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quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «As crónicas passaram a constituir deste modo um dos mais graves problemas dentro da política do Estado, pois haviam de ser ou meros instrumentos políticos, relatando apenas o «quantum satis» a alegar como prova, ou, caso contrário, perigosas fontes de informação e de denúncia para as nações rivais»

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Alguns dos feitos que se calaram
«Castela, possuidora dum ponto de apoio no noroeste africano e dum arquipélago atlântico, podia desenvolver, e fatalmente o faria, uma acção navegadora paralela à nossa. Era exactamente na época em que, dobrado o Bojador, o infante continuava a navegar para o sul, e acabava, além disso, de reconhecer quase todo o arquipélago dos Açores. Por sua vez, o papa, hesitante entre as duas nações em luta, envia em Julho de 1436 uma bula a D. Duarte, em que o aconselha a que não intente cousa em prejuízo do rei de Castela, pois este reclama para si a conquista das terras de África e das ilhas Canárias.
Como responde a isto o infante D. Henrique?

Obtém em Setembro desse mesmo ano uma bula de cruzada contra os infiéis em África e «lança-se, no ano seguinte, à empresa de Tânger, como o mais eficaz dos meios de se antepor aos projectos de Castela, enquanto doutro lado continua em luta renhidíssima pela posse das Canárias».
Vista a esta luz e conjugada com este último facto, a empresa de Tânger, tantas vezes encarada como produto da belicosidade cega e contumaz do Infante, ganha de súbito um alcance imenso e atinge, em relação ao plano dos Descobrimentos e aos perigos da intromissão de Castela, tantos anos retardada, uma visão genial. Desta forma o desastre de Tânger produzia, não obstante, consequências proveitosas: sofrera as ambições alheias, patenteando os perigos terríveis da empresa.

 
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Mau grado esse desenlace trágico e a oposição castelhana, o Infante não recua. Ainda no reinado de D. Duarte ele tenta obter pelos meios diplomáticos por parte de Castela a cedência dos direitos que esta se arrogava sobre as Canárias. Estes esforços repetem-se durante a regência de D. Pedro e, logo após a sua morte, no reinado de D. Afonso. Como Castela não cedesse, o Infante resolve-se a empregar os meios violentos; e só entre 1450 e 1453 envia quatro armadas sucessivas a combater o arquipélago.
Sabemos igualmente que os castelhanos não desistem dos seus projectos, e, pouco depois dos nossos descobrimentos da costa ocidental de África, começaram a enviar navios a comerciar naquelas partes. Em 1452, quando algumas caravelas de Sevilha e Cádis voltavam da Guiné, foram atacadas pelo «varinel» do corsário português Palenço, ao serviço do Infante, que aprisionou uma delas, trazendo-a carregada de mercadorias para o reino. Os tripulantes ficaram todos presos, e a um genovês, mercador de Sevilha, que acompanhava o navio, mandou o rei cortar as mãos. De parte a parte, por causa destes factos, sucedem-se as embaixadas, tendo João II de Castela enviado em 1454 dois emissários à corte portuguesa com uma carta de protesto contra os ataques às ilhas das Canárias e os apresamentos dos seus navios que iam à «la tierra que llaman Guinea, que es de nuestra conquista». Finalmente, no começo desse mesmo ano, uma bula de Nicolau V, proibindo, sob pena de excomunhão, a todos os cristãos que se intrometessem nas navegações portuguesas, sancionava o monopólio de D. Henrique, sem evitar aliás que os castelhanos o continuassem a atacar. Assim os perigos que para a nossa empresa representavam uma possível expansão espanhola no Atlântico e as sucessivas pretensões da coroa castelhana aos nossos descobrimentos justificavam só por si e plenamente que desde o começo nós o rodeássemos do maior sigilo.

