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quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Na sua qualidade de médico atendera muitos membros da milícia que haviam solicitado os seus serviços. Tinha sido sempre tratado com respeito e afecto, e convinha não esquecer as relações que o Templo mantinha com os prestamistas do ‘Call’»

Cortesia de wikipedia

Barcelona
«(…) Porém, nas roupas de Guils não havia nada. Abraão sentou-se ao lado do cadáver e fez um esforço para se lembrar. Cerrou os olhos e viu Bernard na popa da nave, com o braço direito fortemente apertado contra o peito. Recordou os enérgicos passeios do homem, da popa à proa, da proa à popa, e de forma constante e repetida o gesto da mão esquerda roçando o peito, como se quisesse certificar-se de que uma coisa importante permanecia no devido lugar. Sim, tinha a certeza de que Guils transportava qualquer coisa valiosa para ele, mas em relação ao tempo que tinham estado embarcados Abraão chegava à conclusão de que ele estava preocupado com e segurança da sua bolsa, coisa muito comum neste tipo de travessias, em que as pessoas se encontravam rodeadas de tripulantes desconhecidos e, em muitos casos, propensas ao roubo. Ninguém havia roubado Guils aproveitando o estado dele ou pior alguém provocara esse estado a fim de o roubar. Ocasiões para o fazer não tinham faltado, uma vez que desde o momento do desembarque muita gente se aproximara do doente. A história ia tomando forma no espírito de Abraão... Guils tinha gritado um nome na sua agonia, Guillem, pedira-lhe que avisasse um tal Guillem, mas Guillem quê? Era um nome corrente que não lhe proporcionava qualquer pista. Tinha de agir com prudência, a intensa angústia de Bernard indicava que aquilo por que tinha morrido tinha grande importância e representava grande perigo. Abraão queria cumprir os seus últimos desejos, mas a informação era escassa, quase mínima. Após uns minutos de reflexão, o velho judeu tornou uma decisão, agarrou na capa e saiu de casa.
A tarde começava a cair Tinha de apressar-se, não podia arriscar-se a que fechassem o Portal del Castell Nuo e o impedissem de sair até à manhã seguinte. Graças a Deus, a Casa do Templo ficava muito perto e não levaria nem cinco minutos a chegar lá. Não encontrou ninguém conhecido. Àquela hora as pessoas costumavam recolher-se e as patrulhas de vigilância ainda aproveitavam os últimos instantes em alguma taberna, antes de começar a ronda da noite. A sua mente não parava de trabalhar, Guillem?... O mestre provincial chamava-se assim, Guillem Pontons, mas... seria realmente ele o homem a que Guils se referia? Teria de improvisar enquanto caminhava. Abraão tinha muito boas relações com os templários da cidade. Na sua qualidade de médico atendera muitos membros da milícia que haviam solicitado os seus serviços. Tinha sido sempre tratado com respeito e afecto, e convinha não esquecer as relações que o Templo mantinha com os prestamistas do Call. Ambas as partes beneficiavam com aquela relação e faziam excelentes negócios. Estacou de súbito, detendo o ritmo dos pensamentos. Tinha a sensação desagradável de que alguém o seguia, mas apenas conseguiu observar no meio da escuridão crescente, um jogo de sombras dispersas, quase imóveis. Era capaz de jurar que quando se voltara, a sombra de um homem alto de capa se movera atrás de si, desaparecendo em seguida e dissolvendo-se num canto escuro, como um reflexo. O silêncio era total, vazio de qualquer som.
Abraão estugou o passo, cingindo a capa ao corpo delgado. Um arrepio percorrera-lhe a espinha e tinha a certeza de que não era por causa do frio, era simplesmente medo. Reconheceu que estava assustado, muito assustado e demasiado velho para aquele tipo de experiências. Na penumbra, a poucos metros, reconheceu a imponente mole das torres do Templo e respirou aliviado; eles saberiam o que fazer e como agir. Uma sombra estranha desenhava-se num muro sem que luz alguma ajudasse a projectá-la. Parecia uma mancha da própria pedra, castigada pela chuva de séculos. Quando Abraão desapareceu pelo portão do Templo, uma brisa silenciosa arrancou a sombra da pedra, desvanecendo-a.

Guillem Montclar
Levantou-se do banco de pedra e voltou à janela. Precisamente seis passos, multiplicado pelas vinte ocasiões em que fizera o trajecto, dava cento e vinte assos. E como nas vezes anteriores, deitou uma olhadela ao exterior. Contemplou a torre do mosteiro de Sant Pere de les Puelles, conhecida por Torre dels Ocells. Aquele convento enorme dera vida a um bairro inteiro. Terras e moinhos, muitos moinhos perto das águas da corrente do Rec Condal. O moinho onde estava, propriedade do Templo, havia sido ponto de encontro de inúmeros encontros com Guils, porque era um dos seus lugares preferidos para tratar de assuntos delicados. Vais ver rapaz. Não passa pela cabeça de ninguém que dois malditos espiões como nós se juntem neste velho moinho! Além disso, como é nosso, fica tudo em família e ninguém nos virá incomodar pensando que somos membros do sector jurídico da ordem, enredados em algum preito com as freiras do mosteiro por um bocado de terra, como sempre, disse Guils irónico, ao ver a sua expressão perplexa da primeira vez que ali haviam ficado de se encontrar». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Não te preocupes, tenho um bom amigo na Casa, um de toda a confiança. Mas preciso que me faças um favor, mantém os ouvidos bem abertos, informa-te se alguém me viu chegar e fala com a minha cunhada»

