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domingo, 27 de maio de 2012

Eixos Viários. Os dados históricos e arqueológicos. «O primeiro e principal documento que nos fala destas duas estradas e da Ponte dos Três Concelhos é a Doação da Guidimtesta, de 1194, em que o rei D. Sancho I doa à Ordem do Hospital, depois Malta e finalmente do Crato, um território para nele edificarem o Castelo de Belver»


Cortesia de igespar

«Em primeiro lugar, com a investigação no terreno, ao mesmo tempo que eram relocalizados os sítios arqueológicos, começou a verificar-se a existência de inúmeros troços de vias de sulcos que passavam junto dessas estações e que poderiam fazer parte de vias romanas. Após o levantamento de todos esses troços, de que apenas alguns estão no Catálogo das Estações, mas que foram todos assinalados nas cartas topográficas, procedeu-se à elaboração do traçado das suas trajectórias. Os troços a cheio (vermelho e preto) correspondem a troços identificados no terreno e o tracejado, ao seu provável desenvolvimento. Para mais fácil referenciação atribuíram-se códigos numéricos a cada um dos traçados assinalados nas suas pontas e letras para identificar as variantes à estrada principal.
Para fazer o contraponto entre traçados de vias e sítios arqueológicos (qualquer que seja a sua natureza) permitem obter uma visão de conjunto de todos os dados compulsados. Assim definiu-se a Via 1, de sul para norte, com atravessamento do Tejo em Amieira, provinda de Augusta Emerita, passando por Envendos, Vale da Mua, Freixoeiro, Cardigos, Ponte dos Três Concelhos, Serra da Longra, Sertã, Pedrógão Pequeno e Pedrógão Grande, em direcção a Conimbriga. Em todos estes locais há evidência de estações arqueológicas, quer sejam romanas ou anteriores. A seguir à Amieira temos a estação romana de A Tapada (136), no Vale da Mua, as estações romana e tardo-romana de Vale Bom (123) e Casal (122), mais à frente passava em A Moradeira (115), estação tardo-romana, na base do castro do Bronze Final de Castelo do Santo (120), subia a Cardigos ao Chão do Pião (111), passava a Casas da Ribeira (109) onde se achou uma inscrição romana inédita, direita à Ponte dos Três Concelhos (034); antes da ponte e do lado direito existem também vestígios romanos (em frente da Portela dos Colos) (108) e um pouco mais para a direita temos a Chaveira (107).

Cortesia de igespar

Em segundo lugar, iremos analisar um dos traçados melhor documentados com documentos medievais, na área em estudo e que constitui um divertículo à via referida anteriormente. Fruto das investigações levadas a cabo pelo autor e por Filomena Gaspar, na área dos concelhos de Vila de Rei e Sertã, através da realização de levantamentos arqueológicos, consumados posteriormente em monografias arqueológicas, viriam a ser localizados vários vestígios que apontavam para a existência de uma via romana. A consulta da bibliografia disponível para a área e a leitura de alguns documentos medievais mais reforçaram essa ideia, que neste trabalho se procura consubstanciar.
Não se pode falar de vias ao estilo clássico, pavimentadas com lajes. É, antes de mais, uma via de sulcos escavados na rocha, com um ou outro local lajeado, onde a progressão era mais difícil. O que existe de mais palpável são duas estradas antigas, cuja memória e vestígios no terreno estão a desaparecer quase totalmente. Ambas são referidas por quase todos os autores que ao concelho de Vila de Rei dedicaram poucas ou muitas páginas. Na totalidade dos casos, limitaram-se a citar os seus antecessores, sem terem feito uma pesquisa mais apurada, para as poder destrinçar no meio dos silvados ou sob o alcatrão dos tempos modernos. Sem a prospecção no terreno não seria possível delinear a plausibilidade das suas trajectórias, nem localizar algumas estações arqueológicas que, sendo de época romana, nos dão quase a certeza do seu trajecto.