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Das mesmas citadas «Alegações» de D. Afonso de Cartagena se depreende, todavia, que as crónicas podiam desempenhar uma função especialíssima nos debates internacionais sobre as conquistas de além-mar. Com efeito, depois de declarar que em disputas não se admitia prova por testemunhos que excedessem a nossa memória e a dos nossos maiores, enumera ele as diferentes espécies de prova, que é lícito alegar. A primeira de todas, declara o bispo, são as crónicas. «Prima species probandi est per crónicas…». E, reivindicando para a coroa castelhana a Tingitânia e a cidade de «Tangar», logo cita em apoios vários textos de história. Assim as crónicas, se por um lado podiam desvelar aos inimigos os nossos planos extemporânea e perigosamente, pelo outro podiam servir, em caso de litígio, como documento autêntico do direito de posse ou de «conquista», segundo a expressão da época.

As crónicas passaram a constituir deste modo um dos mais graves problemas dentro da política do Estado, pois haviam de ser ou meros instrumentos políticos, relatando apenas o «quantum satis» a alegar como prova, ou, caso contrário, perigosas fontes de informação e de denúncia para as nações rivais. Aqui devemos apontar um caso que provavelmente se relaciona com estas considerações:
  • Ainda em vida do infante D. Henrique existia ao serviço de D. Afonso V um certo Álvaro Gonçalves de Cáceres, cujo nome denuncia origem castelhana, e era, de seu ofício, “leitor das crónicas e livros de Castela”. No documento, em que o rei premeia os seus serviços, dando-lhe armas de cavaleiro, chama-lhe “discreto e varão virtuoso e fiel”.
Procurávamos habilmente, é bem de ver-se, estar ao facto dos planos, dos segredos, dos títulos de posse de Castela. E era natural, em quem tão de perto espiava as crónicas alheias, que se acautelasse com as suas (232)». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Continua
Cortesia de Portugália Editora/JDACT

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Jaime Cortesão. Crónicas Desaparecidas, Mutiladas e Falseadas. «Em 1435, tendo o Infante conseguido do Papa uma bula em que lhe concede a conquista das Canárias, logo Castela envia embaixadores à Cúria protestando; e o mesmo faz o bispo de Burgos no concílio de Basileia nas “Alegações contra os Portugueses”, onde agora não só reclama para a coroa castelhana a posse das Canárias, “como a da Mauritânia e da Tingitânia, isto é, da região de Tânger, base naval atlântica”»

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Alguns dos feitos que se calaram
«Dois factos culminantes vieram nos últimos trinta anos rasgar âmbito novo e ilimitado à história dos Descobrimentos portugueses: dum lado a demonstração, já hoje realizada, desde Ravenstein a Joaquim Bensaúde e Luciano da Silva, da supremacia e originalidade da nossa ciência náutica durante a renascença; e do outro a afirmação, ora clara, ora hesitante, feita por vários historiadores desde Oldham Yule a Faustino da Fonseca e Vignaud, do descobrimento pré-colombino da América pelos Portugueses. A demora no conhecimento dum e na afirmação do outro só é possível explicar-se pelo extremo cuidado com que a coroa os escondeu dos outros povos. Reunindo ao presente os materiais para um largo trabalho sobre aquele segundo facto e tendo procurado conhecer melhor as causas e o processo do sigilo nacional, aliás já hoje comprovado, vamos expor certas averiguações que julgo vem transformar as bases, em que até aqui tem assentado a historiografia dos Descobrimentos durante a Renascença.
O monopólio do comércio oriental, que nós na essência visávamos desde o infante D. Henrique, realizado que fosse, havia de acarretar consequências e repercussões económicas e políticas tão graves sobre quase toda a Europa, que os dirigentes da empresa nacional, por menos dotados de previsão que fossem, não podiam deixar de a rodear das maiores reservas e defesas.