jdact

Barcelona
«(…) Umas pancadas na porta vieram tirá-lo do seu ensimesmamento. Não fazia a mais pequena ideia de há quanto tempo ali se encontrava, sentado ao lado do cadáver. Mas assim que as pancadas lhe perturbaram o estado de espírito, pôs-se de pé devagar, como se o corpo lhe pesasse e encaminhou-se para a porta. O seu amigo Moshe, o dono do talho, estava diante dele com um ar de desculpa no olhar. Abraão, lamento imenso o meu comportamento de há bocado, não tinha o direito de julgar-te tão severamente, peço-te perdão. O seu olhar exprimia um tal arrependimento que o médico não pôde impedi-lo de entrar, divertido com os escrúpulos do amigo. Entra, velho judeu rabugento, estava a pensar ir ter contigo daqui a pouco. Como está o teu doente? Conseguiste que melhorasse? Precisas de alguma coisa? Moshe não sabia como desculpar-se. Morreu há bocadinho. Pouco pude fazer contra um veneno tão poderoso como o que usaram para lhe roubar avida, respondeu Abraão, convidando-o a entrar na pequena divisão que lhe servia de sala de jantar. Veneno!, exclamou Moshe. Abraão contou-lhe a história sem lhe ocultar coisa alguma, precisava de falar com alguém e conhecia Moshe desde sempre. Apesar de ser um pouco mais novo do que ele, tinham sido criados juntos desde crianças e tinham mantido sempre uma fiel amizade. Moshe fora sempre um conservador, como o pai, seguira a tradição familiar no ofício e casara-se com quem a família decidira, apesar de Abraão ter sempre sabido que ele estava profundamente apaixonado pela sua irmã Miriam e que esta lhe correspondia. Mas aqueles infelizes jovens não se atreveram a enfrentar as consequências e os resultados não haviam sido bons. A esposa de Moshe era uma mulher autoritária e orgulhosa que o desprezava, e a sua querida irmã Miriam tinha por marido um rabino rígido que lhe fizera desaparecer do rosto o sorriso.
O mundo ordenado e rotineiro de Moshe sofreu um sobressalto ao ouvir a história do amigo. Admirava Abraão desde criança, sabia que possuía a amizade de um homem sábio que o respeitava e lhe queria. Deus esteja connosco, Abraão! Meteste-te num rico sarilho. E este pobre homem, morto em tua casa. Que vamos nós fazer? Abraão sorriu ao ouvir o amigo usar o plural, imerso na história, realmente preocupado com a sua integridade. Tu vais voltar para casa e não dizes nada a ninguém. Se te perguntarem por mim, dirás que voltei a partir para tratar de um doente e que não sabes quando volto. - Mas Abraão as pessoas podem pensar que não regressaste da Palestina, o melhor seria... Não, Moshe, atalhou o médico, é perfeitamente possível que alguém me tenha visto chegar ao Call, e sabes como correm as notícias neste bairro, parece que ninguém te vê, e acabas por ser o assunto principal de conversa na sinagoga. O melhor é cingirmo-nos o mais possível à verdade. Quanto a mim, farei o que Guils me pediu antes de morrer: irei à Casa do Templo e contar-lhes-ei a história. Tens razão, é o melhor, assentiu Moshe, convencido. É uma sorte que toda esta confusão dependa do Templo e não do aguzil real. Mas Abraão, já pensaste com quem vais falar? Não podes apresentar-te ali e dizer tenho um morto que vos pertence... Não te preocupes, tenho um bom amigo na Casa, um de toda a confiança. Mas preciso que me faças um favor, mantém os ouvidos bem abertos, informa-te se alguém me viu chegar e fala com a minha cunhada. Podes contar-lhe que já cheguei, mas que uma urgência médica me obrigou de novo a partir. Não dês demasiadas explicações, ser demasiado loquaz é a maneira mais fácil de apanhar um mentiroso.
Abraão mandou embora o amigo, dando-lhe as últimas instruções. Depois entrou de novo no quarto onde Guils já não sentia nem dor nem tristeza. Aquela forma humana que o lençol escondia empreendera uma viagem que ninguém podia partilhar. Revistou-lhe novamente as roupas, tacteando cada centímetro de tecido, procurando nas costuras e nos bolsos, mas não encontrou nada. Pensou que era possível que tudo aquilo fizesse parte de uma alucinação provocada pelo veneno, mas qualquer coisa lá no íntimo lhe dizia que era verdade. Uma das razões era a própria morte de Guils, o seu assassinato. Era preciso uma boa razão para acabar com a vida de um homem e a existência daquele embrulho podia ser uma causa legítima para matar». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Já nada o prendia ao passado, uma nova vida se abria diante dos seus olhos e nem sequer voltou a cabeça, sorriu e atravessou o Jordão. Abraão viu uma grande paz espalhar-se no rosto de Bernard…»

