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quinta-feira, 2 de março de 2017

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «A confiança no irmão Henrique era total, tanto quanto o afeiçoamento que lhe devotava sobrelevava os defeitos. Sentiu-se manietado por uma força de atracção que o prendeu a este irmão»

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«(…) Sentindo-se encorajado por estes pensamentos, o rei enrijou a silhueta, deitou para trás aquilo que não conseguia desvendar e numa voz forte chamou pelo reposteiro: Gonçalo! Gonçalo! O chamamento, dito em tons que ecoaram pelo Paço, chegou ainda audível aos ouvidos do infante Fernando, que nesse momento se preparava para abandonar o terreiro da casa apalaçada. Pressentindo pela tonalidade da voz o anúncio de uma tempestade, o infante apurou o ouvido, pensando poder distinguir as palavras que Duarte trocou com o servidor, mas o que escutou não lhe permitiu decifrar o recado que o pensamento do irmão privilegiou: ide já ligeiro ao encontro do infante Henrique. Dizei-lhe da urgência do seu conselho e que o espero sem demora em Lisboa, para onde seguirei. Desorientado pela complexidade de um assunto que lhe desordenava as ideias, o rei esqueceu-se de que a precedência entre os irmãos começava em Pedro e não em Henrique, ligação que, por ser irreflectida, trará consequências.
Honestamente submerso pela governação, o rei Duarte I não deu a princípio pelas manobras. Mas algumas manifestações alertaram-lhe o pensamento, sentindo grande necessidade de decifrar o que se passava. Não era de especulações, mas, roído pelo pressentimento, mandou alguém remexer nos grupos que fugiam ao seu controlo. Que não! Tudo estava calmo no reino de sua majestade, não havia motivos para alarme. Descansasse, nada temesse, porque os nobres respeitavam-no, a Igreja temia-o e o povo amava-o. Duarte descansou, como o aconselharam. Eis senão, sem aviso, entra-lhe o irmão mais novo pelo sossego adentro. Desarruma-lhe a casa que tem dentro da cabeça, provoca-lhe sentimentos violentos, assegura-lhe que as suspeitas vão além disso. Apreensivo, receia o pior. Não sabe onde o enredo o leva, se será ele o vencido ou, pelo contrário, se vencerá. Desconhece a origem, mas fica persuadido de que, se existe uma maquinação, só pode ser gerada por um grande nobre com influência na corte e no reino.
Duarte I infernizava-se por não estar na posse de todos os dados e, apesar de ser conhecedor de um circuito de intenções, continua sem saber quem atirou o irmão mais novo para a frente. Incomodado, estica até ao limite o cérebro, à espera que uma lufada de siso lhe fertilize o pensamento. Enquanto cruzava mais uma vez o compartimento de ponta a ponta, veio-lhe ao pensamento a imagem do infante Henrique, uma representação visual precipitada, um condicionamento virtual que o juízo lhe enviou para resolução. Subjugado pela áurea do homem cuja forte energia psicológica e física o impressionava, cedeu sob a imagem que lhe oferecia as devidas soluções e nenhumas dúvidas. Mais uns passos para lá, outros tantos para cá, conta Duarte. No momento em que me ocorreu chamar por Henrique, fui levado por uma força desconhecida, atraído por uma imagem obsessiva, pois vi nele o homem sério, honesto, fiel à Coroa, sem pôr em dúvida as suas virtudes nem sobrevalorizar os defeitos.
A confiança no irmão Henrique era total, tanto quanto o afeiçoamento que lhe devotava sobrelevava os defeitos. Sentiu-se manietado por uma força de atracção que o prendeu a este irmão, e de nada lhe valia exercitar o juízo à procura de outras soluções, porque não conseguia libertar-se do íman que o atraía. Por que pensamento, por que razão vai Duarte encontrar-se com Henrique, se Pedro é mais velho do que ele, mais versado na política, mais cosmopolita, mais reflectido, o seu irmão preferido, como gostava de dizer. Porquê, por que encargo este rei inteligente foi atrás de um impulso, quando uma das suas mais pronunciadas características era a ausência de arrebatamentos? Há coisas para as quais não vale a pena procurar explicação». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… deixou mais uma frase por decifrar: “se é a vós que sirvo, não deixeis que me consagre a outros, reconsiderai também como me aconselhais”. Ao retirar-se, o infante…»

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O infante Fernando não quer ficar
«(…) Não obstante os monólogos íntimos que o infante e o rei travavam, lampejos da mente sobre a fala, eles traduziam-se acima de tudo na necessidade de evitar agredirem-se, sempre à procura de uma mesura que pudesse suavizar o palavreado. Que dizeis, Fernando?, insurgiu-se o rei. Que injustiça pretendeis acometer-me? Sabeis tão bem como eu que depois de nosso pai morrer nunca deixei de vos agasalhar, acrescentar e manter. Dignifiquei a vossa Casa, fiz crescer os vossos bens, protegi-vos. Que tínheis vós antes de nosso pai falecer? Eu digo-vos. Tínheis menos do que tens agora. Porque não lhe dissestes a ele o que me estais hoje a dizer?
Sem se interrompe em jeito de reprimenda, Duarte continuou: a vós dei-vos o Mestrado de Avis, que de rendas é superior ao de Sant'Iago que nosso irmão João detém, e dessa inferioridade ele se não queixou como agora vós fazeis. Contrariamente ao que vindes defendendo, não quiseste aceitar o barrete cardinalício que vos oferecia Gomes Ferreira por recomendação de Sua Eminência. Que maior dignidade podias alcançar se aceitasses o cargo e que rendas não conseguirias? Não seria mais apropriado para vós, um homem tão dedicado a Deus, serdes cardeal? No capítulo dos casamentos, nunca vos vi interessado em folgar com donzela, assim como também desconheço o vosso interesse pelo matrimónio. Se é certo que convinha a Portugal o casamento de um dos seus mais ilustres filhos, também é verdadeiro que mesmo sem estar de acordo tenho respeitado o vosso voto de castidade. É só por isso que não tendes hoje dama da melhor qualidade para vos aquecer a cama e gerar os filhos que gostarias de ter. Sendo assim, proponho-vos o seguinte: prontificas-te a renegar o voto de castidade? Responde, irmão, toma esse compromisso comigo, sela nem que seja com um abraço a proposta que vos faço e hoje mesmo emissários percorrerão o mundo para vos encontrar dama de virtude e realeza sem par. Fala, responde ao que te proponho!
O infante gaguejou, entupido pela força que Duarte deu ao desafio. Queria dizer que sim, que não, que ia pensar, mas ficou mudo, de cabeça baixa, sem responder ao repto que o irmão lhe fez. Porque forçais a vossa ignorância?, prosseguiu Duarte. É só para me reptardes? Olha, irmão, não estás casado, mas não estás atrasado. Isso vos garanto. Tinha eu mais três anos do que agora vós tendes quando me casei com a nossa amada rainha, os mesmos anos que Pedro havia quando se casou com a senhora dona Isabel de Urgel. Não há por isso nenhum desacerto, não pode haver, a não ser a manifesta vontade em manterdes o sacramento que juraste. Um reino não se constrói num só dia. Por muito que nosso pai o tenha erguido, muito há para fazer. Esperai algum tempo e vereis que aparecerão assuntos importantes para um nobre da vossa estirpe se envolver e deles retirar o engrandecimento que hoje reclamais. Ide, reconsiderai, esperai que vos proponha assunto vantajoso. Até lá, aguardai por uma resposta que não deixarei de vos dar.
Aceitando o convite, quase a vencer a ombreira da porta, Fernando, virando-se para trás, deixou mais uma frase por decifrar: se é a vós que sirvo, não deixeis que me consagre a outros, reconsiderai também como me aconselhais. Ao retirar-se, o infante deixou na sala um vazio difícil de preencher. Duarte trancou-se silencioso, olhos fechados para melhor intuir o que acabara de suceder. Aos poucos, recuperando cada momento da conversa ainda fresca, tentou estabelecer ligações entre os argumentos do irmão e o persistente clima de conspiração que pressentia. Duvidava. Duvidava mesmo que fossem realmente as razões expostas pelo irmão o verdadeiro motivo da presença dele ali naquele dia. Todavia, ficava com que se entreter. Levantou-se, atravessou a sala em passadas que retomavam a partida, avançando para recuar demorando uma eternidade para chegar de uma parede a outra. Rebuscava naquele incessante caminhar, antes de mais, um significado que o levasse ao cerne da questão: tudo o que o irmão lhe disse correspondia a uma iniciativa concertada? Assim sendo, quem eram os concertantes? Não lhe ocorria nenhuma relação e por isso se martirizava.
Uma sombra, a opacidade dos dias infelizes assestou sobre o rosto de Duarte. A angústia de estar perto da verdade sem no entanto a alcançar devorava-lhe a mente. Para ele, o palavreado do irmão tanto podia significar uma proposta, uma ameaça, ou mesmo, quem sabe, uma traição. Mas se não fosse assim? Se o discurso de Fernando significasse apenas um desabafo? Então só tinha de relegar tudo o que foi dito para os assuntos sem importância. Se é a vós que sirvo, não deixeis que me consagre a outros, reconsiderai por isso também como me aconselhais, repetia Duarte para si, sem saber como interpretar a frase. Sentiu medo. Não por ele, pensava na família, e só a simples ideia de a imaginar desunida o comovia. Ele, o guardião irrepreensível da concórdia familiar, não podia deixar quebrarem-se os laços fraternais por causa de interesses pessoais, lembrando-se recorrentemente do juramento que fez à saudosa mãe e que naquela hora fazia mais sentido do que nunca». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Escanhoado e penteado pelo barbeiro, personagem que não tinha dignidade para comungar com ele na sua capela, vestiu-se com a ajuda do camareiro, este, sim, estava autorizado a fazer-lhe companhia nas rezas que se prolongariam por toda a manhã»

