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domingo, 13 de agosto de 2023

Poesia. Natália Correia. «E os olhos emigrantes no navio da pálpebra encalhado em renúncia ou cobardia. Por vezes fêmea. Por vezes monja…»


Cortesia de wikipedia

Auto-retrato

«Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis».

A defesa do poeta
«Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
dou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis…».
(…)

In Natália Correia, Poesia completa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Natália Correia, Poesia, Açores, 

sábado, 25 de fevereiro de 2023

Poesia. Soneto. Antero de Quental. «Mas que filha de reis, que anjo ou que fada, era essa que assim a mim descia, do meu casebre à húmida pousada?»

jdact

1862 - 1866

Visita

«Adornou o meu quarto a for do cardo,

Perfumei-o de almíscar recendente;

Vesti-me com a púlpura fulgente,

Ensaiando meus cantos, como um bardo.


Ungi as mãos e a face com o nardo

Crescido nos jardins do Oriente,

A receber com pompa, dignamente.

Misteriosa visita a quem aguardo.


Mas que filha de reis, que anjo ou que fada

Era essa que assim a mim descia,

Do meu casebre à húmida pousada?


Nem princesas, nem fadas. Era, flor,

Era a tua lembrança que batia…

Às portas de ouro e luz do meu amor!

In Antero de Quental, Sonetos Completos, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.


Cortesia de PEAmérica/JDACT

JDACT, Antero de Quental, Poesia, Açores, Cultura,

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Poesia. Soneto. Antero de Quental. «Sim, vivo e quente! E já a luz do dia não virá dissipá-lo nos meus braços como névoa da vaga fantasia…»

jdact

1862 - 1866

Amor Vivo

«Amar! Mas dum amor que tenha vida…

Não sejam sempre tímidos harpejos,

Não sejam só delírios e desejos

Duma doida cabeça escandecida…

 

Amor que viva e brilhe! Luz fundida

Que penetre o meu ser, e não só beijos

Dados no ar, delírios e desejos

Meu amor… dos amores que têm vida…

 

Sim, vivo e quente! E já a luz do dia

Não virá dissipá-lo nos meus braços

Como névoa da vaga fantasia…


Nem murchará do Sol à chama erguida…

Pois que podem os astros dos espaços

Contra uns débeis amores… se têm vida?»

In Antero de Quental, Sonetos Completos, Publicações Europa-América, 1998, ISBN 972-104-421-0.

Cortesia de PEAmérica/JDACT

 JDACT, Antero de Quental, Poesia, Açores, Cultura,

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Odes Modernas. Antero de Quental. « Se, desde Prometeu até Jesus, o fazem ir …, estranho peregrino, o Homem, tenteando a grossa treva, vai..., mas ignora sempre quem o leva! »


jdact

Panteísmo
[…]
III
«Fecundou!... Se eu nas mãos tomo um punhado
Da poeira do chão, da triste areia,
E interrogo os arcanos o seu fado,

O pó cresce ante mim..., engrossa..., alteia...
E, com pasmo, nas mãos vejo que tenho
Um espírito! O pó tornou-se ideia!

Ó profunda visão! Mistério estranho!
Há quem habita ali, e mudo e quedo
Invisível está..., sendo tamanho!

Espera a hora de surgir sem medo,
Quando o deus encoberto se revele
Com a palavra o imortal segredo!

Surgir! Surgir!…, é a ânsia que os impele
A quantos vão na estrada do infinito
Erguendo a pasmosíssima Babel!

Surgir! Ser astro e flor! Onda e granito!
Luz e sombra! Atracção e pensamento!
Um mesmo nome em tudo está escrito…
                                                           
Eis quanto me ensinou a voz do vento.

1865 - 1874.


À História
I                                                            
Mas o Homem, se é certo que o conduz,
Por entre as cerrações do seu destino,
Não sei que mão feita d’amor e luz
Lá para as bandas d’um porvir divino...
Se, desde Prometeu até Jesus,
O fazem ir …, estranho peregrino,
O Homem, tenteando a grossa treva,
Vai..., mas ignora sempre quem o leva!