Cortesia de wikipedia

Barcelona
«(…) Mas não era o momento oportuno para reflexões inúteis, divagações da memória que parece viajar livre e independente do nosso sofrimento, alheia à nossa dor. Um cavalo branco e a figura do pai não eram os melhores companheiros para o trabalho que o esperava, mas conhecia os labirintos da mente humana, as suas estranhas relações com a realidade. Abraão reconhecera, há muito, que a realidade não existe. Pelo menos não aquela de que falavam na sinagoga ou nos templos cristãos, e esse assunto trouxera-lhe muitos problemas dentro da sua própria comunidade. Problemas teológicos, murmurou com um sorriso fugaz. Não, não era altura para divagações filosóficas. Deixou dormir Guils. Parecia sereno, mas Abraão não tinha a certeza de que viesse a acordar, provavelmente a única coisa que era capaz de lhe proporcionar era a paz da agonia, a ausência de dor. Afastou todos estes pensamentos com dificuldade, o cavalo branco continuava ali, desafiador e impaciente, e transmitia-lhe uma mensagem que ele não entendia. Preparou uma sopa quente. Se Guils acordasse, seria o melhor alimento, um caldo especial elaborado com ervas, para dois doentes. A única diferença entre ambos era a data-limite. Passeou pela casa, a única coisa que lhe fizera falta durante a viagem, os livros, a farmácia, os estudos de geometria..., tudo estava na mesma. A cunhada encarregara-se de manter aquelas quatro paredes limpas e em ordem durante a sua ausência, que tudo se mantivesse como se ele nunca se tivesse ausentado, e que o fantasma de sua mulher, Rebeca, morta há muitos anos, continuasse no activo a limpar e a organizar a vida de Abraão.
Voltara a perder-se em recordações, como se estas se recusassem a deixá-lo livre, quando ouviu o grito de Guils. Bruscamente, saiu do devaneio e correu para o quarto onde foi encontrar o doente alterado, de novo empapado em suor, com a tez lívida. - Guillem, Guillem, Guillem! – gritava Guils, com um fio de voz. - Sou o Abraão, amigo Bernard, o vosso companheiro de viagem, tranquilizai-vos, estais em lugar seguro, em minha casa, não deveis preocupar-vos. - O ancião secava-lhe o suor, segurava o homem nos braços. - Abraão Bar Hiyya. - Guils dissera o nome completo, com voz clara e forte, recuperados os sentidos. - Abraão, meu bom amigo, tenho muito pouco tempo. É muito importante que guardeis o embrulho que eu trazia debaixo da camisa. Não deixeis que caia em mãos indevidas. Jurai-me que o fareis. - Deveis descansar, Bernard, não vos preocupeis com coisa alguma a não ser em recuperar a saúde. O ancião tentava acalmá-lo e não lhe disse que não havia embrulho algum, nada para além das roupas. Pensou que talvez se tratasse de uma alucinação por causa da febre e não quis perturbá-lo mais. - Deveis avisar a Casa do Templo, Abraão, deveis comunicar a minha chegada, a minha morte.., eles saberão o que fazer, procurarão que não tenhais problemas por me ajudardes, eles... Avisai-os imediatamente e entregai o embrulho a Guillem, ele está à minha espera…
Bernard Guils torceu-se de dor a cor de cinza reapareceu-lhe no rosto, o silvo voltou aos seus pulmões. O médico viu com tristeza que os seus esforços haviam sido vãos, nada parecia deter os efeitos daquele tóxico letal. Voltou a ministrar-lhe a poção que preparara, se bem que desta vez soubesse que apenas podia acalmar a ansiedade e nada mais podia fazer pela vida dele. Abraão, é preciso prevenir Guillem… a Sombra há-de surgir da escuridão, ele que se afaste da escuridão! Bernard Guils caiu sobre o leito, agitado, vítima das suas alucinações. Estava na estrada, perto do Jordão, tinha andado pelo deserto e estava exausto e cheio de sede. Foi então que a viu, estava ali, à espera dele, como se não tivesse feito mais nada na vida senão estar à sua espera. Branca como a capa que tinha aos ombros, com a crina ao vento, as patas dianteiras a escoucear, lançando um relincho de boas-vindas. A sua bonita égua árabe estava à sua espera há muito tempo. Aproximou-se dela, acariciando-lhe a cabeça, falando-lhe num sussurro como sabia que ela gostava e, segurando as rédeas, montou suavemente. Já nada o prendia ao passado, uma nova vida se abria diante dos seus olhos e nem sequer voltou a cabeça, sorriu e atravessou o Jordão. Abraão viu uma grande paz espalhar-se no rosto de Bernard, o seu corpo descontrair-se liberto da dor, o estertor desapareceu e com ele a vida. Uma enorme tristeza se apoderou do velho médico quando cerrou o único olho entreaberto e lhe cobriu o rosto com o lençol. Permaneceu sentado, imóvel e os seus lábios começaram a recitar uma oração hebraica por aquele cristão que não havia conseguido salvar». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Sentou-se num banquinho ao lado da cama, a observar a respiração do doente. Ao fim de duas horas, Guils pareceu melhorar. O seu rosto de um cinzento macilento reanimava-se. Um rosa-pálido começou a tingir o rosto bronzeado e a respiração…»

Cortesia de wikipedia

Barcelona
«(…) Entre ambos lá levaram Guils para o quarto do ancião, no primeiro andar da casa. Moshe ofegava com o esforço, mas parecia querer recuperar o fôlego para continuar a discussão. Abraão não lho permitiu, tinha muito trabalho pela frente e, depois de agradecer a ajuda ao amigo, despediu-o sem contemplações. - Agradeço-te, Moshe, mas não quero comprometer-te mais neste assunto. Quanto menos souberes, melhor será para ti. Abraão despiu Guils, que ardia em febre, tapou-o e dirigiu-se à pequena divisão que lhe servia de consultório e de laboratório. Ali preparava os seus medicamentos, possuía uma ampla farmácia cheia de ervas medicinais e de remédios para curar. Tranquilizou-o o aroma intenso e familiar, mas a urgência da situação obrigou-o a apressar-se, desconhecia a natureza do veneno mas guiava-se pelos sintomas que tinha verificado no doente. Teria de experimentar um antídoto geral, que abarcasse grande número de substâncias tóxicas, pois não tinha tempo para grandes estudos. Começou a trabalhar sem deixar de fazer visitas constantes ao doente, de lhe aplicar compressas de salgueiro para a febre e de tentar que engolisse pequenos goles de água. Finalmente encontrou uma fórmula que lhe pareceu adequada e uma vez preparada, começou a ministrá-la lentamente, gota a gota, até considerar que a dose era suficiente. Tinha de agir com prudência, um veneno mata outro veneno, mas também pode acabar com o doente, a dose devia ser exacta, sem margem de erro.
Sentou-se num banquinho ao lado da cama, a observar a respiração do doente. Ao fim de duas horas, Guils pareceu melhorar. O seu rosto de um cinzento macilento reanimava-se. Um rosa-pálido começou a tingir o rosto bronzeado e a respiração deixou de ser ofegante, para adquirir um ritmo mais pausado. Abraão respirou fundo, era bom sinal, mas nunca fiando. Anos de experiência haviam-lhe ensinado que os venenos actuam de forma traiçoeira e inesperada. Em alguns casos, as melhoras significavam apenas o preâmbulo da morte, mas reconheceu que nada mais podia fazer, unicamente esperar e rezar. Afastou o banco para um canto e arrastou a poltrona preferida para o lado de Bernard Guils. O móvel estava velho e meio desengonçado, como ele, mas guardava ainda nos gastos almofadões a forma do seu corpo. Estava exausto, a actividade desenfreada das últimas horas convertia-se numa fadiga imensa, e nem sequer se tinha lembrado de tomar os seus próprios remédios. Pensou que teria tempo de sobra mais tarde; agora precisava de descansar.
Acordou sobressaltado. Um belíssimo cavalo árabe, branco como a neve, fitava-o desafiador. Crina ao vento, patas dianteiras levantadas escouceando no ar, impaciente. Um relincho, como um grito desesperado, atravessou-lhe os tímpanos num pedido desconhecido. Tapou os ouvidos com ambas as mãos, incapaz de suportar aquele som agudo, semiconsciente contudo, estonteado. Precisou de uns segundos para se dar conta de que tudo não tinha passado de um sonho. Adormecera profundamente e a alma abandonara-lhe o corpo viajando para regiões desconhecidas e distantes e de lá alguém lhe mandava uma mensagem que não conseguia decifrar; alguém ou talvez alguma coisa.
Fez um esforço para acordar por completo a fim de observar o doente. Bernard parecia mergulhado num sono tranquilo, as suas feições estavam descontraídas e serenas, alheias a qualquer perigo. A respiração era normal, o silvo rouco dos pulmões havia desaparecido e o peito subia e descia num ritmo pausado. Abraão acalmou-se, ainda era possível recuperá-lo, talvez os remédios salvassem aquela vida e todos os seus conhecimentos, que tanto esforço lhe haviam exigido, servissem para alguma coisa. Tão velho, tantos anos, e contudo sentia-se impotente diante da morte. Recordou a juventude, a aprendizagem, a primeira morte..., afectou-o tanto que esteve quase a abandonar os estudos, a deixar tudo e a voltar para casa a fim de substituir o pai na oficina de joalharia. Mas não o fez e o pai, desiludido com aquele filho que não pretendia continuar a tradição familiar, nunca lhe havia perdoado, recordou abatido». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «O IV Concílio de Latrão, por volta de 1215, estabeleceu uma disposição pela qual todos os judeus deviam usar uma marca física que os diferenciasse dos cristãos, para evitar qualquer alegação de ignorância no caso de relações entre judeus e cristãos»

