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sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Novos Contos da Montanha. Miguel Torga. «Alto, mal encarado, de nariz adunco, vivia no Destelhado, uma rua onde mora ainda o vento galego, a assobiar sem descanso o ano inteiro»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Alma-Grande

«Riba Dal é terra de judeus. Baldadamente, pelo ano fora, o padre João benze, perdoa, baptiza e ensina o catecismo por perguntas e respostas. Quem é Deus? É um Ser todo poderoso, criador do Céu e da Terra. Na destreza com que se desenvencilham do interrogatório, não há quem possa desconfiar que por detrás da sagrada cartilha está plantado em sangue o Pentateuco. Mas está. E à hora da morte, quando a um homem tanto lhe importa a Thora como os Evangelhos, antes que o abade venha dar os últimos retoques à pureza da ovelha, e receba da língua moribunda e cobarde a confissão daquele segredo, abafador. Desses servos de Moisés, encarregados de abreviar as penas deste mundo e salvar a honra do convento, o maior de que há memória é o Alma-Grande.

Alto, mal encarado, de nariz adunco, vivia no Destelhado, uma rua onde mora ainda o vento galego, a assobiar sem descanso o ano inteiro. Quem vinha chamar aquele pai da morte já sabia que tinha de subir pela encosta acima a lutar como um barco num mar encapelado. Raios partam o vento! Mas quê! Do mesmo modo que o Alma-Grande era certo na casa da esquina, sempre ao borralho, era certo o bafo da Sanábria a varrer a ladeira. Diante da casa, bastava gritar-lhe o nome. Tio Alma-Grande! Ó Tio Alma-Grande! Lá vai... Daí a nada a tenaz das suas mãos e o peso do seu joelho passavam guia ao moribundo. Entrava, atravessava impávido e silencioso a multidão que há três dias, na sala, esperava impaciente o último alento do agonizante, metia-se pelo quarto dentro, fechava a porta, e pouco depois saía com uma paz no rosto pelo menos igual à que tinha deixado ao morto. Os de fora olhavam-no ao mesmo tempo com terror e gratidão. Às vezes, uma voz ou outra, depois do pesadelo, levantava-se do fundo da consciência e protestava; mas no dia seguinte acontecia ser essa mesma voz que no alto do Destelhado, sobrepondo-se à força do vento, o reclamava. Tio Alma-Grande! Ó Tio Alma-Grande!

Lá vai...

E aparecia à porta logo a seguir. Quando a hora do Isaac chegou, foi um filho, o Abel, que trepou a ladeira. O garoto vinha excitado, do movimento desusado de casa, da maneira estranha como a mãe o mandara chamar o Tio Alma-Grande, e da ventania. Que tem o teu pai, rapaz? O pequeno olhou fixamente a cara seca do abafador. Febre... Bem, vamos então lá... E que é que o Tio Alma-Grande lhe vai fazer? Vê-lo... Pela rua abaixo só o vento falava. Rouco de tanto bradar, monocórdico, persistente, era nele que tinha expressão a intimidade de ambos: um, o pequeno, nervoso, inquieto, a braços com pressentimentos confusos, que se recusavam a sair-lhe do pensamento; o outro, o velho, a aceitar aquele destino de abreviar a morte como um rio aceita o seu movimento. Em casa havia lágrimas desde a soleira da porta. Mas a entrada do Alma-Grande secou tudo. Atrás dos seus passos lentos e pesados pelo corredor ficava uma angústia calada, com a respiração suspensa. O que é que ele lhe vai fazer?, perguntou de novo o Abel, agora à mãe, quando a porta do quarto se fechou. A Lia respondeu ao filho com duas lágrimas silenciosas pela cara abaixo. Lá dentro, colado à cama que a transpiração alagava, o Isaac parecia ter chegado ao fim. Branco, com dois olhos perdidos no fundo da cara, opresso, como que só esperava a ordem de largar a vela. Tinha adoecido havia quinze dias. Um febrão tal que o dr. Samuel desanimou. Veio, tornou a vir, e acabou por aconselhar que tratassem do caixão. Mas o Isaac era cedro do Líbano, rijo, no cerne. Depois desse desengano ainda o mal o roeu seis dias sem o comer. E sempre de olhinho vivo. Gemia, gemia, finava-se, mas com aquelas duas contas de azeviche a reluzir. Acabou, contudo, por lhe pousar no rosto uma sombra estranha; e a mulher, a Lia, abriu mão da esperança. Dois dias mais, e como na sala a dona Rosa lembrasse a confissãozinha, um irmão do Isaac, o Daniel, chegou-se à cunhada e deixou cair, entre duas palavras de consolo, o nome do Alma-Grande. A Lia, a princípio, reagiu quanto pôde. Mas a perspectiva do padre João a entrar-lhe pela casa dentro venceu-a Mal rompeu a manhã, com uma voz que fez medo ao filho, mandou-o chamar o abafador. Quando o Alma-Grande entrou, o Isaac estava no auge de um combate que quase sempre se trava de corpo extenuado. O inimigo era uma parte de si mesmo apostada em perdê-lo. E a outra metade, um pedaço de ser nobre e agradecido à seiva, corajosamente defendia o resto da muralha. As bagadas pelas têmporas abaixo e um ritmo apressado da respiração davam sinal desta guerra. Mas de nada mais precisava, quem olhasse com limpos olhos humanos, para sentir a grandeza e a solenidade de tal hora». In MiguelTorga, Novos Contos da Montanha, Coimbra, 12ªEdição, 1952, 1966, Wikipédia-

Cortesia de Wikipedia/JDACT

JDACT, Miguel Torga, Literatura, A Arte,

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Contos da Montanha. Miguel Torga. «Cem mil réis, na pior das hipóteses, estavam-lhe no papo. Só muito azar. Mas não. A Senhora da Saúde governava-se...»

