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sábado, 9 de abril de 2022

Joana a Louca. Linda Carlino. «Completada a tarefa, Joana levantou-se para admirar o seu trabalho. Podeis ir, baronesa, que esta lição vos sirva para vos manterdes bem afastada de Felipe»

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«(…) Que mentirosa, isso não é nenhum caso. Felipe está apaixonado, ama-a, prefere ela a mim! Ouvi-o dizer!, Joana uivava. Não, não, não, Senhora, não pode ser. Lamento tanto. Quem é ela? Uma baronesa viúva. Chimay trouxe-a para cá para se recuperar da morte do marido faz alguns meses. E Felipe que me escreveu a implorar que regressasse. Disse que tinha saudades, que me queria. Mentiras, só mentiras! A minha mãe tinha razão. Quem ele queria que voltasse para Flandres era a herdeira da Espanha, não a sua mulher. Enquanto eu discutia tão amargamente com a minha mãe, estava ele nos braços da sobrinha de Chimay. Que devo fazer, Zayda? Estou perdida! Nunca!, Zayda ajoelhou-se a seu lado e tomou-lhe as mãos. Não estais perdida. Vós e eu havemos de arranjar forma de ganhar esta batalha. Lembrai-vos das palavras do vosso irmão sobre Joana, a lutadora. Desta vez não funcionam. Ainda não vos falharam. E eu sei ajudar de muitas formas. Amanhã tenho de estar no jardim. Tenho de lá estar, há uma carta. Falaremos disso mais tarde, Senhora. Primeiro, tendes de dormir e recuperar as forças para o desafio que vos espera. Eu tenho os filtros e poções necessários. Vou buscá-los imediatamente. Antes de sair, lançou a Maria um olhar furioso. É uma barbaridade que haja alguém que ouse insultar a princesa Joana desta forma.

O sol estava suficientemente forte para que fosse confortável estar sentado lá fora, enquanto a sombra das árvores e dos arbustos do caramanchão protegiam Joana e Maria dos seus raios. Joana quebrou o silêncio. Acabou-se a costura por hoje, os meus dedos tremem. Deu uma última olhada ao bordado. Era o lema de Felipe com a sua resposta romântica: Qui voudra, moi tout seul. Deixou escapar uma gargalhada amarga. Para quem quiser, somente eu. Como seria maravilhoso se fosse verdade. Levantou-se do banco e escovou as mangas. Maria guardou o bordado no cesto, antes de procurar palhas e raminhos por entre o padrão das saias de brocado de Joana. Um pequeno passeio, Senhora? Vaguearam pelo caminho ladeado por buxos, seguido por uma fileira de rosas brancas. Joana puxou as pétalas de veludo para si, para aspirar o seu perfume. A rosa branca de York. Finalmente, a velha bruxa morreu. Madame La Grande é uma a menos a conspirar contra mim.

As saias de ambas iam varrendo as pedras, à medida que caminhavam em direcção a um cacho de rosas vermelhas que subia por uma parede, deliciando-se com o sol. Estas são as minhas preferidas, Senhora. São de um vermelho tão intenso, tão macias ao toque e com um aroma maravilhoso. A rosa vermelha do amor! As suas pétalas cor de sangue são ao mesmo tempo fogosas e macias como o veludo. Envolveu uma nas mãos. A bela Beatrice vai encontrar a nota, disse, cortando a rosa. Eu hei-de encontrá-la, prosseguiu, cortando uma segunda rosa, e depois veremos o que veremos. Arrancou e jogou fora as pétalas. Voltaram até ao caramanchão e puseram-se à espera. Passados poucos minutos, Joana ouviu passos apressados. Via perfeitamente sem se mover um milímetro do seu posto de observação. Uma jovem correu para uma das urnas colocada junto de um arco de murta e enfiou a mão lá dentro. Tirou um pedaço de papel dobrado. Joana observou o grande sorriso deliciado dela enquanto levava o bilhete aos lábios.

Santo Deus, concedestes-lhe tudo: beleza, elegância, belas mãos de dedos finos, tranças douradas, um nascimento nobre. E, agora, o meu marido. Joana continuou a olhar, afogada em angústia, enquanto a jovem desdobrava o bilhete, lia-o avidamente e o escondia dentro do corpete. Isso, põe junto dos seios brancos de leite que Felipe conhece tão bem, gritou, caindo subitamente sobre a sua presa, arrancando-lhe bruscamente o pedaço de papel. Fico eu com isso. Que diz ele? Tremiam-lhe as mãos e a pulsação na garganta parecia estrangulá-la. Minha querida Beatrice... Beatrice arrancou o bilhete das mãos de Joana, rasgou-o rapidamente e enfiou os pedaços na boca. Joana lutou com ela, vociferando. Isso, espero que te engasgues. Pu…, como te atreves a roubar o meu marido? Afasta-te dele, ouviste? Puxava-a, primeiro pelas roupas, depois pelo cabelo. Joana conseguiu jogá-la ao chão e sentar-se sobre ela. Subitamente, tinha nas mãos a tesoura da costura. Começou a cortar e a dar golpes nos caracóis dourados, ignorando o olhar aterrorizado que a fitava e a boca aberta, incapaz de soltar um som. A tesoura enlouquecida arranhava e rasgava cabelo e carne, e das feridas abertas escorria sangue. Completada a tarefa, Joana levantou-se para admirar o seu trabalho. Podeis ir, baronesa, que esta lição vos sirva para vos manterdes bem afastada de Felipe». In Linda Carlino, Joana, a Louca, That Other Joana, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Espanha, História, Linda Carlino, Joana a Louca,

Joana a Louca. Linda Carlino. «Joana atravessou um laranjal, passando dos jardins ensolarados para um corredor desconhecido. Por aqui, Senhora! Porque não, Maria?, indagou Joana, indiferente…»

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«(…) Calai-vos! Calai-vos! Não gostais de mim, os meus sentimentos não vos interessam. Estais obcecada com a vossa Espanha. Dou-vos uma última oportunidade de provar que tendes um coração dentro desse vosso corpo. Eis aqui uma carta do meu pequeno Carlos: Quero que a minha mãe venha para casa, porque o meu pai está muito só sem ela. As princesas Leonor e Isabel, minhas irmãs, enviam mil beijos à sua querida mãe. Já tinha lido essa carta, Joana. Filha, pensei que tinhas mais senso e não te deixasses enganar tão facilmente. Não vês aqui a mão do conspirador? A carta termina... por favor, perdoai a descortesia de não ter sido eu próprio a escrever. São estas as ternas lamúrias do teu filho de quatro anos? Não te iludas. São as malignas maquinações do teu amado Felipe e dos seus conselheiros.Joana avançou para a mãe como se quisesse bater nela, gritando: Odeio-vos! Isabel levantou-se e olhou-a profundamente nos olhos. Se não fosse pelo teu estado de espírito, não teria tolerado a forma como falaste hoje comigo. O teu pai vem-me ver em breve e serão, então, feitos todos os preparativos para a tua viagem para Flandres. O infante Fernando ficará connosco. Mais um dos vossos esquemas? Que ele venha a herdar? Chega, Joana! Estou cansada disto. Trouxe Zayda comigo. Ela vai preparar um banho perfumado para ti e livrar-te dessas roupas malcheirosas. Talvez consiga fazer com que fiques com o aspecto e o odor de uma princesa, embora não te comportes como tal.

Joana atravessou um laranjal, passando dos jardins ensolarados para um corredor desconhecido. Por aqui, Senhora! Porque não, Maria?, indagou Joana, indiferente quanto ao sítio onde a levavam os seus passos. O seu mundo era de felicidade, uma felicidade infinita, desde o regresso a Bruxelas em Maio. Durante a ausência de um ano, parecia que Felipe tinha esquecido a sua beleza e vivacidade e ficou totalmente intoxicado pelo encanto da esposa. Chamava-lhe a sua jovem noiva e minha Joana. O seu maravilhoso marido, belo como um Deus, a amava. Os seus dias eram uma euforia de cavalheirismo romântico. Havia torneios, onde Felipe usava as suas cores, amarelo e verde, e derrubava sempre o cavaleiro adversário. Os banquetes e os bailes eram melhores do que se lembrava e as noites passadas a dois, de uma paixão e êxtase sem rival. De súbito, imobilizou-se.

Vai!, ordenou num sussurro. Ouvira vozes e uma suspeita incómoda atravessou-a, uma suspeita gélida e simultaneamente escaldante que recusava nomear. Assim que se achou sozinha, avançou na ponta dos pés e escutou de novo junto de uma porta próxima. Era a voz de Felipe. Aproximou-se mais, encostando a cabeça aos painéis. Há razões de Estado que exigem que eu esteja com ela, o vosso tio deve ter-vos explicado. Mas Beatrice, minha querida Beatrice, mesmo assim fui um louco ao negligenciar-vos tão cruelmente. Por favor, dizei que me perdoais. Perdoo-vos, Senhor. Senhor, não. Dizei: Perdoo-vos, Felipe. Perdoo-vos, Felipe. Joana tapou os ouvidos e virou-se para escapar à traição pungente daquelas palavras que lhe pertenciam, palavras ditas quando ela e Felipe se haviam encontrado pela primeira vez. Devia ter-se ido embora, mas era impossível. Também não podia escancarar a porta para pôr fim àquela infâmia. Havia algo que a levava, que a obrigava a ouvir mais. ... amanhã à noite, sem falta. E então já saberei dos preparativos finais da nossa semana de caça e onde vamos ficar. Prometeis?

