Mostrar mensagens com a etiqueta Escrita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escrita. Mostrar todas as mensagens

sábado, 29 de junho de 2024

Madeline Hunter. Deslumbrante. «Já fui em outras festas com as crianças presentes. Não me lembro de vê-la nessas. Só estive com elas um ano, antes de conhecer o capitão Joyes e deixar minha posição. Na cidade ninguém ouviu falar que houvesse algum homem na casa»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…)  Então deixarei a indicação para ela vir para aqui assim que retornar. Olhou para o lado. Lizzie, pode... Ora essa, onde é que ela se enfiou? Estava aqui mesmo antes de a Celia trazê-lo e até leu o seu cartão... Estalou a língua em sinal de exasperação. Por favor, aguarde aqui, lord Sebastian, enquanto vou pessoalmente dizer para nos enviarem miss Kelmsleigh.

Deixou-o no meio da vegetação. O ar tinha um aroma luxuriante cuja densidade húmida continha um pouco de tudo. Citrinos e rosas e até o laivo fresco da erva. Uma pessoa podia se inebriar com um perfume daqueles. Enfiou o dedo na terra de um dos vasos em que mrs. Joyes estivera trabalhando. Tocou no volume de um bulbo. Desceu tranquilamente o corredor, passando por vários limoeiros em vasos e por mesas de botões floridos. No fundo do edifício uma videira crescia dentro do vidro. A raiz encontrava-se do lado de fora, mas o pé espesso entrava por um buraco aberto na parede de tijolo. As várias gavinhas trepavam por apoios robustos, estirando-se depois por barras de ferro, colocadas meio metro acima da sua cabeça. Debaixo deste frondoso caramanchão interior, estavam uma mesa de pedra e quatro cadeiras, compondo uma vinheta toscana.

Foi uma experiência, esclareceu mrs. Joyes, regressando. A videira, não pensei que resultasse. Deve ser agradável ficar sentado a esta mesa nos dias ensolarados de Inverno. Tem um belo conservatório de plantas.

É uma estufa. A maior parte daquilo que as pessoas chamam conservatórios na realidade são estufas, ou estufas de forçagem. Imagino que a palavra não seja suficientemente requintada e por isso a designação incorrecta se tenha tornado comum. Um verdadeiro conservatório de plantas faz isso mesmo, limita-se a conservar as plantas durante o Inverno, período em que estão em dormência. Temos um desses, também, no fundo do jardim. O rosto dela voltou a prender sua atenção.

Queira me desculpar, acho que fui inadvertidamente grosseiro. Já nos cruzamos, tenho certeza, mas não consigo me lembrar onde. Já nos cruzamos, realmente, anos atrás. Eu trabalhava como governanta para a família do duque de Becksbridge. Fomos apresentados um ao outro numa recepção no jardim, à qual fui autorizada a ir com a mais velha das minhas pupilas. Tem uma memória excelente para as pessoas insignificantes com as quais se cruza na vida, lord Sebastian. Se ela fosse de facto insignificante, ele poderia merecer o elogio, mas duvidava de que algum homem esquecesse que a conhecera.

Já fui em outras festas com as crianças presentes. Não me lembro de vê-la nessas. Só estive com elas um ano, antes de conhecer o capitão Joyes e deixar minha posição. Na cidade ninguém ouviu falar que houvesse algum homem na casa. O seu marido está ao serviço da marinha?

Esteve no exército. Morreu na Guerra Peninsular. A pergunta não alterou a graciosidade da sua postura, mas os olhos, escurecendo um pouco, revelaram que o assunto ainda lhe causava dor. Se me der licença novamente, vou ver porque demora Audrianna. Já devia ter voltado». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber,

Deslumbrante. Madeline Hunter. «Olhou para cima. Metade do tecto era composto também por pequenos painéis de vidro. Aguarde aqui, por favor, indicou ela, desaparecendo por trás de uma enorme palmeira num vaso»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era o tipo de casa boa e sólida que se encontrava por toda a Inglaterra. Bonita, na sua alvenaria de pedra cinzenta, era grande demais para uma simples casa rústica e pequena demais para ser um solar. No topo, um sótão com telhado duplo erguia-se em dois pisos de altura tendo apenas janelas bem proporcionadas decorando a fachada simples.

Não apareceu ninguém para ficar com seu cavalo, por isso Sebastian atou as rédeas a um poste. O tempo que esperou depois de bater à porta deixava a entender que poucos criados trabalhavam lá, apesar da propriedade deixar transparecer alguma riqueza. A porta finalmente abriu. Uma governanta muito magra de meia-idade espreitou-o por entre os folhos da touca. Leu o cartão dele e voltou a espreitar. O olhar dela se demorou na caixa de madeira comprida que ele trazia debaixo do braço.

Disseram-me que miss Kelmsleigh vive aqui, explicou ele. Vim devolver uma coisa que ela perdeu.  Uma moça loira, bonita, surgiu. Também leu o cartão. Eu trato disto, mrs. Hill.  A mulher mais velha se retirou. A loira indicou que entrasse. Devia falar com mrs. Jones, prosseguiu. É a proprietária da casa. Está na estufa. Vou levá-lo até lá. Num passo tranquilo, levou-o até aos fundos da casa. Passaram por uma biblioteca com bonitas estantes e muitas cadeiras estofadas. Uma segunda sala de estar ocupava a parte de trás da casa. Através de uma das janelas, viu uma estufa.

Situada a vinte metros da casa, a estufa era muito maior do que as encontradas em casas rurais, a não ser que fossem propriedades muito grandes. A metade de cima das paredes era de vidro, num mosaico de painéis rectangulares suportados por ferro. A entrada para a estufa ficava no fundo de um corredor que saía da sala de estar. A mulher que o guiava abriu uma porta e ele foi envolvido por um calor húmido. Olhou para cima. Metade do tecto era composto também por pequenos painéis de vidro. Aguarde aqui, por favor, indicou ela, desaparecendo por trás de uma enorme palmeira num vaso. Momentos depois reapareceu e gesticulou para que se aproximasse. Apontou mrs. Joyes e se despediu.

Mrs. Joyes trabalhava sentada a uma mesa coberta de vasos cheios de terra. A mesma terra sujava o avental, as mãos e a touca. Enquanto ele se aproximava, ela pegou um trapo para limpar a pior parte.

Tinha um rosto muito bonito. Muito pálido. Muito perfeito. Olhos cinza-escuro. Possuía uma elegância natural que afectava até sua postura de pé. Se ele nunca a tivesse visto, poderia ter ficado embasbacado. Só que ele já a vira antes. Tinha certeza.

Lord Sebastian Summerhays, que honra. Não é frequente termos visitas tão ilustres. Procura uma flor para dar de presente a uma pessoa da sua estima? Temos pelargónios raros de nossa própria hibridação que são sempre apreciados. Procuro uma mulher que, segundo me disseram, vive aqui. miss Kelmsleigh. Indicou com a cabeça a caixa que trazia. – Devo devolver-lhe algo que lhe pertence. Miss Kelmsleigh não está em casa. Deve voltar muito em breve, se quiser aguardar. Ou pode deixar a caixa comigo.

