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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Embora já passasse dos cinquenta anos, tinha uma filha que só tinha dez. Era encantadora: os seus longos cabelos, a sua silhueta e as suas formas graciosas, tudo era de uma beleza perfeita»

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História do ministro do Centro Takafuji
«(…) A mansão de Iyamasu foi transformada em templo e é hoje o templo de Kanju -ji, E em frente, no sopé dos montes Higashi-yama, a esposa de Takafuji mandou construir outro templo, o Oyakedera. Segundo parece, o imperador Daigo gostava muito do local onde o avô tinha vivido, porque mandou construir o seu túmulo nas proximidades. Pensando bem, se o acaso de um abrigo contra a tempestade durante uma caçada provocou tantos acontecimentos felizes, é porque tudo isso já tinha sido predeterminado pelas existências anteriores. E assim dizem que tudo isto foi contado.

Como a senhora Roku no Miya foi abandonada pelo marido
Já são coisas do passado. No bairro conhecido por Roku no Miya vivia o assessor principal, fulano de tal, do Departamento da Guerra. Filho de um príncipe há muito esquecido, era uma personagem muito requintada, de modos antigos, que não procurava o convívio em sociedade e não saía da residência de seu pai, o antigo príncipe. Todavia, da magnífica mansão já só existia o pavilhão de leste, quase em ruínas, no vasto jardim de altas e frondosas ramagens. Era lá que ele vivia. Embora já passasse dos cinquenta anos, tinha uma filha que só tinha dez. Era encantadora: os seus longos cabelos, a sua silhueta e as suas formas graciosas, tudo era de uma beleza perfeita. De maneiras nobres, tinha um coração adorável. A sua beleza era tão deslumbrante que ninguém estranharia se viesse a casar com um jovem da classe mais alta. Sim, era muito bela, mas, como ninguém no mundo sabia, ninguém ia pedi-la em casamento. E o pai, com aquela discrição de outros tempos, pensava: seja como for, não me compete a mim ir à procura de um pretendente; se aparecer algum, dou-lha. Por vezes, pensava: Ah! Se eu pudesse fazê-la entrar na corte como esposa de um príncipe ou do mperador!. Mas como era muito pobre, nada disso era possível. O pai e a mãe estavam tão preocupados com a filha que a obrigavam a dormir à noite no meio deles, e davam-lhe toda a espécie de ensinamentos: não devia confiar na ama, não tinha irmãos com quem pudesse contar... Assim, indescritivelmente atormentados com o futuro dela, os pais já só podiam lamentar-se e chorar de desespero.
Passado pouco tempo, o pai deixou este mundo efémero, e, pouco depois, a mãe seguiu-lhe os passos. Que sofrimento deve ter sido para a menina! Chorava de tristeza, inconsolável. Não há palavra que possa descrever a sua dor. Os dias e as noites foram passando, sem ela notar, até que largou os trajos de luto. Como os pais não se tinham cansado de lhe dizer que a ama não era digna de confiança, não pôde criar intimidade com ela. Não podia fazer nada, e os anos iam desaparecendo, e com eles o esplêndido mobiliário e a baixela esplêndida que herdara dos pais, e que a ama vendeu ao desbarato. E a menina viu-se na maior miséria e a sua vida passou a ser só tristeza. Um dia, a ama disse-lhe: o meu irmão que é monge recebeu a visita do filho do ex-governador da província de tal no que o encarregou de interceder em seu favor. É um rapaz de cerca de vinte anos, muito belo, distinto e sincero. O pai está actualmente na administração provincial, mas era filho de um nobre da classe alta, portanto o rapaz é pessoa de boas famílias. Ouviu falar da vossa beleza e propõe-vos casamento. Deixai-o vir visitar-vos, não é homem de que devais envergonhar-vos. Vale mais do que esta triste vida! Ao ouvir tais palavras, menina sacudiu os longos cabelos que lhe caíram em desordem pelo rosto, misturando-se com os soluços. Depois desse dia, a ama foi trazendo cartas de amor escritas por esse homem, mas a menina nem sequer se dignava olhar para elas. Então, a ama disse a uma jovem dama de companhia que havia lá em casa para escrever uma resposta como se fosse a patroa, e mandou-a entregar. Essa manobra repetiu-se por várias vezes, até que chegou o dia em que o homem decidiu ir lá a casa. A menina, pensando que não tinha outra opção, aceitou o pedido de casamento. Era tão bela que ele não pôde deixar de a amar perdidamente. Aliás, nascido igualmente numa família nobre, a sua figura e o seu carácter nada tinham de vulgar». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Como não tinham dama de companhia, o que não era decente, o rapaz pediu à mãe da jovem para os acompanhar. Esta, mulher de uns quarenta anos, de uma beleza digna e serena…»

