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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Atlântida. As Novas Provas. Martin Ebon. «Olhamos directo para sua cratera, rei Jorge I. Fumos de enxofre, escapando aleatoriamente, relembram-nos que aqui temos um vislumbre da Terra em sua essência mais inquieta»


Cortesia de wikipedia

No topo do vulcão
«Sob este mar jaz o segredo da legendária ilha-continente da Atlântida. Escrevo estas palavras nas bordas do vulcão que forma a ilha de Santorini, cercada pelas águas do Mar Egeu, no Mediterrâneo oriental. Olhando por sobre as rochas que separam a estrada superior dos íngremes rochedos vulcânicos, vejo lá em baixo a baía, que é, de facto, por sua vez, um vulcão cheio de água, profundo e obscuro. E no meio desta baía de Santorini, guardada agora pela neblina da manhãzinha, duas ameaçadoras ilhas vulcânicas que, com o passar do tempo geológico, se ergueram apenas bem recentemente do mar. Fumaça sulfurosa ainda emana delas, pois não são pacíficas; são um elo directo entre a vasta força dilaceradora dentro da terra, e todos nós, que vivemos precariamente na casca deste planeta.
Tememos os vulcões, e estamos certos. Nossa memória curta pode nos isolar dos perigos potenciais que estão abaixo de nossos pés, mas apenas enquanto escolhemos ignorar a candente e borbulhante realidade, logo abaixo. Uma vez passei uma noite nas bordas de um vulcão extinto, o Monte Quintamani, na ilha de Bali. Um hotel para doze pessoas havia sido construído ali. O vulcão havia muito estava apaziguado; as memórias do último desastre, na década de 20, haviam desvanecido, e dormi sem sonhos maus. Mas o Santorini é diferente: o passado turbulento, que abrange pelo menos 3.500 anos de convulsões violentas, está sempre ao nosso lado. A série de erupções em Santorini, também conhecida como Thera, foi tão severa que agora parece certo que causou a destruição de avançada civilização, que o antigo filósofo-poeta grego, Platão, chamou Atlântida.
Exactamente quando e em que sequência temporal esta lendária Atlântida foi destruída, é de pouca importância, se olharmos para a baía aparentemente sem fundo, a caldeira, parcialmente cercada pelas ilhas menores que formam este grupo. É realidade forte, tristonha e sombria, em vivido contraste com as brilhantes e alegres pinturas murais que os arqueólogos encontraram sob a poeira vulcânica que cobre esta ilha. Desde que Platão falou da Atlântida, muita especulação sobre a vida e localização da ilha, ou continente, tem cruzado nosso caminho. Os atlantes seriam capazes dos feitos tecnológicos que rivalizariam ou excederiam os nossos? Somos, ou alguns de nós são antigos residentes reencarnados da Atlântida? Houve aviso suficiente antes da Atlântida ser engolfada, para permitir a seus habitantes escapar e levar suas artes e ciências a outras partes do mundo, do Egipto às Américas? E a Atlântida, como seu nome implica, situava-se no Oceano Atlântico?
Agora, no topo deste vulcão, defrontamo-nos com a realidade, não com a lenda, não com pensamentos imaginosos ou combinações engenhosas de factos dispersos que poderiam sugerir uma ou outra resposta ao enigma da Atlântida. A nova evidência que emergiu, e que promete dar as mais definitivas réplicas às questões sobre a Atlântida, está bem aqui, dentro da caldeira à nossa frente e no sítio arqueológico de Acrotiri, em Santoríni mesmo. Estas bordas rochosas da ilha-vulcão são por si mesmas evidência concreta. Um olhar para elas, e vemos variadas camadas de vermelho, cinza, negro, marrom e preto; explosões mesmo das entranhas da Terra causaram esta palheta de cores. Cinzas, escórias, lavas e, principalmente, pedra-pomes acumularam-se umas sobre as outras. Vimo-las primeiro do barco, ao chegar-se a uma das duas pequenas enseadas, Thera, também conhecida como Fira, e Atínios. Destaca-se claramente um nível diferenciando-se acima do outro, cada um representando um longo período da história vulcânica da ilha.
Ao passo que a caldeira é muito profunda para permitir a ancoragem de embarcações, pequenos aparelhos visitam os elementos concretos e visíveis do violento passado do grupo de ilhas: a Palea Caimeni (Ilha Queimada Velha), e Néa Caimeni (Ilha Queimada Nova), aboletadas dentro da baía. Uma viagem a Néa Caimeni, que apareceu na caldeira no começo do século XVIII, leva-nos à Baía de Petrulion, desta ilha. É uma ladeira inclinada, até ao pico da ilha; não há sombras, e a subida é quente e exaustiva. Sendo árdua, a subida oferece inúmeras razões de parar e olhar a paisagem. Lava e cinza vulcânica são aqui e ali misturadas com pequenas manchas de vegetação que, com a persistente ousadia da natureza, irrompem pelas encostas áridas. Aqui também, há camadas que sugerem o crescimento intermitente da ilhota desde que emergiu do mar, em 1707; ravinas, cortes na superfície, e recortes no chão são uma evidência geológica do crescimento.
Quando atingimos o pico de Néa Caimeni, não há mais dúvida de que é a própria borda do vulcão. Olhamos directo para sua cratera, rei Jorge I. Fumos de enxofre, escapando aleatoriamente, relembram-nos que aqui temos um vislumbre da Terra em sua essência mais inquieta. Para qualquer um, é uma visão assombrosa, que não requer recordação da história destrutiva do Santorini; a sensação de drama violento, passado e futuro, é onipresente. Mas como a existência do vulcão de Santorini une a moderna ciência com a antiga Atlântida?
Mostra concretamente que, em tempos pré-históricos, este vulcão, dentro do Mar Egeu, experimentou uma explosão para a qual não há paralelo, na extensão de sua violência e danos potenciais, muito além de seus horizontes. Há evidências suplementares, a partir de escavações que principiaram em 1967 em Santorini mesmo, na vila de Acrotirí. Estas escavações demonstraram que a ilha era parte activa e culturalmente avançada da civilização minóica, da qual o palácio de Cnossos, em Creta, ao sul, é o exemplo mais amplamente conhecido». In Martin Ebon, Atlântida, As Novas Provas, Editora Pensamento, Brasil, Wikipédia.

