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quarta-feira, 3 de junho de 2020

A Grande Heresia. Lynn Picknette e Clive Prince. «… pessoas mais excêntricas sugeriram mesmo que ele devia ter tido visões do futuro. Os seus desenhos de uma bicicleta, por exemplo, só se tornaram conhecidos depois de 1960»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Código Secreto de Leonardo da Vinci
«(…) Ouvimos dizer, muitas vezes, que Leonardo era um cristão piedoso cujas pinturas religiosas reflectiam a profundidade da sua fé. Como vimos até agora, pelo menos uma delas contém imagens altamente dúbias, em termos de ortodoxia cristã, e a nossa investigação, como veremos mais tarde, revela que nada podia estar mais longe da verdade do que a ideia de que Leonardo era um verdadeiro crente, isto é, um crente em qualquer forma aceite ou aceitável do cristianismo. Nesta altura, as estranhas e anómalas características de uma única das suas obras parecem indicar que ele tentava revelar-nos outro estrato do significado daquela familiar cena bíblica, de outro mundo de fé, para além do desenho reconhecido da imagem fixada naquele mural do século XV próximo de Milão.
Seja qual for o significado dessas inclusões heterodoxas, elas estão, e não é de mais acentuá-lo, em total desacordo com o cristianismo ortodoxo. Este facto não é novidade para os actuais materialistas/racionalistas porque, para eles, Leonardo foi o primeiro verdadeiro cientista, um homem que não tinha tempo para qualquer forma de superstições ou de religião, que era a verdadeira antítese do místico ou do ocultista. Mas também eles foram incapazes de ver o que estava claramente exposto aos seus olhos. Pintar A Última Ceia sem uma quantidade significativa de vinho é o mesmo que pintar o momento crítico de uma coroação sem a coroa: ou não atinge o objectivo ou atinge outro diferente, a ponto de o identificar como abertamente herético, alguém que possuía crenças religiosas, mas crenças que estavam em desacordo, talvez mesmo em guerra, com as da ortodoxia cristã. E descobrimos que outras obras de Leonardo sublinham as suas obsessões heréticas específicas, através de imagens cuidadosamente aplicadas e consistentes, o que não aconteceria se o artista fosse um ateu, simplesmente interessado em ganhar a vida. Estas inclusões e símbolos desnecessários são mais, muito mais, do que a resposta satírica do céptico a este tipo de incumbências, não são o mesmo que pintar um nariz vermelho a São Pedro, por exemplo. O que estamos a ver na A Última Ceia, e noutras das suas obras, é o código secreto de Leonardo da Vinci, que julgamos ter uma importância espantosa para o mundo actual.

Pode discutir-se que tudo em que Leonardo acreditou ou não acreditou era apenas o ponto fraco de um homem, para mais um homem notavelmente excêntrico, cuja história estava cheia de paradoxos. Podia ter sido um solitário, mas era também o animador de um grupo; desprezava as cartomantes, mas as suas contas registam dinheiro pago a astrólogos; era vegetariano e afectuoso amigo dos animais, mas o seu afecto raramente se estendia à Humanidade; dissecava obsessivamente cadáveres e assistia às execuções com um olhar de anatomista; era um profundo pensador e um mestre de enigmas, de artes mágicas e de mistificação. Dado este complexo panorama, não seria de estranhar que as suas ideias pessoais sobre religião e filosofia fossem invulgares, mesmo subtis. Apenas por esta razão, podia ser tentador considerar as suas crenças heréticas como irrelevantes para o mundo actual. Enquanto, de modo geral, se admite que Leonardo tinha um enorme talento, a moderna tendência para um historicismo arrogante procura desvalorizar as suas realizações. Afinal, quando ele estava no apogeu, até a técnica de impressão era uma novidade. O que podia ter um inventor isolado desses tempos, tão primitivos, para oferecer a um mundo que é continuamente informado, navegando na Net, e que pode, numa questão de segundos, comunicar por telefone ou por fax com pessoas de continentes que ainda não tinham sido descobertos na sua época? Há duas respostas para esta pergunta. A primeira é que Leonardo não era, para usar um paradoxo, um génio vulgar.

Dado que muitas pessoas sabem que ele desenhou máquinas voadoras e primitivos tanques militares, algumas das suas invenções eram tão inverosímeis para a sua época que algumas pessoas mais excêntricas sugeriram mesmo que ele devia ter tido visões do futuro. Os seus desenhos de uma bicicleta, por exemplo, só se tornaram conhecidos depois de 1960. Ao contrário das penosamente prolongadas fases de ensaio do aperfeiçoamento da primeira bicicleta vitoriana, a bicicleta de Da Vinci tinha duas rodas do mesmo tamanho, uma corrente e um mecanismo de engrenagem. Mas, ainda mais fascinante que o verdadeiro desenho, é saber, em primeiro lugar, o que o teria levado a inventar uma bicicleta. O homem sempre desejou voar como as aves, mas ter uma motivação para pedalar ao longo das estradas imperfeitas é completamente mistificador (e, ao contrário de voar, não figura em qualquer fábula clássica). Leonardo também previu o telefone, entre muitas outras futuristas pretensões à fama.
Se Leonardo foi um génio ainda maior do que os livros de história admitem, resta saber que possível conhecimento podia ter possuído, e que causaria impacto, de forma significativa e prolongada, cinco séculos após a sua morte. Embora se possa discutir que os ensinamentos de um rabi do século I teriam menos relevância para o nosso tempo e lugar, também é verdade que algumas ideias são universais e eternas e que a verdade, se puder ser encontrada ou definida, nunca é essencialmente enfraquecida pela passagem dos séculos». In Lynn Picknett e Clive Prince, A Grande Heresia, O Segredo da Identidade de Cristo, Editora Beca, 2000, ISBN 978-858-725-617-1.

Cortesia de EBeca/JDACT

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Leonardo da Vinci. Sophie Chauveau. «É inútil insistir sobre o seu talento, ou melhor, seus talentos: há mais de cinco séculos o mundo se encarrega disso»

Cortesia de wikipedia e jdact

1452-1480
«(…) Quando seu avô Antonio morre em 1464, Leonardo vai viver na casa do pai e lá completar os estudos, afim de ter o mais cedo possível uma profissão. Depois de tantos lutos, esse desenraizamento deve ter sido brutal. Uma extirpação da infância. Nas colinas perfumadas, duas mulheres jovens cuidaram do filho bastardo, além da avó, do avô e do jovem tio. Todos partilhavam com ele um amor imodesto pela vida. A única verdadeira herança de Leonardo será essa paixão pela natureza e pelo ser vivo.

A chegada em Florença é a despedida da liberdade, da natureza e da vida em estado selvagem. É o fim da mãe a algumas colinas dali, das bonitas e doces madrastas, do terno avô e, principalmente, da experimentação de todas as formas de vida na natureza. Instalado na casa do pai, a caminho de tornar-se um grande senhor, Leonardo é compelido a buscar rapidamente uma profissão. Como gosta de desenhar tudo o que vê, como gosta de observar e reproduzir minuciosamente, e como todos ao redor se alegram de contemplar os seus desenhos, ele passa a integrar o prestigioso atelier de Andrea Verrocchio (Andrea di Cione, dito Verrocchio, o olho exacto). É a melhor bottega de Florença, a mais polivalente, onde ele aprenderá todas as artes. Talvez com um pistolão do pai, mas os observadores pensam que o seu simples talento lhe serviu de salvo-conduto.
Lá as pessoas se tratam de modo informal pelo nome, geralmente pelo sobrenome, estando as designações de messer, maestro ou padre reservadas a doutores, médicos, cónegos, monges... E mesmo assim nem sempre. A igualdade reina na Toscana. O florentino vive numa república e se orgulha de ter derrubado as hierarquias sociais. A riqueza de consumismo é severamente punida. O burguês, como o artesão, vai beber na taverna, fala livremente, responde à altura, sempre atento às conversas políticas. E é maledicente! Maledicente como um toscano, dizem na Itália da época. A atmosfera é animada, vibrante, alegre, às vezes febril. As refeições da família ocorrem entre nove e dez da manhã, e outra pouco antes do anoitecer. Marido e mulher, irmãos e irmãs, amigos e companheiros comem no mesmo prato, bebem no mesmo copo, pão, ervas, doces e frutas. Carne só aos domingos. Quando se mata um porco, é preciso dar chouriço ao vizinho senão ele se zanga, lembra o adágio. O florentino vive ainda essencialmente fora de casa. A rua é a peça exterior da moradia. No Verão instala-se ali para jogar dados, xadrez..., a multidão servindo de árbitro, o menor incidente provocando um pânico. Todos sabem tudo de todos.