Ele não sabe o nome de seus Fados,
Nem vê de frente a face do seu guia.
Onde o levam os deuses indignados?...
Isto só lhe escurece a luz do dia!
Por isso verga ao peso dos cuidados;
Duvida e cai, lutando em agonia:
E, se lhe é dado que suplique e adore,
Também é justo que blasfeme e chore!

Já que vamos, é bom saber aonde...
O grão de pó que o simoun levanta,
E leva pelo ar e envolve e esconde,
Também, no turbilhão, se agita e espanta,
Também pergunta aonde vai e d’onde
O traz a tempestade que o quebranta...
E o homem, bago d’água pequenino,
Também tem voz na onda do destino!

Porque os evos, rolando, nos lançaram
Sobre a praia dos tempos, esquecidos,
E, náufragos d’uma hora, nos deixaram
Postos ao ar, sem tecto e sem vestidos.
Estamos. Mas que ventos nos deitaram
E com que fim, aqui, meio partidos,
Se um Acaso, se Lei nos céus escrita...
Eis o que a mente humana em vão agita!

Ó areias da praia, ó rochas duras,
Que também prisioneiras aqui estais!
Entendeis vós acaso estas escuras
Razões da sorte, surda a nossos ais?
Sabê-las tu, ó mar, que te torturas
No teu cárcere imenso? E, águas, que andais
Em volta aos sorvedouros que vos somem,
Sabeis vós o que faz aqui o Homem?»
[…]
In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas
Organizacao de José Lino Grunewald e Maria Fernanda AM Andrade

JDACT

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Odes Modernas. Antero de Quental. «E todavia ardente... , eterno alento! Teu sopro é que fecunda a esfera vasta... Choras na voz do mar..., cantas no vento...»

jdact

Panteísmo
[…]
«Ide! Crescei sem medo! Não e avara
A alma eterna que em vós anda e palpita...
Onda, que vai e vem e nunca pára!
Em toda a forma o Espírito se agita!
O imóvel é um deus, que está sonhando
Com não sei que visão vaga, infinita...

Semeador de mundos, vai andando
E a cada passo uma seara basta
De vidas sob os pés lhe vem brotando!
Essência tenebrosa e pura..., casta
E todavia ardente... , eterno alento!
Teu sopro é que fecunda a esfera vasta...
Choras na voz do mar..., cantas no vento...

II
Porque o vento, sabei-o, é pregador
Que através das soidões vai missionando
A eterna Lei do universal Amor.
Ouve-o rugir por essas praias, quando,
Feito tufão, se atira das montanhas,
Como um negro Titã, e vem bradando...

Que imensa voz! que prédicas estranhas!
E como freme com terrível vida
A asa que o libra em extensões tamanhas!
Ah! quando em pé no monte, e a face erguida
Para a banda do mar, escuto o vento
Que passa sobre mim a toda a brida,

Como o entendo então! e como atento
Lhe escuto o largo canto! e, sob o canto,
Que profundo e sublime pensamento!
Ei-lo o Ancião-dos-dias! ei-lo, o Santo,
Que já na solidão passava orando,
Quando inda o mundo era negrume e espanto!

Quando as formas o orbe tateando
Mal se sustinha e, incerto, se inclinava
Para o lado do abismo, vacilando;
Quando a Força, indecisa, se enroscava
Às espirais do Caos, longamente,
Da confusão primeira ainda escrava;

Já ele era então livre! e rijamente
Sacudia o Universo, que acordasse...
Já dominava o espaço, onipotente!
Ele viu o Princípio. A quanto nasce
Sabe o segredo, o gérmen misterioso.
Encarou o Inconsciente face a face,
Quando a Luz fecundou o Tenebroso».
[…]
In Antero de Quental, Antologia, Odes Modernas
Organizacao de José Lino Grunewald e Maria Fernanda AM Andrade

JDACT

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

O Conto Literário de Temática Açoriana. Mónica Maria S. Cabral. «Os textos literários publicados nos periódicos pertencem quer ao campo da poesia, de dimensão lírica ou satírica, quer ao da prosa narrativa, em que o folhetim ocupa um lugar de relevância»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Mónica Maria Cabral

