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domingo, 10 de maio de 2020

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «O Diogo só pensa nele e no facto de herdar agora todos os títulos do João. Por isso mesmo, temos de ajudar a vossa mãe nesta hora tão difícil»

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Beja, Paço Ducal, 16 de Agosto de 1472
«(…) João era, talvez, o filho que mais se parecia com ela. Entre os dois existia um carinho e uma empatia que não existia com a restante prole. Não estou a querer dizer que minha mãe gostava mais do João do que dos outros filhos mal certamente por ter sido o seu filho primogénito e por ter um feitio tão semelhante ao seu, o entendimento entre ambos era perfeito. O mesmo não acontecia com Diogo e ele, ressentido desse facto, tornava sempre as coisas mais difíceis. João era determinado sem ser ambicioso, ao contrário de Diogo que já sofria naquela altura de uma ambição desmedida. Era justo e generoso sem ser influenciável. Sempre conciliador tanto no seio da sua família como com os seus servidores e cavaleiros.
Depois da morte de João, talvez Manuel tenha saído beneficiado, porque a preferência materna pendeu sobre ele, dado que o meu irmão mais novo, à semelhança do mais velho, era determinado, teimoso, voluntarioso, jovial, alegre, mas nunca prejudicou ninguém. Dos nove filhos que meus pais colocaram neste mundo, apenas estavam vivos quatro, chorei durante várias horas e sei que foi somente devido ao carinho de Catarina Rodrigues que superei esta dor. Catarina fora, durante vários anos, ama do príncipe João II, mas agora vivia no nosso paço e ao ver-me tao frágil não me abandonou nem por um momento. Minha querida menina, tendes de ser forte. Mas, Catarina, como e possível o João ter morrido assim tão repentinamente?
O vosso irmão foi chamado para junto de vosso paizinho e de vossos irmãos. Agora encontra-se em paz. Mas era o meu irmão mais velho. E agora o que vai ser da mãe? Ela adorava o João. Sei que é difícil nesta hora encontrar uma explicação para os desígnios de Deus, mas a Senhora Duquesa vai superar mais uma vez esta perda. A Senhora Duquesa é uma mulher muito forte e com a ajuda de Deus vai ultrapassar esta provação. Mas perdemos o nosso pai ainda há tão pouco tempo! Minha querida, a Senhora Duquesa vai precisar da vossa ajuda e também da ajuda de sua irmã. Agora vou colocar-vos uns pachos de água na testa durante algum tempo e depois vamo-nos levantar, lavar essa carita e mimar a senhora vossa mãe. É necessário alguém dar apoio a dona Beatriz e certamente não será o menino Diogo a fazê-lo.
O Diogo só pensa nele e no facto de herdar agora todos os títulos do João. Por isso mesmo, temos de ajudar a vossa mãe nesta hora tão difícil. Catarina, e agora o que vai ser do casamento da Bé? Não vos preocupeis com isso agora, menina. Tudo se arranja, a vossa irmã não vai deixar de casar. Mas o João ia ser o padrinho! Será então o Diogo o designado ou um outro nobre. Descansai que ela não fica por casar por falta de padrinho.

Beja, Paço Ducal, 19 de Setembro de 1472
A cerimónia do casamento de dona Isabel de Viseu com o duque de Bragança foi um acontecimento muito discreto, embora toda a alta nobreza estivesse presente na cerimónia. Isabel casava aos treze anos de idade com Fernando II que, após a morte do velho duque, lhe sucederia no título como terceiro duque de Bragança. Embora ainda fosse muito nova, lá alcançara a maioridade para uma mulher contrair matrimónio por palavras de presente, uma vez que completara os doze anos, a idade mínima para o fazer. Dona Isabel tinha-se tornado mulher quatro meses antes com o aparecimento das regras e a partir deste momento o vínculo matrimonial poderia ser consumado». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «A promessa de casamento teve lugar em Setúbal, no dia 22 de Janeiro, mas não existiram festejos significativos, dada a necessidade de pedir ainda ao papa a dispensa de impedimento de parentesco…»