Cortesia de EPensamento/JDACT

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Reportando-se a este passo pliniano o mesmo estudioso considera que o enclipodedista latino reconhece no Guadiana Baixo uma continuação do Guadiana Alto e deste modo justifica a descrição aqui feita e que aplica a diversas fases do percurso deste rio»

jdact

Comentário
Plínio 3,6
«”In Laminitano agro Citerioris Hispaniae” - Dois casos de inversão do atributivo geográfico. Marouzeau considera de regra a posposição deste tipo de determinativos. Em Plínio podemos facilmente verificar que num grande número de casos o determinativo é posposto, processo pelo qual se dá relevo ao atributo. Acontece que, sobretudo nos livros geográficos, é este que se torna o elemento distintivo.
“Laminitano” tem neste caso maior importância que “agro e Citerioris” é o termo que importa reter quando se está a falar da Hispânia. De tal modo é diminuta a importância deste último temo neste contexto que nalguns casos é mesmo omitido. Da análise das ocorrências por nós levantadas da expressão em que entram os dois termos se verifica que a posposição do atributo está documentada apenas no livro geográfico que lhe corresponde, enquanto que nos restantes se regista apenas a ordem normal.
A respeito desta expressão assinalamos ainda um uso particular do genitivo chamado "geográfico", de resto muito frequente em Plínio, mesmo nos livros que não dizem respeito à Geografia.
“ortus...fundens... resorbens... condens... gaudens - Plínio recorre com frequência às construções participiais. Se bem que nalguns casos, para Müller, seja uma forma de dar variedade e leveza à expressão, neste caso particular assinalamos a insistência neste tipo de construção associada a um certo paralelismo de alguns elementos:
  • modo in stagna se fundens;
  • modo in angustias resorbens.
Note-se a ‘uariatio’ dos elementos de ligação ‘modo...moda..auL.. et...’.
‘in totum’ - In mais adjectivo neutro substantivado é um uso pós-clássico, neste caso atestado a partir de Celso.
“in Laminitano agro – Laminiun” é, segundo García y Bellido, a actual Alhambra. Schulten pensa que se situaria na localidade de Lagos, próximo de Fuenllana, donde provem uma inscrição que refere o “municipium Laminitanum. Reportando-se a este passo pliniano o mesmo estudioso considera que o enclipodedista latino reconhece no Guadiana Baixo uma continuação do Guadiana Alto e deste modo justifica a descrição aqui feita e que aplica a diversas fases do percurso deste rio. As nascentes situar-se-iam perto da actual Ruidera o que parece conesponder à indicação do ITIN. Anton. Aug.
que situa o ‘caput Anae’ a sete milhas de “Laminium”. Os ‘stagna’ seriam o conjunto de dezassete lagoas de Ruidera, situadas no campo de Montiel. A restante informação parece aplicar-se ao Guadiana Baixo, uma derivação do Guadiana Alto, que corre durante 26 km por subterrâneos.