A Ilha. O Mar. A Emigração
Os primeiros sinais de vitalidade temática
«(…) Segundo Urbano Bettencourt, o movimento cultural da Horta é inseparável da pujança que o jornalismo aí conhece no período em questão e […] uma forte consciência do papel da imprensa como veículo de comunicação acaba por contagiar a escrita literária que, assim, se torna fundamentalmente uma escrita-para-a-imprensa. As contínuas gerações de prosadores desenvolvem sempre actividade grupal, sobretudo através da imprensa, muito rica de colaborações literárias. Todos os periódicos da Horta, desde O Faialense (1851), O Incentivo (1857) e O Açoriano (1883), este, sim, impulsionador de uma notória dinâmica literária e cultural ligada ao quotidiano insular, marcam pelo lugar de destaque dado à cultura e às artes, oferecendo traduções de ficcionistas ingleses, franceses e italianos. Nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX, há sempre pequenas revistas ou jornais e almanaques literários, correspondentes a círculos de afinidade, que mostram estar a par de tudo o que se passa na Europa culta. Mais do que meio de entretenimento, a imprensa assume-se como um elemento formativo, contribuindo para a educação cívica e estética do leitor, e como um veículo de contacto directo entre o autor e os seus leitores (este processo de comunicação envolve uma série de gestos que passam pela divulgação de textos exógenos, de proveniência linguística estrangeira ou não, pelo discurso avaliativo e crítico que ajuda a estabelecer as coordenadas de um sistema, a enquadrar e a compreender a rede de conexões que no seu interior se estabelecem; esse processo de comunicação passa igualmente, e em idêntico grau de importância, pela criação literária própria, que atesta a relação de proximidade de um autor com o seu espaço e tempo imediatos e intensifica o grau de cumplicidade entre autor e leitor. Deste modo, o jornal tornou-se o mais curto caminho para a comunicação, e correspondia a uma necessidade de estabelecer contacto com o público). Esta escrita-para-a-imprensa revela, no entanto, um carácter precário e fragmentário, visto a obra dos escritores ficar dispersa por vários jornais e, consequentemente, mais sujeita a um rápido esquecimento, situação que só a edição em livro poderia evitar. Dado o consumo restrito e a fraca actividade editorial, grande parte do material disperso conhece a publicação em livro só muito mais tarde.
Os textos literários publicados nos periódicos pertencem quer ao campo da poesia, de dimensão lírica ou satírica, quer ao da prosa narrativa, em que o folhetim ocupa um lugar de relevância. Todavia, caberia à narrativa, em especial ao conto, um género cultivado preferencialmente, essa missão de ocupar-se mais demorada e extensivamente do mundo insular e da complexidade das suas relações humanas e em contexto social, por permitir uma representação mais concreta e objectiva da realidade circundante. Assim, encontramos contos que reflectem a vida rústica das gentes do mar e da terra, dos caçadores de baleias e dos emigrantes, intimamente ligados ao universo físico e social das ilhas, em particular do Faial e do Pico. Como se vê, estes textos já nos permitem detectar a trilogia temática que atravessará toda a literatura açoriana: terra, mar e emigração. Como referimos, o final do século XIX foi muito importante para o desenvolvimento da narrativa açoriana, que, principalmente a partir desta altura, combina o lado artístico e estético com a expressão do local e do regional. Deste modo, começa a impor-se, no panorama cultural açoriano, uma escrita artística, que revela a preocupação dos autores em explorar as virtualidades estéticas e polissémicas do texto literário e que é, ao mesmo tempo, uma escrita enraizada, ligada ao espaço dos próprios escritores e que serve a expressão da condição insular. Fazem parte desta geração Ernesto Rebelo, Manuel Zerbone, Florêncio Terra, Rodrigo Guerra, António Baptista e Nunes Rosa, nascidos entre 1842 e 1871. A escrita é marcada pela influência da época, em especial do neogarrettismo, devido à presença, nos contos, de espaços nacionais imediatos e à atenção dada às pequenas coisas do quotidiano próximo. Garrett defendeu a valorização do património popular, recolhendo testemunhos, compilando-os e utilizando-os como matéria-prima da sua produção literária, em especial de Viagens na Minha Terra, onde o escritor descreve paisagens, monumentos e trata inúmeros aspectos relacionados com a terra e a sua gente. Nessa geração, encontramos ainda a influência do conto rústico, de que Trindade Coelho é, sem dúvida, o maior representante na literatura portuguesa. Este tipo de conto, que, normalmente, assume a forma de narrativa curta com pouca conflitualidade, apresenta uma visão idílica do campo e a exaltação de valores como a simplicidade, a naturalidade e a autenticidade [(segundo Urbano Bettencourt, é fácil ver como esta representação utópica da vida no campo e das suas virtudes traduz a hipertrofia de um dos pólos da oposição homem natural / homem social que, entroncando em Rousseau, atravessa o Romantismo e aqui se projecta como a exaltação de tudo quanto de puro e instintivo possa subsistir no homem. Este realismo sadio ou naturalismo purificado, Camilo Castelo Branco, tem como modelo preferencial Os Meus Amores (1891), de Trindade Coelho, que não surgem, obviamente, em terreno virgem e encontram antecedentes nos contos de Rodrigo Paganino, O Tio Joaquim (1861)]». In Mónica Maria S. Cabral, O Conto Literário de Temática Açoriana, A Ilha, O Mar, A Emigração, Universidade de Aveiro, Departamento de Línguas e Culturas, Tese de Doutoramento, POPH/FSE, FCT, 2010, Wikipedia.