Bom, era aquilo. Podia largar a caixa e ir embora. Não havia razão para não confiar que mrs. Joyes a entregasse a miss Kelmsleigh quando voltasse. Se avisasse para não abri-la, era bastante provável que controlasse a curiosidade.  Se estiver voltando em breve, eu mesmo lhe darei». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

 JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

Madeline Hunter. Deslumbrante. «A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Demais então. Avise a Fenwood para não recebê-la na próxima vez. Não permita que ela se assenhore do seu apartamento e entre nele a seu bel-prazer. Existira sempre o perigo de a mãe deles transformar Morgan numa criança assim que tivesse a oportunidade. Intrometia-se, o mimando e dominando, até ele perder o direito de ser um homem distinto. Esse havia sido o motivo de Sebastian se mudar para aquela casa quando o irmão voltou da guerra. Sua presença assegurava que a mãe não expandiria demais o seu domínio, especialmente no que dizia respeito ao filho mais velho. Sempre foi melhor em lidar com ela do que eu. Como em tantas outras coisas, declarou Morgan. Não havia nada que dizer adiante daquilo, por isso ambos voltaram-se aos jornais. Disse que esteve perto de Brighton, ontem? Ouviu alguma coisa acerca do espectáculo no Duas Espadas? Espectáculo? Morgan estreitou os olhos para ler as letras impressas. Deixou sair um sorriso. Um homem levou um tiro de uma amante. Aquilo é que deve ter sido um bom teatro. Ele não morreu, parece. Mesmo assim, não se deve ter falado de outra coisa lá em baixo. O que está lendo aí? Morgan corou. Um dos jornais cor-de-rosa da nossa mãe. De Brighton? Londres.

Maldição! Sir Edwin estava certo. A história provavelmente chegara à cidade antes de qualquer uma das suas vítimas. Evidentemente, não havia nomes no jornalzinho, porém. Ainda. O ritual terminou às onze horas. Sebastian se despediu e voltou ao próprio quarto. O criado pessoal o saudou com uma carta selada na mão. O endereço não estava correcto, meu senhor. Sebastian pegou a carta. Escrevera-a para miss Kelmsleigh e enviara-a por um mensageiro para a casa do pai. Não vivem mais lá? Mrs. Kelmsleigh sim, e miss Sarah Kelmsleigh. Audrianna Kelmsleigh, porém, não. O lacaio perguntou e lhe disseram que ela fora morar no Middlesex, perto da aldeia de Cumberworth. Sebastian levou a carta para o quarto. Abriu uma gaveta e olhou para a pistola que trouxera do Duas Espadas. Suas tentativas de devolvê-la de forma discreta não tinham dado certo. Podia mandar o despachante a Cumberworth. Se miss Kelmsley havia se mudado para o campo, bastariam algumas perguntas para localizá-la. Podia igualmente embrulhar a pistola e dá-la ao criado, e dar o assunto por encerrado. Viu a pistola numa mão suave, feminina. Viu olhos verdes de mulher cintilando de vida, depois acendendo de fascínio e paixão, e, por fim, esmaecendo de melancolia. Imaginou ela atravessando a hospedaria até à carruagem, fingindo não reparar que os outros clientes olhavam e sussurravam. Disse ao criado para mandar buscar o cavalo.

Cumberworth continuava uma aldeia rural, mas Londres se aproximava a cada ano que passava. Já fora absorvida pelos subúrbios da cidade, um dos muitos vilarejos do Middlesex que viam recém-chegados se misturar com velhos residentes e agentes imobiliários decompor quintas em pequenas propriedades para as famílias prósperas da sua vizinha maior. A chegada de Sebastian, portanto, não atraiu grande atenção. Desceu a rua principal, passando por lojas em edifícios velhos de tabique e casas de pedra alinhadas. Procurou uma taverna.

O Baron’s Board não estava muito cheio às duas da tarde e a cerveja de Sebastian chegou rápido. Bebeu em pé, submetendo-se à inspecção curiosa do proprietário. Também está assim húmido na cidade?, perguntou o homem, secando canecas de cerveja. Pior, respondeu Sebastian. Está a caminho de um lugar mais seco? Não, vim à procura de uma pessoa para tratar de negócios. Talvez a conheça. Miss Kelmsleigh. O proprietário estalou a língua… Eu conheço ela e as amigas. Todas as pessoas de Cumberworth conhecem as hóspedes de mrs. Jones. Ah, conhecem? Acho que miss Kelmsleigh é prima dela, não sua hóspede. É difícil saber do que chamar aquelas mulheres, não acha? O resto não são parentes, não me parece. Só um grupo de mulheres que vieram de visita e nunca mais foram embora. Mrs. Joyes vive na aldeia? Tem propriedade a pouca distância. Uma casa boa e um bom pedaço de terra. Cultiva flores numa estufa grande. Vende-as em Londres a floristas chiques. A casa dela fica um tanto afastada da rua, por isso há uma placa pintada no local onde é preciso virar. Flores Preciosas, é assim que o negócio dela se chama. Estalou novamente a língua. Até parecem boa gente. São reservadas. Não há razão para pensar que haja alguma coisa imprópria, mas as pessoas falam, não é mesmo? Sem dúvida. Sebastian acabou de beber a cerveja e pediu indicações para chegar ao letreiro do Flores Preciosas. Quinze minutos depois, seguia pelo caminho privado que conduzia à casa de mrs. Joyes». In Madeline Hunter, Deslumbrante, Edições ASA, 2013, ISBN 978-989-232-372-5.

Cortesia de EASA/JDACT

JDACT, Madeline Hunter, Escrita, Saber, 

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Os Cus de Judas. António Lobo Antunes. «Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivo suor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinoso do Equador, mole e quente…»

Cortesia de jdact e wikipedia

B

«As senhoras do Movimento Nacional Feminino vinham por vezes distrair os visons da menopausa distribuindo medalhas da Senhora de Fátima e porta-chaves com a efígie de Salazar, acompanhadas de padre-nossos nacionalistas e de ameaças do inferno bíblico de Peniche, onde os agentes da PIDE superavam em eficácia os inocentes diabos de garfo em punho do catecismo. Sempre imaginei que os pelos dos seus púbis fossem de estola de raposa, e que das vaginas lhes escorressem, quando excitadas, gotas de Ma Griffe e baba de caniche, que abandonavam rastros luzidios de caracol na murchidão das coxas. Sentadas à mesa do brigadeiro, comiam a sopa com a ponta dos beiços tal como os doentes das hemorroidas se acomodam no vértice dos sofás, deixando nos guardanapos de papel pegadas de copas de bâton de que se evolavam ainda desgostos com as criadas e restos de tiradas patrióticas, e reencontrei-as no portaló do barco na manhã da partida, encorajando-nos com maços de cigarros Três Vintes e apertos de mão viris em que as falanges, falanginhas e falangetas se articulavam entre si por intermédio dos anéis de brasão: Sigam descansados que nós na rectaguarda permanecemos vigilantes.