jdact e wikipedia

O infante Fernando não quer ficar
«(…) Já disposto a dar por finda a entrevista, esquecendo a disponibilidade que disse dispensar ao irmão, Duarte I procurou fixá-lo nos olhos, de maneira a medir o ascendente que sempre teve sobre ele. O que viu foi outra coisa. A energia que Fernando havia demonstrado momentos antes, tanto nos gestos como nas palavras, resumia-se no fim de contas à lição pouco estudada e às réplicas ensaiadas por algum mestre na arte de representar. Chamado à ordem pelo cintilar reprovador dos olhos de Duarte, o infante vacilou, sentiu-se descomposto, pois o suor que lhe molhava a pele prometia passar ao bonito traje que nesse dia vestiu. Longe de ser vaidoso ou ostensivo, Fernando entendeu mesmo assim apresentar-se ao rei vestido com as suas melhores roupas, dado que o assunto merecia ser explicado com todas as armas e cuidados. Nesse dia levantou-se cedo, cumpriu as primeiras rezas sem sair dos aposentos e daí a pouco deslocou-se para se enfiar em capela própria, prosseguindo o seu diálogo com a divindade. Nos pequenos intervalos que as obrigações sagradas lhe impunham, os criados expuseram-lhe os passos que tinha de dar naquele dia e os compromissos aos quais não devia faltar, particularmente o encontro que tinha agendado com o rei. Não precisariam de o fazer. O infante não pensara noutra coisa desde que abrira os olhos, ainda o sol não vencera o horizonte.
Escanhoado e penteado pelo barbeiro, personagem que não tinha dignidade para comungar com ele na sua capela, vestiu-se com a ajuda do camareiro, este, sim, estava autorizado a fazer-lhe companhia nas rezas que se prolongariam por toda a manhã e por todos os santos. Quando as sombras começaram a encurtar, bem a pino sobre as cabeças, decidiu vestir-se com tempo, ajudado pelo criado mais íntimo. Após receber as ordens, o moço de câmara apareceu-lhe com urna alcândora, espécie de camisa de gola alta e umas calças de lã muito justas, que depois de vestidas lhe desenharam bem os contornos das coxas. Esta peça vestia-se em duas tentativas, um elemento de cada vez, porque embora fossem semelhantes aos collants de hoje, enfiavam-se individualmente. Calçou depois umas pontilhas excessivamente pontiagudas, de pele, esforçadamente enfiadas pelo sapateiro, outro que não metia os pés perto do seu altar, sentindo algum desconforto por os sapatos lhe apertarem os dedos. Mesmo assim decidiu mantê-los. Concordavam com o resto da farpela e valia a pena algum sacrifício em prol da aparência.
Com cuidado, vestiu um saio que o camareiro seleccionou, de veludo verde-escuro, bem curto, para não fugir à moda, um exagero para os que não estavam acostumados às novidades. O cinto que pôs ostentava uma fivela de ouro cravejada de brilhantes, bem apertado na zona da cintura, o que insinuava mais a elegância das suas poucas carnes. Sentir-se-ia melhor depois de colocar um sombreiro do mesmo tecido e da mesma cor do saio. O chapéu, ligeiramente enfiado na cabeça, estreitava no extremo superior do corpo cilíndrico, alargando depois na outra extremidade para deixar entrar confortavelmente a cabeça e dar à copa o alinhamento que esta precisava. No meio, incorporou-lhe um diadema de prata, engastado de esmeraldas, quase um exibicionismo nunca visto no infante. Mas este dia era diferente. Fazia questão de alardear alguma exuberância na pose, um espectáculo que fazia questão de mostrar para suplantar o irmão, pelo menos no vestir, pois sabia como Duarte era modesto nas roupas que usava.
Não deixou também de ostentar, nem podia, as insígnias do Mestrado de Avis, pois era impensável dispensá-las por mais que o cargo se revelasse pouco compensador. Assim vestido, pelo menos nesse momento sentiu-se tão importante como qualquer um, sossegando-lhe o nervoso miudinho desde que o dia abriu as janelas. Aquele dia constituía-se para o infante Fernando como o mais importante da sua vida. Considerava-o assim por não ter tido outros de grande relevância, mas sobretudo porque esta data era como que um marco na sua futura autonomia. Sentia-se corajoso, capaz de enfrentar o homem mais poderoso de Portugal, até que o irmão lhe permitisse substituir uma vida passada de desânimos por outra virtuosa. Eis porque me visto no momento presente das melhores roupas que tenho e uso as mais valiosas jóias que possuo, uma ostentação quase agressiva comparada com a simplicidade de Duarte. No entanto não me deixo enganar, automotivou-se o infante, o que não pode ser feito de um dia para o outro no carácter, na maneira de ser, permite-nos consegui-lo de forma expedita através do que envergamos. A nossa segunda pele produz falsidades tão imediatas, tão rápidas e eficazes, tanto quanto uma vida inteira não consegue». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de Cdo Autor/JDACT

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Quem partiu com nossa irmã desde Cascais e a acompanhou até à Flandres para se casar com o senhor duque da Borgonha? O que sou eu então? O avalista das vossas condutas?»

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O infante Fernando não quer ficar
«(…) É da minha fraternal companhia que vos quereis afastar, irmão?, questionou o rei. Que tendes vós contra mim? Não, irmão, não é de vós que me quero apartar, declarou Fernando, mas do peso das vossas realizações. Como posso eu ter ambições se os meus mais próximos sempre carregam sobre mim um poder que eu não sou capaz de devolver? Que posso fazer diante da vossa inteligência, das vossas iniciativas, dos vossos poderosos aliados? Que respeito me atribuem, se sou intercessor das vossas desavenças, testemunha e acompanhante das vossas uniões matrimoniais, presenteador do nascimento dos vossos filhos, mestre-sala das reuniões cortesãs? Duarte I sentiu um abalo imenso. Considerava as palavras de Fernando injustas, via nelas um despropósito num contexto provocatório, mais uma instrumentalização de terceiros do que palavras sentidas e próprias. Pela sua parte, o infante Fernando tentava descortinar no rei um momento de fraqueza. Aos poucos, recomposto, mais pelo abatimento de Duarte I do que pela propriedade das suas palavras, o infante esforçou-se por dar veracidade a um discurso pensado por outros que não ele: aflijo-me. Até hoje não consegui impôr-me com glória no campo de batalha e, não se me deparando essa oportunidade, não tenho nenhum feito de armas que enobreça a minha Casa. É disto que vos falo. Mais do que os acrescentamentos e as mercês que me são devidos, é a honra acima de tudo que procuro, tal como vós e nossos irmãos a têm bem nutrida. A glória de vencerdes os inimigos da religião de Cristo em Ceuta trouxe-vos o merecido galardão de cavaleiro, uma honra ganha com suor e sangue, o que vos dá ainda maior dignidade para governar. Ninguém mais do que vós merecia essa homenagem, estou certo. Também não serei eu que nego o direito que Pedro e Henrique tiveram em constituir as suas Casas com cabedais suficientes para suportar as despesas e manter uma corte disciplinada e fiel. Fez bem nosso pai em conceder-lhes os ducados de Coimbra e Viseu e todas as terras ao seu redor, pois um príncipe não pode viver de esmolas alheias, como eu vivo, lá porque fui esquecido e vós pouco vos lembrastes de mim.
Imparável, Fernando continuou com as razões da sua desdita, lamentações que lhe traziam grande infelicidade e emocionavam o rei, também ele um mal-aventurado. Atento ao discurso, Duarte I, se não estava certo do despeito que animava o irmão, passou a ter a certeza. Não lhe interrompeu os queixumes, deixou-o expor-se, já convencido de que pretendia atingir um determinado fim, o qual, até ali, não tivera coragem para revelar: … não haverá em toda a cristandade donzela da mesma condição que queira comigo partilhar a vida? Há certamente. Sabeis disso muito bem, porque sois vós quem decide o meu contrato matrimonial quando os arranjos políticos assim o aconselharem. Até nisto sou reprimido. Impedido de escolher quem comigo partilhe a cama, os filhos, a casa, os afectos, sou, mal desejeis, uma carta que meu irmão senhor rei tem para jogar, sobrepondo os altos interesses do reino aos meus sentimentos. A conversa ia longa e enojosa, como diria Duarte I se lhe ouvíssemos os pensamentos. Para palavras rijas, rijas palavras, terá pensado o rei, sem contudo tomar a iniciativa porque Fernando parecia não se cansar: … quem intercedeu para que os desagravos entre Pedro e nosso amado pai se desvanecessem? Quem serviu de aval do vosso casamento com a infanta dona Leonor de Aragão e o de Pedro com dona Isabel de Urgel? Quem partiu com nossa irmã desde Cascais e a acompanhou até à Flandres para se casar com o senhor duque da Borgonha? O que sou eu então? O avalista das vossas condutas? A representação visível das boas intenções da corte?» In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «O rei lamentava e cada vez mais se convencia de que aquele irmão mal alinhado se tinha transformado num ser desconhecido para si. A custo, refez a argumentação na ilusão de não alimentar o desânimo do irmão…»