Cortesia de wikipedia

Barcelona
«(…) Camposines ficou a ver como se afastavam. O rapaz transportava Guils às costas, como se fosse uma catga leve e Abraão, a seu lado, indicava-lhe o caminho levando a pequena maleta, Viu-os dirigir-se, quase invisíveis por entre a multidão, para a esquerda, como se o velho judeu procurasse o caminho mais curto para chegar ao Call, a judiaria de Barcelona. Não arredou pé até, perdê-los de vista. Os judeus que integravam as aljamas estavam habituados a viver dentro das cidades onde, por disposição do papado, tinham bairros especiais que na Catalunha se chamaram calls. Naquele espaço viviam em comunidade, possuíam a sua sinagoga que era ponto de reunião e ao mesmo tempo escola, o seu próprio talho, forno, banhos e tudo quanto lhes era necessário. Eram propriedade real e por essa razão não estavam sujeitos ao capricho dos nobres, mas apenas às ordens do rei, Era ao próprio monarca que pagavam os tributos e era este que se encarregava de protege-los, apesar desta protecção não sair nada barata. Aos impostos era preciso somar os constantes empréstimos à coroa, sempre tão necessitada de dinheiro e de aumentar as finanças do tesouro real. Mas a comunidade judia organizava-se para fazer face aos pagamentos e esta era uma das funções práticas do Call, ter tudo pronto para a ocasião em que aparecia o Tesoureiro Real. Em compensação, o bairro judeu e os seus habitantes estavam sob a protecção do rei em relação aos desmandos da nobreza e às inesperadas revoltas populares contra eles.
O IV Concílio de Latrão, por volta de 1215, estabeleceu uma disposição pela qual todos os judeus deviam usar uma marca física que os diferenciasse dos cristãos, e determinou que o motivo desta distinção era evitar qualquer alegação de ignorância no caso de relações entre judeus e cristãos. Na Catalunha, significou a imposição de uma rodela de pano, amarelo e vermelho, que deviam usar cosido no vestuário, tanto homens como mulheres, à frente, no peito. A mistura de raças era uma proibição absoluta. Abraão caminhava depressa em direcção à segurança do seu bairro. Dirigira-se para as duas torres redondas do Portal de Regomir sem entrar na cidade velha, dando uma volta pela caminho de ronda exterior que circundava a muralha romana e seguindo-o até chegar a Castell Nou, que guardava o lado sul da cidade e era, ao mesmo tempo, porta de entrada para o bairro de Call. Pensava nos problemas que lhe traria o que estava a fazer, e não só com os cristãos, mas também com a sua própria comunidade sempre temerosa de infringir qualquer lei. Mas havia tomado uma decisão e a sua condição de médico não lhe permitia diferenças, nem de raça nem de religião. Para um doente, a única coisa importante é a sua doença e poder dispor de alguém com capacidade para o aliviar. Se tudo aquilo viesse a ter consequências, pensaria nisso mais tarde, depois de tratar de Guils. Mas não deixava de sentir-se perturbado e inquieto, se Guils morresse em sua casa ia ter de explicar o que fazia o corpo de um cristão no seio da comunidade judaica, uma coisa nada fácil de justificar.
Fez um esforço para deixar de pensar nas consequências, enquanto ia caminhando, quase correndo atrás do moço. Devia lembrar-se do seu amigo Nahmánides, esse não teria hesitado nem um momento, agiria segundo as sua consciência e não segundo o medo. O moço de fretes deteve-se diante da mole do Castell Nou. Não pensava dar nem mais um passo e muito menos entrar no bairro judeu, aquele trabalho podia ser muitíssimo especial e como tal se fazia pagar, mas ninguém lhe tinha dito que era preciso entrar na judiaria. Não fizera perguntas por respeito pelo patrão, mas não pensava dar nem mais um passo e assim o fez saber ao velho judeu. Abraão não respondeu, tinha avistado o seu amigo Moshe, dono do talho e vizinho seu. Chamou-o discretamente e pediu-lhe que o ajudasse. - São só uns metros, Moshe, sozinho não consigo. Ajuda-me, por favor. - É incrível, Abraão! Desapareces durante mais de um ano sem mandar um simples recado, uma nota a dizer que estás bem, que vens a caminho. Sei lá, uma coisa qualquer! E de repente, apareces carregado com um cristão moribundo. Enlouqueceste?! O homem do talho estava aborrecido, apreciava muito Abraão, era um dos seus amigos e devia-lhe muitos favores, mas pelos vistos tinha uma maneira muito perigosa de cobrá-los, e os tempos não estavam de molde a correr riscos inúteis. Acedeu em ajudá-lo a contragosto, expressando o seu desacordo total e expondo todos os argumentos que lhe passaram pela cabeça, e foram muitos, para que o médico desistisse dos seus propósitos. - Tens toda a razão do mundo - respondeu Abraão, enquanto segurava Guils com as forças que lhe restavam, os teus argumentos são todos acertados, mas trata-se de um homem doente, Moshe, e eu sou médico, a doença não tem religião nem raça, tens de compreender isso». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «A urgência do doente em descer a terra fizera-o pensar que houvesse alguém à espera dele, mas não encontrou ninguém, a não ser a frenética actividade que a chegada de um navio originava. Desconhecia o tipo de veneno que lhe tinham ministrado…»

