamos as muralhas. Acredito ser mais fácil tomar, prioritariamente, esses dois sectores. Filipe designou as muralhas da cidade de Acre. Apontou, um por um, todos os lugares da fortaleza que pareciam mais vulneráveis e mais baixos do que o resto dos muros. Olhe, Ricardo... As muralhas são menos espessas aqui e ali. Concentraremos as nossas forças nesses dois pontos fracos. A Malvoisine nos abrirá uma passagem, ao bombardear a fortificação com grandes pedras. Eis um plano que me convém; ele tem o mérito de ser simples. A guerra nunca deveria ser complicada. Quem é corajoso e forte deve vencer; é evidente. Um fraco astucioso também pode derrubar um rival de peso, Ricardo! O inglês caiu na gargalhada e, dando um forte pancada no aliado, disse: isso é política, Filipe! Cada coisa a seu tempo... Amanhã, faremos um massacre. Vamos guerrear. Uma rude e bela tarefa para a glória de Deus.
A semana seguinte foi de violências. Foram necessários diversos ataques para tomar São João de Acre. Para que os cadáveres juncassem as ruelas onde corriam riachos de sangue. Para que, depois de invadir a cidadela estripada à frente das suas tropas, o rei Filipe emergisse de um pesadelo e, febril, avaliasse a extensão da carnificina. Para que o odor repugnante da morte embrulhasse o estômago dos vivos a ponto de fazê-los vomitar. Para que fossem arrastados grupos de prisioneiros, com as mãos na cabeça, apavorados; fantasmas idiotas que não compreendiam as injúrias e os escárnios dos vencedores. Para que os franceses erguessem o estandarte dos cruzados sobre uma pilha de corpos emaranhados, enlaçados numa morte obscena, semi-nus, dilacerados, despedaçados, sujos... Todo este sangue..., murmurou o rei Filipe. É por Cristo, Sire!, confortou o cavaleiro Henri.
Cristo?, repetiu Filipe, preparando-se para prosseguir, mas contendo-se ao ver o templário Renaud vir na sua direcção, pulando os cadáveres ensanguentados. A espada do cavaleiro estava vermelha até ao guarda-mão. O homem parecia exausto. Com o capuz caído, podiam-se ver seus olhos ardendo como numa febre. Renaud sentou-se aos pés do rei e soltou um longo suspiro antes de dizer: matar é tremendamente cansativo, Sire. Se bem que rapidamente nos acostumamos e quase chegamos a apreciar o hábito; a espada fica mais leve a cada homem trucidado. Não sabia que isso era tão ignóbil, disse o rei. Tão feio... Muito feio, realmente, enfatizou Renaud. Seja uma causa justa ou uma fraude, matar é uma tarefa horrível, pois mexe com instintos terríveis que possuímos e que achávamos estar para sempre adormecidos. Uma tarefa bestial, suspirou o rei, desviando-se do espectáculo dos corpos inertes, alguns imobilizados em poses grotescas, dos cruzados feridos estendidos em maças, entre choros, apelos e lamentos. Filipe desceu em direcção ao acampamento. Atravessou as ruínas da muralha que a Malvoisine reduzira a migalhas. Viu Ricardo Coração de Leão bebendo com alguns dos seus companheiros e recusou o convite para se juntar a eles.
Filipe tremia. As suas carnes e os seus ossos tremiam, como se atacados por um frio intenso. Uma certa mão pousou no seu ombro. Uma presença firme que o tranquilizou e o aqueceu. Uma voz grave que lhe disse: partiremos assim que cair a noite, Sire. Quando os homens estiverem comendo. Está bem, cavaleiro Renaud. Iremos buscar os três rolos de pergaminho. Agora, sei o preço pago por eles... Todo este sangue derramado. Mais ainda, Sire. Muito mais! Isto não é nada e não pagaria nem a primeira letra do manuscrito. Os dois homens prosseguiram juntos. O templário deixou a mão no ombro do soberano, que não conseguia andar sem vacilar». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «De facto, foi um suserano vaidoso, cheio de arrogância e altivez que ergueu o jovem rei da França nos braços e o apertou contra o peito num ingénuo e viril abraço»

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As Lágrimas do Papa
Os Templários
«(…) Então, a minha missão consistirá somente em desempenhar esse único papel?, surpreendeu-se Filipe. Devo apenas trazer os pergaminhos? Renaud prosseguiu: isso é da maior importância, Sire. Como já dissemos, esses textos são a pedra angular do indizível Segredo. Não podemos correr o risco de que sejam descobertos por outros... Isso porque não somos os únicos a procurá-los! A voz lenta acrescentou: São João de Acre deve cair. Sereis o artesão dessa queda e entrareis na cidade para ser o primeiro a examinar as fundações da Torre Maldita. Pela nossa Tradição, sabemos onde explorar...