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Um irmão mal sintonizado
«(…) O rei esforçava-se, a todos procurava agradar, dividia o que podia, protegia, mas tudo isso não ia tão longe quanto os nobres gostariam que fosse. Ingénuo, tudo indica, esquecia-se que eles eram insaciáveis, ávidos de bens e sibilinos nas intrigas que fomentavam.
Tudo tenho feito para no essencial satisfazer os fidalgos do meu sangue, rememorava o rei, todavia, não vou, não quero, é contra os princípios da humanidade deixar que uns poucos fiquem mais ricos para que os outros, mais humildes, empobreçam. Sigo os exemplos que me deram, e é por isso que não esqueço a recomendação que a minha muito saudosa e amada mãe me fez, em vésperas da sua morte, rogando-me que protegesse e defendesse os povos. No entanto, fico apreensivo. O que será da coroa sem os seus melhores fidalgos, aqueles que em momentos difíceis interferem na vida do reino, lhe dão prestígio, asseguram a independência, prestam ajuda, aconselham o rei quando deles precisa.
Enquanto se mantinha submerso nos pensamentos que lhe ocorriam ligeiros, distantes mas límpidos, o passado em retrospectiva, Duarte retirava das suas lembranças argumentos para melhor fazer face à constrangedora situação que o irmão lhe criara. Lembrou-se, de entre o turbilhão de acontecimentos que o marcaram pela vida fora, da imagem do irmão Pedro diante do pai, solicitando-lhe dispensa para procurar no estrangeiro o reconhecimento que em Portugal lhe parecia vedado. Agora, volvidos mais de dez anos, é o irmão mais novo que o repta no mesmo sentido. De uma coisa o rei não duvidava. Sendo embora uma situação semelhante à de Pedro, a iniciativa de Fernando não teria acolhimento. Estava fora de questão autorizar-lhe a partida, não iria ceder ao pedido, simplesmente porque não era João I, nem Fernando era Pedro. Este, quando abalou, tinha razão, era um nobre com total autonomia e sobretudo definição nos propósitos, ao contrário do irmão mais novo, sem causa justificada, muito dependente da coroa e sem esclarecidos argumentos.

O infante Fernando não quer ficar
O que fazer agora? Duarte I sabia que não aceitaria o pedido do irmão, mas não sabia como dizer-lhe, até que voltou aos conselhos que lhe deu Pedro: Adia, adia até teres soluções. Reconfortado pelo alvitre, na posse de uma nova forca, o rei encarou o irmão com determinação: Dizeis-me então que tendes a ambição de vos pordes ao serviço do rei de Inglaterra. Sendo assim, pergunto-vos: o serviço que quereis prestar ao nosso primo Henrique, que lá governa, é mais importante do que aquele que deveis a vosso irmão? Já agora, esclarece-me esta dúvida. tendes vós a exacta medida da importância da vossa presença para a respeitabilidade da coroa? Posto a pensar, o infante Fernando fez apelo ao mais profundo do seu ser para manter um discurso crítico, acusador, sem todavia se exceder nem nas recriminações nem na tonalidade da voz. Sei que sou alguma coisa, irmão, recomeçou o infante Fernando, mas quero ser mais. Quero ter mais reconhecimento, mais poder, ombrear convosco naquilo em que me reconheceis inferior.
Agora mesmo chegou o tempo de esclarecer dúvidas: serei um grande deste reino? Não estou assim tão certo dessa condição. Tudo o que me foi concedido parece ter a importância das sobras, o que restou do que foi dado aos outros. Se é certo que me atribuíste recentemente o Mestrado de Avis, também é verdade que para ser honesto terei de o dividir com a Igreja, por serem bens que também lhe pertence. Eu disto não reclamo, acho justo, pois sabeis bem que por nada cobiçaria a parte da instituição sagrada. Mas isto é quase nada. Quero ser mais, tão grande que possa estar no mesmo patamar dos meus ilustríssimos irmãos, a quem admiro, estimo e que vejo prosperar com tudo aquilo que lhes foi acrescentado. O rei lamentava e cada vez mais se convencia de que aquele irmão mal alinhado se tinha transformado num ser desconhecido para si. A custo, refez a argumentação na ilusão de não alimentar o desânimo do irmão e mais do que tudo evitar manchar o seu relacionamento com ele». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

domingo, 9 de agosto de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… tenho trinta e quatro anos. Os meus bens não são nem metade daqueles que os infantes nossos irmãos têm. Hoje vejo-me em dificuldade para pagar aos meus o que de justiça e direito lhes devo, situação de aperto desprestigiante…»

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Um irmão mal sintonizado
«(…) No entanto, nesse dia não estava para se deixar manobrar, já que decidira não sair dali sem uma resposta: Senhor, é preferível abalar para onde a aventura me chama do que viver no reino com a indignidade de não fazer nada por minha honra e acrescentamento. Vim dizer-vos, entre outras coisas, que nunca mais quero ser tratado como até aqui, menosprezado nas minhas qualidades e na minha dignidade. Desta vez o monarca Duarte I não o interrompeu. Sou o mais pobre de vós, prosseguiu o infante Fernando no mesmo tom. Sou também aquele que menos glória juntou à sua honra e menos respeito ganhou da nação. O que sou eu então? E ele a dar-lhe, aborrecia-se Duarte I. Pobre rei. Afundando-se no cadeirão real, triste, incapaz de ser desagradável com o irmão, pensava nas cartas que o infante Pedro lhe dirigiu de Bruges, lembrando-se de ter lido num dos manuscritos alguns conselhos que ilustravam bem o que ultimamente se passava: … preparai-vos. De entre os pedidos que vos chegarão, alguns terão uma direcção precisa e dirigida à arte militar, confundindo lucros próprios com interesses colectivos. São tentativas para usar a coroa como fachada, oficializar acções pare as quais não tendes vontade nem trazem nada de bom ao reino, mas que vos implica mais do que aos que as cometem. Não valia de nada ao rei divagar. O problema estava ali mesmo à sua frente, teria de se confrontar com ele e nem sabia o que estava para vir.
Devolvido dos seus pensamentos, reparou na figura tolhida de Fernando e não gostou do que viu. A sua análise sugere-lhe que o deve desafiar em vez de comiserar mostrar-lhe que o seu destino não lhe é indiferente, mas para isso precisa que as falas tenham a clareza que a relação entre irmãos deve ter. Convencido de que Fernando se pode abrir com ele, incita-o a revelar os recados que traz escondidos: irmão, quem melhor do que eu sabe quem vós sois. Haverá alguém no reino que vos conheça e ame mais do que eu? Concordai comigo, peço-vos, deixai antes que eu perceba o que vos traz até mim, abri o vosso coração magoado, clarificai o pensamento encoberto. Assim instado, Fernando foi direito ao assunto: … tenho trinta e quatro anos. Os meus bens não são nem metade daqueles que os infantes nossos irmãos têm. Hoje vejo-me em dificuldade para pagar aos meus o que de justiça e direito lhes devo, situação de aperto desprestigiante, indigna num nobre da minha qualidade. Mereço mais, ambiciono mais, mas não se trata apenas de bens. É grande a minha vontade em servir no reino de Inglaterra, onde o reconhecimento da família de nossa mãe me dará a importância que aqui não tenho e os cabedais que cá não possuo.
Para o rei, o dia não era diferente dos outros, e a circunstância de o irmão o requisitar não lhe alterava os hábitos nem os afazeres. Não estava em Lisboa, onde não podia deixar de mostrar as insígnias reais, mas nem lhe passava pelo pensamento fazer o mesmo no Paço de Almeirim. De cabeça descoberta, pendurou no corpo uma camisa de cetim, ou gibão forrado, preferindo este aos de chumaços, que enformavam mais a sua forte compleição. Um cinto pouco apertado cingia-lhe mal a cintura, para deixar cair direito o gibão até meio das coxas fortes, abrigadas por umas calças de tecido de lã com reforço nas partes pudentes. Perante o irmão, parecia um mesteiral. Contudo, não era por isso que a conversa não continuava nem que o seu interlocutor se ia embora.
Não é aceitável que nobres de tão alto gabarito abandonem a pátria, retomou Duarte I a conversa. Deixam para trás os seus haveres e famílias, à procura de um pouco mais daquilo que aqui têm, esquecem afectos, tradições, a língua materna, desvestem-se das suas responsabilidades para com o país. Que dirão de nós as cortes europeias? Certamente pensarão que Portugal não tem quanto baste para sustento de tão dignas personagens, o que é errado e desprestigiante. Quereis vós engrossar o número dos que me abandonam e desencantam? Preocupado, Duarte I perscrutava razões e estratégias para fazer face a um mal-estar provável. De facto o conjunto de apreensões manifestadas pelo rei tinha razão de ser. Os indícios que pressentia começavam a sugerir intromissões sub-reptícias da nobreza na política da coroa, exigindo do monarca reflexões atentas. Para estes senhores, Portugal prosseguia um período demasiado dilatado de paz, favorável a Duarte I, importante para a vida do reino, mas que os levava à ruína». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

sexta-feira, 26 de junho de 2015

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «O que sou eu?, pergunta feita de súbito, desgarrada, impertinente. Contrariado, Duarte fixou o irmão, sem ter na voz uma resposta acabada para lhe dar. O que sois vós, como?, pergunta retribuída com sinceridade»

