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quarta-feira, 1 de abril de 2020

Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI. Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez. «… a Câmara de Lisboa supervisionara todo o empreendimento, realizando medições, previsões de custos, memórias descritivas, e ainda participando no desenho de algumas decorações…»

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«(…) É que, para além dos temas representados nessas pinturas, a sobrecarga e a densidade decorativa impressionavam, decerto, quem quer que naquela altura contemplasse os monumentos levantados para as festividades. Como se sabe, ao nível da decoração (pictórica, escultórica e literária) dos arcos era habitual apresentar, lado a lado, formas decorrentes de uma tradição hispânica, mais vernácula e pitoresca, e formas mais eruditas, que buscavam sobretudo a beleza nobre imitando modelos oriundos de além-Pirenéus, ou contidos em tratados de arquitectura. Para a fabricação de tais efeitos, os nossos artistas devem ter recorrido, como de costume, às diversas colecções manuscritas de provérbios que então circulavam, as quais serviam de inspiração para pinturas murais; para além dos livros de emblemas que também devem ter servido de inspiração para os gravadores, pintores e escultores que nos preparativos da festa participaram. O certo é que a decoração abundante estava decididamente em voga, destinada não só a adornar mas também a enriquecer e deleitar.
Tal sofisticação revela que os organizadores da festa tinham consciência do impacto que as imagens exerciam sobre o público que ia apreciar os arcos triunfais. E esta consciência era estruturante das festividades ligadas à realeza. Sousa Macedo, reputado erudito e político, não pode ter passado ao lado de tão poderoso instrumento de publicitação. O seu protagonismo na preparação da festa e na escolha da decoração constitui algo de bastante provável. Acerca disso é bem expressivo o seu comentário ....como se premeditou succedeu, tecido a propósito do resultado dos meios utilizados para acalmar os povos da cidade de Lisboa, quando dos distúrbios ocorridos nesta cidade depois da tomada de Évora. Nessa ocasião, os meios escolhidos tinham sido a realização de uma procissão (para entreter as mulheres) e a formação dos terços da cidade (para ocupar os homens) de modo a divertir os intentos violentos que então ocupavam a sua atenção. Lembre-se que já nessa altura Sousa Macedo servia como secretário de Estado e Castelo Melhor como escrivão da puridade.
Também o escrivão da puridade era, decerto, um dos que melhor dominava esta arte de mover e comover o vulgo. Mas é um problema imbricado, este o de deslindar as diversas autorias da festa: a programática mais geral e as autorias materiais. Sabe-se que João Nunes Tinoco teria desempenhado um papel importante, na parte da arquitectura. A ele teria cabido projectar, pelo menos, os palanques erigidos no Terreiro do Paço, e uma das máquinas de fogo, para as festas de Outubro. E é certo que, como acontecera em outras ocasiões, a Câmara de Lisboa supervisionara todo o empreendimento, realizando medições, previsões de custos, memórias descritivas, e ainda participando no desenho de algumas decorações suplementares, estabelecendo as condições de trabalho dos artistas escolhidos para realizar a obra. Em alguns casos, os oficiais da Câmara limitavam-se a reproduzir e a repetir soluções já encontradas para outras festividades anteriores, no início dessa mesma década Lisboa assistira a uma opulenta festa quando da partida da rainha dona Catarina para Inglaterra, durante a qual surgiram algumas das soluções decorativas que iremos encontrar um pouco mais tarde, em 1666.
Noutros casos o programa apresentava contornos inéditos, bem como soluções arquitectónicas e decorativas que, decerto, procuravam aproveitar o facto de a cidade possuir alguns espaços onde, desde há muito, era habitual realizarem-se festas e cerimónias, o Rossio e o Terreiro do Paço, sobretudo, certas ruas especialmente importantes para a vida dos lisboetas, como a Rua Nova ou a zona em torno da Sé. O tecido urbano foi desse modo aproveitado para estas festas, resultando uma especialização dos espaços; exemplar é o caso do Terreiro do Paço, uma praça que andava cada vez mais associada às festas e cerimónias que eram promovidas pelo Palácio Real, sobretudo porque possuía a largueza suficiente para conferir uma indispensável dimensão dramática às demonstrações de riqueza e de poder que marcavam tais festas em honra da monarquia e da família real». In Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez, Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-564-268-6.

Cortesia de Quetzal/JDACT

domingo, 8 de junho de 2014

Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI. Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez. «Parece que no segundo dia de Agosto tinha havido uma altercação entre ambos os irmãos, durante a qual ‘Pedro’ anunciara ao rei a sua intenção de abandonar a corte»