Depois de um tempo, Filipe disse: está bem. Agirei pela causa da Loja Primeira, se bem que ainda duvide da veracidade da sua proposta. Isso não basta para que deixem de confiar em mim? Não, Sire, murmurou Renaud. Tendes toda a nossa confiança e aceitamos as vossas dúvidas, que são bem naturais. O ensino religioso que recebestes está sendo questionado. Somos muito poucos a conhecer a verdade... O rei Filipe virou-se para o cavaleiro Renaud, cuja parte inferior do rosto aparecia sob a sombra do capuz. Uma boca pequena, uma negra barba fina. Um sorriso amigável, fraternal. Justamente essa verdade, articulou o rei, essa verdade queima-me a alma, tanto quanto a dor de haver perdido a minha esposa e os gémeos. Uma verdade bem incómoda! A voz lenta e suave concluiu: vamos suspender os trabalhos, meus irmãos.
Os templários ergueram e baixaram por três vezes a corrente de braços antes de rompê-la. Em seguida, o cavaleiro Renaud pôs a mão no ombro de Filipe. Vinde, Sire. Vamos subir. Assim havia sido todas as vezes. O rei era acompanhado pelo guia. A escada em caracol a ser subida, a sala escura a ser percorrida em sentido inverso... E o reencontro com Henri e Benoit. Nenhuma palavra trocada entre os três homens. Um cumprimento de cabeça de Renaud antes de fechar, atrás do rei, a porta de carvalho maciço. A chuva havia cessado. Uma claridade prateada envolvia as telhas dos telhados. A luz... Filipe ergueu os olhos para o céu leitoso e inspirou profundamente o ar. Pensava no Segredo. Pensava no que os templários lhe haviam dito no mês anterior. Pensava na morte de Isabel, na dos gémeos, e temia ter sido amaldiçoado.
Esta luz, suspirou ele, para surpresa dos dois amigos. Como é bela! Ela me transporta, como uma fervorosa oração... Mas Filipe se absteve de confessar que não rezava desde que ficara sabendo... Desde que os templários o haviam recebido no seio da Loja Primeira para lhe contar que a Igreja construíra o seu império sobre uma fraude. Sobre a mais aterradora das mentiras!

O Massacre
O rei Filipe e o seu exército chegaram às muralhas de São João de Acre em 20 de Abril de 1191. O soberano estava acompanhado dos dois amigos, os cavaleiros Henri e Benoit, bem como do templário Renaud. Filipe foi recebido pelo bispo de Beauvais, Filipe de Dreux, e pelos condes de Flandres. Ah, meu primo, exclamou o bispo, já havíamos perdido as esperanças de ter-vos ao nosso lado. Só estávamos aguardando-vos e ao rei Ricardo para derrubar essa fortaleza. E Frederico? Barba-Roxa ainda não se reuniu a vós?, indagou o rei. O imperador afogou-se nas águas do Cidnos e os seus cruzados não têm mais coragem para lutar. Quase todos se fizeram ao largo depois disso, respondeu Filipe de Dreux. Que aborrecimento!, disse o rei. Teremos de contar com as forças do orgulhoso Ricardo. Mas trouxe comigo engenhosos marceneiros que construirão balistas e manganelas.
Filipe instalou imediatamente o seu acampamento e os seus arquitectos puseram mãos à obra para construir os engenhos de guerra. Os operários transportavam vigas, roldanas e cordas. Os ferreiros construíram grandes fornos de barro para fabricar as protecções com as quais seriam revestidas as torres do ataque. No dia 7 de Junho, o rei Filipe foi avisado do desembarque do rei Ricardo. Pelo visto, anunciou o templário Renaud, ele está impaciente para se engalfinhar com os defensores de São João de Acre. Não me surpreende, observou Filipe. O seu desejo de glória é maior do que a fé.