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Um irmão mal sintonizado
«(…) Entre a possibilidade de uma chalaça ou de uma crítica escondida, o infante Fernando sentiu-se desconfortável. Nem era porque o irmão fosse desconcertante ou que tivesse sequer sentido de humor. Não, nada disso! A sensibilidade da missão que o trazia ali é que o tornava inseguro. Por isso, quis responder, mas a resposta não lhe saiu espontânea e não esteve para rebuscar palavras que o atrapalhariam mais. Sem Duarte I ainda saber, o tema da conversa, que Fernando quer rodear de toda a formalidade, vai no sentido de propor a sua saída do reino em busca de glória e do pecúlio que parece não conseguir gerar em Portugal. Sente-se mal aproveitado, quer sair do reino para dar ao seu nome e à sua Casa a importância que em Portugal não obtém. Isto é o que vai dizer ao rei, embora, por enquanto, lhe omita o verdadeiro motivo da sua presença ali. Embaraçado, hirto, num plano inferior relativamente à posição sentada do monarca, o infante Fernando comprime-se. Não era para menos. Ao esconder o que não queria dizer, omitia a verdade, uma forma próxima da mentira, coisa que se pensasse bem não faria, pois, nessa hora ou em qualquer lugar, Deus estaria de olho nele.
Bom observador, o rei apercebe-se incomodado da descomposta figura do infante, despertando nele um esforço maior para decifrar a mensagem para além do que parece. Mau sinal, pensou o rei, desconfiado. Duarte começava a preparar-se para qualquer eventualidade, mas a questão que o irmão lhe pôs, quase uma provocação, apanhou-o desprevenido. O que sou eu?, pergunta feita de súbito, desgarrada, impertinente. Contrariado, Duarte fixou o irmão, sem ter na voz uma resposta acabada para lhe dar. O que sois vós, como?, pergunta retribuída com sinceridade.
O rei, afastado do que o irmão queria que ele soubesse responder-lhe, entendia que ao devolver-lhe a pergunta invertia o constrangimento que esta lhe causou, além de passar para Fernando a difícil tarefa de se explicar. Senhor, ficai sabendo, que nunca no meu pensamento existirão palavras espúrias que de algum modo vos façam sofrer, volveu Fernando, com uma dureza pouco consentânea com o seu modo sensível. Ao revelar-vos as minhas intenções, estou ciente da vossa compreensão para com o homem que se sente privilegiado por ser vosso irmão, mas, diminuído pelas circunstâncias, também percebe que é o mais infeliz dos príncipes.
- Antes de prosseguirdes, sabei já que a vossa conversa me contraria avantajadamente. Se persistis em substituir no vosso discurso as palavras por imagens, sabei que o meu coração se comprime a cada verbo que pronunciais. Sem ter por enquanto uma solução à vista, Duarte, numa manobra que pretendia fazer precipitar as palavras do irmão, disse-lhe: prossegui então, porque para incompreensões já estou armado. Acusando o remoque, Fernando esperou algum tempo para voltar a dirigir o olhar ao irmão, procurando com manifesta dificuldade recompor-se do golpe recebido. As precedências tinham muito peso, e Fernando, por maioria de razão, apagava-se sempre que tinha de se confrontar com os irmãos mais velhos. Tinha razões para isso. O seu sentimento de inferioridade revelava-se complexo por não ser capaz de vencer a barreira da menoridade, manifestações que o levaram quase a claudicar perante a última tirada do irmão». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… dizei ao criado do rei que quinta-feira depois da vigília da Santa Cruz de Setembro, mais para a tarde, me avistarei com ele e que lhe agradeço o tempo que se dispõe ceder-me…»

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Um irmão mal sintonizado
«(…) Depois de quase três anos de governação sossegada, o reinado de Duarte I encontrou-se com o seu verdadeiro destino. Incomodado, sentiu-se desconfortável, transformando pensamentos em imagens sombrias. Isto porque se registam acontecimentos que o ultrapassam, revelações que não consegue confirmar, mas que alimentam pressupostos preocupantes. Surpreende conversas que acabam quando se aproxima, recebe pedidos dos grandes nobres para abandonarem o país, razão mais do que suficiente para o rei pensar que algo está para acontecer. Indisposto com o clima do diz-que-disse, boatos intencionalmente infundados e de origem desconhecida geram no rei uma grande necessidade de descobrir o que até ver não passaria de suspeições. O rei, sempre temente a Deus e à Santa Madre Igreja, sem contudo partilhar os obcecados fundamentalismos do infante Henrique ou os exageros devocionais do infante Fernando, ficava mais perto da pragmática militância cristã do infante Pedro. É dentro deste estado de espírito que receberá, sem entender porquê, um pedido de audiência do irmão mais novo, o qual considerou despropositado, dada a relação próxima que tinha com ele. Deste modo pensando, como resposta, Duarte I mandou ao irmão um mensageiro sem mensagem escrita, pois não pretendia ser demasiado protocolar, quando a pessoa a quem se destinava o recado não era de cerimónias: sua senhoria o nosso amado rei, enviou-nos dizer que vos espera; pediu-me também que vos lembre de que sereis sempre bem recebido, isto porque não percebe o tamanho de tanta formalidade.
Desmontando da alimária, em vénia respeitosa, o cavaleiro ficou a aguardar por uma resposta. Enganou-se. O infante Fernando, um tanto desarmado, pressentiu no recado do rei uma crítica, e deste modo apenas permitiu ao homem desfazer o salamaleque e aguardar pela réplica, porque tinha ainda de pensar na refutação. A resposta deveria ser simples, refutar era desajustado, um sim ou um não chegavam, por que razão se punha o infante Fernando numa posição defensiva e de semblante fechado? Sem aviso, o infante virou as costas ao cavaleiro na direcção da casa, por coincidência localizada nas suas terras de Salvaterra, mesmo ao lado do Paço de Almeirim, que com elas fazia extrema e onde o monarca Duarte se quedava por essa altura. João Rodrigues, escudeiro servil, homem da sua intimidade e confiança, foi atrás dele. Conhecia-lhe os hábitos e toda as sequências do quotidiano, e nesta conformidade o aio não tinha qualquer dúvida sobre o caminho que levavam os seus passos, encontrando-o junto do altar da capela pessoal, dentro da câmara, onde muitas vezes resistia ao sono para em oração se oferecer a Deus. Era uma rotina diária, preenchida de constantes e piedosas rezas, acrescentando à sua extensa lista de divindades outros motivos para rezar.
Sem mais santos para velar, continuava as preces entremeando vigílias com jejuns diários, em nome das construções imateriais que lhe devoravam a cabeça. Dominado pelo sectarismo religioso, entregava a alma a Deus, a Cristo, a todos os santos, também à Igreja, que lhe alimentava o facciosismo e ficava com os bens. João Rodrigues, quase a sua alma gémea, convivia com todo este fervor religioso, ele próprio partilhava os serões e as sentinelas, privando-se do sono para seguir disciplinado o seu amo. É verdade que ultimamente lhe tinha espreitado no semblante um abatimento fora do habitual, já não o cansaço provocado pela fome e pela subtracção do sono, apercebendo-se de que se tratava de uma coisa mais íntima, um sentimento que o fazia sofrer, e já não o êxtase do sofrimento. Preocupado, deteve-se de pé junto da ombreira da porta do quarto, em silêncio, à espera que o infante Fernando pusesse fim à mediação encetada com a divindade e lhe revelasse a resposta que havia de dar ao escudeiro de do irmão Duarte. De onde estava via-lhe sem dificuldade as costas, não tão bem como se o visse à luz do dia, mas o suficiente para lhe ver explícitos os contornos do corpo genuflexado. Reparou como o infante se levantou lentamente e como fez a última saudação, seguida do sinal da cruz, ligações divinas mais eficazes quando feitas sob restrição da claridade, dentro dos templos, que neste caso era um pequeno oratório no interior do quarto. Viu-o depois virar-se, seguir na sua direcção, percorrer a distância de cabeça baixa e olhar no chão, parando para lhe dirigir a palavra mansa, monocórdica, enlevada: dizei ao criado do rei que quinta-feira depois da vigília da Santa Cruz de Setembro, mais para a tarde, me avistarei com ele e que lhe agradeço o tempo que se dispõe ceder-me. Depois, só para João Rodrigues ouvir, lembrou-o: amanhã não posso, é quarta-feira, jejuo todo o dia. A tal quinta-feira chegaria. Duarte I, numa tarde aborrecida cheia de trabalho, viu chegar o irmão até si e saudá-lo pronunciadamente, gerando nele um comentário enfastiado. Senhor, meu irmão, de vós não mereço tamanha reverência, disse-lhe o rei». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de CAutor/JDACT

sexta-feira, 30 de maio de 2014

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… as trombetas e charamelas dos músicos dentro do Paço Real, juntamente com os sinos da Sé, ali mesmo em baixo, começaram a troar os seus fortes sons, sinais indistintos do momento em que o rei seria aclamado»