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Setúbal, 22 de Janeiro de 1471
«(…) A promessa de casamento com meu primo João foi assinada quando tinha apenas doze anos de idade. O noivo era pouco mais velho do que eu, porque a diferença de idades existente entre nós era apenas de três anos. Apesar de o achar garboso, ainda não o amava. O meu futuro marido era um jovem bem-parecido, de estatura média, airoso e bem proporcionado. Tinha um rosto comprido, olhos escuros, cabelo castanho, uma boca e um nariz bem-feitos. Começavam já a notar-se uns pelos na cara que mais tarde se viriam a traduzir numa barba cerrada e escura, a qual ele dedicaria muita da sua
atenção. Diria mesmo que o meu futuro marido era muito zeloso quando estava em causa o seu aspecto. No que respeita às suas características morais, o seu preceptor não se acanhava em lhe tecer elogios e dizia que era esperto, subtil, engenhoso, detentor de uma memoria fenomenal, arguto e prudente. Também referia que tinha grande facilidade em se expressor, embora detivesse sempre um semblante grave. Dizem os mais velhos que era um Príncipe Perfeito, mas sei que estas características, visíveis desde muito jovem, iriam traduzir-se, mais tarde, num feitio difícil que seria temido por todos.
A promessa de casamento teve lugar em Setúbal, no dia 22 de Janeiro, mas não existiram festejos significativos, dada a necessidade de pedir ainda ao papa a dispensa de impedimento de parentesco para validar este casamento. Devido à nossa idade, aquilo que deveria ter sido um grande acontecimento foi apenas uma pequena cerimónia. Também o recente falecimento de meu querido pai e o facto de ainda nos encontrarmos de luto pesaram na escolha de se efectuar somente um pequeno evento.

Beja, Paço Ducal, 16 de Agosto de 1472
Aquando da fundação do ducado de Beja, a família veio residir para esta cidade alentejana, onde foi edificado um bonito palácio branco cravejado com azulejos mouriscos. Junto ao Palácio dos Infantes, foi também mandado construir o Convento de Nossa Senhora da Conceição com a sua grande escadaria, onde muitas vezes brinquei com Bé e Manuel Foram tempos muito felizes, dos quais tenho muitas saudades. Mas tudo isso iria mudar, porque tempos conturbados estavam para chegar.
Desde que meu pai partira, a família recolhera-se durante longos meses no Alentejo. Encontrávamo-nos em Beja, naquele tórrido mês de Agosto, quando o meu irmão João morre repentinamente.
João, o irmão que herdara de nosso pai vários títulos, finou-se subitamente. Não houve tempo sequer para que os médicos lhe diagnosticassem o problema e João faleceu alagado em suores e delirando durante várias horas. Morreu jovem, solteiro e, porque não tinha filhos, foi o nosso irmão Diogo que lhe sucedeu, tornando-se um dos mais poderosos nobres do reino, logo a seguir ao duque de Bragança. João era o mais sensato dos meus irmãos mais velhos. Ao contrário de Diogo, era educado, amável e sensível. Foi devido à sua morte prematura que a historia dos duques de Viseu veio a ser escrita com sangue. Nada do que veio a suceder teria certamente acontecido se João não tivesse morrido naquela altura.
Todos nós, à excepção de Diogo, ficámos devastados quando o nosso irmão deu o último suspiro. Diogo nem esperou pela confirmação régia, autoproclamou-se desde logo duque de Viseu e saiu pavoneando-se pelo paço, dando ordens inconvenientes e exigindo desde logo obediência e empenho aos seus servos. Minha mãe apesar de ser uma mulher forte, ficou de rastos com a morte de João». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

domingo, 15 de março de 2020

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «O poderio da casa de Viseu ficou nas mãos de nossa mãe que durante muitos anos a administrou de uma forma admirável. Minha mãe foi tutora de João, nos dois anos seguintes…»