De facto, foi um suserano vaidoso, cheio de arrogância e altivez que ergueu o jovem rei da França nos braços e o apertou contra o peito num ingénuo e viril abraço. Filipe! O augusto e sério Filipe! Um abraço! Coração de Leão, demorou-se pelo caminho. Atacantes e sitiados começam a passar necessidades. Ricardo pegou o braço de Filipe e se convidou para visitar o acampamento imediatamente. O inglês viu os engenhos de guerra que os franceses haviam feito e reconheceu, de bom grado, a qualidade das obras. Ficou maravilhado, acima de tudo, diante de uma catapulta, a Malvoisine, e de uma torre tão alta quanto as muralhas da cidade. Uma torre de quatro andares, feita de madeira, chumbo e ferro. Seus homens realizaram um belo trabalho. Vamos atacar a fortaleza e assaltá-la juntos». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «A porta foi aberta. Filipe e o cavaleiro entraram numa cripta onde estava reunida uma assembleia de dez templários em túnicas brancas. Todos mantinham o capuz na cabeça»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
Os Templários
«(…) Não deveis dizer tal coisa. Com o tempo, a vida voltará a fazer as suas exigências. Passareis pelo luto e a paz vos será devolvida. Havia cinco degraus para subir antes de se chegar ao patamar da entrada. Uma alta porta de carvalho, sólida e maciça, foi aberta pelo templário com uma chave comprida, a qual tirou de sob a túnica. Uma sala escura de janelas fechadas. Um odor de mofo. Um cheiro adocicado de madeira carunchada. Esperem por mim aqui, disse o rei aos dois cavaleiros. Filipe desapareceu na escuridão, ao lado do templário que lhe deu a mão para conduzi-lo. Sire, disse o templário, já que está na hora e que temos a idade, vamos abrir os nossos trabalhos. Eu o acompanho, Renaud.
A escuridão era um dos elementos do ritual; Filipe compreendera isso desde a primeira vez, na sua iniciação. Portanto, confiou no templário que, de mãos dadas com ele, o ajudou afectuosamente a andar em passos lentos. O rei já havia estado ali por quatro vezes. Lembrava-se da distância a ser percorrida para se chegar a uma porta que o templário se limitou a empurrar para abrir. E também da escada em caracol que devia descer com cuidado. E do subsolo lamacento... E de mais uma porta na qual o rei precisou bater três vezes para que, atrás dela, uma voz perguntasse: quem bate à entrada do Templo? E o cavaleiro respondeu: é o rei Filipe sob a minha guarda e apadrinhamento, que espera ser recebido por seus irmãos da Loja Primeira. A voz ordenou: que ele entre!
A porta foi aberta. Filipe e o cavaleiro entraram numa cripta onde estava reunida uma assembleia de dez templários em túnicas brancas. Todos mantinham o capuz na cabeça. Três colunas suportavam a curva da abóbada feita de pedras volumosas. No piso de grandes lajotas havia sido desenhado um tabuleiro de quadrados pretos e brancos. Três candelabros iluminavam o local com as suas chamas curtas que um fraco filete de ar, às vezes, inclinava. Assim que o rei entrou, os templários deram as mãos formando uma corrente, à qual Filipe e o cavaleiro Renaud imediatamente se integraram.
Bem-vindo à nossa corrente, Filipe!, disse um templário. Amanhã, em Saint-Denis, o vigário vos entregará o estandarte com a cruz de ouro. Pelo Santo Cravo e pelo Santo Espinho, sereis cruzado. E me tornarei soldado da Igreja para ir a Jerusalém, completou Filipe. Deixai Jerusalém para Ricardo e Barba-Roxa. Não deveis ir tão longe, lançai outro templário na corrente. Filipe reagiu: deixá-los libertar sozinhos o Santo Sepulcro? Onde estaria a honra da minha cruzada? Com voz doce, fraseado lento e sereno, um templário ergueu a voz: já é tempo de vos instruirmos sobre um grande segredo, Sire. Um segredo que até o papa Clemente deve ignorar. Ainda nos concedeis a graça de acreditar em nós? Sempre consenti em escutá-los. A prudência e a inteligência dos seus conselhos me pouparam muitos infortúnios, admitiu o rei.
