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quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O Manuscrito. John Grisham. «Não ouviu nenhum, tal como Ahmed, que acedera facilmente aos sistemas de segurança da universidade. Mark tratou de desmontar os injectores de combustível»

jdact

O Assalto
«(…) Às nove horas da noite, numa terça-feira, Denny, Mark e Jerry estavam no interior da Biblioteca Firestone, fazendo-se passar por estudantes universitários e a olhar para o relógio. As falsas identificações de estudante tinham funcionado na perfeição; ninguém franzira sequer o sobrolho. Denny encontrou o seu esconderijo numa casa de banho das senhoras, no terceiro piso. Levantou um painel no tecto, por cima da sanita, atirou a mochila de estudante lá para cima e instalou-se aí para algumas horas de espera naquele espaço acanhado e quente. Mark arrombou a fechadura da central técnica na primeira cave e esperou pelos alarmes. Não ouviu nenhum, tal como Ahmed, que acedera facilmente aos sistemas de segurança da universidade. Mark tratou de desmontar os injectores de combustível do gerador de reserva da biblioteca. Jerry encontrou um lugar numa estação de estudo escondida entre filas de prateleiras empilhadas, cheias de livros em que ninguém mexia há décadas. Trey andava às voltas pelo campus, vestido como um estudante, carregando a sua mochila, à procura de locais para as suas bombas.
A biblioteca encerrava à meia-noite. Os quatro membros da equipa, assim como Ahmed na sua cave em Buffalo, tinham contacto via rádio. Denny, o cabecilha, anunciou às 00:15 que tudo estava a correr como planeado. Às 00:20, Trey, vestido de estudante e transportando uma mochila volumosa, entrou na residência universitária McCarren, no coração do campus. Viu as mesmas câmaras de vigilância que tinha visto na semana anterior. Utilizou a escada não vigiada para chegar ao segundo piso, entrou nuns lavabos mistos e fechou-se num dos compartimentos. Às 00:40, enfiou a mão na mochila e tirou uma lata mais ou menos do tamanho de uma garrafa de refrigerante de 50 centilitros. Montou um dispositivo de accionamento retardado e escondeu-a atrás da sanita. Saiu da casa de banho, subiu ao terceiro piso e pôs outra bomba numa cabina de duche vazia. Às 00:45, descobriu um corredor à média luz no segundo piso de um dormitório e atirou descontraidamente uma fiada de dez petardos Black Cat pelo corredor fora. Enquanto descia a escada, as explosões ecoaram no ar. Passados segundos, ambas as bombas de fumo explodiram, lançando densas nuvens de névoa acre para os corredores. Ao sair do edifício, Trey ouviu a primeira vaga de vozes em pânico. Escondeu-se atrás de uns arbustos perto do dormitório, tirou um telefone móvel descartável do bolso, ligou para o 112 de Princeton e deu a notícia assustadora: há um tipo com uma arma no segundo andar da McCarren. E está a disparar.
Saía fumo de uma janela no segundo andar. Jerry, sentado às escuras na estação de estudo, na biblioteca, fez um telefonema semelhante a partir do seu telefone móvel pré-pago. Os telefonemas não tardaram a chover, à medida que o pânico tomava conta do campus. Todas as universidades americanas têm planos cuidadosamente preparados para lidar com uma situação que envolva um atirador activo, mas ninguém os quer implementar. Ainda foram precisos alguns segundos de perplexidade até a funcionária responsável premir os botões certos, mas quando o fez as sirenes começaram a tocar. Todos os estudantes, professores, administradores e funcionários receberam uma mensagem e um alerta de e-mail. Todas as portas deviam ser fechadas e trancadas. Todos os edifícios deviam activar as medidas de segurança.
Jerrv fez outro telefonema para o 112 e comunicou que havia dois estudantes baleados. Havia rolos de fumo a sair de McCarren Hall. Trey largou outras três bombas de fumo em latas de lixo. Alguns estudantes correram por entre o fumo enquanto iam de edifício em edifício, sem saber exactamente onde encontrar um lugar seguro. A segurança do campus e a polícia da cidade de Princeton acorreram rapidamente ao local, seguidas de perto por meia dúzia de carros de bombeiros. A seguir, vieram as ambulâncias e depois chegou o primeiro de muitos carros de patrulha da polícia estadual de New Jersey». In John Grisham, O Manuscrito, 2017, Bertrand Editores, 2018, ISBN 978-972-253-544-1.
                                                                                       