Cortesia de igespar

O primeiro e principal documento que nos fala destas duas estradas e da Ponte dos Três Concelhos é a Doação da Guidimtesta, de 1194, em que o rei D. Sancho I doa à Ordem do Hospital, depois Malta e finalmente do Crato, um território para nele edificarem o Castelo de Belver. Dos seus limites interessa-nos o ocidental, porque foi efectuado a partir de uma estrada que já existia certamente. Essa estrada não era mais do que uma via romana que vinda de Emerita Augusta, atravessava o rio Tejo na Amieira, passava inicialmente a nordeste de Amêndoa por Cardigos, Ponte dos Três Concelhos, ia à Sertã (onde o autor localizou recentemente vestígios romanos, Pedrógão Pequeno, Pedrógão Grande e se dirigia a Conimbriga. Mas a estrada de que os documentos falam, desviava da V1, depois de passar o Tejo e dirigia-se à Ponte dos Três Concelhos, passando pelo lado esquerdo da principal, servindo de delimitação ao concelho de Gavião, passava à provável aldeia romana de Vale do Grou, Castelo Velho do Caratão, Castelo e Amêndoa (V1b).
Essa estrada marcou o limite oriental do futuro concelho de Vila de Rei, a quem o rei Dinis deu foral em 1285. Começava ele no cruzamento da estrada que vai para Mação, passava possivelmente no Chão de Lopes Pequeno, Fonte da Amêndoa (as fontes eram muito importantes para os romanos), Amêndoa, capela de Santa Madalena, Tinfaneiros, Várzea, Algar, Portela dos Colos, Colos e Ponte dos Três Concelhos. Ao longo desta estrada existem vários vestígios romanos (e até mesmo anteriores), que nos apontam para a forte probabilidade de ela ser de origem romana, se não mesmo anterior. Assim, a estrada passava ao longo de dois castros: Amêndoa (117), com vestígios do Bronze Final e Idade Média e São Miguel (116), com ocupação da Idade do Ferro (?) e época romana e visigótica, distantes 1 km um do outro, mas à beira da estrada, do lado esquerdo. Do lado direito, temos uma villa ou mutatio romana com mosaicos (118).


Cortesia de igespar

Ao longo da estrada, mas do lado esquerdo (concelho de Vila de Rei) temos ainda o Monte de São João (061) e Poço Caldeiro (060), de época tardo-romana ou visigótica, embora inicialmente a tivéssemos considerado de época medieval ou moderna. No sentido nordeste-sudoeste passava uma outra estrada (V2), referida na Doação da Guidimtesta, que viria de Igaeditania (Idanha-a-Velha), passava a Castelo Branco, Cardigos, Várzeas, Vila de Rei, Foz do Codes, Porto de Caíns (rio Zêzere), Bairrada, Poço Redondo, Paixinha e Seilium (Tomar). No Porto de Caíns, para além da direcção para Tomar, ela tomava a direcção de Conimbriga, passando ao lado de Ferreira do Zêzere, num troço fazendo parte da V3. Limitava o Termo de Ceras, doado por D. Afonso Henriques aos Templários, em 1159, pelo lado oriental. Os Templários e a Ordem de Cristo colocaram aí marcos divisórios, numa situação semelhante à estrada da Doação da Guidimtesta». In Carlos Moutoso Batata, Trabalhos de Arqueologia 46 – Idade do Ferro e Romanização entre os rios Zêzere, Tejo e Ocreza, capítulo VIII, IPPBLIV06382401, 2006.

Cortesia de IGESPAR/JDACT

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Belver. Nota histórica do Castelo. «Dentro, quase no centro geométrico da vasta praça de armas, a torre de menagem ergue a grande altura os seus fortes muros ameados. Feita para resistir ao embate dos séculos e aos potentes trons da «artilharia» medieval, as suas paredes de grossa pedra sem talhe, consolidadas por fortíssimos cunhais de cantaria, têm na base cerca de quatro metros de espessura»