jdact

‘cuniculis’ - Termo que em latim tanto significa "coelho" como "canal" e que está atestada desde Cícero e Varrão. É considerada já por alguns autores latinos de origem hispânica. A sua possível relação com o basco ‘unchi’ foi frequentemente apontada, afastando-se deste modo a sua origem indo-europeia.
‘saepius nasci gaudens’ - A personificação é duplamente marcada, pot ‘nasci e gaudens’. O fenómeno é conhecido como os "ojos del Guadiana" e ocorre pouco a Norte de Daimiel.
‘in Atlanticum oceanum’ - Sobre a posposição do determinativo geográfico v. supra o que se disse a propósito de “Citerioris Hispaniae”.
‘Tarraconensis autem’ - A posição de “Tarraconensis” justifica-se por marcar a mudança para assuntos referentes a outra província e tem a sua correspondente em “Ulterior in duas...” A ideia de oposição entre estas duas frases é reforçada ‘por autem’.
O “Gallicus oceanus”, a parte do oceano Atlântico que banha as costas da Gália, corresponde ao Mar Cantábrico. Nalguns passos Plínio marca a distinção entre este e o ‘mare Gallicum’ que corresponde à costa mediterrânica da Gália. Esta distinção resulta do facto de ‘oceanus’ ser por antonomásia o Atlântico e não se aplicar geralmente ao Mediterrâneo.
O monte ‘Solorius’, ‘Solarius’ segundo Tovar, é a Serra Nevada. A cordilheira oretana, nome derivado do étnico ‘Oretani’ e do topónimo ‘Oretum’, identificado com as ruínas próximas de Granátula, Ciudad Real, corresponde à Serra Morena. A cordilheira carpetana recebe o seu nome do povo que habitava a Este dos Vetões, entre o Guadiana e o sistema montanhoso constituído pelas Serras de Gredos e Guadarrama, a que se deu na antiguidade o seu nome. Considera-se que a designação “iuga Asturum” corresponde geralmente aos Pirenéus Ástures, embora neste passo Plínio se refira genericamente ao sistema montanhoso galaico-asturiano. Esta forma de estabelecer as fronteiras entre a Tarraconense e as outras províncias da Hispânia apenas pela orografia acaba por se revelar bastante imprecisa, especialmente no que se refere ao limite entre a Tarraconense e a Lusitânia». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «Do conteúdo de obras menores como o “De uita Pomponi Secundi” e “De iaculatione equestri” pouco se sabe. Mais problemática é a atribuição, com base na tradição humanista, de um opúsculo, não referido na lista citada, atribuído igualmente ao seu sobrinho e filho adoptivo, o “De uiris illustribus”»

Cortesia de ecolibri

A Carreira Equestre de Plínio
A Obra
«A primeira designação justifica-se por uma obra de carácter retórico em três livros, “Studiosi”, enquanto que as questões gramaticais ocupariam os oito livros do “Dubius sermo”. O título e os fragmentos desta obra permitem situar o seu conteúdo dentro da tradicional querela entre analogistas e anomalistas. Escrita no tempo de Nero, é claramente marcada pelo estoicismo e, ao assumir os princípios dos anomalistas, encara a defesa da liberdade no plano da linguagem como a sua defesa num plano mais geral.