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«(…) Mas interesses políticos também Castela os tinha. Não se pense que todas as potências se uniam contra os castelhanos e que estes, impávidos e serenos, assistiam às negociações sem moverem as suas peças no xadrez internacional. Sousa Macedo, na altura, lembrara que a Castela interessava ter Portugal malquisto com as potências estrangeiras (e quem não se recordava das intrigas que de Roma a Londres atingiam a reputação dos seus embaixadores?), e o governo atacado por rivalidades entre os próprios portugueses. E nesse dia 2 de Agosto, nessa manhã soalheira, eram evidentes os conflitos que assaltavam a corte portuguesa. Não se sabe se por obra e graça dos castelhanos. Ou se pela rede das circunstâncias, cujas linhas são hoje difíceis de descoser. A verdade é que o infante Pedro, irmão do rei e, segundo reza a lenda, o favorito da rainha D. Luísa de Gusmão para suceder na coroa (apesar de ser o filho mais novo de João IV), aparecia com o rosto sisudo, talvez descontente com o pouco protagonismo que lhe estava a ser concedido na condução dos negócios políticos do Reino. Internos e externos. Recusara, pouco tempo antes, todas as propostas de casamento entre ele e uma princesa estrangeira que os enviados do seu irmão e rei tinham negociado para si. Esta e outras situações tornaram bastante tensas as relações entre ele (e o vasto grupo de nobres descontentes que usualmente o acompanhavam) e o monarca, o seu valido e sua corte mais restrita. Por vezes, mesmo agressivas. Parece que no segundo dia de Agosto tinha havido uma altercação entre ambos os irmãos, que terminara numa troca mais desagradável de palavras, durante a qual Pedro anunciara ao rei a sua intenção de abandonar a corte de Lisboa, o mais depressa que lhe fosse possível. Ao que o rei lhe respondera que não o mandava por preceito, mas que se podia ir por sua vontade.
É certo que, como sempre, aliás, os relatos não são consonantes quanto a este ponto. Para alguns, as relações não eram tão tensas como constava e o rei amava verdadeiramente o infante, apesar de ser mal influenciado pelos seus ministros, especialmente pelo todo-poderoso conde de Castelo Melhor e o secretário de Estado, António Sousa Macedo. Mas para outros, o rei era francamente mau de coração, incapaz de amar alguém, nutrindo ódio e inveja por todos e especialmente por Pedro, mais belo do que ele e mais amado tanto pelos nobres cortesãos como pelos povos da cidade de Lisboa. Mesmo no estrangeiro, esta última imagem estava veiculada. L’esprit bas, l’humeur sombre et farouche de Afonso VI..., a própria rainha já disso devia ter conhecimento. E enquanto o rei era aloirado e débil, devido às febres que tivera na infância e que desde cedo o tinham incapacitado fisicamente (e mesmo psicologicamente, segundo muitos, de entre os quais se contavam alguns médicos), o infante era muito robusto, e bizarro no corpo, e a cor do rosto era mais de cigano do que de flamengo. Que impressão teriam estes traços físicos causado à dama francesa habituada aos requintes da corte do Rei Sol? Rainha cuja beleza ninguém se cansava de elogiar?
Qualquer que ela tivesse sido, uma coisa parece provável, gerir a situação não deve ter sido nada fácil. Talvez também por isso, António Sousa Macedo se tivesse desdobrado em esforços no sentido de que nada falhasse nesses dias. Era importante mostrar, tanto a nível externo como interno, que o governo era capaz, que a guerra prosseguia a bom ritmo, que o reino não estava enfraquecido, que a realeza se amava e que, à sua imagem e semelhança, era amada pelos seus povos. A exaltação do amor que unia os súbditos portugueses aos seus reis era um tópico que atravessava décadas e que, obviamente, era ressuscitado em cada evento desta índole. A organização de todo o programa terá sido da responsabilidade de Macedo, mas ainda assim, não é seguro dizer que somente uma linha programática envolvia o evento. Contudo, restam-nos vários testemunhos das iniciativas de Sousa Macedo nesse sentido. Competia-lhe fazê-lo, dado o seu ofício de secretário de Estado. Mas ter-se-ia tal tarefa reduzido a uma mera formalidade, ou a Sousa Macedo competira dar indicações sobre o modo como se deviam manifestar os povos de Lisboa durante os festejos, e sobre os conteúdos das pinturas que iriam inevitavelmente cobrir os arcos a construir para as celebraçõesIn Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez, Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-564-268-6.

Cortesia de Quetzal/JDACT

sábado, 28 de dezembro de 2013

Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI. Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez. «Porém, ‘a bondosa Inglaterra’ assegurava aos castelhanos, em segredo, que mais tarde ou mais cedo lhes entregaria a cidade de Lisboa, o que contrariava as pretensões da terra lusa»

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«(…) Mas naquele princípio de Verão de 1666 preparava-se esse evento que viria a ser considerado o mayor triumpho, que pôde ser que o mundo haja visto. Não só pelos arcos que davam passagem de umas ruas para as outras, desde Alcântara até à Sé, mas também pelas danças, pelas, folias que o Senado tinha contratado para animarem as ruas e mostrarem aos reis como a cidade os amava; ou pelas casas que, ornadas com as mais caras tapeçarias, pareciam querer dizer o mesmo.

«Lutos rompendo vem, rindo formoza a Luza aurora, a nós dando em fiansa doutro mais bello sol, rica esperança»

Dois de Agosto de 1666. A manhã estava soalheira e as águas do Tejo brilhavam. Por fim, a capitânia francesa que trazia de terras de França a já rainha de Portugal, podia dar entrada no porto da cidade de Lisboa. Aguardara uns dias na barra de Cascais, esperando que os ventos fossem favoráveis à entrada, não fossem os barcos encalhar em alguns escolhos, logo em semelhante ocasião. Um mês antes, em La Rochelle, tinham decorrido as formalidades, com todas as cerimónias que se costumavam fazer nas entradas dos reis de França, recepções e, finalmente, o casamento por procuração, em que o marquês de Sande representara o rei de Portugal e o duque de Laon a princesa d'Aumale. A rainha devia estar cansada. A viagem tinha sido longa, e muito acontecera desde a sua partida de Paris até atracar na parte mais ocidental da Europa. Um certo receio a acompanhara, durante o mês que estivera no mar. Os tempos não eram de paz, e mesmo a carta de seguro que o Rei Cristianíssimo obtivera de Carlos II de Inglaterra não garantia completamente a sua protecção em relação aos ataques dos corsários de Sua Majestade Britânica. Para já não falar nos piratas por conta própria. Em qualquer caso, os navios que Luís XIV enviara eram dos melhores da armada francesa, o que provava que o rei queria que Maria Francisca chegasse com toda a segurança às terras portuguesas. Não fora ele, afinal, um dos que tinham acarinhado tal união? Para Luís XIV o casamento era um meio de prolongar a guerra entre Portugal e Espanha o que, evidentemente, favorecia os interesses franceses. Para esse rei havia que tornar a guerra contra Castela cada vez mais violentas, o que explicava alguns dos esforços que a coroa francesa fazia no sentido de ajudar a causa dos Braganças. António Sousa Macedo, secretário de Estado entre 1662 e 1667, já o adivinhara nos anos cinquenta desse século.
O português dissera, na altura, que à França interessava que Castela estivesse dividida com Portugal, pois assim não só não se lhe opunha, como ainda favorecia as suas tentativas de conquistar territórios que estavam sob tutela castelhana. Também Duarte Ribeiro Macedo, ministro português na corte francesa, estava ciente dos mesmos interesses diplomáticos. Os interesses de França eram incompatíveis com os de Castela, e mesmo o tratado dos Pirenéus não mudara muito o cenário, apesar de por ele se ter concluído o casamento entre Maria Teresa de Áustria, filha de Filipe IV e Luís XIV monarca francês, e uma aparente paz entre ambos os países. A dita paz estava próxima da ruptura em 1665, segundo Ribeiro Macedo, já que as intenções de França em submeter Castela eram cada vez mais evidentes. Tal tensão entre ambos os reinos, que lutavam pela hegemonia na cena europeia, favorecia a causa portuguesa. Dava, também, uma certa razão a Sousa Macedo que, uma década antes, aconselhara Portugal a gerir a situação de determinada maneira no que dizia respeito à França: fazendo guerra contra Castela (de modo a activar as esperanças francesas) ou mostrando que caminhava para a paz (criando-lhe um certo temor), como parecia acontecer com as negociações que se travavam com Castela nas quais a Inglaterra era intermediária. Porém, a bondosa Inglaterra assegurava aos castelhanos, em segredo, que mais tarde ou mais cedo lhes entregaria a cidade de Lisboa, o que contrariava as pretensões da terra lusa. Desta forma ambígua pareciam harmonizar-se os vários interesses políticos em questão». In Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez, Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-564-268-6.

