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quinta-feira, 30 de março de 2017

Um Gato de Rua Chamado Bob. James Bowen. «Meu coração afundou-se um pouco quando desci no dia seguinte e vi que o gato havia voltado àquela mesma posição»

jdact e wikipedia

«(…) Eu mal me havia mudado para aquele lugar e ainda estava tentando arrumar meu apartamento. E se ele pertencesse à pessoa que vivia naquele apartamento? Ela não encararia lá muito bem que alguém levasse embora o seu animal de estimação, não é? Além disso, a última coisa de que eu precisava agora era da responsabilidade extra de um gato. Eu era um músico fracassado e um viciado em drogas em recuperação, vivendo uma existência precária em uma moradia subvencionada. Assumir a responsabilidade por minha própria vida já era algo bastante difícil. Na manhã seguinte, sexta-feira, fui até ao rés-do-chão e encontrei o laranjinha ainda sentado no mesmo lugar. Era como se ele se não tivesse movido daquele lugar nas últimas 12 horas ou mais. Mais uma vez, caí de joelhos e o acariciei. Mais uma vez, ficou óbvio que ele adorava aquilo. Ele ronronava, apreciando a atenção que estava recebendo. Ainda não havia aprendido a confiar completamente em mim. Mas pude perceber que ele simpatizava comigo. À luz do dia, pude ver que se tratava de uma criatura maravilhosa. Ele tinha uma expressão realmente impressionante, com olhos penetrantes e incrivelmente verdes, embora, olhando mais de perto, fosse possível afirmar que ele estivera numa briga ou num acidente, porque havia arranhões na face e nas pernas. Tal como eu havia imaginado na noite anterior, a pelagem estava em péssimo estado. Estava muito rareada e encrespada, com pelo menos meia dúzia de regiões calvas, onde era possível ver a pele. Eu já estava me sentindo realmente preocupado com ele, mas, novamente, disse a mim mesmo que já tinha mais do que o suficiente com que me preocupar na simples tarefa de me manter na linha. Assim, relutantemente, saí para pegar o autocarro de Tottenham ao centro de Londres e Covent Garden, onde eu tentaria, uma vez mais, ganhar dinheiro com apresentações de rua. Quando voltei naquela noite, já era muito tarde, quase 22 horas. Imediatamente, dirigi-me para o corredor onde vira o laranjinha, mas não havia sinal dele. Parte de mim ficou decepcionada. Eu meio que já gostava dele. Mas, principalmente, senti-me aliviado. Achei que seu proprietário deveria ter permitido que ele entrasse ao voltar de onde quer que tenha estado.
Meu coração afundou-se um pouco quando desci no dia seguinte e vi que o gato havia voltado àquela mesma posição. Agora, ele estava um pouco mais fragilizado e desgrenhado do que antes. Parecia estar com frio e fome e tremia um pouco. Ainda aqui, então, disse, acariciando-o. Não parece tão bem hoje. Decidi que aquela situação havia perdurado o bastante. Então, bati na porta do apartamento. Senti que precisava dizer alguma coisa. Aquilo não era jeito de tratar um animal de estimação. Ele precisava de algo para comer e beber, e talvez até mesmo de cuidados médicos. Um homem apareceu à porta. Estava com a barba por fazer, vestindo camiseta e um par de calças esportivas, e parecia ter acabado de acordar, ainda que já estivéssemos no meio da tarde.
Desculpe incomodá-lo, companheiro. Este gato é seu?, perguntei a ele. Por um segundo, ele me fitou como se eu fosse um pouco louco. Que gato?, questionou, antes de olhar para baixo e ver o laranjinha enrolado como uma bola no capacho. Ah. Não, disse ele, ao mesmo tempo que encolheu os ombros, desinteressado. Ele não tem nada a ver comigo, companheiro. Ele está aqui há dias, retruquei, novamente provocando um olhar vago nele. Está? Deve ter sentido cheiro de comida ou algo assim. Bom, como eu disse, ele não tem nada a ver comigo. E então bateu a porta, fechando-a. Decidi-me imediatamente. Ok, companheiro, você vem comigo, disse, caçando em minha mochila a caixa de biscoitos que carregava especificamente para dar guloseimas aos gatos e cães que sempre se aproximavam de mim quando estava fazendo apresentações de rua». In James Bowen, Um Gato de Rua Chamado Bob, 2012, Editora Novo Conceito, cdd 636-70929, 2013, ISBN 978-858-163-152-3 ou ISBN 978-858-163-291-9.