Cortesia de BertrandE/JDACT

sábado, 4 de agosto de 2018

O Manuscrito. John Grisham. «Na vida real, chamava-se Mark e a sua ocupação, se é que se pode chamar assim, era ladrão profissional»

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O Assalto
«(…) O bibliotecário assistente foi-se imediatamente embora e Manchin ficou por ali durante todo o dia, a analisar os materiais retirados das gavetas de aço e a ler críticas antigas que não lhe interessavam absolutamente nada. Saiu dali por várias vezes, para investigar, observar, medir e memorizar.

Manchin regressou três semanas depois e, desta feita, já não fingiu ser professor. Tinha a barba feita, o cabelo pintado de um louro arruivado, usava óculos com armações vermelhas e ostentava um cartão de estudante falsificado, com uma fotografia. Se alguém perguntasse, coisa que seguramente não esperava, diria que era estudante universitário do Iowa. Na vida real, chamava-se Mark e a sua ocupação, se é que se pode chamar assim, era ladrão profissional. Assaltos milionários de craveira mundial e planeados com todo o cuidado, especializados em arte e artefactos raros que podiam ser revendidos às vítimas desesperadas a troco de um resgate. A sua quadrilha era composta por cinco pessoas e chefiada por Denny, um antigo Ranger do Exército que se tinha dedicado ao crime depois de ter sido expulso da vida militar. Até agora, Denny não tinha sido apanhado, e não tinha cadastro; o mesmo acontecia com Mark. No entanto, dois dos outros tinham.
Trey contava com duas condenações e outras tantas fugas, a última delas de uma prisão federal no Ohio, no ano anterior. Tinha sido aí que conhecera Jerry, um insignificante ladrão de arte, agora em liberdade condicional. Fora outro ladrão de arte, um antigo companheiro de cela a cumprir uma longa pena, que falara pela primeira vez a Jerry dos manuscritos de Fitzgerald. O cenário era perfeito. Só havia cinco manuscritos e estavam todos no mesmo lugar. E, para a Universidade de Princeton, tinham um valor incalculável.
O quinto elemento da quadrilha preferia trabalhar em casa. Ahmed era o pirata informático, o criador de todas as ilusões, mas não tinha coragem para usar armas e essas coisas. Trabalhava a partir da sua cave, em Buffalo, e nunca tinha sido apanhado ou preso. Não deixava rasto. Os seus cinco por cento iriam sair do bolo total. O restante seria dividido em partes iguais pelos outros quatro». In John Grisham, O Manuscrito, 2017, Bertrand Editores, 2018, ISBN 978-972-253-544-1.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

O Manuscrito. John Grisham. «Claro. Bem, vamos ao trabalho. O assistente abriu duas das grandes gavetas, ambas etiquetadas com o nome This Side of Paradise, e retirou uns cadernos volumosos»