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A posse do comércio levantino fora de longa data para todas as nações mediterrâneas o índice supremo da sua prosperidade e domínio, desde o império Romano à república de Veneza; ao findar da Idade Média os embaraços que o dificultavam faziam desse tráfico o problema de mais urgente solução para a economia da Europa; e em Lisboa e Lagos, onde ancoravam então a cada passo as galés adriáticas, que iam levar ao Ocidente e Norte da Europa as especiarias indianas, essa eloquente realidade haveria primeiro de deflagrar as ambições e de seguida aconselhar os maiores resguardos à sua realização.
d. Henrique transforma assim logo desde o começo, com o assentimento do Regente seu irmão, a sua empresa marítima num monopólio, 1443. As penas aplicadas aos nacionais que se intrometessem sem a sua licença e mais tarde sem a licença régia, nas suas navegações, vão desde a confiscação dos navios e mercadorias até a pena de morte. No reinado de D. Afonso V chega-se a ordenar até que as tripulações dos navios estrangeiros, encontradas nas zonas das navegações, fossem aí mesmo lançadas ao mar «sem mais ordem ou figura de juízo».

Até onde ia no ânimo do Infante o pensamento desse exclusivo?

Cremos que abrangia todas as navegações atlânticas, ressalvadas apenas as que tocavam ao comércio europeu. Dentro das concepções geográficas de então era natural que se hesitasse, e sabemos pelo «Esmeraldo» que foi assim, entre o caminho pelo sul ou pelo ocidente para alcançar a Índia. A não admitirmos estes vastos propósitos, uma parte da sua obra torna-se incompreensível.

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Com os estrangeiros e em especial com Castela, e aqui se move o eixo da questão, a efectivação desse monopólio apresentava grandes dificuldades. Só um poder culminante a todas as nações europeias, o Papado, o poderia sancionar. A Igreja todavia levou muitos anos a fazer, contra as pretensões de Castela, tamanha concessão. Por isso, durante longo tempo, D. Henrique sustenta uma luta renhidíssima para fechar o Atlântico e as novas navegações à Espanha. Como os nossos cronistas quase totalmente se calaram a tal respeito, essa parte da obra do Infante passou até hoje despercebida dos nossos historiadores; e torna-se mister recorrer aos cronistas espanhóis e a alguns documentos esquecidos para estudar certos dos seus propósitos ocultos.

Como exemplo apontaremos os seguintes factos. Em 1424 D. Fernando de Castro é enviado com uma forte armada contra as Canárias, que já então os castelhanos tinham começado a ocupar. Posto que a expedição não fosse de grandes resultados, no ano seguinte o bispo e Burgos, D. Afonso de Cartagena, vem a Portugal, como embaixador do rei de Castela, reivindicar para a respectiva coroa a posse de todo o arquipélago. Mas D. Henrique nunca mais desiste nessa luta, que os nossos cronistas esconderam. Em 1435, tendo o Infante conseguido do Papa uma bula em que lhe concede a conquista das Canárias, logo Castela envia embaixadores à Cúria protestando; e o mesmo faz o bispo de Burgos no concílio de Basileia nas «Alegações contra os Portugueses», onde agora não só reclama para a coroa castelhana a posse das Canárias, «como a da Mauritânia e da Tingitânia, isto é, da região de Tânger, base naval atlântica» (publicado em 1912 por Ernerto do Canto, em latim, Biblioteca do Escurial).
Essas pretensões representavam para Portugal um perigo enorme (228)». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, Lisboa 1965.

Cortesia de Portugália Editora/JDACT

sábado, 26 de março de 2011

A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino. Jaime Cortesão: «...o infante teve a seu serviço um navegador pertencente a uma família de cartógrafos genoveses; e o «Mestre Pedro, pintor do Infante» designação, num documento de 1440, seja um cartógrafo estrangeiro, dado que no século XV se apelidavam os desenhadores de cartas»

Cortesia de dicionáriodehistóriadeportugal 

A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino.
Jaime Cortesão

«Na extremidade sul junto da costa de África, e imediatamente abaixo das Canárias, uma legenda refere a viagem de Ferrer, em 1346, à busca do rio do Ouro. Próximo, e já no continente, junto da designação geográfica Gineua, em grandes caracteres, outra legenda elucida sobre o reino dos Mandingas, o seu imperador Mussa Mali e o comércio e grande abundância de ouro que há nas suas terras. Com efeito, o Sudão e o Saará eram nessa época o centro dum intenso tráfico do ouro, que as caravanas de muçulmanos transportavam aos portos mais importantes do Norte de África, desde Ceuta a Alexandria.

