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terça-feira, 17 de março de 2020

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «Pelo que tive oportunidade de julgar, parece-me que o estilo habitual de redigir cartas entre as mulheres é perfeito, excepto por três detalhes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Deverei ser nada além de uma triste figura em seu diário, amanhã. Meu diário?! Sim, sei exactamente o que você dirá: Sexta-feira, fui aos Salões Inferiores. Vesti o meu roupão de seda enfeitado de ramos com detalhes azuis, sapatos pretos lisos que pareceram cair muito bem, mas fui estranhamente incomodada por um homem pouco genial e esquisito, que me fez dançar com ele e me agoniou com as suas parvoíces. Na verdade, não devo dizer tais coisas. Devo-lhe dizer o que você diria? Se quiser. Dancei com um jovem muito agradável, apresentado pelo senhor King. Conversei muito com ele e me pareceu ser um génio dos mais extraordinários. Espero que eu conheça mais dele. Isso, madame, é o que desejo que escreva. Mas, talvez, eu não tenha diário algum.
Talvez você não esteja sentada nesta sala, e eu não esteja sentado com você. Estes são pontos em que a dúvida é igualmente possível. Não manter um diário! Como as suas primas ausentes vão entender o tom da sua vida em Bath, sem um diário? Como as civilidades e os feitos de cada dia serão relatados como devem, a menos que sejam anotados a cada noite num diário? Como serão relembrados os seus vários vestidos e o estado particular do seu semblante e os cachos dos seus cabelos, descritos em toda a sua diversidade, sem recorrer constantemente a um diário? Querida madame, não sou tão ignorante dos modos das jovens damas como você supõe acreditar. É este delicioso hábito de manter um diário que em muito contribui para formar o fácil estilo de escrever pelo qual as damas são geralmente celebradas. Todos concordam que o talento de escrever agradáveis cartas é peculiarmente feminino. A natureza pode ter feito algo, mas estou certo de que deve ter sido essencialmente ajudada pela prática de manter um diário.
Penso, às vezes, disse Catherine hesitante, se as damas realmente escrevem cartas melhor do que os cavalheiros! Quero dizer, eu não diria que a superioridade esteja sempre ao nosso lado. Pelo que tive oportunidade de julgar, parece-me que o estilo habitual de redigir cartas entre as mulheres é perfeito, excepto por três detalhes. E quais são eles? Uma deficiência geral de assunto, uma total falta de atenção à pontuação e uma ignorância muito frequente de gramática. Realmente! Não preciso temer o elogio. Você não tem uma ideia muito boa de nós, nesse sentido. Não deverei mais estabelecer como regra geral que as mulheres escrevem melhores cartas que os homens, que elas cantam melhores duetos ou desenham melhores paisagens. Em cada poder, no qual o gosto é a base, a excelência é muito bem dividida entre os sexos.
Foram interrompidos pela senhora Allen: minha querida Catherine, disse ela, retire este alfinete de minha capa. Temo que já tenha feito um furo. Ficarei muito triste se for o caso, pois este é o meu vestido favorito, embora não custe mais do que nove xelins a jarda. Era exactamente isso o que eu teria achado, madame, disse o senhor Tilney, olhando para a seda. Você entende de seda, senhor? Particularmente bem. Sempre compro as minhas próprias gravatas, e me permito ser um excelente juiz. E minha irmã, às vezes, confia-me a escolha de um vestido. Comprei um para ela outro dia, e me disse que foi uma compra prodigiosa por todas as damas que o viram. Não dei mais que cinco xelins por jarda por ele, e era uma verdadeira seda indiana.

A senhora Allen estava bastante surpresa com o seu génio. Os homens geralmente dão tão pouca atenção a estas coisas, disse ela; não consigo fazer com que o senhor Allen distinga um vestido de outro. Você deve ser um grande conforto para a sua irmã, senhor. Espero que sim, madame. E, por favor, senhor, o que acha do vestido da senhorita Morland? É muito bonito, madame, disse ele, examinando-o gravemente. Mas não acho que a lavagem o fará bem. Temo que ele desfie. Como pode, disse Catherine, rindo, ser tão... Ela quase disse estranho». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802/1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.