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O Assalto
«(…) O homem que se fazia passar pelo professor Neville Manchin chegou a Princeton num bonito dia de Outono, no início de Outubro. Foi encaminhado para o Departamento de Livros Raros e colecções Especiais, onde conheceu Ed Folk, que o passou depois para outro bibliotecário assistente, que examinou e fotocopiou a sua carta de condução do Oregon. É claro que era uma falsificação, mas perfeita. O falsificador, que era também o pirata informático, tinha sido treinado pela CIA e tinha uma longa história no mundo obscuro da espionagem privada. Romper a pouca segurança do campus não era propriamente um grande desafio. O professor Manchin foi depois fotografado e deram-lhe um cartão de identificação que tinha de estar visível o tempo todo. Seguiu o bibliotecário assistente até ao segundo piso e entrou numa grande sala com duas mesas compridas e paredes forradas com gavetas de aço retráteis, todas elas fechadas à chave. Manchin identificou pelo menos quatro câmaras de vigilância aos cantos, junto ao tecto, câmaras que estavam ali para serem vistas. Desconfiava que houvesse outras, bem escondidas. Tentou conversar com o bibliotecário assistente, mas não conseguiu grande coisa. Perguntou em tom de brincadeira se podia ver o manuscrito original de This Side of Paradise. O bibliotecário assistente esboçou um sorriso presunçoso e disse que não seria possível. Alguma vez viu os originais?, perguntou Manchin. Uma única vez.
Seguiu-se uma pausa enquanto Manchin esperava por mais informação, mas acabou por perguntar: e qual foi a ocasião? Bem, um académico famoso gostava de vê-los. Acompanhámo-lo até ao cofre-forte e deixámo-lo dar uma vista de olhos. Mas não tocou nos papéis. Só o bibliotecário-chefe está autorizado a fazê-lo, e apenas com luvas especiais.
Claro. Bem, vamos ao trabalho. O assistente abriu duas das grandes gavetas, ambas etiquetadas com o nome This Side of Paradise, e retirou uns cadernos volumosos e muito grandes. Aqui estão as críticas que o livro recebeu quando foi publicado, disse ele. Temos muitas outras amostras de críticas posteriores. Perfeito, disse Manchin com um sorriso. Abriu a sua pasta, tirou um bloco de notas e mostrou-se pronto para atacar todo o material disposto sobre a mesa. Meia hora mais tarde, com Manchin embrenhado no seu trabalho, o bibliotecário assistente pediu licença e desapareceu. Manchin nunca olhou para cima, por causa das câmaras. Por fim, precisou de ir à casa de banho e saiu dali. Virou uma vez no sentido errado e voltou a fazê-lo, perdeu-se propositadamente e foi avançando pelas Colecções, evitando o contacto com quem quer que fosse. Havia câmaras de vigilância por todo o lado. Duvidava que alguém estivesse naquele momento a observar as imagens, mas podiam sempre recuperá-las, se necessário. Encontrou um elevador, evitou-o e desceu pela escada adjacente. O piso imediatamente abaixo era semelhante ao do rés do chão. A seguir, a escada terminava no C2 (Cave 2), onde havia uma porta grande e maciça com os dizeres Só em caso de emergência pintados em letra destacada. Junto à porta, havia um teclado e outra placa que alertava para o facto de soar um alarme assim que a porta fosse aberta sem a devida autorização. Duas câmaras de segurança vigiavam a porta e a área circundante.