Andrea Verrocchio abre as portas do seu atelier e certamente o seu coração ao efebo Leonardo. É dele que conservamos a primeira descrição do fenómeno. Sim, um fenómeno, realmente. Pois, tão logo chega a Florença, o superlativo se apodera dele. O ditirambo (poesia em que se celebra o vinho) o segue, o elogio o precede. Parece sobressair-se sobre todos os contemporâneos. Graça, beleza, talento, humor, inteligência, gentileza... O encanto segue os seus passos, o seu físico é elogiado por todos. Mesmo Vasari reconhece que ele é fora do comum. Outros falam dos seus traços angélicos, dos seus olhos claros, azuis ou verdes, ninguém sabe ao certo, dos seus cabelos loiros ou ruivos, optam pelo loiro veneziano. Uma carnação clara, uma pele magnífica. Corpo de efebo esguio. E, o que é notável na época, uma altura gigantesca: mais de um metro e noventa. Quanto à voz, é bela, com certeza, mas terrivelmente alta. Até mesmo superaguda. E ele a utiliza como um instrumento magistralmente trabalhado. A sua gentileza é legendária; o seu humor, irradiante. Sociável e bom companheiro, conquista na confraria dos pintores, artistas e artesãos, assim são classificados os florentinos, uma sólida reputação de bon vivant. É inútil insistir sobre o seu talento, ou melhor, seus talentos: há mais de cinco séculos o mundo se encarrega disso». In Sophie Chauveau, Leonardo da Vinci, 2008, L&PM Pocket (colecção Biografias), Editora Gallimard, 2012, ISBN 978-852-542-640-6.

Cortesia de EGallimard/JDACT

Leonardo da Vinci. Sophie Chauveau. «Os filhos também morrem... Leonardo da Vinci não terá e nunca desejará ter filhos. Nos seus cadernos, declara abertamente o seu horror às mulheres parturientes…»

Cortesia de wikipedia e jdact

1452-1480
«(…) Se as origens da mãe são ignoradas, a família paterna é há dois séculos conhecida e prestigiada em Vinci. Traz o nome das suas terras e, por tradição, forma uma dinastia de notários. Esse ofício consiste então em estabelecer contratos, autenticar actas, mudanças de propriedade, assegurar a função de gerente, conselheiro financeiro e administrador de fortunas. Permite agir por procuração, como mandatário ou supervisor de um comércio. Somente ser Piero, o pai de Leonardo, pratica essa arte. O avô e o seu segundo filho, Francesco, renunciaram a ela para viver felizes sem fazer nada, contentando-se com os seus bens. Só de quando em quando um contrato ou um processo rapidamente despachado força Antonio, o avô, a interromper a sua meditativa partida de gamão. Mas o ritmo é logo retomado. E foi esse velho Antonio que declarou o nascimento do neto com alegria, orgulho e solenidade; foi ele que o fez baptizar na ausência dos genitores e em plena Semana Santa. Neto bastardo, mas acolhido com calor por esse avô, por ser o primeiro neto.
Os historiadores ainda discutem se o nascimento de um bastardo criava ou não um grande problema. Bastardos célebres ilustram a época (Alberti, Bórgia, Lippi...). Mas certamente nunca é simples ser visto ou ver-se como ilegítimo. Apesar disso, tal ilegitimidade assegura a Leonardo uma marginalidade que o ajuda ou mesmo o força a emancipar-se das convenções sociais e familiares, conferindo-lhe uma primeira marca de talento. Da sua diferença, da qual não tarda a ter uma consciência aguda, ele faz uma força.

Quatro anos antes do seu nascimento, o pai, ser Piero, partiu em busca da glória e da fortuna na capital toscana. No ano em que nasce o seu filho natural, ele desposa uma jovem de dezasseis anos, Albiera, bonita e muito bem dotada, que aos poucos será deixada em Vinci na casa do pai. Como não consegue ter filhos, ela transfere seus carinhos a Leonardo, à espera do dia em que terá o seu. Porém, ela morrerá ao chegar esse dia. Teria sido ela que inspirou a inacreditável juventude da Sant’Ana, reflexo das estranhas relações de Leonardo com o trio de mulheres, mãe, avó, madrasta, que cuidam dele? No ano seguinte à morte da sua primeira esposa, ser Piero desposa outra mulher igualmente jovem, igualmente bela e ainda mais rica. Ela também morrerá no parto, impedindo o pai de Leonardo de ter um herdeiro legítimo. Durante 25 anos, o bastardo será o seu filho único. Leonardo terá de se conformar em viver sem os pais, já que ambos não se importam com ele. E, se o pai levou 25 anos até conseguir um herdeiro legítimo, não foi por falta de tentativas. As suas duas primeiras mulheres morreram jovens, no parto. Mas a terceira, quando ele tem mais de cinquenta anos, lhe dá seis filhos. À morte desta, ele desposa uma quarta, que lhe dá outros seis rebentos!
Leonardo vive então a infância cercado de mulheres muito belas e muito jovens às quais prefere não se apegar, pois, assim que engravidam, morrem. Quanto à mãe, a duas colinas de distância da casa do avô, ela vive grávida, entre recém-nascidos ou filhos natimortos, e sob a dominação do marido colérico a quem foi dada. Não é preciso dizer que a criança selvagem constrói uma imagem da maternidade, se não perigosa, na época é comum a morte no parto, ao menos repugnante. Os filhos também morrem... Leonardo da Vinci não terá e nunca desejará ter filhos. Nos seus cadernos, declara abertamente o seu horror às mulheres parturientes, a essas maternidades obscenas, excessivas, assassinas. E o sexo feminino parece um sorvedouro nos seus desenhos pretensamente anatómicos. Como diz André Chastel em seu Traité de peinture, Leonardo da Vinci demonstra uma aversão condoída em relação ao modo de propagação da espécie. Resta, límpida e luminosa, a imagem das mães eternamente jovens. Jovens por toda a eternidade. Ou porque elas morrem antes dos 24 anos, como as suas duas primeiras madrastas, ou porque ele deve brutalmente deixá-las, como deixou a mãe, para fazer a vida na cidade grande, onde recriará livremente nos seus quadros a imagem maravilhosa e definitiva de uma madona de apenas vinte anos». In Sophie Chauveau, Leonardo da Vinci, 2008, L&PM Pocket (colecção Biografias), Editora Gallimard, 2012, ISBN 978-852-542-640-6.

