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terça-feira, 22 de maio de 2018

O Templário d’el Rei. António B. Vicente. «De súbito, a claridade que lentamente vinha invadindo o vale e lhe permitia distinguir, cada vez mais nitidamente, os refinados bordados das teias de aranha…»

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O caminho da Esperança. Catalunha. Dezembro de 1269
«(…) Enquanto frei Gil se dirigia ao coro para entoar os salmos de Completas, frei Arnaldo, ainda envolto nos pensamentos que durante todo o dia o haviam perturbado, enrolou-se no manto e tentou conciliar o sono. No dia seguinte, esperava-o uma caminhada de cinco léguas, em terreno acidentado ao longo do Segre, antes de atingir Oliana, onde se centravam todas as suas actuais preocupações. Ouviam-se os primeiros louvores dos salmos de Primas, quando, sob um céu estrelado que lhe recordava as noites da sua juventude em torno da fogueira nos campos de S. João de Acre, dirigiu a montada para o Caminho de Serradal, como se o velho Musa não conhecesse o caminho que devia trilhar, mesmo com os seus grandes olhos amendoados e doces totalmente fechados.
Tinha pressa em chegar, mas, ao mesmo tempo, quase retinha o trote do fiel companheiro, com temor de atingir Oliana. Dir-se-ia que o seu propósito era tornar eterna aquela cavalgada, como quem tem o fruto do seu desejo ao alcance da mão, mas hesita em colhê-lo. Talvez com receio de não saber o que fazer com ele ou, pior ainda, com medo de atingir o fim, desconhecendo o que fazer com ele ou, pior ainda, com medo de atingir o fim, desconhecendo o que possa estar para além dele. Quem sabe se perguntando se o facto de atingir o objectivo é realmente um fim ou, pelo contrário, o recomeço de uma nova caminhada, na eterna busca de um reino interior, como lhe haviam ensinado os seus mestres, ao longo do noviciado e do tempo de provas que antecedera a velada de armas em Richerenches.
Enquanto cavalgava em direcção a Castellnou, recordava a noite em que, dezassete anos antes, após um banho purificador, se vira prostrado no silêncio da vigília nocturna que o devia conduzir à descoberta dos seus próprios demónios interiores, antes de receber a tonsura e o abraço e beijo fraternais que acompanhavam a imposição da espada sobre os ombros, para se tornar cavaleiro. Recordou todos os pormenores do seu embarque no porto da Comenda de Toulon, a sua viagem ao Ultramar, a chegada a S. João de Acre e as constantes incursões em território inimigo, num jogo sem estratégia de que se adivinhava o fim próximo, como se tornava claro para muitos dos seus irmãos. Ah! Ah! Ah!... Estremeceu com o próprio sarcasmo ao cantarolar o poema escrito por seu irmão Ricaut Bonomel, após a conquista do castelo de Arsuf pelo sultão mameluco Baibars e que, poucos dias antes, ouvira em Gardeny:

A ira e a dor estão tão firmes no meu coração...

Que nem a cruz nem a 1ei me valem nem guiam
Contra os Turcos do diabo que Deus amaldiçoe
Pois, mais me parece, segundo um homem pode ver
Que Deus contra nós os deseja proteger.

O papa faz do perdão grande largueza
Contra os Lombardos, a Carlos e aos Franceses
Enquanto mostra grande moderação connosco
Que a nossa Cruz perdoa por torneses.
E quem quiser trocar a romaria à Terra Santa
Pela guerra da Lombardia
O nosso legado lho permitirá
Pois vendem Deus e o perdão por haveres.

De súbito, a claridade que lentamente vinha invadindo o vale e lhe permitia distinguir, cada vez mais nitidamente, os refinados bordados das teias de aranha entre os ramos dos arbustos nus, perlados com inúmeras gotículas de orvalho, manifestou-se num clarão de luz, quando o astro-rei se mostrou em todo o seu esplendor sobre os picos da Serra de Oden. Nunca se cansava do espectáculo proporcionado pela natureza, a eterna mãe, quando explodia, assim, em borbotões coloridos. Parecia-lhe que todo o conhecimento do universo se concentrava naquele momento, para ser colocado à disposição de quantos o soubessem ler e, então, o peito enchia-se-lhe de ternura por todos os seres, vivos ou inanimados.
Terá sido esse sentimento a fazer-lhe recordar as longas conversas que, em torno da fogueira nas noites da Galileia, manteve com o velho sufi Ibn Arabi sobre a essência de Amor, como única via possível de união entre o Homem e Deus. Lembrava agora quão parecidas eram as suas palavras às dos Fideli d’Amore da sua querida Provença, onde a quente língua d’Oc apenas rivalizava com a dos pássaros nos seus gorgeios encantados». In António Balcão Vicente, O Templário d’El-Rei, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-288-5.
                  