E com efeito, observando bem, pouca coisa havia a recear de nádegas tão tristes, em relação às quais as cintas se conformavam com o papel secundário de fundas herniárias.

E depois, sabe como é, Lisboa principiou a afastar-se de mim num turbilhão cada vez mais atenuados de marchas marciais em cujos acordes rodopiavam os rostos trágicos e imóveis de despedida, que a lembrança paralisa nas atitudes de espanto. O espelho do camarote devolvia-me feições deslocadas pela angústia, como um puzzle desarrumado, em que a careta aflita do sorriso adquiria a sinuosidade repulsiva de uma cicatriz.  

Um dos médicos, dobrado no colchão do beliche, soluçava aos arrancos em palpitações irregulares de motor de táxi que se engasga, o outro contemplava os dedos com a atenção vazia dos recém-nascidos ou dos idiotas que lambem longamente as unhas com os olhos extasiados, e eu perguntava a mim próprio o que fazíamos ali, agonizantes em suspenso no chão de máquina de costura do navio, com Lisboa a afogar-se na distância num suspiro derradeiro de hino. Subitamente sem passado, com o porta-chaves e a medalha de Salazar no bolso, de pé entre a banheira e o lavatório de quarto de bonecas atarraxados à parede, sentia-me como a casa dos meus pais no Verão, sem cortinas, de tapetes enrolados em jornais, móveis encostados aos cantos cobertos de grandes sudários poeirentos, as pratas emigradas para a copa da avó, e o gigantesco eco dos passos de ninguém nas salas desertas. Como quando se tosse nas garagens à noite, pensei, e se sente o peso insuportável da própria solidão, nas orelhas, sob a forma de estampidos reboantes, idênticos ao pulsar das têmporas no tambor do travesseiro.

Ao segundo dia alcançamos a Madeira, bolo-rei enfeitado de vivendas cristalizadas a flutuar na bandeja de louça azul do mar, Alenquer à deriva no silêncio da tarde. A orquestra do navio resfolegava boleros para os oficiais melancólicos como corujas na aurora, e do porão onde os soldados se comprimiam subia um bafo espesso de vomitado, odor para mim esquecido desde os meios-dias remotos da infância, quando na cozinha, à hora das refeições, se agitavam à volta da minha sopa relutante as caretas alternadamente persuasivas e ameaçadoras da família, sublinhando cada colher com uma salva de palmas festiva, até que alguém mais atento gritava: Cantem o Papagaio Loiro que o miúdo está a puxar o vómito.

Em resposta a este aviso terrível, todos aqueles adultos desatavam a desafinar em uníssono como no naufrágio do Titanic, de beiços arrepiados sobre os dentes de ouro, uma criada batia tampas de tacho a compasso, o jardineiro fingia marchar de vassoura ao ombro, e eu devolvia ao prato um roldão de massa e arroz que me obrigavam a engolir, desta vez sem coro, sibilando em voz baixa insultos furibundos.

Agora, percebe, estendido no convés numa cadeira de repouso, a sentir no progressivo suor do colarinho a implacável metamorfose do Inverno de Lisboa no Verão gelatinoso do Equador, mole e quente como as mãos do senhor Melo, barbeiro do avô, no meu pescoço, na loja da Rua 1º de Dezembro, onde a humidade multiplicava o cromado das tesouras nos espelhos canhotos, o que com mais veemência me apetecia era que, tal como nesses tempos recuados, a Gija me viesse coçar as costas estreitas de menino num vagar feito da paciência da ternura, até eu adormecer de sonhos lavrados pelo ancinho dos seus dedos apaziguadores, capazes de me expulsarem do corpo os fantasmas desesperados ou aflitos que o habitam». In António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Editora Dom Quixote, 2004, ISBN 978-972-202-759-5.

Cortesia DomQuixote/JDACT

JDACT, António Lobo Antunes, Literatura, Cultura e Conhecimento, Escrita,  

domingo, 8 de outubro de 2023

Amante de Amores Fortuitos. João IV. Paula Lourenço (coord), Ana C. Pereira e Joana Troni. «António Caetano de Sousa refere que dona Maria nasceu a 31 de Abril; no entanto, considerando que Abril só tem 30 dias, assumimos o último dia do mês para o seu nascimento»

jdact

Restauração

«(…) Do nascimento de dona Maria só se conhece a data: 30 de Abril de 1.644. Criada em casa do secretário de Estado António Cavide, ingressa a 25 de Março de 1650 no Convento de Santa Teresa de Carnide, com o objectivo de receber as instruções da madre Micaela Margarida de Santa Ana, também ela filha ilegítima (e nunca legitimada) do imperador Matias da Alemanha. A paternidade é claramente escondida, sendo conhecida apenas numa esfera muito restrita. É reconhecida por João IV no seu testamento, de 2 de Novembro de 1656, sendo que o pai nunca antes a vira ou lhe escrevera, como atesta na carta que já moribundo envia à filha, datada de 4 de Novembro de 1656. No seu testamento, João IV faz-lhe várias doações, que são imediatamente confirmadas por Afonso VI, por decreto de 18 de Novembro de 1656, em que usa já a fórmula E pela boa vontade, que tenho a dona Maria minha muito amada, e prezada irmã. Assim, podemos datar de 1656 o nascimento» de uma nova tnfanta de Portugal, com 12 anos de idade, reconhecida como filha e irmã de rei, estatuto que lhe valerá várias honras régias e eclesiásticas, que saberá sempre utilízar ao longo da sua vida.

A relação de dona Maria com os irmãos é bastante próxima, sobretudo com a irmã rainha de Inglaterra, dona Catarina, que chega a enviar-lhe uma menina para criar junto de si no convento, sendo inúmeras as missivas trocadas que revelam grande estima e carinho.

Mas da mãe, de dona Maria de São João Baptista, sabe-se apenas que ficou o resto da vida no convento, recebendo uma mesada do rei para as suas despesas.

António Caetano de Sousa refere que dona Maria nasceu a 31 de Abril; no entanto, considerando que Abril só tem 30 dias, assumimos o último dia do mês para o seu nascimento». In Paula Lourenço (coord), Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Esfera dos Livros, Lisboa, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia ELivros/JDACT

 JDACT, História, Cultura e Conhecimento, Escrita, Aspectos de Vida Quotidiana,

sábado, 7 de outubro de 2023

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni. «Foi, pois, uma relação que durou bastante tempo, pelo que não se trataria apenas de uma simples aventura... arriscamo-nos a supor que haveria algum sentimento de afecto»

jdact

O feitiço da Ribeirinha

«Maria Pais Ribeira, de afamada formosura, descendia de uma linha de nobres próximos à corte e aos reis de Portugal, e da relação com o rei ficou esta linhagem ainda mais perto da Casa Real.