Cortesia de Quetzal/JDACT

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI. Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez. «Falava o livro do imaginado desvanecimento da plebe em semelhantes occasiões de contentamento e alegria. Que podiam os povos fazer senão terem contentamento e alegria em semelhantes ocasiões?»


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«Entre Agosto e finais de Outubro de 1666 realizaram-se as comemorações do casamento de Afonso VI, rei de Portugal, e D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, princesa d'Aumale e afilhada de Luís XIV de França. Vários momentos pontuaram os três meses que decorreram entre o desembarque da rainha em Belém e as chuvas de Novembro que obrigaram a desmontar os palanques de madeira construídos sob o Paço da Ribeira, palco de touros, canas, fogos. Havia o perigo de apodrecerem, tantas eram as chuvas. Logo o desembarque fora um momento grandioso, com os milhares de flâmulas coloridas que tornavam o rio um mar de cores, e o povo de Lisboa que esvaziara a cidade para inundar as margens do Tejo com gáudio e vivacidade.
Mais tarde, as canas, os touros e os fogos tinham tornado Outubro um verdadeiro Verão. Os povos viram tourear os fidalgos mais garbosos acompanhados por lacaios que encantavam em trajes surpreendentes. E as canas haviam sido um espectáculo grandioso, com as suas quadrilhas multicolores, imitando os torneios medievais, quando os cavaleiros lutavam pelo amor de uma bela dama. Bem... e ainda os fogos! Quem não gostava dos fogos? E desta vez, máquinas estranhas tinham sido construídas: uma delas parecia uma pirâmide, com uma senhora em cima. A senhora parecia a bela rainha, mas também podia ser a mãe de Cristo Senhor. Uma outra imitava um homem muito forte com uma bola azul entre os braços alevantados, as gentes diziam que tinha sido um herói dos tempos idos. Que ele era forte, assim parecia. E muito feio, também. Mas o que era mesmo belo eram as estrelas que caíam dos céus e pareciam abençoar os reis mais os seus povos. Envolvendo tudo numa atmosfera paradisíaca. Razão tinha o autor da Anti-Catastrophe, um livro que tinha sido escrito sobre esse rei Afonso que, de alegre e folião, tinha passado a ser triste e prisioneiro, pouco tempo depois das tais festas. [O que lembrava, aliás, como as coisas no mundo são efémeras.]

Falava o livro do imaginado desvanecimento da plebe em semelhantes occasiões de contentamento e alegria. Que podiam os povos fazer senão terem contentamento e alegria em semelhantes ocasiões? Nos vinte e seis anos de guerra lembravam-se apenas de constantes e porfiados esforços, dos filhos que partiam e não regressavam, das noivas por casar, das bocas por alimentar. Tanta ostentação e riqueza pareciam anunciar melhores dias, podiam bem pensar... Não admira o frenesim quando da preparação da festa, até porque os espectáculos teatrais que desde finais do século XVI vinham animando Lisboa estavam a tornar-se menos frequentes e menos atractivos. O outrora buliçoso Pário das Arcas definhava pouco a pouco, e a própria fidalguia, que no início havia aderido entusiasticamente aos divertimentos do teatro de comédia, começava a desinteressar-se por tais eventos, onde acorria gente de toda a proveniência social, onde os tumultos e os confrontos físicos eram frequentes (coisas que cada vez menos eram próprias de nobres), e onde nem sequer era possível conviver directamente com as damas, já que estas ficavam encerradas num espaço especialmente reservado para elas existente no recinto do pátio». In Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez, Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-564-268-6.

Cortesia de Quetzal/JDACT

domingo, 8 de setembro de 2013

Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI. Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez. «E tal como acontece nos artificiosos fogos de festas, também os grandes espectáculos de corte se esgotavam em si mesmos, perante uma realidade que tinha sido planeada como faustosa mas efémera»

Fogo de artifício, 1666. jdact

«… tudo era novo, tudo era belo; os olhos não se lhe fixavam em coisa alguma mais de um segundo». In Andrade Corvo

Amor Parat Regna. Memória visual dos afectos na política barroca
«Como se tivessem retido algo da luminosa suavidade do fogo, o mais belo dos elementos pela leveza da sua matéria, subtilmente agitada, as duas cenas de pirotecnia que figuram no álbum das Festas que se fìzerão pelo Cazamento del Rey D. Âffonso VI, em 1666 parecem sintetizar o espírito desses grandes espectáculos visuais nos quais as grandes cortes do Barroco procuravam ver-se a si mesmas, reconhecendo-se, ordenadas e brilhantes, numa ardente agitação. E tal como acontece nos artificiosos fogos de festas, também os grandes espectáculos de corte se esgotavam em si mesmos, no regozijo perante uma realidade que, com toda a ordem e previsão, tinha sido planeada como faustosa mas efémera.
É sabido que os arcos, máquinas, estrados, palanques e demais invenções que marcavam o percurso desta e de outras muitas apoteoses monárquicas da Europa seiscentista tinham sido fabricadas para não durar muito tempo. A sua frágil arquitectura de madeira era tão provisória como os papelões pintados que cobriam as suas superfícies e sobre os quais, muitas vezes com mais do que audácia na cor, haviam sido traçados complexos emblemas que falavam de amor, concórdia, paz, liberalidade ou harmonia.
Durante muito tempo, estes fastos foram considerados pouco mais do que devaneios decorativos nascidos da imaginação delirante e fátua própria da época, quando não eram condenados como lamentáveis exemplos da decadência insuportável em que haviam caído as monarquias da Idade Clássica. Pompa insolente e luxo asiático são os duros termos que lhes reserva, por exemplo, Madame Roland nas suas Mémoires.
Actualmente, estes grandes espectáculos cortesãos, como a etiqueta ou o cerimonial palaciano e os diversos rituais monárquicos, são estudados como expressões de uma particular cultura política de cujas insofismáveis implicações constitucionais não parece haver dúvidas. No entanto, apesar de já, estarem longe os tempos em que tais eventos eram encarados como meras pompas insolentes, ainda hoje pode parecer estranho que a suposta expressão dos valores constitutivos de uma sociedade política fosse confiada a espectáculos de frágeis arquitecturas, papelões pintados e fogos de artifício. Que comunidade recorreria, em suma, a um meio tão pouco duradouro como este para proclamar a celebração que de si mesma fazia?
Encontrar uma resposta adequada para esta pergunta implica saber responder a ouras três questões prévias: primeiro, a do papel das festas e dos espectáculos na declaração da relação que existia entre um rei e o seu reino; em segundo lugar, a do novo sentido que o efémero visual acabou por adquirir ao longo da Idade Moderna; e por último, a da sábia rentabilidade propagandística que se obteve das imagens postas ao serviço do poder real.