Cortesia de Ésquilo/JDACT

segunda-feira, 21 de maio de 2018

O Templário d’el Rei. António B. Vicente. «De toda a parte nos chegam lições de vida, de conhecimento, de sabedoria e de simplicidade»

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O caminho da Esperança. Catalunha. Dezembro de 1269
«(…) Ah! Se ao menos me tenho quedado pelas orações, frei Arnaldo..., ia recitando para si próprio, enquanto remexia no braseiro que se cobria de uma ténue camada de cinza esbranquiçada… Se a felicidade reside no contacto com Deus, por que motivo me não contentei com as preces que lhe dirigia, certo de que Ele sempre estaria atento, como tão bem nos ensinou o nosso santo padre Agostinho? Porque, para além disso, soubestes estar atento à manifestação das Suas obras, frei Gil, retorquiu-lhe o cavaleiro e acrescentou: meu bom amigo, como soubestes cumprir um dos preceitos que o mentor da Ordem em que milito nos propôs... Quem não medita não se julga com severidade, porque não se conhece. Mas de que serve conhecermo-nos tão profundamente, se esse conhecimento apenas nos traz mais ânsia de saber? Porque para atingirmos a perfeição temos necessidade da meditação e da oração. Pela meditação conhecemos o que nos falta, e pela súplica recebemos o que nos é necessário. Somos homens de sorte, a quem Deus privilegiou, frei Gil. De toda a parte nos chegam lições de vida, de conhecimento, de sabedoria e de simplicidade. Passam por nós como rajadas de Luz sem que as consigamos distinguir, pois estamos tão cegos como os Hebreus no deserto do Sinai, quando com o Seu fogo talhou a Lei nas duas pedras sagradas. Também nós, frei Gil, continuamos a construir e a adorar ídolos de ouro, enquanto por nós passam centelhas da verdade, sem que dela nos apercebamos. Acreditais, frei Arnaldo, vós também, que a verdade se esconda entre as coisas simples, de forma camuflada, mostrando sinais e formas que só os puros conseguem distinguir? Certamente, frei Gil. Foi, aliás, o próprio Bernardo Claraval quem nos ensinou que encontraremos mais coisas nas florestas do que nos livros, pois as árvores e as pedras nos ensinarão mais do que qualquer mestre poderá fazer.
Razáo tereis, frei Arnaldo, razão tereis, mas pesa-me o ouro que eu e os meus irmãos guardamos nesta igreja. Pesa-me o trigo e o vinho arrancado aos camponeses e que enche as nossas tulhas. Ou ignorais que foi o vosso santo padre Bernardo quem ensinou que se a pobreza não fosse um grande bem, Jesus Cristo não a teria escolhido para si, nem a teria deixado em herança para os seus preferidos? E que me direis dos que acusam os filhos de S. Francisco de heresia porque insistem em imitar o seu rigor de vida e de pobreza, à semelhança de Jesus, quando afirmou que se queres ganhar o Reino dos Céus, larga tudo o que tens e segue-me? Só Deus sabe quanto essa perseguição me pesa e..., e pesará, frei Gil. Elevemos o nosso espírito ao Pai Eterno, Irmão, que se aproxima a hora de completas e deveremos estar prontos para o louvar à hora de Matinas». In António Balcão Vicente, O Templário d’El-Rei, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-288-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

terça-feira, 5 de abril de 2016

O Templário d’el Rei. António B. Vicente. «Desperto do torpor que o passo manso do seu velho Musa, eterno companheiro de jornadas e campanhas, acentuara, distinguia agora claramente o antigo castelo de Ponts e a acolhedora silhueta da colegiada de S. Pedro»