Rodrigo Sanches, Gil Sanches, Nuno Sanches, Maior Sanches, Teresa Sanches e Constança Sanches foram os frutos desta fecunda ligação amorosa. À semelhança de seus outros filhos bastardos, Sancho I entregou-os a criar em casas de membros da nobreza tradicional muito próxima do monarca.

Foi, pois, uma relação que durou bastante tempo, pelo que não se trataria apenas de uma simples aventura... arriscamo-nos a supor que haveria algum sentimento de afecto.

Que Maria Pais conseguira seduzir o rei, disso não parece haver dúvidas. O papa Inocêncio III chamou-a de feiticeira por este encantamento que prendia Sancho I, que sua casa todos os dias visitava.

Diz-se que era branca de pele, de fulvos cabelos, bonita e sedutora e que não só cativara o rei, mas também os nobres da sua corte. Sancho I deu à Ribeirinha, em 1209, a Vila do Conde, doação esta que foi confirmada em 1217 por Afonso II, seu filho e rei.

Um dos episódios mais conhecidos da Ribeirinha foi o seu rapto a+ós a morte do seu amante, Sancho. Vinha de Coimbra após o enterro do monarca, triste e lacrimosa pela morte do homem com quem tivera seis filhos, quando Gomes Lourenço de Alvarenga fintou a guarda que o irmão de Maria Pais havia destacado para a sua segurança e a raptou. Lavou-a Leão, fora da influência da família, mas não do rei português Afonso II, que terá solicitado a Fernando III de Leão que não deixasse este assunto sem resolução». In Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Editora Esfera dos Livros, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia de EEsferadosLivros/JDACT

JDACT, Paula Lourenço, Ana C. Pereira, Joana Troni, História, Cultura e Conhecimento, Escrita, Aspectos da Vida Quotidiana, 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Teresa Távora. A Amante do Rei. Sara Rodi. «Ali estava o seu grande demónio, à sua espera. O demónio da sua mãe, perseguindo-o em cada decisão da sua vida. Vai-te embora, Luís Bernardo. Vai»

jdact

«Consiste o livre-arbítrio em voluntariamente cumprir o fado». In Agostinho da Silva

31 de Março de 1738

«(…) Luís Bernardo viera à minha procura, entre o torneio de flechas e o jogo de alcanzías,talvez por ordem de sua mãe, que me vira desaparecer sem dar explicações. Nunca a minha pr6púa mãe me mandara seguir por ninguém, mas a minha futura sogra achava-se absurdamente nesse direito.

Estou entediada, Luís Bernardo. E se fôssemos dar um passeio? Agora? Mas os festejos vão a meio. Voltaríamos antes do final. Não queres estar comigo... a sós? O meu olhar era libidinoso e a minha boca suficientemente insinuante para ele perceber a que me referia, mas Luís Bernardo herdara da mãe uma moralidade estranguladora que me irritava profundamente. Tudo lhe cheirava a pecado, e fugia receoso de tudo o que pudesse ser interessante ou divertido, como se a liberdade de viver fosse um gigantesco demónio à sua espera, em cada esquina.

Mas já estamos sozinhos, Teresa. Onde querias tu ir a esta hora? Tens noção da confusão de gente que está lâ fora? Só carruagens ouvi falar em quase quatro mil. E outras tantas embarcações no Tejo. Fora os milhares e milhares de pessoas a quem foi vedada a entrada, e que devem estar a entupir todas as saídas.

Exausta de o ouvir complicar o que podia ser tão simples, calei-o com um beijo nos lábios, ainda com uma ténue esperança de que isso viesse a fazê-lo desejar o resto. O que estás a fazer?, interrompeu-me. O que tu queres tanto como eu. Puxei-o pelo casaco de veludo para uma alçada escura onde haviam sido guardadas umas sacas de erva, talvez para dali seguirem para os animais esfomeados. O cheiro a erva fresca era intenso mas revitalizador. E essa era uma cama fofa para os nossos corpos se apoiarem, se preciso fosse. Teresa, nós não podemos.

Esferas ocas de barro pintado, que

Os atacados defendiam-se com escudos e

Se atiravam à cara uns dos outros.

As bolas desfaziam-se com o choque.

Podemos sim. Podemos tudo o que quisermos. Fecha os olhos e sente-me. Fechei-lhe os olhos suavemente com a mão direita, enquanto a esquerda lhe descia pelo ventre, para lhe fazer subir o desejo.

Teresa... Casaremos em breve, Luís Bernardo. Seremos um só, hoje... e depois para sempre. Olha a minha mãe... Soltei a minha boca da dele, com asco. Como era possível que ele se atrevesse a falar na sua mãe, quando me tinha ali, pronta para me entregar a ele como nunca me entregara a ninguém? Como ousava sequer pensar nela?

Foi a minha mãe que me mandou vir ver se estavas bem. Se eu demorar virá atrás de mim. Vai apanhar-nos. Ali estava o seu grande demónio, à sua espera. O demónio da sua mãe, perseguindo-o em cada decisão da sua vida. Vai-te embora, Luís Bernardo. Vai.

Entendes que não podemos fazê-lo? Não aqui. Não hoje. Mas eu quero-o muito. Quero-o tanto como tu. Tu sabes disso. Vai, Luís Bernardo, por favor. Não vá a tua mãe descobrir--nos... Então vem comigo. Dizemos que te sentiste indisposta. Não, espera... indisposta, não. senão ela ainda pode pensar que estás grávida. E não podes estar grávida se nós não... ainda não... Vai, Luís Bernardo. Agora! Por favor!, disse, agastada. Obedientemente. ele foi. Foi em busca da mãe. Foi em busca da decência e cio recato. Foi em busca do que era suposto ser correcto, só porque alguém se lembrou de dizer que sim. E eu deixei-me cair nas sacas de erva fofa, cujo cheiro jâ não me parecia agora revitalizador, mas nauseabundo, porque também o cheiro nos cheira àquilo que sentimos». In Sara Rodi, Teresa Távora, A Amante do Rei, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-626-482-6.

Cortesia EsferaLivros/JDACT

JDACT, Sara Rodi, Conhecimentos, Escrita, O Saber,

quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni. «Como vivo em grande cuidado por meu amigo que ei alongado. Muito me tarda o meu amigo na Guarda! Ai eu coitada! Como vivo em grande desejo…»

jdact

As amantes

«Os filhos bastardos e estas duas amantes foram contemplados no testamento do rei, indicador da importância que teriam para o monarca que, enquanto pai, assumia as suas responsabilidades. Também cuidará do futuro do neto da sua filha ilegítima, Teresa Sanches, Fernando.