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História do ministro do Centro Takafuji
«(…) Era em meados de Fevereiro, diante da casa, as ameixoeiras em flor semeavam as suas pétalas aqui e ali; nos ramos mais altos, o rouxinol cantava a sua pungente melodia e, no riacho do jardim, as pétalas deslizavam, levadas pela água. Ao ver este espectáculo, o jovem sentiu-se profundamente emocionado. Sem desmontar, como da primeira vez, transpôs o portal e só depois é que desmontou. Chamou pelo dono da casa, que apareceu sem tardar, satisfeito com aquela visita inesperada e desdobrando-se em atenções para o fazer entrar. A menina está em casa?, perguntou logo o rapaz. Como a resposta era sim, todo contente, entrou na sala que já conhecia. Ela estava por detrás da tapeçaria, meio escondida. Ele aproximou-se: a rapariga era agora uma mulher tão bela que ele quase não a reconhecia. Haverá neste mundo um ser mais maravilhoso? Não será uma fada?, pensou. E, estupefacto, viu, sentada junto dela, uma adorável menina, de uns cinco ou seis anos, de um encanto indescritível. Quem é essa menina?, perguntou. Ela baixou a cabeça sem responder e ele pensou que estava a chorar. Ao ver o seu embaraço, não insistiu e chamou o pai dela, que veio prosternar-se com todo o respeito diante dele, de mãos espalmadas sobre o soalho. Repetiu-lhe a pergunta e o homem explicou: Noutros tempos, honrastes-nos com a vossa visita e desde então a minha filha nunca se aproximou de nenhum homem. Antes disso, era uma criança, e é claro que não conheceu ninguém. Foi depois de vós terdes vindo que ela ficou grávida e esta criança nasceu. Estas palavras perturbaram-no. Sobre o travesseiro da jovem, cuidadosamente pousada, descobriu a sua espada. Que fortes eram os laços que tecemos entre nós!, pensou, extremamente comovido. Olhou para a menina, era o retrato vivo do pai, não havia qualquer dúvida. Ficou para passar a noite. De madrugada, decidiu voltar para casa, mas, antes de partir, anunciou: Venho buscar-vos em breve. Como tinha curiosidade em saber quem era o dono daquela casa, informou-se e disseram-lhe que era o chefe do distrito e se chamava Miyaji no Iyamasu. Ficou muito surpreendido: Embora seja filha de um homem de baixa condição, se eu a amo é porque o destino assim o quis. No dia seguinte, apareceu num carro de bois com tecto e cortinas de palha entrançada, escoltado por dois escudeiros. O carro avançou até à galeria. A sua esposa e a menina subiram para o carro. Como não tinham dama de companhia, o que não era decente, o rapaz pediu à mãe da jovem para os acompanhar. Esta, mulher de uns quarenta anos, de uma beleza digna e serena, parecia a esposa de um Administrador de Província. Enfiou os longos cabelos por baixo de uma túnica amarelo-clara engomada, e, de joelhos, subiu para o carro. Quando o quarto na residência do jovem senhor ficou pronto para as receber, desceram do carro. Depois disso, ele nunca mais olhou para outra mulher, e os dois esposos viveram muito felizes. Passado pouco tempo, nasceram-lhes mais dois filhos, quase um a seguir ao outro.
O senhor Takafuji era um homem notável, fez uma carreira brilhante, chegando a ocupar o cargo de Grande Conselheiro. A filha casou com o imperador Uda, a quem deu sem tardar o príncipe herdeiro que reinou com o nome de Daigo. Quanto aos dois filhos, o mais velho, Sadakuni, veio a ser Grande Conselheiro e recebeu o título de General da Guarda Imperial da Direita. Também era conhecido pelo nome de General de Izumi. O mais novo, Sadakata, veio a ser Ministro da Esquerda e era conhecido por Ministro da Esquerda de Sanjo. O avô, o Chefe de Distrito, passou para o quarto escalão e foi nomeado Administrador-geral do Departamento das Reparações. E quando o imperador Daigo subiu ao trono, Takafuji, seu avô, então Grande Conselheiro, foi promovido a Ministro do Centro». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

domingo, 9 de março de 2014

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Que bela era! Pousou a bandeja de pé alto no chão, colocou os pauzinhos no seu lugar, empurrou-a para junto do hóspede, e desapareceu. Vista de costas, a cascata longa e ondulante dos cabelos parecia chegar-lhe à cova dos joelhos»