Cortesia rd’Água/JDACT

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «Cerca de uma semana, senhor, replicou Catherine, tentando não rir. Sério?, perguntou com falsa surpresa. Porque a surpresa, senhor?»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Todas as manhãs fazia os seus deveres normais: lojas que deveriam ser visitadas; alguma nova parte da cidade que deveria ser observada; a casa de bombas, onde caminhavam para cima e para baixo por uma hora, olhando para todo o mundo e não falando com ninguém. O desejo das numerosas amizades em Bath era ainda forte na senhora Allen, e ela o sentia a cada nova prova trazida pela manhã, pois lá ela não conhecia ninguém. As duas fizeram a sua aparição nos Salões Baixos e, aqui, o destino foi mais favorável à nossa heroína. O mestre de cerimónias apresentou-a a um jovem muito cavalheiro para parceiro. Seu nome era Tilney. Ele parecia ter 24, 25 anos, era bem alto, tinha feições agradáveis, olhos muito inteligentes e lívidos e, se não era muito bonito, estava perto disso. Sua abordagem era boa, e Catherine sentiu-se com muita sorte. Havia pouco tempo livre para falar enquanto dançavam, mas quando se sentaram para o chá, ela descobriu-o tão agradável quanto acreditava que ele fosse. Ele conversava com fluência e espírito, e havia uma malícia e uma graça nos seus modos que chamavam a atenção, embora dificilmente fossem compreendidas por ela. Depois de conversar por algum tempo sobre aqueles assuntos que surgiram naturalmente dos objectos ao redor deles, ele subitamente se dirigiu a ela com: até então fui muito negligente, madame, quanto às atenções apropriadas a um parceiro; ainda não lhe perguntei há quanto tempo está em Bath; se já esteve aqui antes; se já foi aos Salões Superiores, ao teatro e ao concerto; e se gostou do lugar. Fui muito negligente, mas, está disposta a me satisfazer com tais detalhes? Se estiver, começarei imediatamente. Não precisa se dar ao trabalho, senhor. Nenhum trabalho, eu lhe asseguro, madame. Então, usando os seus traços para construir um sorriso pronto, e artificialmente suavizando sua voz, ele acrescentou, com um ar afectado, Está há muito tempo em Bath, madame? Cerca de uma semana, senhor, replicou Catherine, tentando não rir. Sério?, perguntou com falsa surpresa. Porque a surpresa, senhor? Sim, é verdade! Porquê...?, disse no seu tom natural. Mas, alguma emoção deveria ser provocada pela sua resposta, e a surpresa é a mais facilmente aceitável, e não menos racional que qualquer outra. Agora, prossigamos. Nunca esteve aqui antes, madame? Nunca, senhor. Ora! Já honrou os Salões Superiores? Sim senhor, estive lá na última segunda-feira. Já foi ao teatro? Sim, senhor, estive na peça de terça-feira. Ao concerto? Sim senhor, na quarta-feira. E você está gostando de Bath, como um todo? Sim, gosto muito. Agora devo sorrir falsamente, e então poderemos ser racionais novamente. Catherine virou a sua cabeça, sem saber se poderia aventurar-se a rir. Vejo o que você pensa de mim, ele disse, gravemente». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802 /1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «Muito agradável, de facto, ela replicou, tentando em vão esconder um grande bocejo. Queria que ela tivesse dançado, disse a sua esposa; queria que tivéssemos arrumado um parceiro para ela»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Como é desconfortável, sussurrou Catherine, não ter uma única amizade aqui! Sim, minha querida, replicou a senhora Allen perfeitamente serena, de facto, é muito desconfortável. O que devemos fazer? Os cavalheiros e as damas nesta mesa nos olham como se perguntando o porquê de estarmos aqui. Parece que estamos forçando a nossa entrada no grupo deles. Ah, parecemos. Isso é muito desagradável. Queria que tivéssemos inúmeros conhecidos aqui. Queria que tivéssemos ao menos um conhecido aqui. Seria alguém com quem conversar. É bem verdade, minha querida. E se conhecêssemos alguém, iríamos nos encontrar com ele imediatamente. Os Skinners estiveram aqui no ano passado. Queria que estivessem aqui agora. Não é melhor irmos embora? Não há nem louça ou talheres de chá para nós, veja. Não há mais, de facto. Que provocação! Mas acho que é melhor sentarmos imóveis, pois se pode tropeçar tanto numa multidão como essa! Como está minha cabeça, querida? Alguém me deu um empurrão que temo ter desarrumado meu penteado. Não, na verdade, está muito bem. Mas, querida senhora Allen, você está segura de que não há ninguém que a senhora conheça em toda essa multidão de pessoas? Acho que deve conhecer alguém.
Não, juro. Gostaria de conhecer. Sinceramente, queria ter muitos conhecidos aqui, e então eu lhe arranjaria um parceiro. Eu ficaria tão feliz por você dançar. Lá vai uma mulher esquisita! Que vestido estranho ela está usando! Como é antiquado! Olhe para as costas. Depois de algum tempo, foi-lhes oferecido chá por algum dos seus vizinhos, o qual foi polidamente aceito, e isso levou a uma leve conversa com o cavalheiro que fez a oferta, sendo esta a única vez em que alguém falou com elas durante a noite, até que foram descobertas pelo senhor Allen, que se juntou às duas quando as danças se encerraram. Bem, senhorita Morland, ele disse, directamente, espero que tenha tido um baile agradável. Muito agradável, de facto, ela replicou, tentando em vão esconder um grande bocejo. Queria que ela tivesse dançado, disse a sua esposa; queria que tivéssemos arrumado um parceiro para ela. Eu estava dizendo que ficaria muito feliz se os Skinners estivessem aqui neste Inverno ao invés do último. Ou se os Parrys tivessem vindo, como falaram uma vez. Ela poderia ter dançado com George Parry. Estou tão triste por ela não ter tido um parceiro! Faremos melhor em outra noite, espero consolou o senhor Allen. O grupo começou a se dispersar quando as danças terminaram, sendo o suficiente para deixar espaço para que o restante pudesse caminhar com algum conforto. Agora era a hora para uma heroína que não tinha ainda interpretado um papel mais distinto nos eventos da noite ser descoberta e admirada. A cada cinco minutos, ao desmanchar da multidão, abriam-se mais oportunidades para seus encantos. Ela era agora observada por muitos jovens que não se tinham aproximado dela antes. Nenhum, porém, começou a contemplá-la com arrebatado assombro.
Nenhum sussurro de ansiosa curiosidade começou a circular pela sala. Nem ela foi chamada de divindade por alguém alguma vez. Contudo, estava bonita e, tivessem aquelas pessoas visto Catherine três anos antes, agora eles a teriam achado demasiadamente encantadora. Ela era observada, entretanto, e com alguma admiração, pois, como ela mesma ouviu, dois cavalheiros disseram que ela era uma garota bonita. Tais palavras tiveram o seu devido efeito. Ela pensou imediatamente que a noite fora mais agradável do que ela achara até então. A sua humilde vaidade estava saciada. E ela se sentia mais grata aos dois jovens por esse simples elogio do que uma heroína de genuína qualidade teria estado por quinze sonetos celebrando os seus encantos, e rumou à sua cadeira de bom humor com todos, perfeitamente satisfeita com o que recebeu de atenção pública». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802 /1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «Ainda assim, iam, algo melhor ainda estava para ser visto. E, pela aplicação continuada de força e engenho, encontraram-se, finalmente, na passagem atrás da mais alta bancada»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ela tinha um prazer bem inofensivo em estar elegante. E a entrée da nossa heroína na vida não poderia ocorrer antes de três ou quatro dias aprendendo o que mais se usava, e de sua acompanhante ganhar um vestido da última moda. Catherine também fez, sozinha, algumas compras, e quando todos esses assuntos foram resolvidos, a importante noite em que ela seria levada aos Salões Superiores chegou. Ela cortou o cabelo e se cobriu com as melhores roupas, todas vestidas com cuidado, e tanto a senhora Allen quanto a sua criada declararam que ela se aparentava como deveria. Com tal incentivo, Catherine esperou pelo menos passar sem a desaprovação da multidão. Quanto à admiração, era sempre bem-vinda quando aparecia, mas ela não precisava disso. A senhora Allen demorou-se tanto a se aprontar que elas adentraram pelo salão de baile quando já era tarde. A temporada estava cheia, a sala repleta, e as duas damas se esgueiraram o quanto puderam. Quanto ao senhor Allen, ele se dirigiu directamente ao salão de jogos e as deixou para que apreciassem a turba por si mesmas. Com mais cuidado pela segurança do seu novo vestido do que pelo conforto de sua protegée, a senhora Allen abria o seu caminho pela aglomeração de homens à porta, tão agilmente quanto a necessária precaução poderia permitir.