Manchin recuou e regressou pelo mesmo caminho. Quando voltou à sala de trabalho, o assistente estava à sua espera. Está tudo bem, professor Manchin?, perguntou. Oh, sim! Receio apenas estar com um princípio de virose. Espero que não seja nada contagioso». In John Grisham, O Manuscrito, 2017, Bertrand Editores, 2018, ISBN 978-972-253-544-1.

Cortesia de BertrandE/JDACT

segunda-feira, 23 de julho de 2018

O Manuscrito. John Grisham. «Em 1950, Scottie, a sua única filha, ofereceu os manuscritos originais, as notas e cartas, seus documentos, à Biblioteca Firestone na universidade de Princeton»

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O Assalto
«(…) Na sua carta, o professor Manchin pedia a quem respondesse que o fizesse por e-mail, e dava um endereço privado de gmail. Dizia que raramente consultava o da universidade. Isso é porque não passas de um mero assistente e provavelmente nem sequer tem gabinete, pensou Ed. Tinha muitas vezes este tipo de pensamentos, mas é claro que era demasiado profissional para os confidenciar fosse a quem fosse. Por precaução, no dia seguinte enviou uma resposta através do servidor da Portland State. Agradecia ao professor Manchin pela sua carta e convidava-o a ir ao campus de Princeton. Pedia uma ideia aproximada de quando seria a sua visita e explicava algumas das regras básicas relativas à colecção Fitzgerald. Havia muitas, e ele sugeria que o professor Manchin se inteirasse delas no sítio da biblioteca. A resposta foi automática, informando Ed de que Manchin estaria ausente durante alguns dias. Um dos comparsas de Manchin tinha acedido ilegalmente ao diretório de Portland State e penetrado o suficiente para modificar o servidor de e-mail do Departamento de Inglês; tarefa fácil para um pirata informático sofisticado. Ele e o impostor souberam de imediato que Ed tinha respondido.
Paciência, pensou Ed. No dia seguinte, enviou a mesma mensagem para o endereço privado de gmail do professor Manchin. Passada uma hora, Manchin respondeu, agradecendo de forma entusiasmada, dizendo que estava ansioso por lá ir, etc. Gabava-se de ter estudado o sítio da biblioteca, de ter passado horas a consultar os arquivos digitais de Fitzgerald, de ter adquirido há vários anos a colecção de vários volumes que continha as edições fac simile das primeiras versões manuscritas pelo autor e mostrava-se particularmente interessado nas recensões críticas do primeiro romance, This Side of Paradise. Fantástico, disse Ed. Já tinha visto aquilo antes. O tipo estava a tentar impressioná-lo antes mesmo de lá chegar, o que não era nada de inusitado.