Uma amante régia ascendia a um estatuto que lhe conferia privilégios que se prolongavam, sobretudo, pelos seus filhos. Assim' casar com uma mulher que fora amante do rei não era desprestigiante. Pelo contrário, e assim se entende os casamentos que ambas fizeram com homens da corte de Sancho I.

Maria Aires de Fornelos, filha de Aires Nunes de Fornelos, casou com Gil Vasques Soverosa, filho de Vasco Fernandes, alferes-mor do reino.

Da sua ligação com o monarca não mais sabemos do que dados biográficos. Desta união nasceram Martim Sanches de Portugal, conde de Trastâm ara, e Urraca Sanches. Ao que tudo indica, foram entregues, para que os criasse, a Marinha Viegas, figura ligada à importante família Riba Douro. O filho que tiveram, Martim Sanches, disputará o trono com o legítimo herdeiro da coroa, o futuro Afonso II.

O feitiço da Ribeirinha

A Ribeirinha eta filha de Urraca Nunes de Bragança e de Paio Moniz de Ribeira e Cabreira, que foi alferes-mor de Sancho I a partir de 1199, o que poderá ter sido a razão da aproximação entre os dois amantes. De acordo com a tradição, foi neste-preciso ano que Sancho I, em viagem pelas terras da Guarda, ficou enfeitiçado por Maria Pais Ribeiro. Ou então em Coimbra se aceitarmos a sugestão do conde de Sabugosa: nos Paços, a par da Sé de Coimbra, em noites de sarau, quando o luar batia em cheio nas varandas e terraços da Alcáçova e iluminava a paisagem mórbida do Mondego, enquanto os rouxinóis namorados palravam nos salgueiros, as rãs coaxavam idílios amorosos nas represas dos rios, e, lá dentro, nas salas, as jogralezas arqueavam provocantemente os corpos nas danças lascivas.

Esta paixão foi imortalizada em versos da suposta autoria de Sancho I. Escritos ou não pelo monarca, certo é que esta relação não passava despercebida à sociedade de então:

Ai eu coitada!

Como vivo em grande cuidado

por meu amigo que ei alongado.

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada!

Como vivo em grande desejo

Por meu amigo que tarda e não vejo!

Muito me tarda

O meu amigo na Guarda!»

In Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Editora Esfera dos Livros, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia de EEsferadosLivros/JDACT

JDACT, Paula Lourenço, Ana C. Pereira, Joana Troni, História, Cultura e Conhecimento, Escrita, Aspectos da Vida Quotidiana,

Amantes dos Reis de Portugal. Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira e Joana Troni. «Conquistou Silves após um cerco que durou dois meses, com a ajuda dos cruzados que tinham arribado ao reino. Não foi um processo pacífico, pois os cruzados…»

jdact

Um rei com um temperamento inconstante. Sancho I

«Depois de ver reconhecida a sua dignidade régia por bula papal, Sancho I teve que lidar com complicadas situações ao longo do seu reinado, desde maus anos agrícolas às sucessivas crises de fome, peste e, claro, as guerras. De um lado estava a questão da divisão das Hispânias pelos herdeiros de Afonso VII e, do outro, a ameaça do império almóada, sempre presente.

Foi um rei empenhado em todos os assuntos do seu reino. Conhecia bem os problemas, as necessidades e a realidade do seu país. De facto, estivera, durante tantos anos, à frente dos seus destinos e convivera de perto, pelo menos desde 1169, com os altos oficiais do reino. Povoou as terras de fronteira para as manter e mostrar a soberania portuguesa e entregou a sua defesa e conquista dos territórios em seu redor às ordens militares.

Foi também durante o seu reinado que as questões entre Braga e Compostela e os intermináveis conflitos entre a Sé de Coimbra e o Mosteiro de Santa Cruz tiveram lugar. Várias vezes, na sequência destes problemas, o monarca foi excomungado e o seu reino interditado. Sancho I tinha um temperamento inconstante, que se foi revelando com maior intensidade à medida que ia envelhecendo. Acessos de raiva eram frequentes, indo ao ponto de perpetrar grandes vinganças,  como se viu em Silves.

Conquistou Silves após um cerco que durou dois meses, com a ajuda dos cruzados que tinham arribado ao reino. Não foi um processo pacífico, pois os cruzados, ocupando a cidade, fecharam as portas para que nenhum muçulmano a pudesse abandonar e dedicaram-se ao saque e espoliação de bens e pessoas. Recusaram-se a dar a Sancho I a sua parte em Silves, o domínio da própria cidade e a posse dos aprovisionamentos em víveres. O monarca, enfurecendo-se, entrou na cidade e expulsou à força os cruzados.

A amargura chegaria mais tarde, com a perda de Silves, o que teve um impacto grande. Não podia perder mais território do que aquele que lhe fora legado por seu pai. A partir daqui, era importante investir em pactos de aliança e políticas matrimoniais para minorar as hipóteses do reacender da guerra entre os reis cristãos peninsulares.

As amantes

Algumas descrições, não coevas, referem que Sancho I era de estatura média e que tinha o rosto grande, a boca grossa e grande, os olhos pretos grandes, cabelo de cor castanho-escura quase preta e tinha barba. Afinal, em nada parecido com seu progenitor, que era alto, de rosto perfeito com olhos e cabelo castanho-claros.

Era um homem que gostava da caça, de correr touros e do convívio com os cortesãos. Nos serões passados na corte não faltava o vinho, os poemas e os jograis. E, claro, as mulheres.

Sancho I foi pai de 19 filhos. A sua fertilidade enquanto progenitor foi excepcional, da relação com a sua mulher, dona Dulce, teve 11 filhos. Para além de dona Dulce, a mulher legítima, são-lhe conhecidas duas amantes: Maria Pais Ribeira, a conhecida Ribeirinha, e Maria Aires de Fornelos, senhora da nobreza média. Delas teve também uma significativa prole. A primeira foi mãe de seis filhos, ao passo que a segunda gerou dois.

Ao que parece, estas ligações amorosas tiveram lugar após a morte da rainha, ou seja, entre 1198 e 1211., mas foram, provavelmente, também concomitantes. Estas amigas do rei tinham o seu lugar na corte e acompanhavam-no para onde se deslocava» In Paula Lourenço, Ana Cristina Pereira, Joana Troni, Amantes dos Reis de Portugal, 2008, Editora Esfera dos Livros, 2011, ISBN 978-989-626-136-8.