Cortesia de ENConceito/JDACT

segunda-feira, 27 de março de 2017

Um Gato de Rua Chamado Bob. James Bowen. «Havia nele uma confiança calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma como me fitava com um olhar firme»

jdact e wikipedia

«Há uma citação famosa que li em algum lugar. Ela diz que recebemos segundas chances a cada dia de nossas vidas. Elas estão ali para serem agarradas, só que não costumamos agarrá-las. Passei grande parte da vida provando essa citação. Deram-me um monte de oportunidades, às vezes a cada dia. Por um longo tempo, falhei em não agarrar nenhuma delas, mas depois, no início da Primavera de 2007, isso finalmente começou a mudar. Foi quando fiz amizade com Bob. Olhando para trás, algo me diz que aquela pode ter sido a segunda chance dele também. A primeira vez que o encontrei foi numa sombria noite de quinta-feira, em Março. Londres ainda não havia se livrado do Inverno e ainda havia um frio cortante nas ruas, especialmente quando os ventos sopravam do Tamisa. Havia até mesmo um indício de geada no ar naquela noite, razão pela qual retornei para minha nova moradia subvencionada em Tottenham, no norte de Londres, um pouco mais cedo do que o habitual, depois de um dia fazendo apresentações de rua na região de Covent Garden. Como sempre, trazia o meu estojo de guitarra preto e a mochila pendurados nos ombros, mas naquela noite também tinha comigo a minha amiga mais próxima, Belle.
Nós havíamos saído juntos anos atrás, mas, agora, éramos apenas colegas. Pretendíamos comer alguma comida pronta e barata com curry e assistir a um filme na pequena televisão a preto e branco que eu conseguira encontrar numa loja de caridade virando a esquina. Como de costume, o elevador do prédio não estava a funcionar. Por isso, dirigimo-nos para o primeiro lance de escadas, resignados em encarar a longa subida até ao quinto andar. A lâmpada fluorescente no corredor estava queimada e parte do térreo estava imersa na escuridão, mas, enquanto caminhávamos para a escada, não pude deixar de notar um par de olhos brilhantes nas sombras. Quando ouvi um miado suave e ligeiramente melancólico, percebi o que era. Chegando mais perto, à meia-luz, vi um gato laranja enrolado sobre o capacho de um dos apartamentos do andar térreo, no acesso que partia do corredor principal. Cresci no meio de gatos e sempre tive certa queda por eles. Ao me mover até ele para olhá-lo melhor, constatei que se tratava de um macho. Eu não o havia visto antes perto dos apartamentos, mas, mesmo na escuridão, pude notar que havia algo de especial nele. Eu já era capaz de afirmar que ele tinha certa personalidade. Ele não estava nem um pouco nervoso; na verdade, era exactamente o oposto. Havia nele uma confiança calma e imperturbável. Parecia estar muito bem acomodado ali nas sombras e, a julgar pela forma como me fitava com um olhar firme, curioso e inteligente, era eu quem estava entrando no seu território. Era como se ele estivesse dizendo-me: então, quem és tu e o que e o fazes aqui?.
Não pude resistir a me ajoelhar e me apresentar. Olá, companheiro. Eu nunca te vi antes, moras aqui?, disse. Ele apenas olhou para mim com a mesma expressão compenetrada e um pouco distante, como se ainda me estivesse a avaliar. Decidi acariciar o seu pescoço, em parte para ser amigável, mas também, em parte, para ver se ele usava uma coleira ou qualquer forma de identificação. Era difícil ter a certeza no escuro, mas percebi que não havia nada, o que imediatamente me sugeriu que ele fosse um gato de rua. Londres tinha mais do que a sua justa cota deles. Ele pareceu estar a gostar do carinho e começou a se esfregar levemente contra mim. Enquanto eu o acariciava um pouco mais, pude perceber que sua pelagem estava em mau estado, com trechos irregulares sem pelos aqui e ali. Claramente, estava a necessitar de uma boa refeição. E, pela maneira como se esfregava contra mim, também precisava de uma boa dose de amor. Pobrezinho, acho que é um vira-lata. Ele não tem coleira e está muito magro, disse, olhando para Belle, que me esperava pacientemente ao pé da escada. Ela sabia que eu tinha um fraco por gatos. Não, James, tu não pode ficar com ele, disse ela, apontando para a porta do apartamento em frente à qual o gato estava sentado. Ele não pode ter simplesmente aparecido aqui e acomodado nesse local. Deve pertencer a quem vive aí. Provavelmente está esperando que a pessoa volte para casa e o deixe entrar. Relutantemente, concordei com ela. Eu não podia simplesmente pegar o gato e levá-lo para casa comigo, mesmo que todos os sinais indicassem que ele realmente não tinha um lar». In James Bowen, Um Gato de Rua Chamado Bob, 2012, Editora Novo Conceito, cdd 636-70929, 2013, ISBN 978-858-163-152-3 ou ISBN 978-858-163-291-9.

Cortesia de ENConceito/JDACT