Scott Fitzgerald inscreveu-se na Universidade de Princeton no Outono de 1913. Aos dezasseis anos, sonhava escrever o grande romance americano e, na verdade, tinha começado a trabalhar numa primeira versão de This Side of Paradise. Desistiu quatro anos depois para se juntar ao Exército e ir para a guerra, mas esta terminou antes de ele ter sido destacado. O seu clássico, The Great Gatsby, for publicado em 1925, mas só se popularizou após a sua morte. Lutou com dificuldades financeiras ao longo da sua carreira e, em 1940, estava a trabalhar em Hollywood a produzir maus guiões, declinando em termos físicos e criativos. A 21 de Dezembro morreu de ataque cardíaco, provocado por anos de grave alcoolismo.
Em 1950, Scottie, a sua única filha, ofereceu os manuscritos originais, as notas e cartas, seus documentos, à Biblioteca Firestone na universidade de Princeton. Os seus cinco romances tinham sido escritos à mão, em papel barato que não resistia bem ao tempo. A biblioteca depressa percebeu que seria uma insensatez permitir que os investigadores os manuseassem. Foram feitas cópias de alta qualidade e os originais foram trancados num cofre forte, na cave, onde o ar, a luz e a temperatura eram cuidadosamente controlados. Ao longo dos anos, só tinham saído de lá um punhado de vezes». In John Grisham, O Manuscrito, 2017, Bertrand Editores, 2018, ISBN 978-972-253-544-1.

Cortesia de BertrandE/JDACT

O Manuscrito. John Grisham. «Ed recebia várias cartas destas por semana, todas elas idênticas em muitos aspectos, da parte de autoproclamados especialistas e peritos em Fitzgerald…»

jdact

O Assalto
«O impostor apropriou-se do nome de Neville Manchin, um professor de Literatura Americana em Portland State em vias de fazer o doutoramento em Stanford. Na sua carta, em papel timbrado da universidade, falsificado na perfeição, o Professor Manchin dizia ser um estudioso de F. Scott Fitzgerald e estar muito interessado em ver os manuscritos e documentos do grande escritor durante a sua próxima visita à Costa Leste. A carta estava endereçada ao doutor Jeffrey Brown, Diretor da Divisão de Manuscritos, Departamento de Livros Raros e Colecções Especiais, Biblioteca Firestone, Universidade de Princeton. Chegou ao mesmo tempo que outras, foi devidamente separada e encaminhada, acabando por ir parar à secretária de Ed Folk, um bibliotecário de carreira cujo trabalho, entre outros, consistia em verificar as credenciais da pessoa que escrevia a carta.
Ed recebia várias cartas destas por semana, todas elas idênticas em muitos aspectos, da parte de autoproclamados especialistas e peritos em Fitzgerald, e até de um ou de outro verdadeiro académico. No ano civil anterior, Ed tinha aprovado e registado cento e noventa dessas pessoas através da biblioteca. Vinham de todo o mundo e chegavam de olhos arregalados e intimidadas, como peregrinos diante de um santuário. Ao longo de trinta e quatro anos, nesta mesma secretária, Ed tinha processado todos os pedidos, que não davam sinais de abrandar. Scott Fitzgerald continuava a fascinar. O movimento era agora tão intenso como há três décadas. Mas, hoje em dia, Ed interrogava-se sobre o que poderia haver ainda da vida do grande escritor que não tivesse sido já objecto de análise pormenorizada e reduzido a escrito. Não há muito tempo, um verdadeiro estudioso tinha dito a Ed que havia agora pelo menos uma centena de livros e mais de dez mil artigos académicos publicados sobre Fitzgerald, versando o homem, o escritor, as suas obras e a sua esposa louca.
E isto tendo morrido de tanto beber, aos quarenta e quatro anos! Imagine-se como seria se tivesse chegado a uma idade avançada e continuado a escrever... Nesse caso, Ed precisaria de um ou dois assistentes, talvez até de uma equipa completa. Mas Ed também sabia que a morte precoce era muitas vezes a chave para a aclamação póstuma (já para não falar no acréscimo de ganhos com os direitos de autor). Passados uns dias, Ed começou finalmente a tratar o pedido do professor Manchin. uma rápida consulta ao registo da biblioteca revelou que era um novo utilizador e, por conseguinte, um pedido novo. Alguns dos veteranos tinham ido tantas vezes a Princeton que se limitavam a ligar-lhe e a dizer: olá, Ed, vou aí na próxima terça-feira. Ed não tinha problemas com isso. Mas não era o caso de Manchin. Ed entrou no sítio da Universidade de Portland State e encontrou o seu homem. Licenciado em Literatura americana pela Universidade de Oregon; mestrado na UCLA; professor assistente desde há três anos. A sua foto revelava um homem de aparência comum com cerca de trinta e cinco anos, uma barba incipiente provavelmente temporária e óculos estreitos, sem aros». In John Grisham, O Manuscrito, 2017, Bertrand Editores, 2018, ISBN 978-972-253-544-1.