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O caminho da Esperança. Catalunha. Dezembro de 1269
«Arnaldo d’Elne mal pressentira o lento afrouxar do passo da sua montada, até que o som metálico das ferraduras se fez ouvir contra o lajeado da calçada que os cónegos de Santo Agostinho recentemente haviam mandado reparar. De facto, o velho caminho já dificilmente suportava a passagem dos pesados carros que, pelo S. Miguel de Setembro, subiam a ladeira com o produto das rendas das propriedades que o mosteiro de S. Pedro detinha nas várzeas do Noguera e do Segre. Fora passagem de exércitos e mercadores, no tempo em que as legiões de Roma, de longe, controlavam os pastores indómitos das altas montanhas, que nunca haviam servido outro amo que o por si escolhido nas reuniões de anciãos, quando o inimigo externo se tornava comum. Assistira à chegada de hordas germânicas sedentas de ouro e de terra fértil, que lhes garantisse o sustento. Participara no fluir das hostes com estandartes verdes e crescente de prata, num vai e vem que lembrava o fluxo das marés. Garantira o sucesso dos reinos que em seu torno se iam formando, espraiando-se em direcção ao Sul, alçando a cruz e assentando mosteiros. Agora, chegara ao seu limite, quando do empedrado das suas encostas apenas restava a recordação. Com um gesto enérgico, o cavaleiro sacudiu o manto branco em que se envolvera ao longo do caminho, para se proteger do vento cortante que descia dos cumes que se divisavam, para norte, mas também dos pensamentos que o oprimiam como a neblina que, lentamente, se insinuava pelo vale, à medida que o sol de Inverno se escondia para os lados de Tossal.
Desperto do torpor que o passo manso do seu velho Musa, eterno companheiro de jornadas e campanhas, acentuara, distinguia agora claramente o antigo castelo de Ponts e a acolhedora silhueta da colegiada de S. Pedro. Aí, junto à torre octogonal, tinha garantida uma refeição quente e o calor do fogo que tanto protegia contra o frio do corpo como da alma, bem mais terrífico este que aquele. Nas suas longas andanças, vira já sarar alguns peregrinos enregelados e perdidos nos altos caminhos que conduziam a Foix e a Perpignan, mas nunca conseguira salvar homem que deixasse entrar o frio na alma, aquele que transforma em gelo seco toda a esperança de viver e se torna imune ao consolo da palavra. No fundo, sentia um ardente desejo, quase ansiedade, pela conversa com o bom e velho frei Gil, que adivinhava lhe acompanharia o sorver da malga de caldo, enquanto as últimas brasas não adormecessem, para que lhe aliviasse o peso que o atormentava desde que, manhã cedo, franqueara a porta do castelo da Comenda de Gardeny.
Mas, primeiro, devia garantir as comodidades do corpo, do seu e do de Musa, que as treze léguas de caminhada pesavam a ambos. Garantida uma boa cama de palha nova na estrebaria e uma farta ração de aveia na manjedoura, estava frei Arnaldo em condições de tratar de si, parcamente, como era seu costume diário. Sempre que não necessitava de energia redobrada para empregar em combate, bastavam-lhe duas refeições diárias. Uma pela hora Terça, geralmente composta por um naco de pão e algum conduto, bem regada com água fresca do poço. À hora de Vésperas, uma simples malga de caldo bem quente, onde cozera um pedaço de toucinho, se o calendário permitisse tal iguaria. Tudo decorreu como previra. Mal acabava de sorver o último gole da tigela de sopa, quando frei Gil se aproximou do lume que ardia nas lajes da sala principal da hospedaria, sempre aberta a cavaleiros ou gente nobre e endinheirada, apartada dos simples caminhantes e peregrinos abrigados pelo mesmo tecto que acolhia os animais, a cujo bafo se aqueciam, em cena que recordava o presépio do menino que S. Francisco recriara em Assis. Frei Gil entrou na sala com o seu passo lento e o eterno rosto de ar cansado, onde apenas o brilho dos olhos fazia adivinhar a ternura que lhe derretia o coração. Com as cãs, frei Gil vira crescer as preocupações que o acompanhavam desde que, na juventude, uns belos olhos negros, de pé descalço e silício na cintura, lhe haviam posto fogo no corpo e ideias ígneas na alma. Eram tempos em que todos os caminhos vindos da terra dos Francos se enchiam de estranhos homens e mulheres, quase sempre com a palavra de Deus na ponta da língua, como se a houvessem bebido na fonte, pregando a singeleza e o trabalho honesto, sem amos nem servos, deixando atrás um rasto de fogueiras e destruição que anunciavam o Armagedão, antecedendo uma nova era que um certo frei Joaquim previra, lá, para os confins da Calábria. Frei Gil sentia nas próprias entranhas que a riqueza, entesourada nos celeiros e cofres de S. Pedro, era a negação dos textos evangélicos, nos quais encontrava o único lenitivo para as dúvidas e incertezas que a idade ia acumulando, ao mesmo tempo que destruía o pecúlio espiritual arrecadado ao longo de anos de orações e meditação». In António Balcão Vicente, O Templário d’El-Rei, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-288-5.

Cortesia de Ésquilo/JDACT