A minha palavra de honra. Santo Deus, se nos tivéssemos conhecido há anos, como nossas vidas seriam diferentes. É tolice olhar para o passado, Felipe, para o que não pode ser alterado. Vamos é ficar gratos ao meu tio Carlos, o príncipe Chimay, por me ter trazido aqui quando o fez. Fez-se um silêncio. Não havia dúvida de que haviam caído nos braços um do outro. Joana deixou-se abater de encontro à parede. Era a sobrinha de Chimay! Porque a haviam chamado? Por quem? Quando? Quantos sabiam daquilo e há quanto tempo? Porque é que ninguém lhe contara? Que havia de fazer? Sentiu-se enjoada. O seu mundo, aquele mundo glorioso e feliz despenhara-se, despedaçado para sempre. Sem saber bem como, afastou-se da parede e endireitou-se. Como num transe, desceu o corredor com a voz excitada de Felipe nos ouvidos, a bela voz risonha falando de uma nota que iria esconder algures no jardim para a querida Beatrice.

Uma vontade de ferro fez com que Joana passasse pelos cortesãos e a sua má-língua ofensiva; chegou aos seus aposentos, onde se deixou cair de joelhos, em soluços. Zayda correu para o seu lado. Minha Senhora, o que aconteceu? Pergunta à Maria. Esta não respondeu. Conta-lhe, Maria, deves saber, provavelmente há já algum tempo, prosseguiu Joana, balançando-se para a frente e para trás tal era o seu desgosto. Não tinha a certeza. Era melhor não dizer nada se não tinha a certeza. E avisaram-me que não o fizesse. Quem? Madame Halewyn. Portanto, eram a Halewyn e o Chimay. Quem mais entraria na conspiração? E seguiste as instruções dela, traindo-me ainda mais? Minha Senhora, peço-vos humildemente perdão, ela me assegurou de que não era nada, que o caso acabaria em breve, que saber vos faria mais mal que bem». In Linda Carlino, Joana, a Louca, That Other Joana, 2007, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

JDACT, Cultura e Conhecimento, Espanha, História, Linda Carlino, Joana a Louca, 

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Tinha esperança de que durante este período de espera acabasses por ver o teu papel sob uma luz diferente. Agora chegamos ao cerne da questão. Pretendeis que eu fique aqui»

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«(…) Durante a hora seguinte, dom Fradique tentou encorajá-la a aceitar o facto de que os seus conselhos vinham do grande amor que lhe tinha. Doía-lhe vê-la tão profundamente infeliz. Cisneros observava, evitando qualquer comentário. Joana deu por terminada a entrevista. Estava resolvida, com uma determinação de ferro. Voltai para junto da minha mãe e dizei-lhe que não volto a escutar nenhum sermão dos seus mensageiros. Informai-a da minha intenção de regressar a Flandres. Havei-vos esforçado ao máximo para realçar que necessito da sua autorização para partir, portanto podeis dizer-lhe que não lhe darei paz até a ter. Dizei-lhe que esperarei o tempo que for necessário, junto do portão do castelo. Adeus, que Deus vos dê uma viagem rápida. Acompanhou-os ao portão e, enquanto eles partiam, retomou a sua posição num dos postos de guarda, de forma que vissem que falava sério. Agarrou-se com força às grades e ficou a olhar para o que pensava ser a direcção de Flandres. Ninguém a demoveu. Os guardas trouxeram-lhe uma braseira que lhe desse algum calor e alguém lhe colocou um manto de peles sobre os ombros.

Permaneceu no seu posto por cinco dias e noites terrivelmente frios, descansando raramente na sala da guarda. No sexto dia, chegou o comboio de bagagens da mãe. Joana reenviou-o para a cidade, afirmando enfaticamente que ninguém podia ficar no castelo, quando tudo estava pronto para partir. Mais tarde, quando a liteira que transportava a mãe entrou no pátio exterior, Joana não se mexeu, ignorando a sua presença e olhando com determinação a paisagem campestre. Isabel coxeou dolorosamente até junto dela, mas Joana não se virou para cumprimentar a mãe. Joana, vem comigo para que possamos falar, chamou-a baixinho. Não, não me afasto nem um passo de Flandres. Isso é absurdo. Vim explicar as razões das diversas demoras, um desapontamento compreensível, e como pretendemos organizar a tua viagem. A voz soava cansada e ofegante. Não me deixo enganar de novo. Dizei o que tendes a dizer aqui mesmo, respondeu Joana, continuando a olhar para longe. Não permitirei que me fales assim, nem pretendo receber ordens de ti. Esperarei por ti na sala da guarda. Terás uns momentos, mas, se após esse tempo não apareceres, presumirei que não desejas ouvir o que tenho a dizer e partirei. Com relutância, Joana juntou-se a ela, permanecendo na soleira, suspeitosa e obstinada. Isabel mirou aquela criatura desgrenhada e desleixada, o rosto sujo e manchado de lágrimas. Era aquela a sua filha, a herdeira de toda a Espanha? Estou pronta a ouvir as vossas razões para me manterdes separada de Felipe. Joana atirou as palavras à mãe. Nunca procuramos... Mentiras, só mentiras, cortou ela. Então, por que não me permitem partir? Por que ordenaram a Fonseca que me detivesse aqui? Para proteger-te da inevitável vergonha que cairia sobre ti ao mostrar ao mundo a tua extraordinária falta de respeito por nós e pelo nosso país.
Não me é demonstrado grande respeito, fazendo-me passar por tola, com os portões fechados, rodeada da minha bagagem sem lugar para ir. Não me interrompas. Temos de ter a certeza de que os tratados de paz são aceitáveis por todos os envolvidos. Surpreende-me que consigais lembrar-vos de todos, uma vez que andais sempre a mudá-los. E quem garante que não ireis quebrá-los? Já o fizestes, traindo o meu Felipe, quando a tinta ainda mal secara no tratado de paz que ele negociara para vós com a França. Ficou profundamente doente durante semanas. Mantendes-me refém para impedir que ele faça novas alianças ou tratados com a França, sei muito bem. Joana, escuta-me. Isabel ofegava. Tinha esperança de que durante este período de espera acabasses por ver o teu papel sob uma luz diferente. Agora chegamos ao cerne da questão. Pretendeis que eu fique aqui. Quereis que eu governe a Espanha, enquanto Felipe governa as suas terras. Não desejais que voltemos jamais a estar juntos. Permiti-me que vos diga que não estou interessada no governo de nenhum país. O meu único desejo é voltar para o meu marido. Retirou do corpete um papel dobrado. Lede-o, lede a parte em que ele diz como me deseja, como precisa de mim.
Joana, não preciso ler esta carta. Tenho a certeza de que ele te quer por perto. Certamente não deseja que fiques aqui sozinha, quando a minha morte já não deve tardar. Essa carta é o resultado do conselho dos seus conselheiros, que lhe explicaram o perigo de tu seres coroada na sua ausência e com o vosso filho Fernando como herdeiro. Como vos atreveis a manchar a carta de Felipe? Não vedes nada para além de coroas? Nunca vedes pessoas com sentimentos? Ou será esperar demais? O vosso pai e eu lutamos muito para construir esta nação. Foi a vontade de Deus levar João, o nosso belo filho, que teria sido rei. Deus decidiu igualmente levar Isabel e o pequeno Miguel. Recaiu sobre ti, Joana, ser a guardiã destas terras, e parte-nos o coração pensar que possam tornar-se nada mais que um apêndice da Áustria porque tu não te interessas em protegê-las. Oh, Joana, mentiria se dissesse que não tenho rezado constantemente para que compreendas onde estão os teus interesses». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Joana ergueu o olhar, logo se alegrando, pois ainda poderia haver esperança. Meu senhor arcebispo Cisneros e meu querido tio, por favor, perdoai esta recepção tão pouco hospitaleira»

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«(…) A rainha Isabel encarregou-me da vossa segurança e peço a vós que fiqueis aqui. Não, berrou ela. Como é que a minha mãe me pode fazer isso de novo? Chega! Haveis-me pedido que ficasse e eu recusei. E tentou passar por ele. Fonseca avançou para a frente dela. Suas Majestades pretendem apenas que fiqueis mais um pouco até poderem vir dizer adeus. Ah! Peço-vos que não insulteis a minha inteligência. Afastai-vos, quero passar. Fechai os portões! Baixai a ponte levadiça!, ordenou Fonseca. O estrondo da madeira reforçada e o ranger de correntes dilaceraram-lhe a alma. Ouvia o esmagar de todos os seus sonhos e esperanças. Recebi ordens para que não vos ausenteis deste local até Suas Majestades darem autorização. Não podeis visitar a cidade, nem sequer pensar em viajar. Lembram-vos que seria extremamente perigoso para vós viajar sem autorização. Devo tomar todas as precauções necessárias que vos impeçam de agir contra o desejo deles. Seu vilão! Seu vilão inqualificável. Pensei que éreis meu amigo. Revelastes todos os meus planos pelas minhas costas e depois conspirastes contra mim. E agora aprisionais-me. Confiava em vós e traístes-me. Agora não tenho qualquer esperança. Cuspiu-lhe aos pés. Não sois digno das vestes que envergais. Deixai que vos diga que, quando for rainha, farei com que os vossos actos sejam justamente recompensados. Antes de fazer o que quer que seja, ordenarei que vos enforquem. Ao contrário dos que me rodeiam, cumpro as minhas promessas, Fonseca. Odeio-vos! Hei-de mandar cortar a vossa língua viperina!
O padre curvara-se e apressara-se pelo portão do postilhão, lançando ordens enquanto caminhava. Já partira havia algum tempo quando Joana se apercebeu de como fora ofensiva para com a pessoa que insistira ter sempre a seu lado quando fosse rainha. Ergueu as saias e correu pelos degraus acima até às ameias, chamando-o. Meu senhor bispo, por favor, voltai, não pretendia dizer aquilo, perdoai-me. Não, acho melhor informar a rainha Isabel da situação. Ela irá aconselhar-me sobre o melhor a fazer. Joana desceu, vacilante, doente de apreensão. Só quero ir para junto do meu Felipe. Durante o resto do dia e da noite caminhou pela estreita passagem que corria junto às muralhas, mergulhada na sua infelicidade. Não dava conta da chegada das criadas, não reparava na mudança da guarda, ignorava a oferta de mais um manto. A um dado momento, na manhã seguinte, ouviu uma voz que se dirigia a ela. Dois visitantes, Vossa Majestade.
Joana ergueu o olhar, logo se alegrando, pois ainda poderia haver esperança. Meu senhor arcebispo Cisneros e meu querido tio, por favor, perdoai esta recepção tão pouco hospitaleira, mas, como vedes, espero partir a qualquer momento. Assim ouvimos, Senhora, mas não estaríeis mais confortável lá dentro? Tendes razão, e convidou-os a segui-la. Ambos se aperceberam de que a vitória seria fácil.