Trata-se de um Evangelho escrito em três rolos de pergaminho. A peça central do mistério de que vos falamos na reunião anterior, explicou a voz suave. Um quinto Evangelho? Nenhum texto faz menção a ele. Não se trata de uma heresia que estão considerando como palavra verdadeira?, estranhou o monarca. Não, Sire, precisou a voz tranquila. Ele existe, de facto. Ao menos, uma cópia feita pela mão de quem o redigiu. Então, Renaud tomou a palavra: os rolos estão em São João de Acre. Num subterrâneo, sob uma construção denominada a Torre maldita. O autor desse quinto Evangelho depositou o seu tesouro no fundo de uma gruta antes de pôr-se ao mar... Eu vos acompanharei à Terra Santa e vos guiarei». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Os Cinco Templários de Jesus. Didier Convard. «O eco do juramento mal se havia dissipado quando Payns se virou rapidamente. Vocês não ouviram? Há alguém atrás da porta! Ele atravessou a cabine desembainhando a espada»

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Os cinco cavaleiros
«(…) Geoffroy fechou os olhos. Payns apertou-lhe a testa com os dedos finos e disse: era assim que a minha irmã mais velha fazia... Ela punha os dedos na minha testa quando eu sentia o estômago pesado. Depois, descia os dedos ao longo do meu rosto, do pescoço, do peito até ao meu abdómen. Enquanto falava, Payns repetia os gestos da irmã tão amada e morta muito jovem. Clotilde... A embarcação gemia em toda a borda; era o único barulho que enchia a sala dos oficiais. Payns apertou o estômago do amigo e massajou-o lentamente, descrevendo pequenos círculos. Em seguida, começou a murmurar algumas frases que ninguém entendeu, pois eram ditas em voz baixa. Eram frases escandidas numa melopeia gutural e os cavaleiros pensaram que pertenciam a uma língua que lhes era desconhecida. Abra os olhos, ordenou Payns a Geoffroy. Com os diabos, o que fez? Estou nitidamente melhor... Pôs a minha barriga no lugar? Você é um verdadeiro feiticeiro, Payns. Não sinto mais o horrível gosto de bílis na goela, nem a cólica que me repuxava a pança! Payns forçou um sorriso. O seu rosto sério crispou-se, mas de maneira tão intensa que parecia uma miragem. Podemos começar, Hugues, disse ele. O conde tirou uma caixa de madeira ferrada nos cantos, com uma fechadura grosseira, e pôs o objecto no altar improvisado. Os cavaleiros formaram um semicírculo na cabine transformada em larário, iluminada apenas pelas três velas e por uma lanterna colocada na parte inferior da porta.
Vamos unir-nos, irmãos, enunciou o conde Hugues com solenidade, pondo as mãos sobre a caixa. Já que está na hora e que temos a idade, vamos abrir os nossos trabalhos... Os outros quatro cavaleiros levaram a mão direita ao peito, a palma sobre o coração, e inclinaram a cabeça enquanto Payns acrescentava: à glória do Primeiro. Pela luz da sua Palavra. Que I.N.R.I. nos ilumine! Hugues preparou-se para abrir a caixa, enfiando uma chave na fechadura. Os cavaleiros deixaram a mão direita cair ao longo do corpo. Com a tampa da caixa aberta, Hugues pronunciou as palavras: Igne Natura Renovatur Integra. Imediatamente, Payns acrescentou: Pelo Triângulo, pelo Hexagrama, pelo Ómega, pela Cruz e pelo Tau... Chegou a hora de prestar juramento e fazer aliança com a Tradição, disse Hugues. Estão prontos, irmãos? Comprometem-se a dar a vida pela Obra? Os cavaleiros responderam a uma só voz: Nós nos comprometemos!
A caixa continha cinco anéis num estojo de veludo, todos eles enfeitados com uma pedra vermelha. Meticulosamente, com gestos cheios de seriedade, o conde de Champagne pôs, um a um, os anéis em cima do lençol branco. As chamas das velas avivaram subitamente o brilho das pedras. Uma vez que assim é, disse Hugues, vamos pôr os anéis nos dedos e pronunciar o juramento... Ritualmente, em silêncio, ele distribuiu quatro dos anéis para os amigos e colocou o quinto no próprio anular. Em seguida, todos os homens elevaram o braço direito esticado na direcção dos três candelabros. Eu, Hugues de Champagne... Eu, Hugues de Payns... Eu, Basile le Harnais... Eu, Arcis de Brienne... Eu, Geoffroy de Saint-Omer... Um intervalo. O conde olhou os amigos um por um com uma terna amizade e disse: Juro solenemente preservar o Segredo do Filho da Luz e impedir que qualquer pessoa se apodere dele para deturpá-lo em benefício de intenções funestas... Juro combater os adversários da Tradição. E, se assim deve ser, renascer da morte para expulsar eternamente os meus inimigos por todos os séculos. Eu juro! Quatro vozes em conjunto repetiram: Eu juro!