Em cena. A majestade como gesto e o rei como actor
Depois de haver visitado a corte romana, tal como indicavam os cânones desse tour meridional que devia realizar todo e qualquer jovem filho da nobreza, Leopold von Weissenburg deslocou-se a Viena, uma corte que não era menos faustosa que a dos pontífices nos tempos do imperador Leopoldo I. Numa das suas cartas ao cardeal Savo Millini, em Dezembro de 1697, o viajante dá conta das suas actidades, entre as quais se destaca a assistência aos espectáculos da corte imperial.
Ao terminar o século XVII já não era extraordinário ver dançar em Viena um futuro imperador, tal como também não o fora constatar que o rei cristianíssimo de França tomava parte no carrousel de um torneio em Paris, que o monarca católico de Espanha saía mascarado num domingo de Carnaval em Madrid, ou que os diplomatas acreditados na corte londrina pugnavam para ver actuar o rei Carlos I de Inglaterra em mascaradas e noutros acontecimentos teatrais». In Ângela Barreto Xavier, Pedro Cardim, Fernando Bouza Álvarez, Festas que se fizeram pelo Casamento do rei Afonso VI, Quetzal Editores, Lisboa, 1996, ISBN 972-564-268-6.

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terça-feira, 24 de abril de 2012

Afonso VI. Um Monarca Infeliz. Espoliado da mulher, do trono e da liberdade. «Os dias do cativeiro passava-os a caminhar continuamente em todos os sentidos dentro do reduzido compartimento, a sós com a sua raiva, o seu sofrimento e a sua impotência, como uma derrotada fera enjaulada. De tal forma que o pavimento ladrilhado sofreu enorme desgaste com o arrastar dos seus pés…»


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«É fora de dúvida que antes desta proclamação, que tudo faz prever seja apócrifa, repeliu o inditoso monarca dos seus aposentos não só o marquês de Cascais como outros fidalgos que o procuravam. Ora, sendo assim, não será de estranhar que o secretário de Estado, Cavide, tivesse logrado que ele assinasse a procuração, quando todos os outros, antes dele, fracassaram nesse intento? O facto é tanto mais surpreendente porquanto era bem notória a sua firme vontade de jamais renunciar, declarada várias vezes enquanto dispunha de liberdade, tomado de fúria e desespero ao reconhecer que o queriam esbulhar do poder.
Desventurado príncipe! Afinal, fosse como fosse sempre o seu destino estava traçado, bem traçado. Não só foi arrojado do trono para a prisão, como igualmente foi submetido a aviltante processo que legalizou a ida da mulher para os braços do irmão. A causa da nulidade do matrimónio do rei e de D. Maria Francisca foi apressadamente julgada, por juízes da inteira confiança do príncipe Pedro, gente que quando aquele subiu ao trono teve a recompensa de ascender a altos postos do reino, e sem a apresentação de provas concludentes, que o direito canónico, como o respeito pela justiça, exigiam.
Em 24 de Março de 1668 foi publicada a sentença de nulidade do casamento e em 28 desse mês, ou sejam quatro dias decorridos, celebrava-se o novo matrimónio da rainha D. Maria Francisca, desta vez com o cunhado, o príncipe Pedro, elevado a regente do reino. Praticava-se, aliás sem perda de tempo, um dos mais monstruosos actos que algum príncipe jamais tentou contra um seu irmão e rei.
Afonso VI, vítima das doenças de toda a espécie que o massacravam, do rancor hipócrita do irmão e da traição, sempre abjecta, dos políticos de então, com raríssimas e honrosas excepções!, continuou preso no palácio. Mas a sua proximidade não era conveniente politicamente. Em 1669, o pobre títere foi desterrado para a Ilha Terceira, onde viveu durante seis anos numa modesta casa, dependência do Castelo de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo.

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Durante esse período, na corte, alguns dos derradeiros partidários do exilado soberano prepararam activamente uma conspiração, com o justiceiro fim de o reporem no trono. O regente todavia, tomando conhecimento prévio da conjura, que fez frustrar, ordenou o seu regresso ao Continente, para sobre ele exercer uma mais eficiente vigilância. E, em 1674, o desditoso monarca sem reino deu entrada no paço de Sintra, sendo ali encerrado “num pequeno quarto, cuja janela estava gradeada de ferro”.