Cortesia de monumentos

«O que no edifício actual subsiste da primitiva construção e, mais ainda, o que certos aspectos ou simples pormenores deixam adivinhar, provam que o Castelo de Belver foi planeado e levantado sob a direcção de um técnico bem instruído em alguns dos segredos que a arquitectura militar da época só confiava àqueles que, em perfeita comunhão de pensamentos com os grandes chefes, tanta vez lhes facilitavam, no ataque ou na defesa, a desejada vitória.
Não era certamente tão vasta como a de agora, a área abrangida então pelas muralhas exteriores; contudo, alguns vestígios acaso encontrados, ao longo da obra de restauro que há pouco se concluiu, permitem crer que a ampliação ordenada 200 anos depois, em 1390, por D. Nuno Álvares Pereira, filho, como se sabe, de um dos mais ilustres priores da Ordem, não excedeu consideravelmente o já largo perímetro da cerca primitiva. Pode supor-se até que o grande Condestável se limitou a reconstruir os muros e os cubelos arruinados, deslocando-os porventura em alguns pontos de maior importância estratégica, sempre que a feição do solo penhascoso lho consentiu. De qualquer modo, parece indubitável que é, fundamentalmente, obra comum dos primitivos construtores e do grande capitão de Aljubarrota a fortaleza que chegou aos nossos dias.

Ao sul, em face do Tejo, a muralha, ciclópica, alonga-se pesadamente, em uma curva irregular que, inflectindo para o poente, talvez delimite, no seu extremo, o acréscimo que se diz ter sofrido durante os trabalhos da reconstrução de 1390. É nessa fachada que se abre a porta principal. Ladeiam-na dois cubelos em cujas dimensões se nota, logo ao primeiro olhar, uma desproporção considerável. O que defende à direita a entrada do Castelo é muito mais estreito que o outro. Capricho ou propósito do construtor? Propósito, evidentemente.

A redução que sofreu a planta desse torreão foi determinada pelo pensamento de o utilizar com maior vantagem na engenhosa obra da defesa da porta, pois tinha por fim evitar o perigo daqueles assaltos em chusma, que outrora, em meio de encarniçados assédios, tantas vezes excitavam a bravura e o espírito de sacrifício dos combatentes.

Cortesia de monumentos

Abrindo em alto nível para uma rampa escadeada, de dois lanços, cujo topo entestava com o grande cubelo da esquerda, a porta só podia ser acometida, graças a tal artifício, por um limitado número de assaltantes:
  • apenas os que comportava o estreito espaço compreendido entre o muro da fortaleza e o que cingia a mesma rampa. Assim, não podendo atingir a porta senão de flanco e divididos em estreitíssimas filas, os sitiantes, depois de ficarem expostos, um a um, e sem possível defesa, à acção ofensiva da guarnição do Castelo, que do alto dos adarves despenhava sobre eles enormes pedras, pez inflamado, azeite ou água fervente, eram obrigados a aglomerar-se, aqueles que por milagre sobreviviam, no reduzido espaço livre, em frente da porta e quase sem possibilidade de a acometerem, já porque a aglomeração lhes tolhia todos os movimentos, já porque ali também os atingia a sanha combativa dos inimigos acumulados entre as ameias.
E não eram esses somente os sacrificados; outros ainda, aqueles que se apinhavam na retaguarda, esperando que o avanço dos dianteiros lhes deixasse lugar na rampa de acesso, caíam igualmente, sem defesa possível, alvejados pelas setas que partiam das balhesteiras abertas no pano da muralha contígua.
Acaso teria aquela porta presenciado outrora alguma dessas horríveis carnificinas medievais, não mais atrozes, todavia, que tantas outras consentidas e praticadas nas truculentas guerras modernas? Provavelmente. Os ódios religiosos eram cegos, e não raro fundavam em sacrifícios heróicos e esperança de um prémio cujo valor transcendia os limites da existência terrena.
Morrer batalhando pela Cruz ou pelo Crescente, por Cristo ou por Alá, era então, naqueles tempos de intolerantes crenças, não só um dever tradicional, mas também uma aspiração inumana, semelhante às que, em plena Renascença, nos séculos XVI e XVII, ainda levavam exaltadamente ao martírio, nas regiões inóspitas da Ásia e da África, os pregadores do Evangelho cristão. Pode talvez crer-se que essa porta, sempre mais favorável às sortidas dos sitiados que ao ingresso dos sitiadores, não tivesse, na planta primitiva, a mesma largura daquela que actualmente existe.