Cortesia de portuguesalivrariaultramarina 
Precisamente sobre o meridiano que passaria por aquela cidade, vê-se uma passagem na cordilheira do Atlas com esta preciosa indicação da estrada comercial de Ceuta até às regiões produtoras do ouro:
  • «Por aqui passam os mercadores que entram em terras de negros de Gineua, o qual passo se chama vale de Dahra».
Segundo Charles de la Ronciére, que estudou com particular atenção a parte do atlas relativa à África, nele figuram as mais importantes estradas comerciais do Saará e que daqui levavam ao Sudão e ao vale do Níger. Na parte oriental do continente, outra legenda refere e situa na Abissínia o famoso reino do Preste João.

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Se a isto acrescentarmos indicações práticas sobre os mares no Atlântico, o regimento para conhecer a hora pela estrela polar, as principais noções sobre o sistema de Ptolomeu, sem omitir a avaliação da circunferência terrestre segundo o geógrafo alexandrino e ainda a representação dum astrólogo medindo a altura do sol com o astrolábio, teremos dado uma ideia, ainda que incompleta, da soma dos conhecimentos e sugestões fecundíssimas que a cultura geográfica dos Cresques representava para o infante D. Henrique.

Vimos, não obstante, que o infante teve a seu serviço um navegador pertencente a uma família de cartógrafos genoveses; e presumimos que o «Mestre Pedro, pintor do Infante» designação com a qual figura, em 1440, num documento, seja igualmente um cartógrafo estrangeiro, dado que por essa forma se apelidavam no século XV os desenhadores de cartas». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, 1965.

Cortesia da Portugália Editora/JDACT

terça-feira, 15 de março de 2011

A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino. Jaime Cortesão: «Das crónicas e documentos sabemos que teve a seu serviço, além de muitos judeus, numerosos genoveses, venezianos, flamengos, alemães, castelhanos... identificando sem sombra de dúvida Jaime de Maiorca com Jaffuda, filho de Abraham Cresques, o cartógrafo de Maiorca, autor do célebre Atlas de 1375-77»

Cortesia de domquixote 

«Que ele próprio fosse homem de estudo se depreende das palavras de Azurara. Noites a fio sem dormir, passava a trabalhar e tudo nos leva a crer que maiormente se dedicou aos estudos de astronomia e geografia. Azurara e Cadamosto, que viveram na sua intimidade, concordam em afirmar os seus grandes estudos e competência, e mais designadamente «acerca dos movimentos dos corpos celestiais». Do aeu interesse pelos estudos astronómicos se infere também, pelo grande número de físicos, quase todos judeus, que teve ao seu serviço. Com efeito, naquela época, a ciência médica e astronómica, melhor diríamos, astrológica, coincidiam por via de regra, nos mesmos indivíduos. Só assim se explica que entre 1440 e 1450 os documentos mencionem uns 5 físicos do Infante. Temos poe certo que esta junta astronómica coincide com a elaboração das primeiras regras de astronomia náutica em Portugal.