O eco do juramento mal se havia dissipado quando Payns se virou rapidamente. Vocês não ouviram? Há alguém atrás da porta! Ele atravessou a cabine desembainhando a espada e abriu a porta na sombra da coxia, na qual mergulhou como um animal selvagem. Atrás dele, Arcis, que havia pegado a lanterna para iluminá-lo, surpreendeu-se: Tem certeza? Talvez fosse apenas um rato, um dos tantos que fervilham nos porões! Mas Payns teve tempo de ver a ponta de uma capa desaparecendo na escada que conduzia ao convés. Uma forma vaga, parecida com uma asa negra. Um rato gordo, no caso!, escarneceu ele, subindo os degraus de quatro em quatro. O convés. A noite se estendia, espessa. Somente uma luz saía do castelo de proa. Ora, disse Arcis, sem fôlego, não há ninguém. Viu-o na escada, não viu? Uma capa preta... Não, não vi nada. Estávamos muito emocionados e, sem dúvida, a sua imaginação lhe pregou uma partida. Não temos dormido bem, estamos pouco acostumados a viver num navio que dança demais para o nosso gosto. No entanto, continuou Payns, estou convencido de haver escutado. As botas nos degraus de madeira... De uma amurada à outra, nada se mexia. Contrariado, Payns embainhou a espada. Arcis pegou no seu punho e tranquilizou-o: chegaremos rapidamente a Ascalão e logo estaremos em Jerusalém para cumprir prontamente a nossa missão». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, Os Cinco Templários de Jesus, 2006, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-663-7.
                                                        
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Os Cinco Templários de Jesus. Didier Convard. «Geoffroy soltou um gemido de gato e, querendo provar que coragem era o que não lhe faltava, ergueu-se do banco para tentar manter uma posição vertical e digna…»

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Os cinco cavaleiros
«(…) Noite.
Uma nau enorme de ventre pesado e borda lisa, exibindo os seus estandartes marcados por uma cruz, com as suas seis velas quadradas infladas pelo melhor dos ventos, singrava em boa velocidade o mar agitado, fendendo as ondas e cortando-as de frente. Nos seus ovéns, balançavam algumas lanternas com halos amarelos, vaga-lumes frágeis dançando entre o céu e o mar como estrelas baixas. Geoffroy de Saint-Omer deixou o convés onde havia vomitado. Descendo com dificuldade os poucos degraus que levavam à coxia de paredes muito inclinadas, ele enxugava a boca com uma ponta da capa. Estava furioso, com a tez verde e olhos revirados. Onda, balanço, oscilação... Como se pode suportar um tratamento desses sem vomitar as tripas? O homem havia passado dos trinta há pouco tempo, mas uma sólida barriga enchia a sua camisa. De estatura média, parecia um urso. Ombros sólidos, mãos fortes, um pescoço grosso. Tinha olhos pequenos e rasgados, nariz acentuado que uma antiga rixa havia quebrado, cabelos castanhos jogados para trás. O chão parecia lhe fugir a cada passo. Praguejava o tempo todo, procurando recuperar o equilíbrio, batendo os braços em gestos grotescos. Você é ridículo, Geoffroy!, disse uma voz. Uma porta havia sido aberta, e Basile le Harnais, segurando uma lanterna na mão direita, não conseguiu deixar de rir diante do espectáculo oferecido pelo amigo. Ridículo?, respondeu Geoffroy. Então é assim que eu vou morrer! Tive de esvaziar o estômago por cima da amurada. Se eu continuar com esse regime, em breve serei só pele e osso. Meu pobre amigo; você não parou de vomitar a sua bile no mar desde que subimos neste navio. Basile aproximou-se e pegou o braço do doente, acrescentando: só estamos esperando por si! O conde está impaciente. Com os diabos, o que fazem para não ter enjoos? Sem dúvida, escolhemos uma comida leve que não pesa no estômago. Eu aconselhei-o mil vezes a só tomar sopa, um bom caldo de legumes. Está vendo o que acontece ao empanturrar-se de toucinho e de peixes encharcados de salmoura? Sem contar as canecas de hidromel que toma de manhã à noite! Sábio Basile e os seus sensatos conselhos!