jdact e wikipedia

História do ministro do Centro Takafuji
«(…) O rapaz continuou deitado durante algum tempo, a descansar. Depois, a porta de correr que dava para o quarto contíguo abriu-se e ele viu entrar uma rapariga de uns treze ou catorze anos, envergando uma túnica cor de malva por cima de umas calças largas, de um vermelho-vivo. Numa das mãos trazia um leque que lhe cobria o rosto, e na outra, uma bandeja de pé alto. Hesitante e tímida, parou longe dele. Aproxima-te, disse-lhe o rapaz. Ela aproximou-se devagar, sobre os joelhos. Com aqueles traços delicados e os cabelos separados sobre a testa a caírem-lhe deliciosamente sobre os ombros, ninguém diria que era filha de um camponês. Que bela era! Pousou a bandeja de pé alto no chão, colocou os pauzinhos no seu lugar, empurrou-a para junto do hóspede, e desapareceu. Vista de costas, a cascata longa e ondulante dos cabelos parecia chegar-lhe à cova dos joelhos. Uns instantes depois, estava de regresso, trazendo vários pratos com comida. Era ainda uma criança; não sabia servir bem, limitava-se a colocar os pratos no chão e recuava logo, sempre de joelhos.
Tinha trazido arroz estaladiço, nabos pequenos, búzios, carne seca e outras coisas mais. Depois daquele longo dia de caça, o rapaz estava esfomeado e devorou tudo sem pensar em queixar-se daquela ementa de gente pobre. Serviram-lhe saké, que também não recusou, e, como a noite já ia alta, preparou-se para dormir. Mas a rapariga que acabava de o servir não lhe saía do pensamento. Não é lá muito tranquilizador dormir sozinho. Não querereis vir fazer-me companhia?, chamou ele baixinho, e ela apareceu. Vem cá!, disse-lhe ele, atraindo-a para os seus braços. Ao vê-la abraçada a si, achou-a ainda mais bela e mais encantadora. Ficou perturbado; com toda a sinceridade do seu coração de rapaz, prometeu-lhe que nunca deixaria de a amar, e a longa noite de Outono foi ainda mais longa e mais terna. Não dormiu um só instante, todo entregue ao seu amor. A rapariga revelava tal nobreza de modos que, maravilhado, Takafuji amou-a loucamente até de manhã. Aos primeiros alvores da madrugada, levantou-se. Tenho de me ir embora, disse-lhe, mas fica com isto, para te lembrares de mim, e deu-lhe a espada que levava à cintura. Quando os teus pais, que ignoram o nosso amor, quiserem casar-te, não aceites ser mulher de outro!, acrescentou ele, deixando-a com grande mágoa.
Ainda não tinha percorrido a cavalo mais de quatro ou cinco chô (cerca de quinhentos metros), quando os do seu séquito surgiram de todos os lados, intrigados por o encontrarem ali e, ao mesmo tempo, aliviados. Regressaram juntos à capital. O Guarda seu pai, que sabia que o jovem senhor partira na véspera para a caça e não o vira chegar, passara a noite a pensar no que lhe poderia ter acontecido. Louco de angústia, aos primeiros alvores da madrugada, enviara alguns homens à sua procura, e agora via-o regressar com eles! Deu largas à sua alegria, mas depois repreendeu o filho: Esse entusiasmo pela falcoaria é coisa da tua idade. Quando eu era novo, também gostava de andar pelo mato com os meus falcões, e o meu falecido pai deixava. Já fiz o que tu fizeste, mas, depois do que acaba de acontecer, fico muito inquieto. A partir de hoje, enquanto não tiveres juízo, proíbo-te de ir à caça! E foi assim que o rapaz teve de desistir da caça. Os escudeiros que o tinham acompanhado naquele dia não tinham visto a casa. Nenhum deles a conhecia. O palafreneiro era o único que sabia onde ela ficava, mas tinha sido despedido e voltara para o campo. Ninguém podia ajudá-lo e o jovem senhor morria de saudades da rapariga e não tinha meio de lhe fazer chegar uma mensagem. Os dias e os meses iam passando e o seu amor ia aumentando; estava inconsolável. E assim passaram quatro ou cinco anos.
Um dia, o Guarda, seu pai, morreu ainda jovem. Takafuji ficou a cargo de uns nobres que eram seus tios e foi viver com eles. Um desses tios, o ministro da Direita Yoshifusa, reparou no seu belo porte e na nobreza do seu carácter, percebeu que ele viria a ser um homem de grande valor e tratou-o com mil e um cuidados; todavia, após a morte do pai, o rapaz andava sempre melancólico e só pensava na tal mulher, e o seu coração trasbordava de amor por ela. Passou mais um ano, e ele continuava a não querer casar-se. Ora, um dia, ouviu dizer que o escudeiro que o tinha acompanhado regressara do campo. Mandou-o chamar e, como se fosse pedir-lhe para o pentear, fez-lhe sinal para se aproximar: Lembras-te daquela casa onde nos abrigámos da chuva, naquele dia em que fomos à caça?, perguntou-lhe. Claro que me lembro!, respondeu o escudeiro, para grande alegria do jovem senhor. Pois bem, gostava de 1á ir hoje. Diremos que vamos à caça. Mas não te esqueças do que eu quero!, disse-lhe ele. Levou com eles um fiel escudeiro que lhe levava a espada, e cavalgaram em direcção aos cumes do monte Amida. Quando chegaram ao local, estava o Sol a pôr-se». ». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

sábado, 8 de março de 2014

Retratos Vivos. Histórias de Amor de Outros Tempos. Pascal Quignard. «Os escudeiros não o reconheceram. O seu cão não o reconheceu. A sua ama não o reconheceu. Os irmãos não o reconheceram. As irmãs não o reconheceram. A sua antiga esposa, que tinha voltado a casar, não o reconheceu»