Catherine, porém, mantinha-se imediatamente ao seu lado e prendeu seu braço tão firme ao da sua amiga para que só pudesse ser separada por algum esforço conjunto de uma multidão em luta. Mas, para a sua extrema surpresa, ela descobriu que para seguir adiante pelo salão não era, de forma alguma, o modo como se desprendia da aglomeração. Esta, ao contrário, parecia aumentar à medida que seguiam, enquanto ela imaginou que, uma vez depois da porta, elas facilmente encontrariam assentos e seriam capazes de assistir as danças com perfeita conveniência. Mas isto estava longe de ser o caso e, por meio de incansável diligência, mesmo ao chegarem ao topo do salão, a situação delas ainda era a mesma. Nada viam dos dançarinos, além das penas no topo dos chapéus das damas. Ainda assim, iam, algo melhor ainda estava para ser visto. E, pela aplicação continuada de força e engenho, encontraram-se, finalmente, na passagem atrás da mais alta bancada. Havia menos gente do que em baixo, e, portanto, a senhorita Morland tinha uma visão abrangente de toda a companhia sobre ela e de todos os perigos de sua recém terminada passagem por ela. Era uma vista esplêndida, e ela começou, pela primeira vez naquela noite, a sentir-se ela mesma num baile, ela ansiava por dançar, mas não conhecia ninguém no salão. A senhora Allen fazia o que podia, em tal caso, ao dizer muito placidamente, a cada momento: queria que dançasse, minha querida, queria que encontrasse um parceiro. Por algum tempo, a sua jovem amiga se sentiu agradecida por tais desejos, mas estes foram repetidos com tanta frequência e se provaram tão artificiais que, por fim, Catherine se cansou e já não mais lhe agradecia.
Não puderam, porém, gozar por muito tempo do repouso da eminência que conquistaram com tanto trabalho. Logo, todos estavam se movimentando pelo chá, e elas deveriam se esgueirar assim como o resto. Catherine começou a se sentir um pouco desapontada, ela estava cansada de ser seguidamente prensada contra as pessoas. A generalidade daqueles rostos não possuía nada de interessante e, com todos aqueles a quem ela era completamente desconhecida, ela não poderia se aliviar do aborrecimento daquela prisão com a troca de uma sílaba com qualquer um dos seus companheiros reféns. Quando por fim chegaram à sala de chá, Catherine sentiu ainda mais o constrangimento de não ter algum grupo com quem se juntar, nenhuma amizade a chamar, nenhum cavalheiro a ajudá-la. Não viram o senhor Allen. Depois de procurar ao redor da sala por uma situação mais favorável, foram obrigadas a se sentar ao fim de uma mesa, na qual um grupo grande já ocupava lugares, sem ter o que fazer ou alguém para conversar, além delas mesmas. A senhora Allen se felicitava, assim que se sentaram, por ter preservado o seu vestido de algum dano. Teria sido chocante se ele tivesse rasgado, disse, não é mesmo? É uma seda muito delicada. Da minha parte, não vi nada que eu gostasse tanto em toda a sala, garanto-lhe». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802 /1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Emma. Jane Austen. «Harriet com certeza não possuía uma inteligência brilhante, mas tinha uma dócil, grata e encantadora disposição, não era presunçosa, e desejava apenas ser guiada por qualquer um a quem admirasse»

jdact e wikipedia

«(…) Um pedaço bem pequeno. As nossas são tortas de maçã, não precisa temer as compotas que temos aqui. Não recomendo o creme de ovos. Mrs. Goddard, o que acha de meio copo de vinho? Meia taça com um pouco de água? Acho que não lhe vai fazer mal. Emma deixava o pai falar, mas atendia os convidados de modo mais satisfatório, e neste dia em particular sentiu prazer em vê-los partir felizes. A felicidade de miss Smith comparava-se às suas intenções. Miss Woodhouse era uma personagem tão importante em Highbury, que a perspectiva de lhe ser apresentada provocara tanto pânico como prazer; mas a humilde e agradecida menina partiu com sentimentos de grande reconhecimento, deliciada com a amabilidade com que Emma a tratara durante toda a noite, e finalmente apertara a sua mão!

Logo Harriet Smith tornou-se íntima no círculo de Hartfield. Com o seu jeito rápido e decidido Emma não perdeu tempo em convidá-la, encorajá-la e pedir-lhe que viesse visitá-la sempre, e à medida que se conheciam melhor crescia a satisfação que tinham uma com a outra. Emma logo viu que ela seria uma óptima companheira de caminhadas. Neste ponto a perda de mrs. Weston tinha sido importante, pois seu pai nunca ia além da fileira de arbustos, onde duas divisões no terreno determinavam seu percurso, longo ou curto, conforme a estação do ano. Desde o casamento de mrs. Weston ela havia restringido bastante as suas caminhadas, tinha ido sozinha a Randalls uma vez, mas não achou agradável. E uma Harriet Smith, a quem podia convocar a qualquer momento para um passeio, seria uma feliz adição aos seus privilégios. Mas, em todos os sentidos, quanto mais a conhecia, mais a aprovava, e confirmou que era adequada a todos os seus belos projectos.
Harriet com certeza não possuía uma inteligência brilhante, mas tinha uma dócil, grata e encantadora disposição, não era presunçosa, e desejava apenas ser guiada por qualquer um a quem admirasse. A sua responsabilidade sobre si mesma, desde tenra idade, era muito agradável; e a sua inclinação pelas boas companhias e a capacidade de apreciar tudo o que era elegante e inteligente, mostrava que não tinha falta de gosto, apesar de que não se esperava que tivesse grande profundidade de entendimento. De forma geral estava bastante convencida de que Harriet Smith era a jovem amiga de que precisava... Exactamente o que era necessário no seu lar. Uma amiga como mrs. Weston estava fora de questão. Duas iguais jamais poderia haver, e nem ela desejava isso. Era algo diferente, um sentimento distinto e independente. O afecto que sentia por mrs. Weston baseava-se na gratidão e estima. Harriet seria apreciada como alguém a quem ela poderia ser útil. Por mrs. Weston não tinha nada mais a fazer, por Harriet tudo. Suas primeiras tentativas de ser útil foram no sentido de descobrir quem eram os pais de Harriet, mas ela não sabia dizer. Estava pronta para contar tudo que soubesse, porém sobre tal assunto era inútil perguntar. Emma era obrigada a imaginar o que quisesse, mas acreditava firmemente que, se estivesse na mesma situação da amiga, ela teria descoberto a verdade. Harriet não tinha percepção. Ficava satisfeita em ouvir e acreditar em qualquer coisa que mrs. Goddard resolvesse lhe contar, e não procurava saber mais». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Emma. Jane Austen. «Adorava ter a mesa bem-posta, sempre fora um dos hábitos da sua juventude, mas estava convencido de que as ceias eram prejudiciais à saúde»