Como o desgraçado ali viveu é fácil imaginar. Não lhe permitiam sair senão nos dias de missa. E escondiam-no sistematicamente do povo com receio de explosões do sentimentalismo popular.
Consentiam-lhe que assistisse às cerimónias religiosas, mas apenas de uma janela, donde não podia ser visto pela assistência.
Os dias do cativeiro passava-os a caminhar continuamente em todos os sentidos dentro do reduzido compartimento, a sós com a sua raiva, o seu sofrimento e a sua impotência, como uma derrotada fera enjaulada. De tal forma que o pavimento ladrilhado sofreu enorme desgaste com o arrastar dos seus pés nesses infindáveis passeios, durante os longos dias, meses, anos que ali se conservou.
Os seus partidários, no entanto, não desistiam de o libertar e, com esse fito alugaram uma casa na serra de Sintra, donde lhe faziam acenos, enviando-lhe sinais de que tivesse esperança pois trabalhavam para a sua salvação…
Também esta conspiração foi prematuramente descoberta. O único resultado alcançado foi a transferência do soberano para outro quarto, voltado para diferente ponto onde esteve os últimos três anos da sua vida infernalmente infeliz. Finalmente, a 16 de Setembro de 1683, o rei Afonso VI exalava o derradeiro suspiro, libertando-se, enfim, dum destino tão dramático como desgraçado. Na madrugada desse dia, os seus guardas e familiares ouviram-no gritar, pedindo que o vestissem imediatamente, pois queria ir ouvir missa.
Fizeram-lhe a vontade, sem que nada deixasse prever que era o fim dele que chegava. Durante a celebração da cerimónia, Afonso VI, em dado momento, começou a resfolegar penosamente, ao mesmo tempo que, levantando os braços e o olhar ao alto, exclamava audivelmente.
  • -‘Senhor! Perdoai os meus pecados!’
Aproximou-se dele o confessor, e quem apertou convulsivamente a mão, puxando-o a si. Foi tudo! Dentro de curtos momentos, Afonso VI expirava, vitimado por um ataque apoplético, fim lógico para quem tanto comia e dormia.
Tinha quarenta anos de idade, curta vida tão tristemente assinalada pela fatalidade. Desses, mais de quinze passara-os no cativeiro. Ao regente do reino, o príncipe Pedro, deve ter-lhe sorrido a própria alma, escancarada numa gargalhada de satisfação ao receber a notícia, tão desejada e que para si muito tardara, da morte daquele irmão, a quem ele espoliara do supremo bem da vida: a liberdade depois de o ter esbulhado do trono e da esposa.

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O regente Pedro podia, enfim, sossegar. Agora, já não havia ninguém no mundo com mais legítimo direito do que ele à coroa do reino de Portugal. Pode supor-se, possivelmente, o júbilo íntimo, embora o protocolo impusesse o luto exterior na corte, com que o ambicioso regente pôde finalmente tomar o título de rei, sob o nome de Pedro II.
O que ele não conseguiu, apesar de ter feito desaparecer o processo da causa em que despojara o irmão, e não obstante o ,poder que se arrogava, foi apagar inteiramente das páginas da Historia os infames feitos que praticou e que o guindaram à regência do reino e, mais tarde à posse do ceptro real». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT

sábado, 24 de dezembro de 2011

Afonso VI. Um Monarca Infeliz. Espoliado da mulher, do trono e da liberdade. «Em 23 de Novembro de 1667, Afonso VI assinava, ou alguém o fazia abusivamente por si (note-se que nunca foi verificada a autenticidade da assinatura real) a proclamação em que declarava a desistência do trono em favor do irmão»

Cortesia de historiadeportugal 

«A essa data, já o pobre rei não podia sair do palácio, que se encontrava cercado por guardas da confiança do príncipe Pedro. Este dominava inteiramente a situação e era informado de tudo o que se passava no paço, incluindo as ordens dadas pelo monarca, mas não cumpridas. Os que, de algum modo tomavam o partido do rei legítimo ou o manifestavam abertamente, apiedados pela sua deplorável posição, sofriam vexames, perseguições e opressões, não raras vezes. Estes eram, porém, um número escasso.
Um dia, o desgraçado soberano, com um raio de consciência das circunstâncias em que se encontrava, concebeu o projecto de fugir para o Alentejo e dali, com topas que se lhe conservavam fiéis, vir depois a Lisboa pôr as coisas nos devidos lugares. Um fidalgo, em quem ele confiava e a quem entregara para o efeito avultada soma, traindo-o miseravelmente, apressou-se a dar conta da trama a D. Pedro.
Agarrando a oportunidade única pelos cabelos, o príncipe deve ter esfregado as mãos de satisfação pelo magnífico ensejo que se lhe proporcionava de levar a termo o seu bem maduro plano de um golpe de Estado. Aquilo era o pretexto para a sua activa actuação e subsequente aniquilamento do irmão e rei. Já antes ele tinha simulado que o Castelo Melhor quisera atentar contra a sua vida, para o aniquilar.
Agora convocou imediatamente o conselho do Estado, constituído por partidários seus, e, com maquiavélico espírito, fez-lhes a sensacional revelação de que o rei Afonso «se preparava passar a Espanha com as suas tropas e oferecer o reino aos castelhanos». É de supor que os do conselho, embora não acreditassem na fantasiosa versão e compreendessem o príncipe no seu ardiloso plano lhe tivessem dado carta branca para agir.

Cortesia de historiadeportugal

D. Pedro, mal a reunião terminara, não perdeu tempo: assaltou o palácio real, à frente dos seus homens, e mandou que o Marquês de Cascais o fosse acordar da sesta. Este palaciano tê-lo-ia censurado por estar sempre a dormir e aconselhou-o a abdicar em seu irmão, o príncipe D. Pedro:
  • « -Senhor, a linguagem do Marquês de Cascais era desprovida de grandeza e de respeito, muito rude o que comprovava ter ali acabado o reinado de D. Afonso VI, vós nascestes tolo e o achaque que depois tivestes vos fez mais incapaz; sois doente e cheio de enfermidades...».
O monarca, abandonado por todos, ao reconhecer a traição pegou num bacamarte que sempre conservava junto de si, com o qual bateu violentamente no chão, fazendo ao mesmo tempo grande alarido para que lhe acudissem, clamando em trovões de cólera. A nova correu, célere. De tal maneira que o povinho, alvoroçado, juntando-se em frente do palácio, reclamava em altos gritos que libertassem o seu rei. Valeu, em tal conjuntura, o Juiz do povo, homem da confiança do príncipe, que de uma janela falou aos amotinados, garantindo-lhes, aleivosamente, que não havia desacato na pessoa do soberano e que fora este quem chamara D. Pedro ao paço, a fim de se reconciliarem. Acrescentou que, nessa amigável entrevista, o rei resolvera entregar o governo do reino ao príncipe.
O orador retirou-se da janela onde voltou pouco depois, após um curto conciliábulo com o príncipe, para acrescentar novas mentiras:
  • « - Que Sua Majestade, por imposição de consciência, lhe ,pedira que, em seu nome, declarasse ao povo que, de facto, não tinha chegado a consumar o matrimónio com a rainha... e que ela, para que o reino não ficasse sem sucessão, devia tratar de casar-se de novo... ‘estando indicado que o fizesse com o príncipe Pedro, dado o defeito dele, rei...».
Tão categóricas afirmações em nome do monarca fizeram aquietar o povo, que debandou apiedado mas satisfeito por saber da paz entre os dois irmãos, com o que o reino viria a lucrar. Aos seus ouvidos não chegava a gritaria feita pelo infeliz soberano nos inúteis protestos contra a violência de que era vítima.
Nesse mesmo dia, 23 de Novembro de 1667, Afonso VI assinava, ou alguém o fazia abusivamente por si (note-se que nunca foi verificada a autenticidade da assinatura real) a proclamação em que declarava a desistência do trono em favor do irmão». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Afonso VI. Um Monarca Infeliz. Espoliado da mulher, do trono e da liberdade. «Não dominando o arrebatamento, dirigiu-se, sem demora, ao convento da Esperança, cujas portas, que encontrou solidamente trancadas por ali temerem o desatino real, tentou despedaçar. Dentro, as pobres freiras sofreram tremendíssimo susto e todas as pessoas que presenciaram a descontrolada reacção do monarca»