jdact e cortesia de wikipedia

[…]
« Dor indescritível que se sente na presença de pais demasiado idosos, ou que sofrem da doença de Alzheimer, ou que saem de uma anestesia geral ou de um estado de coma, não nos reconhecem, ou só nos reconhecem por alguns instantes, ou se enganam, vendo em nós outros vivos, ou nos confundem com mortos que nós conhecemos e já morreram há muito tempo. A vida de Santo Aleixo é a seguinte. No ano 364, Eufemiano, então prefeito de Roma, estava casado com uma rica patrícia chamada Aglaé. Tiveram vários filhas e um único filho varão, a quem chamaram Aleixo. No dia do seu casamento, enquanto a jovem esposa tirava o alfinete da sua túnica e revelava ao marido as suas partes íntimas intactas, Aleixo apagou a candeia, cobriu bruscamente o corpo da mulher, deu-lhe o seu anel de ouro e deixou-a. Foi até à praia e embarcou para Laodiceia. Daí, partiu para Edessa, na Síria, onde se encontrava o único retrato que teria sido conservado de Jesus de Nazaré: não tinha sido feito por mão humana, mas o seu rosto dolorido ficara gravado ao enxugar-se num pano que pertencera a uma prostituta da cidade de Jerusalém chamada Verónica. Então, Aleixo beijou o pano sagrado, logo a seguir vendeu todas as suas roupas e, completamente nu, sentou-se e pôs-se a mendigar debaixo do pórtico da Basílica da Virgem Maria de Edessa.
Ficou debaixo desse pórtico durante dezassete anos. Um dia, porém, sentiu vontade de voltar para casa; com o dinheiro das esmolas comprou uns calções e uma écharpe; saiu de Edessa; meteu-se num barco; desembarcou em Óstia e encaminhou-se a pé para Roma; empurrou a porta do palácio de seu pai. Os escudeiros não o reconheceram. O seu cão não o reconheceu. A sua ama não o reconheceu. Os irmãos não o reconheceram. As irmãs não o reconheceram. A sua antiga esposa, que tinha voltado a casar, não o reconheceu. Nenhum dos seus amigos o reconheceu, mas o intendente do palácio, que era um cristão muito piedoso, tomou-o sob a sua protecção e todos os dias lhe dava pão e água. Aleixo agradeceu-lhe e sentou-se, nu, debaixo da escada. Durante dezassete anos, viveu assim, desconhecido, na casa de seu pai. Roía as migalhas dos banquetes, as espinhas dos peixes, a pele branca dos ouriços das castanhas que há mesmo por baixo dos espinhos, ou as cascas duras das nozes. Mordiscava os ossos das carnes, os caroços dos frutos, as cascas dos melões, as conchas das ostras e dos mexilhões. Era um caixote do lixo. Um dia, sentindo a morte chegar, Aleixo estendeu a mão debaixo da escada e pediu ao intendente que lhe desse um estilete e um pedaço de pele de vitelo usado, para escrever. Escreveu o relato da sua vida e morreu. Ninguém se apercebeu, mas os imperadores Arcádio e Honório e o papa Inocêncio foram avisados em sonhos da sua morte.
Um pajem imperial acorreu, mandou abrir as portas da casa do prefeito de Roma, pegou num archote e, debaixo da escada, inclinou-se para o santo, já rígido, mas que ainda tinha na mão a sua vida escrita. A sua vida secreta foi lida em voz alta, diante dos seus. Em 1648, em Lunéville, na Lorena, Georges de La Tour pintou para Monsieur de la Fierté o momento em que o pajem imperial descobriu o corpo de Santo Aleixo, debaixo da escada de seu pai. Então, Eufemiano, Aglaé, a primeira esposa de Aleixo, as irmãs, os irmãos, os sobrinhos, os escudeiros e os amigos deitaram-se lado a lado nas lajes do pavimento que rodeava a escada do palácio paterno, e uns adoraram o filho, outros, o irmão, o tio, o senhor, o primeiro marido, o amigo morto. No 16º dia das calendas do mês de Agosto do ano 398, o corpo de Santo Aleixo foi transportado pelos principais cidadãos de Roma e pelo pai, o prefeito da cidade, numa padiola de ouro, ornada de rubis e lápis-lazúli, para o templo de São Bonifácio, em Roma». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «No entanto, a pouco e pouco, o dia foi dando lugar às trevas. O nobre Takafuji começou a sentir-se perdido. Que hei-de fazer?, pensou, angustiado. Nesse instante, um homem de casaco de caça e calças largas azul-escuras…»