Joana, isto são as cozinhas. Pensamos ir para os vossos aposentos, sussurrou dom Fradique. Tio, aqui serve muito bem para mim. Vou esperar lá fora e comer e beber aqui até chegar o momento de partir. Joana, vim da parte da rainha para vos implorar, a bem da vossa saúde, que volteis para os vossos aposentos. Tendes de ter mais cuidado com a vossa pessoa para que, quando chegar a Primavera, estejais bem para viajar. Porque terei imaginado que trazíeis boas notícias? A minha mãe fala da primavera, não é verdade? Pretende deixar-me aqui para sempre, que eu bem sei. Fostes enviado com um monte de mentiras. Tio, eu só quero o meu Felipe, por que ela não me deixa ir ao seu encontro? Por que me tortura assim? Joana, minha querida, é claro que quereis o vosso príncipe e ireis ao seu encontro, mas a seu tempo. Tendes de vos recordar que não sois uma mera senhora a tentar voltar para o marido e para os filhos: é necessária muita cautela em todas as acções que vós e nós empreendermos. Analisemos a situação cuidadosamente». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Não se afastara muito quando encontrou Fonseca. Nenhum ficou feliz ao ver o outro. Vossa Alteza, posso perguntar por que motivo haveis abandonado o castelo? Vou a caminho da cidade…»

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«(…) O Castelo La Mota encarava ferozmente do cimo de um monte sinistro e isolado o animado mercado de Medina del Campo. Trazendo as notas de troca, gente de toda a Europa enchia o mercado durante as feiras, comprando e vendendo lãs, sedas, cetins e veludos. A praça, desproporcionadamente grande para uma cidade tão pequena, era um festival de cores e sons. Todavia, o castelo ficava distante e altivo; solene, frio, com aposentos húmidos e cheios de mofo, com frequência inundados pelas chuvas da Primavera que enchiam o fosso. Naquele pardacento e ventoso dia de Novembro, o enorme volume do castelo parecia mais inóspito do que nunca. Uma figura magra de preto, segurando nas saias e no manto contra o vento cortante, seguia caminho por entre as ameias, detendo-se ocasionalmente para espreitar na direcção da cidade. Já deviam estar aqui. O que os terá atrasado? Oh, meu Felipe, aí vou eu, aí vou eu, gritava Joana para as rajadas ferozes. Tinha o rosto encolhido enquanto olhava, os olhos pisados de negro.
Desde que acordava, não pensava em mais nada a não ser no regresso para junto de Felipe, que partira havia quase um ano. Entrara em luto no dia em que ele a deixara. Chorava durante horas e não falava em mais nada a não ser Felipe. Como tinha saudades dele, como o amava, como o desejava, como tinha de voltar para junto dele. Após semanas de pedidos ignorados, abatera-se numa profunda melancolia. Aquele estado de espírito mantivera-se durante os oito meses desde o nascimento do filho, Fernando, mas ela ainda não deixara a Espanha. Todavia, não haveria mais demoras, mais desilusões. As desculpas e as promessas constantemente quebradas seriam desnecessárias, pois desta vez fizera os seus próprios preparativos. Margarida, a sua querida Margarida, e até a rainha Ana da França tinham prometido que haveria carroças prontas à espera dela na fronteira. Partiria, apesar de os pais não lhe concederem licença para viajar. Fora assinado um tratado de paz com a França e isto, do seu ponto de vista, era garantia suficiente para a sua viagem segura para Flandres, para junto do marido. A partir daquele dia não seria mais prisioneira. Partiria. Porém, não via sinais dos cavalos. Desceu apressadamente os degraus, mandou chamar meia dúzia dos seus guardas e, sombriamente determinada, atravessou a ponte levadiça para descer o monte até à cidade, pretendendo lidar pessoalmente com os responsáveis pela demora.
Não se afastara muito quando encontrou Fonseca. Nenhum ficou feliz ao ver o outro. Vossa Alteza, posso perguntar por que motivo haveis abandonado o castelo? Vou a caminho da cidade para descobrir por que motivo os cavalos não foram enviados. Está tudo pronto para partir e, agora, essa demora. Não posso imaginar qual é o problema. Alguém será responsabilizado se não houver uma boa explicação. Estamos perdendo tempo valioso. Bom dia, meu senhor. Senhora, não devíeis ir à cidade sozinha. Então, acompanhai-me. Não é preciso. O problema já foi resolvido, mas não devíamos estar aqui ao frio; voltemos para o castelo e explicarei tudo a vós. E conduziu-a de novo pelo portão do castelo. Joana deteve-se, suspeitosa. Dizei-me o que se passa com os cavalos. Não quereis entrar? Não dou nem mais um passo. Os cavalos!? Estão em Medina. É claro que estão em Medina, cortou ela. É por isso que ia a caminho. Não me trateis como uma idiota. Não vêm para cá. Mandei-os para trás. Como vos atreveis? Com que autoridade?, gritou Joana, a raiva quase impedindo-a de falar». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

terça-feira, 4 de setembro de 2018

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Falamos já. Vou-me embora. No início, disse que regressaria a Flandres no espaço de um ano e ninguém me vai dissuadir. É claro, meu amor, e concordo convosco, mas é óbvio que temos de ser pacientes»

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«(…) Fernando odiava de tal forma a ideia de um Habsburgo vir a usar a sua coroa, que chegou a declarar a sua intenção de voltar a desposar-se caso Isabel morresse. A fúria cega de Felipe ainda a assustava e Joana tratou de esconder no fundo do pensamento todas as recordações daquele dia. Marquês, achais que Felipe estava simplesmente dando conhecimento prévio à rainha da nossa partida? Imediatamente, como todos sabemos, pode envolver meses de preparação. É isso que todos esperam. Tenho de usar algo muito especial para recebê-lo. Maria, acho que o vestido de veludo roxo. Maria juntou a costura e preparava-se para deixar a sala quando Felipe entrou violentamente, trazendo com ele uma onda gelada de ar invernoso. Atirou ao chão a capa manchada de lama, o chapéu e as luvas. Estendeu as mãos para o calor agradável do fogo, o rosto transformado numa máscara tempestuosa. Não vão dizer-me o que posso ou não fazer, nem o que devo ou não dizer. Acabaram-se os sermões. Felipe, meu amor, tendes frio e estais cansado da viagem. Aquecei-vos, descansai um pouco, falaremos mais tarde. Joana aproximou-se dele de braços estendidos. Meu querido amor. Ele afastou rudemente os braços de Joana.
Falamos já. Vou-me embora. No início, disse que regressaria a Flandres no espaço de um ano e ninguém me vai dissuadir. É claro, meu amor, e concordo convosco, mas é óbvio que temos de ser pacientes, temos de esperar um pouco... Ele agarrou a mão que se aventurara a afagar-lhe a face. É óbvio, Senhora? Temos de esperar, Senhora? Pretendeis igualmente passar-me um sermão? Felipe, permiti-me. Temos de esperar até o nascimento do nosso filho, uma questão de semanas. Nessa altura, estaremos no início da Primavera... Não vim aqui pedir a vossa opinião, assim como não fui a Madrid em busca do conselho de Isabel. Nem ela nem mais ninguém vai-me dizer para escolher entre Luís e a Espanha, nem ninguém me vai dizer onde devo viver. Pretendo fazer o seguinte: partirei esta semana.
Querido, dizeis isso apenas porque estais zangado, porque os meus pais vos perturbaram. Quando tiverdes tempo para reconsiderar, meu amor, reconhecereis que... Estai calada, pelo amor de Deus! E agora escutai e escutai bem. Odeio este país. Odeio este povo. Odeio este tempo e só Deus sabe como odeio a comida. Mas pior, considero os vossos pais as pessoas mais hipócritas que jamais conheci e recuso-me a ficar, passando por um idiota ainda maior. Joana ficou chocada, consternada e, ao mesmo tempo, ansiosa. Que mais podia dizer? Meu Senhor, tenho a certeza... Disse-vos que vos calásseis! Calai-vos e sabei qual o vosso lugar! As palavras assobiavam por entre os lábios semicerrados. Tenho de voltar a Flandres. Viajarei pela França. Não há mais nada a dizer. Ir pela França seria... Ou não haveis ouvido ou sois demasiado estúpida para compreender o que acabo de dizer. Olhai para mim e escutai: vou partir da Espanha e darei início à viagem ainda esta semana. Mas, Felipe, eu tenho de ficar cá, não posso viajar no meu estado. Esse, Senhora, é um problema vosso, não meu. Felipe estava tão cego pela fúria que nem considerou a possibilidade de Joana ter um filho e Isabel, dado o seu total desprezo pelo arquiduque, nomear a criança como herdeira, negando-lhe, assim, quaisquer direitos ao trono de Castela.
Assim que o bebé nascer, partimos. Deixamos aqui a criança e viajamos por mar. Pretendo atravessar a França para ver o rei Luís, para limpar o meu nome. A Espanha está em guerra com a França. Irei como embaixador do vosso pai. Este jogo pode ser jogado por dois. Negociarei a paz para Espanha, nos meus próprios termos, uma nota oportuna de que nunca lhe perdoarei ter-me obrigado a presidir uma reunião de preparação do seu exército contra os franceses. Então era verdade. Pretendia mesmo ir e sozinho, deixando-a para trás. Joana não podia, não iria suportar. Vós? Negociardes com Luís? Como um vassalo negocia com o seu amo? Do que observei, iria limitar-vos a lamber-lhe as botas e a fungar a vossa concordância com tudo o que ele exigisse. Que imagem sórdida da humilhação e do servilismo. Sua perversa... Agarrou-lhe um dos pulsos com uma mão, enquanto lhe esbofeteava as duas faces com a outra, atirando-a em seguida ao chão. Em grande pranto, Joana rastejou até aos pés dele.
Que o diabo me leve a língua, Felipe, se pretendia dizer aquilo. Perdoai-me. Oh, meu Deus, que fiz eu? Felipe virou-se para Maria e Vilhena, as embaraçadas testemunhas. Olhai! É esta a mulher que queriam fazer rainha, sendo eu apenas seu consorte. E fala ela de servilismo! Joana sabia que, se ele fosse sem ela, perderia a esperança que lhe restava de que ele lhe pertencesse, a ela e só a ela. Cairia nos braços da primeira dama flamenga que encontrasse. Na Espanha, estivera protegida dos seus namoros. Ali, as jovens eram frígidas, lamentara-se Felipe, não correspondendo aos seus avanços amorosos. Uma vez em casa e sem a sua presença, estaria perdida. Imploro-vos! Estais vendo-me de joelhos, implorando-vos. Por favor, Felipe, não me abandoneis. Ele olhou para ela, para aquele rosto manchado de lágrimas, feio e inchado, com as marcas inflamadas dos seus dedos nas faces. Joana choramingou, numa derrota abjecta, agarrando-se às suas botas. Não ficais para o Natal? Dais-me nojo!, disparou ele, soltando-se com um pontapé». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Os seus afamados cozinheiros flamengos foram acusados de negligência criminosa, embora tivessem insistentemente negado qualquer culpa, apontando um dedo acusador aos criados espanhóis»