Das obras históricas propriamente ditas sobressaem, pela sua extensão e pela influência que tiveram em outros autores,
  • “Bella Germaniae”,
  • “Historiae a fine Aufidi Bassi”.
Do conteúdo de obras menores como o “De uita Pomponi Secundi” e “De iaculatione equestri” pouco se sabe. Mais problemática é a atribuição, com base na tradição humanista, de um opúsculo, não referido na lista citada, atribuído igualmente ao seu sobrinho e filho adoptivo, o “De uiris illustribus”.

Quanto à “Naturalis Historia”, apresentada com o título de “naturae historiarum XXXVII (libri), convém desde logo precisar o significado do título, uma vez que a sua tradução literal na línguas modernas pode levar a que se perca de vista o verdadeiro alcance do original.

Cortesia de ecolibri

Em primeiro lugar o termo grego “historia” tem um âmbito maior que a sua equivalente actual, uma vez que ele correspondia ao termo "investigação", sem implicar que esta dissesse respeito a determinados factos do passado. Por outro lado o próprio conceito de “natura” é mais amplo, corresponde mais ao significado de "universo". Teremos, por isso, de considerar preferível uma proposta semelhante à de J. Bayet, “recherche sur le monde”, já que corresponde melhor ao largo âmbito temático da obra.
Estamos pois perante uma "investigação sobre o mundo”, rica e diversificada, como acentuava Plínio-o-Moço, “nec minus uarium quam ipsa natura”, que começa pelos astros, percorre os seres animados e termina de novo nos inanimados, as gemas em concreto, numa construção que levou F. Della corte a defini-la como uma “Ringcomposition” que abre com "as pedras infinitamente grandes" e se conclui com "as infinitamente pequenas".

Antes da sua investigação coloca P. um prefácio em forma epistular, cuja análise tem sido bastante proveitosa para a compreensão de algumas características do seu trabalho. Por ele tomamos conhecimento que a obra é dedicada ao imperador Tito e terá sido concluída certamente em 77. Para além disso o autor com frequência proporciona elementos que permitem definir o carácter do seu trabalho.

Cortesia de ecolibri

Trata-se de cumprir com ela o duplo objectivo de ” iuuare e placere”, nem sempre fácil de atingir dado que o assunto é “sterilis matéria”, obrigando a que dela esteja ausente a “amoenitas”. Reconhece que a natureza da obra não deixa lugar para o engenho, nem a recursos que confeririam maior leveza e a tornariam mais agradável, quer se tratasse de efeitos retóricos, quer consista na introdução de factos curiosos.
Nestes dois casos, como em outros, não podemos tomar à letra as afirmações do autor, dado ser manifesto que não faltam exemplos que contradigam esta opinião sobre a sua própria obra.

Na função de agradar se enquadram os “mirabilia” e os prodígios, abundantemente representados nesta obra, que, na perspectiva de Gigon, traduzem o desejo do saber pelo saber, um elemento de base da cosmologia grega, cuja tradição P. retoma, elementos que faz alternar com as explicações racionais. Por outro lado, assumindo uma característica típica da sua época e aplicando teorias expostas em obras anteriores, podemos dizer que, não raro, a “Naturalis Historia” apresenta exemplos que permitem contradizer o juízo que de si mesmo pretendeu dar a respeito da preocupação retórica». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia. Arqueologia e História Antiga: «A sua estada na Tarraconense, está bem documentada tanto por informações concretas sob a realidade observada, como pela ligação com personagens que passaram por esta província. Entre estes se conta Lárcio Licínio…»