Cortesia de monumentos

Esta última deve ser, de facto, a que ficou ali depois das obras do Santo Condestável, senão de outras, realizadas posteriormente, em incerta época, talvez no século XVII; cumpre notar, porém, que em diversas aduelas do seu grosso arco de volta redonda se entrevêem ainda hoje algumas siglas que lhe assinam mais recuada origem. Exteriormente, sobre este arco, descobre-se na muralha uma pedra rectangular, de face lisa, a que o povo da região chama «gaveta» e que uma lenda, já muito antiga, aponta como sinal destinado a localizar o esconderijo de um grande tesouro ali acumulado para subvencionar novas guerras de extermínio contra os infiéis.

Dentro, quase no centro geométrico da vasta praça de armas, a torre de menagem ergue a grande altura os seus fortes muros ameados. Feita para resistir ao embate dos séculos e aos potentes trons da «artilharia» medieval, as suas paredes de grossa pedra sem talhe, consolidadas por fortíssimos cunhais de cantaria, têm na base cerca de quatro metros de espessura. Para permitir mais fácil acesso à sua porta, aberta a grande altura, conforme o uso antigo, construíra-se depois (mas em anos ainda distantes) uma escada exterior, também de pedra.
Dentro, no chão de rocha onde se embebem os seus formidáveis alicerces, fora escavada uma cisterna de grande profundidade. Cria-se que comunicava com o Tejo. Uma laranja que se lançasse naquele abismo artificial (asseverava-se) apareceria pouco depois no leito do rio. Não era esse o único reservatório de água potável do castelo; outra cisterna de maior capacidade, e que chegou completamente entulhada aos nossos anos, abastecia ali as guarnições imobilizadas dentro dos muros pelos intermináveis cercos de outrora.

Quando a DGEMN iniciou as obras da restauração, o castelo, embora ainda firme nos seus formidáveis alicerces, achava-se todavia desmantelado, em grande parte. Um século de abandono quase total, pois foram apenas de efeito lenitivo as reparações parciais que eventualmente se fizeram, não podia ter decorrido sem deixar atrás de si consideráveis destroços e até ruínas de certo vulto. Assim, em alguns dos paramentos exteriores dos muros havia lesões muito extensas, verdadeiros desmoronamentos; de certos cubelos, pouco mais restava que os alicerces; e na fachada do sul viam-se, hiantes, as largas fendas ali abertas pelo abalo de terra que em 1909 assolou, como se sabe, toda a região estremenha e particularmente a ribatejana». In O Castelo de Belver, Boletim da DGEMN nº 46, 1946.

Cortesia de DGEMN/IGESPAR/JDACT

domingo, 16 de outubro de 2011

Belver. Nota histórica do Castelo. «Diz-se, com efeito, que o nome de Belver (desde então ali fixado com honras de topónimo histórico) foi proposto por D. Sancho, quando ele e os seus companheiros, no alto do alcantilado morro, admiraram pela primeira vez o maravilhoso panorama que a seus olhos se ofereceu»

A planta da fortaleza
Cortesia de monumentos

É na invasão sarracena de 1190, capitaneada pelo famoso Iacub Al-Mansur, que pode procurar-se a verdadeira origem do castelo de Belver. D. Sancho I, que já cinco anos antes havia recebido, com o trono português, a pesada herança de seu pai, vendo então recuar mais uma vez até ao curso do Tejo a fronteira meridional do seu reino, além da qual só Évora, a valorosa, ficara em poder dos cristãos, reconheceu que, tanto para se reparar algum dia o desastre sofrido, como para se evitar outro ainda maior, urgia fortalecer a defesa daquela fronteira, alargando com novas doações territoriais a área confiada à guarda das quatro Ordens militares que mais e melhor o tinham servido:
  • a do Templo,
  • a dos Hospitalários de S. João de Jerusalém,
  • a de Évora ou de Avis,
  • a de S. Tiago da Espada.
Sobretudo as duas primeiras, que D. Afonso Henriques sempre considerara como as mais fortes colunas do trono conquistado. Estudando com aqueles de quem mais fiava, ordinariamente, a solução dos graves problemas que então dificultavam a vida e o progresso da Nação, mentores guerreiros, que nem sempre escutava, e mentores religiosos, que raramente desatendia, todos convieram na necessidade de se fortificar, com mais acerto e sem demora, toda a margem direita do Tejo, não só entre Santarém e Abrantes, mas ainda mais para o Levante, ao longo da extensa e sinuosa linha de alcantis que ali acompanha o rio até às formidáveis gargantas de Ródão. Certo, não muito longe, em Tomar e imediações, velavam já os esforçados cavaleiros do Templo; mas isso não bastava para livrar do perigo, sempre iminente, a extensa fronteira que era necessário proteger.