jdact

Um Roubo
«(…) Riscou um fósforo, de cabelos em pé. Até se desconhecia! Ninguém as calça que as não borre, bem se diz lá!... Na luz incerta que se fez, pôs-se a olhar febrilmente para todos os lados e a ouvir ao mesmo tempo, de orelha fita, o silêncio pesado da capela. Felizmente, nada. Imóveis e espantados, os santos pareciam surpreendidos, mas não faziam um gesto para defender a moradia. Realmente, todos de pau! Que sossego! Chegava a parecer mentira que uma casa de Deus tivesse de noite um ar tão desgraçado. Nos palheiros, ao menos, havia ratos! Deu alguns passos. Como o fósforo estava no fim e já lhe aquecia os dedos, riscou outro. Menos inseguro, subiu as escadas do altar de S, José, logo à entrada. E, quase serenamente, acendeu a vela dum castiçal. A igreja clareou quanto a luz pôde. E, mais iluminada, tomou-se ainda mais simples, mais natural. As imagens já nem sequer o ar atónito de há pouco conservavam; e o resto, francamente, sem nenhum ar divino. Toalhas, bancos, jarras... O trivial. Tanta mortificação inútil! Voltou-se. A caixa das esmolas estava ao fundo, enterrada na parede que ligava o templo ao cabido. Era do lado de fora, pela fresta cavada na cantaria, que os devotos deixavam cair a boa massinha. Pinga que pinga... Uma mina! Com passos de lã, chegou-se. Caramba, seria que não estivesse a abarrotar?! Pôs a luz no chão e meteu mãos à obra. Se calhar tinha que escaqueirar a tampa à martelada... Mas não é que a fechadura parecia de papelão e cedia ao cinzel sem resistência nenhuma?! Tudo às mil maravilhas... Um mês de tripa forra ninguém lho tirava.
Desgraçadamente, a caixa estava limpa. Ou fora roubada, ou a esvaziara o padre Bento na véspera ou então já não havia fé neste amaldiçoado mundo. Ah!, mas ele, Faustino, não se deixava enganar assim. Não. Tivesse a Senhora da Saúde paciência. Lá pouco dele, isso vírgula! Vinha com boas intenções. Obrigavam-no, pronto: ia o que houvesse e passava tudo a patacos. Pegou de repelão no castiçal e avançou indignado para o altar mor. Não acreditava que no sacrário a miséria fosse também assim. Era. Os dois SS entrelaçados na portinhola queriam dizer apenas um buraco escuro, vazio, onde os seus dedos resolutos tactearam em vão. Ladrões! Filhos duma grande... Nem ao menos o cálix! O que vale é que havia ainda a sacristia para revistar. E que não estivessem lá os apetrechos devidos! Ia a casa do abade, que lhe havia de pôr ali o que pertencia à santa... O cálix, a cruz, o turíbulo, tudo. E a bagalhoça, claro. Pouca vergonha! Investiu pela sacristia dentro. Queria ver quem levava a melhor. Mas qual o quê! Estava mesmo roubado. Flores desbotadas de papel, tocos de círios, um crucifixo partido... Que cambada!
Desanimado, pegou na luz. Larápios! À medida que o desespero tomava conta dele, perdia o resto duma precaução que a prudência lhe aconselhara. Falava alto, rogava pragas, caminhava pela capela abaixo com a indignada razão de quem andava na sua própria casa a verificar os danos dum assalto de bandidos! Canalhas! Até que chegou ao fim da nave. Olhou ainda os altares num relance. Os santos lá continuavam parados como há bocado e a olhá-lo agora a modos de caçoada. Sim senhor, uma linda figura de pedaço de asno que fizera diante deles! Pôs o castiçal no chão, soprou a vela, puxou a porta e saiu.
O temporal redobrara de fúria. A atravessar o adro, com a desilusão a percorrer-lhe as veias, é que via bem como a escuridão era cerrada e como a chuva lhe trespassava o corpo. Porca de vida! Um homem a fazer por ela, a aguentar no lombo uma noitada daquelas, para ao cabo dar com o nariz no sedeiro! Na carvalhada da Arcã já os ombros, de entanguidos, se lhe queriam meter pelo pescoço dentro. Filhadinho! A roupa ia-lhe tão colada ao corpo que parecia que era a pele. Cadela de sorte! Na curva, lá estava outra vez a alma do Joaquim Teodoro a pedir o padre-nosso. Pata que lambesse o Joaquim Teodoro! Padre-nossos, padre-nossos, ia-se a ver e a caixa da Senhora da Saúde sem um vintém! Ah! mas o abade punha-lhe ali a massa e o resto com língua de palmo. Oh, se punha! Às quatro da madrugada entrou em casa. Como um pitinho! A mulher lá estava ainda no mesmo sítio, calada, triste, longe da vida.
Não lhe falou. A escorrer água, gelado, foi direito à cama, despiu-se e meteu-se entre as mantas a bater os dentes. Pela manhã ardia em febre. E daí a seis dias, depois de um cáustico lhe abrir no peito urna bica de matéria e de o barbeiro de Parada o ter desenganado, foi preciso chamar o confessor, a ver se ao menos se lhe podia salvar a alma. Veio então o padre Bento, manso, vermelho, tranquilizador. Mas o Faustino delirava. E mal o santo homem, de sobrepeliz, lhe entrou pelo quarto dentro, arregalou os olhos, inteiriçou-se no catre, apontou-o à mulher e aos circunstantes, e com a voz toldada da bronco-pneumonia, rouquejou: ladrão! Prendam-no, que é ladrão!» In Miguel Torga, Os Contos da Montanha, Edições Dom Quixote, Coimbra, 1999, ISBN 978-972-201-651-3.

Cortesia DQuixote/JDACT

domingo, 14 de abril de 2019

Contos da Montanha. Miguel Torga. «Mas a razão, chamada a contas, discordou. Homem, pelo sim, pelo não, deixar o trânsito desimpedido!»