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Setúbal, 18 de Setembro de 1470
«(…) O infante Fernando olhou para o Rei e fez um sorriso triste de quem sabe que nunca irá conhecer os netos e que o seu caminho termina aí. Suspirou, deitou-se e ali se conservou imóvel durante algumas horas. O Rei permaneceu sentado no seu leito, mas Fernando não voltaria a despertar. Quando morreu, deixou vivos três filhos varões, uma vez que Duarte, Dinis, Simão e Catarina não tinham sobrevivido, e duas bonitas filhas já prometidas em casamento.
Dona Beatriz acabara de ficar viúva e fazia-se acompanhar por Afonso, um padre amigo da família, que se encontrava no Paço de Setúbal, na sala grande e falava baixinho com a duquesa. Senhora duquesa, temos de tratar das cerimónias fúnebres do senhor duque. Meu bom Afonso, o meu marido mandou construir o Convento de Nossa Senhora da Conceição para albergar os restos fúnebres da família, porque é nossa vontade permanecermos todos juntos quando partirmos. Contudo, ainda não é possível transladar o seu corpo para Beja.
Se me permitirdes, senhora duquesa, penso que seria prudente sepultar, provisoriamente, o senhor duque aqui perto de Setúbal, no Convento de São Francisco. Sim, dom Afonso, julgo que será a solução mais conveniente. Podereis encarregar-vos dos preparativos? Certamente, senhora duquesa. Irei proceder a todas as diligências necessárias. Não vos deveis preocupar com nada, Senhora. Obrigada, meu bom amigo. Senhora duquesa, tendes de ter muita coragem para enfrentar este novo desafio que Deus vos deu. Mas Ele dar-vos-á força para vencer todas estas provações. Afonso, conheceis-me desde a minha infância e sabeis que não sou mulher para baixar os braços. Tenho filhos para criar e um vasto património para gerir e é isso mesmo que vou fazer de agora em diante. Sei que sois uma mulher forte, determinada e de convicções inabaláveis. Mas, Senhora, estais certamente fragilizada por mais este desgosto, não devereis abusar. Não irei abusar. Mas não posso ficar eternamente aqui sentada a chorar a morte de meu marido. Tenho de me preocupar e dirigir os bens, os cargos e os títulos dos meus filhos. Do que estais a falar, Senhora duquesa? Ireis ver nos próximos meses o que pretendo fazer.
O poderio da casa de Viseu ficou nas mãos de nossa mãe que durante muitos anos a administrou de uma forma admirável. Minha mãe foi tutora de João, nos dois anos seguintes, e depois de Diogo até este completar os vinte anos de idade. Foi a única mulher, por nomeação do papa, que desempenhou o cargo de Governadora da Ordem de Cristo. Também anos mais tarde, já como tutora de Diogo, veio a gerir a Ordem de Santiago. Após a morte de meu pai, minha mãe, contrariando um pouco a política expansionista decretada pelo Rei que pretendia conquistar a cidade de Fez, no norte de Africa, herdou do infante Henrique o gosto pela aventura e enviou caravelas em direcção ao Ocidente. Nunca mulher alguma no reino fora tao destemida. Nunca mulher alguma do reino fora tao empreendedora e zelosa da administração dos seus bens e possessões.

Convento de Dueñas, Valladolid, 2 de Outubro de 1470
Foi na cidade de Dueñas, Valladolid, que nasceu Isabel de Trastámara, a filha primogénita dos Reis Católicos. Estou afalar nela porque os nossos caminhos se cruzaram por mais de uma vez. Esta infanta viria a casar, anos mais tarde, com meu filho, o príncipe Afonso, herdeiro do trono de Portugal, e, depois da morte deste, com meu irmão, Manuel I, que foi Rei de Portugal. À semelhança de qualquer outra princesa com sangue real, o seu destino era o de servir os interesses políticos de seus pais. Isabel de Castela e Fernando de Aragão tentaram colocar os seus filhos nas mais importantes monarquias europeias associando-se ao Sacro Império Romano, a Luís XI de França ou a Henrique VIII de Inglaterra.
Mas também a história de Isabel, esta infanta de Castela e Aragão, está intimamente ligada à minha e da minha família. Mas não quero antecipar-me nos factos, apenas pretendo referir que Isabel foi uma mulher muito amada tanto pelo meu filho como posteriormente pelo meu irmão. Também sei que amava perdidamente Afonso, seu primeiro marido, e casou contrariada pela segunda vez com meu irmão, Manuel. Este casamento seria realizado não só por imposição de seus pais, os Reis Católicos, dado que lhes servia politicamente, como também porque Manuel não aceitava um não como resposta a um desejo que alimentava desde a sua juventude. Logo após a sua subida ao trono, reclamou a mão de Isabel. Para ele aquele casamento tornou-se não só uma prioridade, como também uma obsessão. Mas destes factos dar-vos-ei conhecimento mais tarde. Agora irei falar-vos do meu próprio casamento». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

sexta-feira, 13 de março de 2020

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Segundo ouvi algumas vezes comentar por várias pessoas, meu pai era um fidalgo altivo e com uma ambição desmedida. A recordação que tenho dele é de que se tratava de um homem generoso…»