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O Princípio
«(…) Após uma breve pausa para retomar o fôlego, o judeu afinou as cordas vocais para concluir o que no seu entender correspondia à salvação do infante: - Ordenar-vos-ia se a minha autoridade chegasse a tanto. Como não chega, rogo-vos, rastejo a vossos pés para que adieis o acto que estais prestes a concretizar. O meu amo, ponderai. É que não vos custa nada adiar por umas horas a cerimónia, para serdes feliz. Sem pronunciar palavra, o príncipe, via-se bem, tinha chegado ao último dos limites que concedera a Abraão Guedelha e a si próprio. Num gesto compreensível, mandou levar o inconsolável cientista, passando das mãos nobres dos infantes para as mãos rudes dos guardas reais e dali para longe do rei. Debilitado, Guedelha, mesmo assim, quis mostrar que a força cansada do corpo não se reflectia na voz. Encheu os pulmões de todo o ar que pôde e num brado disse as palavras malditas: - Não me dais ouvidos? Não quereis ser feliz? Rejeitais as poderosas razões dos astros? Então, o teu reinado será de grandes tormentos.
O silêncio que se seguiu às palavras do mestre significou mais um pesadelo do que um momento de reflexão, pois uma maldição acabava de cair sobre aquele que iria governar Portugal. Ninguém naquela reunião entendia de astrologia, a não ser o mestre, mas todos ficaram silenciosos, ainda mais porque em forma de premonição acabavam de escutar um mau agoiro. Agitado, levado aos encontrões, ao mestre de nada lhe valeu estrebuchar. Convinha até que o não fizesse, porque os limites da sua segurança física estavam azero, e dali em diante, tudo quanto dissesse voltar-se-ia contra si, expondo a sua integridade claramente ameaçada. Não desconhecia que se tinha excedido, receava até pelo que lhe viesse a acontecer, muito embora confiasse na bondade do rei e no momento de grande elevação que se vivia na corte. Martirizava-se, no entanto, quando pensava naquele homem sem tempo, por quem era capaz de tudo, até de morrer. A cerimónia seria antes do meio-dia, pensou Guedelha, que fosse. Servia-lhe tão bem como até ali, mas, infelizmente, adivinhava o Mestre, mais vezes, em condições bem mais difíceis e por menos tempo.
Livre dos comentários do físico, o rei Duarte abandonou o local da controvérsia, num passo levitado, deixando que o seu corpo cumprisse o que a mente lhe pedia. Saboreando cada contracção dos músculos, sentou-se no cadeirão real para dar início às cerimónias. Ali perto, do outro lado das muralhas, ouviam-se as vozes dos populares. Não tinham os problemas transcendentais dos senhores do castelo, estavam limpos tanto quanto podiam, vestiam-se do que tinham de melhor, não renegavam a sua condição de servidores de todos os serviços. Homens e mulheres, jovens ou velhos, gritavam estridentes vivas ao infante, entremeadas de excessos verbais que lhes ficava bem e os divertia. Os homens, sempre em maioria, entontecidos pela excitação da maralha e pelo vinho que corria nas gargantas, de borla, pela graça de sua senhoria o príncipe Duarte, empunhavam nas mãos engrossadas por trabalhos agressivos as suas alfaias, reconhecimento provado de uma identidade social e profissional. Cavadores ou abegões, regateiras ou vendedeiras, estavam todos convictos de que a sua presença era indispensável naquele momento de exaltação.
Os moços, menos atentos aos actos institucionais, fossem eles mancebos da lavoura, das ovelhas ou aprendizes das mais diversas profissões, perseguiam-se entre a multidão em correrias e esquivas nem sempre conseguidas. Entretanto, dentro do castelo, tudo se preparava para confirmar a sucessão do filho varão de João I e de D. Filipa de Lencastre. Depois de um silêncio reclamado, as trombetas e charamelas dos músicos dentro do Paço Real, juntamente com os sinos da Sé, ali mesmo em baixo, começaram a troar os seus fortes sons, sinais indistintos do momento inesquecível em que o rei seria aclamado». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. Autor/JDACT

terça-feira, 15 de outubro de 2013

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Olhavam-se incrédulos, esperavam ouvir Duarte dizer as palavras certas, assistentes da singular representação, sem interferirem. Além dos infantes, que nunca perdiam de vista o rei…»

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O Princípio
«(…) Ao argumentar desta maneira, no mesmo fôlego, o rei ainda sem coroa desejava mais uma vez pôr fim a uma conversa que nunca deveria ter ocorrido. O que estava em causa naquele momento de júbilo para o infante Duarte era que o infante desprezava os atalhos do destino. Ignorava os conselhos de um sábio que o assistia bem, há anos, expondo-se às vicissitudes do que são as fronteiras do compreensível. Para quê tanta intransigência? Para quê desafiar os astros? Porque não ceder, fazer um intervalo, esquecer por momentos que Deus tudo comanda? Naquele tempo, sem hora marcada, uma cultura do havemos de chegar ou do quando chegarmos está na hora, a ideia de exactidão horária era destituída de sentido. No entanto, para o agoirento judeu, havia um tempo útil em que se poderia aceder a tudo favoravelmente e um tempo ruinoso para o qual se deveriam tomar todas as precauções. As suas recomendações, tão elaboradas como insistentes, iam nesse sentido. O que propunha a Duarte era um tempo proveitoso que o favorecia e não uma trapalhada saída da cabeça de um duvidoso feiticeiro. Por isso, a rejeição do rei, no entendimento do mestre, significava ruína, desgraça, um tempo cruel. Tudo fazia crer que o cientista tinha terminado os seus argumentos. Eis senão quando, ruminando entre dentes frases imperceptíveis, qualquer coisa inaudível logo tomou caminho atrás de Duarte. Não conseguiu. Os irmãos do futuro rei, que o seguiam de perto, sustiveram-lhe o passo, aproximando o rosto deles ao do mestre, numa ameaça de ferocidade e dureza. - Estugai os passos se não quereis o fim eterno deles - disse-lhe João, o mais determinado dos três infantes presentes, ou não fosse ele o condestável do reino.
Apanhado por todo o poder do reino, mestre Abraão Guedelha estacou, pronto para obedecer, sem deixar mesmo assim de fazer uma última tentativa no sentido de virar a atenção do homem que lhe mostrava as costas. Queria ver-lhe o rosto, perceber até que ponto podia convencê-lo, mas o que viu foi um rosto alterado, negando o que se dizia dele: que tinha olhos moles num rosto enverrugado. Enquanto Abraão Guedelha aguardava suspenso nas mãos fortes dos infantes, Duarte, incomodado pela insistência, preparou-se então para castigar o mestre. Já perto dele, encarou-o, indignado, abrandando os ímpetos ao reparar na imagem distorcida do homem que tanto estimava. Na sua frente não estava o sujeito de extrema bondade, nem o reverente físico que todos os dias ouvia as suas queixas, o aconselhava e regulava os seus males. O rosto de Guedelha, desde há instantes, tinha começado a sofrer alterações significativas sob o comando da sua macrocéfala cabeça. A testa e os sobrolhos franzidos concentravam-se, pressionando-lhe os olhos numa máscara de autoridade que não lhe era permitida. Os lábios, diminuídos pela pressão dos maxilares um contra o outro, sugeriam um rosto perturbado, pronto a actuar, sem medir as consequências dos seus actos. Via-se bem, o mestre tinha há muito ultrapassado não só o risco como a sua própria personalidade.
 - Senhor, perdoai a este servidor que tanto vos quer a ilimitada ousadia da persistência. Não o faria senão vos conhecesse tanto e amasse mais. - A cena era desanimadora. Toda a corte em vésperas da festa real se virou para o sábio, olhos postos naquela peça fora da engrenagem, surpreendidos pela desfaçatez de um nada sem existência própria, como o reconheciam. Todos juntos, no terreiro do Paço da Alcáçova do castelo de São Jorge, a nata da nobreza portuguesa apresentava-se a preceito para festejar a subida ao trono do elemento mais velho da Ínclita Geração. Olhavam-se incrédulos, esperavam ouvir Duarte dizer as palavras certas, assistentes da singular representação, sem interferirem. Além dos infantes, que nunca perdiam de vista o rei, e do conde de Viana, Pedro, alferes-mor de Duarte, que empunharia a bandeira real no acto de elevação, estavam tambémalguns representantes da Igreja portuguesa, encabeçados por Álvaro d'Abreu, bispo de Évora, encarregado das palavras que precederiam a entronização. No meio da fuzilaria dos olhos, o pobre Abraão Guedelha elevou a voz, reunindo ainda mais as atenções sobre si. Esforçava-se agora para que, no meio daqueles homens de semelhante condição, entendessem a sua mensagem e a defendessem junto do provável rei, porque valia a pena um último esforço, mesmo sabendo que corria todos os riscos. - Escutai as minhas alegações, senhor, suplico-vos. Depois, se achardes que mereço, se pensardes que fui longe demais, submetei-me ao vosso veredicto». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