Cortesia de EGallimard/JDACT

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Leonardo da Vinci. Sophie Chauveau. «Diante dele, a perder de vista, colinas onduladas, casas e esplanadas, os troncos nítidos e negros dos pinheiros recortados sobre arcadas brancas, das oliveiras de folhas descoradas»

Cortesia de wikipedia e jdact

1452-1480
«(…) Pode-se dizer que Leonardo da Vinci teve uma infância feliz? Pelos critérios do século XXI, seguramente não. Uma infância sem pai e com pouquíssima presença da mãe, quase sem autoridade e sem verdadeira escola, sem limites, sem imposições... Sem muito amor, mas, com certeza, uma infância livre, uma infância selvagem, uma infância imensa. Numa paisagem que tece o pano de fundo dos sonhos de todo europeu do Sul, no meio de oliveiras plantadas desde a Bíblia, vagando sob a árvore da civilização, acompanhado do canto das cigarras, do ruído do vento nas folhas de figueiras e amendoeiras perfumadas, dos regatos que correm entre uma colina e outra, ele é o filho selvagem do campo da Toscana. Entre Siena, Pisa e Florença, Vinci e Anchiano, entre vinhedos e ciprestes, charnecas e matagais, ele percorre esse lugar como quem respira. Diante dele, a perder de vista, colinas onduladas, casas e esplanadas, os troncos nítidos e negros dos pinheiros recortados sobre arcadas brancas, das oliveiras de folhas descoradas, dos carvalhos de folhagem estranhamente azulada, dos loureiros, dos ciprestes em forma de lança...
Leonardo é tão livre como os animais que vivem nessas paragens e que serão, durante toda a sua vida, seus amigos. Seus primeiros e definitivos amigos. Nenhum o rechasser, (repelir) ele ama de imediato e loucamente o ser vivo em todas as suas formas. Formas vegetais, minerais, humanas, mas sobretudo animais. É o que o apaixona quando criança e que o apaixonará até ao fim da vida. A vida, justamente. Eis o que ele preza acima de tudo.

Em Anchiano, uma jovem servente de albergue, Catarina, é seduzida e engravidada por um jovem notário importante da cidade. É também rapidamente abandonada. Mas a família Vinci mostra alguma atenção por ela. Oito meses após o nascimento da criança que ela certamente conservou consigo, os Vinci lhe arranjam ou lhe compram um marido chamado Accattabriga, apelido frequente entre os soldados e que significa brigão. Uma vez casado com Catarina, ele passa a trabalhar como fabricante de cal, ou seja, explorando um forno a partir do calcário local afim de produzir cal para argamassa, louças, adubo... A família paterna de Leonardo os instala em algum local para depois não ter mais de se preocupar com eles.
Após o nascimento de Leonardo, Accattabriga faz seis filhos, um atrás do outro, na pobre Catarina. Ninguém sabe se outros morreram. Suas meias-irmãs se chamam Piera, Maria, Antonia, Lisabetta e Sandra; o único homem, Francesco, morrerá jovem, na guerra. Na verdade, Leonardo mal conhece esses irmãos por parte de mãe. Desde pequeno, é na casa do avô, em Vinci, que reside em companhia da avó Lucia e do tio Francesco. O pai e as tias paternas já vivem longe, em cidades grandes. A vida em Vinci é modesta, voluntariamente modesta. O avô Antonio optou pelo otium contra o negotium. A arte de viver em vez da arte de enriquecer. Uma vida de pequeno proprietário rural. Dessa existência austera ele fez uma vida feliz. Sem despesas supérfluas. A vida não se compra, como não se compra a alegria. O pomar é cercado do que em Vinci se chama de árvore-do-pão, um castanheiro toscano cuja farinha, quando o Inverno se prolonga, alimenta homens e animais.
Assim Leonardo nasce, por acaso, de uma ilusão de amor, do encontro fugaz de duas linhas, uma proveniente da vida de estudo, a outra da vida bucólica. Será essa a explicação da sua saúde física e intelectual, feita de equilíbrio e força, resistência e argúcia? Mesmo sem ter sido desejada, a criança é aceita. Cresce sem coerções, a escola da aldeia não faz muitas exigências. Ali ensinam os fundamentos. O abaco ministra um ensino dito primário. Nesse povo de negociantes, todos devem aprender a comprar, vender, avaliar o volume de uma jarra à primeira vista e multiplicar os benefícios. Leonardo é uma criança inteligente, assimila tudo o que lhe propõem, domina rapidamente os ensinamentos do abaco.
Nada parece tê-lo ferido ou traumatizado, como se diria hoje. Ele aprende a ler, a escrever, a calcular e certamente um pouco mais, sem nenhuma imposição. A prova é que conservou durante toda a vida a escrita especular dos canhotos não contrariados nem corrigidos. Ninguém julgou conveniente ensinar-lhe a usar a mão direita». In Sophie Chauveau, Leonardo da Vinci, 2008, L&PM Pocket (colecção Biografias), Editora Gallimard, 2012, ISBN 978-852-542-640-6.

Cortesia de EGallimard/JDACT

segunda-feira, 27 de maio de 2019

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «Foram mandados pelos venezianos e são famosos pela sua ferocidade: armados à turca, decapitam os inimigos com mais facilidade do que tu a cortar um caciocavallo»

jdact

Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
«(…) Gian Giacomo levantou-se e aproximou-se da mesa, ainda titubeante. Depois voltou a fechar o embrulho e desceu ao piso inferior. Voltou poucos minutos depois, com o membro na mão, sem o cartucho ensanguentado. Leonardo pegou nele e observou-o atentamente. Bela mão, disse. Não tem calos, não é uma mão de camponês, nem de guerreiro. Mas também não é de um príncipe. A menos que... Já sei: é a direita de um canhoto. Um canhoto como o mestre, disse o rapaz, sabe do que fala. Ao contrário de mim, é um canhoto que foi obrigado a corrigir-se, que para escrever, mas provavelmente só para escrever, usa precisamente esta mão: tem um resto de tinta no indicador; sinal de que sabia escrever, e devia fazê-lo com frequência… Talvez, disse Gian Giacomo, quem a perdeu ainda esteja lá. Se nos despacharmos, procuramos o proprietário e podemos devolvê-la. Mas também podemos esbarrar com o seu perseguidor, que, ao que parece, está armado com machado ou cimitarra: o corte é limpo, como o de um carrasco experiente ou de um estradiota albanês, conheces? Há vários na cidade, sobreviventes da guerra contra os franceses de Carlos VIII. Foram mandados pelos venezianos e são famosos pela sua ferocidade: armados à turca, decapitam os inimigos com mais facilidade do que tu a cortar um caciocavallo. E depois, diz-me uma coisa, o que faz agora o ex-proprietário com a sua direita? Guarda-a numa caixa como recordação? Mas a nós, pode-nos ser útil.
Salai não lhe perguntou para quê, já percebera. Aquela mania do seu mestre de desmontar as coisas, de as abrir, até os mortos, homens, cavalos ou pássaros que fossem, para lhes perceber (ou arrancar) o funcionamento. Mania que ele não compreendia. Ao menos ele roubava, a sua fixação não exigia particulares explicações, o ganho de um furto era evidente. Mas o que se ganhava ao abrir cadáveres? Era só uma coisa nojenta, uma paixão mórbida, pior do que a sua. Por outro lado, contudo, nunca se poria a dar lições de moral ao seu mestre. O seu mestre era bom e não tinha culpa alguma de tudo o que lhe acontecera, motivo pelo qual não conseguia ter paz, nem nunca conseguiria.
Investigaremos com calma, continuou Leonardo, talvez para tranquilizá-lo. Um homem sem mão, se ainda estiver vivo, não passa despercebido, nem um estradiota armado com uma cimitarra. Dito isto, trabalhou a mão como se fosse de barro, colocou-a numa pose lisonjeira, depois pegou na sanguina e desenhou-a numa folha de papel. Desenhava tudo, com extrema rapidez». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «E um pouco de silêncio, per favore. Estou a tentar concentrar-me. Não é fácil para alguém iletrado como eu manter a serenidade de pensamento…»