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Alcochete, Paço Real, 31 de Maio de 1469
«(…) O nascimento do meu irmão mais novo, Manuel, foi para mim uma dádiva de Deus. Apesar dos onze anos de idade que nos separavam, foi como um filho que eu vi nascer e crescer. Uma fatalidade fez com que viesse a ocupar o lugar na História que estava designado ao meu próprio filho, mas não quero antecipar-me na narrativa.
Manuel nasceu em Alcochete, a 31 de Maio do ano da graça de 1469, no dia da festa do Corpo de Deus, quatro anos após o nascimento e desaparecimento da minha irmã Catarina.
Como era o mais novo dos meus irmãos, a sua vida não foi estruturada com vista a uma coroação, mas quis o destino que se tornasse rei. Foi para fugir a um surto de peste que assolou Lisboa que a família se refugiou no Paço Real de Alcochete. Alcochete era uma bonita vila banhada pelo estuário do Tejo. De origem árabe al caxete, que significa o forno, foi também ocupada pelos Romanos. Após a Reconquista Cristã, pertenceu à Ordem de Santiago. Possuía inúmeras salinas onde nidificavam várias espécies de aves aquáticas, o que a tornava numa região muito calma e bela.
A nossa mãe deu à luz, neste ambiente pacato, o seu último filho varão, a quem deu o nome de Manuel (Emanuel), que em hebraico significa Deus connosco e que talvez por isso mesmo acabou por subir ao trono de Portugal.
Muitos dizem que estava predestinado por Deus a assumir um papel notável na História de Portugal de aquém e de além-mar. Mas foram vários os factores que acabaram por torná-lo um candidato ao trono, por isso o apelidaram de O Venturoso. No entanto muita água haveria de correr debaixo da ponte para que isso viesse a acontecer, mas de facto foi o que sucedeu.
Este meu irmão venturoso viria a beneficiar da morte de seis herdeiros mais bem colocados do que ele (na linha directa, Afonso, filho de João; na linha colateral, os infantes João, Diogo, Duarte, Simão e Dinis, todos irmãos mais velhos de Manuel) para sucederem ao trono, bem como da falta de descendência por parte do herdeiro varão e também da morte precoce da minha cunhada, dona Joana, a infanta monja, que não casou apesar de ter tido vários pretendentes e que por isso mesmo não deixou qualquer descendente.

Setúbal, 18 de Setembro de 1470
Um ano depois de Manuel nascer, a família encontrava-se em Setúbal quando meu pai adoeceu repentinamente. Ainda era relativamente jovem e achava-se no auge do seu poder. Estabelecera alianças políticas significativas ao negociar os casamentos das suas duas filhas. Estas alianças permitiriam, a curto prazo, controlar a coroa, uma vez que eu tinha sido prometida ao herdeiro do trono e Isabel ao futuro duque de Bragança. Na sua óptica tudo apontava para que viesse a colher frutos mais tarde, altura em que colocaria um neto no trono de Portugal. Desconhecia, porque era imprevisível quando adoeceu fatalmente, que viria a colocar no trono um filho e três netos (João III Henrique I,reis de Portugal; dona Isabel, rainha de Espanha e imperatriz do Sacro Império Romano-Germânico).
Segundo ouvi algumas vezes comentar por várias pessoas, meu pai era um fidalgo altivo e com uma ambição desmedida. A recordação que tenho dele é de que se tratava de um homem generoso com aqueles que lhe eram fiéis e que os recompensava principescamente. Faleceu no dia 18 de Setembro, rodeado pela sua família e agarrado as mãos do rei que muito amava e respeitava. Afonso, dai-me as vossas mãos! Por favor, Fernando, ficai deitado. A febre é alta e não vos fará bem toda esta inquietação. Quero que me prometeis que cuidareis de Beatriz e das crianças. Sim, Fernando, prometo. Nada lhes faltará. Eu próprio zelarei para que isso aconteça. Meu irmão, meu rei, como vos amo. Que Deus tenha piedade de vós e vos mantenha à frente dos destinos deste reino ainda durante muito tempo. Estai tranquilo, meu irmão. Deus chamou-me a mim primeiro. Eu que tanto queria ver a Leonor a casar-se com o meu adorado sobrinho. Se permanecerdes calmo, ainda vereis os vossos netos nascerem». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