D. Maria Francisca
Cortesia de wikipedia

«Não deve, claramente, estar na índole deste trabalho de ordem diferente a análise patológica da complexa personalidade do rei, para o que, de resto nos falece competência. Somente por tal estudo científico poderiam ser explicadas as intimidades do desgraçado monarca com as variadas amantes que lhe atribuem.
Voltando à rainha, (essa duquesa esbelta, em cujas veias escaldava o sangue dos Nemours, dos Vendôme e dos Sabóias que a bela Gabriela d'Estrées polvilhara com a mais fina essência das suas aventuras amorosas, trazia fama de devasse e até de ser um poucochinho herege, consoante a moda francesa.
Compreende-se que a sua súbita retirada para o formoso mosteiro da Esperança, retirada efectuada de motu-próprio ,ou, como alguns querem, induzida pelo príncipe D. Pedro, fosse realizada com o fim de, por tal modo, se evitarem os excessos de ira do soberano, que não excluiriam, pelo menos, era de ter disso receio as ofensas físicas na pessoa de D. Maria Francisca quando esta lhe anunciasse o desejo de anular o casamento.

Conde de Castelo Melhor
Cortesia de wikipedia

A precaução não foi inútil. O monarca, na realidade, ao receber a carta da mulher em que ela o avisava da firme disposição de regressar a França e lhe pedia a restituição do dote que trouxera, teve uma violentíssima crise de nervos, desordenada, num destrambelhamento de louco. Não dominando o arrebatamento, dirigiu-se, sem demora, ao convento da Esperança, cujas portas, que encontrou solidamente trancadas por ali temerem o desatino real, tentou despedaçar. Dentro, as pobres freiras sofreram tremendíssimo susto e todas as pessoas que presenciaram a descontrolada reacção dos nervos de Afonso VI não estavam menos atemorizadas.
Isto foi em 2l de Novembro de 1667. E neste mesmo ano, alguns meses depois do seu fracassado casamento, foi que o rei se viu compelido a demitir o seu grande ministro Conde de Castelo Melhor, a única personalidade da corte e do Governo que, por aventura, lhe poderia sustentar a coroa na cabeça. Afastando-o do Governo, embora por imposição, o monarca promovia a sua própria queda. Para isso trabalhava ardilosamente o irmão, no seu palácio de Queluz, onde mantinha uma autêntica corte.

Afonso VI
Cortesia de wikipedia

A esse tempo já a corte se dividia em dois partidos distintos e por igual apaixonados pelas causas que defendiam:
  • Pró e Contra o Rei;
  • Pró e Contra a Rainha.
Aproveitando a maré, quem sabe mesmo se provocando-a atrevidamente, este reinado foi dos mais obscuros da História portuguesa, havendo, por isso, muitas hipóteses e poucas certezas, o irmão do rei, Pedro, já com entendimentos amorosos com a cunhada. D. Maria Francisca, segundo se acredita, preparava inteligentemente o golpe que havia de o levar ao trono e herdar, juntamente, a repudiada e bela rainha.
Há a convicção generalizada de que a ambiciosa atitude dele haja tido por base a paixão incestuosa, senão criminosa, por ser humana, que a cunhada despertara nele. Com evidente hipocrisia, o príncipe (os dois irmãos parece que não se toleravam mutuamente!) no dia seguinte ao da entrada da rainha no convento, ofereceu-se ao soberano para ir tentar uma conciliação.

Sabe-se que a entrevista dos dois cunhados foi absolutamente secreta e que durou (uma tarde inteira, estando ambos fechados durante esse tempo, a sós, nos aposentos dela. Horas mais tarde, informando Pedro a Afonso que D. Maria Francisca se recusara categoricamente a voltar à corte e que tinha intenção de seguir para França, «visto ele, Afonso, não ter consumado o casamento», o rei destravou-se (em termos indecentes, afrontosos para a dignidade da esposa, pretendendo dissimular a sua manifesta impossibilidade física)». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Afonso VI. Um Monarca Infeliz. Espoliado da mulher, do trono e da liberdade. «O processo, que lhe tirou a esposa e o afastaria também do trono é um completo estendal de misérias humanas, de escândalos, de ignomínias, em que mergulharam não só o rei inditoso mas a própria rainha, o príncipe D. Pedro, e até algumas testemunhas que foram chamadas a nele depor»

Cortesia de wikipedia

«Desditoso príncipe! A vida decorreu-lhe, com efeito, sob o pesado signo da desventura e da fatalidade, apesar de a História o marcar, sem fazer ironia, com o triunfante epíteto de “Vitorioso”. Vitorioso, este pobre vulto humano, de quem o célebre António Vieira dizia lapidarmente:
  • «Era manco de um pé, era aleijado de um braço, aquela parte da cabeça padecia o mesmo defeito, porque a força do mal, de que escapou quase milagrosamente, como diziam os médicos, o partiu pelo meio; mas assim, partido pelo meio, o vimos sempre vitorioso; que parece quis mostrar Deus a todas as nações que bastava a metade dum Rei de Portugal para resistir e vencer a maior monarquia do mundo».
Não fosse ter ele a seu lado esse gigantesco estadista que era o Conde de Castelo Melhor e a História decerto não lhe chamaria vitorioso!
Apesar das enfermidades que o inferiorizavam fisicamente, gostava de cavalgar, sem que, algumas vezes, pudesse aguentar-se em cima do animal. «Tinha, contudo, ocasiões em que os seus discursos eram suportáveis, chegando a parecer produto de um espírito sensato. O rei não sabe dissimular, diz sempre o que na verdade entende, não tem reserva e não adverte às circunstâncias do tempo nem de lugar». E mais adiante, o embaixador inglês Southwell, que assim escreveu, informa ainda:

Cortesia de purl 

  • «Deleita-se em matar, por sua própria mão toiros, ursos e outros brutos ferozes. Faz do dia noite e da noite dia».
Enquanto isto, a rainha, já nessa altura certamente identificada quanto à morbidez frígida e invencível do seu real esposo a «mais formosa senhora da Europa», a «pulquérrima consorte» ou a «Virgem e Mártir», no floreado verbal da época, naturalmente ofendida nos seus mais legítimos direitos de mulher e de esposa, pensa, em si própria, ou sob conselhos de alguém interessado na causa, em desquitar-se oficialmente do marido, para o que terá, decerto, boas alegações legais. Separar-se de direito, que de facto, já eles, há muito, estavam distanciados

O infeliz monarca bem se apercebia, em certos lances ou em períodos de crise, da desventura que o atormentava. Nesses instantes, cedendo a intensa revolta íntima, chorava, encolerizava-se, arrepelava-se, praticava distúrbios, em reacções violentas, que provocavam o receio em quem lhe estivesse próximo. Que trágico padecimento o deste homem semi-inútil, que, no entanto procurava aturdir-se, querendo talvez, em vãs tentativas, convencer-se do seu poder masculino, no meio de determinadas e incompletas aventuras amorosas! O processo, que lhe tirou a esposa e o afastaria também do trono é um completo estendal de misérias humanas, de escândalos, de ignomínias, em que mergulharam não só o rei inditoso mas a própria rainha, o príncipe D. Pedro, e até algumas testemunhas que foram chamadas a nele depor.

Cortesia de livrariaul 

Na verdade ali foram patenteados ascorosos episódios, pormenores torpes, vilezas chocantes, que deixaram os protagonistas a escorrer lodo no que respeita aos mais íntimos sentimentos. Um autêntico tratado de psicologias, as mais desconcertantes, daria o estudo das três altas personalidades envolvidas no escandaloso processo e ainda a de algumas testemunhas, que nele depuseram, entre as quais não faltaram certas freiras. Convém, porventura, salientar que por essas épocas não eram os conventos positivamente alfobres de cristãs virtudes, a acreditar em autores de reconhecida idoneidade.

São conhecidos os nomes de religiosas que foram amásias do próprio Afonso VI, como, por exemplo, Catarina Arrais de Mendonça, a maliciosa Feliciana de Milão e Ana Angélica de Moura, estas duas últimas pertencentes ao, a todos os títulos, famoso convento de Odivelas, «harém de reis», e a primeira, freira professa do convento de Sant’Ana, de Lisboa, além de uma tal Calcanhares e de outras aventuras do género». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Afonso VI. Um Monarca Infeliz. «Espoliado da mulher, do trono e da liberdade. «Os seus numerosos defeitos morais, junto à atitude arredia que, logo nos primeiros dias, tomou em relação à esposa, não foram de molde a conquistar as boas graças de D. Maria Francisca, não obstante os esforços por ela despendidos para cumprir os seus deveres conjugais»

Cortesia de purl e wikipedia

«Tinha o rei, então, estatura proporcionada de agradável presença, pele alva, olhos azuis, natiz perfeito, cabelo loiro e comprido, e era senhor de assinalável memória, segundo as descrições que dele ficaram. Físicamente, e apesar de claudicar, não seria, portanto, antipático. Só depois, mais tarde, engordando excessivamente, se tornaria pesadão e mole.

Os seus numerosos defeitos morais, junto à atitude arredia que, logo nos primeiros dias, tomou em relação à esposa, não foram de molde a conquistar as boas graças de D. Maria Francisca, não obstante os esforços por ela despendidos para cumprir os seus deveres conjugais.
Parece que não estava o rei animado de tão boas disposições, porquanto, poucos dias após a chegada da rainha a Portugal, instando alguém com D. Afonso VI para que exercesse as suas obrigações de esposo, «prorrompeu el-rei, nosso senhor, chorando muitas lágrimas, dizendo que o queriam matar, pois o constrangiam a fazer o que ele não podia obrar».

Breve, por conseguinte, os dois esposos se afastaram um do outro, irremissivelmente, criando-se um estado de antipatia mútua, que, transpirando da câmara real, provocaria escândalo em toda a corte e críticas risonhas em todos os palácios. Vendo-se repudiada nos belos encantos femininos, com que a natureza a prodigalizara, é provável que D. Maria Francisca, mulher acima de rainha, e mulher orgulhosamente bonita, ferida no seu amor-próprio, não se mostrasse insensível às atenções e amabilidades do cunhado, D. Pedro, este ambicionando, possivelmente, já então, ocupar o trono, pelo alijamento do irmão mais velho, e, forçoso é reconhecê-lo, menos capaz.


D. Maria Francisca
Cortesia de livrariaul

Sendo um poço de doenças, desde a paralisia, passando por uma hérnia aquosa até uma precoce obesidade, porventura originada noutros males, um autêntico frangalho que arrastava penosamente os seus achaques, também D. Afonso carecia de inteligência e de força moral para se opor, numa luta aberta ao irmão, pessoa normal e enérgica, perspicaz e sensata. Não é, assim, de admirar a extraordinária facilidade com que o monarca foi afastado do poder, quase sem oposição sua, nem de ninguém, dado que o seu mais desvelado amigo, o Conde de Castelo Melhor, fora afastado da governação, por intrigas do príncipe D. Pedro.

Diz-se que o soberano dormia demasiadamente levantando-se muito tarde quando acaso de levantava. Frequentemente, na realidade comia as refeições na cama, com horários irregulares. Indigestões consecutivas eram o corolário deste pernicioso hábito.
E, se era grande dorminhoco, não era menor comilão, deixando a perder de vista os mais famosos glutões do tempo. Quando ia à mesa para comer não fazia a coisa em menos de duas horas, após o que não demorava a meter-se de novo na cama. E se comia!? Imagine-se: Tinha por dia duas opíparas refeições, com que envergonharia Pantagruel. Além da grande quantidade de vinho que ingeria, deglutia três arráteis de túbaras de carneiro, dois frangos, dois pombos, uma galinha e uma enorme torta como sobremesa.