Cortesia de EEsferadosLivros/JDACT

JDACT, Paula Lourenço, Ana C. Pereira, Joana Troni, História, Cultura e Conhecimento, Escrita, Aspectos da Vida Quotidiana,

sexta-feira, 7 de abril de 2023

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «Em 27 de Junho de 1458, morreu Afonso V, de cognome o Magnânimo. Mesmo com idade avançada, seu adversário começou a entrar em acção. Ele proibiu o filho ilegítimo de Afonso…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Era imensa a necessidade de concessão de graças e indultos, ou seja, dispensas provenientes dessas complicadas regras. Por outras palavras: no palácio do vice-chanceler convergiam laços, por meio dos quais era possível estabelecer ligações com os poderosos de todo o planeta. Permissão para casar, apesar do grau de parentesco muito próximo, legitimação de filhos bastardos, absolvição de promessas incômodas: tudo isso tinha o seu valor de contrapartida e sua utilidade. E, principalmente, o vice-chanceler passou a ter acesso irrestrito a desagradáveis segredos que os poderosos não queriam que se tornassem públicos.

A nomeação de Rodrigo a bispo de Valência elevou ainda mais a sua posição e aumentou seus rendimentos. E, pouco depois, ao elevado posto dentro da Igreja, juntou-se também uma posição de liderança secular. Calisto III nomeou seu talentoso sobrinho, sem a menor cerimónia, como capitão das tropas papais na Itália. Um cardeal como general: isso foi uma ofensa para muitos. A enorme quantidade de postos atribuídos a outro sobrinho, Pedro Luís, irmão de Rodrigo, também provocou escândalos. Ele recebeu numerosos cargos no Estado Pontifício, entre eles a castelania do Castelo de Santo Ângelo. Como resultado, passou a comandar a inexpugnável fortaleza da cidade de Roma: uma prevenção para os tempos de crise. Pedro Luís, que estava destinado a ser o herdeiro da aristocrática dinastia Bórgia, ganhou, acima de tudo, os feudos que tinham sido perdidos pelos barões romanos. Indo ao encontro desses propósitos, especialmente nos territórios dos Orsini, foram tomados todos os castelos, com seus respectivos direitos de jurisdição, tributação e recrutamento de tropas. A sua amargura foi ainda maior quando o cardeal Orsini, o fazedor de papas, contabilizou recompensas no lugar de desapropriações.

Calisto derrotou os Orsini, mas o que ele queria mesmo era atingir seu patrão, o rei Afonso. As suas relações com Nápoles tinham piorado rapidamente. A exigência do monarca de continuar a condescender com ele nos âmbitos políticos do clero, ou seja, nomear candidatos convenientes para o bispado e conceder lucrativos prestimónios ao seu protegido, foi considerada um atrevimento e, por isso, recusada. O papa já não tinha a menor predisposição para esses servicinhos de capelão. A situação progrediu de tal maneira que chegou a recusar favores a Afonso, favores esses, que concedia em provocante abundância aos membros de sua família. Divergências políticas importantes agravaram a contenda. Calisto acreditava ter identificado, na táctica dilatória de Nápoles, o principal obstáculo para a realização de seu grande plano, que era reprimir os otomanos. No Outono de 1457, o rei ameaçou o papa com concilio e deposição; este, por sua vez, ameaçou o rei com privação de enfeudamento. De repente, como numa poderosa encenação teatral, no ápice do conflito, um dos dois protagonistas retirou-se do palco. Em 27 de Junho de 1458, morreu Afonso V, de cognome o Magnânimo. Mesmo com idade avançada, seu adversário começou a entrar em acção. Ele proibiu o filho ilegítimo de Afonso, Fernando de Aragão, mais conhecido como dom Ferrante, sucessor designado para a região continental do sul da Itália, de usar seu título de rei. Revogou ainda o juramento de fidelidade de seus súbditos e assumiu o reino como um feudo que fora devolvido à Igreja.

Ao mesmo tempo, o papa concedeu a Pedro Luís a função de comandante supremo das tropas que liderariam a inevitável guerra contra Nápoles. Além disso, transferiu para seu sobrinho o vicariato de Benevento e Terracina, que tinha sido ocupado pelo falecido monarca. O nepote regia esse enclave romano no reino de Nápoles, como o título mesmo indica, literalmente como substituto do papa; a experiência demonstrou, contudo, que esses vicariatos, de facto, transformaram-se rapidamente em grandes domínios autónomos. Como já mostrado no drástico agravamento das relações com os Orsini, essa concessão demonstrava também o que os Bórgia realmente tinham em vista: o trono de Nápoles». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o papa sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Volker Reinhardt, Vaticano, Escrita, 

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «… direito da família e do casamento. Nesse domínio sensível, os canonistas tinham criado uma infinidade de obstáculos, restrições e proibições que exigiam decididamente a concessão de derrogações»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Aqui residia, de facto, o risco para a eleição papal. Em que medida se poderia prever o comportamento de um candidato após ser elevado a papa? A austeridade e o rigor do cardeal de Valência seriam uma garantia contra surpresas desagradáveis, calculavam seus eleitores. Assim, em 8 de Abril de 1455, foi cumprida a profecia de Vicente Ferrer, e Alonso Borja subiu ao trono de Pedro como Calisto III. Como todos sabiam, ele era um homem com família. Em outras palavras: o que não faltavam eram potenciais nepotes. O facto de os eleitores não terem visto isso como um obstáculo está possivelmente relacionado ao problema de o nepotismo ser considerado, em grande parte, coisa do passado, não apenas por meio da moderação imposta pelos próprios papas, mas também pela delicada pressão por parte do cardinalato. Ambos tinham contribuído para que, nos dois últimos pontificados, não tivessem sido observadas situações desagradáveis a esse respeito. O papa recém-eleito poderia nomear cardeal um sobrinho qualquer ou, se necessário, melhorar o estilo de vida de parentes mais próximos. Assim versavam as regras vinculativas de decência que se orientavam numa categoria aristocrática de nepotes, mas de forma alguma principesca ou mesmo dominante.

Comparado ao nepotismo igualmente aventureiro e caótico de Bonifácio IX (1389-1404), que concedeu a seus numerosos parentes napolitanos metade da região do Lácio, como também abundantes prestimónios, isso já era um passo à frente. A inviolabilidade desses padrões precisava, no entanto, ser colocada à prova.

Desse modo, todas as atenções se voltaram ao idoso homem de Xátiva e seus jovens sobrinhos. Do ponto de vista do rigoroso moralista, para o qual o papa não tinha parentes consanguíneos, mas apenas espirituais, e precisamente em todos os lugares onde reinavam o mérito e o merecimento, o início foi marcado por uma positiva surpresa. No começo, fez-se pouco em termos de apoio à família. Rodrigo Bórgia e seu primo Luís Juan Mila foram agraciados com lucrativos benefícios, mas permaneceram estudando Direito em Bolonha. Porém, a alegria dos zelanti, que eram os reformadores zelosos, não iria durar muito. Em Fevereiro de 1456, a nomeação simultânea de Rodrigo e Luís Juan Mila a cardeais pôs fim a todas as esperanças de conter o nepotismo. Pior ainda: estava violada a regra mais importante da ainda recente autorrestrição. Acrescente-se a isso que esses dois chapéus vermelhos foram só o começo. Calisto III tinha agora pressa em elevar o prestígio de sua família. Provavelmente, temia já ter esperado demais. Aparentemente, os escrúpulos iniciais que se opuseram à promoção intensiva de seus parentes de sangue tornaram-se obstáculos definitivamente eliminados. Só é possível presumir de que maneira se deu essa mudança de atitude: por sugestões ao pé do ouvido de conselheiros que perseguiam seus próprios interesses, mas provavelmente também pelos pedidos ou exigências dos próprios sobrinhos.