sábado, 22 de fevereiro de 2020

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Durante os anos seguintes, meu pai acumulou ilhas, proventos, rendimentos e, consequentemente, tornou-se o homem mais poderoso do reino»

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Beja, Paço Ducal, 2 de Junho de 1459
«(…) Neste dia desapareceu uma das figuras mais importantes do reino, o Infante Henrique, que partia assim para a sua última viagem. O infante Henrique, o quinto filho de D. João I e de dona Filipa de Lencastre, foi naquela época o nobre mais rico de Portugal. Deu início à campanha da conquista do Norte de África, nomeadamente à tomada de Ceuta, e depois fomentou a era dos Descobrimentos com a descoberta e povoamento de novas terras, como as Ilhas Atlânticas. Apesar de não ter privado com o Infante, uma vez que ainda era criança, testemunhei mais tarde que este homem personificava a coragem, o dinamismo e o espírito empreendedor do nosso povo e do nosso reino. É importante falar na morte do Infante, porque Henrique adoptara e nomeara seu herdeiro o sobrinho, meu pai. O meu progenitor, que após a morte do Navegador recebeu bens, cargos e títulos. Ao receber o título de Duque de Viseu, começou também a dirigir esse grande empreendimento que foi mais tarde denominado de Os Descobrimentos. Durante os anos seguintes, meu pai acumulou ilhas, proventos, rendimentos e, consequentemente, tornou-se o homem mais poderoso do reino. Por isso mesmo era desejável que eu, a sua filha mais velha, fosse prometida ao filho do Rei. Não me quero adiantar na história, mas de facto foi isso que veio a suceder seis anos mais tarde, quando eu ainda era uma criança de oito anos e o João de onze.
Também o casamento de Isabel começou a ser negociado desde cedo. Fora prometida a Fernando, conde de Guimarães e futuro herdeiro do ducado de Bragança. Meu procriador era um homem ambicioso e pretendia alargar o seu poder através de casamentos bem-sucedidos para as suas filhas, estabelecendo desde logo alianças políticas profícuas. Naquela época era assim, as infantas eram sempre um trunfo político a ser bem jogado. A nossa mãe apoiava vigorosamente a ideia, porque assim não teria de ver nenhuma das suas filhas partir para um reino distante, como acontecera tantas vezes com outras filhas da nobreza. Era inevitável que as mães fidalgas vissem sistematicamente partir os seus filhos para que estes cumprissem a sua obrigação, quer para com a família real quer para com o reino. À semelhança do que acontecera com Isabel de Avis, que casara com Afonso V, também eu, filha de duques e infanta portu­guesa, viria a ocupar o trono de Portugal. Não poderia ambicionar mais. Também o facto de a minha irmã Isabel poder vir a casar com um nobre de alta linhagem, e assim permanecer no reino, deixava-me contente, porque de facto ela era a minha companheira de brincadeiras e mais tarde, pela vida fora, foi a minha melhor amiga e confidente.
Durante vários anos brincámos em conjunto e corremos pelos jardins do paço. Aprendemos as primeiras letras juntas. Foi uma infância feliz apesar de termos enfrentado alguns períodos difíceis, nomeadamente o desaparecimento do meu irmão mais velho. Nestas alturas, o paço ficava invariavelmente silencioso e a nossa mãe refugiava-se na Igreja. Mas era desejável que a vida voltasse ao normal; depois de mui­tos dias sombrios, o Sol voltava a nascer e as brincadeiras e correrias faziam-se sentir outra vez nos corredores do palácio. Era uma vida despreocupada e cheia de felicidade». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Descansai um pouco. Eu próprio vou ver como se estão a portar os rapazes e contar-lhes que têm uma bonita irmã»