jdact e wikipedia

«(…) Não ficou impressionada com nada especialmente inteligente na conversa de miss Smith, porém considerou-a bastante interessante de forma geral, não era tímida em excesso, nem relutante em falar, e estava longe de ser indiscreta. Comportava-se com elegante e apropriada deferência, expressava uma agradável gratidão por ter sido convidada a vir a Hartfield, e mostrava uma admiração tão ingénua por todas as coisas, de estilo muito superior ao que ela estava acostumada, que Emma pensou que devia ter bom senso e merecia ser encorajada. E este encorajamento lhe seria dado. Estes suaves olhos azuis e todas estas graças naturais não deviam ser desperdiçados na sociedade inferior de Highbury e suas ligações. As amizades que ela fizera até agora não eram dignas dela, os amigos a quem recentemente visitara, embora fossem boas pessoas, só podiam prejudicá-la. Emma conhecia bem o carácter da família Martin, pois arrendavam uma grande fazenda nas terras de Knightley na paróquia de Donwell. Eram pessoas muito dignas, ela supunha, pois Knightley os considerava bastante, mas deviam ser rudes e incultos, e inadequados como companhia para uma moça que precisava apenas de um pouco mais de instrução e elegância para ser quase perfeita. Ela a ensinaria, ela iria refiná-la, ela a afastaria das amizades impróprias e a introduziria na boa sociedade; ela formaria as suas opiniões e as suas maneiras. Seria uma tarefa interessante e certamente muito boa, bastante atractiva para sua situação de vida, seu tempo livre e suas possibilidades. Estava tão ocupada admirando aqueles suaves olhos azuis, falando e ouvindo, e imaginando os seus esquemas ao mesmo tempo, que a noite voou de maneira incomum. A mesa da ceia, que sempre encerrava as reuniões, e era supervisionada por ela, já estava colocada junto à lareira e servida antes que ela se desse conta. Com uma alegria além do natural para alguém que sempre apreciara o crédito de organizar todas as coisas bem e com atenção, com a verdadeira boa vontade de uma mente deliciada com suas próprias ideias, fez as honras da ceia, orientou e recomendou o frango fatiado e as ostras cozidas com uma insistência que sabia aceitável para o avançado da hora e os escrúpulos de boa educação dos hóspedes.
Nessas ocasiões os sentimentos do pobre Woodhouse entravam em triste conflito. Adorava ter a mesa bem-posta, sempre fora um dos hábitos da sua juventude, mas estava convencido de que as ceias eram prejudiciais à saúde; enquanto sua hospitalidade o levava a oferecer de tudo aos convidados, ficava apreensivo ao vê-los comer. Tudo o que ele podia, em sã consciência, recomendar aos outros, era um pequeno prato de mingau ralo igual ao que ele mesmo comia. Tinha que se conter, enquanto as senhoras se serviam das comidas mais apetitosas, para dizer: mrs Bates, permita-me propor-lhe que experimente um destes ovos. Um ovo quente, muito macio, não é prejudicial. Serle cozinha um ovo como ninguém! Não recomendo ovos cozidos por mais ninguém. Não precisa ter medo, são bem pequenos... Está vendo? Um destes ovos não vai fazer-lhe mal. Miss Bates, deixe que Emma lhe sirva um pequeno pedaço de torta...» In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Emma. Jane Austen. «Certa manhã, enquanto estava sentada pensando exactamente que hoje seria uma destas noites, chegou um bilhete de Mrs. Goddard, solicitando permissão…»

jdact e wikipedia

«(…) Houve um estranho rumor em Highbury, dizendo que todos os filhos dos Perrys foram vistos com um pedaço do bolo de casamento de Mrs. Weston nas mãos: mas Mr.  Woodhouse jamais acreditou nisso.

Mr. Woodhouse apreciava a sociedade à sua própria maneira. Gostava muito que os amigos viessem vê-lo; e devido a vários factores, desde sua longa residência em Hartfield e sua natureza afável, e também por sua fortuna, sua casa e sua filha, podia comandar em grande parte as visitas de seu pequeno círculo de amigos conforme seus desejos. Não tinha muito contacto com nenhuma família fora deste círculo. Seu horror às horas tardias e aos grandes jantares festivos, tornava-o inadequado para qualquer conhecido que não pudesse visitá-lo nos seus próprios termos. Para sua felicidade, Highbury compreendia muitas propriedades, incluindo Randalls na mesma paróquia e Donwell Abbey na paróquia vizinha, a casa de Mr. Knightley. Várias vezes, devido à persuasão de Emma, ele convidava alguns dos melhores amigos para jantar, mas preferia mesmo as festas nocturnas. E, a menos que estivesse indisposto para receber visitas, era raro haver uma noite na semana em que Emma não organizasse uma mesa de jogos para ele. Mr. Knightley e os Westons o visitavam devido à sua verdadeira afeição e ao conhecimento de longa data. Quanto a Mr. Elton, um jovem que vivia sozinho sem apreciar isso, não corria o risco de ser mantido longe do privilégio de trocar qualquer noite livre da sua vazia solidão pela elegância e sociabilidade da sala de estar de Mr. Woodhouse, e os sorrisos da sua encantadora filha. Depois deste, vinha um segundo grupo. Entre os mais assíduos estavam Mrs. e Miss Bates e também Mrs. Goddard, três senhoras quase sempre à disposição para um convite de Hartfield, e que eram buscadas e levadas em casa com tanta frequência, que Mr. Woodhouse não considerava isso uma inconveniência, nem para James, nem para os cavalos. Se isso acontecesse apenas uma vez por ano seria motivo de queixa.
Mrs. Bates, a viúva de um antigo vigário de Highbury, era uma senhora bastante idosa, que já deixara quase tudo para trás, menos o chá e quadrilha. Vivia de forma bastante modesta, com sua única filha solteira, e era tratada com todo o respeito e consideração que merecia uma velha e inofensiva dama vivendo em condições tão desfavoráveis. Sua filha desfrutava do mais incomum grau de popularidade para uma mulher que não era nem jovem, nem bonita, nem rica e nem casada. Miss Bates se encontrava na pior situação do mundo para obter a boa vontade das pessoas; não possuía nenhuma superioridade intelectual para compensar, nem para intimidar aqueles que poderiam odiá-la, fazendo com que a respeitassem. Nunca ostentara nem beleza nem inteligência. Sua juventude se passou sem distinção alguma, e na meia idade devotava-se ao cuidado de uma mãe doente, e ao esforço de fazer com que o seu pequeno rendimento durasse o mais possível. E, no entanto, era uma pessoa feliz, alguém que todos mencionavam com palavras gentis. Era sua universal boa vontade e temperamento alegre que produziam tais maravilhas. Ela gostava de todos, interessava-se pela felicidade de todos, percebia logo os méritos das pessoas; considerava-se a mais afortunada das criaturas, e rodeada de bênçãos por ter uma mãe excelente, tantos bons amigos e vizinhos, e um lar onde nada faltava. Sua natureza simples e alegre, seu temperamento contente e grato era uma recomendação para todo mundo e uma fonte de alegria para ela mesma. Era óptima para conversar sobre assuntos banais, falava sempre sobre trivialidades e mexericos inofensivos, o que agradava bastante a Mr. Woodhouse.
Mrs. Goddard era a professora de uma escola, não de um seminário, ou de um estabelecimento, ou qualquer lugar que fosse denominado por longas e refinadas frases sem sentido, para combinar conhecimentos liberais com elegante moralismo, em novos princípios e novos métodos, e onde jovens ricas podiam ser despojadas de sua saúde em tributo à vaidade, mas um verdadeiro, honesto e antiquado internato, onde uma quantidade razoável de conhecimentos era vendida a preço razoável, e onde as meninas podiam ser mandadas para ficar fora do caminho dos pais, e se depararem com uma educação moderada, sem nenhum perigo de se tornarem prodígios. A escola de Mrs. Goddard tinha uma elevada reputação, e bastante merecida; para Highbury era considerado um lugar particularmente saudável: possuía uma casa e jardins amplos, fornecia comida saudável às crianças, deixava-as correr bastante ao ar livre durante o verão, e no inverno curava suas frieiras com as próprias mãos. Não era de se estranhar que uma fila de vinte jovens casais caminhasse atrás dela para a igreja. Era uma mulher do tipo simples e maternal, que trabalhara duro na juventude, e acreditava ter direito a uma folga ocasional para uma visita na hora do chá. Devia muito à bondade de Mr. Woodhouse anos atrás, portanto, sempre que podia, atendia ao seu chamado, deixando sua organizada sala de sala de estar e seus trabalhos de agulha para ganhar ou perder algumas poucas moedas de meio xelim diante da sua lareira em Hartfield.
Estas eram as damas que Emma podia reunir com frequência, e sentia-se feliz por agradar ao pai, apesar de que, no que lhe dizia respeito, não havia remédio para a ausência de Mrs. Weston. Ficava contente por ver o pai tranquilo e bastante satisfeita por planear as coisas tão bem. A pacata conversa das três senhoras, no entanto, antecipava uma daquelas longas noites sem atractivos que ela tanto temia.
Certa manhã, enquanto estava sentada pensando exactamente que hoje seria uma destas noites, chegou um bilhete de Mrs. Goddard, solicitando permissão, nos termos mais respeitosos, para trazer consigo Miss Smith. Era um pedido bem-vindo, pois Miss Smith era uma moça de dezassete anos, a quem Emma conhecia muito bem de vista, e que há muito tinha interesse em conhecer pessoalmente, por conta de sua beleza. Um gracioso convite foi enviado, e a bela dona da mansão deixou de temer o serão daquela noite. Harriet Smith era a filha natural de alguém. Alguém a colocara, vários anos atrás, na escola de Mrs. Goddard, e esse alguém mais tarde elevou-a da condição de estudante mantida por uma bolsa de estudos à de pensionista, vivendo com a directora da escola. Isso era tudo que se sabia da história dela. Não tinha amigos conhecidos, a não ser os que fizera em Highbury, e agora acabava de retornar de uma longa visita ao campo, como hóspede de algumas jovens damas que foram suas colegas na escola.
Era uma moça muito bonita, de uma beleza que Emma admirava particularmente. Era pequena, roliça e de tez clara, com uma pele viçosa, olhos azuis, cabelos loiros, feições regulares e um ar de grande doçura. Antes de a noite terminar Emma estava tão contente com seus modos quanto com sua aparência, e bastante determinada a continuar a amizade». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Emma. Jane Austen. «… mais do que satisfação, sua prazerosa alegria, era tão aparente que Emma, apesar de conhecer bem o pai, às vezes era tomada de surpresa por ele ser ainda capaz de lamentar…»