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«(…) Porém, as últimas palavras de Filipe queimavam o íntimo de Joana e nada mais existia para além de uma escaldante onda de desejo. Era esmagador, só conseguia pensar no corpo nu de Filipe junto ao seu. Fingindo cansaço após um longo dia e uma necessidade desesperada de descansar, deixou a mesa, ordenando aos pés que caminhassem e não corressem. Filipe disse que achava ser seu dever acompanhá-la aos aposentos.
O frio de Dezembro que varria o palácio de Alcalá de Henares não se comparava com o que paralisava Joana. Segurou a cabeça e cambaleou. O marquês de Vilhena apressou-se a assistir à princesa, já no sexto mês de gravidez. Preciso de tempo. Tenho de ter tempo para pensar. Isso não pode ser verdade, exclamava ela, olhando para o papel que tinha nas mãos. Senhora, a rainha sabia muito bem da determinação de Felipe em abandonar a Espanha, tendo-o convocado de Saragoza a fim de o acautelar sobre o seu comportamento e de enfatizar as razões pelas quais devia ficar, além de mostrar por que motivo devia fazer um esforço para compreender esta nação que irá herdar. Como podeis ver pela carta, não teve êxito. O príncipe exprimiu a sua decisão de partir imediatamente. Ela conta agora convosco para o persuadir a adiar a partida. Considera isso uma questão da maior importância.
É claro que Felipe está ansioso por voltar a Bruxelas e eu anseio por ver de novo os meus pequeninos, mas a minha mãe deve estar enganada, pensando que Felipe deseja que partamos imediatamente. Não é hora de viajar. Pensamentos inquietantes insinuavam-se no seu espírito: estaria Felipe tão descontente que quisesse apressar a partida, indiferente às consequências; teria a sua mãe encorajado-o a partir, para se ver livre de um genro que considerava fútil e irreflectido, mantendo Joana com ela? Vilhena prosseguiu: apesar de tudo, a rainha Isabel achou melhor estardes prevenida antes da chegada do príncipe. Felipe estava apenas a duas horas de viagem e, portanto, chegaria muito em breve. Havia semanas que não o via e sentira muitas saudades. O seu coração sobressaltou-se, pois os dias solitários iam terminar. Felipe vinha aí. Tomai a vossa carta, marquês. Agradeço-vos o vosso interesse, tudo se resolverá por bem, asseguro-vos. Sorriu, certa de que, assim que tivesse Felipe junto de si, conseguiria afastar o seu mau humor, como fizera tantas vezes recentemente.
Dera-se a morte prematura de Artur, príncipe de Gales, o que pusera fim à sua agradável estada em Toledo. Isabel ordenara nove dias de luto. Sagaz, Joana concedera a Felipe nove dias de caça, embora soubesse como iria sentir-se infeliz sem ele. Depois, a cerimónia do juramento, já adiada devido ao luto, causava-lhe muita exasperação. E, quando foi nomeado apenas consorte, com o agravante de, no caso da morte de Joana, Castela passar directamente para o seu filho Carlos, o insulto foi demasiado ultrajante. Fora possuído por uma fúria imensa devido a um incêndio que destruíra grande parte dos tesouros sem preço da sua casa. Os seus afamados cozinheiros flamengos foram acusados de negligência criminosa, embora tivessem insistentemente negado qualquer culpa, apontando um dedo acusador aos criados espanhóis.
Todavia, esses problemas não eram nada perante a perda de Busleyden. Durante o Verão, houvera muitas mortes entre os flamengos, vítimas do calor ou da comida, e o seu querido amigo e conselheiro fora uma delas. Para Joana não fora nenhuma tragédia, pois via a morte do conselheiro como a retribuição divina dos seus inúmeros actos cruéis. Felipe suspeitara, evidentemente, de envenenamento, o que era uma possibilidade, pois circulavam rumores sobre umas cartas roubadas que alegadamente confirmavam o envolvimento dele em intrigas contra a Espanha. Verdade ou mentira, um jovem camareiro foi torturado até confessar o roubo e o assassinato. Em todos esses infortúnios, Joana desempenhara na perfeição o papel de dama solidária, conseguindo sempre que Felipe voltasse a ser o jovem despreocupado que fora durante toda a vida. Com a excepção daquela desastrosa cerimónia de juramento em Aragão, onde se viram confrontados com uma emenda que incluía a possibilidade de um futuro herdeiro aragonês». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 31 de maio de 2018

No 31. Joana. A Louca. Linda Carlino. «Nem eu, mãe?, perguntou Joana de ânimo leve, sabendo que sempre fora e sempre seria uma substituta secundária das irmãs no coração da mãe»

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«(…) Da catedral até à casa de Beatriz, a marquesa de Moya, era uma curta distância. Era aí que se iriam alojar durante a estada em Toledo. Fernando, Joana e Filipe passaram da luz brilhante e do calor do Sol e do ruído da multidão para a sombria sala do trono. Das paredes pendiam tapeçarias mostrando a prisão de Cristo, a lavagem dos pés e Pôncio Pilatos atormentado pela sua dúvida. Não era uma atmosfera muito alegre para receber o jovem e orgulhoso casal. Sobre um estrado ao fundo da sala, via-se uma velha curvada, sentada no trono. Joana engoliu em seco. Isabel, com um aspecto velho e doente, trajava inteiramente de negro, à excepção de uma gola com pequenos motivos de setas douradas, incrustadas de rubis e pérolas. Apenas duas damas acompanhavam a mãe: a sua amiga de longa data, Beatriz, e a homónima de Joana, filha natural de Fernando.
Joana contemplou a mãe que pensara não voltar a ver. O tempo e os acontecimentos haviam desafiado selvaticamente aquela rainha, em tempos invencível. O corpo apresentava-se pesado e inchado, o rosto flácido e profundamente enrugado, o cabelo grisalho. Joana tentou pegar na mão da mãe para o beijo tradicional, mas Isabel impediu-a e, levantando-se com dificuldade, desceu os degraus penosamente. Minha querida filha! Isabel abraçou-a, apertando-a contra o amplo peito, beijando-a e chorando. E o nosso filho Filipe. Príncipe, sois muito bem-vindo. Fez-lhe sinal para que se aproximasse, para receber o abraço de boas-vindas. Espero que estejais totalmente recuperado.
Também ele se ofereceu para lhe beijar a mão, mas ela retirou-a para lhe poder apertar os braços numa demonstração de afecto. Joana traduziu a breve conversa. Bom, Filipe tem de ficar com o rei, enquanto eu vos guardo para mim, minha filha. Santo Deus, já não sois uma menina, mas uma mãe. Vamos para os nossos aposentos. Caminharam juntas, de braço dado, lentamente; cada passo era para Isabel uma agonia. Uma vez no quarto e instalada confortavelmente com Joana a seus pés, começou a interrogá-la. Estava ansiosa por notícias dos três pequeninos deixados em Bruxelas. Eram saudáveis, com quem se pareciam, quando teria os seus retratos e, ainda mais importante, quando viriam a Espanha?
Depois vieram as perguntas difíceis. Isabel exigia a verdade sobre o comportamento de Filipe para com Joana, as obrigações religiosas da filha, auto-impostas ou não. Especificou os inúmeros rumores que guardara cuidadosamente ao longo dos anos. Joana sentiu-se em terreno movediço, pois as informações eram de uma precisão desoladora. Não se atrevia a responder, preferindo negar a importância das perguntas. Preocupais-vos demasiado. Essas coisas, muitas exageradas, pertencem todas ao passado e devem ser esquecidas. Contai-me sobre vós, pois haveis sofrido muito mais que eu.
Isabel decidiu não insistir e, afinai, a filha pareceu-lhe bem e feliz. Falou-lhe das mortes trágicas da família e de como cada uma tinha sido um punhal espetado no seu coração. E as minhas irmãs, Maria e Catarina? Estão ambas casadas e de boa saúde e as cartas delas dão-me um grande consolo. Mas sinto-me muito só. Não há solidão que se compare à de um lar vazio. Tenho uma profunda dor no coração que nada alivia e nada consegue tirar-me este terrível peso da mágoa. Nem eu, mãe?, perguntou Joana de ânimo leve, sabendo que sempre fora e sempre seria uma substituta secundária das irmãs no coração da mãe». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Joana, Filipe e Fernando desmontaram e aproximaram-se dos degraus. O silêncio desceu sobre a multidão e o arcebispo Cisneros avançou, transportando o seu magnífico báculo de ouro…»