Cortesia de BertrandE/JDACT

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Tempo de Matar. John Grisham. «O lago Chatulla não passava de um enorme buraco lamacento feito pelo homem, com uma represa coberta de mato de um quilómetro e meio de extensão numa das suas extremidades»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Billy Ray Cobb era o mais jovem e mais baixo dos dois homens brancos. Com vinte e três anos era veterano de Parchman, a penitenciária estadual, tendo cumprido uma pena de três anos. Posse, com intenção de venda. Era um vagabundo magro e rijo que tinha sobrevivido à prisão graças a um bom estoque de drogas que ele vendia e às vezes dava aos negros e aos guardas, em troca de protecção. No ano seguinte à sua saída da cadeia, Billy Ray Cobb prosperou e o seu pequeno negócio de tráfico de drogas elevou-o à posição de um dos mais ricos caciques brancos de Ford County. Era um homem de negócios com empregados, obrigações, contratos e tudo, menos impostos. Na revendedora Ford de Clanton, ele era conhecido como o último homem na história recente a pagar em dinheiro vivo por uma pick-up. Dezasseis mil dólares na ficha por uma pick-up Ford de luxo, feita sob encomenda, tracção nas quatro rodas, amarelo-canário. As rodas cromadas e os pneus faziam parte do acordo de compra. A bandeira rebelde, no vidro traseiro fora roubada por Cobb de um rapaz bêbado durante uma partida de futebol em Ole Miss. A pick-up era o objecto mais valioso de Billy Ray. Sentado na traseira da camioneta, bebendo cerveja e fumando um cigarro, Billy observava o amigo Willard na sua vez de se divertir com a garotinha negra. Willard era quatro anos mais velho e dez anos mais burro. De um modo geral era inofensivo, nunca se tinha metido em problemas sérios nem num emprego fixo. Talvez uma noite na cadeia por causa de uma briga ocasional, mas nada de importante. Dizia-se lenhador, cortava madeira para a fábrica de papel até ao dia em que um problema na coluna o afastou das florestas. Sofrera um acidente quando trabalhava numa plataforma marítima, no Golfo, e recebera uma boa indemnização da companhia de petróleo. O dinheiro desapareceu quando a ex-mulher o deixou completamente liso. A principal ocupação dele era trabalhar meio período para Billy Ray Cobb, que não pagava muito mas era um mãos aberta com as drogas. Pela primeira vez em muitos anos, Willard podia ter sempre alguma coisa. E ele estava sempre precisando delas. Isso desde o acidente que lhe tinha afectado a coluna.
Gwen Hailey teve um pressentimento horrível. Normalmente ela teria mandado um dos rapazes ao armazém, mas estavam de castigo, tratando do jardim, por ordem do pai. Tonya já tinha ido sozinha ao armazém, a dois quilómetros de casa, sem qualquer problema. Porém, ao fim de duas horas, Gwen mandou as crianças procurarem a irmã. Pensaram que ela devia estar na casa dos Pounder, brincando com as crianças, ou talvez se tivesse aventurado para além do armazém para visitar a sua melhor amiga, Bessie Pierson. O sr. Bates do armazém disse que ela tinha saído há uma hora. Jarvis, o irmão do meio, encontrou o saco com os mantimentos ao pé da estrada. Gwen telefonou para o marido na fábrica de papel, a seguir meteu Carl Lee Jr. no carro e começou a percorrer as estradas de terra em volta do armazém. Foi até um conjunto de casas velhas no Lugar Graham, para ver se ela estaria na casa de uma das tias. Parou na loja Broadway a dois quilómetros do armazém e um grupo de negros velhos garantiu-lhe que não a tinham visto. Gwen percorreu uma vasta área de estradas de terra em volta da sua casa.
Cobb não conseguia encontrar uma ponte que não estivesse cheia de crioulos com varas de pesca. Em cada uma delas havia quatro ou cinco pescando, com grandes chapéus de palha, e mais alguns debaixo da ponte, sentados em baldes, também com chapéus de palha e caniços de pesca, imóveis, a não ser por um ocasional movimento para espantar os mosquitos. Estava assustado. Willard, completamente bêbado, estava dormindo e não podia ajudar em nada. Cobb tinha de se desfazer da menina de modo que ela nunca pudesse contar o que tinha acontecido. Willard roncava enquanto ele percorria freneticamente as estradas de terra e de asfalto à procura de uma ponte ou de uma rampa ao lado do rio, onde pudesse parar e atirá-la à água sem ser visto por uma dezena de crioulos com chapéus de palha. Olhou pelo retrovisor e viu que ela tentava ficar de pé. Travou bruscamente e a menina caiu no fundo do carro, por baixo da janela. Willard ricocheteou no painel e escorregou para o chão, onde continuou roncando. Cobb insultou-os a ambos.
O lago Chatulla não passava de um enorme buraco lamacento feito pelo homem, com uma represa coberta de mato de um quilómetro e meio de extensão numa das suas extremidades. Ficava no extremo sudoeste de Ford County, e entrava ainda por alguns hectares de Van Buren County. Na Primavera, o lago era elevado à posição de maior massa de água do Mississipi. Mas no fim do Verão, terminadas as chuvas, o sol evaporava a água, secando quase por completo o lago. As linhas das margens, antes ambiciosas, retraíam-se agora, juntando-se praticamente no centro, criando uma bacia profunda cheia de água castanho-avermelhada. Vários regatos, pântanos e riachos alimentavam-no, vindos de todas as direcções além de duas correntes que podiam ser consideradas como rios. A existência de todos esses afluentes era a causa da construção de várias pontes em volta do lago». In John Grisham, Tempo de Matar, Bertrand Editora, 2015, ISBN 978-972-252-834-4.