jdact e wikipedia

«(…) Mr. Weston nunca fora um homem infeliz, seu próprio temperamento evitara isso, mesmo durante o seu primeiro casamento. Mas o segundo iria demonstrar-lhe como podia ser prazeroso ter uma companheira de bom senso e verdadeiramente amável, e dar-lhe a mais agradável prova de que era melhor escolher do que ser escolhido, despertar gratidão do que senti-la. Sua escolha devia agradar apenas a ele mesmo, pois tinha a sua própria fortuna. Quanto a Frank, havia sido tacitamente criado como herdeiro do tio, e tornou-se tão natural sua adopção a ponto dele assumir o sobrenome Churchill quando atingiu a maioridade. Era bastante provável que nunca precisasse do auxílio financeiro do pai, o qual estava bastante tranquilo quanto a isso. A tia era uma mulher caprichosa e governava o marido totalmente. Mas não era da natureza de Mr. Weston acreditar que um capricho qualquer pudesse afectar alguém tão querido e, como pensava, tão merecedor do afecto que lhe dedicavam. Via o filho uma vez por ano, em Londres, e tinha orgulho dele; e sua afectuosa descrição do filho como sendo um belo rapaz fez com que Highbury sentisse certo orgulho dele também. Era considerado como pertencente à comunidade, a ponto de seus méritos e perspectivas serem alvo do interesse comum.
Mr. Frank Churchill era um dos orgulhos de Highbury, e todos tinham grande curiosidade em conhecê-lo, embora a recíproca não fosse verdadeira, pois ele nunca estivera lá em toda a sua vida. Falava-se muito que ele viria visitar o pai, mas isso nunca acontecera. Agora, com o casamento do pai, era em geral aceita que, como demonstração de atenção, a visita deveria acontecer. Não havia uma só voz discordante, nem quando Mrs. Perry tomou chá com Mrs. e Miss Bates, nem quando Mrs. e Miss Bates retribuíram a visita de Mrs. Perry. Agora já era tempo de Mr. Frank Churchill estar entre eles; e as esperanças se renovaram quando se soube que ele escrevera uma carta para a madrasta cumprimentando pelo casamento. Durante alguns dias, cada visita matinal em Highbury incluía alguma menção à bela carta que Mrs. Weston tinha recebido. Suponho que tenha ouvido falar da bela carta que Mr. Frank Churchill escreveu para Mrs. Weston. Dizem que é uma carta belíssima, de facto. Foi Mr. Woodhouse que me contou. Mr. Woodhouse viu a carta, e diz que nunca viu uma carta tão bonita em toda a sua vida.
A carta foi bastante apreciada, na verdade. Mrs. Weston, é claro, havia formado uma impressão muito favorável do jovem; e tão agradável gentileza era uma prova irresistível de seu grande bom senso e a mais bem vinda adição a todas as congratulações que já havia recebido pelo casamento. Sentiu-se como a mais afortunada das mulheres, e vivera o bastante para saber quão afortunada devia se considerar. Seu único pesar era a separação parcial de seus amigos, cuja amizade para com ela nunca esfriara, e que suportavam mal sua partida.
Sabia que de vez em quando sentiriam a sua falta, e não podia pensar sem tristeza em Emma perdendo um simples prazer, ou tendo algum aborrecimento por falta da sua companhia. Mas Emma não era fraca de carácter, e estava à altura da situação muito mais do que a maioria das moças estaria; além disso, tinha bom senso, energia e ânimo, que deviam ajudá-la a suportar bem e felizmente suas pequenas dificuldades e privações. E depois, havia o conforto da pequena distância entre Randalls e Hartfield, uma caminhada conveniente para mulheres sozinhas, e da disposição e condições de Mr. Weston, que não haveria nenhum obstáculo para que passassem metade das noites da semana juntos na estação que se aproximava. A situação de Mrs. Weston era, de forma geral, motivo para muitas horas de gratidão ao marido e poucos momentos de pesar. Sua satisfação, mais do que satisfação, sua prazerosa alegria, era tão aparente que Emma, apesar de conhecer bem o pai, às vezes era tomada de surpresa por ele ser ainda capaz de lamentar a pobre Miss Taylor quando a deixavam em Randalls, cercada de todos os confortos domésticos, ou quando a via partir à noite, assistida pelo atencioso marido, na sua própria carruagem. Mas ela nunca partiu sem que Mr. Woodhouse desse um pequeno suspiro e dissesse Ah, pobre Miss Taylor! Ela gostaria tanto de ficar!
Não havia como recuperar Miss Taylor, nem era provável que Mr. Woodhouse parasse de lamentá-la, mas poucas semanas mais lhe trouxeram algum alívio. Os cumprimentos dos vizinhos haviam cessado e ele não era mais obrigado a receber felicitações por um evento tão triste; e o bolo de casamento, que havia sido motivo de grande angústia para ele, fora totalmente comido. Seu estômago não podia suportar alimentos pesados, e ele não podia acreditar que as outras pessoas fossem diferentes dele. O que era prejudicial para ele era considerado impróprio para todo mundo, e ele havia seriamente tentado dissuadi-los de fazer o bolo de casamento; e quando não obteve sucesso, tentou seriamente impedir todo mundo de comê-lo. Deu-se ao trabalho de consultar Mr. Perry, o farmacêutico, sobre o assunto. Mr. Perry era um homem inteligente e cavalheiresco, cujas frequentes visitas eram um dos consolos da vida de Mr. Woodhouse; quando consultado, só pode reconhecer (apesar de parecer um tanto contra a opinião geral) que bolo de casamento poderia com certeza fazer mal a muitos, talvez à maioria das pessoas, a menos que fosse consumido moderadamente. Com tal opinião, que confirmava a sua, Mr. Woodhouse tentava influenciar cada visitante dos recém-casados, mas mesmo assim o bolo foi comido; e não houve descanso para os seus nervos benevolentes até que todo o bolo acabasse». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «Sob estes auspícios nada promissores, a partida ocorreu e a viagem começou. Foi executada com adequada quietude e tranquila segurança. Nem ladrões ou tempestades os acompanharam»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Além do que já foi dito sobre os dotes pessoais e mentais de Catherine Morland, quando ela estava prestes a ser lançada a todas as dificuldades e aos perigos de uma estada de seis semanas em Bath, pode-se dizer, para melhor compreensão do leitor, a menos que as páginas seguintes fracassem em dar qualquer ideia do que a personalidade dela deveria ser, que o seu coração era afectuoso; o seu temperamento alegre e aberto, sem presunção ou afectação de qualquer tipo; as suas maneiras recém-libertadas do constrangimento e da timidez de uma garota; a sua pessoa agradável e, quando bem vestida, bonita; e a sua mente tão ignorante e desinformada quanto uma mente feminina aos 17 anos geralmente é. Quando a hora da partida se aproximava, a ansiedade maternal da senhora Morland deveria, naturalmente, tornar-se mais severa. Mil pressentimentos alarmantes e ruins sobre a sua querida Catherine, por essa terrível separação, deveriam oprimir o seu coração com tristeza e afogá-la em lágrimas no último ou penúltimo dia juntas, e o conselho da mais importante e aplicável natureza deveria, claro, fluir dos seus sábios lábios, na conversa de despedida no seu quarto. Precauções contra a violência de lordes e de barões quanto ao prazer em forçar jovens damas para alguma remota casa no campo deveriam, em tal momento, aliviar o seu coração aflito. Quem não pensaria assim? Mas a senhora Morland sabia tão pouco sobre lordes e barões que não tinha nenhuma noção das suas maldades em geral, e era totalmente ingénua quanto aos perigos das maquinações contra a sua filha. Os seus cuidados se restringiram aos seguintes aspectos: te peço, Catherine, que sempre se agasalhe muito bem na garganta, ao sair dos salões à noite. Espero que sempre tente manter conta do dinheiro que gastar. Para isso, leve esta pequena caderneta. Sally, ou melhor, Sarah (pois, qual menina com um nome comum chega aos 16 anos sem mudar o seu nome para o mais diferente possível?, deveria, pela situação daquele momento, ser a amiga íntima e a confidente da sua irmã. É notável, porém, que ela nem tenha insistido para que Catherine lhe enviasse uma carta a cada passagem do carteiro, nem cobrasse dela a promessa de transmitir o carácter de cada novo amigo, ou o detalhe de cada conversa interessante que Bath pudesse lhe prover. Tudo o que se relacionava directamente a essa importante viagem foi feito pelos Morland com uma dose de moderação e de compostura, o que parecia bem mais coerente com os sentimentos comuns da vida quotidiana, do que com as refinadas susceptibilidades ou as suaves emoções que a primeira separação de uma heroína de sua família sempre deveria suscitar. Seu pai, ao invés de lhe dar uma ordem ilimitada ao seu banqueiro, ou mesmo colocar uma nota de 100 libras nas suas mãos, deu-lhe apenas dez guinéus e prometeu mais assim que ela quisesse.
Sob estes auspícios nada promissores, a partida ocorreu e a viagem começou. Foi executada com adequada quietude e tranquila segurança. Nem ladrões ou tempestades os acompanharam. Nem uma afortunada reviravolta para apresentá-los a um herói. Nada mais alarmante ocorreu além de um susto, da parte da senhora Allen, por ter esquecido os seus tamancos numa estalagem, o que se provou, por sorte, infundado. Chegaram a Bath. Catherine estava ansiosa e encantada. Os seus olhos estavam aqui, ali, em todo o lugar, enquanto se aproximavam dos seus belos e impactantes arredores, passando, em seguida, por aquelas ruas que os conduziam ao hotel. Ela queria estar feliz e já se sentia assim. Logo se instalaram em confortáveis habitações em Pulteney Street. Agora é adequado fornecer alguma descrição da senhora Allen, para que o leitor possa julgar de que maneira suas acções irão, doravante, inclinar-se em promover a desgraça de todos os acontecimentos, e como ela provavelmente contribuirá para submeter a pobre Catherine à infelicidade e ao desespero, fazendo com que uma nova obra fosse necessária, seja pela sua imprudência, vulgaridade ou ciúme, seja por interceptar as suas cartas, destruir o seu carácter ou expulsá-la de casa.
A senhora Allen era daquele tipo de mulher cuja companhia poderia suscitar nenhuma outra emoção que a surpresa por haver algum homem no mundo que a apreciaria tanto, a ponto de se casar com ela. Não tinha beleza, génio, prendas ou modos. O tom de uma dama, uma boa porção de temperamento tranquilo por natureza, um insignificante voluteio de espírito, era tudo o que se podia atribuir para que ela fosse a escolha de um homem sensível e inteligente como o senhor Allen. Num aspecto ela era dmiravelmente talentosa: em apresentar uma jovem dama ao público, pois ela era tão apaixonada por ir a todos os lugares e ver tudo, que qualquer jovem dama poderia tornar-se também. A moda era a sua paixão». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802 /1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «A sua maior deficiência estava no lápis. Não tinha noção de desenho, nem mesmo para tentar um esboço do perfil do seu amado, o qual ela poderia encontrar no desenho»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Deste modo, não era muito intrigante que Catherine, que por natureza nada tinha de heróica em si, preferisse, na idade de 14 anos, críquete, beisebol, montar a cavalo e correr pelos campos, a livros, ou, pelo menos, livros educativos. No entanto, dado que nada como um conhecimento útil poderia ser obtido disso e que eram apenas histórias e não reflexões, ela nunca tinha qualquer objecção a livros. Mas, dos 15 aos 17 anos, ela estava treinando para se tornar uma heroína. Leu todos os livros que as heroínas deveriam ler para fornecer nas suas memórias aquelas citações que eram tão úteis e tranquilizantes durante as vicissitudes das suas agitadas vidas. Com Pope, ela aprendeu a censurar aqueles que fazem zombaria dos aflitos. Com Gray, que muitas flores nascem para florir sem serem vistas, e desperdiçam a sua fragrância no ar deserto. Com Thompson, que é uma deliciosa tarefa ensinar a uma jovem a ideia de como se desenvolver. E, de Shakespeare, ela guardou muita informação, dentre todas, que fios leves como o ar são, para o ciumento, confirmação evidente como provas das Santas Escrituras. E ainda, que o pobre insecto, quando pisado, sente, em sofrimento corporal, uma dor tão grande quanto a de um gigante que morre; e que uma jovem mulher apaixonada sempre se mostra como a Paciência num monumento, sorrindo para a dor.
Até então, o seu aprimoramento era suficiente, e, em muitos outros aspectos, ela ia muito bem. Embora não pudesse escrever sonetos, obrigava-se a lê-los, e embora parecesse não haver chances de levar todo um grupo às lágrimas num prelúdio ao piano que ela mesma compusera, podia ouvir o desempenho de outros, sem o menor cansaço. A sua maior deficiência estava no lápis. Não tinha noção de desenho, nem mesmo para tentar um esboço do perfil do seu amado, o qual ela poderia encontrar no desenho. Era quando ficava miseravelmente menor que a verdadeira altura heróica. Até ao momento, ela não conhecia a sua própria miséria, pois não tivera um amado para retratar. Ela chegou aos 17 anos sem ter visto um jovem amável que pudesse despertar a sua sensibilidade, sem ter inspirado uma paixão verdadeira, e sem ter levantado mesmo qualquer admiração, além daquelas moderadas e passageiras. Isto era, de facto, estranho! Mas as coisas estranhas podem ser geralmente explicadas, se a sua causa for pesquisada com isenção. Não havia nenhum lorde na vizinhança, nem mesmo um barão; não havia nenhuma família nos seus relacionamentos que tivesse abrigado e cuidado de um garoto acidentalmente encontrado na sua porta, nenhum jovem rapaz cuja origem fosse desconhecida; o seu pai não tinha nenhum protegido; e o escudeiro da paróquia, nenhum filho.
Mas, quando uma jovem dama é predestinada a ser uma heroína, a perversidade de quarenta famílias ao redor não pode detê-la. Algo deve, e irá, acontecer para lançar um herói no seu caminho. O senhor Allen, que era o proprietário da maior parte das terras perto de Fullerton, a vila em Wiltshire onde viviam os Morland, foi enviado a Bath para cuidar da sua gota, e a sua esposa, uma mulher bem-humorada, que gostava da senhorita Morland, e provavelmente ciente de que, se as aventuras não recaíssem sobre uma jovem dama na sua própria vila, ela iria buscá-las noutro lugar, convidou-a a acompanhá-los. O senhor e a senhora Morland eram só condescendência, e Catherine, só felicidade». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802 /1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