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História do ministro do Centro Takafuji
«Já são coisas do passado. Havia um ministro Fulano de Tal da Direita, conhecido por ministro do Kan-in, que se chamava Fulano de Tal. Gozava neste mundo de uma fama ilustre e possuía uma sabedoria admirável. Todavia, morreu ainda jovem, deixando muitos filhos. O filho mais velho, Nagara, era Segundo-Conselheiro; o segundo filho, Yoshifusa, era Ministro-Presidente do Grande Conselho; o terceiro filho, Yoshimi, era Ministro da Direita. O quarto, Yoshikado, era Guarda. Nesse tempo, mesmo os filhos das famílias nobres começavam a sua carreira na administração pelo modesto cargo de Guarda. Ora, o Guarda Yoshikado teve um filho chamado Takafuji que, desde a mais tenra infância, começou a interessar-se pela falcoaria, interesse que deve ter-lhe sido transmitido por seu pai, grande apaixonado por essa arte.
Portanto, um dia, tinha ele quinze ou dezasseis anos, estava-se por volta do mês de Setembro, o jovem senhor partiu para a caça. Calcorreava as encostas da montanha, para os lados de Minami-Yamashina, quando, de repente, à hora do Macaco (a hora chinesa corresponde a duas das nossas, portanto, entre as 15 e as 17 horas), nuvens escuras toldaram o céu. Começou a chover, levantou-se um vento violento, os relâmpagos ziguezaguearam e o trovão ecoou com grande estrondo. As pessoas do séquito do nobre Takafuji, que só pensavam em abrigar-se, fugiram em debandada, sem olharem sequer para os lados. No sopé das montanhas do Oeste, o jovem senhor viu uma casa e esporeou o cavalo. A seu lado, só ficara um escudeiro. Ao chegar à tal casa, viu que estava rodeada por uma paliçada de cascas de cipreste onde havia um pequeno portal chinês. Transpô-lo a galope. O pavilhão principal, revestido de ripas de madeira, prolongava-se numa das extremidades para uma estreita galeria construída sobre quatro pilares. Parou em frente do pavilhão e desmontou. Depois de ter abrigado o cavalo debaixo do alpendre da galeria, entregou as rédeas ao escudeiro e sentou-se no chão. O vento e a chuva eram cada vez mais fortes, a tempestade esbravejava, lançando relâmpagos e trovões. Era de meter medo, e ele não podia sequer pensar em voltar para casa; por isso, ficou sentado, à espera.
No entanto, a pouco e pouco, o dia foi dando lugar às trevas. O nobre Takafuji começou a sentir-se perdido. Que hei-de fazer?, pensou, angustiado. Nesse instante, um homem de casaco de caça e calças largas azul-escuras, com cerca de quarenta anos, saiu de casa e aproximou-se dele. A quem tenho a honra?, perguntou. Andava à caça, respondeu o rapaz, e fui surpreendido pela tempestade. Como não sabia para onde havia de ir, deixei-me levar pelo cavalo, e, quando vi esta casa, foi com alegria que me dirigi para cá. Mas, agora, que hei-de fazer? Por favor, ficai aqui até a chuva parar, disse-lhe o homem, dirigindo-se para o escudeiro, que ficara um tanto afastado. Quem é este?, perguntou-lhe. Ao ouvir a resposta do escudeiro, o homem, muito admirado, desapareceu no interior da casa. Só teve tempo para fazer alguns arrumos e acender um candeeiro, e regressou, declarando: A minha casa não passa de uma pobre choupana, mas, se assim o desejardes, entrai e aguardai que a tempestade passe. As vossas roupas estão encharcadas. Vou pô-las a secar junto do fogo. Também haverá feno para os vossos cavalos. Vou abrigá-los nas traseiras. Embora fosse uma casa humilde, estava arranjada com um gosto que agradava à vista. O tecto estava forrado com finas cascas de ciprestes entrelaçadas. Na sala, biombos de bambu entrançado e, no chão, três ou quatro bonitas esteiras de debrum coreano. Sentindo-se cansado, o jovem despiu-se e deitou-se confortavelmente. Pouco depois, o dono da casa foi ter com ele. Vou pôr a secar o vosso casaco de caça e as vossas calças de cordões, anunciou ele, levando a roupa». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

Retratos Vivos. Histórias de Amor de Outros Tempos. Pascal Quignard. «… num tom mais japonês: como é que o Agora se agita com a visitação, a condensação, a capitalização do Outrora no fundo de si mesmo? Ao reconhecimento excessivo e impossível…»

jdact e cortesia de wikipedia

[…]
«Então, o povo perguntou à criança quem era o seu pai, mas a criança, sempre em latim, disse que se lembrava do rosto do homem que tinha estado em cima da mãe no instante em que tinha sido concebido, mas que não poderia saber como se chamava. Porquê? Porque o que ele murmurava, nesse instante, ao ouvido da mãe, não era propriamente o seu nome. Em suma, tudo o que a criança podia garantir é que o seu pai não era São Brício. Ora, o povo, descontente com a resposta dada pelo recém-nascido, continuava a querer apedrejar o bispo. Decidiram fazer um ordálio. O ferreiro colocou brasas ardentes nas mãos de São Brício. A multidão pediu-lhe para levar as brasas incandescentes até ao túmulo de São Martinho. São Brício atravessou o Loire. A multidão seguia-o, gritando. Ora, depois de ele ter pousado as brasas ardentes sobre o túmulo de São Martinho, as palmas das mãos que as tinham levado estavam intactas. Então, a populaça voltou-se contra a mãe da criança; desnudaram-lhe os seios e um jovem cortou-lhos por ser uma pecadora. Depois disso, o corpo da mulher ficou coberto de sangue e de leite porque continuava a amamentar o filho de um mês, e a freira foi apedrejada pela multidão, por ter mentido.