Cortesia de ecolibri

A Carreira Equestre de Plínio
«Gaio Plínio Secundo terá nascido nos finais de 23 ou inícios de 24 d.c., na cidade de Como, e dele se traçou este breve perfil biográfico:
  • “Plinius Secundus Nouocomensis equestribus militiis industrie functus procurationes quoque splendissimas et continuas summa integritate administrauit et tamen liberalibus studiis tantam operarn dedit, ut non temere quis plure in otio scripserit. itaqure bella omnia, quae umquam cum Germanis gesta sunt, uiginti uoluminibus comprehendit, item naturalis historiae triginta septern libros absoluit. periit clade Campaniae”.
Retêm-se, pois, como aspectos mais salientes da sua vida, o exercício das procuratelas e a obra literária de que se sublinham neste texto duas obras «históricas»:
  • Os vinte livros dos “Bella Germnniae” e os trinta e sete da “Naturalis Historia”.
A sua condição de cavaleiro obrigou-o a percorrer diferentes províncias e os cargos que exerceu justificam que se tenha tornada um conhecedor de muitas realidades concretas, assumindo, sem dúvida, no caso concreto da Península Ibérica, um grande relevo. O início da sua carreira, está intimamente ligada à Germânia., uma vez que, depois de uma passagem por Roma, desempenha nessa província funções preliminares de um “cursus honorum” equestre. Aí terá decorrido, entre 46 e 58, o exercício das “tres militiae”, provavelmente no exercício da última, teve oportunidade de travar amizade com Tito.
É de resto uma personagem intimamente ligada à dinastia dos flávios e, por consequência, conhece durante os júlio-claúdios, especialmente durante os últimos anos do reinado de Nero, alguns problemas. Mas também é essa circunstância que lhe permite gozar de uma situação de privilégio sob Vespasiano, a ponto de se tornar um conselheiro particular do imperador, segundo a interpretação mais corrente da informação de PLIN. Ep. 3,5,9: “ante lucem ibat ad Vespasianum imperatorem”.

Cortesia de bibliotecadigitalflul

Dentro de uma normal carreira equestre se insere a sua nomeação como “procurator” em diversas províncias. Sobre este aspecto, que nos interessa particularmente, se debruçaram alguns estudiosos, que, recorrendo ao tipo de informações proporcionadas fundamentalmente por conhecimentos particulares de determinadas áreas do império, procuraram traçar o seu percurso, sem que, no entanto, se tenham estabelecido com segurança as províncias e sequência cronológica dos diferentes exercícios. Para Münzer P. teria exercido, no período que medeia entre 70 e74, quatro procuratelas consecutivas, respectivamente Narbonense, África, Tarraconense e Bélgica. R. Syme, revendo a investigação de Münzer, conclui que o exercício do cargo na Narbonense e na Bélgica que este último autor levanta ainda algumas dúvidas, tal como Ziegler já tinha assinalado

Pelo contrário, a sua estada na Tarraconense, está bem documentada tanto por informações concretas sob a realidade observada, como pela ligação com personagens que passaram por esta província. Entre estes se conta Lárcio Licínio, o “iuridicus Hispaniae Citerioris” que terá feito uma generosa oferta pelo repositório de informação entretanto coligido por P., e ao qual se deve ligar o censo promovido nessa província, circunstância que permite situar com grande probabilidade o seu cargo de “procurator” entre72 e74. De facto, como assinala Syme, esta será a razão pela qual P. apresenta os actualizados censos relativos ao Noroeste, uma vez que terá sido em 73-74 que estes se realizaram.

Cortesia de pliniov

O exercício da procuratela permitiu-lhe ter indirectamente contacto com o amplo território peninsular, mas é nitidamente mais completo no que diz respeito ao âmbito em que o seu cargo se exerceu. É fácil constatar que as notícias dependentes de uma observação ou conhecimento directo se situam precisamente na Tarraconense, sendo a Lusitânia e a Bética claramente preteridas. Por outro lado, a simples referência a “Hispania” equivaleria, concretamente na notícia de introdução do pistacho na península, a “Citerior”, em contraste com o uso de “Baetica” e “Lusitania” nas referências específicas a estas duas províncias.
Este cargo, exercido por tempo muito limitado, não permitia um conhecimento aprofundado do terreno, sobretudo se atendermos às limitações do tempo e à sua extensão. Por esta razão, são absolutamente justificadas as limitações da informação pliniana, sobretudo no que toca à falta de correcção de notícias anteriores manifestamente inexactas.