jdact

2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) O que vai ser de nós?, perguntou, mais preocupado com a sua integridade do que com o resto dos acompanhantes. Não acredito que por esta altura nos vão passear pela rua de capuz com a palavra sodomita, cosida. Vão torturar-nos. E, por mais falsa que seja a acusação, qualquer indício de verdade será motivo suficiente para nos castrarem. Ou isso ou levar-nos-ão directamente para a fogueira. A voz era firme. Os olhos não acompanharam o sentido das palavras que acabava de pronunciar. Continuava suspenso das alternativas que se desvirtuavam na sua mente e se restauravam em várias oportunidades, a maioria das quais com resultado funesto. Bartolomeo trocou a preocupação por medo.
Vão torturar-nos e queimar-nos?! Por uma simples acusação anónima, sem provas?! A sua reclamação podia ouvir-se a metros de distância, mas não interessava nem aos novos inquilinos dos subterrâneos nem aos escassos Oficiais da Noite e Guardas da Moralidade dos Mosteiros. Baccino pôs-se a rezar. Estava tão certo da sua inocência que sabia que o fim só podia ser o Paraíso, mas uma prece nunca era demais. Só receio uma coisa, interrompeu Tornabuoni, tentando transmitir uma serenidade que não acompanhava os sentimentos que lhe percorriam o corpo. Se os guardas subornarem Saltarelli e este fizer declarações contra nós, considerar-se-á verdadeira a calúnia lançada sobre nós, e aí teremos graves problemas. Jacopo é um imberbe de dezassete anos, e não acredito que aceite que o apontem na rua como um cão que gosta de ser açoitado com a verga. Achas que se venderá por alguns florins?, apressou-se a indagar Bartolomeo.
Não me parece, respondeu Tornabuoni, hesitante. Baccino interrompeu a oração. Os olhos saíam-lhe das órbitas. Não dava crédito à conversa que os companheiros de cela, não amigos, entabulavam enquanto aguardavam um castigo que consistia em flagelos e sabe Deus que coisa pior. Ignorantes!, gritou, como se de repente quisesse iniciar um ritual cristão. Não percebeis? Se Judas atraiçoou Nosso Senhor por um punhado de moedas, o que não fará este jovem por quem ninguém dá nada! Maldito seja, seremos executados na praça! Meu Deus, tende piedade... Deus é surdo.
De novo, a voz do engenheiro que sulcava a pedra com um punção metálico interrompeu cortante a discussão tão inútil quanto acalorada que se travava nos escassos metros quadrados que lhes serviam de sala. Registava um tom calmo e seguro, e não só na aparência. A convicção das suas palavras e a serenidade da entoação não eram próprias de uma situação tão preocupante.
E um pouco de silêncio, per favore. Estou a tentar concentrar-me. Não é fácil para alguém iletrado como eu manter a serenidade de pensamento se só disserdes disparates. Disparates?, perguntou, ofendido, o crente Baccino. Pelo menos procuramos adivinhar o futuro em conjunto. Não tentamos agarrar avaramente o destino com as mãos e um punção ou apropriarmo-nos dele ignorando a companhia que, tão injustamente acusada como vós, nos rodeia. Apesar de não existir uma relação profunda entre ambos, nunca se haviam falado daquela maneira, tudo fora cortês e educado. Mas o medo e a incerteza pouco a pouco faziam mossa entre os mais frágeis e inseguros, como era o caso de Baccino. A boca matou mais gente do que a espada, caro Baccino, pronunciou a voz. E acrescentou: a liberdade é o maior dom da natureza. Logo que a virtude nasce, a inveja vem ao mundo para a atacar; e, lembrai-vos do que vos digo, meus amigos, mais cedo haverá corpo sem sombra do que virtude sem inveja. Vamos, meu amigo, não é a altura certa para filosofar, afirmou Bartolomeo. O que pensais fazer?
Por alguns segundos, o único som que quebrava o silêncio que se produzia na sala eram as lascas de pedra a saltar para o solo, atingidas por um incansável punção. Ninguém estava à espera do que iam ouvir. Não era uma proposta. Era uma sentença. Eu, Leonardo da Vinci, penso fugir desta prisão. Antes estar morto do que não ter liberdade. Entretanto, a cento e vinte quilómetros dali, estava prestes a surgir a encarnação do novo representante do Céu na Terra para desencadear o seu próprio Juízo Final». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «… fragilidade da cela em forma de cúpula em que se encontravam. Muito pequena, mesmo para quatro ocupantes. É desumano, pensou»

jdact

2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Vira-o a criar, da mesma maneira, na oficina Via Bufalini, onde uma vez por mês levava as indumentárias remendadas dos aprendizes por ordem do mestre Andrea. O ateliê era fácil de localizar, pois pelo menos quinze pequenos edifícios haviam sido demolidos em volta para a iminente construção do futuro Palazzo Strozzi, e ele tinha de proteger a roupa que transportava do pó que se erguia. Mas essa informação escapava a Baccino, visto que, para ele, crente no Todo-Poderoso, havia apenas um destino e, no momento e no lugar em que se encontravam, este parecia muito próximo. Aceitá-lo-ia com resignação, se fosse o que o Senhor houvesse decidido. Embora, para quê negá-lo, parte do seu espírito desejasse regressar ao Bairro de Or San Michele, onde recentemente abrira a sua própria loja. Tentou ajudar à sua maneira, esquadrinhando qualquer indício de fragilidade da cela em forma de cúpula em que se encontravam. Muito pequena, mesmo para quatro ocupantes. É desumano, pensou.
De repente, os seus olhos pousaram em Tornabuoni, que, envergando o habitual hábito negro, descansava no canto oposto, com as mãos apoiadas na cabeça, como se lamentasse cada um dos minutos de vida que lhe escapavam sob as camadas infinitas de rocha e humidade. Não queria que aquela falsa acusação manchasse o imaculado apelido que carregava, familiar de nada mais nada menos que Lucrecia Tornabuoni, esposa de Piero Médici e mãe de Lorenzo Médici. Em suma, aparentado com a mulher mais influente da família mais poderosa dos Estados italianos. Tudo remontava a dois meses antes, a quatro dias do vigésimo quarto aniversário de Leonardo. Uma mão tão anónima quanto cobarde abriu a caixa de Pandora numa pequena arcada lateral do Palazzo Vecchio. Não se conheciam as motivações desse indivíduo, mas, efectivamente, espoletou a guerra. Deixou uma falsa acusação no pior sítio onde esta podia ser deixada em toda a cidade de Florença. O depósito de pedra, a boca da verdade, o tamburo. Uma simples nota com uma acusação detalhada com nomes e apelidos era suficiente para dar início à perseguição dos caluniados e para os pôr, no mínimo, na presença da justiça. O documento notarial seria desprezado em algumas semanas se não surgissem provas definitivas e testemunhas de peso sem cortinas de anonimato para reafirmar a acusação.
Absoluti cum condizione ut retamburentur.
O encarceramento fora grotesco. A recepção no palácio representara uma guerra psicológica permanente. Logo que entraram pela porta da inexpugnável fortaleza, o pátio acolheu-os com uma série de murais difamatórios explícitos, onde os criminosos eram atormentados pelos seus pecados e os diabos os torturavam a caminho do inferno. Lá dentro, a dúvida revoava pelo reduzido tecto da prisão. Apareceria alguém? Seriam condenados? Ou, pelo contrário, seriam absolvidos do crime imputado? Fosse como fosse, ninguém questionava que a dúvida semeada mancharia a reputação de mais de uma pessoa. Bastava que corresse de boca em boca o texto da acusação entregue no tamburo:

Notifico-os, signori Officiali, de um facto certo, ou seja, que Jacopo Saltarelli, irmão de Giovanni Saltarelli, vive com este último na ourivesaria de Vacchereccia, frente ao tamburo: veste de negro e tem cerca de dezassete anos. Este Jacopo foi cúmplice em muitos actos vis e consente em agradar às pessoas que lhe peçam tal iniquidade. E deste modo teve muitos entendimentos, quer dizer, serviu várias dezenas de pessoas a respeito das quais sei muitas coisas e aqui nomearei algumas: Bartolomeo di Pasquino, ourives, que vive em Vacchereccia; Leonardo di Ser Piero da Vinci, que vive com o Varrocchio; Baccino, o alfaiate, que vive em Or San Michele, na rua onde há duas grandes lojas de cortadores de panos e que dirige a Loggia dei Cierchi; recentemente abriu uma alfaiataria; Lionardo Tornabuoni, chamado il teri, veste de negro. Estes cometeram sodomia com o dito Jacopo, e isto testemunho eu diante de vós.