jdact

Barcelona
«(…) Sim, ele e Guils em competição, a fim de demonstrarem a resistência de ambos ao vinho, copo atrás de copo, ele sereno e sem perder a compostura, bebendo sem vacilar, e Guils, feito um farrapo ao terceiro copo, cambaleante e balbuciante... sim, de facto ia ser uma bela história. Chegados a terra, a operação de desembarque de Guils voltou a ser árdua. Não recuperara os sentidos e a sua alta estatura requereu a ajuda de todos quantos puderam correr a auxilia-lo, além dos passageiros que se acotovelavam na tarefa. Todos menos frei Berenguer que, sem esperar pelo jovem ajudante, saltou da embarcação sem se deter nem um instante. Bernard Guils, estendido na praia com Abraão a seu lado, era a imagem do desamparo. O velho judeu contemplou o moribundo com compaixão e simultaneamente com preocupação. Olhava em redor procurando algum companheiro de Guils, alguém que estivesse à sua espera. A urgência do doente em descer a terra fizera-o pensar que houvesse alguém à espera dele, mas não encontrou ninguém, a não ser a frenética actividade que a chegada de um navio originava.
Bem, pensou, há que levar o homem para local conveniente, talvez ainda haja alguma esperança de vida. Desconhecia o tipo de veneno que lhe tinham ministrado, mas podia tentar encontrar um antídoto, um remédio qualquer que devolvesse aquele homem à vida. Todavia, não tinha grandes ilusões, aquela poção há dias que atacava o organismo de Guils, enquanto permanecia deitado na enxerga, sem pedir ajuda, morrendo na mais completa solidão. Desde o princípio que Abraão simpatizava com Guils, agradava-lhe mesmo sem o conhecer, tinha a certeza de que era um homem bom e não pensava abandoná-lo. Mas necessitava de ajuda urgente para o levar para casa e era evidente que não o podia fazer sozinho. Olhou, procurando um rosto amigo, um rosto que fosse capaz de sentir piedade perante aquela situação e viu que Ricard Camposines, o comerciante, se aproximava deles.
 - Não devia ter-se embriagado logo no último dia, disse um tanto desiludido. - Não julguei que fosse homem desse tipo, não o vi beber em toda a travessia. Escolheu uma má altura. Abraão observou-o atentamente. Não tinha a certeza de que Camposines abandonasse a vigilância da carga para o ajudar e muito menos no porto, onde o controlo das mercadorias tinha de ser minucioso. Pensou uns segundos, mas a urgência da situação não lhe permitia muito tempo em conjecturas. - Ora,Camposines, começou a dizer, cauteloso, este homem não se acha nesta situação por causa da bebida. Está doente e precisa de tratamento. - Doente? Parecia mais forte que um penedo... Tendes a certeza? – Absoluta, redarguiu Abraão. - A doença é real. Foi envenenado e é urgente que consiga levá-lo para minha casa a ver se anda é tempo de encontrar uma solução. Não há tempo a perder, de contrário o homem morre. Preciso de ajuda, Camposines.
O comerciante esboçou uma careta de espanto, as palavras do velho judeu haviam-no impressionado. Envenenado, na linguagem dele era sinónimo de conjuras e conspirações e ele não queria problemas, todo aquele escândalo podia prejudicar-lhe o negócio, precisamente no momento em que tinha conseguido chegar. Porém, simpatizava tanto com Guils como com Abraão e comovia-o a compaixão que o judeu demonstrava, a sua generosidade. Sentia-se mesquinho e envergonhado. Contemplou o quadro que tinha diante dos olhos, um mercenário alto e forte, estendido na praia, inconsciente e frágil, e um velho judeu com uma força interior que lhe brilhava nos olhos. Sentiu-se miserável, carecido da coragem que fazia parte daqueles dois homens, tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos.
 - Auxiliar-vos-ei, Abraão, se bem que o não possa fazer pessoalmente. Isso ser-me-ia impossível, mas vou encarregar um dos meus moços de fretes de vos ajudar a levar Guils onde indicardes. Espero que isso vos sirva de ajuda. - Será esse o melhor socorro que me podereis prestar, amigo Camposines. Espero que o tempo seja generoso comigo para poder retribuir-vos este favor. Sou médico e estou à vossa disposição para o que necessitardes. Esta declaração ficou gravada na mente de Ricard Camposines: médico, tinha dito que era médico e sabia que os médicos judeus gozavam de merecida fama naquela profissão. Não era em vão que reis e nobres os reclamavam. Era um acaso extraordinário, uma lição que tinha de aprender, fizera com aquele homem uma longa travessia, quase sem lhe ter dirigido a palavra, amedrontado, Deus escrevia torto e os homens obstinavam-se em pôr-lhe as linhas direitas. Correu em busca do capataz que dirigia a operação de descarga, controlando cada fardo que descia da embarcação, tão picuinhas como o patrão. Ordenou-lhe que procurasse um dos moços de fretes para um trabalho especial que seria convenientemente remunerado». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Quando aquelas duas tristes figuras se aproximaram deles, frei Pere ofereceu-se para ajudar Abraão com a pesada carga e a sua decisão espontânea granjeou-lhe um olhar horrorizado e furibundo de frei Berenguer»