A Abadia de Northanger. Jane Austen. «O seu pai lhe ensinava a escrever e a fazer contas; a sua mãe, francês. A sua competência em qualquer destas disciplinas não era notável e ela esquivava-se das lições sempre que podia»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Ninguém que tenha visto Catherine Morland na sua infância poderia supor que ela tivesse nascido para ser uma heroína. A sua situação na vida, o carácter do seu pai e da sua mãe, a sua própria pessoa e o seu ânimo, tudo se mostrava igualmente contra ela. Seu pai, um clérigo, não era desafortunado ou pobre, um homem muito respeitável, embora o seu nome fosse Richard, e nunca fora bonito. Tinha uma considerável autonomia, além de dois salários; e nem de longe era dado a trancafiar as suas filhas. A sua mãe, dona de um apropriado senso comum, tinha bom temperamento e, o que era mais notável, uma boa constituição. Teve três filhos antes de Catherine nascer. E, ao invés de morrer ao trazer esta última ao mundo, como seria de se esperar, ela ainda viveu, e viveu para ter mais outros seis filhos e vê-los crescer ao seu redor, enquanto gozava de excelente saúde. Uma família de dez filhos sempre será chamada de uma família admirável; em que há cabeças, braços e pernas suficientes para o adjectivo. Mas os Morland tinham outro pequeno direito sobre a palavra, pois eram, em geral, muito correctos, sendo que Catherine, por muitos anos, foi tão correcta quanto os demais. Dona de compleição magra e estranha, pele pálida, sem cor, cabelos pretos escorridos, e traços fortes, excessivamente fortes para a sua pessoa. E não menos inapropriada para o heroísmo parecia a sua mente. Ela era apaixonada pelas brincadeiras dos garotos e preferia críquete não apenas em relação às bonecas, mas também às diversões mais heróicas da infância, como cuidar de um rato do campo, alimentar um canário ou regar uma roseira. Na verdade, ela não gostava do jardim. E se fazia ramalhetes de flores era principalmente pelo prazer de enganar, pelo menos era o que se supunha, pois ela sempre preferia aquelas proibidas de serem colhidas. Tais eram as suas propensões. E as suas habilidades eram bem peculiares. Ela nunca podia aprender ou compreender algo antes de ser ensinada. E, às vezes, nem mesmo assim, pois era muito desatenciosa e, ocasionalmente, estúpida. A sua mãe levou três meses para ensiná-la a repetir Beggar’s Petition, no entanto a sua irmã mais nova, Sally, podia recitá-lo melhor do que ela. Não que Catherine fosse sempre estúpida, de jeito nenhum. Ela aprendeu a fábula The Hare and Many Friends tão rápido quanto qualquer garota na Inglaterra. A sua mãe queria que ela aprendesse música, e Catherine estava certa de que gostaria disso, pois adorava pressionar as teclas da velha e abandonada espineta (similar a um piano ou um cravo, inventado em 1503); assim, começou aos oito anos, estudando por um ano apenas, pois já não aguentava mais. A senhora Morland, que não insistia em tornar prendadas suas filhas, a despeito da incapacidade ou do fastio, permitiu que ela abandonasse os estudos. O dia em que demitiu o professor de música foi um dos mais felizes da vida de Catherine. Seu apreço por desenho não era muito maior, se bem que, sempre que encontrava uma carta jogada fora por sua mãe ou qualquer pedaço de papel, ela fazia o que podia, desenhando casas e árvores, galinhas e galos; tudo parecendo a mesma coisa. O seu pai lhe ensinava a escrever e a fazer contas; a sua mãe, francês. A sua competência em qualquer destas disciplinas não era notável e ela esquivava-se das lições sempre que podia. Que carácter estranho e irresponsável! Com todos esses sintomas de má conduta, ela não tinha um mau coração ou um mau temperamento. Quase nunca era teimosa e muito menos emburrada. Pelo contrário, muito bondosa com os menores, e raramente autoritária. Ela era bem mais barulhenta e irrequieta; odiava o confinamento e a limpeza; e amava, mais do que tudo, rolar pela verde encosta abaixo, atrás de sua casa.
Assim era Catherine Morland aos 10 anos. Aos 15, as aparências se corrigiram. Começou a encaracolar os cabelos e a ansiar por bailes, encorpou e os seus traços suavizaram-se, com exuberância e colorido. Os seus olhos ganharam mais vivacidade e a sua figura, mais imponência. O seu amor pela sujeira deu lugar a uma inclinação pela sofisticação; à medida que crescia, tornava-se mais limpa e mais esperta. Agora tinha o prazer de ouvir, às vezes, seu pai e sua mãe comentavam sobre o seu aprimoramento pessoal. Catherine está tornando-se uma garota muito bonita, ela está quase encantador, eram palavras que agarravam os seus ouvidos, de vez em quando. E como eram bem-vindos tais sons. Parecer-se quase encantadora é uma aquisição mais prazerosa para uma garota de aparência rude, pelos primeiros quinze anos da sua vida, do que para uma garota bonita desde o berço. A senhora Morland era uma mulher muito boa e desejava que os seus filhos tivessem tudo o que almejassem. Mas estava sempre tão ocupada em cuidar e em ensinar os mais novos, que os mais velhos eram deixados a cuidar de si mesmos». In Jane Austen, A Abadia de Northanger, 1802 /1817, Relógio d’Água, 2016, ISBN 978-989-641-596-9.

Cortesia de Rd’Água/JDACT

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Emma. Jane Austen. «E foi desde então que miss Taylor começou a influenciar as suas decisões; como não era a tirânica influência da juventude sobre a juventude»

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«(…) Mr. Weston era natural de Highbury, de uma família respeitável, que nas últimas duas ou três gerações havia ascendido em nobreza e prosperidade. Recebera uma boa educação, mas, atingindo certa independência ainda muito jovem, não se achava disposto a engajar-se nos negócios corriqueiros a que seus irmãos se dedicavam. Para ocupar sua mente activa e alegre e seu temperamento sociável, entrou para a milícia do condado, e seguiu a carreira militar. O capitão Weston era estimado por todos; e quando as circunstâncias de sua carreira militar levaram-no a conhecer miss Churchill, de uma importante família do Yorkshire, e ela apaixonou-se por ele, ninguém ficou surpreso, excepto o irmão dela e a esposa. Como nunca o tinham visto, e eram cheios de orgulho e arrogância, sentiam-se ofendidos com este relacionamento. Miss Churchill, no entanto, sendo maior de idade e em plena posse de sua fortuna, embora esta fortuna não fosse proporcional às propriedades da família, não se deixou dissuadir, e o casamento realizou-se, para infinita mortificação de mr. e mrs. Churchill, que se afastaram dela com o devido decoro. Foi uma união inapropriada, e não produziu muita felicidade. Mrs. Weston deve ter sido mais feliz, pois tinha um marido de coração afectuoso e carácter gentil, que achava que ela merecia tudo como retribuição pela grande bondade de ter-se apaixonado por ele; e embora ela tivesse alguma disposição de espírito, esta não era das melhores. Teve coragem suficiente para impor a sua própria vontade, a despeito da oposição do irmão, mas não para refrear o seu insensato pesar ante a insensata ira do irmão, nem para deixar de sentir falta dos luxos do seu antigo lar. Viviam acima de suas posses, mas isso não era nada comparado à sua vida em Enscombe: não deixara de amar o marido, mas queria ser ao mesmo tempo a esposa do capitão Weston e miss Churchill Enscombe. O capitão Weston, que na opinião de todos, especialmente dos Churchill, havia feito um excelente casamento, terminou por ficar com a pior parte da barganha. Quando a sua esposa morreu, após um casamento de três anos, estava ainda mais pobre do que no início e com um filho para criar. Logo seria liberado das despesas de manutenção da criança, no entanto. O filho havia sido um meio de reconciliação, ajudado pelo suave apelo da prolongada doença da mãe. Mr. e mrs. Churchill, não possuindo filhos nem qualquer outra criança de igual parentesco para se dedicar, ofereceram-se para cuidar integralmente do pequeno Frank, logo após a morte da mãe. O pai viúvo deve ter relutado e sentido alguns escrúpulos, mas como estes foram superados por outras considerações, a criança foi deixada para desfrutar do cuidado e da riqueza dos Churchills, e ele tinha agora que provar apenas o seu próprio conforto e tentar melhorar a sua situação tanto quanto pudesse. Seria necessária uma completa mudança de vida. O capitão deixou a milícia e dedicou-se ao comércio, pois os seus irmãos já haviam-se estabelecido com sucesso em Londres e lhe propiciaram uma boa abertura. Era um trabalho que o ocupava bastante. Ele ainda possuía uma pequena casa em Highbury, onde passava a maior parte dos seus momentos de descanso; e entre uma ocupação útil e os prazeres da sociedade, os dezoito ou vinte anos seguintes da sua vida passaram animadamente. Por essa época ele já se havia estabelecido com sucesso, o suficiente para comprar uma pequena propriedade vizinha de Highbury, que ele sempre desejara, o suficiente para se casar com uma mulher sem dote como miss Taylor, e para viver de acordo com a sua própria disposição amigável e sociável.
E foi desde então que miss Taylor começou a influenciar as suas decisões; como não era a tirânica influência da juventude sobre a juventude, isso não abalou a sua determinação de não se casar novamente antes que pudesse comprar Randalls. A compra da propriedade era algo que ele ansiava há muito tempo, mas seguiu firme na perseguição dos seus objectivos, até que se realizassem. Fizera a sua fortuna, comprara a sua casa, e conseguira a sua esposa. Começava um novo período na sua existência, com grandes possibilidades de ser muito feliz, mais do que no passado». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Emma. Jane Austen. «Admiro muito mr. Elton, e esta é a única maneira que tenho de prestar-lhe um serviço»