Cortesia de monumentos

Assim D. Sancho, ampliando embora, naquele transe, a área de defesa a cargo dos Templários, obstinou-se em confiar a outros campeões de igual valor, os Hospitalários de S. João de Jerusalém, um dos mais arriscados postos de vigilância, naquela região tão distante da terra de Leça, onde esses denodados cavaleiros tinham fixado a sua casa capitular logo após as generosas concessões com que os amerceara a rainha D. Teresa.

Na doação das chamadas «Terras de Guidimtesta», o Rei português impôs-lhes expressamente a obrigação de construírem um poderoso castelo sobranceiro ao Tejo, e no local mais conveniente à defesa da fronteira. Esse local, um cabeço rochoso, de cujo cume se descobria não só grande parte do rio, mas todas as terras circunjacentes, aquém e além do seu curso, foi escolhido provavelmente pelo prior da Ordem, D. Afonso Pais, senão pelo próprio monarca. Diz-se, com efeito, que o nome de Belver (desde então ali fixado com honras de topónimo histórico) foi proposto por D. Sancho, quando ele e os seus companheiros, no alto do alcantilado morro, admiraram pela primeira vez o maravilhoso panorama que a seus olhos se ofereceu.
O priorado da ordem, que já nessa época demonstrara, na construção da Casa Mestral de Leça, a nobreza das suas iniciativas e o saber dos seus «mestres de pedraria», não retardou, em obediência às cláusulas do pacto firmado com o Rei, a obra que devia celebrizar, em vários lances da nossa História, o nome de Belver. Tem-se dito que a carta de doação de D. Sancho I data de 13 de Junho de 1194, e que os trabalhos da edificação do Castelo, apesar de empreendidos logo em seguida e com a maior diligência, só se concluíram em 1212-isto é, 18 anos depois.

Cortesia de monumentos

Na indicação desta última data (e talvez também na da primeira) deve haver erro ou confusão, pois é certo que em 1210, no mês de Outubro, quando D. Sancho ditou o seu testamento na presença das «pessoas mais principais do Reino», devidamente ajuramentadas, como seu filho D. Afonso, sucessor do trono, o Arcebispo de Braga, os Priores de Santa Cruz, do Hospital, do Templo, etc, já o Castelo se achava construído e ocupado pelos cavaleiros da Ordem. Ali mesmo, na fortaleza de Belver, sob a guarda do «Prior do Hospital de Jerusalém», conservava-se então, como expressamente declara o monarca testador, uma parte importante dos 500.000 maravedis de ouro e 1.400 marcos de prata por ele destinados àqueles piedosos legados, esmolas e «bens de alma», que sempre incluíam nas suas últimas disposições os poderosos da época.

NOTA: Os restantes depositários desta reserva do erário real eram, conforme relata Rui de Pina, o «Mestre da Freiria de Évora, que agora é de Avis» o lícrilrc do Templo, o Abade de Alcobaça e o Prior de Santa Cruz de Coimbra (Crónica de El-Rei D. Sancho I).