jdact

Um Roubo
«(…) Ele também lhe não falou. Ladrão agora duplamente culpado diante da desaprovação dela, foi à loja buscar os precisos e desapareceu na escuridão do quinteiro, sombra muda a esgueirar-se na sombra. O temporal bramia pela aldeia fora. Ouvia-se a nortada a pregar nos braços dos castanheiros e as bátegas a cair nas estrumeiras encharcadas. Um taró de repassar fragas. Faustino, vencidos cautelosamente os cem metros da quelha em que morava, meteu-se à serra. Apesar de o vento galego o empurrar para trás, para o frio enxuto da casa, caminhava depressa. Uma vez que encontrara forças para tomar a única resolução acertada, era preciso não demorar. Infelizmente, a Senhora da Saúde não ficava logo ali. Quase no termo de Valongueiras, distava de Abaças uma boa meia hora. Ainda por cima, caminhos maus. Ou lajes com relheiras que lembravam rugas em coiro de atanado, ou então saibro ensopado e atoladiço. Trilhos excomungados! Mas desembelinhava as canelas o melhor que podia, e meia hora, que afinal queria dizer meia légua, passa depressa. É questão de um homem ir deitando contas à vida enquanto as pernas passeiam.
Cem mil réis, na pior das hipóteses, estavam-lhe no papo. Só muito azar. Mas não. A Senhora da Saúde governava-se... Nem havia outra tão agenciadeira nas redondezas... Na carvalhada da Arcã os pensamentos mudaram-lhe de rumo. A tosca memória erguida pela morte do Joaquim Teodoro, assassinado naquele sítio, chamou-o a uma realidade mais dura. O Joaquim Teodoro, ao cabo, era ladrão também. Não de caminhos nem de igrejas, é certo, mas de roleta, que dá mais e sem nenhum trabalho. Basta lume no olho e dedo. justamente o forte do Joaquim Teodoro... Que habilidade! Isso então na vermelhinha não havia segundo! O mais pintado entregava-lhe ali o seu e o de quem calhasse. Artes do diabo! Mas o Videira, quando no dia da festa lhe passou para as mãos o último tostão, jurou-lhe que no ano que vinha não vigarizava ele mais ninguém. Dito e feito. E ali estava agora a alma do Joaquim Teodoro pintada a branco no granito, entre línguas de fogo, de mãos erguidas a pedir um padre-nosso!
E se ele, Faustino, tirasse o chapéu e atendesse a imploração? Um padre-nosso antes de roubar a Senhora da Saúde, tinha a sua graça! Apesar de travado por estes pensamentos desconsolados, caminhava depressa. E, à medida que a carvalhada foi ficando para trás, a imagem do Joaquim Teodoro começou a desvanecer-se. Insensivelmente, todo ele ia aderindo à realidade erma e negra que o cercava. Também onde o raio da Santa viera fazer o pouso! Era mesmo desafiar um homem. O pior é se... Mas não. A sorte dele havia de ser tão caipora, que encontrasse a caixa sem um vintém? A esta íntima interrogação, os olhos responderam-lhe bruscamente que chegara. A dois palmos do nariz viam-se as paredes da ermida a reluzir. Embora gatuno de profissão, pois que não se podia chamar cesteiro a quem só lá de tempos a tempos fazia um cesto por desfastio, Faustino, mal deu de chofre com a capela, teve um baque no coração. E parou. Nunca assaltara nenhum lugar sagrado. Sempre era roubar a Senhora da Saúde!
Mas a hesitação durou um minuto apenas. Molhado da cabeça aos pés, o próprio organismo é que o impeliu para a frente, para dentro de uma casa com telhado. Não havia tempo a perder de maneira nenhuma. Nem o corpo, nem o espírito lhe podiam consentir uma fraqueza em semelhante ocasião. Para diante é que era o caminho! Num ímpeto, chegou-se à porta e meteu-lhe o ombro. Pois claro, como tinha previsto... Escancaradinha! Com a respiração suspensa e todo num formigueiro, entrou de rompante no poço de escuridão. Dentro, o primeiro impulso do seu instinto foi fechar a porta de novo. Mas a razão, chamada a contas, discordou. Homem, pelo sim, pelo não, deixar o trânsito desimpedido!» In Miguel Torga, Os Contos da Montanha, Edições Dom Quixote, Coimbra, 1999, ISBN 978-972-201-651-3.

Cortesia DQuixote/JDACT

Contos da Montanha. Miguel Torga. «Continuava engrunhada no seu canto, distante, como se o frio a tivesse entorpecido ou uma grande dor silenciosa e funda a roesse por dentro»

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Um Roubo
«(…) Foi numa noite medonha, cheia de água e gelada, que o Faustino assaltou a Senhora da Saúde. Há tempos já que a ideia desse roubo o obcecava, mas a mulher e o demónio duma hesitação imbecil tinham-no afastado disso. Ainda bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que ele pudesse finalmente realizar o sonho. Punha-se a deitar contas à vida, às casas da povoação onde lhe fosse possível arranjar meia dúzia de vinténs para matar a fome naquela grande invernia, e nada, a não ser a Senhora da Saúde. Mas é que nada! Abaças era uma terra pobre. Dinheiro, do contado, só o Albertino. Infelizmente, ao Albertino, tudo menos mexer-lhe num gravelho. Forte e valente como um toiro, ainda por cima dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. É claro que havia o recurso de alargar os olhos pelas aldeias vizinhas. Somente: além de o temporal tolher os passos ao mais honrado, como o ano ia de fome, todos viviam de olho aberto e de porta trancada. De resto, não se sentia já com forças para repetir a façanha de Freixoedo. Cinco costelas partidas são muitas costelas. Sem contar, e aqui é que a porca torcia o rabo, com o aviso solene do juiz: dou-lhe apenas quatro meses, atendendo a que já foi bem convidado e que é esta a primeira vez que aqui me aparece. Mas não volte! De contrário, perca o amor à liberdade. Ora, uma coisa é passar uns dias na cadeia de Alijó e outra ver-se um homem metido numa penitenciária a vida inteira. Apertada por tal arrocho, a imaginação do Faustino sucumbia. Até que, ressuscitada por aquele buraco no estômago que nenhum aguaceiro enchia, começou de novo a namorar a Senhora da Saúde, rica e desamparada na serra.
Nem juiz, nem testemunhas, nem o delegado a berrar... Nada. Decididamente, o grande tiro era ali! Naquela noite, depois dum caldo que nem a cães, e de todas as demais hipóteses arredadas, a miragem voltou, mas já sem a indecisão das tentações anteriores. Não havia que ver. O sítio não podia ser melhor; à porta, bastava-lhe um empurrão; o resto, quê? Acender uma vela das do altar, forçar a fechadura da caixa das esmolas, encher o bolso, e ala morena. A mulher, sem migalha de pão na arca e sem pinga de azeite na almotolia, sabia bem que o remédio habitual daquelas penúrias era ir buscá-lo onde o houvesse. Mas quando o homem, a meia voz, começou a repisar a ideia, desaprovou mais uma vez o projecto sacrílego. A outro lado qualquer, estava de acordo. À Senhora da Saúde, não.
O Faustino nem a ouviu, ocupado como estava no labor de semear a boa semente na terra podre dos últimos escrúpulos. Debruçado sobre as pernas, com os dedos dos pés a espreitar das meias rotas, continuou a aquecer-se aos tições apagados, a chupar a pirisca do cigarro e a enumerar uma por uma as mil vantagens do negócio. Coisa realmente fácil, sem nenhum perigo, e que trazia a solução do aperto em que estavam. Por ser capela?! Valha-nos Deus! O essencial é que na caixa houvesse algum... Ao menos cem mil reisinhos! Há?! Pois não teria sequer cem mil réis?! Interpelava a companheira, que não colaborava já de nenhum modo naquela luta. Embrulhada no xaile puído, aninhara-se quase em cima do borralho e fechara os olhos. O Faustino teve de responder às suas próprias perguntas.
Cem mil reis, e a contar muito por baixo. Até era ofender a Santa, supô-la com menos capital na arca. À medida que ia pondo na balança as justificações do seu desejo, o Faustino via oscilar o fiel da decisão e pender para o lado que lhe convinha o prato reluzente da fortuna. Não havia que ver. As coisas eram o que eram. A evidência metia-se pelos olhos dentro. Por volta da meia noite as derradeiras amarras da consciência acabaram de ceder. Raios partissem as horas que gastara a pensar na morte da bezerra! Há certas alturas em que a gente, em vez de miolos, parece que tem aranhas no toutiço! Ergueu-se. Do Faustino titubeante, quase a deixar fugir a sorte que tão generosamente lhe sorria, já não restavam sinais. Agora estava de pé um homem magro, baixo, de barba restolhuda e olhos de azougue, vivo, flexível, decidido como uma doninha. A mulher nem dormia nem velava. Continuava engrunhada no seu canto, distante, como se o frio a tivesse entorpecido ou uma grande dor silenciosa e funda a roesse por dentro». In Miguel Torga, Os Contos da Montanha, Edições Dom Quixote, Coimbra, 1999, ISBN 978-972-201-651-3.