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«(…) Um céu de um azul brilhante e um sol quente estendiam-se pelo vale e subiam até aos montes. Ela e Filipe, cada um sob um dossel que ostentava os seus brasões e acompanhados pelo enorme séquito, estavam a uma légua de Toledo. O pai, rodeado pelos seus nobres, clérigos e guardas, viera ao seu encontro. Eram umas boas-vindas para além de tudo quanto sonhara. O único desapontamento era a ausência da mãe, que ficara em casa, ainda indisposta. Subiram juntos o monte, entrando na cidade pelo arco em ferradura da antiga Porta Bisagra. Depois prosseguiram pelas ruas estreitas, atapetadas de alecrim e tomilho, até à Porta do Sol. O cortejo era um esplendor de cores que brilhavam como ouro e prata. O povo, inclinado nas varandas adornadas com tecidos de todos os tipos e cores, dava-lhes vivas, enquanto subiam até à catedral. Longa vida aos Reis Católicos. Longa vida à princesa Joana e ao príncipe Filipe. Que Deus abençoe os vossos filhos, lá tão longe, e lhes conceda uma longa vida. Joana acenava e sorria, sentindo que o coração lhe ia rebentar de orgulho, adorando cada momento.
Os tambores, as cornetas, as trompas e os cornetins aumentavam o clamor. Pétalas de flores caíam profusamente sobre os dosséis e sobre os ombros e as cabeças dos que seguiam no cortejo. Entraram, por fim, na grande praça sobranceira à catedral. Também ali a multidão era enorme, apertando-se em espaços que pareciam não existir antes, agarrando-se às paredes e às grades das janelas, tal era a sua determinação em ver a princesa. A larga frontaria da sua igreja, com os seus portais enormes, era ainda mais imponente do que se lembrava. Os santos de pedra no topo das colunas e os que repousavam nos nichos arqueados olhavam, como se se alegrassem pelo seu regresso, alguns pareciam mesmo ter os braços estendidos em boas-vindas. Aquela catedral, onde Joana fora baptizada, iria testemunhar daí a dias a proclamação dos seus direitos hereditários às coroas de Espanha.
Joana, Filipe e Fernando desmontaram e aproximaram-se dos degraus. O silêncio desceu sobre a multidão e o arcebispo Cisneros avançou, transportando o seu magnífico báculo de ouro cravejado de jóias. Era aquele homem que em tempos tanto a intimidara? Os seus olhos não lhe trespassavam a alma e a boca já não era dura e pronta a criticar. Joana decicliu que parecia muito mais um tio simpático do que um padre desaprovador. Talvez o tivesse julgado mal no passado. No interior da catedral, os pilares, a arcaria das capelas, as divisórias e as estátuas eram banhados pela luz do Sol que entrava a jorros pelas inúmeras janelas. O cortejo passou pela coluna que marcava o local do primeiro altar, havia muitos séculos, quando a Virgem Maria descera à Terra e abençoara o monge Ildefonso por defender a sua virgindade contra os descrentes. Joana sabia que Filipe não daria importância a isso, mas mesmo assim tinha de lhe dizer. Passaram finalmente para lá da divisória de prata do coro e foram levados aos seus lugares.
À missa solene foi demasiado longa, para já não falar dos cânticos a partir do intróito, que, apesar de imaculados graças a um excelente cantor, se revelaram uma grande frustração. Filipe inspeccionava as unhas finamente tratadas com mais intensidade a cada minuto que passava e Joana deixou o olhar vaguear para além das nuvens azuladas do incenso até às capelas laterais; pousou-o, por fim, nos arautos chorosos, em tamanho natural, com os seus tabardos de cores magníficas, que guardavam o túmulo de Catarina de Lencastre, sua bisavó. Começou, então, a pensar na irmã Catarina e em como seria a vida em Inglaterra. O coro cantava o Kyrie Eleison, Christe Eleison. Acabou, por fim. Agora podia ir ver a mãe». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-234-231-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Carlos V. Linda Carlino. «Os sinos estão anunciando a sua chegada. Ele está aqui. Veio para este lugar de paz e retiro, afinal. Já ouviste repicar de sinos mais alegre?»

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Orgulho. Poder. Paixão
«(…) Mas, primeiro, uma palavra ou duas sobre Yuste. A ordem dos Jerónimos está aqui há mais de um século e hoje é uma comunidade rica, possuindo acres de terra fértil em abundância no vale, além de pomares, olivais e vastos bosques nas colinas ao redor. Há pouco tempo, construíram aquele segundo claustro bonito à esquerda, com apartamentos pequenos e encantadores para o rei; seu pequeno palácio. Engenhosamente acrescentado à direita, o monastério tornou-se uma verdadeira jóia aninhada num mar cor de esmeralda de carvalhos e castanheiros sempre verdes. E mais adiante à nossa esquerda, ainda há outra extensão igualmente necessária, os estábulos; tu podes vê-los no pátio exactamente através da arcada.
O motivo de Carlos ter escolhido fazer o seu retiro aqui, ninguém pode ter certeza realmente; mas é verdade que não foi para tornar-se monge, isso é certo, para grande desgosto do prior. E quando consideras os magníficos palácios a que Carlos foi acostumado no passar dos anos, e o palácio espectacular que construiu em Granada, este dificilmente parece ser um lar apropriado, tanto em tamanho como em localização. Nada mais que dois andares, ambos idênticos, cada qual com quatro salas e um corredor central. Seu grande isolamento pode ter sido a atracção. E, pensando bem, agora que Carlos abdicou, este isolamento pode muito bem ser uma bênção para outros; evitará a sua interferência nos assuntos de Estado. Enquanto ainda estamos esperando, e não é um dia de Fevereiro tão frio assim para ficarmos por aqui, vou dar-te algumas informações básicas sobre esse homem, o imperador Carlos V. Tem quase cinquenta e sete anos e é viúvo há dezassete. Um homem envelhecido prematuramente, atormentado pela doença, pelo peso da derrota, que veio para passar o restante dos seus dias aqui, neste tranquila região, remota e montanhosa do sudoeste de Espanha.
Nasceu em Flandres, e na época em que tinha dezassete anos, era rei da Espanha e de vastos domínios, tinha herdado Flandres, os Países Baixos e o título de arquiduque da Áustria. Logo depois de tornar-se rei da Espanha, ele foi eleito, ou comprou, como alguns diriam, incluindo eu, a Coroa do Sacro Império Romano-Germânico. Mas ouçam. Sim. Os sinos. Os sinos estão anunciando a sua chegada. Ele está aqui. Veio para este lugar de paz e retiro, afinal. Já ouviste repicar de sinos mais alegre? Alcançando as partes mais longínquas do vale, chamando a todos, regozijem-se, porque o seu imperador e rei está aqui entre vós! Perdoe-me; a emoção do momento fez-me perder a compostura. Agora vê, as portas da capela estão se abrindo e aí vêm os frades nos seus hábitos, as túnicas brancas e os escapulários castanhos dos Jerónimos. Vamos afastar-nos, lá em direcção aos estábulos. Sim, este é um excelente ponto de observação; podemos ver e ouvir tudo daqui.
Uma cavalgada com cerca de cinquenta animais serpenteava caminho acima pela colina coberta de árvores, ondulando em torno das últimas curvas da trilha de pedra, passando pelos moradores locais, reunidos para vislumbrar a pessoa que tinha dito a eles que era o rei. Ao entrar no pátio, a forma requintada da cavalgada transformou-se num emaranhado hesitante de indecisões. Depois de vacilar e andar em círculos, um grupo pequeno de cavaleiros guiou a liteira de dois cavalos para a entrada da capela. O prior, com toda a solenidade e dignidade praticadas por semanas, endireitou o seu manto de capuz castanho e aproximou-se da liteira, em forma de uma caixa de madeira habilmente adaptada, que abrigava o seu mais ilustre convidado. Um sussurro vindo detrás de Alonso e Manuel exortou-os à acção. Certo, rapazes; vamos a isso. Manuel, Alonso, segurem aquele cavalo lá atrás. Peguem os cabrestos». In Linda Carlino, Carlos V, tradução de Leonor Cione, Editora Europa, São Paulo, 2008, ISBN 978-857-960-180-4.