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domingo, 15 de setembro de 2013

O Regente Pedro. Príncipe Europeu. Mário José Domingues. «… mercê da acção inteligente e subtil de homens como ‘João das Regras’, ‘Lourenço Vicente’, arcebispo de Braga, ‘João Afonso Azambuja’ e outros, ao defender a independência do reino simultaneamente defendesse uma nova ordem social, instaurada pela “Revolução de 1383”»

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A Ínclita Geração
«(…) Mas enquanto o rei João I era vivo, ninguém podia prever até que ponto chegavam as pretensões daquele filho bastardo, que, casando com a filha de Nuno Álvares Pereira, fundara a mais abastada e poderosa casa fidalga do reino, depois da casa Real. Já alimentaria desmedidas ambições, embora tivesse o cuidado de as dissimular em presença do monarca seu pai. Este teve, no entanto, algumas culpas nos recalques desse filho natural, que mais tarde haviam de explodir com tanta violência, que deixariam manchadas para sempre as páginas da história lusitana num dos seus períodos mais brilhantes. Foi precisamente no início da expansão portuguesa nas Colónias. Castela, após uma série ininterrupta de desaires sofridos, por obra da espada invencível de Nun'Álvares, persuadira-se finalmente de que a conquista do trono português não passava de sonho insensato. Assinaram-se, em 1411, entre os dois países, pazes eternas, para as quais muito contribuíra a feliz circunstância de ser a rainha castelhana irmã de D. Filipa, rainha de Portugal. Um novo ciclo histórico abrira-se neste reino, mercê de uma profunda Revolução de espírito acentuadamente burguês.
Terminadas as lutas contra o vizinho peninsular, a fidalguia, a classe guerreira, quedara-se numa ociosidade que, além de avessa à sua índole, podia transformar-se em agente de distúrbios no reino, transtornando um certo equilíbrio que a Revolução trouxera às três classes sociais, nobreza, clero e povo, tacitamente submissas à autoridade de um monarca, que alcançara as simpatias gerais e um prestígio suficientemente forte para se fazer respeitar nas suas decisões, que procurava tornar tão equitativas quanto possível. Quem mais se temia de que este equilíbrio se alterasse era a classe burguesa, em franca ascensão política, embora seus interesses ainda se confundissem em parte com os do povo trabalhador de que era oriunda. Ela já conseguira, mercê da acção inteligente e subtil de homens como João das Regras, Lourenço Vicente, arcebispo de Braga, João Afonso Azambuja e outros, que a nobreza, ao defender a independência do reino contra as arremetidas de João de Castela, simultaneamente defendesse uma nova ordem social, instaurada pela Revolução de 1383, que tivera seu começo visível na morte do conde Andeiro.
Extintos os últimos ecos das batalhas, consolidado o trono português, iniciada uma nova dinastia, à qual João I imprimia o cunho da sua argúcia e da sua prudência, e sua mulher D. Filipa o selo da mais austera moralidade, verdadeira obra de regeneração de costumes na corte e no reino, a burguesia principiava a recear que o período de quietação que se seguira, viesse a ser perturbado por uma nova geração de nobres, ansiosa por engrandecer-se, à semelhança de seus pais e avós. Classe guerreira por excelência, a nobreza não conhecia, ou não admitia outra honrosa tarefa para engrandecimento pessoal senão a da guerra. A carreira eclesiástica, em que alguns raros ingressavam, não bastava para saciar a sua sede de riqueza e de honrarias. O Comércio era considerado vil para homens que manejavam uma espada e se orgulhavam de ser cavaleiros; a Lavoura começava a ser encarada como ocupação própria só de servos, sob as vistas distantes dos senhores, a quem apenas interessava a renda, por vezes cobrada com certa violência. Os torneios eram bonitos, mas não passavam de lutas simuladas, exercícios vistosos, um desporto, sem mais finalidade do que o de agradar a donas e donzelas. Só na guerra a classe nobre julgava encontrar missão à altura da sua importância social. Como que a denunciar a inquietação da juventude fidalga, as próprias aspirações dos filhos mais velhos de João I, em situação semelhante à dos filhos de tantos senhores em todo o reino, tornavam-se bem eloquentes aos olhos observadores dos conselheiros deste monarca, norteados pelo espírito burguês da Revolução que gerara a dinastia de Avis. Não havia a menor dúvida: era preciso achar-se um derivativo, uma ocupação para aquela mocidade estuante de vida, ansiosa por esbanjar as suas energias à vontade.
O antigo mestre de Avis, agora monarca, bem sentado no seu trono, ficara farto de guerra e sentia-se com direito de passar o resto dos seus dias repousadamente. Como em regra acontece aos homens de idade madura, já não entendia muito bem a geração que lhe sucedia. Acomodara-se à ideia de que os filhos mais velhos, ao rondarem as suas vinte primaveras, deviam sentir-se muito felizes por viverem num reino em paz, onde tudo parecia achar-se nos seus definitivos lugares, sem que fosse preciso empreender modificações. Mas não era bem assim. Os rapazes tinham as suas aspirações, embora lhes falecesse a coragem de confessá-las ao pai, por quem experimentavam uma mescla de respeito e de temor, inculcada em seus espíritos pela educação britânica de sua mãe».

In Mário Domingues, O Regente Pedro, Príncipe Europeu, Empresa Nacional de Publicidade, Colecção de História de Portugal, nº 7, Lisboa, 1964.

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terça-feira, 9 de julho de 2013

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Que dizeis? - espantou-se o rei, que irracionalidade quereis transmitir-me? Que vindes dizer-me neste dia de aleluias, em que o Senhor me escolheu e a mais nenhum para governar Portugal? Escuta bem, mestre!»

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«(…) É isso mesmo que se prepara sem demora para dizer ao rei: - Senhor, adiai o acto de investidura até passar o meio-dia, rogo-vos. Por sua vez, o que lhe responderá Duarte perante tão aziago palpite, na hora do seu contentamento. – Que dizeis? - espantou-se o rei, que irracionalidade quereis transmitir-me? Que vindes dizer-me neste dia de aleluias, em que o Senhor me escolheu e a mais nenhum para governar Portugal? Escuta bem, mestre! Não quero nem ouvir falar do que só Deus é capaz de decidir. Artes misteriosas, maus auspícios, não são hoje para aqui chamados, e o momento, de tão transcendente, só ao Altíssimo diz respeito, a mais ninguém, muito menos aos seres humanos como tu, que nem és da religião perfeita. Além disso, não vos encomendei nada nem tenciono seguir os vossos conselhos, porque Deus é o maior e é por Ele e com Ele que penso reinar.
Conversa acabada, pensou Duarte. Enganou-se. O físico, perplexo, entre a importância que dava à descoberta e a injustificada rejeição do infante, não iria nem por sombras ficar-se por ali. Artes misteriosas? O futuro rei de Portugal não estava a ser justo com uma arte que já o tinha beneficiado em consultas anteriores, insurgia-se o judeu em silêncio. Mestre Guedelha, fiel aos ensinamentos dos antigos, baseava os seus estudos de medicina e os diagnósticos em determinações astrológicas, fenómenos para ele infalíveis, vindos do Alto, tal como o rei, que olhava com reverência para o Céu. Um usava os astros, o outro o Protector Celestial.
O momento era delicado. O físico, depois de consultar o pensamento, desesperado por o rei não lhe prestar a atenção que pensava merecer decidiu dizer-lhe o que descobrira. - Senhor, a consulta que fiz aos astros é bem clara. Deveis deixar passar o meio-dia para logo acederdes à real sucessão - sentenciou. A frase, dita num tom imperativo, fez Duarte, mais que surpreender-se, indignar-se, enquanto Guedelha se empertigava, profundamente convicto do que dizia. - Que astros observastes vós para fazerdes uma tão inesperada afirmação? - questionou Duarte com azedume. O mestre, ajoelhado aos pés do infante, levantou mais os olhos do que a cabeça, procurando também ajeitar os sons das cordas vocais para tons mais convincentes, disposto a vencer o cepticismo do infante. - Júpiter está atrasado e o sol pouco perceptível, descaído, incerto, explicou Guedelha, antes do meio-dia, a reunião destas condições determinam um futuro pouco auspicioso para o vosso futuro reinado. Senhor, dai-me ouvidos, não vos exponhais a uma conjuntura astrológica tão desfavorável.
 - Coisas de iluminado, exclamou Duarte, agradeço-vos a preocupação, que me parece sincera, acredito que os elementos sobrecelestes influenciam os seres inferiores, respeito a ciência astrológica, mas hoje deixai-me. Hoje não! A protecção divina é a única que neste momento respeito e confio. Não foi Deus que fez o Céu e a Terra? Como poderia eu ceder às forças que sem o Seu poder se quedam inanimadas? Não sabes que o Sol, a Lua, Marte ou Júpiter têm a vida que Deus lhes quis dar. Entendeste? Entendeste mesmo. Se aceitasse a tua proposta, isso sim, estaria a demonstrar fraqueza, desconfiança, pouco amor, e então expor-me-ia à Sua mão justa. Entendeste? Entendeste como estás a abusar dos desígnios do Senhor e da minha paciência? Sem parar , contrafeito pela insistente argumentação do mestre, Duarte prosseguiu: - Deus sabe que lhe devo veneração e lha pago com toda a devoção. Conhece-me, sou seu honesto servidor, e sabe que mereço o mando que hoje passará do meu pai para mim. Que contradição pode haver nos astros, se tenho a Sua bênção?