Cortesia de POPH/FSE/FCT/JDACT

O Conto Literário de Temática Açoriana. Mónica Maria S. Cabral. «… que, de acordo com João Melo, constitui o período inaugural por excelência de uma novelística que conhecerá sucessivas variações temáticas, até se fixar na reposição do viver insulano…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia a Mónica Maria Cabral

A Ilha. O Mar. A Emigração
«O conto literário de temática açoriana reflecte uma visão do mundo particular, resultante de condições geográficas, geológicas, climáticas, sociais, históricas e culturais. A análise dos textos permitiu-nos detectar recorrências temáticas inspiradas em impressões e experiências reiteradas relacionadas com a realidade circundante, as quais requisitam, constantemente, a expressão literária. A ilha, perspectivada eufórica e disforicamente, o mar e a emigração constituem elementos centrais no imaginário açoriano. O presente trabalho identifica e estuda as imagens e os temas mais importantes na trajectória deste conto, mostrando até que ponto se pode falar de uma tradição literária açoriana no contexto da literatura portuguesa». In Resumoo

A Ilha. O Mar. A Emigração
Os primeiros sinais de vitalidade temática
«A história literária dos Açores deverá começar com Gaspar Frutuoso (1522-1591), jesuíta doutorado em Salamanca, que, passado menos de um século do povoamento das ilhas, começa a escrever crónicas, poesia e até uma novela à maneira de Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro, integrada nas suas Saudades da Terra, Livro Quinto. As condições de vida nos Açores até à era liberal são pouco favoráveis a manifestações de carácter literário, pelo que somente três séculos após Frutuoso é que se cria um ambiente propício ao desenvolvimento da literatura (entre o século XVI e meados do século XIX, à excepção de Frutuoso, tudo o resto se leva na conta dos recreios de oratória, formando um espesso enredemoinhado onde será pouco aconselhável penetrar; as parcas manifestações de criatividade aí existentes logo se enredam na tal convicção circular, em torno de instrumentos místicos, aí instituídos como dogma e mais não; quase três séculos para diante, e o panorama não é significativamente diverso: aí abunda ainda esse subproduto de talha fradesca e seus apêndices ideológicos, apostado numa marca emblemática de condicionante religiosa tão concentracionária quanto erudita). Por isso, podemos dizer que a ficção literária açoriana nasceu, verdadeiramente, no século XIX, que, de acordo com João Melo, constitui o período inaugural por excelência de uma novelística que conhecerá sucessivas variações temáticas, até se fixar na reposição do viver insulano, perscrutando-o dos seus sensíveis quadrantes. A cidade da Horta, com o seu ar cosmopolita, pólo de dinamismo cultural e de comunicação com o exterior, apresenta, na segunda metade desse século, condições (surge, nessa altura, como um centro de contactos com o exterior, promovendo uma grande abertura dinâmica a outros espaços físicos e culturais; Pedro Silveira explica como esta cidade se tornou num centro cultural de criação literária: a Horta, sobretudo, mercê dos seus antecedentes, a navegação que parava pelo seu porto, levando aos naturais as ideias da Revolução francesa e os produtos das Culturas europeias, principalmente anglo-saxónica e galesa, estava bem preparada para poder ser o berço da nova literatura açoriana; e foi aí, efectivamente, que surgiram os primeiros ficcionistas insulanos) que permitem o surgimento de periódicos, onde