Dois meses de interrogatórios, torturas e vexames que, aos poucos, minaram o moral dos acusados, Bartolomeo, o ourives vizinho da localidade de Vacchereccia, foi o primeiro a cortar o ambiente com a sua voz apreensiva». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

sábado, 27 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Alheio a tudo o que o rodeava, o dono dessa mão, nos seus vinte anos, parecia aplicar a arte da docência a alunos inexistentes, em vez de tramar um impossível plano de fuga»

jdact

2 de Maio de 1519
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Majestade, não perdi contra a dificuldade dos desafios. Perdi apenas contra o tempo..., disse Leonardo, retirando importância às notícias de Chambord. Maître, prefiro que me chameis Francesco, respondeu o rei num acto de humildade que Leonardo soube agradecer com o mais caloroso dos olhares. Assim seja, querido Francesco, assim seja. E fechou os olhos. Kekko..., aproximai-vos... O ajudante aproximou-se, veloz. Nesse breve período, Francesco Melzi esqueceu a presença do rei de França, e o próprio Francisco I passou por cima dessa falta de formalidade. Dizei, mestre... O que desejais?, perguntou, como se o tempo parasse apenas para agradar ao tutor. Apenas um abraço, meu amigo. Apenas um abraço, respondeu Leonardo com um delicado tom de voz. Quando Melzi se abalançou serenamente sobre o corpo do mentor, criou-se tal fusão que qualquer casal de amantes teria hesitado. Mas, longe de qualquer libido, ali respirava-se carinho, respeito, admiração e dor, muita dor. Kekko, meu amigo. Não estejas tão triste. Leonardo tentou apaziguar o incondicional e jovem assistente com belas palavras. Viverei sempre que falarem de mim. Lembra-te de mim. E terminou piscando-lhe um olho carregado de cumplicidade.
Leonardo inspirou de tal maneira que os ali presentes souberam que não veria um novo amanhecer. Que a vida lhe fugia. Após tanto sofrimento e tanta perseguição. E tanta mensagem em código e tanta pincelada para a história. Leonardo da Vinci chegava ao fim. Francesco..., amigos..., chegou a hora... Simultaneamente venerável e vulnerável, Leonardo estava preparado para partir…, de percorrerem o caminho sem mim. Mestre!, gritou Melzi sem reprimir um soluço. MaîtreMon père... As palavras do rei afogaram-se não só no seu próprio mar de lágrimas, mas no oceano onde se fundiam com as lágrimas dos outros. Chegou a hora..., de voar...
E voou. Mais alto e mais longe do que nunca. Um voo de ida, apenas. Um voo que, mais cedo ou mais tarde, todos faremos. Um silêncio sepulcral invadiu a sala. François Desmoulins, como se de um fantasma se tratasse, deu meia volta e, sigilosamente, transpôs a porta que, acto contínuo, fechou com extrema precaução. Mathurina encharcou de lágrimas o pano, que já não enxugava líquido algum. Francisco I manteve-se em silêncio. Um silêncio cortês e admirável. Um silêncio que dizia tudo. Francesco Melzi, Kekko, caiu no chão, junto à cama, com o piscar de olhos cúmplice a pairar-lhe na memória. Leonardo da Vinci conquistara o céu ancorado ao chão.

Florença. 29 de Maio de 1476. Calabouços subterrâneos do Palazzo del Podestà
No ano de 1476 de Nosso Senhor, uma mão trabalhava com esforço sobre a fria e húmida parede de pedra que fechava uma das celas da prisão, nas divisões inferiores do Palazzo del Podestà, futuro Palazzo del Bargello, situado a pouco mais de quatrocentos metros do centro nevrálgico de Florença. Um edifício bastante reconhecível ao longe, pois a sua torre de menagem era das mais altas da cidade. Ali residia o magistrado governador da urbe, um estrangeiro eleito com o propósito de representar a objectividade no exercício da justiça. Na fachada, uma inscrição alertava para o poder de Florença:

Florença está repleta de inimagináveis riquezas.
Proclama-se vencedora contra os seus inimigos, tanto na guerra como nas lutas civis.
Goza do favor da Fortuna e tem uma população poderosa.
Com sucesso, fortifica e conquista castelos.
Reina sobre os mares e as terras e sobre o mundo inteiro.
Sob o seu comando, toda a Toscana transborda de felicidade.
Tal como Roma, Florença triunfa sempre.

A mão rasgava uma e outra vez no mesmo sentido, para que a gravura ficasse nítida e se pudesse desenvolver a ideia seguinte. Alheio a tudo o que o rodeava, o dono dessa mão, nos seus vinte anos, parecia aplicar a arte da docência a alunos inexistentes, em vez de tramar um impossível plano de fuga. As linhas horizontais terminavam numa bifurcação, e cada opção transformava-se em nova linha que voltava a concluir-se irremediavelmente numa nova divergência. Uma ramificação pedregosa com uma única intenção. Os companheiros de cela não sabiam distinguir o que o dominava, a sua obstinada teimosia ou a genialidade que pouco a pouco lhe ressumava dos poros da pele. Baccino, dias antes alfaiate e hoje também prisioneiro, não se atreveu a perguntar. Sabia perfeitamente a resposta do homem que tinha diante de si, a escassos metros. O silêncio. Tal era a sua concentração. Embora também não fosse necessário pronunciar palavra alguma para descodificar o mistério que aos poucos se espalhava pela cela de pedra. Estava a calcular probabilidades; a calcular possíveis futuros, ter-lhe-ia respondido o companheiro. Sabia-o bem». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «É um sinal celeste, o corte da mão é a pena clássica dos ladrões. Esta é a mão direita, por isso, o seu dono deverá ter roubado algo muito precioso»