Cortesia de EEuropa/JDACT

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Joana. A Louca. Linda Carlino. «… os dois homens que mais amo a falarem sem parar, e nenhum percebeu que o outro não consegue compreender uma única palavra do que dizem!»

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«(…) E como se sente o meu doentinho depois do seu sono? Joana, ainda estais aqui?, procurou-lhe a mão, mas um ataque de tosse obrigou-o a pegar antes no lenço. Meu pobre querido. Tomai, tenho aqui o remédio, abri bem a boca. E despejou uma colherada de xarope de violetas de um frasco. É tão delicioso. Limpou a colher com a língua. Sois a minha enfermeira ou apenas uma criança gulosa? Ambas. E agora acho que são horas de uma tigela de caldo de galinha. Ele implorou-lhe: mais canja, não. Joana fez sinal ao camareiro que levasse a ordem à cozinha. Apaparicou o seu querido Filipe; primeiro banhou-lhe o rosto com água fresca, secando-o suavemente com uma toalha bordada; depois, penteou-lhe o cabelo e pôs-lhe um barrete de noite lavado. Afofou-lhe as almofadas e entalou as cobertas em seu redor. Hoje estou muito melhor. Joana. Em breve estarei suficientemente bem para mais um jogo de setas. Oh, detesto as doenças, apetece-me levantar-me. O jogo das setas ainda tem de esperar um bom pedaço; de qualquer forma, atirar paus um ao outro não me parece um passatempo muito sensato. Não percebeis nada de desporto. É bem verdade. Mas aqui está o vosso almoço. Vou deixar-vos por um bocadinho e apanhar ar na galeria. Fazei por comer tudo, os médicos recomendam-no seriamente. Sei isso muito bem, há dias que não como mais nada; não vos admireis se, quando voltardes, me encontrardes a cacarejar.
Joana riu-se. O vosso riso é o melhor remédio. Mas não tão bom como canja de galinha, retorquiu-lhe ela. Lá fora, inspirou o delicioso ar de Abril. Caminhou lentamente ao longo dos quatro lados da galeria, gozando profundamente a sua nova vida. Ouviu-se uma algazarra que subia de tom e vozes surpreendidas, e o pátio, lá em baixo, em breve se encheu de cavaleiros. Houve ordens gritadas e alguns dos cavaleiros saltaram imediatamente das selas, correndo para um cavalheiro que permanecia sentado na sua, à espera de assistência. Os guardas dos portões ergueram pendões com as armas de Castela e Aragão. Seis anos antes, Joana olhara e vira um jovem cavaleiro coberto de pó; naquele dia contemplava outro viajante mais velho, mas igualmente poeirento. Não, não podeis ser... Sois... Joana descalçou rapidamente as sobrechinelas para que os belos sapatos de pele a levassem rapidamente numa nuvem rodopiante e impetuosa de veludo vermelho ao longo da galeria, pelas escadas abaixo e através do pátio empedrado até um cavaleiro vestido inteiramente de negro.
Pai..., pai... Beijou-o, atirou os braços em seu redor e depois encostou o rosto ao peito dele. Fernando beijou-lhe a testa. Oh, querida Joana, voltastes finalmente para nós. Oh, pai, pai... Voltou a beijá-1o incessantemente, com as lágrimas a descerem-lhe pelo rosto. Joana, as princesas não se comportam assim. Esta sim! Deixai-me olhar a minha filha, uma mulher e mãe de três filhos saudáveis. A examinardes-me assim fazeis-me corar, riu-se ela. Agora é a minha vez. O pai estava muito mais gordo do que se recordava e Joana reparou que, ao remover o chapéu de viagem e o lenço, verificou cuidadosamente se a peruca estava direita. Usava peruca! E perdera um dos dentes da frente. Apesar de tudo isso, continuava a ser o seu pai forte e belo. Quanto à fria despedida do passado, descartou-a, pois não acabara ele de mostrar como estava impaciente por vê-la de novo? Não conseguira esperar até à sua chegada a Toledo. Fernando colocou, então, a importantíssima pergunta que o trouxera ali: Joana, tenho de saber a gravidade desta doença. Não há nada a temer, acreditai, o pior já passou e está a recuperar depressa. Filipe é forte e os médicos dizem que em breve estará bem e em forma. Mas tendes de o vir ver. E pegou-lhe na mão para o puxar em direcção às escadas. Minha querida, calma! É claro que o irei ver, embora o protocolo seja ignorado. Na verdade, devia esperar até chegardes a Toledo, mas eu e a vossa mãe tínhamos de saber se a doença era tão grave quanto temíamos. É essa a razão da minha presença aqui. A alegria de vos termos de novo em Espanha transformou-se rapidamente em ansiedade ao recebermos as notícias. Tendes de desculpar o nosso pessimismo. De braço dado, dirigiram-se aos aposentos de Filipe; Joana mal se detinha para respirar, desejando contar tudo de uma vez. Fernando atravessou o quarto para junto do genro e Filipe tentou remover o gorro em sinal de respeito. Não, não, meu amigo, deixá-lo estar. Precisais dele. Ofereceu a mão para que Filipe a beijasse, mas, ao recordar-se do sarampo, retirou-a rapidamente e afastou-se uns passos. Mandou colocar uma cadeira a uma distância que considerou segura. Entretiveram-se a trocar cumprimentos formais até serem interrompidos por uma gargalhada de Joana. Perdoai-me, pai, mas tenho perante mim os dois homens que mais amo a falarem sem parar, e nenhum percebeu que o outro não consegue compreender uma única palavra do que dizem! Se vos pudésseis ver! Tendes de ser a nossa intérprete, Joana. Podeis começar por dizer a Filipe como é um homem feliz por vos ter como esposa: bonita, encantadora e tão inteligente. O que poderia pedir mais?» In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de E. Presença/JDACT

Joana. A Louca. Linda Carlino. «As febres altas haviam baixado graças à insistência dela em que tomasse todas as gotas do remédio, uma mistura de urtiga, fúnquia, aipo e pimenta. Felizmente para Joana, ainda precisava de cuidados de enfermagem»

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«(…) A guerra de orgulho que empreendera contra a rainha francesa, e que causara uma partida apressada, teve como consequência uma profunda desarmonia, que os difíceis meses que se seguiram nada ajudaram a resolver. Chuvas torrenciais e tempestades de granizo e neve tornaram a sua passagem por França uma infelicidade total. Todavia, ainda faltava o pior. Para se prepararem para a viagem através dos Pirenéus, todas as suas posses e todos os seus haveres tinham de ser transferidos das enormes carroças puxadas por bois para o dorso de mulas espanholas. Utensílios de cozinha, faqueiros, mobílias, acessórios e roupas tiveram de ser organizados em pequenos fardos fáceis de equilibrar. Isto foi levado a cabo enquanto os céus se desfaziam numa chuva gelada e ininterrupta que lhes dificultava todos os movimentos. Utensílios de prata e ouro enlameados, protegidos por palha encharcada, eram embrulhados em panos igualmente encharcados. Caixotes e arcas escorregavam das mãos enlameadas e caíam em poças enlodadas, espalhando normalmente o seu conteúdo; alguns artigos perdiam-se para sempre, outros arranjavam novos donos. Finas tapeçarias de seda enroladas em protecções à prova de água dependuravam-se, quais cadáveres, sobre o dorso das mu1as, pingando desconsoladamente. O mau humor desgastava-se e pragas de frustração juntavam-se aos gritos angustiados dos animais, igualmente infelizes por fazerem parte daquele caos.
Um a um foram-se aprontando, juntando-se ao longo comboio que iria chafurdar na direcção dos desfiladeiros das montanhas. À frente seguiam Joana e Filipe com os seus escudeiros, todos embrulhados em peles, lenços e capas à prova de água, uma longa coluna deprimente, arrastando-se numa viagem de pesadelo, através de trilhos de cabras, batalhando contra ventos cortantes e tempestades de neve ofuscantes. Misericordiosamente, chegaram, por fim, vivos e de boa saúde a Espanha, apesar de totalmente exaustos e infelizes. Houve outros atrasos: esperar enquanto se procuravam carroças novas nas aldeias da região, esperar pela reparação de estradas e pelo reforço de pontes a fim de aguentarem cargas pesadas. Em cada paragem de descanso, os comités de boas-vindas honravam-nos com festas de um luxo espanhol até então desconhecido, por vontade da frugal rainha Isabel, num esforço para impressionar o genro, mas que poucos efeitos tinha. Estava tudo tão longe dos planos idílicos que Joana alimentara na Flandres havia tantos meses. O mando não se mostrava impressionado com o seu país; na verdade, encontrara pouco que lhe agradasse e muito que o ofendia, queixando-se bastante. Estava-se em Abril e Toledo, onde ia ter lugar a cerimónia do juramento, encontrava-se apenas a duas léguas de distância. Joana encontrava-se sentada no chão, num grande almofadão bordado à mão, nos aposentos de Filipe. Embora o livro de horas estivesse aberto, ela mostrava-se constantemente alerta em relação a qualquer som vindo do doente, desejando ardentemente que ele acordasse. Gostava de lhe servir de enfermeira, de inundar com a sua devoção o amado marido, o qual havia apenas uns dias fora atingido por um grave ataque de sarampo. Com o livro pousado nos joelhos, lia distraidamente, Deus in auditorium meum intende..., mal observando os pastorinhos e os anjos agrupados na iluminura da letra D, e os animaizinhos que se escondiam por entre a folhagem que bordejava a margem da folha.
Sim, é esta a causa desta doença, murmurou para o livro, Deus queria que passássemos algum tempo juntos, livres do domínio de Busleyden e da sua maligna influência; só nós dois, aprendendo a amar-nos de novo, como no início. Contudo, isso era ir longe demais, pois sabia que Filipe nunca a amaria, pelo menos da forma como ela o amava; mas desde que ele permitisse o seu amor, seria suficiente. O pior da doença já passara. As febres altas haviam baixado graças à insistência dela em que tomasse todas as gotas do remédio, uma mistura de urtiga, fúnquia, aipo e pimenta. Felizmente para Joana, ainda precisava de cuidados de enfermagem: dar atenção aos pontos que lhe faziam comichão, a tosse terrível e aqueles olhos maravilhosos ainda doridos. De detrás do pesado brocado dourado ouviu-se um gemido, seguido por um ataque de tosse. Joana fez sinal aos dois médicos de pé junto à janela que ficassem onde estavam, que nada fizessem, pois ela trataria de Filipe. Pôs o livro de lado e correu a fechar parcialmente as persianas antes de abrir as cortinas da cama. Ao remover a compressa calmante dos seus olhos, passou ao de leve os lábios sobre a sua testa». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de E. Presença/JDACT