Cortesia de portugaliaeditora 
Dos seus estudos de geografia implicitamente se conclui pelas referências de Azurara, de Diogo Gomes e ainda dos cronistas posteriores. E indício igual podemos tirar da origem e qualidade de muitos dos colaboradores estrangeiros, que chamou para seu lado. Azurara afirma:
  • Sua casa foi um geral acolhimento de todolos bons do reino e muito mais dos estrangeiros... que comunalmente se achavão em sua presença desvairadas nações de gentes, tão afastadas do nosso huso que quasi todos o haviam por maravilha...
Das crónicas e documentos sabemos que teve a seu serviço, além de muitos judeus, numerosos genoveses, venezianos, flamengos, alemães, castelhanos, ingleses, franceses, um dinamarquês, moiros, canários, abissínios e índios.
Dentre esses estrangeiros alguns convém assinalar:
  • Jaime de Maiorca, mestre cartógrafo da escola então nomeada;
  • António da Nole, duma família de cartógrafos genoveses émulos dos malhorquinos;
  • Cadamosto e Patrício de Conti, um navegador, outro cônsul de Veneza, o grande empório do comércio das especiarias;
  • Valarte, vassalo do rei da Noruega, país que monopolizava o comércio com a Islândia e a Gronelândia;
  • Um mercador de Orão, cidade que mantinha um tráfico directo com os grandes portos comerciais do Índico, como Calecut e Malaca;
  • Abissínios do reino do Preste João e índios.
Deste enumerado, ainda que sumário, é fácil supor a vastidão dos conhecimentos e do horizonte geográfico pelo Infante abrangidos.

Cortesia de dicionáriodehistóriadeportugal 
Sobre um desses nomes vale a pena determo-nos tão eloquentes são os ensinamentos que a sua obra nos oferece. Não restam dúvidas sobre a identidade de Jaime de Maiorca. Uma notável monografia de Gonçalo de Reparaz, Filho, publicada na Biblos, revista da Faculdade de Letras de Coimbra, terminou com a debatida questão, identificando sem sombra de dúvida Jaime de Maiorca com Jaffuda, filho de Abraham Cresques, o cartógrafo de Maiorca, autor do célebre Atlas de 1375-77, que se guarda na Biblioteca de Paris.
Esse Atlas, obra tanto de arte como de ciência, constitui só por si a mais elequente das ilustrações ao desígnio do Infante D. Henrique. Pintado em pergaminho fino colado sobre 7 tábuas, longas e deslumbrantes de cor, representa as terras a esse tempo conhecidas e constitui uma espécie de políptico do Mundo. Essa representação vai desde as ilhas Órcades, a Noruega, a Rússia e a Sibéria, ao Norte, até além do Cabo Bojador e ao ocano Índico, ao Sul; e desde os Açores, a Madeira e as Canárias, a Ocidente, até a cidade de Cambalec (Pequim), no Extremo Oriente.
Por toda a parte, nos 3 continentes, se lêem legendas, cujo conjunto constitui um pequeno mas precioso compêndio de notícias de geografia física, comercial e política». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, Portugália Editora, 1965.

Cortesia da Portugália Editora/JDACT

sexta-feira, 4 de março de 2011

Infante D. Henrique: A Expansão no Período Henriquino. Jaime Cortesão. «Esta primazia dada à cultura, como factor do bem comum, esta sim, revela, à data em que se escreveu, qualquer coisa de novo, na concepção da vida e dos deveres do homem de Estado»

4 de Março
Cortesia de paineis

Com a devida vénia a Jaime Cortesão.

«Foi o Infante de estatura pouco mais que média, de membros longos e robustos, a tez morena e o cabelo alevantado. Dos seus retratos, um dos quais, o de Nuno Gonçalves, obra genial, se vê que o rosto era de traços fortes, a testa alta, os malares visíveis, o mento grande e proeminente e a austeridade do semblante suavizada pela.expressão do olhar, banhado nessa espécie de ilimitação e melancolia dos que perseguem um sonho interior.
Foi dotado duma extraordinária energia física. Durante a tomada de Ceuta, distingue-se entre os demais guerreiros pelejando durante cinco horas continuadamente, sob o peso. das armas e em plena zina abrasante dum Agosto africano. Quando, três anos volvidos, chegaram a Portugal as primeiras novas de que os Mouros se preparavam para o cerco de Ceuta, diz Azurara:
  • «...foi coisa maravilhosa que o infante D. Henrique veio de Viseu aos Paços da Serra (junto de Atouguia) em um dia e uma noute, que são quarenta léguas (das antigas)»
Chegado a Lisboa, e recebidas as cartas com a notícia de que o cerco tinha começado, veio de novo aos Paços da Serra pedir licença ao Pai Para embarcar na frota de socorro, obtida a qual regressou acto contínuo a Lisboa. Mas, acrescenta o cronista:
  • «se nos maravilhamos do andar que fez de Viseu, muito mais o devemos fazer deste caminho, que fez em pouco mais de 15 horas andou 26 léguas, contando aqui a detença que fez em falar a seu padre e dar lugar aos seus que comessem alguma cousa».
Capaz dum dispêndio extremo de energia nos momentos de perigo, não deixava por isso de aplicar-se ao trabalho de todos os dias com um zelo igual e pertinaz. No entanto, acusam-no de homem de coração duro.

Cortesia de conheceroporto
A sua conduta com os irmãos, o infante D. Fernando, a quando cativo, após o desastre de Tânger, e o infante D. Pedro durante as desavenças com o duque de Bragança que terminaram com a Batalha de Alfarrobeira, constitui a base principal da acusação. Sem pretender deslindar com minúcia as causas da sua atitude num e noutro caso, afigura-se-nos mais prudente supor que em qualquer deles, no ânimo do Infante se deve ter dado o conflito entre os dois deveres e que a vitória do Estado sobre os impulsos afectivos lhe fosse dolorosa. Vários depoimentos, na verdade, contradizem um tanto esse juízo.

Grande atcance para o estudo dos objectivos do Infante assume a averiguação dos elementos da sua cultura e da importância que ele próprio lhe dava. Não há, ao terminar o século XIV, e ao começar o XV, que separar por forma terminante o homem de fé e o homem de ciência. Salientemos desde logo que o infante D. Henrique exerceu, provavelmente a partir de 1418, mas com certeza desde 1431, as funções de governador e protector da Universidade de Lïsboa, cargo em que mostrou o maior zelo. Da consciência gue tinha da importância do cargo, podemos concluir pelos considerandos da carta em que doa, em 1431, as novas casas para instalação da Universidade:
  • «... e desejando o bem e acrescentamento destes regnos e especialmente em sabedoria donde todo o bem nasce...».
Esta primazia dada à cultura, como factor do bem comum, esta sim, revela, à data em que se escreveu, qualquer coisa de novo, na concepção da vida e dos deveres do homem de Estado». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino, 1965.

Continua.
Cortesia de Portugália/JDACT

quarta-feira, 2 de março de 2011

Jaime Cortesão. A Expansão no período Henriquino: «O Infante Navegador é uma das maiores figuras da Humanidade e a empresa dos descobrimentos lusitanos, uma das mais fecundas em resultados de todos os tempos. Com o advento das navegações portuguesas, o homem vai pela primeira vez conhecer os lineamentos gerais e a grandeza do planeta que habita...»

Cortesia de livrariaultramarina

Dentro do quadro estritamente nacional não cabem nem se explicam o movimento de expansão geográfica dos Portugueses e o seu dirigente principal, o Infante D. Henrique. O Infante Navegador é uma das maiores figuras da Humanidade e a empresa dos descobrimentos lusitanos, uma das mais fecundas em resultados de todos os tempos.
Basta divisar em conjunto a marcha geral da expansão do homem no planeta para se tornar patente que o momento decisivo, nessa série de tentativas por tantos séculos dispersas, é aquele em que os Portugueses, sob a direcção ou a inspiração do Infante, conseguem não só dar corpo e unidade aos esforços do passado,
mas assegurar-lhes, pela eficiência do novo impulso, a continuidade no futuro. Com o advento das navegações portuguesas, o homem vai pela primeira vez conhecer os lineamentos gerais e a grandeza do planeta que habita, e concebe das suas possibilidades sobre a terra uma ideia exaltadora em alto grau das suas energias.