Esses não podiam agora se queixar da moderação de seu tio. O mais enérgico e persuasivo dos dois novos purpurados, Rodrigo, tornou-se vice-chanceler em 1457, passando a ocupar o mais importante e lucrativo posto dentro da cúria depois do papado. As tarefas associadas a essa função consistiam em cuidar da torrente de solicitações de concessão de indulgências que chegavam a Roma vindas de toda a cristandade. O papa reservava-se o direito de tomar decisões apenas em casos ligados a círculos políticos mais amplos, mas, geralmente, apreciava essas causes célebres depois de uma prévia avaliação de seu vice-chanceler. Dessa maneira, esse último assumiu uma posição-chave. A jurisdição clerical estava longe de ser apenas responsável por litígios dentro do clero, mas também por grande parte do direito da família e do casamento. Nesse domínio sensível, os canonistas tinham criado uma infinidade de obstáculos, restrições e proibições que exigiam decididamente a concessão de derrogações». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o papa sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Volker Reinhardt, Vaticano, Escrita,

terça-feira, 4 de abril de 2023

Alexandre VI. Volker Reinhardt. «… os Orsini aproveitaram a oportunidade e apoiaram activamente o candidato do rei Afonso, ganhando, assim, pontos a seu favor em Nápoles. Além disso, um pontífice já idoso e de carácter bem consolidado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

De Xátiva a Roma. 1378-1458. As Origens dos Bórgias

«(…) Outro evento causou ainda maior admiração do que o final das hostilidades entre Inglaterra e França. Em 29 de maio de 1453, o sultão Maomé II conquistou Constantinopla e exterminou, assim, os últimos resquícios do Império Bizantino. O susto provocado contribuiu para que Nicolau V alcançasse um bom êxito no seu empenho de resguardar a estabilidade política na Itália. Por meio dos acordos fixados em Lodi, na Itália, em 1454 e 1455, foram criadas estruturas federais que deveriam engendrar a manutenção da paz por meio da reconciliação de interesses. No entanto, a estrutura complexa dos numerosos estados com seu complicado emaranhado de sistemas, com diversas relações de protecção e dependência, permaneceu, também no futuro, altamente susceptível a interferências. Só era possível instaurar o equilíbrio se, pelo menos, as cinco principais potências praticassem uma política permeada por prudência e ponderação. Os acordos exigiam, assim, a contenção de todos, principalmente do papado. O lema da modernidade era abdicar do nepotismo excessivo. Nicolau V respeitou essa regra.

Será que seu sucessor iria fazer o mesmo? Após a morte do primeiro papa humanista, o conclave se reuniu primeiramente com 14 e, em seguida, com 15 cardeais; jamais o número de eleitores de um conclave voltou a ser tão baixo. Os italianos, que contavam com sete purpurados, detinham uma exígua maioria. O segundo grupo mais forte era o dos espanhóis, com quatro representantes. Esses últimos, contudo, não chegavam a representar uma ameaça tão grande como os franceses, embora esses só estivessem representados com dois príncipes da Igreja. Os eloquentes humanistas italianos eram considerados bárbaros por excelência e os prelados italianos, uma ameaça para o papado. Será que iriam transferir a cúria novamente para Avignon, que durante 1309 e 1377 tinha sido a residência papal, em detrimento da Cidade Eterna?

Não foram apenas essas preocupações e o precoce nacionalismo que moldaram a eleição do novo pontifex maximus. Como era comum havia muito tempo, a rivalidade entre os Colonna e os Orsini exercia forte influência sobre as formações partidárias do conclave. Com suas vastas e, de facto, autónomas propriedades feudais, esses dois clãs da aristocracia dominavam, desde o século XIII, não apenas a paisagem rural romana, mas também a região de fronteira com Nápoles, sem falar na própria Cidade Eterna. No conclave, cada linhagem apresentou um cardeal e este permaneceu rodeado pelos seguidores da respectiva família. Uma vez que o poder de ambas as partes equiparava-se, não foi possível fazer valer a força de seu respectivo preferido. Foi inevitável, portanto, proceder à busca de um candidato de conciliação. O cardeal Bessarion, com sua elevada formação filológica e teológica, bem como seu estilo de vida exemplar, ofereceu-se como tal. Mas rapidamente pairou no ar uma espécie de xenofobia, mais exactamente grecofobia. Um grego como papa? A união da Igreja Ortodoxa com a Igreja Católica não fora realizada pura e simplesmente pela força das circunstâncias, ou seja, pela ameaça iminente da queda de Constantinopla? Era possível confiar realmente na ortodoxia desse príncipe estrangeiro da Igreja?

Alonso de Borja, nesse aspecto, estava completamente fora de suspeitas. Além disso, como espanhol, ele representava a Reconquista, a batalha de fé contra os mouros. Dentro das circunstâncias altamente tensas e de confinamento espacial do conclave, o regresso a esses antigos motivos que, depois de 1453, passaram a ser novamente actuais, desempenhava um papel muito importante. O factor decisivo, no entanto, foi que, com a elevação a papa do homem de Xátiva, o impasse foi resolvido e foi adiada provisoriamente a decisão sobre o desenvolvimento no longo prazo da situação do poder em Roma. Não é de se esperar que um papa de 77 anos quisesse tomar alguma decisão importante.

Dessa forma, os Orsini aproveitaram a oportunidade e apoiaram activamente o candidato do rei Afonso, ganhando, assim, pontos a seu favor em Nápoles. Além disso, um pontífice já idoso e de carácter bem consolidado parecia oferecer melhor garantia para combater a ascensão vertiginosa de determinados grupos ao poder apostólico, sem incorrer em transformações incómodas de sua natureza». In Volker Reinhardt, Alexandre VI, Bórgia, o papa sinistro, 2011, Editora Europa, 2012, ISBN 978-857-960-127-9.