Cortesia DQuixote/JDACT

sábado, 13 de abril de 2019

Contos da Montanha. Miguel Torga. «E daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço eterno de sua mãe»

jdact

A Maria Lionça
«(…) Um mês depois estava estendido sobre a cama onde noivara, imóvel, muito amarelo, muito seco, já com a alma a dar contas a Deus. E no dia seguinte, pela manhã, a boca do cemitério de Galafura, tragava-lhe os ossos descarnados. Do rescaldo dessa mortalha singular, saiu mais viva ainda a figura de Maria Lionça. Nem o chorou fora dos limites do seu amor atraiçoado, nem se carregou dum luto para além da melancólica negrura que lhe apertava o coração. Manteve-se na justa expressão do sentir de Galafura, enojada e apiedada ao mesmo tempo. Digna e discreta, enterrou-o e começou a pagar os juros da operação. A trovoada não perturbou nem ao de leve o ritmo dos seus passos. O filho, o Pedro, é que não resistiu ao desencanto. Envergonhado dum pai que lhe passara apenas pelos olhos como um fantasma de podridão, e sem poder abarcar a grandeza daquela mãe que fazia do absurdo o pão da boca, abalou para Lisboa, sem Galafura saber a quê. E nova via-sacra começou na loja do correio.
Não tens nada, Maria. Velha, branca, igual, a Lionça voltava pelo mesmo caminho e sentava-se ao lume a fiar, pondo na regularidade do fio a estremada regularidade da sua vida. E Galafura, tanto ao passar para os lameiros como na volta, saudava respeitosamente nela uma permanência que resgatava a traição do marido e a fraqueza do filho. Como à mimosa familiar do adro, ou à fonte incansável do largo, assim a viam, segura e repousante no seu posto, e capaz de todos os heroísmos dum ser humano. O tempo dera-lhes a chave daquela existência, destinada, afinal, mais às provações do sofrimento do que ao gosto das alegrias. Só ela os podia esclarecer e ajudar no desespero de certas horas e situações. Movediço como a insensatez da sua idade, o filho fizera-se marinheiro. E Galafura, humosa, enraizada no dorso da serra de S. Gunhedo, olhava esse rebento, mergulhado em água, como um proscrito. Antes o degredo do pai no Brasil, ao menos aproado a um chão que fazia parte da cosmogonia de Galafura. Diluída na imensidão do mar, a imagem do rapaz perdera toda a nitidez. E sumir-se-ia irremediavelmente na consciência da povoação, sem a ajuda da Maria Lionça. Quando inesperadamente chegou um telegrama da capitania de Leixões e ela partiu, é que viram todos como fora capaz, sozinha, de manter indelével a realidade do ausente. Se se metia a caminho, se enfrentava de rosto calmo a primeira viagem distante e o pavor da cidade, lá tinha as suas razões, que eram necessariamente razões de Galafura.
Tal e qual. No dia seguinte a aldeia viu com espanto e comoção que trouxera nos braços de sessenta anos o filho morto. Deram-lho no hospital, a exalar o último suspiro. Meteu-se então no comboio com ele ao colo, já a arrefecer, embrulhado numa manta, a pedir licença a todos, que levava ali uma pessoa muito doente. Arredavam-se logo. E assim conseguiu sentá-lo e sentar-se a seu lado. Galafura quase que não compreendia como pudera com ele, embora fosse meão e magro. O que é certo é que pudera, e sem lágrimas nos olhos lhe falava ternamente mal o revisor aparecia no compartimento. Dói-te, filho? Dói-te muito? Pois dói... Dói...
Encostava-o ao ombro, enrolava-lhe a manta nas pernas hirtas e mostrava os bilhetes. Em Gouvinhas apeou-se. À porta da estação, o guarda arregalou muito os olhos, mas deixou passar. E daí a pouco, no macho do Preguiças, o Pedro subia a serra para dormir o derradeiro sono em Galafura, que era ao mesmo tempo a terra onde nascera e o regaço eterno de sua mãe». In Miguel Torga, Os Contos da Montanha, Edições Dom Quixote, Coimbra, 1999, ISBN 978-972-201-651-3.

Cortesia DQuixote/JDACT

Contos da Montanha. Miguel Torga. «O teu homem tem-te escrito, Maria?, perguntava o prior de Páscoa a Páscoa. Ele não, senhor. Há quinze anos...»