se começa a publicar contos e capítulos de romances. E é nessa pequena cidade que surgem os primeiros ficcionistas, como António Lacerda Bulcão, o mais antigo contista açoriano, representante da estética romântica, autor de uma vastíssima obra narrativa muito incompletamente reunida em Colleccao de Romances Originaes (1873), afinal mais contos que romances, ricos de temática insular. Outros contemporâneos de Bulcão, como Augusto Loureiro e José Torres, em São Miguel e na Terceira, escrevem trabalhos de ficção, inspirados pela estética romântica, mas não possuem qualidade artística notável.
A cultura açoriana sempre esteve ligada à fundação de órgãos de imprensa, que se afirmam como verdadeiros pólos aglutinadores de gentes e ideias, logo a partir da segunda metade do século XIX. De facto, nos Açores, inicialmente na cidade da Horta, desenvolve-se uma imprensa precoce, que viria a condicionar a escrita literária (os Açores tiveram mais de seiscentos jornais e revistas diferentes ao longo da sua História; actualmente, um dos jornais diários, o Açoriano Oriental, é o segundo mais antigo da Europa). O desenvolvimento da narrativa açoriana, neste período, deve-se, em especial, aos chamados contistas da Horta, que, neste ambiente de abertura a outros espaços e outras culturas, utilizam o jornal como meio de divulgação da sua escrita». In Mónica Maria S. Cabral, O Conto Literário de Temática Açoriana, A Ilha, O Mar, A Emigração, Universidade de Aveiro, Departamento de Línguas e Culturas, Tese de Doutoramento, POPH/FSE, FCT, 2010, Wikipedia.

Cortesia de POPH/FSE/FCT/JDACT

terça-feira, 30 de julho de 2019

Antologia de Poesia Portuguesa. Natália Correia. «Pero Rodrigues, da vossa mulher, não acrediteis no mal que vos digam. Tenho eu a certeza que muito vos quer…»

jdact

Joguete Direito
«Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabeis que outro dia quando eu a fo…,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vou deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fod… comigo assim me dizia».

CV 976, CBN 1319, lição de Rodrigues Lapa, Cântigas d’Escarnho e de Mal Dizer
[…]
In Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa, Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, 1965, 1966, 1999, Herdeiros de Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Ponto de Fuga, 2019, ISBN 978-989-888-115-1.

Cortesia de PontodeFuga/JDACT

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Antologia de Poesia Portuguesa. Natália Correia. «Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo…»

jdact

Erótica e Satírica
 «(…) Senhores juízes sou um poeta
Um multipétalo uivo um defeito
E ando com uma camisa de vento
Ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
De armazenado espanto e por fim
Com a paciência dos versos
Espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
Uma avaria cantante
Na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
O vosso enfarte serei
Não há cidade sem o parque
Do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
A prémio minha rara edição
De raptar-me em crianças que salvo
Do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
De em pó volverdes sois os reis
Sou um poeta jogo-me aos dados
Ganho as paisagens que não vereis.
[…]
In Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa, Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, 1965, 1966, 1999, Herdeiros de Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Ponto de Fuga, 2019, ISBN 978-989-888-115-1.

Cortesia de PontodeFuga/JDACT