Cortesia de maltezinfo

Não era por moda na época tão copiosas refeições que ele assim procedia; o seu insaciável apetite, a sua gala voraz, eram os principais responsáveis por tais comezainas de empanturrar. Daí, do sedentarismo e ócios da sua vida, a sua inaptidão viril e a abundante adiposidade que criou, apesar das profusas sudações em que o corpo permanentemente se lhe banhava. Cresceu-lhe disformemente a barriga, e as pernas engrossaram-1he por igual, de forma espantosa. Estas atingiram tal grossura que não podiam calçar meias de linho. Para se ter urna ideia da existência deste pobre monarca, acrescente-se a isso a vida irregular que ele fazia, ao que nos informa um trabalho científico de J. Pires de Lima e A. Pires de Lima.
  • «Passava muitas noites em ignóbeis orgias, e, uma vez, por engano, foi ofendido por um desconhecido, que o feriu, sem suspeitar da alta categoria do seu adversário. Foi em Azeitão. El-rei puxou da espada contra três homens, que replicaram brandindo armas iguais. O rei, de botas e esporas, inferiorizado pelas suas, lesões dos membros direitos, caiu de costas, ferido com as ,bolsas testiculares atravessadas por dois golpes».
O seu modo de viver contribuiu, inegavelmente, para que, aos 20 anos, ou pouco mais, não conseguisse mover-se, sem grande cansaço e sempre a transpirar, como se fosse um velho inútil». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Afonso VI. Monarca espoliado da mulher, do trono e da liberdade: «Dizem uns que era poliomilite, a terrível paralisia infantil, enquanto outros asseveram tratar-se de um ar, rótulo cientificamente vago, mas que sempre teve credenciais populares para explicar o que, então, talvez fosse inexplicável»

Cortesia de purl

«Declaro por sucessor de meus Reynos ao Princioe D. Affonso… e porque se acha em menoridade, e pelas leys destes Reynos toca sua tutela e a de seus irmãos, á Raynha minha sobre todas muito amada e prezada mulher, a nomeio Tutora e Curadora do dito Principe e dos Infantes meus filhos». Assim exprime o testamento de D. João IV, de 2 de Novembro de 1656.
Esse príncipe D. Afonso veio a ser o rei Afonso VI, um dos monarcas mais infelizes da História de Portugal senão o mais infeliz de todos, incluindo o infortunado D. Sancho II, como o mais tarde D. Pedro V.
Há, com efeito na longa lista de soberanos portugueses quem haja tido vidas desgraçadas ou morte violenta, tombando às mãos de assassinos facciosos ou desvairados. Não existe porém, outro que tanto tenha sofrido em toda a sua vida, aliás não muito longa mas sempre tocada de amargura e de martírio, como sucedeu ao filho do Restaurador da Independência.

Nascido em plena efervescência política e patriótica, a recuperação da nacionalidade fizera-se, apenas, três anos antes, e Portugal e a Espanha engalfinhavam-se numa guerra decisiva que duraria vinte e tantos anos, logo dos dois para os três anos, o principezinho marcado pela desgraça, foi vitimado por uma doença que viria a desvalorizá-lo, física e mentalmente, durante a sua existência. Dizem uns que era poliomilite, a terrível paralisia infantil, enquanto outros asseveram tratar-se de um ar, rótulo cientificamente vago, mas que sempre teve credenciais populares para explicar o que, então, talvez fosse inexplicável. Ainda outros acreditam numa febre maligna.

O seu «Primeiro Ministro»
Cortesia de maltezinfo

A doença, qualquer que fosse, deixou nítidos sinais no organismo do herdeiro do trono e fez dele um farrapo humano, imbecilizado e tarado. Ele ficou com todo o lado direito paralisado «com distorção da boca e principalmente no modo de cuspir, na paralisia da mão, na imobilidade da coxa e distorção do pé, donde procede o vício de coxear».

Um relatório de peritos observa, ainda, que a paralisia se estende aos músculos do dorso, nuca e regiões lombar e sagrada, além de outras lesões que o impossibilitavam para a prática normal do amor. Todos esses achaques miseráveis, crê-se, junto à péssima educação recebida lhe teriam criado aquele estado permanente de espírito a que hoje se chama «complexo de inferioridade», e aquela ânsia, muita vez manifestada, de convencer os outros de que era um homem normal.
O seu carácter tornou-se violento, azedo, colérico, e tinha ocasiões em que ficava «num estado estúpido, digno de piedade», com intermitências de pessoa sensata. Era enfim; um individuo «doente e cheio de enfermidades» mas não de índole má.
Em 1656, com a idade de 13 anos, pela morte do pai foi proclamado rei, mas só em 1662, de facto, tomou conta do poder, confiando imediatamente o governo ao Conde de Castelo Melhor, que se revelou um dos melhores estadistas portugueses.

A sua esposa, Francisca de Sabóia
Cortesia de livrariaul

Foi este ministro que seguindo vigorosamente a politica anti-espanhola imposta pelo momento político, procurou na alta aristocracia francesa uma princesa para rainha de Portugal. D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, um «serafim de formosura», segundo a linguagem romântica da época, mulher extraordinariamente bela e com aquela graça e encanto peculiares às mulheres da sociedade francesa, teve festiva e entusiástica recepção em Lisboa, onde chegou em 2 de Agosto de 1666.
A sua apresentação à noite, na corte, durante as cerimónias em sua honra, despertou vivo interesse. Ela seria ali com efeito rainha, não só pelo casamento que acabara de celebrar, mes sobretudo pela sua notável beleza, como pelo fausto que a sua pessoa e as da sua comitiva ostentavam. Em Portugal, saído de um período agitado e a braços com complicações internacionais, ainda não existia aquela pompa e luxo que haviam de caracterizar a corte portuguesa de D. João V. Portanto, o esplendor da rainha e do seu séquito foi causa de justificada admiração para os portugueses.

De todos os altos personagens da corte, só D. Afonso VI, o noivo, não assistiu ao banquete por «estar cansado de opressão e fadiga» e o facto imediatamente se tornou notado, desagradando à rainha, que o atribuíra a falta de gentileza, pecadilho que uma francesa orgulhosa e ciosa dos seus predicados não perdoa». In Américo Faria, Dez Monarcas Infelizes, Livraria Clássica Editora, colecção 10, Lisboa, s/d.

Cortesia de Livraria Clássica Editora/JDACT