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Joana. A Louca. Linda Carlino. «Então, minhas damas, se estivermos todas prontas, prossigamos. Emergiram sob o sol de Dezembro, Joana e o seu pequeno exército de aias, avançando quais cruzados contra os infiéis»

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«(…) A rainha Ana ergueu-se, num ruge-ruge cintilante de cetins brancos, e abandonou apressadamente a igreja, seguida de perto pelas aias. As clamas de Joana juntaram-se em redor dela, ansiosas por lhe murmurarem o seu apoio e louvor, mas ela mandou-as calar. Na sua ira, a rainha cometeu infelizmente um grosseiro erro de etiqueta. Os convidados devem sempre sair primeiro da igreja. Se a multidão lá fora está à espera de ver se a seguimos servilmente, ficará desapontada. Sairemos a nosso tempo e seguiremos directamente para os meus aposentos. Caminharam lentamente pela nave, dando às esculturas, aos trípticos e às estátuas pintadas a maior das atenções. Maria veio-lhe sussurrar que, na verdade, a rainha esperava na rua, talvez por se ter recordado das boas maneiras e que o povo da cidade não se iria embora sem ter primeiro satisfeito a sua curiosidade.
Então, minhas damas, se estivermos todas prontas, prossigamos. Emergiram sob o sol de Dezembro, Joana e o seu pequeno exército de aias, avançando quais cruzados contra os infiéis. Sem um olhar à direita ou à esquerda e as cabeças bem erguidas, passaram pela rainha Ana, direitas ao palácio do conde. Assim que se acharam dentro de portas, desataram a correr num alvoroço de saias e risos, até aos aposentos de Joana. Acho que para o jantar temos de usar algo que nos distinga sem qualquer dúvida. E foi uma azáfama no seio das aias. Saias, mangas, vestidos, meias, corpetes espalhados por todo o lado, alguns à espera de ser escolhidos, outros postos de parte. Do caos, emergiu Joana, uma metamorfose perfeita. Fora uma beleza flamenga. Agora era uma radiosa princesa espanhola.
Olhou-se no espelho e observou cada pormenor do seu traje: o capuz negro, o vestido de decote subido, o corpete longo, as saias almofadadas, tudo a proclamava como espanhola. Joana e as suas damas estavam prontas para o banquete. Estava pronta para o inimigo. Apreciando a ideia de que um dos segredos do sucesso na batalha reside no elemento da surpresa, o que provara já duas vezes naquele dia, partiu para o que sabia ser uma noite diferente. E foi-lhe dada razão em todos os aspectos. Não se podia ter sentido mais satisfeita quando a rainha francesa se deparou com aquela personificação de Espanha. A rainha Ana tentou manter a compostura, enquanto exigia uma explicação, sentindo-se cada vez mais desconfortável no seu vestido demasiado real e no manto de veludo carmesim e pele de arminho. Escolhera deliberadamente aquele traje para exigir respeito e a devida deferência daquela senhorinha espanhola, que, assim parecia, tinha de ser recordada de que não passava de uma princesa casada com um duque qualquer. Joana ter-lhe-ia respondido, mas Luís e Filipe entraram. As feições carnudas do rei estremeceram de raiva e o choque do marido transformou-se em fúria. Imperturbável, o queixo esticado para a frente, anunciou: houve duas quebras de etiqueta esta manhã, pelas quais ainda não recebi um pedido de desculpas. Achei que era altura de recordar a todos que não sou apenas a arquiduquesa da Áustria, apenas a princesa Joana de Castela. Sou a princesa das Astúrias, herdeira de toda a Espanha e dos seus vastos domínios. Fez uma vénia, ciente de que a situação era difícil, embora não tivesse sido causada apenas por ela. Chegara a vez de o rei Luís usar de toda a sua diplomacia. Quem iria enfurecer mais, Espanha ou Filipe? Nenhum, de preferência, pensou ela, pois ambos eram vitais aos seus planos. Profundamente satisfeita por ter levado a bom termo a sua missão em nome da Espanha, esperou que o rei Luís abrisse o caminho até ao salão do banquete». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

Cortesia de E. Presença/JDACT

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Uma Questão de Orgulho. Linda Carlino. «Estais de acordo em nunca fazer perguntas, nem escolher outros caminhos, e a confiar sempre no meu julgamento? Ainda bem! Então podemos dar início…»


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«(…) Digo-te já, Alonso, que talvez tenhamos sorte, respondeu Manuel, que era ligeiramente mais alto, dando uma palmada no ombro do amigo. Espero bem que sim. Foi uma desgraça completa em Jarandilla. Passámos semanas a fio sem uma mulher. Tens razão, não havia lá nada para fazer. Só gente feia. Mas estas aqui não estão nada mal. O problema é que cheiram mal. Tu também cheirarias se tivesses de dormir com os animais durante o Inverno, seu idiota! Nós temos muita sorte, sabes? Dormimos em cima do feno. Elas têm de dormir na palha, ao pé de bosta de vaca e das cabras. Pelo menos é o que parece pelo cheiro. Então não deve haver problema, desde que seja ao ar livre, não achas, Manuel? É mesmo isso! Prenderam as túnicas de linho grosseiro dentro das calças castanhas, mal cortadas mas resistentes, apertaram os cintos, ajeitaram os casacos de lã, tapando com um capuz o cabelo penteado com os dedos. Por fim, cuspiram na biqueira dos coturnos de couro e limparam-nos na parte de trás das pernas.  Que tal? Estamos apresentáveis? Bom, vamos lá! Alonso foi à frente, passando pelos enormes portões de madeira, escancarados em sinal de boas-vindas, e atravessando o chão de gravilha para se juntarem a um grupo de rapazes que também se estava a preparar. Meu Deus! Sentiste isto, Alonso? Parece que alguém abriu uma porta e passou uma corrente de ar gelada! Não, não senti nada. Estarás a chocar alguma coisa? Já, vais aquecer, quando estiveres no meio de umas coxas bem macias!
Tereis de desculpar estes tão fervorosos rapazes. Ao que parece, têm muito poucos prazeres na vida. Espero que a nossa presença não lhes tenha arrefecido o ardor. Bem-vindos a Yuste, este esplendoroso mosteiro de São Jerónimo. Não poderia haver lugar mais tranquilo. Pois bem, estais aqui para saber o mais possível sobre Carlos, o homem que, até há pouco tempo, ostentava as coroas do Sacro Império Romano e de Espanha. Como tão bem dissestes, toda a gente já ouviu falar do imperador e rei, mas o que se sabe realmente sobre o homem? Farei todo o possível por ajudar-vos. Serei o vosso guia, levando-vos, como observadores invisíveis, à presença do rei; espreitando pelos corações e pelas mentes de todas as pessoas que iremos conhecer. Espero também ser fonte de informações úteis. Estais de acordo em nunca fazer perguntas, nem escolher outros caminhos, e a confiar sempre no meu julgamento? Ainda bem! Então podemos dar início a uma experiência que, prometo, será muito interessante. Mas, primeiro, uma ou duas palavras acerca de Yuste. Há mais de um século que a Ordem dos Jerónimos aqui está instalada e é, hoje uma comunidade abastada, proprietária de vastos hectares de terra fértil ao longo do vale, e de muitos pomares, olivais e florestas nas montanhas vizinhas. Não há muito tempo, construíram aquele magnífico segundo claustro do lado esquerdo e acolhedores aposentos para o rei, o seu pequeno palácio, graciosamente acrescentado do lado direito, o mosteiro tornou-se uma verdadeira jóia, incrustada num mar verde-esmeralda de carvalhos e castanheiros. E, ao fundo, à esquerda, há uma outra extensão necessária, as cavalariças; através do arco, vê-se parte do pátio». In Linda Carlino, Uma Questão de Orgulho, 2008, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-705-1.