A criança de um mês conhece a nudez e o rosto do progenitor, embora ignore a sua identidade nominal. Assistiu, manifestamente inclinado para a frente, à cena primitiva. Jacques de Voragine foi buscar esta história a São Gregório de Tours.

A sétima história do XXXII rolo do Konjaku poderia muito bem intitular-se Retrato vivo e silêncio absoluto. Um dia, um caçador de quinze anos vai à caça com o seu falcão e é surpreendido por uma tempestade na montanha. Vê-se sozinho com o seu moço de estrebaria no meio da borrasca e dos relâmpagos. Um homem dá-lhe abrigo numa misteriosa casa de cipreste. A filha do dono da casa, uma jovem de treze anos, dá-lhe de comer, sempre ajoelhada, e, durante a noite, o caçador tem relações íntimas com ela. A jovem não pronuncia uma palavra. De madrugada, ele levanta-se, dá-lhe a sua espada de ferro, despede-se, vai-se embora, chama o moço e volta para o palácio de seu pai. Passam cinco anos.
Não há dia em que o caçador não pense na jovem, mas o moço foi despedido pelo pai ao regressarem da tormentosa caçada, e ele não sabe o caminho que o levaria até ela. Depois de o pai morrer, o caçador manda procurar o antigo moço de estrebaria. Voltam à montanha. Era o primeiro dia de Primavera. Encontram a misteriosa casa de cipreste. O caçador volta a ver a jovem. Está ajoelhada, mas, a seu lado, há uma menina de cinco anos, tão parecida com ele como duas gotas de água. Todavia, ele não se reconhece nela, e chega mesmo a perguntar quem é. O dono da casa ergue para ele os olhos e, em voz baixa, docemente, diz que é a filha que ele teve da sua filha. Depois, o dono da casa retira-se e o caçador fica com a criança e a jovem mãe; aproxima-se do leito; vê a espada de ferro pousada ao lado da almofada de madeira. Sentado no leito, antes de satisfazer no corpo da jovem o desejo que há tanto tempo sente, examina o rosto da menina: é o retrato vivo de quem ele foi outrora. Por fim, deita-se; durante a noite, volta a ter relações com a jovem mãe, e sente-se deliciado. A jovem continuou a não descerrar os lábios. Na manhã seguinte, o caçador regressa à capital sem nada dizer, e envia um carro de bois para a ir buscar. A partir desse dia, o caçador nunca mais olhou para outra mulher. Mal a noite cai, à luz dos astros, das candeias, ou dos relâmpagos, procuta na face da esposa, enquanto a possui, todos os seus rostos, que vão nascer nos rostos dos filhos que ele expele com a extremidade do seu pincel (penicillum).
Como é que o passado reconhece o presente? Como é que o presente reconhece o passado? Como é que o reproduzido reconhece o reprodutor? Como é que a mulher reconhece o homem?
Ou, exprimindo-me num tom mais japonês: como é que o Agora se agita com a visitação, a condensação, a capitalização do Outrora no fundo de si mesmo? Ao reconhecimento excessivo e impossível (do fecundante pelo fecundado) oponho três formas de não reconhecimento: o desconhecimento, o reconhecimento insuficiente ou difícil, o reconhecimento excluído». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

quarta-feira, 6 de março de 2013

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Vou dizer-vos como é que a mulher de Agripa faz dos seus filhos retratos vivos de Agripa. Só admito passageiros quando o porão já está cheio, ‘nunquam nisi navi plena tollo vectorem’»

jdact

Retratos vivos
«O maior mistério que impressionou os primeiros homens que leram a semelhança nos rostos foi a parecença entre o pai e o filho, parecença que transitou pelo outro sexo, o sexo outro, a mãe, admitindo que não associassem o coito e o parto. Como é possível que a marca fique de tal modo impressa na mulher que dela saia a figura do outro homem e o sexo que ela não tem?
Ora, a primeira resposta encontrada nos mitos antigos nunca menciona uma inerência eventual entre o coito e o parto. A primeira resposta foi esta: porque a mãe ama tanto o rosto do homem desejado que sonha com ele, a ponto de a aparência do homem a visitar na ausência do homem. É uma das mais antigas definições do amor: um desejo que deseja tão intensamente que sonha com um rosto, na ausência desse rosto.
Que, na ausência desse rosto, gera uma epifania. O abraço ventral demorado entre o pai e a mãe cria o fantasma do filho.

Macróbio conta o seguinte. Na presença de Júlia, a Velha, princesa romana de quem não se podia suspeitar que não amasse os homens e não procurasse, na corte imperial, todas as oportunidades possíveis para se aproximar deles e os excitar, houve quem se admirasse com a incrível parecença que os seus filhos tinham com o seu marido. Júlia respondeu:
  • Vou dizer-vos como é que a mulher de Agripa faz dos seus filhos retratos vivos de Agripa. Só admito passageiros quando o porão já está cheio, nunquam nisi navi plena tollo vectorem.
E regresso ao aspecto que pretendo analisar: nas narrações mais antigas, o reconhecimento ocorre de uma forma anormal. Há casos em que as pessoas que se amam não se reconhecem. No santuário de Inari, Shigekata não reconhece a esposa e faz tudo para a enganar com ela mesma. Takafuji, filho do Guarda Imperial Yoshikado, neto do Ministro da Direita Fuyutsugui, também não reconhece aquela a quem chama, porém, o seu retrato vivo.
Noutros casos, há um reconhecimento excessivo de quem nunca se viu antes. É o amor à primeira vista. É também o reconhecimento excessivo entre filho e pai. É o reconhecimento mais frequente e desmente a máxima medieval cuja veracidade foi universal até aos últimos anos:
  • Mater certissima, pater sernper incertus.
In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