Cortesia de wikipedia

Barcelona
«(…) - Guils, Guils, Guils..., pareceis doente, necessitais de ajuda. Abraão passou-lhe um braço pelos ombros tentando erguê-lo e Guils verificou que o ancião conservava ainda grande força nos braços. Pensou que a Providência lhe proporcionava um inesperado, se não mesmo estranho, caminho. - Tendes de ajudar-me a chegar a terra, meu amigo, é imprescindível que desembarque... chegar a terra... – As suas palavras soaram confusas; custavam-lhe esforço e dor. Tinha de confiar em Abraão. Não havia por onde escolher. - Ajudar-vos-ei, podeis estar certo disso, Guils. - Creio que me envenenaram, Abraão, não me resta muito tempo de vida, ajudai-me a descer a terra.
Abraão deixou Guils apoiado no castelo da popa e correu a buscar água. Depois, abriu com rapidez a bolsa e misturou uns pós de cor dourada no líquido. - Tomai isto, Guils, ajudar-vos-á a acalmar a dor para que possais desembarcar. Depois levar-vos-ei para minha casa, sou médico, ireis ficar bom. Bernard Guils bebeu o remédio devagar. Tinha de pensar, só queria pensar com clareza. O braço apertava com força o embrulho que levava consigo, como se toda a sua energia se concentrasse naquele gesto de protecção. Ouviu um dos tripulantes avisar da chegada de uma barca para levar os passageiros a terra e, ajudado por Abraão, conseguiu semi-erguer-se. - Ânimo, Guils, apoiai-vos em mim, sois capaz. - O ancião susteve-o com força e obrigou-o a dar dois passos. Guils sentiu as pernas entumescidas, mortas, mas seguiu em frente, para estibordo, onde os passageiros faziam bicha para desembarcar. Frei Berenguer de Palmerola, na primeira fila, viu como Guils se aproximava com dificuldade, quase levado no ar pelo judeu. - Mercenários bêbados e hereges judeus - disse sem qualquer piedade. - Que pode esperar-se de uma ralé amaldiçoada pelo próprio Deus! É indigno que me obriguem a viajar em companhia de tal escória, tenho de escrever ao próprio rei para que resolva uma situação tão difícil como esta.
A frei Pere de Tever, porém, não o impressionaram os comentários do velho frade, não considerava que Guils estivesse embriagado, nem pouco mais ou menos. Parecia doente, muito doente. Quando aquelas duas tristes figuras se aproximaram deles, frei Pere ofereceu-se para ajudar Abraão com a pesada carga e a sua decisão espontânea granjeou-lhe um olhar horrorizado e furibundo de frei Berenguer. Mas o jovem frade estava realmente farto do comportamento do seu superior, daquela fúria destruidora. Naqueles últimos dias, a raiva cega do irmão contra o judeu tinha-o feito reflectir e jurara a si próprio que jamais, acontecesse o que acontecesse, se havia de converter numa pessoa tão desagradável como frei Berenguer.
Descer Guils até à barca foi uma operação difícil e complicada que exigiu a colaboração de passageiros, tripulantes e do próprio barqueiro. Até Camposines ajudou, esquecendo por instantes a sua preciosa carga, A embarcação dirigiu-se para a costa ao mesmo tempo que Bernard Guils desmaiava nos braços de Abraão. D'Aubert, à proa, não conseguiu deixar de sentir a satisfação da maldade. Mercenário de meia tigela, riu para consigo, tão orgulhoso e prepotente, bêbado perdido nos braços de um judeu, esta é que tinha graça. Alegrava-se com a desgraça de Guils, sentia-se realmente bem com isso e, embelezada com um pouco de imaginação, aquela história podia transformar-se numa bela história de taberna». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Com início no emaranhado do novo bairro de Sant Pere de les Puelles, a muralha avançava até à igreja de Santa Ana e seguia até ao mar, aproveitando o traçado da corrente das Ramblas»

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Barcelona
(…) Jaime I, monarca da Catalunha e de Aragão, construía uma nova linha defensiva de muralhas para deixar respirar a população crescente. Com início no emaranhado do novo bairro de Sant Pere de les Puelles, a muralha avançava até à igreja de Santa Ana e seguia até ao mar, aproveitando o traçado da corrente das Ramblas. Esta antiga corrente, chamada durante anos pelo seu nome latino arenno, e denominada agora pelo termo árabe ramla, marcava o limite ocidental da cidade. Um grande bairro marítimo crescia em redor da igreja de Santa Maria de les Arenes, no local onde meio século depois se iria erguer a impressionante mole de Santa Mana del Mar. O bairro, integrado por armadores, mercadores e marinheiros, crescera de forma espectacular, a praça da igreja enchera-se de oficinas e de actividade mercantil e novas ruas abriam-se para o exterior, dando lugar a espaços dedicados aos grémios de artesãos da prata e aos fabricantes de espadas e adagas. Este novo bairro, a VilaNova del Mar, pegava com o mercado do Portal Major, o mais importante da velha muralha romana e que conduzia a uma das vias de saída da cidade, a Vía Francisca, sobre o traçado da outrora importante calçada romana. O antigo ordenamento romano de urbanização marcava todavia a recordação do cardus e do decumanus, gravando uma grande cruz no coração da cidade.
Porém, aquela grande urbe em expansão carecia de um bom porto, apesar de se ter convertido numa das potências marítimas e comerciais do Mediterrâneo. O antigo porto, aos pés de Montjuït, estava totalmente inutilizado há imenso tempo devido às cheias e à acumulação de areia. Dispunha apenas da ampla praia, com a única protecção de várias ilhotas e bancos de areia. Os grandes navios de carga não podiam aproximar-se da margem e viam-se obrigados a fundear a certa distância, dependendo de pequenas embarcações que efectuavam o duro trabalho de transportar para terra mercadorias e passageiros. A situação havia favorecido o crescimento de vários ofícios que ocupavam a maior parte dos homens da cidade. Em primeiro lugar, os moços de fretes, responsáveis pela carga e descarga das mercadorias, e também os barqueiros que com as suas embarcações transportavam pessoas e fardos de um lado para outro. O melhor negócio, sem dúvida, faziam-no os proprietários das barcas, que costumavam ter um bom número de escravos, facto que lhes conferia importantes lucros.
Barcelona, a grande potência marítima que fazia concorrência a venezianos, pisanos e genoveses, que construía grandes navios nos seus estaleiros, tardaria quase dois séculos para possuir um porto em condições. A urbe, que se expandia fora dos antigos limites, tinha uma população que já excedia os trinta mil habitantes. Bernard Guils ouviu os gritos dos marinheiros, anunciando a chegada à cidade. Tentou levantar-se da enxerga onde havia permanecido nos últimos dias, desfeito, vomitando o que já não tinha no corpo, escondido dos demais passageiros e da tripulação para que ninguém visse a sua debilidade. Falhava-lhe a visão do único olho, como se uma fina cortina de tule se tivesse desprendido de um lugar misterioso. Sentia as entranhas às voltas dando origem a dores agudas e, por vezes, insuportáveis. Meu Deus, pensou, dá-me forças para chegar a terra e depois faz comigo o que te apetecer, mas tenho de chegar a terra.
Sabia que não se tratava de um simples enjoo. Nas suas inúmeras viagens tinham-no informado sobre aquele mal que convertia os homens mais fortes em pobres criaturas inúteis e incapazes do mínimo esforço. Não, lamentavelmente não era esse o mal que o fazia sofrer daquela maneira, era pior. Muito pior. Fez um esforço para se pôr de pé, conseguindo caminhar quase de rastos, com os lábios apenados numa fina linha recta, tentando controlar a náusea, a dor de um ferro em brasa nas entranhas. Angustiado, apalpou o pacote que continuava a manter dentro da camisa comprovando que ele ali permanecia, empapado no suor que transpirava do seu corpo. A realidade impôs-se com todas as forças no espírito de Guils. Estava a morrer, nenhuma vida nova estaria à espera dele ao descer à terra, e não viria nunca a saber o que fora feito da família, dos irmãos, da grande casa rural onde nascera. Tudo se estava a desvanecer com rapidez. Finalmente aqueles que o perseguiam tinham dado com ele, mas só demasiado tarde o havia percebido. A única coisa que lhe restava fazer era um esforço sobre-humano antes de morrer pensar depressa e com clareza.
Cerrou os olhos com força, quase sem fôlego, mas a única imagem que lhe surgia no espírito com diáfana nitidez era Alba, a bonita égua árabe que tantos anos partilhara com ele tantos sofrimentos e vitorias. Reviu-lhe o olhar quando caíra ferida de morte, o olhar mais doce que alguma vez alguém pôde imaginar e sentiu a mesma dor que o trespassara no momento de sacrificá-la para que não sofresse. E lágrimas semelhantes às de então inundaram-lhe o rosto. Ali estava ela, movendo a crina num gesto de reconhecimento. - Que esperas, amigo Bernard? Aqui estou, aguardando a tua chegada, parecia dizer, com a mesma doçura nos olhos. Subiu para o convés, arrastando-se como um bêbado perdido em fantasias alcoólicas. Respirou o ar puro tentando recuperar as poucas forças que o abandonavam e viu, por entre a névoa, o rosto do velho judeu, inclinado sobre ele com ar preocupado». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «Barcelona tinha crescido por todos os lados e a poderosa muralha romana que durante séculos havia protegido o seu perímetro era agora insuficiente para conter a maré humana que albergava. A tendência para aproveitar os mais pequenos espaços…»

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A Viagem
(…) Arnaud d'Aubert viu como o capitão veneziano se afastava com expressão trocista. Tinha conseguido aborrece-lo durante meia-hora o que o enchia de satisfação. Aquele maldito arrogante tinha-o suportado unicamente por causa da avultada soma paga. Sentia um enorme desprezo pelos venezianos para quem não existia outra ideia senão a do lucro; nada os movia mais rapidamente do que uma boa quantidade de ouro, incapazes de pensar noutra coisa com aquele cérebro mercantil. Esteve quase a soltar uma gargalhada; aquele cretino presunçoso divertia-o e como a viagem era suficientemente longa e entediante tinha de aproveitar todas as ocasiões para se distrair. E conseguia. Uns dias antes, abeirara-se do velho judeu para lhe dizer, em voz baixa, que ouvira rumores de grandes tropelias na judiaria de Barcelona, causando-lhe grande sobressalto. Rejubilara ao contemplar o pânico no rosto do ancião,
Tocou na perna esquerda, tentando acalmar a dor que subia, em linha recta, até aos rins. Aquele maldito teutão de Acre desferira-lhe uma punhalada certeira, deixando gravada na mente de D'Aubert a recordação da cara dele, Seta muçulmana ou rixa de taberna, quem é que se importava com isso, pensou taciturno. A lembrança do teutão punha-o de mau humor e nem sequer a imagem das curvas suaves da adolescente árabe por quem tinham lutado, conseguiu acalmar a dor, intensa e aguda, parecida com a mesma adaga que o trespassara. Talvez seja sinal de tempestade, ruminou, a dor é sempre um aviso; tão perto do porto... só faltava que uma tempestade nos fizesse ir a pique. Uma sensação de enjoo subiu-lhe à garganta, como um alimento em más condições. Precisava de alguém com quem se divertir. Esticou as pernas, olhando em volta, procurando nova vítima. A tripulação parecia mais activa e atarefada que de costume e o mar mudara de cor, o azul intenso tinha desaparecido para dar lugar a um cinzento de chumbo. Agarrou-se aos cordames que percorriam o navio, afastando-se da popa. Tinha visto Guils e esse não lhe parecia boa companhia. Aquele homem não era para brincadeiras e no olhar dele adivinhavam-se sinais de perigo indefinido, como nos olhos do alemão da taberna, cravados na sua memória como a maldita adaga dele.
Começou a cair uma chuva fina e muito fria, e D'Aubert encaminhou-se para o porão. Bom, de certeza que ali encontraria o comerciante catalão a vigiar a mercadoria, a verificar cada uma das cordas, cada um dos sacos.,. Podia ser um bom motivo de distracção! Tropeçou num membro da tripulação e soltou uma imprecação em voz alta, atravessado pela dor que, trespassando-lhe os rins, decidira instalar-se-lhe no cérebro, O primeiro impulso foi virar-se e aplicar um fortíssimo pontapé no responsável do encontrão, mas estacou imediatamente, gelado diante do olhar sarcástico do outro que parecia provocá-lo, esperar a reacção dele. Dá-me um bom motivo para te matar, pareciam dizer aqueles olhos. Afastou-se de um salto daquele homem que lhe provocava aquele calafrio esquisito e penetrante e descobriu, estupefacto, que se encontrava diante do olhar de um assassino. Retrocedeu passo a passo, lentamente, sem perder de vista o indivíduo que lhe sorria, até chegar ao extremo da proa, o mais longe possível. A Arnaud d'Aubert passara-lhe a vontade de se divertir.