A Obra
Para além de importantes informações sobre aspectos biográficos da correspondência do seu sobrinho, uma célebre carta de Plínio-o-Moço a Bébio Macro, transmite-nos uma lista das suas obras principais, dispostas por ordem cronológica. A sua extensa produção reparte-se essencialmente entre escritos que genericamente abrangemos sob a designação de «históricos» e outros que abordam problemas gramaticais e retóricos. No seu conjunto, justificam a classificação de “orator et historicus” como alguns códices atestam». In Amílcar Guerra. Plínio, O Velho, e a Lusitânia, Arqueologia e História Antiga, Edições Colibri, 1995, ISBN 972-8047-97-5.

Cortesia de Edições Colibri/JDACT

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Orlando Ribeiro: Dedicado ao ensino e investigação em Geografia, sendo considerado o renovador desta ciência no Portugal do século XX. O geógrafo português com mais ampla projecção a nível internacional

(1911-1997)
Lisboa
Cortesia de geo
Orlando Ribeiro foi um geógrafo e historiador português. Orlando Ribeiro dedicou toda a sua vida ao ensino e investigação em Geografia, e é a justo título considerado como o renovador desta ciência em Portugal. Foi também o geógrafo português do século XX com mais projecção ao nível internacional. A sua vasta obra inclui não só científicos na Geografia, mas revela também uma diversidade de interesses intelectuais invulgares.
Orlando Ribeiro veio a doutorar-se em 1935 pela Universidade de Lisboa com a tese «A Arrábida, esboço geográfico». Entre 1937 e 1940 (durante a guerra) viveu em Paris, e trabalhou na Sorbonne, com Marc Bloch, Emmanuel de Martonne e A. Demangeon. Em 1943, já em Lisboa, fundou o Centro de Estudos Geográficos.

Da sua intensa actividade científico-académica destaca-se Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Em 1966, o Centro de Estudos Geográficos começou a publicar a revista Finisterra, que foi e continua a ser a principal publicação da Geografia portuguesa, com projecção internacional.

Cortesia de orlando-ribeiro
O interesse intelectual de Orlando Ribeiro pela História, Antropologia e Etnografia foi desenvolvido essencialmente enquanto discípulo de David de Melo Lopes e de Leite de Vasconcelos. Ribeiro lançou-se também na Geologia com Carlos Teixeira. Trabalhou ainda com Juvenal Esteves, Barahona Fernandes e Celestino da Costa.
 
Obras:
  • Finisterra;
  • A Arrábida. Esboço Geográfico, (1935);
  • Portugal o Mediterrâneo e o Atlântico, (1945);
  • A Ilha de Fogo e as Suas Erupções, (1954 e 1960);
  • Portugal, (1955);
  • Mediterrâneo. Ambiente e Tradição, (1968);
A renovação da Geografia, pela introdução do factor humano como elemento central à compreensão geográfica entendida como síntese de muitas realidades, é antes de mais fruto de um espírito humanista que desde os anos de jovem o impulsionava para o conhecimento da História, da Antropologia, da Etnografia, através do contacto, entre outros, com David Lopes, seu professor, e Leite de Vasconcellos, de quem foi também, desde muito jovem e ao longo da vida, dedicado discípulo.
Mas o alargamento de horizontes da Geografia como ciência é também resultado do seu espírito curioso e independente que, ainda nos bancos da escola, o levou a manter ligações com cientistas de outras áreas, onde procurou alicerces de uma formação naturalista que sempre consideraria indispensável a um geógrafo. Aprendeu geologia trabalhando no campo com Fleury e colaborando mais tarde com Carlos Teixeira e Zbyszewsky. Reflexões metodológicas e sobre questões de biologia, buscou-as na medicina através de amigos como Juvenal Esteves, Barahona Fernandes ou Celestino da Costa. Com eles partilhava também a inspiração universalista da literatura e da música. É sobre Goethe a sua primeira conferência, no ano do centenário da morte do escritor (1932), e o seu primeiro artigo, Geografia humana, é publicado, em 1934, numa revista de medicina.