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Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
«(…) Pelo canto do olho, Leonardo seguia preocupado os movimentos de Gian Giacomo, o seu aprendiz de 15 anos, a quem, contudo, chamava Salai, nome de um diabo do Morgante de Pulci. Notara que o rapaz voltara com um cartucho sujo e um tanto húmido na mão, que depositara sobre a mesa junto ao livro de Luca Pacioli. Depois fora-se sentar no banco atrás de si, e tornara-se impossível continuar a espiá-lo disfarçadamente. Até breve, mestre Leonardo!, despediu-se Cardano. O artista acompanhou-o à porta, no piso térreo: até breve. Depois voltou ao piso de cima. Salai continuava ali, encolhido no banco, de rosto pálido como se, pelo caminho, tivesse encontrado Belzebu em pessoa. Tremia, até. Leonardo correu para o cartucho ensanguentado depositado sobre a mesa pelo seu assistente. Abriu-o, viu o que estava lá dentro e deu um salto para trás, enojado. Uma mão humana, cortada com um golpe preciso à altura do pulso. E o sangue era fresco.
Enlouqueceste?, gritou, dirigindo-se a Salai, que levantou para ele um olhar que parecia implorar piedade. Sei que és ladrão e reincidente, mas que te dê agora para roubar ao próximo até pedaços de membros... Desde o dia em que o pai, um pobre operário da Brianza, lho oferecera, digamos assim, cinco anos antes, que Gian Giacomo revelara este defeito: era um ladrão inveterado. Não por necessidade, porque Leonardo gostava dele como de um filho e gastava mais com ele do que consigo mesmo, mas por uma espécie de doença. Roubava dinheiro, jóias, objectos mais ou menos preciosos de todo o tipo, até os caríssimos pigmentos de azul-ultramar, oito ducados a onça, a renda de um ano no Borghetto. Era mais forte do que ele, não conseguia refrear-se, era como se tivesse de compensar o facto de ter sido abandonado pelos pais aos 10 anos, como se a própria natureza estivesse em dívida para com ele e todos os outros seres humanos, sem distinção de classe, sexo ou idade, não fossem mais do que os titulares daquela dívida imensa. Leonardo afeiçoara-se a ele até de mais: no rapazito, que considerava lindíssimo, revia-se a si próprio adolescente, os mesmos caracóis dourados, o mesmo olhar atrevido e impertinente de quando ele, mais ou menos com a mesma idade, posara para o David do seu mestre florentino, Verrocchio, e fora imortalizado naquela estátua em toda a sua inconsciente, e melancólica, desfaçatez de então. Por outro lado, até isto tinham em comum, o terem sofrido um abandono precoce. Mas, isto é certo, haviam desenvolvido modos opostos de se compensarem: Gian Giacomo roubava tudo o que podia, já Leonardo tudo o que gostaria de roubar à mãe natureza eram os seus infinitos segredos. Então? Ficaste mudo?
Salai começou a balbuciar imprecações no dialecto da Brianza. Quando o seu elóquio se fez compreensível, a Leonardo pareceu-lhe perceber o que se segue: que o rapaz, ao anoitecer, ia a passar pela catedral debaixo do zimbório de construção recente, aquele para o qual também Leonardo apresentara um projecto que, contudo, fora chumbado; debaixo dos andaimes ainda montados daquela parte da igreja em construção ouvira um grito aterrador que vinha do alto; os operários já deviam ter saído, por isso, já não deveria estar ali ninguém; parara a olhar para cima, mas na penumbra do crepúsculo não conseguira distinguir silhuetas humanas; logo a seguir, à sua frente, vira a coisa cair, ouvira um baque, inclinara-se sobre o objecto acabado de chover do alto: era a mão decepada; apanhara-a, embrulhara-a em papel, enfiara-a na bolsa e desatara a correr como um louco na direcção da Corte Vecchia. E era tudo. Que não lhe perguntasse porque se comportara daquela forma, que não parara para pensar, simplesmente fora um gesto espontâneo, o embrulhar a mão e levá-la para casa. Lava-a!, intimou-o o mestre. Como?
É um sinal celeste, o corte da mão é a pena clássica dos ladrões. Esta é a mão direita, por isso, o seu dono deverá ter roubado algo muito precioso. Aconteceu-te para que saibas qual é o teu destino se não deixares de roubar a torto-e-a-direito. Estás à espera de quê? Eu disse-te para a lavares». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT

A Biblioteca Secreta de Leonardo. Francesco Fioretti. «Aqui estão eles, os cento e dezanove soldos. Conte-os também, por segurança. Desta vez, pelo menos, ser Fazio apresentara-se com uma cópia nova e não cortada da Summa de Luca Pacioli»

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Prólogo
«A quinta-essência, espírito dos elementos, vendo-se aprisionada pela alma do corpo humano, deseja sempre regressar ao seu mandatário. E vós, sabei que este desejo existe na quinta-essência companheira. E o homem é modelo do mundo. Aprende a multiplicação das raízes com o mestre Luca». In apontamentos de Leonardo da Vinci

E era assim que acontecia também em Sforzinda, a cidade perfeita desenhada por Filarete, em estrela de oito torres, inscrita no círculo e no octógono, com os seus bastiões, e os muros possantes. Que estava agora seriamente ameaçada pelas forças obscuras e agressivas do Esquecimento, do Primeiro Caos, da Desmentegansa, como se diz por aqui. Mas não ficara ninguém a resistir, a vender, como nós, cara a pele. Apenas Salai e eu, um frade, uma duquesa sem ducado, mais ninguém, barricados cá dentro. Felizmente, tudo estava bem predisposto. O inimigo chegaria de todas as direcções, de todas as partes apontaria contra os muros as suas bocas de fogo aterradoras... Vivemos um tempo férvido e agora vieram reclamá-lo.
[…]

Milão. Corte Vecchia. 7 de Fevereiro de 1496
O rapaz entrou ofegante e de rosto pálido, naquele seu habitual ar descontraído e rebelde , cruz e delícia do seu mestre. Leonardo observou-o com atenção, fingindo que nada se passava e continuando a conversar com Fazio Cardano, que fora visitá-lo à sua oficina da Corte Vecchia, ao lado da catedral. Fazio Cardano, desdentado e muito feio, tinha o seu costumeiro fato vermelho, e estava a pôr a capa preta. Vestia-se sempre do mesmo modo: era uma personagem singular. Em Milão ninguém sabia se era médico ou jurisconsulto, mas certo era que se ocupava de alquimia e de ciências ocultas. Passara há pouco os 50 anos, por vezes falava sozinho, com o seu génio familiar, dizia ele. Sabia imensas coisas, mas era a confusão em pessoa, misturava ciência e superstição, astrologia e anatomia, álgebra e mitologia egípcia, num saber desordenado e desprovido de método, no qual os demónios e os teoremas de Euclides eram objecto da mesma não muito bem definida matéria de estudo. Mas possuía livros valiosos, e Leonardo há muito tempo que fazia a corte à perspectiva de Al-Kindi, que Fazio se gabava de possuir, mas que nunca lhe mostrara. E, gostaria de aprender as matemáticas de que ser Fazio se dizia especialista, mas evitava sempre as suas perguntas: como se enquadra um triângulo, e porque é impossível enquadrar um círculo?
Aqui estão eles, os cento e dezanove soldos. Conte-os também, por segurança. Desta vez, pelo menos, ser Fazio apresentara-se com uma cópia nova e não cortada da Summa de Luca Pacioli, Tê-la-ia dado por 130 soldos, uma quantia bastante consistente, mais do dobro do que lhe custara a Bíblia em língua vulgar que deveria servir-lhe para a Última Ceia de Santa Maria delle Grazie. O livro do franciscano de Sansepolcro era, contudo, precisamente aquilo de que Leonardo necessitava. Ali estava tudo. Era de facto a soma de todo o saber matemático do seu tempo: da álgebra à partida dobrada, da arquitectura à perspectiva, da geometria euclidiana à matemática financeira... Ali estava mesmo tudo. Após uma longa negociação, haviam descido até 119 soldos, e agora Cardano, após guardar o dinheiro num saquinho de pele, decidira-se finalmente a ir embora. A Summa, bem encadernada, estava ali, em cima da mesa no meio daquela grande divisão». In Francesco Fioretti, A Biblioteca Secreta de Leonardo, 2018, Marcador Editora, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-989-754-394-4.

Cortesia de MarcadorE/EPresença/JDACT

quinta-feira, 18 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Quem sou eu para dar conselhos a um rei, isso é trabalho para outros, que, possivelmente, fá-lo-ão melhor do que eu, disse Leonardo apontando com a única mão capaz para François…»