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«(…) Alguns falavam que ele tinha feito uma promessa à esposa no seu seu leito de morte, outros diziam que o filho e o cunhado não permitiam. Todos os tipos de solenes disparates foram ditos sobre o assunto, mas não acreditei em nenhuma delas. Tomei minha decisão sobre o assunto há quatro anos, desde o dia em que miss Taylor e eu o encontramos em Broadway Lane e, como começasse a chuviscar, ele galantemente correu a buscar duas sombrinhas para nós em Farmer Mitchell. Comecei a planear o casamento deles naquele momento, e como fui abençoada com o sucesso, pai, o senhor não pode querer que eu deixe de arranjar casamentos. Não entendo o que quer dizer com sucesso, disse mr. Knightley. Sucesso supõe esforço. Seu tempo seria apropriada e delicadamente usado se tivesse esforçado durante quatro anos para realizar este casamento. Um digno emprego para a mente de uma jovem! Mas se fazer o casamento no seu entender, como imagino, significa apenas planeá-lo, ou dizer para si mesma num dia em que não tivesse nada mais para se ocupar. Acho que seria muito bom para miss Taylor se mr. Weston se casasse com ela, e depois repetir isso sempre para si mesma, por que fala em sucesso? Qual o seu mérito? Do que se orgulha? Teve um palpite feliz, e isso é tudo o que pode ser dito.
E o senhor nunca sentiu o prazer e o triunfo de ter tido um palpite feliz? Tenho pena do senhor... Pensei que fosse mais esperto, pois confiar num palpite feliz não é apenas sorte. Tem sempre algum talento envolvido. E quanto à pobre palavra sucesso, com a qual implicou, não sei se estou inteiramente errada em reivindicá-lo. O senhor pintou duas lindas situações, mas penso que há uma terceira, algo entre o fazer nada e o fazer tudo. Se eu não tivesse promovido as visitas de mr. Weston à nossa casa, se não lhe tivesse dado alguns pequenos encorajamentos e contornado alguns obstáculos, poderia não ter acontecido nada, afinal de contas. Penso que conhece Hartfield o suficiente para compreender isso.
Um homem sincero e honesto como Weston e uma mulher equilibrada e sem afectações como miss Taylor, podem seguramente conduzir os seus próprios assuntos sozinhos. É provável que você tenha feito mais mal a si mesma do que bem a eles, com a sua interferência. Emma nunca pensa em si mesma, quando pode fazer o bem a outros, replicou mr. Woodhouse, entendendo apenas em parte a conversa. Mas, minha querida, por favor, não faça mais casamentos, são coisas tolas e destroem o círculo familiar de modo cruel. Só mais um, pai, para mr. Elton. Pobre mr. Elton! O senhor gosta dele, pai... Devo encontrar uma esposa para ele. Não há ninguém em Highbury que o mereça, e ele já está aqui há um ano e mobilou a sua casa de modo tão confortável que seria uma vergonha se ficasse solteiro por mais tempo. E hoje, no casamento, quando todos se deram as mãos, pensei que ele parecia querer que fizessem por ele a mesma coisa que fiz por miss Taylor. Admiro muito mr. Elton, e esta é a única maneira que tenho de prestar-lhe um serviço.
Mr. Elton é um jovem muito elegante e de bom carácter, com certeza, tenho grande estima por ele. Mas se deseja mostrar-se atenciosa, minha querida, convide-o para jantar connosco um dia desses. Será muito melhor. Ouso dizer que mr. Knightley será gentil o bastante para encontrá-lo. Com grande prazer, senhor, quando quiser, disse mr. Knightley rindo, e concordo inteiramente com o senhor que é a melhor coisa a fazer. Convide-o para jantar, Emma, e ofereça-lhe o melhor peixe e a melhor ave, mas deixe-o escolher a própria esposa. Pode acreditar, um homem de vinte e seis ou vinte e sete anos é capaz de tomar conta de si mesmo». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

domingo, 26 de março de 2017

Emma. Jane Austen. «Não gostaríamos tanto dela como gostamos se isso fosse possível, senhor. Mas ela sabe quanto o casamento é vantajoso para miss Taylor»

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«(…) De modo algum, senhor. Está uma bonita noite de luar, e tão amena que é preferível me afastar da sua lareira. Mas deve estar muito húmido e enlameado. Espero que não apanhe um resfriado. Enlameado, senhor? Olhe os meus sapatos, não têm nenhuma mancha. Bem, isso é surpreendente, pois choveu muito por aqui. Caiu uma chuvada terrível durante meia hora, quando tomávamos o café da manhã. Queria até que eles adiassem o casamento. A propósito, não lhes desejei felicidades. Sei bastante bem o quanto vocês dois estão felizes, por isso não me apressei em congratulá-los; mas espero que tudo tenha corrido razoavelmente bem. Como todos se comportaram? Quem chorou mais? Ah! Pobre miss Taylor! Isso é muito triste. Pobre mr. e miss Woodhouse, talvez, mas não posso dizer pobre miss Taylor. Tenho grande estima pelo senhor e por Emma, mas quando é uma questão de dependência ou independência... De qualquer forma, é melhor ter apenas uma pessoa para agradar do que duas. Especialmente quando uma delas é uma criatura caprichosa e impertinente!, disse Emma, brincando. Isso é o que o senhor quis dizer, eu sei... E o que certamente diria se meu pai não estivesse aqui. Acho que é bem verdade, minha querida, de facto..., disse mr. Woodhouse com um suspiro. Temo que às vezes eu seja bastante caprichoso e impertinente. Meu querido pai! Não pode acreditar que eu estivesse me referindo ao senhor, ou imaginar que mr. Knightley se referisse ao senhor. Que ideia horrível! Não! Eu me referia a mim mesma. Mr. Knightley adora encontrar defeitos em mim, o senhor sabe... De brincadeira. É tudo brincadeira. Sempre dizemos o que pensamos um ao outro. Mr. Knightley, de facto, era uma das poucas pessoas que podia encontrar defeitos em Emma Woodhouse, e a única que sempre os apontava para ela. Embora isso não fosse particularmente agradável para Emma, seria muito pior para seu pai; ele jamais imaginaria que ela não fosse perfeita para todos. Emma sabe que nunca a lisonjeio, disse mr. Knightley, mas não estendo isso aos outros. Miss Taylor estava acostumada a ter duas pessoas para agradar, agora só terá uma. As chances são de que ela saia ganhando. Bem, disse Emma, desejando mudar de assunto, o senhor queria ouvir sobre o casamento e ficarei feliz de lhe contar, pois todos nos comportamos de forma encantadora. Todas as pessoas foram pontuais, todas vestindo os seus melhores trajes, nem uma lágrima, e apenas uma ou outra cara triste. Ah, não! Todos sabemos que estamos a apenas oitocentos metros de distância, e certos de que vamos-nos ver todos os dias. A minha querida Emma suporta tudo tão bem, disse o pai. Mas saiba, mr. Knightley, que ela está de facto muito pesarosa de perder a pobre miss Taylor, e tenho certeza que vai sentir a falta dela mais do que imagina. Emma virou o rosto, dividida entre lágrimas e sorrisos. É impossível que Emma não sinta a falta de tal companheira, disse Mr. Knightley.
Não gostaríamos tanto dela como gostamos se isso fosse possível, senhor. Mas ela sabe quanto o casamento é vantajoso para miss Taylor, sabe que é perfeitamente aceitável que, a esta altura da vida, miss Taylor tenha a sua própria casa, e o quanto é importante a garantia de uma vida confortável com o marido. Portanto, só pode permitir-se sentir alegria por ela e não tristeza. Todos os amigos de miss Taylor devem estar felizes de vê-la tão bem casada. E o senhor esqueceu-se de outro motivo de alegria para mim, disse Emma, e muito importante: eu mesma planeei o casamento. Comecei a planeá-lo, o senhor sabe, há quatro anos. E conseguir que essa união acontecesse, provando que eu estava certa, quando todos diziam que mr. Weston jamais se casaria de novo, me consola de qualquer coisa. Mr. Knightley sacudiu a cabeça. O seu pai replicou afectuosamente: bem, minha querida, gostaria que não fizesse mais casamentos nem prognósticos, pois tudo que a menina diz sempre acaba por acontecer. Por favor, não faça mais casamento algum. Prometo não fazer nenhum para mim mesma, pai, mas devo fazer para os outros, de verdade. É a coisa mais divertida do mundo. E depois deste sucesso, então! Todos diziam que mr. Weston nunca mais se casaria. Ah, não! Estava viúvo há tanto tempo e parecia perfeitamente bem sem uma esposa, sempre ocupado com os seus negócios na cidade, ou aqui entre seus amigos, sempre benquisto em todos os lugares, sempre alegre... Mr. Weston não precisaria passar mais uma noite sequer sozinho se não gostasse disso. Ah, não! Mr. Weston com certeza jamais voltaria a se casar». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

terça-feira, 21 de março de 2017

Emma. Jane Austen. «Nesta ocasião era mais bem-vindo que o normal, pois acabava de chegar de uma visita ao irmão e à Isabella em Londres»