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Beja, Paço Ducal, 2 de Junho de 1459
«(…) O infante Fernando e a sua comitiva entraram no paço apressadamente, porque a boa nova já se espalhara pelo ducado. Dona Beatriz o tinha dado novamente à luz uma bonita menina. O infante Fernando desmontou do cavalo e subiu a ampla escadaria a correr. Foi directamente para os aposentos da mulher. Dona Beatriz encontrava-se deitada e segurava nos braços a pequena Isabel. Leonor, que já completara um ano de idade, também ali permanecia acompanhada de sua aia. Beatriz, minha doce esposa, já soube que a nossa filha nasceu. Sim, marido, a Isabel nasceu saudável e fez-se logo anunciar a plenos pulmões. E vós, como vos encontrais? Muito cansada, naturalmente! Como é bela esta nossa filha, disse Fernando embevecido, olhando para a criança que durante os anos que se seguiram seria a sua filha predilecta.
Fernando, tenho de dormitar um pouco. Dai um pouco de atenção aos nossos filhos para que não fiquem apoquentados com o nascimento de uma nova irmã. Foi um dia longo e necessito de me restabelecer. Descansai um pouco. Eu próprio vou ver como se estão a portar os rapazes e contar-lhes que têm uma bonita irmã.

Lembro-me de que anos mais tarde ainda ouvi comentários sobre aquele dia, talvez porque se tratou de um parto difícil. Segundo uma das minhas aias, que assistiu aos acontecimentos, as mulheres andavam apressadas de um lado para o outro, transportavam toalhas, jarros com água fervida, panos brancos, alguidares; mas provavelmente é sempre uma azáfama quando está uma criança para nascer. Apesar de a taxa de mortalidade infantil ser elevada naquela época, Isabel superou bem a sua infância. Menos sorte tiveram os meus três irmãos Duarte, Dinis e Simão que morreram, precocemente, pouco depois de virem a este mundo. Como podem compreender, Isabel veio alegrar muito a minha vida, porque os meus dois irmãos mais velhos, o João e o Diogo, nunca tiveram paciência para lidar com os irmãos mais novos, em particular com as raparigas. Sempre achei que era natural dada a diferença de idades existente entre nós, mas enquanto João era carinhoso connosco, Diogo, sempre que podia, gostava de nos irritar tirando-nos um brinquedo ou puxando-nos as vestes. Sempre foi um rebelde e sempre tirou proveito do facto de ser o mais egoísta de todos nós e de nada partilhar com os irmãos.

Sagres, 13 de Novembro de 1460
A família encontrava-se no Paço de Beja, no dia 14 de Novembro do ano de 1460, já o Sol se escondia, quando chegou a triste notícia. Um cavaleiro entrou no pátio do paço em grande velocidade. O animal que o transportava estava exausto e o homem vinha com um aspecto sujo e cansado. Cavalgara durante todo o dia e toda a noite, desde Sagres, para chegar a tempo de relatar a triste notícia a meu pai. Senhor, trago-vos uma triste notícia, disse o homem depois de ter feito uma vénia. Do que falais, dom Augusto?  Senhor, vosso tio, o infante, faleceu ontem de madrugada. Mas o que aconteceu? Não sabia que o tio se encontrava tão doente! Ninguém sabia. O médico foi visto várias vezes no paço, nos últimos dias, mas, como sabeis, a sua presença era constante, uma vez que era amigo do Infante. Mas, dom Augusto, o que sucedeu de facto? — Não sei, senhor, foi uma apoplexia. Disse que não se sentia bem e morreu. Que Deus lhe dê descanso na eternidade. Augusto, mandai preparar o meu cavalo, pois parto para Sagres de imediato». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

sábado, 23 de dezembro de 2017

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Foi somente quando o infante João nasceu, 1455, anos mais tarde, que o Rei concedeu um perdão generalizado a todos aqueles que tinham participado na Batalha…»