In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «Não consentiu a morte tantos anos que de Herói tão ditoso se lograsse Portugal, mas os coros soberanos do Céu supremo quis que povoasse; mas para defensão dos Lusitanos deixou, quem o levou, quem governasse e aumentasse a terra mais que dantes; Ínclita geração, altos Infantes!»

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O Princípio
«(…) Rei morto, rei posto! O país não tem de esperar tempo algum para que o novo rei se adapte às coisas do mando. O infante Duarte, homem feito de quarenta e dois anos, nascido em Viseu em Outubro de 1391, está preparadíssimo para assumir o governo do reino. Rei morto, rei posto! As cerimónias fúnebres foram rapidamente esquecidas, para darem lugar a outras de júbilo e confirmação. O futuro rei, infante de grande fervor católico e afeição fraternal, reuniu-se em conselho com os seus irmãos, órgão restrito e elitista onde só eles cabiam, certo de certificar o seu poder através da afectividade dos maiores senhores do reino, seus partidários e semelhantes. Quem melhor do que a família próxima para dar conselhos, motivar ou manifestar fidelidade?
Reuniram-se os infantes Henrique, João, Fernando e Afonso de Barcelos. Quem não esteve presente nesse conselho nem nas exéquias do pai, e devia ter estado, foi o infante Pedro, para completar a irmandade da Ínclita Geração. Porquê Ínclita Geração? Porque ilustre, solidária, culta, poderosa, como Luís Vaz de Camões a viu no excelso verso que lhes dedicou no Canto IV de Os Lusíadas.

Não consentiu a morte tantos anos
que de Herói tão ditoso se lograsse
Portugal, mas os coros soberanos
do Céu supremo quis que povoasse;
mas para defensão dos Lusitanos
deixou, quem o levou, quem governasse
e aumentasse a terra mais que dantes;
Ínclita geração, altos Infantes!
In Os Lusíadas, Canto IV, v. 50

Hora boa, hora má. Antes ainda de o conselho familiar se reunir, seria de transcendente importância purificar a alma do futuro rei. O seu confessor, chamado a ouvir as culpas que a consciência de Duarte juntara, absolveu-o de todos os pecados. Pecados teria, temos todos, mas seriam muitos ou poucos os do futuro monarca? Graves, perversos ou ingénuos? Fossem os que fossem, Duarte, por amor à causa divina, nunca assumiria o governo do país sem lavar primeiro a alma. O futuro Eloquente, como ficou conhecido, desejava parecer bem, não queria naquele dia tão importante da sua vida que alguma coisa fosse deixada ao acaso, já bastavam outras cerimónias das quais não gostava de se lembrar. Mas isso eram águas passadas. Tanto mais que ele e a futura rainha formavam um par unido, e mesmo apaixonado.
Não seria por a cerimónia do seu casamento não ter tido o brilho que outras suas congéneres tiveram que ele agora, no dia da sua maior façanha, deixaria de corresponder ao que dele se esperava. Pelo sim pelo não, Duarte desta vez tratou de tudo até aos mais ínfimos pormenores, porque depois da morte do pai já ninguém o superiorizava. Dali para a frente seria o rei de Portugal, todos o deveriam ver e sentir como tal, tanto quanto os primeiros sinais na maior parte das vezes são determinantes. Compenetrado, nesse 15 de Agosto de 1433, o príncipe vestiu-se dos melhores panos e cores que a sua condição real merecia e permitia, espreitando aqui e ali para ver se tudo estava na maior ordem e concórdia. Contudo, Duarte acabou por ignorar a imponderabilidade, a regra madrinha dos grandes acontecimentos. Nesta cerimónia, como noutras, aparecem sempre os desmancha-prazeres, alguém ou alguma coisa que chega para estragar a festa. Quando Duarte se preparava para entrar no Paço da Alcáçova, onde iria receber o ceptro real numa cerimónia celebrada ao ar livre, foi abordado por Mestre Abraão Guedelha, físico da sua Casa, seu médico particular, homem de grandes capacidades na arte de curar doentes e antever as coisas.
O que é que lhe quereria o mestre com tanta urgência? Estranhou Duarte em pensamento. Paralelamente à função de físico, o judeu Abraão Guedelha era estudioso dos astros, ocupação que não era totalmente incompatível com as suas tarefas de médico, antes pelo contrário. Esotérico e divinatório por um lado, cientista exacto por outro, chamavam-no a fazer previsões de tempo, de oportunidade, de carácter, ao mesmo tempo que curava feridas, fazia punções e receitava drogas. Mostrava como Júpiter interferia nos mais calados e menos nos mais audaciosos, opunha-se a certas manifestações que estivessem sob a influência da intercepção lunar com o Sol, lia nos astros sinais que os outros não conseguiam compreender, ligando-os depois à vida das pessoas, com resultados respeitáveis.
Convinha, pensou o físico, que o futuro chefe dos portugueses, antes de fazer o mais importante investimento da sua vida, soubesse o que os astros lhe reservam. Guedelha conhecia o Mapa Natal ou Carta Astrológica do rei, sabia que para este infante pouco dado a folias teriam os astros de se posicionar sem interferências, bem regulados nos seus lugares, para não haver surpresas. Nada de situações ambíguas, intermédias, porque estas revelavam maus presságios. Por isso, assim tão convencido, estudou a astrologia horária, um mapa feito no momento para obter dele a resposta à questão que tinha posto a si próprio: Estarão os astros à hora do levantamento do rei bem posicionados para lhe propiciar um excelso reinado?
A resposta revelou-se negativa. Preocupado, socorreu-se da astrologia selectiva, que lhe mostrará a melhor hora, o momento azado para tornar feliz o reinado do presuntivo rei. O que lhe diz a observação dos astros desta vez: Só depois do meio-dia, intuiu o cientista».

In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

terça-feira, 28 de maio de 2013

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «… deram lugar a um brilho intenso, louco, gerador da mais incontida agitação. - Promessa cumprida! Promessa cumprida! - clamava o rei, de um lado para o outro da sala pouco folgada, elevando a voz de cada vez que pronunciava as palavras»