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2 de Maio de 1519,
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) Tendes de me desculpar, majestade. Os olhos atónitos de Francisco I não entendiam o porquê desta súplica. Vós e todos os homens. Vós e Deus em pessoa, que está no céu. Peço perdão, porque o meu trabalho não teve a qualidade que deveria. E é uma ofensa para o Criador e para toda a criação... Desta vez foram os olhos de Leonardo que, através das 1ágrimas, se tornaram cristalinos. O ar que se respirava naquela divisão tinha perfume de despedida..., e sabor de amargura. François Desmoulins, a personificação do protocolo na corte real, fazia um esforço titânico para manter a compostura. Não integrara o círculo de confiança do quase extinto mestre florentino, mas professava-lhe carinho apenas pela forma como tratava o seu aluno e, ao mesmo tempo, senhor de França. Poucos meses depois de se instalar nos domínios franceses de Francisco, já se podia ler no rosto do experiente artista italiano a expressão mais sincera de agradecimento por um mecenato sem igual na sua terra natal.
Quem sou eu para dar conselhos a um rei, isso é trabalho para outros, que, possivelmente, fá-lo-ão melhor do que eu, disse Leonardo apontando com a única mão capaz para François, que nesse momento despertava dos pensamentos. Mas deixai-me que vos diga, majestade, que tendes de procurar adquirir em vossa juventude aquilo que diminuirá os danos em vossa velhice. Vós, amante das letras e das artes, que acreditais que a velhice tem por alimento a sabedoria, fazer o possível e o impossível em vossa juventude, de tal modo que, em vossa velhice, majestade, não vos falte esse sustento. Assim farei, maître Leonardo... Um nó na garganta impedia-o de falar. Nem o uso de sessenta canhões de bronze contra vinte mil soldados pertencentes aos três contingentes dos confederados na batalha por Milão o deixara sem palavras. Kekko, meu amigo, dirigiu-se a Melzi, disponde de tudo tal como determinámos. Agora sois vós o protector.
As pausas entre palavras eram cada vez mais longas. Assim se fará, mestre, assentiu Francesco, de forma mais sentimental do que profissional. Está tudo preparado. Podeis descansar em paz. Leonardo voltou-se para a sua vetusta governanta. Antes de abrir a boca, abraçou-a com um enorme sorriso. Mathurina secava as lágrimas com um pano, o mesmo que dias depois lhe seria entregue de forma especial. Mathurina, manda os meus cumprimentos a Battista de Villanis, que cuide de Milão e do Salai. E a ti, eterna companheira, obrigado por cada palavra de ânimo que me dedicaste. Nem a tosse do mestre maculou a atmosfera de carinho. Por vezes, tal como as palavras têm duplo sentido, as peças de roupa estão cosidas com duplo forro. Ninguém compreendeu esta última frase, nem Mathurina. Também ninguém se esforçou para entender o enigma das suas palavras. Mais cedo ou mais tarde, ou alguém teria uma surpresa ou o mestre levaria o resultado da adivinha para a sepultura.
Leonardo, dei ordem para iniciar o vosso projecto. O château de Chambord começará a ser construído logo que dispusermos do necessário. Domenico está ansioso por ver o seu trabalho arquitectónico fundido com a escada de dupla hélice. França e Itália, tudo em um. Apesar da dificuldade que implicava criá-lo a partir do nada, asseguro-vos que será um êxito, mon ami. Francisco I presenteou-o com estas belas palavras. Sabia que Leonardo nunca veria a obra terminada. Nem chegaria a ver o pôr-do-Sol. Mesmo assim, tomava por certo que uma boa notícia alegraria os ouvidos receptivos do sábio amigo. No entanto, o rei não estava preparado para ouvir as palavras pronunciadas a seguir». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 17 de abril de 2019

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. «Francesco teve de desviar o olhar para esconder o riso. Procurou cumplicidade em Mathurina, mas o que encontrou foi uma silenciosa reprimenda que o fez ruborizar»

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2 de Maio de 1519,
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«(…) A última coisa que jantou foi uma sopa quente, disse entredentes, afastando o olhar do rei, que, apesar da confiança que tinha com o seu senhor, lhe instilava um profundo respeito. Francesco Melzi encontrava-se junto à cabeceira. O fiel secretário pessoal de Leonardo não estava há mais de doze anos com ele, mas o seu carinho, a sua preocupação e o trato familiar haviam-no confirmado como o seu braço direito. Está tudo a postos, majestade, disse ao rei. O monarca percebeu imediatamente. Leonardo tivera tempo suficiente e prudência para preparar a sua partida e tinha como assente que o seu testamento estava definido e que mais nada o prendia ao mundo dos vivos. Francisco I de França dirigiu um olhar rápido ao seu conselheiro real, François Desmoulins. Uma das capacidades do jovem regente era a comunicação não verbal, algo muito útil em situações como aquela. Numa fracção de segundo, Desmoulins instou a comitiva que apinhava a pequena sala que fazia as vezes de quarto principal que concedesse a sua majestade alguns minutos de intimidade. Com um pequeno gesto, indicou que os mais próximos de Leonardo poderiam, se fosse do seu agrado, ficar ali. Nada tinha a esconder daqueles que partilhavam igual afecto pela mesma pessoa.
Mon père..., foram as únicas palavras que o governante de França ousou pronunciar. Francesco, disse Leonardo com uma confiança que ultrapassava qualquer solenidade real e um finíssimo fio de voz, o qual mantivera o costume de italianizar os nomes daqueles com quem lidava. Grazie por realizar semelhante... Não há nada para agradecer,  interrompeu Francisco, evitando que o idoso desperdiçasse esforços. Por onde anda Caprotti? Pensava que, num momento como este, haveria de querer estar presente. Sabia que a pergunta era a menos adequada, mas precisava de começar de qualquer maneira, e não sabia quanto tempo lhe restava. O jovem Francesco apressou-se a responder. Sabia que Salai tinha consciência do delicado estado de saúde do mestre. Ele próprio procurara transmitir-lho por meio de carta, da qual obteve como resposta um seco mais cedo ou mais tarde, tinha de acontecer. Uma informação que administrou com cuidado e dissimulação, já que a missiva nunca chegou às mãos de Leonardo. Vontade não faltou a Francesco, visto que, apesar do abandono, Leonardo se lembrara de Gian Giacomo Caprotti, alás, Salai, com grande generosidade, no seu testamento. Mas era a vontade do maior génio que havia conhecido, e decidiu mantê-lo na ignorância para não provocar males maiores. Não lhe custou muito mentir a um rei. Giacomo encontra-se em Florença a tratar de questões financeiras, afirmou com uma credibilidade esmagadora, e, na impossibilidade de chegar a tempo às vossas terras de França, preferi não o alertar acerca deste funesto acontecimento. Maldito fornicador, este diabo!, gritou Leonardo, fazendo acompanhar estas palavras de uma ruidosa tosse. De certeza que anda a passear a verga e, ao mesmo tempo, a limpar os bolsos, não sabe fazer outra coisa!
Francesco teve de desviar o olhar para esconder o riso. Procurou cumplicidade em Mathurina, mas o que encontrou foi uma silenciosa reprimenda que o fez ruborizar. Francisco acompanhava toda a cena com atenção e, apesar da tristeza que se respirava no ambiente, esboçou uma careta que poderia perfeitamente ter resultado num acesso de riso. Mas, acto contínuo, Leonardo voltou a pousar os olhos no rei de França, como fazia há mais de vinte anos. Leonardo, mon ami, calma..., sussurrou Francisco enquanto compunha os cabelos de um idoso agora alterado que se revolvia ligeiramente por baixo dos lençóis. Há algo que possa fazer por ti, maître? Não, majestade. Já não há nada a fazer. Queriam matar Leonardo da Vinci. De uma maneira ou de outra, conseguiram. Pequenas lágrimas apareceram nos espelhos da alma de Mathurina. Francesco Melzi abanou a cabeça. Quanto mais tempo passava, mais custava a Leonardo da Vinci articular alguma palavra, e demorava-se a dosear a respiração que expelia de uma maneira inteligente e racional, como se se tratasse de um novo invento para formular as palavras necessárias no tempo certo». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

As Sombras de Leonardo da Vinci. Christian Gálvez. « Ali, em Milão, esperava-o um Leonardo cada vez mais velho, mas suficientemente enérgico para voltar a embarcar noutra aventura: atravessar de novo as fronteiras da sua pátria»