Cortesia de historia
Com efeito, quando se contemplam nas suas grandes linhas os movimentos da história, neste curto espaço de dois séculos que decorrem entre o fim da Idade Média e o começo do Renascimento, dir-se-ia que de súbito os povos, durante milénios confinados nos limites mais ou menos escassos dos seus quadros geográficos, se lançam por mar e terra, através de continentes e oceanos, renovando e alargando infinitamente o horizonte da vida.
Aos Portugueses cabe, pode-se afirmá-lo hoje, a glória de haverem sido os principais animadores desse primeiro esforço de unificação da Humanidade.
Compreende-se, pois, que só projectando a figura do Navegador e a sua empresa no vasto planoo da História Universal, se possa abarcar conjuntamente a estatura do homem e o alcance da obra.

Cortesia de portugalia 
Por outro lado, as navegações dos Portugueses não constituem um acontecimento único e sem precedentes. Não só obedecem a um certo número de causas gerais e particulares, mas, olhados do ponto de vista das primeiras, pertencem a uma espécie de factos, cujo conhecimento ganha, por forma decisiva, em ser estudado nos seus caracteres comuns.
Dando à palavra lei o significado muito relativo e o carácter de precária necessidade que tem em matéria de história e sociologia, pode enunciar-se a seguinte lei histórica:
  • todo o movimento de expansão geográfica obedece antes de mais nada às necessidades da procura e do transporte dos produtos.
Que outras causas de caracter_espiritual possam somar-se a estas, e em geral apareçam fundidas com elas, não é menos verdade; mas na base de todos os descobrimentos geográficos, de carácter perdurável, encontram-se as razões económicas. Trata-se duma regra sem excepção,  cuja plena validade pode estudar-se na hisiória de todos os povos navegadores, desde os Cretensses e os Tartéssios até aos Holandeses e aos Ingleses. Verdade  rudimentar, é,certo, mas que não deixa de ser ignorada ainda de alguns historiógrafos, que falseiam assim, por um erro de visão inicial, as conclusões posteriores.

Cortesia de mediabooks
Todo o movimento de expansão marítima supõe igualmente um mínimo de condições orgânicas gerais, ou seja um ambiente económico internacional que solicite aquele esforço, e particulares, isto é, um onjunto de aptidões específicas em determinado povo ou grupo social que lhe permitam levá-lo a cabo.
Realizadas estas condições, e constituído que seja um Estado marítimo, toda a sua política, forçada pelo seu condicionalismo particular, tende a transformar a posse das estradas marítimas em monopólio, ciosamente guardado por todos os meios, entre os quais, o que importa muito ao nosso caso, o segredo geográfico.
Um exemplo tomado, por mais típico, entre os povos da Antiguidade, nos servirá para ilustrar com eloquência esta asserção. Cartago, metrópole de mercadores e navegantes, especializada pela ascendência fenícia nas técnicas navais e mercantis, nasceu do alargamento da vida económica dos Povos do Mediterrâneo, aos quais, durante séculos, assegurou alguns dos produtos mais ricos ou indispensáveis às indústrias dessa época, isto é, o estanho do Noroeste da Península Hispânica e do Sudoeste da Inglaterra, a prata da Espanha, e o oiro do Sudão.
Já antes dos Cartagineses, esses produtos chegavam aos mercados do Mediterrâneo, quer pelas vias terrestres através da França ou do Norte de África, quer pela marítima por intermédio dos Tartéssios, que íam buscar o estanho navegando o Atlântico. Das mãos desses e de muitos intermediários recebeu Cartago durante séculos os produtos que ia depois vender aos outros povos. Mas uma pequena frota sua que alcançasse directamente os centros produtores, sobre oferecer uma capacidade de transporte muito maior que as duma grande caravana, tinha a vantagem de suprimir os intermediários terrestres e marítimos, tão numerosos, facilidades estas que multiplicavam e barateavam os produtos». In Jaime Cortesão, A Expansão dos Portugueses no Período Henriquino.

 Cortesia Portugália Editora, Abril 1965/JDACT