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«(…) Àquela hora da noite estaria sua senhoria de pé? Recebê-lo-ia? Estenderia a sua mão até junto da dele? Deixá-lo-iam ao menos chegar perto do rei?, tudo perguntas que o cavaleiro até chegar ao destino não podia responder. Encurtando o caminho, o mensageiro subiu a colina na direcção do Castelo de São Jorge, onde o rei dormia a essa hora o sono dos heróis. Ali chegado, verificou espantado como as portas se lhe abriram assim que anunciou ser enviado do adail-mor Diogo de Bairros. Aquela surpreendente facilidade mais reforçou nele a importância da missão que o levava antes de todos os tripulantes à casa do poder real, sentindo um desejo enorme de saber do que tratava a missiva que transportava, uma tentação imprópria, que o mensageiro logo reprimiu, não se atrevendo a quebrar o lacre que testemunhava a inviolabilidade da carta e a identificação da origem. Finalmente franqueou as últimas portas até à antecâmara onde o rei já o esperava. Lá dentro, a visão do monarca foi para ele uma experiência única, ao contemplar o maior senhor de Portugal nos seus mais simples preparos.
Vestido apenas com umas bragas feitas de linho bragal, enfiadas à pressa quando o informaram da presença do mensageiro, Afonso V mostrava à reduzida audiência um peito rijo, musculado, reflexo da constante prática de cavalaria e do exercício das armas. Embora tivesse fama de cuidar muito bem da sua imagem, uma vaidade que o distinguia entre outros da sua condição, naquele momento, em que mal controlava a emoção, o rei excluía mesuras e etiqueta inoportunas. Cá está o rei em pessoa. Desprovido, natural, um homem como os outros, rememorava o cavaleiro. O que se seguiu foi uma autêntica desilusão para o enganado homem, não tanto pelo prémio, que acabaria sempre por ganhar, mas porque perderia o melhor do espectáculo. - Meu muito amado senhor - reverenciou-se o mensageiro com um joelho por terra, a mão direita no peito, a cabeça baixa e a carta na outra mão, aquela que lhe impulsionava o braço ao encontro da mão do rei. Não terminou a frase. Afonso V incapaz de controlar a ansiedade, interrompeu-o deseducado.
 - Deixai-vos de preâmbulos, dai-me célere o documento que trazeis convosco, posto que mal posso esperar - disse-lhe, injusto, enquanto ágil no gesto lhe arrancou o escrito da mão. Precipitado, o monarca voltou as costas ao surpreendido cavaleiro e a todos que estavam presentes na sala, seguindo-o apenas o camareiro, seu confidente e homem de confiança, para nos aposentos mais resguardados ler o conteúdo do documento que há tanto tempo esperava com impaciente expectativa. Lá dentro, num gesto sem reflexão, abriu logo a missiva, procurando nas palavras escritas uma justificação para estar acordado àquela hora. Então, numa reviravolta estonteante, a alegria invadiu o rosto do monarca, traindo nele a pose real que a notícia desfazia e a hora autorizava. A mensagem chegava com as notícias esperadas. Num ápice, os olhos, estremunhados pelas poucas horas de sono, deram lugar a um brilho intenso, louco, gerador da mais incontida agitação. - Promessa cumprida! Promessa cumprida! Promessa cumprida - clamava o rei, de um lado para o outro da sala pouco folgada, elevando a voz de cada vez que pronunciava as palavras.
Deteve-se, por fim, fulminado pelo transcendente momento que estava a viver, caindo desamparado de joelhos diante do oratório a um canto dos aposentos. Mãos unidas, pescoço hirto, rosto erguido ao alto, lá foi perscrutando o artefacto litúrgico onde estaria a imagem insubstancial de Deus. Agradecia e evocava a memória do pai, o falecido rei Duarte, a quem tinha feito aquela promessa, um voto que não lhe foi requisitado, antes assumido por uma criança sem idade para reinar, e que, desde tenra idade, quando começou a ter entendimento, sempre conviveu com o olhar triste do pai, sem meios nem apoios para resgatar o ente querido deixado como refém, para que outros sobrevivessem pelo seu gesto.
A sua obsessão terminava naquele dia. Dali em diante, o rei não queria saber de mais nada a não ser o modo como haveria de festejar a novidade, pois o Africano só pensa nas grandes celebrações que vai realizar, dando-lhes o brilho e o significado que o instante merece, sem descuidar em momento algum a sua própria promoção. Não ignora, contudo, que só no final dos festejos poderá gozar os louros do seu empenhamento, porque ao receber a missiva de Bairros, naquela noite, só estava concluída mais uma fase da operação. A seguinte começaria logo depois de mais umas horas de sono, quando desse início aos preparativos que tão grande acontecimento exigia.
Mas para quê tanta precipitação? Afonso V já esperou tantos anos pela conclusão quase feliz do acontecimento, esperará algum tempo mais até que se perceba por que razão reza e dança com uma carta na mão, e só depois terá legitimidade para comemorar.

O Princípio
Na madrugada de 14 de Agosto de 1433, João I deu o último suspiro. O velho rei, após quase cinquenta anos de reinado, um dos mais longos da monarquia portuguesa, cederá o cadeirão real ao primogénito da Ínclita Geração». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT

domingo, 19 de maio de 2013

O Mistério do Infante Santo. Jorge Sousa Correia. «A discórdia dos irmãos unidos por laços de sangue e separados por ambições pessoais, mistérios bem guardados e conspirações políticas. A glória e a queda de uma “família perfeita”»


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Volta à terra que te viu nascer
«(…) Por sua vez, o enviado do rei de Portugal, Diogo de Bairros, adail-mor do rei, homem da sua inteira confiança e grande conhecedor do terreno e do quotidiano marroquinos, investido de todos os poderes necessários para levar por diante a missão, tinha feito os contactos fundamentais para tornar úteis as condições que os portugueses dispunham no Magrebe em 1472. Desta vez, Afonso V conseguiu juntar o capital suficiente para fazer regressar ao reino a encomenda que há tanto tempo, incompreensivelmente, tinha saído e não voltara.
Em Ceuta, os portugueses mantinham reféns o filho e as mulheres do Mollexeque da vencida praça de Arzila, um bem ao qual o mouro dava o maior valor criando assim boas condições para o monarca português poder negociar em posição de superioridade. O negócio consistia em trocar seres humanos vivos por restos, mas, dentro de uma política de olho por olho, dente por dente, a intenção era justa e resultava eficaz. Esta cidade tinha sido a primeira praça conquistada no Norte de África, em 1415, reinava em Portugal João I, avô de Afonso V tendo atrás de si uma longa história de resistência aos magrebinos. O que pretendia fazer o Africano português com os familiares do Mollexeque de Arzila cativos? Quando o rei tomou conhecimento do valor político dos capturados, o seu pensamento não mais deixou de estar ocupado com a oportunidade que se abria de, finalmente, recuperar a relíquia há muitos anos inanimada em Fez.
Contudo, levantavam-se outras questões que o deixavam inquieto:
  • Seriam os filhos e as mulheres do Mollexe que suficientes para executar a permuta? Seria desta vez que os mouros negociavam com tolerância o que restava do objecto precioso há tanto tempo desprezado, questões a que o rei podia por fim responder sem se enganar.
Sentindo-se possuído pelo sonho dos grandes feitos passados contra os infiéis, Afonso V fez das cidades marroquinas viradas para a Europa um palco de guerra sem quartel, tudo por culpa da malograda tentativa de 1437 para conquistar Tânger, evento que deixou marcas profundas no moral do reino, mas agora o rei podia reivindicar compensação. Belfagege ainda terá oferecido a Afonso pelo resgate dos seus familiares uma quantidade de ouro difícil de ignorar, mas o monarca vitorioso rejeitou-a, por inconvertível para o seu projecto. Para ele, não! Em vez do vil metal, o soberano de Portugal e das praças de Ceuta, Alcácer Ceguer, Tânger, Arzila, Larache, um rei tão africano como outros, queria o corpo sacrificado que pendia dentro de um caixão há largos anos, para exemplo do poder e da ideologia religiosa dos muçulmanos, mas de descrédito para os cristãos.
- Iria pensar no assunto, respondeu o rei de Fez, contrariado. Pela sua parte, Afonso não queria nem ouvir falar noutra proposta que não fosse a entrega do ataúde. Ou vinha o esquife ou o rei ficava com menos duas das suas mulheres e um filho. Finalmente, demonstrando o pragmatismo que o arresto dos seus familiares obrigava, o senhor de Fez, terminado o período de reflexão, aceitou as exigentes jogadas de Afonso, pelas significativas razões enunciadas. Tudo corre como o planeado. Instruídos pelo responsável da missão, todos sabiam o seu papel, e, por isso, o adail-mor não precisava de se preocupar. Tinha retardado a viagem para poder chegar a altas horas da noite sem ser visto, e ainda por cima, por doação divina, o nevoeiro engoliu o barco logo à entrada da barra. Contudo, era necessário comunicar com o rei.
Cortando os rolos de nevoeiro que sobrelevavam as águas, saiu da caravela uma embarcação transportando o mensageiro e a sua besta muda. Chegados à praia, num salto, o cavaleiro pôs os pés na areia ainda submersa, puxando com força o cavalo relutante em experimentar a água fria. Já com os pés assentes em terra firme, mais uma etapa vencida, o homem encheu-se de satisfação por ter sido o escolhido de Bairros para chegar até à presença do rei, segurando com força contra o peito, debaixo da camisa, o traslado que o adail-mor lhe entregou, uma jóia de reembolso mais do que certo. Pôs-se em cima do animal, esporeou-o com a piedade que a visão lhe concedia, não sabendo ao certo do que tratava o documento nem a fundamental importância dele. Mas tinha uma convicção. Tudo o que acontecera desde que Diogo de Bairros falou consigo em Ceuta convencera-o de que a missão proposta era de grande importância, segredo e de certeza compensadora. Sem desconfiar, não era essa a sua obrigação, cheirava-lhe a grossa recompensa, e essa era uma presunção suficientemente motivadora para lhe animar o espírito e aquecer o corpo. Além disso, a hipótese de estar a cumprir uma missão de transcendente valor para o rei também lhe dava coragem, numa noite em que os faladores se calavam». In Jorge Sousa Correia, O Mistério do Infante Santo, A Revelação dos Pecados da Ínclita Geração, Clube do Autor, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-724-067-6.

Cortesia de C. do Autor/JDACT