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«(…) Deste casamento nasceram vários filhos; seis rapazes de nome João, Diogo, Duarte, Dinis, Simão e Manuel, e três raparigas chamadas Leonor (eu), Isabel e Catarina. Dos nove filhos que meus pais trouxeram a este mundo, nem todos chegaram a idade adulta e dos que o conseguiram nem todos sobreviveram. Mas talvez seja preferível falar-vos um pouco da vida de cada um, com mais ou menos pormenor, porque estão intimamente ligados com a minha própria existência. É provável que a parte mais surpreendente seja o facto de, como já vos disse, ser também irmã de rei, porque uma sucessão de acontecimentos insólitos levaram Manuel ao trono. Contudo, meu pai não era somente um segundo filho relegado para um plano secundário, sem qualquer poder, bens ou honrarias. Teve a sorte de ser perfilhado pelo seu tio, o infante Henrique, o (dito, jdact) Navegador, um dos homens mais poderosos do reino. Quando o infante Henrique faleceu, dois anos depois de eu nascer, meu pai herdou um vasto património.
Quando eu nasci, reinava Afonso V, filho do monarca Duarte I e de dona Leonor de Aragão. Afonso V que era meu tio, pela parte de meu pai, herdou o trono muito jovem. Depois de seu pai, Duarte I, falecer, a Rainha viúva foi regente do reino. Contudo, o povo não gostava de ser governado por uma mulher Aragonesa e a regência foi disputada entre ela e o seu cunhado, o infante Pedro, que era então o duque de Coimbra. O infante Pedro governou durante vários anos até Afonso V assumir o governo do reino. Afonso casou com uma filha deste, a doce e bela Rainha dona Isabel de Avis. Seguiu-se um período conturbado da nossa história, cheio de intrigas, rivalidades e disputas pelo poder que acabou na Batalha de Alfarrobeira e na morte do infante Pedro. A Rainha, que muito amava seu pai, ficou inconsolável e refugiou-se primeiro em Santarém e mais tarde no Castelo de Óbidos.
Foi somente quando o infante João nasceu, 1455, anos mais tarde, que o Rei concedeu um perdão generalizado a todos aqueles que tinham participado na Batalha, reabilitando assim a memória do falecido sogro, o infante Pedro. Pouco tempo depois de o herdeiro nascer a Rainha veio a falecer em consequência de sequelas do parto (as fontes divergem na causa da morte da Rainha, poderá ter sido sequelas do parto ou tuberculose). Uma vez mais uma jovem rainha, que contava apenas com vinte e três anos, perdia a vida no cumprimento do seu dever, o de dar um herdeiro ao reino. O Rei ficou tristíssimo, porque desde a infância amava profundamente Isabel, e durante longos tempos não quis sequer pensar em casar-se novamente. Mas valores e interesses políticos iriam alterar esta situação e o Rei acabaria por casar, anos mais tarde, com a sua sobrinha castelhana, Juana.
Embora Juana fosse filha da infanta Joana (irmã de Afonso V) e de Henrique IV, rei de Castela e Leão, muitas foram as dúvidas que surgiram sobre a sua paternidade. Constava na corte que o rei padecia de doença que o impedia de consumar o coito, pelo que não tinha condições para conceber um herdeiro. Contudo, segundo se diz, o engenho e a necessidade de dar um herdeiro ao reino levou o rei a recorrer aos médicos judeus, que engenhosamente iriam resolver o problema. Na altura, os físicos hebraicos eram os detentores dos conhecimentos e das práticas médicas mais avançadas para a época e, por isso, levaram a cabo um processo de concepção sem cópula, ou seja, a primeira inseminação assistida, que resultou no nascimento desta linda princesinha. Certo é que o rei recebeu esta criatura como sendo sua filha legítima e a infanta foi jurada sua herdeira. Foi amada enquanto o seu pai foi vivo.
Mas a história desta sobrinha castelhana é uma história triste, porque Juana, apesar do amor que seu pai lhe devotava, desde o dia do seu nascimento, sempre representou, como vos irei contar, um embaraço para o Reino de Castela e Aragão, porque nem todos acreditavam nos métodos utilizados pelos médicos e desde muito cedo colocaram em causa a sua linhagem». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A Rainha Perfeitíssima. Paula Veiga. «Nasci em Beja, no chamado palácio dos Infantes, a 2 de Maio do ano da graça de 1458, num dia soalheiro onde a transparência…»

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«Nasci em Beja, no chamado palácio dos Infantes, a 2 de Maio do ano da graça de 1458, num dia soalheiro onde a transparência da atmosfera era tão límpida como as águas que brotam da montanha, e fui coroada rainha de Portugal no ano de 1481. Chamo-me Leonor Lencastre e sou infanta de Viseu. Ao contrário do meu irmão, que foi rei porque o destino assim o quis, eu sempre soube que um dia seria rainha».