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A Maria Lionça
«(…) Foi preciso que o Lourenço Ruivo acabasse a militança e voltasse a Galafura com a mão mais apurada para apertar a dela sob a estola. O padre Jaime, o prior de então, abençoou-os como se fossem filhos, E Galafura, depois do arroz doce, pôs-se confiada à espera da felicidade futura do casal. Esquecidos das manhas e artimanhas da vida, todos sonhavam para os dois a ventura que não tinham tido. Só o destino, fiel às misérias do mundo, sabia que fora reservado à Maria Lionça um papel mais significativo: ser ali a expressão humana dum sofrimento levado aos confins do possível. Torná-la imune à desgraça seria desenraizá-la do torrão nativo. O polimento do Ruivo, em que a aldeia pusera tantas esperanças, delira-lhe apenas os calos gerados pelo rabo do enxadão. Não fizera dele o companheiro que a rapariga merecia. Engravatado aos domingos e de costas direitas o resto da semana, ao fim dos nove meses sacramentais, quando o Pedro nasceu, gordo, caladão, rosado, em vez de tirar daquela presença ânimo para se atirar às eiras, acovardou-se de uma boca a mais na casa, empenhou-se e partiu para o Brasil.
A Maria Lionça, essa, ficou. Como todas as mulheres da montanha, que no meio do gosto do amor enviuvam com os homens vivos do outro lado do mar, também ela teria de sofrer a mesma separação expiatória, a pagar os juros da passagem anos a fio, numa esperança continuamente renovada e desiludida na loja da Purificação, que distribuía o correio com a inconsciente arbitrariedade dum jogador a repartir as cartas dum baralho. O teu homem tem-te escrito, Maria?, perguntava o prior de Páscoa a Páscoa. Ele não, senhor. Há quinze anos...
Não acrescentava a mínima queixa à resposta. Fiel ao amor jurado, deixava que todos os encantos lhe mirrassem no corpo, numa resignação digna e discreta. Com o filho sempre agarrado às saias, como um permanente sinal de que já pagara à vida o seu tributo de mulher, mourejava de sol a sol para manter as courelas fofas e gordas. Depositária do pobre património do casal, queria conservá-lo intacto e granjeado. Se o outro parceiro desertara, mais uma razão para se manter firme e corajosa ao leme do pequeno barco. Nada, Maria? O prior já nem se atrevia a alargar a pergunta. Nada. Respondia sem revolta ou renúncia na voz. Objectivava a situação, lealmente. O que sentia por dentro, era o segredo da sua serenidade. Até que um dia o Ruivo deu finalmente notícias. Regressava. E Galafura solidária com a grandeza humana da Maria Lionça, dispôs-se a esquecer todas as ofensas e a receber festivamente a ovelha desgarrada.
Quem representava esse perdão colectivo e essa saúde da alma da terra era o Pedro, o filho, que ao lado da mãe, na estação de Gouvinhas, deixava a imaginação correr desenfreada pela linha fora até se perder nos últimos degraus da escada fugidia feita de aço e sulipas. Infelizmente, o comboio que surgiu ao longe, avançou e passou junto dele a travar o passo, trazia dentro uma desilusão. O pai pareceu-lhe uma sombra esbatida da imagem recortada que sonhara. Seu moço está mesmo um homem. A voz rouca e dolente foi apenas a confirmação duma ruína que se lhe estampava no rosto esquelético, cor de palha. O Ruivo que ficara em Galafura, na caução dum retrato em corpo inteiro, era a saúde personificada. E o Ruivo que, escanchado sobre a cavalgadura que o conduzia, respirava, à sobreposse, só abstractamente se identificava com o original. Talvez para justificar essa desfiguração, culpado diante da mulher, do filho e dos montes eternamente arejados e limpos da Mantelinha, o renegado confessou tudo. Vinha doente e desenganado. Males ruins... Já lhe custava engolir. E aquela abafação a apertar, a apertar... Mas nada de aflições. Voltava só para morrer. No hospital da Vila os doutores ainda lhe fizeram um furo no pescoço para o aliviar do garrote. Mais uns contos de réis, mas paciência. Galafura, na pessoa da Maria Lionça, se não podia apertar nos braços generosos um corpo comido dos vícios do mundo, queria que ele respirasse ao menos livremente o seu ar puro». In Miguel Torga, Os Contos da Montanha, Edições Dom Quixote, Coimbra, 1999, ISBN 978-972-201-651-3.

Cortesia DQuixote/JDACT

quarta-feira, 21 de março de 2018

Poesia. Miguel Torga. «És a carne dos deuses, o sorriso das pedras, e a candura do instinto»

Cortesia de wikipedia e jdact

À beleza
«Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curves ao jugo dos riranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.

És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…»

Poema de Miguel Torga, in “Beleza

Cortesia de PortaldaLiteratura/JDACT

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Poesia no 31. Miguel Torga. «Oh! maldição do tempo em que vivemos, sepultura de grades cinzeladas, que deixam ver a vida que não temos e as angústias paradas!»


jdact

Dies Irae
«Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
a mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
sepultura de grades cinzeladas,
que deixam ver a vida que não temos
e as angústias paradas!»
Miguel Torga, in “Cântico do Homem”

Viagem
«É o vento que me leva.
O vento lusitano.
É este sopro humano
universal
que enfuna a inquietação de Portugal.
É esta fúria de loucura mansa
que tudo alcança
sem alcançar.
Que vai de céu em céu,
de mar em mar,
até nunca chegar.
E esta tentação de me encontrar
mais rico de amargura
nas pausas da ventura
de me procurar...»
Miguel Torga, in “Diário XII”

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quarta-feira, 13 de abril de 2016

Diário VIII. Miguel Torga. «Tudo, menos trânsfuga da minha classe. Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. A burguesia compra-me algum suor e alguns livros»

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Pinhel, 21 de Outubro de 1955
«(…) Ah, sim, lá conhecer Portugal conheço-o eu! Não houve aceno de monte ou de planície a que não respondesse. Subi a todas as serras e calcurreei todos os vales desta pátria. Por isso, quando chegar a hora da grande jogada, tenho um trunfo a meu favor que há-de desconcertar a morte: a íntima certeza de que não vou estranhar a cama, seja qual for o sítio onde me enterrem.

Souro Pires, 22 de Outubro de 1955
Às vezes chego a pensar se não será a nossa vocação de arqueólogos que vai sistematicamente reduzindo Portugal a ruinas.

S. Martinho de Anta, 29 de Outubro de 1955
O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os campos… Foi desta realidade que parti, e é a esta realidade que regresso sempre, por mais voltas que dê nos caminhos da vida. É uma certeza de marco com testemunhas, que nunca me deixa desorientado quando quero avivar as estremas da alma. Basta escavar um pouco a crosta da aparência, e aí estou eu na matriz, confrontado. Há tempos, em Lovios, no Gerês espanhol, depois de conversar com vários habitantes da povoação, interessei-me por um tumor a despontar no pescoço de uma velhota. É doutor…, informou o meu companheiro. Que doutor! Ele é como nós!... E sou. Tudo, menos trânsfuga da minha classe. Nasci povo, povo continuo, e povo quero morrer. A burguesia compra-me algum suor e alguns livros, mas é confiado na subversão do seu poder que vivo. Aliás, quer profissionalmente, quer literariamente, ainda é quando ponho as mãos e molho a pena nas chagas e no sangue dos meus que dou o melhor de mim. Foi na clínica rural que me senti médico a sério, e cuido que as coisas mais válidas que escrevi sabem à terra nativa que trago agarrada aos pés. Envergonhado de representar o ingrato papel de cronista dum mundo que nem me pode ler, como um dia confessei, é nele que acredito, é ele que me inspira e é por ele que luto. Conheço-lhe os defeitos, sei que são falsíssimos os quadros bucólicos das moleirinhas líricas e dos pastores de avena, e nem me quero lembrar dos torcegões que é capaz de dar à verdade a manha dum honrado cavador… Mas, além de ser uma tolice esperar que a condição humana faça distinções, procuro compreender a causa de certas dessas mazelas. Melhor fora que milénios de servidão, de fome, de ignorância e de logro não criassem desconfiança, inveja, mesquinhez e aviltamento! Resta saber se, iluminado por outro sol, o panorama seria o mesmo, e se, apesar de tudo, não é o único que dá esperanças... Pelo que me diz respeito, apenas a olhá-lo consigo descortinar sentido e futuro à vida. E quando aqui chego, embrulhado na cultura e no diploma, que, de resto, só me ajudaram a consciencializar o meu caso, é o bilhete de identidade passado pela tal camponesa galega que me deixa bater sem constrangimento à porta do ninho. Nem o dono que me manda entrar, nem os vizinhos que, curiosos, espreitam dos seus buracos, me podem estranhar. Sou como eles…