Cortesia de EPresente/JDACT

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Uma Questão de Orgulho. Linda Carlino. «Foi pois sem surpresa que Carlos abdicou, aos cinquenta e seis anos, derrotado tanto física como intelectualmente, escolhendo o seu irmão Fernando…»

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«Este romance, que provocará tanto lágrimas quanto risos, começa em 1557, quando Carlos V, imperador do Sacro Império Romano (Carlos I de Espanha), prematuramente envelhecido, doente e sempre irascível, se recolhe num pequeno mosteiro isolado na região oeste de Espanha. Trouxe consigo memórias dos seus amores passados, dos anos no poder, das muitas campanhas militares, na maior parte derrotas, e das suas ilusões de que as desastrosas alianças dinásticas que engendrou, através dos casamentos de toda a sua família, tinham sido verdadeiros golpes de génio. Entre os companheiros escolhidos especialmente para o acompanhar está o seu frontal mordomo-mor, que foi seu servidor e confidente ao longo de toda a vida. Conheceu Carlos melhor do que Carlos se conheceu a si próprio e foi a única pessoa a gozar de total liberdade para dizer o que pensa, seja o que for. O resultado é, por vezes, bastante divertido. Através das histórias tragicómicas do seu passado contadas pelos outros membros da sua casa e das observações incansavelmente críticas, mas supostamente objectivas de um narrador omnisciente, teremos uma visão completa de um governante muitas vezes apelidado de o maior imperador do Sacro Império Romano desde Carlos Magno. Mas terá sido? Ou seria apenas um homem irascível, desajeitado, egocêntrico e afinal muito humano, apaixonado e apaixonante, banal e generoso. Bárbara acreditava que sim.
Depois da morte de Maximiliano, imperador do Sacro Império Romano no primeiro quartel do século XVI, a sua coroa foi disputada pelo rei Henrique VIII de Inglaterra, Francisco I de França e Carlos I de Espanha (filho da rainha Joana e do rei Filipe). Foi Carlos, neto do imperador, quem, através de subornos, convenceu os príncipes alemães a elegerem-no Carlos V, imperador do Sacro Império Romano. Mas era um presente envenenado, para além de ter de lidar com uma confederação de estados alemães muitas vezes rebelde, enfrentou desafios ainda muito mais sérios. Ao longo dos anos que passou como imperador, os reinos do Leste da Europa estiveram constantemente ameaçados pelas tentativas dos infiéis de expandir as fronteiras do Império Otomano o mais para ocidente possível, e Carlos teve também de evitar que a França estendesse as suas possessões em Itália. Ambas as ameaças requeriam uma resposta armada que exigia dinheiro, muito mais dinheiro do que o abundante Novo Mundo poderia fornecer. Carlos teve de contrair gigantescos empréstimos junto dos banqueiros alemães, conduzindo a Espanha à bancarrota.
Como chefe de família, encarava como seu inabalável dever orquestrar casamentos que garantissem o duradouro poder da dinastia Habsburgo e que alargassem o mais possível a sua influência. Este foi também um período de agitação religiosa um pouco por toda a Europa. Por todo o lado rebentavam movimentos reformistas, mais notavelmente o inspirado por Martinho Lutero, ameaçando a Santa Madre Igreja e todas as boas almas cristãs. Foi pois sem surpresa que Carlos abdicou, aos cinquenta e seis anos, derrotado tanto física como intelectualmente, escolhendo o seu irmão Fernando para assumir o papel de imperador e entregando os tronos de Espanha e de Nápoles a seu filho Filipe (Filipe II).

1557
Dois entroncados moços de estrebaria, com cerca de quarenta e poucos anos, surgiram do meio de um bando de raparigas aos risinhos que se juntara a um canto da entrada do pátio, fazendo-as tapar a boca com a mão, sem conseguir disfarçar o seu embaraço, a sua excitação. Então, o que é que achas? Quais são as nossas hipóteses?» In Linda Carlino, Uma Questão de Orgulho, 2008, Editorial Presença, Lisboa, 2012, ISBN 978-972-234-705-1.

Cortesia de EPresente/JDACT

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Joana .A Louca. Linda Carlino. «A guerra de orgulho que empreendera contra a rainha francesa, e que causara uma partida apressada, teve como consequência uma profunda desarmonia, que os difíceis meses que se seguiram nada ajudaram a resolver»

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«(…) A rainha Ana ergueu-se, num ruge-ruge cintilante de cetins brancos, e abandonou apressadamente a igreja, seguida de perto pelas aias. As damas de Joana juntaram-se ao redor dela, ansiosas por murmurar o seu apoio e louvor, mas ela mandou-as calar. Na sua ira, a rainha cometeu infelizmente um grosseiro erro de etiqueta. Os convidados devem sempre sair primeiro da igreja. Se a multidão lá fora está à espera de ver se a seguimos servilmente, ficará desapontada. Sairemos a nosso tempo e seguiremos directamente para os meus aposentos. Caminharam lentamente pela nave, dando às esculturas, aos trípticos e às estátuas pintadas a maior das atenções. Maria veio sussurrar-lhe que, na verdade, a rainha esperava na rua, talvez por se ter recordado das boas maneiras e de que o povo da cidade não iria embora sem ter primeiro satisfeito a sua curiosidade. Então, minhas damas, se estivermos todas prontas, prossigamos. Emergiram sob o sol de Dezembro, Joana e o seu pequeno exército de aias, avançando como cruzados contra os infiéis. Sem um olhar à direita ou à esquerda e as cabeças bem erguidas, passaram pela rainha Ana, directo ao palácio do conde. Assim que se acharam dentro de portas, desataram a correr freneticamente, num alvoroço de saias e risos, até aos aposentos de Joana. Acho que para o jantar temos de usar algo que nos distinga sem qualquer dúvida.
E foi uma azáfama no seio das aias. Saias, mangas, vestidos, meias, corpetes espalhados por todo o lado, alguns à espera de ser escolhidos, outros postos à parte. Do caos emergiu Joana, uma metamorfose perfeita. Fora uma beleza flamenga. Agora era uma radiosa princesa espanhola. Olhou-se ao espelho e observou cada pormenor do seu traje: o capuz negro, o vestido de decote subido, o corpete longo, as saias almofadadas, tudo a proclamava como espanhola. Dona Joana e as suas damas estavam prontas para o banquete. Estava pronta para o inimigo. Apreciando a ideia de que um dos segredos do sucesso na batalha reside no elemento da surpresa, o que provara já duas vezes naquele dia, partiu para o que sabia ser uma noite diferente. E foi-lhe dada razão em todos os aspectos. Não podia ter-se sentido mais satisfeita quando a rainha francesa deparou-se com aquela personificação da Espanha. A rainha Ana tentou manter a compostura, enquanto exigia uma explicação, sentindo-se cada vez mais desconfortável no seu vestido demasiado real e no manto de veludo carmesim e pele de arminho. Escolhera deliberadamente aquele traje para exigir respeito e a devida deferência daquela senhorinha espanhola, que, assim parecia, tinha de ser recordada de que não passava de uma princesa casada com um duque qualquer.
Joana teria respondido a ela, mas Luís e Felipe entraram. As feições carnudas do rei estremeceram de raiva e o choque do marido transformou-se em fúria. Imperturbável, o queixo esticado para a frente, anunciou: houve duas quebras de etiqueta esta manhã, pelas quais ainda não recebi um pedido de desculpas. Achei que era altura de recordar a todos que não sou apenas a arquiduquesa da Áustria, apenas a princesa Joana de Castela. Sou a princesa das Astúrias, herdeira de toda a Espanha e dos seus vastos domínios. Fez uma reverência, ciente de que a situação era difícil, embora não tivesse sido causada apenas por ela. Chegara a vez de o rei Luís usar de toda a sua diplomacia. A quem iria enfurecer mais, Espanha ou Felipe? Nenhum, de preferência, pensou ela, pois ambos eram vitais aos seus planos. Profundamente satisfeita por ter levado a bom termo a sua missão em nome da Espanha, esperou que o rei Luís abrisse o caminho até ao salão do banquete.
A guerra de orgulho que empreendera contra a rainha francesa, e que causara uma partida apressada, teve como consequência uma profunda desarmonia, que os difíceis meses que se seguiram nada ajudaram a resolver. Chuvas torrenciais e tempestades de granizo e neve tornaram a sua passagem pela França uma infelicidade total. E ainda faltava o pior. Para se preparar para a viagem através dos Pireneus, todas as suas posses e todos os seus haveres tinham de ser transferidos das enormes carroças puxadas por bois para o dorso de mulas espanholas. Utensílios de cozinha, faqueiros, mobílias, acessórios e roupas tiveram de ser organizados em pequenos fardos fáceis de equilibrar. Isto foi levado a cabo enquanto os céus se desfaziam numa chuva gelada e ininterrupta, que lhes dificultava todos os movimentos. Utensílios de prata e ouro enlameados, protegidos por palha encharcada, eram embrulhados em panos igualmente encharcados. Caixotes e arcas escorregavam das mãos enlameadas e caíam em poças enlodadas, espalhando normalmente o seu conteúdo; alguns artigos perdiam-se para sempre, outros arranjavam novos donos. Finas tapeçarias de seda enroladas em protecções à prova d’água dependuravam-se, como cadáveres, sobre o dorso das mulas, pingando desconsoladamente. O mau humor desgastava-se e pragas de frustração juntavam-se aos gritos angustiados dos animais, igualmente infelizes por fazerem parte daquele caos. Um a um, foram-se aprontando, juntando-se ao longo comboio que iria chafurdar na direcção dos desfiladeiros das montanhas. À frente seguiam Joana e Felipe com os seus escudeiros, todos embrulhados em peles, lenços e capas à prova de água, uma longa coluna deprimente, arrastando-se numa viagem de pesadelo, através de trilhos de cabras, batalhando contra ventos cortantes e tempestades de neve ofuscantes». In Linda Carlino, That Other Joana, 2007, Joana, a Louca, Editorial Presença, Lisboa, 2009, tradução de Isabel Nunes, ISBN 978-972-23-4231-5.

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