Esta circunstância, além de provar que a data da edificação do Castelo antecedeu em verdade a que geralmente se lhe atribui, permite supor também que a transferência do priorado da Ordem do Hospital, do mosteiro de Leça para Belver, se realizou muito mais cedo do que se tem afirmado, e porventura logo após a conclusão da fortaleza. Parece admissível, de facto, que o Castelo de Belver tenha sido a Casa-mãe dos Hospitalários durante mais de um século, visto que só em 1350, por determinação de D. Álvaro Gonçalves Pereira, então prior da Ordem, se efectuou a mudança para o Crato.
Quem delineou, naqueles remotos anos em que o valor guerreiro era mais comum que o saber guerreiro, a traça desse ninho de águias defendido e prestigiado pela cruz de oito pontas dos freires de S. João de Jerusalém? Ignora-se. Mas essa Ordem famosa, constituída pelos mais fortes cavaleiros de Portugal (entre os quais não eram raros os que, pelejando em terras estranhas, tinham aprendido, tanto com aliados como com inimigos, o que uns e outros deviam, por seu turno, à experiência ou à lição alheias, conseguiu realizar ali uma obra bem digna da fama que em todo o mundo cristão celebrava os seus feitos». In O Castelo de Belver, Boletim da DGEMN nº 46, 1946.

Cortesia de DGEMN/IGESPAR/JDACT

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Doação de Guidintesta: O Castelo de Belver. Parte I

Cortesia de br.olhares
O Castelo de Belver tem na sua génese a concorrência de todo um conjunto de circunstâncias, que em si constituem o suporte da luta que os nossos primeiros monarcas encetaram pela consolidação da Independência e expansão do território português, no sentido do sul muçulmano. O movimento da «reconquista cristã» na Península Ibérica, inserido no quadro do desenvolvimento e expansão da Europa dos séculos XII e XIII (as Cruzadas), está na origem da fundação do reino de Portugal, cujo território, constituído na luta antimuçulmana para sul, até à conquista do Algarve por Afonso III, que marcaria o fim de praticamente cinco séculos de domínio árabe em território hoje português. A outra frente desta mesma luta pela autonomia, situou-se no eixo oriental, contra as quase constantes ambições de absorção de Portugal por parte dos reinos vizinhos de Leão e Castela, que iam mantendo vivo o velho ideal da unificação cristã peninsular.

Afonso Henriques, Sancho I, Afonso II, Sancho II, e Afonso III, são os monarcas que conduzem o processo de expansão e consolidação territorial, que se caracteriza essencialmente pelo primado da mobilização da máquina de guerra, em constante actividade, ora avançado para o sul, ora recuando, ao longo das linhas naturais que arduamente se defendiam. Fortificar, colonizar, seriam os vectores da política real, a melhorar a defesa seria a ocupação do solo por uma população estável, que a qualquer momento pudesse acorrer em sua defesa. Afonso Henriques havia conseguido notáveis progressos no avanço cristão em direcção ao sul, mas a ausência de uma política real de colonização tornou frágeis as possibilidades de defesa das praças conquistadas, nomeadamente no Alentejo. Assim sendo, a ofensiva árabe desencadeada por Iacub Al Mansur em 1190, fez recuar a presença cristã em solo alentejano até à linha do Tejo, com excepção de Évora.

Essencialmente a preocupação de Sancho I no aspecto militar é consolidar o território cristão ao longo da linha do Tejo, dando-lhe possibilidades de defesa e, por isso mesmo, promovendo o seu povoamento progressivo. Na zona compreendida entre Santarém, Abrantes e Vila Velha de Rodão, ao longo do Tejo, vão-se desencadear diversas acções de povoamento e fortificação, cabendo à zona hoje ocupada por Belver, um papel essencial na defesa do referido eixo.
Tal tarefa é atribuída pelo rei à Ordem Militar do Hospital, a quem faz a doação da zona chamada de Guidintesta, que se estendia pelas suas margens do rio Tejo, denominada estrategicamente pelo ponto onde Sancho I manda erguer o Castelo de Belver. A Carta de Sancho I em 13/06/1194) explica:
  • ...«Vobis clomno Alfonso Pelagii Hospitalis... terra que vocatur Guidintesta, in qua concedimus vobis ut faciatis castellum cui imponimus nomen Belver».
Iniciado logo a seguir à doação do rei, Afonso Pais, prior da Ordem dos Hospitalários, o castelo estaria concluído em 1212, passando a funcionar como Casa-Mãe daquela Ordem Militar, substituindo assim a anterior sede situada no Mosteiro de Leça. Segundo o testamento de Sancho I, citado na crónica de Rui de Pina, ficaria à guarda do prior do Hospital, na fortaleza de Belver, uma parte importante dos 500.000 maravedis de ouro e dos 1.400 marcos de prata destinados àquela Ordem, bem como as esmolas que o testamento previra.