S. Martinho de Anta, 30 de Outubro de 1955
Tatuagem
Um verso apenas, mas que fique impresso
na morena epiderme
do teu corpo maciço;
um verso agradecido
à universal beleza
do teu rosto redondo,
infatigavelmente variado;
um verso branco e puro
de rendido louvor
à serena ironia
com que deixas brincar no teu regaço
a inquietação,
e devolves o eco
de cada grito
à boca enfurecida,
Terra, pátria da vida!
Eva que o sol, fecunda do infinito!»

In Miguel Torga, Diário VIII, Coimbra, 1959, 1999, Publicações Dom Quixote.

Cortesia DQuixote/JDACT

quinta-feira, 10 de março de 2016

Contos. Miguel Torga. «Terra de Miguel Torga; 2007, 2008, 2009. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno»

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Bichos (1940)
«Querido leitor: são horas de te receber no portaló da minha pequena Arca de Noé. Tens sido de uma constância tão espontânea e tão pura a visitá-la, que é preciso que me liberte do medo de parecer ufano da obra, e venha delicadamente cumprimentar-te uma vez ao menos. Não se pagam gentilezas com descortesias, e eu sou instintivamente grato e correcto. Este livro teve a boa fortuna de te agradar, e isso encheu-me sempre de júbilo. Escrevo para ti desde que comecei, sem te lisonjear, evidentemente, mas também sem ser insensível às tuas reacções. Fazemos parte do mesmo presente temporal e, quer queiras, quer não, do mesmo futuro intemporal. Agora, sofremos as vicissitudes que o momento nos impõe, companheiros na premente realidade quotidiana; mais tarde, seremos o pó da História, o exemplo promissor ou maldito, o pretérito que se cumpriu bem ou mal. Se eu hoje me esquecesse das tuas angústias, e tu das minhas, seríamos ambos traidores a uma solidariedade de berço, umbilical e cósmica; se amanhã não estivéssemos unidos nos factos fundamentais que a posteridade há-de considerar, estes anos decorridos ficariam sem qualquer significação, porque onde está ou tenha estado um homem é preciso que esteja ou tenha estado toda a humanidade. Ligados assim para a vida e para a morte, bom foi que o acaso te fizesse gostar destes Bichos. Apostar literariamente no porvir é um belo jogo, mas é um jogo de quem já se resignou a perder o presente. Ora eu sou teu irmão, nasci quando tu nasceste, e prefiro chegar ao juízo final contigo ao lado, na paz de uma fraternidade de raiz, a ter de entrar lá solitário como um lobo tresmalhado. Ninguém é feliz sozinho, nem mesmo na eternidade. De resto, um conto que te agradou, tem algumas probabilidades de agradar aos teus netos. Porque não hão-de eles tirar ninhos quando forem crianças? E, se tal não acontecer, paciência: ficarei um pouco triste, mas sempre junto de ti, firme, na consolação simples e honrada de ter sido ao menos homem do meu tempo. És, pois, dono como eu deste livro, e, ao cumprimentar-te à entrada dele, nem pretendo sugerir-te que o leias com a luz da imaginação acesa, nem atrair o teu olhar para a penumbra da sua simbologia. Isso não é comigo, porque nenhuma árvore explica os seus frutos, embora goste que lhos comam. Saúdo-te apenas nesta alegria natural, contente por ter construído uma barcaça onde a nossa condição se encontrou, e onde poderemos um dia, se quiseres, atravessar juntos o Letes, que é, como sabes, um dos cinco rios do inferno, cujas águas bebem as sombras, fazendo-as esquecer o passado». Teu Miguel Torga.

Nero
«Sentia-se cada vez pior. Agora nem a cabeça sustinha de pé. Por isso encostou-a ao chão, devagar. E assim ficou, estendido e bambo, à espera. Tinha-se despedido já de todos. Nada mais lhe restava sobre a terra senão morrer calmo e digno, como outros haviam feito a seu lado. É claro que escusava de sonhar com um enterro bonito, igual a muitos que vira, dentro dum caixão de galões amarelos, acompanhado pelo povo em peso… Isso era só para gente, rica ou pobre. Ele teria apenas uma triste cova no quintal, debaixo da figueira lampa, o cemitério dos cães e dos gatos da casa. E louvar a Deus apodrecer a dois passos da cozinha! A burra nem sequer essa sorte tivera. Os seus ossos reluziam ainda na mata da Pedreira. Chuva, geada, sincelo em cima. Até um lebrão descarado se fora aninhar debaixo da arcada das costelas, de caçoada! Ah, sim, entre dois males… Já que não havia melhor, ficar ao menos ali. No tempo dos figos, pela fresca, a patroa viria consolar a barriga. Gostava de figos, a velhota. E sempre se sentiria acompanhado uma vez por outra. Não que fizesse grande finca-pé naquela amizade. Longe disso. A menina dos seus olhos era a morgada, a filha, que o acariciara como a uma criança. A velha toda a vida o pusera à distância. Dava-lhe o naco de broa (honra lhe seja), mas borrava a pintura logo a seguir: Ala! E ele retirava-se cerimoniosamente para o ninho. Só a rapariga o aquecera ao colo quando pequeno, e, depois, pelos anos fora, o consentira ao lume, enroscado a seus pés, enquanto a neve, branca e fria, ia cobrindo o telhado. O velho também o apaparicava de tempos a tempos. Se a vida lhe corria e chegava dos bens de testa desenrugada, punha-lhe a manápula na cabeça, meigamente, e prometia-lhe a vinda do patrão novo. Porque o seu verdadeiro senhor era o filho, um doutor, que morava muito longe. Só aparecia na terra nas férias de Natal. Mas nessa altura pertencia-lhe inteiramente. Os outros apenas o tratavam, o sustentavam, para que o menino tivesse cão quando chegasse. Apesar disso, no íntimo, considerava-se propriedade dos três: da filha, do velho e da velha. Com eles compartilhara aqueles longos oito anos de existência. Com eles passara invernos, outonos e primaveras, numa paz de família unida. Também estimava o outro, o fidalgo da cidade, evidentemente, mas amizades cerimoniosas não se davam com o seu feitio. Gostava era da voz cristalina da dona nova, da índole daimosa da patroa velha e da mão calejada do velhote. Tens o teu patrão aí não tarda, Nero… O nome fora-lhe posto quando chegou. Antes disso, lá onde nascera, não tinha chamadoiro. Nesse tempo não passava dum pobre lapuz sem apelido, muito gordo, muito maluco, sempre agarrado à mama da mãe, que lhe lambia o pêlo e o reconduzia à quentura do ninho, entre os dentes macios, mal o via afastar-se. Pouco mais. Com dois meses apenas, fez então aquela viagem longa, angustiosa, nos braços duros dum portador. Mas à chegada teve logo o amigo acolhimento da patroa nova. Festas no lombo, leite, sopas de café. De tal maneira, que quase se esqueceu da teta doce onde até ali encontrava a bem-aventurança, e dos irmãos sôfregos e birrentos». In Miguel Torga, Contos, 1940, Publicações dom Quixote, editora do Grupo Leya, 2000, ISBN 978-972-204287-1.