Basile le Harnais tinha dificuldade em sustentar Geoffroy, embora fosse forte e seco como um pau velho. De cabelos ralos, barba grisalha, rosto comprido como uma lâmina, tinha marcas de uma febre malsã na pele enrugada, apesar dos trinta e nove anos. Depois de muito esforço, os dois cavaleiros conseguiram, enfim, entrar na sala dos oficiais, onde eram aguardados por Hugues de Champagne, Payns e Arcis de Brienne. Arcis estava ocupado em estender cuidadosamente um pano branco em cima de uma arca de madeira, ornamentando-a com três pequenos candelabros, cada um deles com uma vela acesa, feita de sebo de boi. Assim que Basile fechou a porta, o conde lhe perguntou: certificou-se de que não havia ninguém na coxia? A maior parte dos peregrinos está dormindo e os marinheiros de vigia fazem manobras, tranquilizou-o Basile, enquanto Geoffroy se jogava num banco que estalou a ponto de se quebrar.
O conde tinha vinte e sete anos. Era alto, de constituição forte, rosto quadrado e jovial iluminado por um olhar claro e muito alegre. Antes de partir, havia raspado os cabelos; uma penugem loura crescia como uma escova na sua cabeça. Virando-se para Payns, ele propôs: vamos começar, irmão? Payns não respondeu imediatamente. Dirigiu o olhar para Geoffroy e assentiu, com uma expressão reprovadora lhe repuxando os lábios finos. Se o nosso doente conseguir manter-se de pé, poderemos proceder à cerimónia, reprovou ele.
Geoffroy soltou um gemido de gato e, querendo provar que coragem era o que não lhe faltava, ergueu-se do banco para tentar manter uma posição vertical e digna, a despeito dos movimentos contrariantes do navio. Payns aproximou-se, pôs a mão na testa dele e constatou: está fervendo. No entanto, disse Geoffroy, sinto o frio correr nas veias. Olhe, estou tremendo! Feche os olhos por um instante, recomendou Payns, com uma voz subitamente doce e grave. Feche os olhos como se fosse dormir! Os três outros cavaleiros calaram-se para observar a cena. Payns era alto, magro e musculoso. Todo o seu corpo mostrava uma vida saudável, rigorosamente constituída de exercícios físicos, meditação e jejum. Os seus olhos eram tão azuis, tão pálidos, que, às vezes, pareciam os de um morto. No entanto, tinha um olhar intenso, profundo, no qual ardiam chamas brancas e fugidias. Os cabelos espessos, cortados na altura da nuca, tinham reflexos dourados». In Didier Convard, O Triângulo Secreto, Os Cinco Templários de Jesus, 2006, Editora Bertrand Brasil, 2013, ISBN 978-852-861-663-7.
                                                        
Cortesia de EBertrandBrasil/JDACT

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

O Triângulo Secreto. Didier Convard. «E Filipe viu a silhueta do templário atravessar o pátio molhado por uma chuva recente. O homem parou e virou-se. Estranha presença, calma e serena»

Cortesia de wikipedia e jdact

As Lágrimas do Papa
A Morte de Isabel
«(…) Benoit especificou: firmes determinações e sábias regras devem ser instauradas, Sire. Um trono vago provoca vorazes comichões em alguns traseiros! Com o rosto enrugado e molhado, Filipe conseguiu esboçar um sorriso e confirmou: certamente, cuidarei para amordaçar os prebostes. A dor da minha tristeza já é um fardo pesado e não quero me sobrecarregar com preocupações políticas quando for para a Terra Santa.