Beja, paço ducal. 2 de Maio de 1458
«Dona Beatriz encontrava-se no final de mais uma gravidez. Era a quinta vez que paria, contudo só tinha dois filhos pequenos a correr pelos corredores no paço ducal. Os outros três não tinham sobrevivido aos primeiros meses de vida. João, o primogénito, entrou na antecâmara dos seus aposentos a chorar. O que se passa, meu filho?, perguntou-lhe dona Beatriz com um ar preocupado e estendendo os braços para amparar o filho. O Diogo bateu-me!, disse o filho com um ar muito indignado. E por que te bateu o teu irmão?, questionou a mãe. Porque eu lhe chamei mentiroso, afirmou o pequeno com um ar determinado. E por que razão lhe chamaste mentiroso?, perguntou-lhe novamente dona Beatriz, já sem paciência. Ele diz que quando a cegonha chegar com o novo irmão, a mãe vai deixar de gostar de nós, disse o rapaz já com lágrimas a formarem-se nos olhos. Não, João, isso não vai acontecer. Podes ficar tranquilo, meu filho. Foi o que eu lhe disse. Ele diz que quando aparece um novo bebé cá em casa, a mãe dedica-lhe muita atenção, como aconteceu com os outros bebés.
O teu irmão é um tonto. Claro que aos recém-nascidos é necessário dar muita atenção, porque são criaturas indefesas, mas não é por isso que eu não dou mimos aos meus outros filhos. Dito isto, Beatriz agarrou o filho e deu-lhe um abraço. João deixou-se ficar por alguns momentos envolvido por aquele gesto tão meigo e reconfortante. Depois deu um pulo e disse: o Diogo é mau e eu não quero brincar mais com ele. Nisto, Beatriz tem uma forte pontada na zona dos rins e percebe que a hora tão ansiada estava a chegar. Chama a sua aia e diz-lhe para levar os rapazes para o jardim. Aí poderiam dar um passeio e entreter-se a procurar a cegonha, que não tardaria a chegar e a trazer uma nova criança para o paço. Foi a muito custo que dona Beatriz se recolheu na sua câmara. Passadas algumas horas, Beatriz dava à luz uma linda menina. Essa menina seria a futura soberana do reino.
Desde o meu nascimento que meu pai cismou que seria prometida ao herdeiro do trono e é essa a historia que vos quero contar. Provenho da mais alta aristocracia portuguesa e sou a sexta filha do duque de Viseu, o infante Fernando, e de sua mulher, dona Beatriz. Para vos retratar a conjuntura política da época em que vivi, temos de recuar um pouco no tempo. Meu pai, como vos referi, era duque de Viseu. Sendo irmão de rei (Afonso V) e filho de rei (Duarte I), era uma figura de destaque no reino. Por se tratar do segundo filho, não estava à partida destinado a assumir o trono. Esse papel caberia ao seu irmão primogénito, Afonso V. Casou com minha mãe, Beatriz, que era sua prima direita, uma vez que era filha do infante João (o quarto filho de João I) e de dona Isabel de Barcelos (filha de Afonso, duque de Bragança). O casamento foi celebrado no Paço Real de Alcáçovas, em Viana do Alentejo, no ano de 1447.
Após o casamento, meus pais foram viver para o ducado de Beja e aí edificaram o paço ducal, junto ao Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição. Este paço ou Palácio dos Infantes, como lhe chamavam comunicava directamente com o convento através de um passadiço que nos facilitava imenso a vida quando nos dirigíamos para o serviço religioso, sempre que o frio apertava ou quando a noite já caíra. Da casa onde eu nasci só resta o claustro, a igreja e a sala do capítulo». In Paula Veiga, A Rainha Perfeitíssima, 2017, Edições Saída de Emergência, 2016/2017, ISBN 978-989-773-014-6.

Cortesia de ESdeEmergência/JDACT