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2 de Maio de 1519,
Mansão de Clos Lucé, Amboise
«Majestade, Leonardo da Vinci está a morrer. Subiu as amplas escadas que separavam a entrada do primeiro andar da quinta de Clos em segundos. Francisco I, rei de França, ignorou o comportamento próprio do protocolo real para chegar rápido junto do leito do amigo. Não hesitara um segundo ao deixar a esposa, Claudia de Valois, em boas mãos, alguns dias antes, depois de confirmado o estado de saúde do seu quarto filho e futuro delfim da casa Valois-Angoulême. Confiava plenamente no serviço do château de Saint-Germain-en-Laye. O mensageiro fora breve e directo. Majestade, Leonardo da Vinci está a morrer. Não fora preciso acrescentar mais nada. Francisco e Claudia necessitaram apenas de um olhar para compreender que aquele imprevisto tinha um único desenlace. O monarca em pessoa estaria presente no último sopro de vida do mestre florentino. Como rei, como padrinho, como aluno, como amigo. Dois dias intensos de caminho a reflectir sobre os últimos tempos. Haviam-se passado apenas três anos desde que Francisco I de Valois e de Angoulême entrara vitorioso em Milão, depois de vencer a Confederação Suíça na batalha de Marignano, que à data se proclamava senhora do milanesado. Em momento algum a sua ânsia de expansão territorial ofuscara a mente deste jovem rei amante das letras e das artes. Com o seu bom senso, reclamava apenas aquilo que por herança pertencia a sua esposa, Claudia, filha do anterior rei de França, Luís XII de Orleães.
Ali, em Milão, esperava-o um Leonardo cada vez mais velho, mas suficientemente enérgico para voltar a embarcar noutra aventura: atravessar de novo as fronteiras da sua pátria e, desta vez, aceitar o convite de um verdadeiro monarca para se tornar o primeiro pintor, o primeiro engenheiro e o primeiro arquitecto do rei. Embora, na época, Francisco tivesse outros planos. Queria, para lá de qualquer cargo cívico, um conselheiro, um amigo, um pai. Faz o que quiseres. Foram estas as palavras dirigidas a um Leonardo que, logo chegado à nova residência campestre, já imaginava o seu novo ateliê enquanto o seu assistente ainda não acabara de desembalar os instrumentos e as tintas do mestre. Como despedirmo-nos de alguém quando não estamos preparados? Como despedirmo-nos de alguém quando sentimos que muito fica por partilhar? Estas perguntas pairavam na mente do rei enquanto subia as escadas que conduziam ao primeiro andar da quinta onde o seu amigo italiano se estabelecera havia três anos.
Os seus poucos amigos, a criadagem, parte da corte real destinada a Amboise, todos ali estavam, encerrados numa construção de tijolo vermelho e lousa. Ao transpor a porta, não quis interromper o ritual que decorria aos pés do idoso que jazia na cama. Mais tarde, ficaria a saber que Leonardo, que sempre se debatera entre a fé e a razão, acabava de se confessar e recebia a extrema-unção, um indício de que o filho de Vinci sabia que a vida se lhe ia extinguindo. Lançou uma olhadela pela divisão. Tudo continuava na mesma. A secretária do amigo estava onde o vira escrever pela última vez, frente à janela. À direita, a lareira, sem sinal de ter sido utilizada recentemente.
Mal o sacerdote terminou o trabalho de Deus, afastou-se da cama para dar lugar ao rei de França. Desta vez, a pressa com que chegara ao quarto transformou-se numa sucessão de passos pesados, lentos, prudentes, respeitosos. À medida que Leonardo voltava a cabeça e, com surpresa, recebia esta inesperada visita, Francisco I louvou, com um sorriso forçado, a companhia de que seu pai gozava. Mathurina, cozinheira, governanta e a extensão viva da residência, já adiantada nos anos, aguardava de um dos lados com uma manta, pois era habitual preocupar-se com a possibilidade de o seu senhor apanhar frio. As rugas que acumulava no rosto eram, na realidade, um conjunto de volumes sobre a experiência que não seria possível encontrar nem nas melhores colecções de Lorenzo de Médici». In Christian Gálvez, As Sombras de Leonardo da Vinci, 2014, Clube do Autor, 2018, ISBN 978-989-724-367-7.

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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Na Romagna. Paul Strathern. «No entanto, durante quanto tempo mais manteria Orsini a aparência de que apoiava Bórgia?»

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Traição e Bluff
«(…) Soderini conteve-se, mas estava sem sombra de dúvida perturbado. Maquiavel pode ter ficado também perturbado, mas além disso sentiu-se impressionado e não deixaria de o transmitir no despacho que enviou para Florença: este senhor é verdadeiramente esplêndido e magnificente e, na guerra, não há empreendimento por maior que seja que não lhe pareça pequeno; é incessante na busca de glória e de território e não conhece perigos nem fadiga. Chega a um lugar antes que qualquer pessoa se aperceba de que saiu do lugar onde estava antes. É amado pelos seus soldados e tem ao seu serviço os melhores homens de Itália. Tudo isto lhe permite ser vitorioso e formidável, particularmente à luz da sua boa fortuna permanente. A notícia de que Bórgia tinha tomado Urbino de súbito, a chegada de noite, fatigado, após longa e dura cavalgada pelas montanhas, o ter sido levado apressadamente para o palácio mal acabara de desmontar, os guardas armados e o trancar das portas depois de terem entrado, e por fim o aparecimento teatral de Bórgia com a luz das velas atrás de si num salão às escuras, tudo isto deve ter contribuído para baixar as defesas de Maquiavel. Este tinha na altura 33 anos e já se encontrara com várias figuras importantes, e, no entanto, esta fortíssima primeira impressão permaneceria com ele para o resto da vida, afectando todos os seus posteriores pensamentos acerca de Bórgia.
Durante este encontro em Urbino, as aptidões políticas de Maquiavel levá-lo-iam a suspeitar de que havia um certo bluff no estilo bombástico de Bórgia. Mas nem isso podia já perturbar a imagem ideal de um conquistador enérgico e sem escrúpulos, que tão fortemente tinha ficado gravada na sua mente. Soderini e Maquiavel não o sabiam ainda, mas a situação de Bórgia tinha sofrido uma modificação drástica nos dias anteriores. Luís XII, que se encontrava prestes a estabelecer a sua corte em Asti, no Norte de Itália, não estivera tão distraído como parecia por causa da sua disputa com a Espanha. Observara a terceira campanha de César na Romagna e estava bem ciente do que ele era capaz. Mas isso ainda não era tudo. Como resultado da tomada traiçoeira de Urbino por Bórgia, os seus inimigos na região tinham fugido e iam a caminho para expor o seu caso a Luís XII, que, ao que constava, tinha ficado em particular aborrecido com o movimento ostensivo de Bórgia sobre Arezzo, em território florentino. Contudo, esta acção de Vitellozzo não era inteiramente da responsabilidade de Bórgia, e este estava bem consciente de que, na melhor das hipóteses, o seu comandante só estava parcialmente sob o seu controlo. Como se isto já não fosse mau o suficiente, Bórgia ouvira falar de uma conspiração contra si, que estaria a ser montada entre os seus comandantes Vitellozzo, Baglioni e Liverotto da Fermo. Muitos dos castelos e domínios que lhes pertenciam situavam-se ao longo das fronteiras ocidental e meridional do ducado da Romagna de Bórgia, e eles acabavam de compreender a sua vulnerabilidade face às contínuas intenções expansionistas de Bórgia. Só virando-se contra ele tinham probabilidades de sobreviver. Mesmo Paolo e Giulio Orsini, que se encontravam com Bórgia em Urbino, tinham, segundo os boatos, sido contactados para se juntarem à conspiração. No momento, ajudavam Bórgia a intimidar a delegação florentina, informando confidencialmente Soderini e Maquiavel de que a conquista de Arezzo por Vitellozzo contara com o apoio encoberto de Luís XII, o que significava que Bórgia podia agora com facilidade desencadear uma acção sobre a própria Florença, se assim o decidisse.
No entanto, durante quanto tempo mais manteria Orsini a aparência de que apoiava Bórgia? Estas eram as últimas famílias aristocráticas poderosas de Roma que ainda conservavam as suas terras e os seus castelos. Alexandre VI tinha anulado o poder das outras famílias notáveis uma a uma, quando surgia a oportunidade, acabando por confiscar os castelos e as terras da família Colonna escassos meses antes, quando esta cometera o erro de alinhar ao lado de Nápoles contra os franceses e os espanhóis. Os Orsini tinham evidentemente começado a pensar quanto tempo demoraria até eles próprios serem eliminados e as suas terras passarem a fazer parte do crescente domínio de Bórgia». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT