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quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «O meu único ensejo era chorar. Que medonho abalo. Depois de me despedir da Rainha. descendo o joelho ao chão e tomando-lhe a mão para a beijar»

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Catarina Ataíde. Paço Real de Almeirim. 5 de Outubro. 1548
«(…) A tarde azedara em Almeirim, e só a chegada de El-Rei nas suas botas, que entretanto tinham lançado moda na Corte, e naquele seu falar manso e grave apaziguou os ânimos e restituiu ao paço real alguma normalidade. Vinha de uma caçada às lebres na coutada régia, seguido pelo bobo Panasco, o negro nascido no Congo. Não soube nunca se Paula Vicente ou alguma das irmãs Sigeia suspeitavam do meu envolvimento com Luís Vaz. Mas Joana afiançava-me: podem saber latim, grego, hebraico, árabe e siríaco, podem até ser mestras em latim e tanger as cordas com a precisão dos anjos, mas de amor nada sabem! E acrescentava, com a sua habitual malícia: bem te avisei para não confiares em ninguém, muito menos na infanta. Toda a gente sabe que mal fareja uma intriga amorosa se torna implacável.
O meu único ensejo era chorar. Que medonho abalo. Depois de me despedir da Rainha. descendo o joelho ao chão e tomando-lhe a mão para a beijar, fui-me trancar nos meus aposentos a ler e a reler todas as rimas e todas as cartas que Luís Vaz me dedicara. A sua alma oscilava entre a alegria e o desconsolo, a amargura e a saudade, o atrevimento e a dor da paixão. Era grande, era enorme, era verdadeiro poeta aquele que ali me derramava torrentes de luz. E amava-me. Jurei-lhe também que jamais amaria outro homem. Estava certa dos meus sentimentos. Tinha, porém, de me precaver. Paula Vicente defendera-o com unhas e dentes, mas a devota e severa Rainha tinha-o na mira, lera-lhe as rimas, e a infanta dona Maria, pelos vistos, não lhe queria bem.
Só me restava uma solução: avisá-lo. Luís Vaz teria de ter mil cautelas, pois que estava a Corte de olho nele. Fora uma insensatez tocar na ferida aberta da Rainha. Abri o bufete de pau-preto, tirei de lá uma palmatória pequena de marfim, um pedaço de papel, a pena e a tinta e escrevi: meu amor, todas as cautelas são poucas, el-rei Seleuco provocou um terramoto na Corte. Tua, Catarina de Ataíde. O silêncio era de tal sorte que acrescentava noite à matéria esquiva com que a noite se tece. Ainda assim, sem ter podido pregar olho, escapuli-me para o pombal e atrevi-me a suplicar ao moço pombeiro, toda a noite de vigia, que me enviasse a mensagem ao palácio dos condes de Linhares, a Xabregas. O moço acedeu, a troco de alguns reais; tinha dois pombos vindos dos Linhares e logo enviaria um de volta. Insisti para que a mensagem fosse apenas entregue ao mestre de António Noronha. O moço abriu um sorriso largo e honesto:
Ora, senhora dona Catarina Ataíde, estamos sempre a mandar correio para o palácio dos Linhares e nunca o pombeiro de lá se engana, ora vai missiva para um, ora para o outro»
Descansei e regressei mais leve aos meus aposentos, agarrando o saio com as mãos para que se não sujasse de terra. Mas, fosse pela inquietação ou pela revolta, o certo é que pressenti uns passos miúdos no meu encalço.
Parei. Olhei. Nada vi. Só as tapeçarias da Flandres e os panos brocados a cobrirem as paredes e a abafarem os meus passos. Seria o medo, o medo que me ganhava? A culpa era da noite. A noite acrescentava medo ao medo. Nem o galo havia ainda cantado. O Paço de Almeirim continuava mergulhado em silêncio. Faltava-me ainda atravessar um bom pedaço de noite e de angústia.
Contigo sou tudo, meu amor maior, que Deus te proteja, suspirei, enquanto ajeitava as almofadas de penas, tentando adormecer». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 21 de junho de 2018

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Não vejo tal afronta nas intenções do poeta, Alteza, esse assunto particular já se deu há um ror de anos, nem Luís Vaz era nascido..., desculpou-o Paula Vicente»

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Catarina Ataíde. Paço Real de Almeirim. 5 de Outubro. 1548
«(…) Contou-me a infanta dona Maria, cuja cultura não poderá ser contestada, que o auto trata da resignação do velho rei da Síria, Seleuco. Acaba ele por ceder uma das suas esposas ao filho e herdeiro, pois que este está perdidamenre apaixonado pela madrasta. E há pior: parece que Luís Vaz no prelúdio menciona uma certa Catarina Real. Dona Maria repetiu-me a deixa tal como a ouviu: e entra logo Catarina Real com uns poucos de parvos numa joeira; e semeá-los-á pela casa, de que nascerá muito mantimento de riso.
Eu própria tremi. Luís Vaz tinha dado um passo arriscado. Todas as que ali estávamos reunidas na sala, sobre o Terreiro, sabíamos que o monarca João III por muito tempo acreditara poder vir a casar-se com a terceira mulher de seu pai, a bela Leonor de Áustria, mãe da infanta dona Maria. E como era galante! João III, para onde quer que fosse, fazia-se sempre acompanhar do retrato de dona Leonor de Áustria, pintado por Joos van Cleve. Sendo Leonor mãe da infanta dona Maria, o retrato fazia já parte da mobília. Era, de facto, de uma beleza invulgar: rosto esguio e olhos bem latinos, cor de amêndoa, testa alta e a pele..., de uma alvura sem par. Ainda antes de Manuel I, seu pai, se casar em terceiras núpcias com dona Leonor de Áustria, já João a desejava para si. Tai não sucedeu e foi dona Catarina a desposá-lo, uma segunda e remota escolha. Tenho muita consideração e respeito por dona Catarina. A pobre foi criada, no Convento de Tordesilhas, por uma mãe às portas da loucura. Cresceu cosida com as saias de Joana, a Louca nas sombras geladas daquele hospício e só viu a luz do Sol aos dezassete anos, quando o irmão, Carlos V, negociou o seu casamento com o Rei de Portugal. Muito sã de espírito e robusta de corpo era Sua Majestade para o que tinha passado, ainda mais tendo visto morrer os filhos, um por um. Só João Manuel vivia ainda. Não era, pois, de estranhar a tremura que levava nas mãos, o tom baço da pele e os humores melancólicos ou enraivecidos que a vinham tomando.
Não vejo tal afronta nas intenções do poeta, Alteza, esse assunto particular já se deu há um ror de anos, nem Luís Vaz era nascido..., desculpou-o Paula Vicente. Tenho para mim que o poeta não quis outra coise senão imitar os clássicos, fazer renascer os gregos e os romanos, como dita a moda. E sabeis bem que a infanta dona Maria não morre de amores por ele. Dona Catarina cerrou os lábios com força e arqueou as sobrancelhas. Reparei que ostentava uma gargantilha de várias fiadas de pérolas com um enorme rubi pendente. Vingava agora na profusão de jóias a míngua do Convento de Tordesilhas. Corpulenta e pesada como andava, foi penosamente que se levantou do estrado. Pousou o bordado numa almofada de seda e, seguida pelo seu Bejayo, pôs-se a caminhar pela sala, para trás e para diante, como fera enjaulada. De quando em vez parava, arquejante, saltando-lhe os olhos das pinturas de Jorge Afonso e Gregório Lopes para os novos guadamecis com cenas de caça que enfeitavam as paredes. Ganhava tempo e, quando assim era, o melhor era prepararmo-nos para o pior. Calámo-nos todas.
Não me interessa ouvir-te! Luís Vaz ridicularizou-me, desrespeitou-me, usou os dramaturgos antigos com a firme intenção de me desafiar, reacendendo os meus fantasmas. Escutai esta deixa: meu pai era clérigo, e os clérigos sempre chamam aos filhos sobrinhos; e daqui me ficou a mim, ser filho de meu tio. Acaso a achais galante a apropriada? Pois a mim não me deu vontade alguma de rir. Não me bastava assistir à morte prematura de toda a minha família, não me bastava ter de enfrentar este tempo conturbado de falta de fé, com as blasfémias de Lutero, não me bastava a incerteza da sucessão do Reino, para ter ainda de me sujeitar a semelhante desfaçatez! Com franqueza, senhoras!» In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.
                                                                                           
Cortesia de OdoLivro/JDACT

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Tens porventura conhecimento do auto que levou a cena com o nome El-Rei Seleuco? Quer-me parecer que aí foi Luís Vaz longe de mais»

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Catarina Ataíde. Oaço Real de Almeirim. 5 de Outubro. 1548
«(…) Certa tarde de Outono, bordava eu com as demais damas da infanta dona Maria na sala velha do Paço de Almeirim quando de súbito, e a propósito de nada, Sua Majestade, a Rainha, me perguntou: que novas tens desse teu poeta, dona Catarina Ataíde? Fiquei em sobressalto e as cores tingiram-me o rosto de uma vermelhidão tal que todas as damas repararam. Foi por Deus que as espirituosas e doutas irmãs Sigeia, Ângela e Luísa, bem como a minha boa amiga Paula Vicente, filha do mestre Gil, vieram em meu auxílio. Vendo-me assim alvoraçada, Ângela Sigeia e Paula Vicente foram de prestes buscar o alaúde, pondo-se a tanger bem alto, a fim de distrair a Rainha. Dona Catarina é astuta e tem por uso conhecer já a resposta para tudo o que pergunta. Entretinha-se, portanto, a pôr-me à prova. Acabado o recital, deu uma festa ao seu podengo Bejayo, que batia ruidosamente com a cauda no soalho, e tornou à conversa. O que sabes tu de Luís Vaz? Díz-me! Ora, Alteza, quase nada sei, além dos sonetos que me escreve e de que vós tendes conhecimento. Vistes por vossos olhos, Alteza, quão galante é Luís Vaz a poetar. Com efeito, dona Catarina Ataíde, não é porém à poesia que me refiro, mas ao carácter. Tens porventura conhecimento do auto que levou a cena com o nome El-Rei Seleuco? Quer-me parecer que aí foi Luís Vaz longe de mais. Fui colhida de surpresa. Luís Vaz nada me contara de tal auto. Só me falara a respeito de Lilodemo e dos Enfatriões e até me representar partes inteiras, como se estivesse no Pátio das Comédias, que muito bem me dispuseram.
Olhei de relance para Luísa Sigeia. Iria defendê-lo? Luísa dominava o latim e o grego e terminara havia pouco um poema, Sintra. Eu já prometera levar-lho a Luís Vaz, para que o lesse e sobre ele opinasse, mas não foi Luísa quem me salvou. Eu estava na sala, irrompeu Paula Vicente, com uma vénia. E se Vossa Alteza me permite, terei de discordar. Luís Vaz não pretendeu outra coisa que não levar a cena uma comédia à moda de Plutarco. São bem caçadas as personagens: Ambrósio, Lançarote, Frolalta, Martirn Chinchorro..., bem gostaria de ter estado em palco, actuando, como no tempo do senhor meu pai, o Plauto Português. Como ousava Paula Vicente contrariar a Rainha? Estás enganada, Paula Vicente, o senhor teu pai, o nosso muito querido mestre e amigo Gil Vicente, como bem sabes, posto que te encontras agora a compilar as suas obras, não pretendia magoar ninguém. No Auto da Visitação, por exemplo, celebra o nascimento de El-Rei, meu marido. Mas mesmo nas Barcas, em quem Tem Farelos, na Farsa de Inês Pereira, ou no último auto que escreveu, Amadis de Gaula, sabia fazer-nos rir com o picaresco saber popular das suas farsas e comédias. Lembro-me bem de como, a um tempo reproduzia a gíria atrevida das gentes desta terra e usava belas e saborosas alegorias que nos levavam a reflectir. Não é assim com Luís Vaz: disse-me a minha cunhada, a infanta dona Maria, que, tal como vós, assistiu à representação, que aquilo que ali se passou foi uma afronta. Veio de lá toda enxofrada! Confidenciou-me que o poeta escreveu o auto de um dia para o outro, em cima do joelho e por encomenda de Estácio Fonseca. Com tantos assuntos para levar a cena, foi precisamente dramatizar o tema doloroso do filho apaixonado pela mulher do pai». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «… esta foi a celeste fermosura da minha Circe, e o mágico veneno que pôde transformar meu pensamento»

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Catarina Ataíde. Oaço Real de Almeirim. 5 de Outubro. 1548
«(…) Passei o mês de Março a rezar agradecida pelo milagre da Ressurreição, porém não foi Cristo que em mim venceu a morte, fui eu que das chagas fiz luz e da luz um lugar em que me aprazia flutuar. Luís Vaz mandou-me um soneto. Antes de o poder ler fui obrigada a entregá-lo à camareira-mor, que depois o levou ao mordomo, para o fazer chegar à Rainha. Afortunadamente, a Rainha não lhe viu mal algum, antes uma arte sublime de grande poeta, sobejando-lhe em talento o que lhe escasseava em linhagem. Pude por isso guardá-lo para mim. Sei-o de cor, verso por verso, palavra por palavra.

«Um mover d'olhos, brando e piadoso,
sem ver de quê; um riso brando e honesto,
quase forçado; um doce e humilde gesto,
de qualquer alegria duvidoso;

um desejo quieto e vergonhoso;
um repouso gravíssimo e modesto;
uma pura bondade, manifesto
indício da alma, limpo e gracioso;

um encolhido ousar; uma brandura;
um medo sem ter culpa; um ar sereno;
um longo e obediente sofrimento:

esta foi a celeste fermosura
da minha Circe, e o mágico veneno
que pôde transformar meu pensamento».

E nem os sábios conselhos de Joana me demoveram. Aquela sugestão de amor em tão delicado soneto que de mim fazia Circe, a feiticeira de Homero, foi transformando também meu pensamento. Todos os pretextos me serviam agora para me deslocar ao palácio dos condes de Linhares Estranham1ente, das duas vezes em que com ela me cruzei, lançou-me a condessa um olhar tão altivo e desdenhoso que quase me fulminou. Quando primeiro a vi, ainda me rugiu: então és tu Catarina, a filha de António Lima e de dona Maria Boccanegra, dama de Sua Majestade? É a ti que elogiam a beleza serena? Os seus olhos subiam-me e desciam-me dos pés ao toucado, detendo-se em particular nos seios e na cintura. E quando cuidei que era terminada a inspecção, percebi que me enganara: não se dando a condessa por satisfeita e desejando certificar-se com maior minúcia, sacou de uma lupa e tornou a mirar-me de alto a baixo, como a uma escrava em dia de mercado. Vacilei, mas ainda assim consegui responder-lhe: sim, senhora condessa, sabeis bem quem é meu pai: camareiro-mor do infante Duarte.
Tentei apagar da memória aquele encontro, mas o que não apaguei nunca foi o desassossego que senti em casa dos condes de Linhares: o jeito intenso, desalvorado e experimentado com que Luís Vaz me tocava com as costas da mão no rosto, segredando-me: de quantas graças tinha, a Natureza, fez um belo e riquíssimo tesouro; e com, rubins e rosas. neve e ouro, formou sublime e angélica beleza. E chamando-me depois ora Laura ora Beatriz, como Petrarca ou couro Dante, e conduzindo-me para junto da namoradeira no vão da janela, frente ao rio, e trazendo-me o brilho do rio para dentro dos olhos... Luís Vaz valia todos os riscos e perigos». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.


Cortesia de OdoLivro/JDACT

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Saberia a dama da nossa chama? Saberia ela das noites em claro? Deste filho que gero e que tanto poderá ser dele como de meu marido?»

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Violante Andrade. Évora, 1 de Junho, 1545
«(…) Acrescia que dona Joana, talvez por ser feia e peluda, aperfeiçoara outras mestrias: era a dama mais informada da Corte de dona Catarina. Mal a vi deslizar sobre o soalho, como um cisne, tentando cumprir as regras do decoro, escondendo os chapins de seda, tive o cuidado de me certificar de que ninguém escutava às portas, o que por aqui é coisa muito usual. Passei a explanar-lhe o plano: precisava de tirar a limpo se Luís Vaz cedia aos encantos e graças femininas, apartando-se dos seus deveres. Não me referia, claro está, às graças e desgraças das rameiras, mas às mais delicadas e tentadoras graças feminis. Pelo semblante de dona Joana percebi que me tinha feito entender. As altas funções que confiara a Luís Vaz na instrução do morgado não eram harmonizáveis com dispersões de distinta natureza. Não era a má fama do poeta Trinca-Fortes que me assustava, era uma outra coisa que não tinha ainda por certa mas que o alheava das obrigações que o prendiam..., ao pequeno Antoninho.
Contei-lhe que Luís Vaz perdia muito tempo a compor sonetos e elegias, éclogas e sextilhas na medida nova, anotando-as todas num caderno. E disse-lhe que tudo aquilo não eram meras suposições, que o havia confirmado com o meu irmão mais novo, quase da mesma idade do Antoninho. Sucede que meu irmão Francisco assiste bastas vezes às lições do mestre, acostumando-se até a copiar as rimas do poeta no cancioneiro que anda a fazer. Diz que as acha graciosíssimas e plenas de chiste e frescura e pasma com a rapidez com que Luís Vaz as compõe, num estalar de dedos, sem uma hesitação, uma quebra que seja, como quem está embriagado por uma arrebatadora paixão. Pousei no regaço de dona Joana um saco de moedas e rematei: quero ver se ele te resiste.
Dona Joana abriu muito os olhos, espantada com o meu inusitado gesto. Primeiro hesitou; depois, decidida, afastou o saco. Não, senhora, de forma alguma, jamais o aceitaria, mas estais certa em vosso pensar. Mordeu o lábio e, gaguejando, prosseguiu: Luís Vaz anda alvoraçado e, tal como bem pressentis, não são as noites de má fama em Alfama, ou o tempo que consome a versejar, ou mesmo o Mal-Cozinhado, que o viciam: é a paixão que o domina. O chão escapou-se-me por debaixo dos pés. Saberia a dama da nossa chama? Saberia ela das noites em claro? Deste filho que gero e que tanto poderá ser dele como de meu marido?
Encorajei-a a que prosseguisse, mas as mãos tremiam-me e as cores fugiam-me do rosto. Chama-se Catarina Ataíde, é a minha melhor amiga e, tal como eu, dama da Rainha. Até aí cuidara não ter coração, só quando ali se quebrou me apercebi de que o tinha. E não se quebrou de uma só vez, foi-se quebrando aos pedaços, em tortura aguda e lenta». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «O meu desejo é tão forte, tão alto, tão urgente e tão insaciável que me basta ouvir-lhe a voz e ler-lhe os sonetos para estar certa de que é Luís Vaz»

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Violante Andrade. Évora, 1 de Junho, 1545
«(…) Mas outras e mais prementes coisas há que agora assim me deixam: Luís Vaz esquiva-se-me sem que eu descortine a razão. Sou formosa, segura, desejável, nobre, rica, culta, que sei eu... Sou eu mesma o fim e o princípio da sua tormenta, como ele mesmo mo recita: nunca o prazer se conhece senão depois da tormenta. Já antes se me havia negado. Ainda em Xabregas, bastas vezes o exigi em minha alcova e com grande desfaçatez se me escusou: ora havia de ir acudir à madrasta, ora era Bento que descia à capital, ora, pasme-se a leviana aleivosia, não podia delongar-se, a fim de honrar um encontro com Jorge Montemor, a quem havia de mostrar umas rimas muito belas que escrevera! Isto sabendo eu que Jorge Montemor passara a Castela ao serviço da Corte de Carlos V. Pior ainda: quando com ele me cruzara no meu palácio de Xabregas, Luís Vaz cheirara-me a vinho, chegando a apresentar-se a Antoninho com um golpe fundo no rosto, feito à faca, e não consentindo sequer que mandasse chamar quem o tratasse. Sei como folgava pelas ruas antes de me conhecer, atando e desatando amores, pagando por um corpo mais do que por uma refeição condigna, desbaratando o tempo a versejar aos postigos e alpendres por meia dúzia de reais, perdendo-se em brigas com pretos e mulatos pagos por fidalgos desavindos que o alcunham de Trinca-Fortes. Talvez a minha aguda suspeita resida nesta nova prenhez que dele ocultei. O meu desejo é tão forte, tão alto, tão urgente e tão insaciável que me basta ouvir-lhe a voz e ler-lhe os sonetos para estar certa de que é Luís Vaz o maior desejo e a maior desajustada esperança que acalento nestes primeiros meses de esperanças.
Tudo me cansa..., os olhos doem-me com o tamanho deste dia que se me afigura sem fim e que ainda não vai em metade... Por mais que o senhor meu marido insista em planear a recepção a Bernardim Ribeiro, que por Sintra anda a sarar as feridas de amor pela dama que o preteriu, por mais que se anime a convidar Pedro Nunes e Damião Góis e até Francisco Holanda, que regressa à Pátria, depois de muito ter privado com o mestre Miguel Ângelo, eu já o não oiço. De nada agora me importam poetas, cronistas, matemáticos, pintores. O pensamento não me sai do corpo e o meu corpo não se separa nunca do corpo de Luís Vaz. Nem mesmo me perco já nas intrigas que por aí correm. Para sobreviver preciso do poeta... Foi nesse serão, em que não prestei qualquer atenção às praças de África, ao cerco a Diu, aos autos-de-fé  no Terreiro do Paço, que tomei uma atitude de alto risco: ia, de uma vez por todas, pôr à prova o carácter do presumido Luís Vaz.
Mandei chamar Joana, uma das mais astutas damas da rainha. Estava ali perto, nos paços de Évora. Sabia do apetite que ela tinha pelo dinheiro e que logo o desbarataria em mais um bracelete de ouro. Estava disposta a oferecer-lhe uma quantia avultada para que seduzisse Luís Vaz. Se ele caísse no engodo, matá-lo-ia; se me fosse fiel, entregar-me-ia para sempre. A coragem é quase tão contagiosa como a cobardia e eu, Violante, condessa de Linhares, sempre fui uma mulher corajosa». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.
                                                                                   
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Até que o Amor me Mate. Maria Lopo Carvalho. «Vi Francisco Morais abanar a cabeça e passar as mãos pelas têmporas, alongando-se num interminável lamento»

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Violante Andrade. Évora, 1 de Junho, 1545
«(…) Lérias, lérias, o príncipe João Manuel está vivo e de saúde! Crescei e multiplicai-vos, ordens do Criador e preceito que todo o honrem, príncipe ou plebeu, cumpre de bom grado. Que esse seja o último dos nossos cuidados. Atendamos ao principal, o Norte de África, e não nos deixemos confundir por misteres de alcova. Há que largar as praças, senhor conde de Linhares, nada mais há a fazer. Abandonar o Norte de África? Onde andas com a cabeça, Francisco Morais? Avançam os mouros por aí acima em menos de nada! As nossas praças em África são um freio à investida do grão-turco, não as podemos largar, nem hoje nem nunca. Mas, senhor conde de que outra forma conseguiremos ajustar as contas do Reino? O senhor meu marido levou o copo à boca e demorou-se a saborear mais um golo do vinho alentejano. Depois, pousou o copo e prosseguiu: ora, Francisco, João III procede por vezes como um vulgar mercador, e o Reino não é uma chafarica da Rua Nova! Com franqueza! Temos o ouro do Brasil, ouro sem fim! Temos escravos até fartar, especiarias, porcelanas, tapeçarias, tecidos e riquezas, que mais nos falta? E a fortuna que Carlos V nos fez pagar pelas ilhas Molucas, senhor conde? Chega para isso e para muito mais! Somos donos do mundo, c'os diabos! Pensa alto, pensa grande. De gente mesquinha está o Reino cheio. Temos educação, temos quatro tipografias! Temos mestres estrangeiros em Coimbra, temos cientistas e matemáticos, temos navegadores que até a volta ao mundo deram. Não tens ouvido o que Pedro Nunes diz? Que o astrolábio, a bússola e o quadrante nos hão-de levar a novos céus, a novos mares. Muito mundo há ainda por navegar!
E quem nos governará? Se todos os infantes nos morrem… Quem irá segurar o trono? Que pergunta tola, Francisco Morais, já te disse. há-de ser um filho do infante João Manuel!
Vi Francisco Morais abanar a cabeça e passar as mãos pelas têmporas, alongando-se num interminável lamento. Em nada lhe aprazia contrariar o seu senhor mas, em verdade, a desarmonia entre o derrotismo de um e o ânimo exaltado do outro acompanhava os seus muitos e longos colóquios. Raramente acertavam passo. Credo! A desdita não há-de ser tanta..., e agora, meu caro amigo, há que acreditar na Insulíndia e nos novos tesouros que de lá nos chegarão! Tesouros, são as Molucas algum tesouro, senhor conde? Perdoai-me a insistência, mas não estou em crer que... Insulíndia, Japão... Apanho palavras no ar para logo as deixar cair. O senhor meu marido era um sonhador e eu mal sabia pronunciar aqueles nomes com sabor a cravo e a seda. O eterno desaguisado sobre as Molucas causava-me um tédio sem nome… E logo quando eu me achava particularmente radiosa, qual mui alta senhora de fogoso, ainda que por ora esquivo, trovador cativo. Os brincos de duas laçadas de pérolas sobressaíam-me do pescoço esguio, pois que trazia o cabelo apanhado numa coifa de veludo, toda ela ornamentada com um cordão de pérolas. A veste que trajava, verde-hortelã, era bonita e clássica, bem ajustada nas costas, fazendo realçar a cintura. Apesar da minha fresca prenhez, mantinha-me firme e jamais me sentira tão cheia de mim.
Radiosa, sim, mas também algo amofinada. Não com os trabalhos de João III, ou com os rumores que chegavam de Trento de que o papa convocara um Concílio, inquieto com as ideias de Erasmo de Roterdão, tentando a custo congregar e reunir todos os cristãos; não com o triste abandono de Safim e Azamor no Norte de África; não porque se achasse a praça de Diu cercada pelos otomanos; enfadava-me mormente a conversa em torno da ilhas de Maluco e do incerto hemisfério que ora as atribuía aos portugueses ora aos espanhóis. Agastava-me sobremaneira ouvir o senhor meu marido e Francisco Morais discutirem sobre a desavença entre João III e Carlos V acerca das ilhas de Maluco, das especiarias de Maluco, do cravo valioso de Maluco, da fortuna de 350 mil ducados que João III gastara para se casar com dona Catarina e comprar as ilhas a Carlos V. Malvadas ilhas de Maluco que malucos a todos, e mormente a mim, nos deixavam». In Maria João Lopo Carvalho, Oficina do Livro, LeYa, 2016, ISBN 978-989-741-488-6.
                                                                                   
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