Barcelona
A cidade de Barcelona estava à vista e o capitão D'Amato exalou um profundo suspiro de alívio. Os últimos dias tinham sido um verdadeiro pesadelo, o maldito frade fizera-lhe a vida negra, exigindo-lhe que fechasse o velho judeu no porão; o comerciante Camposines não parara de se queixar do serviço e o mercenário zarolho há dois dias que não se mexia do catre. Começava a duvidar do bom negócio que tudo aquilo lhe rendera e o seu maior desejo era ver-se livre daquela ralé de passageiros e partir rumo a Veneza. Barcelona tinha crescido por todos os lados e a poderosa muralha romana que durante séculos havia protegido o seu perímetro era agora insuficiente para conter a maré humana que albergava. A tendência para aproveitar os mais pequenos espaços convertera o bairro antigo num labirinto de ruelas estreitas e escuras. A necessidade de espaço obrigava a construir casas pegadas à antiga muralha romana, aproveitando o muro grosso para edificar ambos os lados por meio de arcos entre as torres». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Sombra do Templário. Século XIII. Núria Masot. «De tudo isto não dissera nem uma palavra a frei Berenguer que, desde o princípio, se negara a aceitar qualquer facto positivo lá onde tinham estado. Criticava ferozmente a comida, o vestuário e inclusivamente a tradicional cortesia mongol»

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A Viagem
(…) Para o companheiro, frei Pere de Tever, este tipo de atitude havia representado um grave problema desde o início. A intransigência e o fanatismo de frei Berenguer tinham sido maus companheiros de viagem. Porém, a sua função era a de um simples ajudante para além de que, dada a idade do seu irmão de religião, mais parecia uma muleta do que um secretário. A sua juventude inclinava-o para a curiosidade e a excitação de uma viagem como aquela, e sentira-se bem entre o povo mongol. Surpreendera-o a grande tolerância existente naquela corte e as múltiplas embaixadas de países remotos à espera de audiência haviam-lhe permitido ocupar muitas horas a conhecer gente diferente e de costumes tão opostos, Estava fascinado com a religião do Grande Khan, o xamanismo, com a sua crença de que existe um só Deus, ao qual é possível adorar de muitas formas diferentes. Espantado, vira como o Ilkhan Hulagu assistia a diferentes cerimónias religiosas, budistas, cristãs, muçulmanas, com o mesmo respeito que lhe merecia a sua própria. De tudo isto não dissera nem uma palavra a frei Berenguer que, desde o princípio, se negara a aceitar qualquer facto positivo lá onde tinham estado. Criticava ferozmente a comida, o vestuário e inclusivamente a tradicional cortesia mongol. A própria imperatriz Dokuz Khatum ficou desagradavelmente surpreendida com a violência dos seus argumentos, se bem que o escutasse com amabilidade, e não voltou a recebe-lo, apesar dos rogos do jovem frade e da ira de frei Berenguer, cego a tudo quanto não fosse as suas próprias crenças.
Na realidade, os mongóis deixaram o seu velho irmão a ferver na própria raiva e frustração, negando-se a ouvi-lo mas, ao mesmo tempo, tratando-o com suprema amabilidade, E isso é que tinha sido pior, aquela cortesia era cem vezes pior do que a tortura e o martírio para com o seu intolerante irmão. Por outro lado, frei Pere de Tever não conhecera nada igual na sua curta vida. Como filho segundo de uma família da nobreza rural, fora entregue à ordem dos Pregadores com dez anos e crescera entre as paredes do convento, pensando que a sua vida permaneceria imutável. Desde muito novo deu mostras de grande talento para o estudo e a aprendizagem das línguas: o latim, o grego, o árabe, o hebreu. Era um apaixonado pelas bibliotecas dos mosteiros, a tradução de livros antigos e esquecidos, e durante muito tempo pensou que o seu futuro estava ali. Aos dezasseis anos, a ordem enviava-o de mosteiro em mosteiro para copiar determinado pergaminho, traduzir um texto ou simplesmente averiguar o número de livros que possuía determinada biblioteca conventual. E gostava desse trabalho, gostava mesmo muito desse trabalho.
Quando o superior lhe comunicou a ordem para efectuar aquela viagem, ficou inquieto e a perturbação apoderou-se dele. Não conhecia da vida senão a ordem estrita do convento e do mundo exterior os rumores de grande perigos murmurados pelos padres de mais idade. Mas toda a perturbação desapareceu como que por magia, quando embarcou em Marselha rumo ao desconhecido. A vida agitada da travessia, o ar do mar que lhe impregnava os pulmões como nunca antes nada lhos enchera, a visão da imensidade dos mares e estepes, tudo isso lhe transmitiu a sensação do minúsculo que era o mundo de onde vinha. A realidade ampliava-se para ele a cada passo e o espírito enriquecia-se perante o estrépito de cores, línguas e costumes que ia conhecendo. Ao mesmo tempo que o cérebro de frei Berenguer se encerrava no baú das suas crenças, frei Pere de Tever descobria que o mundo não terminava no jardim do claustro. Escreveu com esmero a carta que o irmão lhe ditou, sem fazer comentários, transcreveu a extensa lista de ofensas e opróbios, guardando para si a sua opinião. Sabia que era perder tempo tentar convencer o irmão e também que podia ser muitíssimo perigoso dissuadi-lo. Não, reflectiu, será melhor esperar por uma ocasião mais propícia, há-de haver uma possibilidade de dar a conhecer o meu ponto de vista quando me interrogarem. Tinha a certeza de que seria interrogado em confissão, os seus superiores não deixariam de comprovar se aquela viagem influíra nas suas crenças, se teria contraído alguma doença perigosa no contacto com o mundo exterior. Tinha de agir com muita prudência e cautela. Ficou absorto nos seus pensamentos e os seus lábios deixaram até de recitar a oração. Tinha de encontrar maneira de manifestar a sua opinião sem ser acusado de rebeldia». In Núria Masot, A Sombra do Templário, colecção Enigmas da História, Sicidea, 2007, ISBN 978-84-611-4998-8.

Cortesia de Sicidea/JDACT