Cortesia de BertrandE/JDACT

terça-feira, 3 de julho de 2018

O Júri. John Grisham. «O fotógrafo estava numa cadeira encostada à parede, de frente para a longa mesa dos advogados, assistentes e especialistas em júris»

Cortesia de wikipedia

«(…) Não se encaixava no modelo de jurado, mas merecia certamente ser observado. O problema com Easter, potencial jurado número cinquenta e seis, era o pouco que sabiam sobre ele. Tinha chegado à Costa do Golfo há menos de um ano e não tinham uma pista sequer sobre o local de onde viera. O seu passado era um completo mistério. Alugou um quarto a oito quarteirões do prédio do tribunal de Biloxi, tinham fotografias do prédio, e, primeiro, trabalhou como empregado de mesa num casino na praia. Rapidamente foi promovido a croupier, mas deixou o casino quatro meses depois. Assim que o jogo foi legalizado no estado do Mississipi, da noite para o dia, surgiram na costa uma dezena de casinos, e aos casinos seguiu-se uma intensa onda de prosperidade. De todos os lados chegaram pretendentes aos novos empregos e seria lógico supor que Nicholas Easter tivesse chegado a Biloxi pelo mesmo motivo que milhares de outros. A respeito da sua mudança para Biloxi, a única coisa estranha a registar era a pressa com que se tinha recenseado como eleitor.
Nicholas tinha um Volkswagen (carocha) de 1969 e uma fotografia do carro substituiu o seu rosto na parede. Nada de mais. Um homem de vinte e sete anos, solteiro, supostamente estudante, o tipo perfeito para ter aquele tipo de carro. Nenhum autocolante nos pára-choques. Nada que indicasse a filiação política, consciência social ou preferência por algum clube desportivo. Não tinha sequer um autocolante do parque de estacionamento da faculdade. Nem mesmo um autocolante desbotado do stand que lhe vendera o carro. O carro não tinha qualquer tipo de significado para aquela investigação. Nada, a não ser denunciar um estado de quase pobreza. O homem que manuseava o projector, e que se encarregava da maior parte da apresentação, era Carl Nussman, um advogado de Chicago que deixara de exercer para abrir uma firma de consultoria de júris. Por uma pequena fortuna, Carl Nussman e a sua firma podiam escolher o júri perfeito. Coligiam dados, tiravam fotografias, gravavam vozes, contratavam louras com jeans justos para situações adequadas. Carl e os sócios movimentavam-se muito perto dos limites da lei e da ética, mas era impossível incriminá-los. Na verdade, não há nada de ilegal em fotografar possíveis jurados. Em Harrison County tinham feito investigações exaustivas por telefone, a primeira vez há seis meses, a segunda há dois e, a última, passado um mês, tudo para aferir a opinião da comunidade sobre o fumo e para esquematizar diferentes modelos de jurados perfeitos. Não ficou por tirar nenhuma possível fotografia e não houve nenhum podre de algum dos potenciais jurados que tivesse ficado esquecido ou que não tivesse sido classificado. Tinham um dossier completo sobre cada um dos jurados potenciais.
Carl apertou um botão e o slide foi substituído pela fotografia de um prédio com a pintura desbotada onde, num dos apartamentos, vivia Nicholas Easter. Pressionado outro botão, apareceu de novo o rosto de Nicholas Easter. Assim, apenas temos estas três fotografias do número cinquenta e seis, disse Carl, num tom ligeiramente frustrado, voltando-se com um olhar de censura para o fotógrafo, um dos seus inúmeros espiões particulares que, apesar disso, explicou as circunstâncias arriscadas em que conseguira fotografar o rapaz, todas passíveis de o denunciarem. O fotógrafo estava numa cadeira encostada à parede, de frente para a longa mesa dos advogados, assistentes e especialistas em júris. Parecia entediado e pronto para sair. Eram sete horas de uma noite de sexta-feira. O número cinquenta e seis estava projectado na parede e ainda faltava analisar cento e quarenta. Ia ter um fim-de-semana horrível. Precisava absolutamente de uma bebida. Uma meia dúzia de advogados com camisas amarrotadas e mangas arregaçadas, tomando infindáveis notas, olhava ocasionalmente para o rosto de Nicholas Easter projectado na parede atrás de Carl. Especialistas em júris de quase todos os géneros, psicanalistas, sociólogos, grafólogos, professores de Direito e assim por diante, arrumavam papéis e consultavam pilhas de folhas de dois centímetros de espessura com textos impressos em computador. Não sabiam ao certo o que fazer com Easter. Era um mentiroso que escondia o passado mas, mesmo assim, parecia-lhes bem, tanto no papel como na parede». In John Grisham, O Júri, 1996, Editora Rocco, tradução de Aulyde Amaral, 2001, ISBN 972-759-293-7.

Cortesia de ERocco/JDACT

O Júri. John Grisham. «Por acaso. Nicholas Easter era o subgerente que se encontrava mais próximo e, delicadamente, pediu à moça para apagar o cigarro»