Os Templários
A ampla sala vibrava com a multidão de prebostes, burgueses, bailios e altos dignitários. Muito pálido, Filipe estava sentado erecto no trono feito de madeira, ouro trabalhado e veludo. À direita, estava a sua mãe Adélia, então com quarenta anos, altaneira, empertigada, com o queixo pontudo. À esquerda, o tio Guilherme, arcebispo de Reims, gordo e flácido, parecia cochilar, mas o seu olho de águia brilhava de vez em quando sob as pesadas pálpebras. O rei Filipe ouvia o senescal ler o texto que ele havia escrito numa folha de velino. Filipe pensava em Isabel, que enterrara com os gémeos na semana anterior. E lágrimas vieram-lhe novamente aos olhos, ardentes e ácidas. O senescal balbuciou: em nome da santa e indivisível Trindade, pela graça de Deus, Filipe, rei dos franceses, ordena... Em seguida, o leitor pigarreou, recompôs-se e fez uma voz mais grave, como convinha nessas ocasiões. Ele prosseguiu: nossos bailios darão a cada prebostado quatro homens sábios e leais aos quais serão submetidas todas as questões das cidades. Eles formarão um conselho de direito e de sabedoria... A qualquer um que estiver hierarquicamente abaixo, fica proibido destituir um bailio, excepto em caso de homicídio, rapto ou evidente traição. Três relatórios serão dirigidos por ano ao rei Filipe.
Na multidão, um preboste gordo e rechonchudo virou-se para outro com ares de galo e sussurrou: Filipe é uma raposa! Ele está cortando-nos as asas... Isso cheira a inspiração templária, respondeu o segundo. Olhe, uma cruz vermelha vigia na sombra. Com um enérgico e desdenhoso movimento do queixo, o homem indicou um vulto imóvel perto de um pilar. De facto, uma forma humana se mantinha ligeiramente afastada, usando uma túnica branca estampada com uma cruz vermelha em cada ombro e outra no peito, o capuz inclinado sobre o rosto. Levantando-se e benzendo a assembleia, Filipe deu a entender que a conferência estava terminada. A minha vontade lhes foi entregue. Que ela seja palavra testamentária, assim seja. O gordo preboste, vermelho de raiva, resmungou: e eis que nos tornamos prebostes sem poder! Ao que o outro acrescentou: e, ao mesmo tempo, Filipe costurou o bico da rainha-mãe. O rei é hábil nas manobras. Na verdade, ninguém sabe quanto tempo ele ficará na Palestina. Mesmo assim, o espertalhão manterá o reino na palma da mão! A sala foi esvaziando-se lentamente. Adélia saiu da cadeira sem sequer lançar um olhar para o filho. O arcebispo Guilherme levantou-se com dificuldade.
Ao passar diante do sobrinho, disse: não cessarei de rezar por vós, Sire. Pedirei a Deus que vos dê conforto e coragem ao longo do vosso empreendimento na Terra Santa. Mas a voz bajuladora e melosa soou falsa. Filipe limitou-se a inclinar a cabeça para que o tio desenhasse o sinal da cruz na sua testa com o polegar. Em seguida, os dois homens se desafiaram com o olhar. Não havia nenhuma afeição no olhar do prelado. Somente frieza ou indiferença. Os cavaleiros Henri e Benoit cercaram o soberano e o ajudaram a colocar o manto. A sala já estava vazia. Eles a atravessaram e saíram num pequeno pátio quadrado. Ele vos aguarda, foi somente o que disse Henri. Está bem, respondeu o rei. E Filipe viu a silhueta do templário atravessar o pátio molhado por uma chuva recente. O homem parou e virou-se. Estranha presença, calma e serena. O vento brincou por um momento com a sua romeira branca. Filipe foi ao encontro dele. Henri e Benoit permaneceram ligeiramente recuados. Os quatro homens dirigiram-se às estrebarias. Em silêncio, subiram nas montadas e saíram do palácio como simples viajantes.
Filipe escondeu o rosto sob um capuz. Os peregrinos atravessaram a cidade sob a chuva que havia recomeçado, fria e cortante. Uma chuva cinza e triste, intermitente. Quando o rei Filipe desceu da sela, Benoit ficou preocupado: estais encharcado, Sire... Vedes como tremeis. Não é nada, garanto. Sabe muito bem que eu tremo assim desde a morte de Isabel. Não sei se isso me vai deixar algum dia...» In Didier Convard, O Triângulo Secreto, As Lágrimas do Papa, Editora Bertrand Brasil, 2012, ISBN 978-852-861-550-0.

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