Cortesia de orlando-ribeiro
Centro de Estudos Geográficos, CEG
Cidadão interveniente e profícuo prosador sobre muitos outros temas como a ciência, o ensino e a universidade, as reformas educativas ou os problemas coloniais, Orlando Ribeiro usou sempre de uma frontalidade que, se não diminuía o respeito científico que lhe era reconhecido, também nunca facilitou as suas relações com os órgãos de decisão, desde o Estado Novo ao período pós 25 de Abril.
Por muito tempo teve, como resposta às suas opiniões, um invariável silêncio. Contrastando com o precoce reconhecimento a nível internacional, a difusão da sua obra e as honras oficiais, no seu próprio país, surgiram muito tardiamente.

Alguma Bibliografia:
  • Amaral, Ilídio do, "O Centro de Estudos Geográficos de Lisboa (1943-1973)", , Lisboa, VIII, 16, 1973, p. 310-315;
  • Idem, A "Escola de Geografia de Lisboa" e a contribuição para o conhecimento geográfico das regiões tropicais, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos, 1979;
  • Idem, "Homenagem a Orlando Ribeiro", Finisterra, Lis­boa, XVI, 31, 1981, p. 5-14;
  • Idem, "Geógrafos e Geografia na Faculdade de Letras de Lisboa", Revista da Faculdade de Letras, Lisboa, 1983, p. 68-82;
  • Amaral, Ana e Ilídio do Amaral, Bibliografia Científica de Orlando Ribeiro, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos, 1984;
  • Azevedo, A. Lobo de - "Calor e secura: elementos climáticos da agri­cultura portuguesa", Ler História, Lisboa, 13, 1988, p. 135-138;
  • Barreto, António, "Orlando Ribeiro" in Dicionário de História de Portugal, IX - Suplemento P/Z, coord. António Barreto e Maria Filomena Mónica, Porto, Figueirinhas, 1999, p. 267-268;
  • Gama, António - "Os sentidos de Mediterrâneo e a Geografia Portuguesa: a interpretação culturalista de Orlando Ribeiro", Aprender, Portalegre, 10, 1990, p. 45-48;
  • Garcia, João Carlos - "As cidades na obra de Orlando Ribeiro", Penélope, Lisboa, 7, 1992, p. 107-114;
  • Idem - "Orlando Ribeiro (1911-1997), o Mundo à sua procura" Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto - Geografia, Porto, XIV, 1998, p. 107-116;
  • Gaspar, Jorge - "O jubileu de Orlando Ribeiro, um marco simbólico na Geografia Portuguesa", O Professor, Lisboa, 29, 1981, p. 30-33;
  • Idem - "Orlando Ribeiro", Finisterra, Lisboa, XXXIII, 65, 1998, p. 3-6;
  • Leal, João - "Orlando Ribeiro, Jorge Dias e José Cutileiro: imagens do Portugal mediterrânico", Ler História, Lisboa, 40, 2001, p. 141-163;
  • Medeiros, Carlos Alberto - "Um marco indelével na Geografia portuguesa", Ler História, Lisboa, 13, 1988, p. 131-135;
  • Idem - A Geografia no sentir de Orlando Ribeiro, Lisboa, Ministério da Educação, 1998;
  • Oliveira, Ernesto Veiga de - "Orlando Ribeiro e a Etnologia", Ler História, Lisboa, 13, 1988, p. 138-142;
  • Siza, Teresa, Jorge Gaspar e Suzanne Daveau - Finisterra. Imagens de Orlando Ribeiro, Coimbra, Encontros de Fotografia, 1994.
Cortesia de Centro de Estudos Geográficos/orlando-ribeiro/JDACT