Cortesia da CMBelver
Segundo os historiadores, Belver teria funcionado como Casa-Mãe dos Hospitalários durante praticamente um século, até que em 1350 a sede muda para o Crato, por determinação de D. Álvaro Gonçalves Pereira, que era então o prior daquela Ordem. Em 1390, D. Nuno Álvares Pereira, chefe militar do rei D. João I, encarregou-se da ampliação e melhoramento do Castelo de Belver, sendo a traça destas obras aquela que permaneceu até aos nossos dias, em que se procedeu ao restauro completo deste monumento por parte da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, nos anos 40.


Cortesia da CMBelver
Para fazer história deste Castelo, poder-se-á partir de três vectores fundamentais que determinaram a sua funcionalidade no tempo. Assim:
  • Em primeiro lugar, o Castelo de Belver encontra-se ligado ao sistema político-militar próprio do período inicial da História de Portugal, caracterizado pela conquista do território aos muçulmanos e implantação de sistemas defensivos nas zonas geograficamente estratégicas, de modo a consolidar pela defesa e pelo povoamento, o progressivo avanço do território português em direcção ao sul algarvio. A construção e a primeira fase da vida de Belver teriam estas características, que fundamentalmente dependiam do governo da Ordem Militar dos Cavaleiros do Hospital, que tal como as outras ordens religiosas militares se enquadra no espírito da reconquista e da cruzada próprios dos séculos XII e XIII;
  • Em segundo lugar ou o segundo vector que determina a História deste monumento incide já nos finais do século XIV, em que uma vêz estabelecidas as fronteiras definitivas do território português e dominado o perigo muçulmano, se torna necessário garantir a defesa do território face a Castela, sendo essa intenção de Nuno Álvares Pereira quando, em 1390, desencadeia as obras de melhoramentos no perímetro do Castelo. A guerra com Castela, iniciada em 1383, que levaria D. João I ao trono de Portugal por oposição nacional às ambições do rei de Castela, teria o seu lance decisivo na batalha de Aljubarrota, em 14 de Agosto de 1385, mas no entanto, até que a paz fosse assinada em 1411, foi preocupação do rei e do ajudante do campo garantir ao máximo a estabilidade das fronteiras luso-castelhanas, fortalecendo e melhorando o seu sistema defensivo, como será o caso do Castelo de Belver em 1390;
  • Finalmente, com o passar do tempo, o Castelo foi perdendo a função de centro vital na vida política nacional. Tal como no resto do país, a vida urbana viria a impor-se, a guerra ganharia novas facetas do ponto de vista táctico, alterando-se o terreno e os meios a pelejar. O Castelo de Belver terá sido palco, ainda no século XV, de disputas relacionadas com a política interna, como é o caso do confronto entre Afonso V e o regente D. Pedro.
No século XIV supõe-se que terá de algum modo tomado parte da resistência à ocupação filipina, ao lado de D. António que era o Prior do Crato. Daí em diante, o Castelo foi sendo progressivamente esquecido, até que nos nossos dias, em 1942, a Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais procedeu ao restauro dos estragos que lhe causou o seu último e pior inimigo: o tempo.
Merece especial referência neste conjunto monumental, e dentro do seu perímetro, a Capela de S. Brás, erguida perto da torre que defende a fachada norte do castelo, sempre preservada devido ao carinho com que a população sempre a tratou. De estrutura arquitectónica modesta e de pequenas proporções, a Capela de S. Brás tem como principal atractivo o seu belo retábulo do século XVI, construído com a finalidade de abrigar as relíquias que se encontram distribuídas pelos vinte e quatro nichos. este conjunto de talha profusamente trabalhado, de influência nitidamente renascentista é, sem dúvida, um dos mais valiosos que se encontram nas igrejas portuguesas, quer pelo seu valor histórico como pelo seu elevado sentido estético.


Cortesia de castelosdeportugal
Cortesia da CMBelver/JDACT