Torga, Régio…, a Literatura, o Conhecimento…, sempre vivem comigo!

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Joana Carneiro. Miguel Torga. Música. Poesia. «Queima do Judas no largo da Sé. Há tantos anos a destruir este símbolo, e não há maneira! Dá a impressão de que é preciso mudar de método. Talvez não seja solução alimentar os pecados o ano inteiro…»

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O Quadrante
«Nas mãos do anjo, o mostrador das obras
humanas
continua a medir a eternidade
da nossa transitória duração...
Divino e tolerante,
o coração,
que por debaixo da sagrada lousa
palpita,
com infinita
paciência
e compaixão,
deixa-nos avaliar, como podemos,
a sombra que fazemos
no chão...»

Exame de consciência
«Por tudo passa o artista:
primeiro, pela alegria
de se julgar criador
no seio da natureza;
depois, por esta tristeza
de ver morrer o que fez,
sem ter nas mãos a certeza
de erguer o sonho outra vez».

Vagabundagem
«Já me servia ser
marinheiro num rio.
Pilotar um navio
de trazer lenha de Penacova...
Ter uma vela
nesta aguarela
que se renova».
Poemas de Miguel Torga, in Diário V’


«Não. O artista, à medida que o tempo passa, não enriquece. Empobrece, é que é. Devagar, mas ininterruptamente, foi dando tudo à arte: a seiva, a inteligência, a vida. E acaba por ficar pobre como Job. O artista velho lembra-me o toco daqueles castanheiros centenários, só casca, ocos por dentro. O cerne foi-se todo em castanhas». In Coimbra, 8 de Abril de 1949.
Visita à Senhora da Amoreira, que só consegui ver por uma fresta, aferrolhada como estava na sua capelinha, erguida num dos cocurutos da serra. Causou-me sempre muita aflição a clausura preventiva dos nossos santos nos seus ermos. O pânico deles testemunha uma impotência apostólica desanimadora. No fundo, apesar de divinos, necessitam de viver fortificados, como qualquer mortal. In Marão, 10 de Abril de 1949.
Queima do Judas no largo da Sé. Há tantos anos a destruir este símbolo, e não há maneira! Dá a impressão de que é preciso mudar de método. Talvez não seja solução alimentar os pecados o ano inteiro, e liquidá-los no fim com o perdão ou com a execução. Lembrava-me, por exemplo, de varrer todos os velhos símbolos duma certa ordem social que não anda para trás nem para diante, e dar cartas de novo. Tenho quase a certeza de que a multidão que assistiu comigo ao espectáculo estava a ver arder o traidor e a senti-lo renascer nas sombras do próprio coração. In Lamego, 16 de Abril de 1949.
Uma trovoada no mar, que, mesmo afastada, me deixou sem acção. É um medo pânico que sinto, impermeável a qualquer razão. As forças criadas pelo homem, sejam elas quais forem, nunca me venceram. Mas os coices da natureza apavoram-me. É que não há ninguém que assuma a responsabilidade deles». In Foz, 18 de Abril de 1949.
In Miguel Torga, Diário, Coimbra, 1951, volumes V a VIII, 5ª Edição conjunta, Publicações dom Quixote, ISBN: 978-972-203-898-0.

Cortesia de PdQuixote/JDACT

sábado, 18 de abril de 2015

Diário VIII. Miguel Torga. «Não chego a saber o que estes reaccionários pretendem de mim. Saem-me ao caminho, agarram-se, colam-se, dizem piropos, e quanto mais pressa tenho, mais insistem»

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Desarticulação
«Brinquedo com enigmas por dentro,
desmancho-me e concentro
a minha angústia sobre cada peça…
Dão-nos corda, e começa
o movimento;
mas depois é o tormento
de saber
se era tudo a valer
ou fingimento…»
Coimbra,7 de Outubro de 1955

Coimbra, 8 de Outubro de 1955
«Já só dou à maior parte das notas deste Diário o tempo de fumar um cigarro. Teimoso, o meu espirito recusa-se a destilar o bagaço dos acontecimentos num alambique paciente e subtil. Talvez porque o resultado é sempre negativo, evita as análises demoradas, e foge. Nos primeiros tempos, quando iniciei a grafia sistemática dos grandes e pequenos sismos do meu inquieto mundo, cada registo documentava pelo menos a intensidade da força que originava o abalo, o seu epicentro e a reacção frontal que ele despertava em mim. Depois, insensivelmente, comecei a desfibrar com a minúcia possível essas relações de causa e efeito. Agora, na grande maioria dos casos, nem uma coisa nem outra. Exaro a ocorrência, e passo adiante. Mas uma tal cobardia de avestruz nada resolve. Enterrar os miolos na areia e fingir ignorar a significação dos factos, negando-lhes a luz interior que os deve iluminar, acaba por ser mais doloroso do que enfrentá-los. É como assistir a um crime, de costas voltadas.

Coimbra, 10 de Outubro de 1955
Consola-se a gente de ver como esta barcaça capitalista mete água por todos os lados e se afunda lentamente, para dar vez a outra navegação… Algum dia o dorido coro da tragédia da história havia de subir também ao palco e representar. O papel que ele fará, ninguém sabe. Mas é de esperar que não fique abaixo dos actores que o precederam. Pelo menos saberá demonstrar nas tábuas o que é preciso demonstrar de uma vez para sempre: que a liberdade do homem é um destino.