terça-feira, 5 de março de 2013

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «Devido ao patronímico que herda, a sua lenda é a lenda dos seus ascendentes. No caso dos reis de França, só o número é que diverge. Ou no caso dos papas que, em Roma, reinam sobre a Igreja romana»



Cortesia de wikipedia e jdact

Retratos vivos
«O que já ocorreu é sempre esse desaparecimento impossível de conhecer, esse mundo engolido nos confins da vulva daquelas que nos fizeram crescer, e que regressa, com o seu silêncio característico, chamo silêncio à linguagem-que-já-não-é-órgão-de-nada, aquando das depressões nervosas, acelerando o ritmo cardíaco, angustiando a garganta, começando por fascinar os olhos e só depois a visão, sonhando. Dominando, animando, transportando, enlaçando e, por fim, matando os amantes. O que acontece é que a voluptuosidade feminina dispõe a mulher para o transe porque a sua aparência quando se entrega ao prazer reflecte a imagem mais próxima desse transe. Sicut cadaver.
Um corpo nu de mulher afogada. Um corpo molhado de mulher atirada pelas ondas para a margem. No Japão antigo, morrer, lançar-se à água, morrer resplandecendo, chorar, parecem associados. Não é que o prazer sexual se assemelhe à infelicidade. No entanto, não se pode contestar que a voluptuosidade é extática. O espírito abandona um corpo deitado. A voluptuosidade é, em si, uma viagem xamânica, indizível, indescritível.
Perder as forças, perder o sangue, derramar-se debaixo de si próprio, cair de costas, gemer. Na língua japonesa, os gritos do prazer são denominados choros e mortes. E, de facto, será possível distinguir chorar e molhar? Morrer é não só o que remete para o estertor da agonia como o que evoca a perda final das forças. Não a petite mort da língua francesa, mas a morte mais viva do que a morte. A morte intensa, lasciva. Explodir em soluços é a expressão que, no extremo oriente do mundo, descreve a alegria das mulheres. O perigo, mais ainda do que a vergonha, impõe a dissimulação absoluta a essa viagem para fora do mundo dos homens, de tal forma que mesmo a história que a conta não deveria ser sabida.
O romance francês do século XIII intitulado A Castelã de Vergy é a obra-prima que descreve esse mundo-no-fim-do-mundo. Essa viagem ao extremo nascimento do mundo é dupla: passa do reconhecimento excessivo das mulheres e dos homens que nunca vimos para o não reconhecimento dos traços daqueles que mais amamos no mundo.

Em francês antigo, chamava-se monte (cobrição) ao coito de frente. Chamou-se retrato vivo à parecença entre o rosto do semeador e o rosto reproduzido do semeado. Em francês antigo, chamava-se rencontre (encontro) ao focinho do veado visto de frente. Chamava-se massacre depois de a sua cabeça ter sido cortada pelo caçador. Foi entre os crustáceos que começou o acasalamento de frente. Os homens antigos julgavam que essa postura os distinguia dos outros mamíferos e da sua bestialidade, falando com propriedade, desavergonhada, e, como os dois rostos ficavam frente a frente, acreditavam que os olhos da amante se impregnavam dos traços do amante que se mantinha por cima dela e a possuía. Quanto mais uma mulher amava um homem que mergulhava nela, mais moldava no seu interior uma pequena imagem parecida com esse modelo em que o seu amor se inspirava e que caprichava diante dos seus olhos. No momento do prazer o macho (…) o seu retrato no ventre daquela cujo rosto sugava.

No verso 1218 do livro IV de De natura rerum, Lucrécio afirma:
  • Há recém-nascidos que se parecem com um avô, ou um bisavô, porque houve um sem-número de átomos, vindos da cepa primordial, de pai para filho, que se foram acumulando no abrigo obscuro dos corpos daqueles que se enlaçam. Em grego bizantino, o filho era considerado homoousios do pai.
O filho e o pai eram a encarnação de uma mesma substância que os precede. Não só eram do mesmo sangue, mas também do mesmo esper… Eram consubstanciais. Para além de ser homoousios do pai, o filho é o seu homónimo. Devido ao patronímico que herda, a sua lenda é a lenda dos seus ascendentes. No caso dos reis de França, só o número é que diverge. Ou no caso dos papas que, em Roma, reinam sobre a Igreja romana. Ou no caso dos grandes artistas japoneses. O filho é uma reminiscência do pai. Toda a descendência dos pais é filial, toda a descendência é uma reminiscência única do rosto antepassado. A cópula é a fábrica das imagens idênticas. Os filhos são as imagens vivas dos pais. Retratos vivos homeomorfos, homoousíacos, homónimos. Há apenas um patronímico, e pequenos nomes próprios pouco numerosos, comuns a todos, que os especificam e se juntam a esse patronímico, não como números, mas como expoentes.
O amante que virá a ser pai é um pintor cuja única tinta é o esper… esbranquiçado que, desde a alvorada do mundo natural, transita de corpo para corpo em todos os ascendentes do sexo masculino através do pequeno pincel. Penicillum é o termo latino que designa o pequeno pénis. Substância que acaba por emergir, pálida como um fantasma. Licorosa, translúcida, brilhante, rara. Jade originário. Último e, por isso mesmo, preciso vestígio da primeira vaga vital da Pantálassa que introduziu a vida no mundo». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT

domingo, 2 de dezembro de 2012

Histórias de Amor de Outros Tempos. Retratos Vivos. Pascal Quignard. «No mundo dos antigos japoneses, o que corresponde à ‘lenda dourada’ é o “Konjaku”. Foi em 1844 que se descobriram as mil histórias do “Konjaku monogatari”. Os eruditos afirmaram que teria sido “Minamoto no Takakuni”, quem teria registado essas histórias no Verão do ano 1071»


jdact e cortesia de wikipedia

Retratos vivos
«A Bíblia permite-nos compreender a história dos antigos Hebreus, a escravatura a que estiveram sujeitos no Egipto, a deportação que os manteve prisioneiros dentro das muralhas da Babilónia, o édito de Ciro que os libertou, a língua que foram esquecendo, os cabelos cortados de Sansão e a sua força aniquilada pela faca de uma mulher, Saul saciado com o corpo e o canto de um adolescente, Judite segurando pelos cabelos a cabeça cortada de um general, Onan derramando o seu sémen na areia e gemendo de alegria na sua solidão.
O que corresponde ao que a Tora foi para o mundo dos antigos Hebreus e permite descobrir o sentido da maior parte das imagens esculpidas ou pintadas durante a Idade Média na Europa é a colectânea de lendas redigida pelo dominicano Jacques de Voragine, entre 1258 e 1263, a Legenda Aurea,  colectânea dos nimbos de ouro que inclui todas as histórias referentes aos mártires, santos, eremitas, padres do deserto, fundadores de conventos e padres da Igreja.
No mundo dos antigos japoneses, o que corresponde à lenda dourada é o Konjaku. Foi em 1844 que se descobriram as mil histórias do Konjaku monogatari. Os eruditos afirmaram que teria sido Minamoto no Takakuni, grande referendário de Uji, quem teria registado essas mil e uma histórias no Verão do ano 1071, em frente do rio de Uji, por ocasião dos grandes calores.
Tal hipótese foi posta de lado e não foi substituída por mais nenhuma, pelo que todas essas maravilhas foram atribuídas a ninguém. O que, para o mundo grego, em inícios do século II, teria correspondido com mais precisão à obra de Minamoto no Takakuni seriam as obras de Plutarco. O que, para o mundo francês do século XVII, corresponderia a Plutarco seria Tallemant. A quem se teria de acrescentar Saint-Simon. O que, para o mundo romano, correspondia a Tallemant era Suetónio. A quem os Romanos gostavam de acrescentar Tácito.


É minha intenção reflectir sobre duas histórias do Konjaku:
  • a sétima história do XXII rolo,
  • a quarta história do XXX rolo.
O que me interessa na confrontação dessas duas histórias, excelentemente traduzidas por Dominique Lavigne-Kurihara, é este aspecto paradoxal: o que os humanos mais amam não é susceptível de ser reconhecido.
O que reina é sempre o que se perdeu.
O que devora o homem é sempre o amor que sentiu quando ignorava a sua natureza. Esse amor é irreconhecível porque está imbuído de um mundo cujo reinado teve lugar antes da desunião do nascimento. Laço de antes da linguagem adquirida nos lábios daquela que deixa de estar unida e que já é a mãe que desfaz o laço. Unidade que diverge no acesso à luz para o olhar e pela transformação do corpo devida ao ar que se respira. Olhos que vêm e voz que clama dilacerando-se, dividindo a alma, destruindo a ressonância antiga, obscura.
O que já ocorreu é sempre esse desaparecimento impossível de conhecer, esse mundo engolido nos confins da vulva daquelas que nos fizeram crescer, e que regressa, com o seu silêncio característico, chamo silêncio à linguagem-que-já-não-é-órgão-de-nada, aquando das depressões nervosas, acelerando o ritmo cardíaco, angustiando a garganta, começando por fascinar os olhos e só depois a visão, sonhando. Dominando, animando, transportando, enlaçando e, por fim, matando os amantes». In Pascal Quignard, Histoiresd’Amour du Temps Jadis, Editiones Philippe Picquier, Arles, 1998, Histórias de Amor de Outros Tempos, Retratos Vivos, tradução de Maria Vilar Figueiredo, Edições Cotovia, Lisboa, 2002, ISBN 972-795-043-4.

Cortesia de Cotovia/JDACT