Cortesia de EEuropa/JDACT

JDACT, Volker Reinhardt, Vaticano, Escrita,

quinta-feira, 16 de março de 2023

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «A Rosa meteu-se no assunto e, debruçando-se por sobre as pernas do seu vizinho, beijou os três animais no nariz. E logo todas as mulheres os quiseram beijar também…»

jdact

A casa Tellier

«(…) A Rafaela, com um penteado emplumado a fingir um ninho cheio de passarinhos, usava um vestido lilás, semeado de lantejoulas de ouro, uma coisa como que oriental que calhava bem com a sua cara de judia. A Rosa Pileca, de saia cor-de-rosa com amplos folhos, tinha o aspecto de uma menininha excessivamente gorda, de uma anã obesa; e as duas Chancas pareciam ter escolhido de propósito uns adornos estranhos por entre velhas cortinas de janela, as velhas cortinas com ramagens do tempo da Restauração. Mal deixaram de estar sozinhas no compartimento, as senhoras assumiram um comportamento sério, e puseram-se a falar de coisas elevadas para criarem boa opinião a seu respeito. Mas em Bolbec apareceu um sujeito de suíças loiras, com anéis e uma corrente de ouro, que arrumou na rede por cima da sua cabeça vários pacotes embrulhados em oleado. Tinha um ar trocista e de boa pessoa. Cumprimentou, sorriu e perguntou com todo o à-vontade: Estas senhoras vão mudar de quartel? A pergunta lançou no grupo uma confusão embaraçada. Por fim a Madame recuperou a presença de espírito e respondeu secamente, para vingar a honra do pelotão: O senhor podia ser mais bem educado! Ele desculpou-se: Perdão, eu queria dizer de convento. A Madame, como não encontrou nada para responder, ou talvez por achar a rectificação suficiente, fez um cumprimento digno franzindo os lábios.

Então o senhor, que estava sentado entre a Rosa Pileca e o velho camponês, pôs-se a piscar o olho aos três patos cujas cabeças espreitavam do grande cesto; e depois, quando sentiu que o seu público já estava cativado, começou a fazer festas aos animais debaixo do bico, dirigindo-lhes frases engraçadas para alegrar a companhia: Com que então deixámos o nosso charco!, quáquá!, quáquá!, quáquá!, para conhecermos o belo espeto, não é?, quáquá!, quáquá!, quáquá! Os infelizes animais reviravam o pescoço para evitar os seus afagos, faziam terríveis esforços para saírem da sua prisão de vime; e depois, de repente, os três em conjunto, soltaram um lamentoso grito de aflição: Quáquá! quáquá! quáquá! Houve então uma explosão de gargalhadas entre as mulheres. Elas debruçavam-se, empurravam-se umas às outras para espreitar; estavam loucamente interessadas nos patos; e o senhor redobrava de graciosidade, de espírito e de carícias.

A Rosa meteu-se no assunto e, debruçando-se por sobre as pernas do seu vizinho, beijou os três animais no nariz. E logo todas as mulheres os quiseram beijar também; e o senhor sentava as senhoras nos seus joelhos, fazia-as dar saltos, beliscava-as; não tardou e estava a tratá-las por tu». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdonQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Contos, Século XIX, Escrita,  

quarta-feira, 15 de março de 2023

Contos Escolhidos. Guy Maupassant. «Com efeito, a carruagem era um deslumbramento de cores brilhantes. A Madame, toda de azul, de seda azul dos pés à cabeça, trazia por cima um xaile de falsa casimira francesa, vermelho…»

jdact

A casa Tellier

«(…) Acontecia que a Madame tinha um irmão estabelecido como marceneiro na sua terra natal, Virville, no Eure. No tempo em que a Madame era ainda estalajadeira em Yvetot fora ela que levara à pia baptismal a filha daquele irmão, a que deu o nome de Constance, Constance Rivet, pois ela própria era Rivet pelo lado do pai. O marceneiro, que sabia que a irmã estava numa boa situação, não a perdia de vista, embora não se encontrassem muitas vezes, ambos retidos que estavam pelas respectivas ocupações e, além disso, por viverem longe um do outro. Mas, como a menina ia completar doze anos e nesse ano fazia a sua primeira comunhão, ele aproveitou a oportunidade para promover uma aproximação, e escreveu à irmã que contava com ela para a cerimónia. Os velhos pais tinham morrido e ela não podia recusar aquilo à afilhada: aceitou. O irmão, que se chamava Joseph, esperava que, valendo-se destas atenções, talvez conseguisse um testamento a favor da pequena, já que a Madame não tinha filhos.

A profissão da irmã não bulia de modo algum com os seus escrúpulos e, aliás, ninguém lá da terra sabia de nada. Ao falar dela dizia-se apenas: A senhora Tellier é uma burguesa de Fécamp, o que dava a entender que estava em condições de viver dos rendimentos. De Fécamp até Virville distavam pelo menos vinte léguas; e vinte léguas de terra são, para camponeses, mais difíceis de percorrer que o Oceano para um civilizado. O povo de Virville nunca tinha ido além de Ruão; e nada atraía as gentes de Fécamp a uma aldeola de quinhentos fogos, perdida no meio das planícies e que pertencia a outro departamento. Enfim, não se sabia de nada.

Mas, ao aproximar-se a época da comunhão, a Madame sentiu um grande embaraço. Não tinha nenhuma patroa substituta e não lhe agradava nada deixar a casa, mesmo por um dia. Todas as rivalidades entre as damas lá de cima e as lá de baixo iriam infalivelmente estalar; além disso, o Frédéric havia de embebedar-se de certeza, e quando estava bêbado importunava as pessoas por tudo e por nada. Acabou por se decidir a levar consigo toda a sua gente, excepto o criado, a quem deu férias até dali a dois dias.

Consultado o irmão, este não levantou qualquer objecção, e encarregou-se de arranjar alojamento para todo o grupo por uma noite. E assim, no sábado de manhã, o comboio expresso das oito transportava a Madame e as suas companheiras numa carruagem de segunda classe.

Até Beuzeville foram sozinhas e palraram como pegas. Mas nessa estação entrou um casal. O homem, um velho camponês que envergava uma bata azul com gola plissada, mangas largas apertadas nos pulsos e adornadas de um bordadinho branco, de cabeça coberta por um antiquado chapéu alto cujo pêlo ruço parecia eriçado, trazia numa das mãos um imenso chapéu-de-chuva verde, e na outra um grande cesto donde espreitavam as cabeças assustadas de três patos. A mulher, hirta na sua roupagem rústica, tinha cara de galinha, com um nariz afilado como um bico. Sentou-se de frente para o seu homem e deixou-se ficar sem se mexer, impressionada por se encontrar rodeada de uma tão bela companhia.

Com efeito, a carruagem era um deslumbramento de cores brilhantes. A Madame, toda de azul, de seda azul dos pés à cabeça, trazia por cima um xaile de falsa casimira francesa, vermelho, ofuscante, fulgurante. A Fernanda ofegava num vestido escocês cujo corpete, atado com todas as forças das companheiras, lhe soerguia o peito em riscos de se desmoronar numa dupla cúpula sempre agitada que parecia líquida debaixo do tecido». In Guy Maupassant, Contos Escolhidos, 1885, Edições don Quixote, Grupo Leya, 2011, ISBN 978-972-204-682-4.

Cortesia de EdonQuixote/JDACT

JDACT, Guy Maupassant, Contos, Século XIX, Escrita,