Coimbra, 18 de Outubro de 1955
Não chego a saber o que estes reaccionários pretendem de mim. Saem-me ao caminho, agarram-se, colam-se, dizem piropos, e quanto mais pressa tenho, mais insistem. Ora como se não trata de qualquer interesse vivo, sincero, profundo, há-de haver uma explicação para o caso. A que vejo, afigura-se-me sinistra: inquisidores que são, os sujeitos devem querer investigar, perscrutar, conhecer a última heresia…» In Miguel Torga, Diário VIII, Coimbra, 1959, 1999, Publicações Dom Quixote.

Cortesia DQuixote/JDACT

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cinema. Poesia. Arte. Amizade. «Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério da verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica»

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Conquista
«Livre não sou, que nem a própria vida
mo consente.
Mas a minha aguerrida
teimosia
é quebrar dia a dia
um grilhão da corrente.

Livre não sou, mas quero a liberdade.
Trago-a dentro de mim como um destino.
E vão lá desdizer o sonho do menino
que se afogou e flutua
entre nenúfares de serenidade
depois de ter a lua!»


Liberdade
«Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
a pedir-te, humildemente,
o pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
nem me ouvia.

Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
de emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
a fé que ressumava
da oração.

Até que um dia, corajosamente,
olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
saborear, enfim,
o pão da minha fome.
Liberdade, que estais em mim,
santificado seja o vosso nome».
Poemas de Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' e 'Diário XII'

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segunda-feira, 23 de março de 2015

Contos da Montanha. Miguel Torga. «Nasceu pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que, por parentesco ou mais chegada convivência, lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a grandeza da herança estava apenas no íntimo…»

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A Maria Lionça
«Galafura, vista da terra chá, parece o talefe do mundo. Um talefe encardido pelo tempo, mas de sólido granito. Com o céu a servir-lhe de telhado e debruçada sobre o Varosa, que corre ao fundo, no abismo, quem quiser tomar-lhe o bafo tem de subir por um carreiro torto, a pique, cavado na fraga, polido anos a fio pelos socos do Preguiças, o moleiro, e pelas ferraduras do macho que leva pela arreata. Duas horas de penitência. Lá, é uma rua comprida, de casas com craveiros à janela, duas quelhas menos alegres, o largo, o cruzeiro, a igreja e uma fonte a jorrar água muito fria. Montanha. O berço digno da Maria Lionça. Fala-se nela e paira logo no ar um respeito silencioso, uma emoção contida, como quando se ouve tocar a Senhor fora. E nem ler sabia! Bens, os seus dons naturais. Mais nada. Nasceu pobre, viveu pobre, morreu pobre, e os que, por parentesco ou mais chegada convivência, lhe herdaram o pouco bragal, bem sabiam que a grandeza da herança estava apenas no íntimo sentido desses panos. Na recatada alvura que traziam da arca e na regularidade dos fios do linho de que eram feitos, vinha a riqueza duma existência que ia ser a legenda de Galafura. Quando Deus a levou, num Março que se esforçava por dar remate prazenteiro a três meses de invernia sem paralelo na lembrança dos velhos, Galafura não quis acreditar. Embora a visse estendida no caixão, lívida e serena, aspergia sobre o cadáver a água benta do costume, sem que o seu rude entendimento concebesse o fim daquela vida. O próprio prior, tão acostumado à transitória duração terrena, ao ser chamado à pressa para lhe dar a extrema-unção, ungiu-a como se ela fosse mãe dele. Tremia. Até o latim lhe saía da boca aos tropeções, parecendo que punha mais fé no arquejar do peito da moribunda do que na epístola de S. Tiago. Apenas o Gil, o médico, a tomar-lhe o pulso e a senti-lo a fugir, não teve qualquer estremecimento. Receitou secamente óleo canforado e saiu. Mas o Gil pertencia a outros mundos.
Médico municipal em Carrazedo, vinha a quem o chamava, dando a santos e a ladrões a mesma tintura de jalapa e a mesma digitalina. Por isso, a insensibilidade que mostrou não teve significado para ninguém. A rotina do ofício empedernira-lhe os sentimentos. O ele declarar calmamente, já no estribo do cavalo, que não havia nada a fazer, foi como se um vedor afirmasse que a fonte da Corredoura ia secar. Sabia-se de sobejo que a fonte da Corredoura era eterna, por ser um olho marinho. E assim que a moribunda exalou o último suspiro, e do quarto a Joana Ró deu a notícia, lavada em lágrimas, cá de fora respondeu-lhe um soluço prolongado, que, em vez de embaciar nos espíritos a imagem da Maria Lionça, a clarificava. E o enterro, no outro dia pela manhã, talvez por causa do ar tépido da Primavera que começava e da singeleza das flores campestres que bordavam as relheiras do caminho, pareceu a todos uma romagem voluntária e simples ao cemitério, onde deixavam como uma Salve-rainha pela alma dos defuntos o corpo da Maria Lionça. Não. Não podia morrer no coração de ninguém uma realidade que em setenta anos fora o sol de Galafura.
Em pequenina, logo o seu riso escarolado encheu a aldeia de lés a lés. Velhos e novos acostumaram-se desde o primeiro instante àquele rosto miúdo e rosado onde brilhavam dois olhos negros e perscrutadores. Depois, durante a meninice e a mocidade, foi ela ainda o ai Jesus da terra. Qualquer coisa de singular a preservava do monco das constipações, dos remendos mal pregados, das nódoas de mosto nas trasfegas. Airosa e desenxovalhada, dava o mesmo gosto vê-la a guardar cabras, a comungar ou a segar erva nos lameiros. E quando, já mulher, se falava pelas cavas nas moças casadoiras do lugar, nenhum rapaz lhe pronunciava o nome sem uma secreta emoção. Além de ser a cachopa mais bonita, dada e alegre da terra, era também a mais assente e respeitada. Quer nas mondas, quer nas esfolhadas, o seu riso significava tudo menos licença. E ninguém lhe punha um dedo. Olhavam-na numa espécie de enlevo, como a um fruto dum ramo cimeiro que a natureza quisesse amadurecer plenamente, sem pedrado, num sítio alto onde só um desejo arrojado e limpo o fosse colher. Embora igual às outras, pela pobreza e pela condição, havia à sua volta um halo de pureza que simbolizava a própria pureza de Galafura. Na pessoa da Maria Lionça convergiam todas as virtudes da povoação. Quem é que merecia a dádiva de uma riqueza assimIn Miguel Torga, Os Contos da Montanha, Edições Dom Quixote, Coimbra, 1999, ISBN 978-972-201-651-3.

Cortesia DQuixote/JDACT