Cortesia de wikipedia

«O rosto de Nicholas Easter estava parcialmente escondido por um mostruário cheio de elegantes telefones sem fios e não olhava diretamente para a câmara oculta, mas um pouco mais para a esquerda, talvez para um cliente, ou para o balcão, onde um grupo de jovens apreciava as novidades de jogos eletrônicos importados da Ásia. Embora tirada a uma distância de quarenta metros, por um homem que tinha de se desviar constantemente dos transeuntes no passeio, a fotografia era clara e mostrava um rosto simpático, bem barbeado, com traços fortes e uma beleza quase infantil. Easter tinha vinte e sete anos: sobre isso não havia dúvida. Não usava óculos, piercing no nariz, nem sequer um penteado estranho. Nada indicava que fosse um daqueles fanáticos por computadores que trabalham numa loja de informática a troco de um salário miserável. Na ficha a seu respeito apenas constava que estava ali há quatro meses e que era estudante, embora não tivessem encontrado nenhum registro de matrícula em qualquer uma das escolas situadas num raio de quatrocentos quilômetros. Sobre este assunto, tinham certeza de que mentia.
Tinha de ser mentira. O seu serviço de espionagem e informações era óptimo e, se o rapaz fosse realmente estudante, já teria sido descoberto onde, há quanto tempo, em que área, se tinha boas ou más notas. Easter trabalhava num centro comercial numa Computer Hut, uma loja de informática. Nada mais, nada menos. Talvez tivesse intenção de matricular-se. Talvez tivesse sido obrigado a abandonar os estudos mas continuasse gostando de se dizer estudante. Provavelmente essa ideia fazia com que se sentisse melhor, dando-lhe uma espécie de objectivo na vida; além de que soava bem. Easter não era estudante de nada, nem naquele preciso momento nem num passado recente. E, assim sendo, seria possível confiar nele? A questão fora debatida na sala nas duas vezes em que chegaram ao nome de Easter incluído na lista principal de potenciais jurados e viram o seu rosto projectado na tela. Tinham quase decidido que se tratava de uma mentira sem importância. Não fumava. A loja tinha regras estritas a esse respeito, mas Easter foi visto (mas não fotografado) comendo um taco (taco de origem mexicana) no Food Garden com uma colega de trabalho que fumou dois cigarros enquanto bebia uma limonada.
Aparentemente a fumaça do cigarro não o incomodava. Pelo menos não era antitabagista fanático. Na fotografia aparecia um rosto magro, bronzeado pelo sol, sorrindo levemente com os lábios fechados. Sob o casaco vermelho da farda da loja usava uma camisa branca, com colarinho sem botão, e uma discreta gravata de riscas. Parecia limpo, em boa forma, e o homem que tirou as fotografias chegou a falar com ele, fingindo que estava à procura de uma peça obsoleta de computador. Disse que tinha um discurso articulado, que era atencioso, conhecia bem o ramo, em resumo, que era um jovem simpático. No seu crachá lia-se subgerente, mas foram vistos na loja outros dois rapazes com o mesmo título nos crachás. No dia seguinte ao da foto, uma jovem atraente, vestida de jeans, entrou na loja e, enquanto examinava material de software, acendeu um cigarro. Por acaso. Nicholas Easter era o subgerente que se encontrava mais próximo e, delicadamente, pediu à moça para apagar o cigarro. Ela parecia frustrada. Até mesmo insultada e tentou provocá-lo. Nicholas manteve uma atitude diplomática, explicando que era estritamente proibido fumar na loja. Podia fumar em qualquer outro lugar, menos ali O tabaco incomoda-o?, dando uma passa. Francamente, não, respondeu. Mas incomoda o dono da loja. E voltou a sugerir-lhe que apagasse o cigarro.
A moça disse que queria comprar um rádio digital e pediu-lhe que arranjasse um cinzeiro. Nicholas tirou de baixo do balcão uma garrafa vazia de refrigerante, tirou-lhe o cigarro da mão e apagou-o. Durante vinte minutos, enquanto escolhia o modelo de rádio que ia comprar, falaram sobre rádios. A moça tinha uma atitude abertamente provocante e Nicholas entrou no jogo. Depois de pagar o rádio, a moça deu-lhe um papel com o número de telefone. Nicholas prometeu telefonar-lhe. O episódio durou vinte e quatro minutos e foi registado por um gravador escondido na carteira dela. A gravação foi ouvida nas duas vezes em que o rosto de Nicholas foi projectado na parede e estudado pelos advogados e assessores. O relatório da jovem sobre o incidente estava arquivado, seis páginas dactilografadas sobre tudo o que tinha observado, desde os sapatos (um Nike velho), ao hálito (goma de mascar de canela), ao vocabulário (colegial) e à forma como tinha agarrado o cigarro. Na sua opinião, e era entendida na matéria, Nicholas nunca tinha fumado. Ouviram a agradável voz de Nicholas, apreciaram o seu profissionalismo como vendedor, o encanto da sua conversa e gostaram dele. Era inteligente e não odiava tabaco». In John Grisham, O Júri, 1996, Editora Rocco, tradução de Aulyde Amaral, 2001, ISBN 972-759-293-7.

Cortesia de ERocco/JDACT