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«(…) Highbury, o grande e populoso vilarejo, quase uma cidade, ao qual Hartfield de facto pertencia, apesar dos prados e plantações de arbustos separadas, e do nome diferente, não lhe proporcionava companhia de seu próprio nível. Os Woodhouses eram a família mais importante da região, todos os tomavam como modelo. Ela tinha muitas relações no lugar, pois seu pai era educado com todos, mas nenhum deles podia ser aceito no lugar de miss Taylor, nem mesmo por um dia. Era uma mudança melancólica e Emma só podia suspirar e desejar o impossível, até que o pai se apercebesse e ela tivesse que mostrar-se alegre. Ele necessitava de apoio. Era um homem nervoso, que caía facilmente em depressão; apegado a todas as pessoas com quem estava acostumado, detestava separar-se delas e detestava mudanças de qualquer espécie. E o casamento, como fonte da mudança, sempre era desagradável; ainda não se havia conformado com o casamento da própria filha, e só falava dela com compaixão, apesar de ter sido um casamento por amor, e agora era obrigado a aceitar a partida de miss Taylor também. Graças aos seus hábitos de gentil egoísmo, e por não ser capaz de supor que os outros pudessem pensar diferente dele, estava bastante disposto a acreditar que miss Taylor tinha feito uma coisa muito triste, tanto para ela como para eles, e que teria sido muito mais feliz se passasse o resto da sua vida em Hartfield. Emma sorria e conversava tão alegremente quanto podia, para ocultar-lhe tais pensamentos; mas quando o chá foi servido naquele dia ele não pode deixar de dizer, exactamente como dissera ao jantar: pobre miss Taylor! Gostaria muito que ela estivesse aqui. Que pena mr. Weston ter pensado nela! Não posso concordar, pai, o senhor bem sabe. Mr. Weston é tão bem-humorado e agradável, um homem excelente e que merece uma boa esposa; e o senhor acha que miss Taylor iria viver connosco para sempre, aguentando as minhas esquisitices, quando podia ter a sua própria casa?
Sua própria casa! Mas qual é a vantagem de ter a sua própria casa? Esta é três vezes maior; e a menina não é esquisita, minha querida. Podemos visitá-los sempre, e eles também podem vir-nos visitar! Vamos-nos encontrar sempre! Nós devemos visitá-los primeiro, temos que ir logo fazer a visita de cumprimento aos recém-casados. Minha querida, como posso ir tão longe? Randalls é muito distante, eu não poderia andar nem a metade do caminho. Não, pai, ninguém pensou em fazê-lo andar. Vamos de carruagem, é claro. De carruagem! James não vai gostar de preparar os cavalos para uma distância tão pequena. E onde os pobres cavalos vão ficar, enquanto estivermos de visita? Vão ficar no estábulo de mr. Weston, pai. O senhor sabe que nós já arranjamos tudo, falamos sobre o assunto com mr. Weston ontem à noite. Quanto a James, o senhor pode estar certo de que ele sempre ficará feliz de ir a Randalls, pois sua filha trabalha lá como criada. Duvido até que ele goste de nos levar a outro lugar. Conseguir este bom emprego para Hannah foi obra sua, pai. Ninguém pensou nela até que o senhor a mencionou, James está muito grato ao senhor! Fico contente de ter pensado nela. Foi pura sorte, não gostaria que o pobre James se sentisse obrigado por conta disso. E estou certo que ela será uma boa criada, é uma menina educada e fala muito bem, tenho bastante consideração por ela. Todas as vezes que a via, ela sempre me fazia uma reverência e perguntava como eu estava, de modo muito gentil. E quando a chamava ao salão para bordar percebi que ela girava a tranca e fechava a porta do modo certo, sem bater. Tenho a certeza que será uma excelente criada, e é um grande conforto para miss Taylor ter uma pessoa conhecida junto dela. Sempre que James for ver a filha, miss Taylor terá notícias nossas, ele poderá contar-lhe como estamos indo.
Emma não poupou esforços para manter este feliz fluxo de ideias, e, com a ajuda do jogo de gamão, esperava manter o pai em tolerável disposição durante a noite, sem outros pesares além do seu. O tabuleiro de gamão foi arrumado, mas a imediata entrada de um visitante tornou o jogo desnecessário. Mr. Knightley, um homem sensível de trinta e sete ou trinta e oito anos, não era apenas um amigo íntimo da família, mas especialmente ligado a ela, pois era o irmão mais velho do marido de Isabella. Vivia a cerca de um quilômetro e meio de Highbury, era um visitante frequente e sempre bem-vindo. Nesta ocasião era mais bem-vindo que o normal, pois acabava de chegar de uma visita ao irmão e à Isabella em Londres. Voltara depois do jantar, após alguns dias de ausência, e vinha directo a Hartfield para dizer que todos estavam bem em Brunswick Square. Era uma notícia boa e deixou mr. Woodhouse animado por algum tempo. Mr. Knightley tinha um temperamento alegre, que sempre fazia bem ao velho cavalheiro, e respondeu de modo satisfatório às suas perguntas sobre a pobre Isabella e as crianças. Após as notícias, mr. Woodhouse observou, agradecido: é muita bondade sua, mr. Knightley, sair a uma hora tão tardia para nos visitar. Temo que tenha feito uma caminhada horrível». In Jane Austen, Emma, 1815/1816, Relógio de Água, 2016, ISBN 978-989-641-622-5.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT

domingo, 12 de março de 2017

Lady Susan. Jane Austen. «Sempre me falaram dela como uma distinta conquistadora, mas ultimamente soube alguns detalhes da sua conduta em Langford que demonstram que não se limita a essa classe de sedução honesta»

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Sra. Vernon à lady de Courcy Churchill
«(…) Minha querida mãe,
Sinto muito ter que lhe dizer que não poderemos cumprir a promessa de passar o Natal convosco. Essa sorte nos foi privada por uma circunstância que, lamentavelmente, não nos servirá de compensação. Lady Susan, numa carta ao seu cunhado, manifestou a sua intenção de nos visitar quase de imediato e, certamente trata-se de uma visita apenas por questão de conveniência, sendo impossível adivinhar a sua duração. Eu não estava preparada em absoluto para este facto e tampouco posso entender a conduta de lady Susan. Langford parecia o lugar adequado para ela em todos os aspectos, tanto pelo estilo de vida elegante e caro do lugar, como por sua particular ligação ao sr. Manwaring, de modo que não esperava essa distinção tão cedo, embora sempre tinha pensado, visto a crescente amizade demonstrada por nós, após a morte de seu marido, que em algum momento nos veríamos obrigados a recebê-la. Acredito que o sr. Vernon foi extraordinariamente amável com ela quando esteve em Staffordshire. A conduta dela com ele, independentemente de seu carácter geral, foi tão indesculpavelmente dissimulada e mesquinha, desde o nosso matrimónio, que qualquer pessoa menos benévola e indulgente que ele não teria passado por cima; embora o correcto fosse prestar ajuda económica, tratando-se da viúva do seu irmão que passava por momentos de apuro, não posso deixar de considerar perfeitamente desnecessário que ele a convidasse tão insistentemente a nos visitar em Churchill. Enfim, como ele sempre se mostra disposto a pensar o melhor de todo o mundo, as suas demonstrações de pesar, suas manifestações de arrependimento e, em geral, a sua atitude de prudência, foram suficientes para lhe abrandar o coração e confiar na sua sinceridade. Entretanto, eu sigo sem me convencer de tudo isso e, como foi ela mesma quem tem escrito, não consegui mudar de opinião até que consiga compreender o verdadeiro motivo de sua visita. Portanto, minha querida senhora, já pode adivinhar com qual ânimo espero a sua chegada. Terá a oportunidade de ganhar a minha consideração, com esses atraentes encantos que todo mundo elogia nela, embora sem dúvida procure me proteger de sua influência, se não vierem acompanhados de algo mais substancial. Manifestou seu mais fervoroso desejo de me conhecer, mencionando com consideração a meus filhos, mas não sou tão impressionável para acreditar que uma mulher que se comportou com tanta negligência, por não dizer crueldade, com a sua própria filha vá sentir apego pelos meus. A senhorita Vernon ingressará numa escola da cidade antes que sua mãe venha a nossa casa, do qual me alegro, tanto por ela como por mim. Ser-lhe-á benéfico separar-se de sua mãe e, sendo uma garota de dezasseis anos que recebeu uma educação tão lamentável, não é uma companhia muito desejável. Faz tempo que Reginald quer, sei bem, ver a cativante lady Susan e esperamos que se una a nós muito em breve. Alegra-me saber que meu pai segue bem. Com carinho, Catherine Vernon.

Sr. de Courcy à sra. Vernon Parklands
Minha querida irmã,
Quero dar-lhe os parabéns e ao sr. Vernon por estarem prestes a receber na sua família a coquette mais consumada da Inglaterra. Sempre me falaram dela como uma distinta conquistadora, mas ultimamente soube alguns detalhes da sua conduta em Langford que demonstram que não se limita a essa classe de sedução honesta que agrada à maioria das pessoas, mas sim aspira uma gratificação mais deliciosa, que consiste em tornar toda uma família miserável. Com o seu comportamento a respeito do senhor Manwaring, semeou os ciúmes e a desdita na sua mulher, e com os seus cuidados para com um jovem apaixonado pela irmã do senhor Manwaring, privou a uma agradável jovem de seu amante. Soube tudo isso pelo sr. Smith, que agora vive nesta vizinhança (jantei com ele no Hurst e Wilford) e que acabara de chegar de Langford, onde passou uma quinzena na casa com lady Susan, e cujos comentários são, portanto muito qualificados. Que mulher deve ser! Já tenho vontades de conhecê-la e sem dúvida aceito seu amável convite. Assim poderei formar uma ideia desse encanto tão poderoso capaz de atrair a atenção, ao mesmo tempo e na mesma casa, de dois homens que não estavam em posição de lhe oferecer seus afectos livremente. E tudo isso sem o encanto da juventude! Alegra-me saber que a senhorita Vernon não acompanhará a sua mãe ao Churchill, posto que as suas maneiras não dizem muito em seu favor e, segundo o relato do senhor Smith, é igual de aborrecida e de presumida. Quando se unem o orgulho e a estupidez, não se podem rebater com dissimulação, e a senhorita Vernon não merece outra coisa que o desprezo mais inexorável. Entretanto, por tudo o que pude deduzir, lady Susan possui uma capacidade para mostrar-se astutamente cativante que deve ser interessante presenciar e detectar. Logo estarei convosco. Seu afectuoso irmão, R. De Courcy». In Jane Austen, Lady Susan, 1805, 1871, Relógio D’ Água, 2014, ISBN 978-989-641-462-7.

Cortesia de RdeÁgua/JDACT