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sábado, 18 de novembro de 2017

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Ondas, dizia, antes que Amor me mate, tornai-me a minha nympha, que tão cedo me fizestes á morte estar sujeita!»

jdact

«(…) Comecemos por estas redondilhas, escriptas naturalmente antes do mando injusto, que o forçou a embarcar.

Mote
Se me desta terra fôr,
Eu vos levarei, amor.

Voltas

Se me fôr e vos deixar
(Ponho por caso que possa),
Esta alma minha, que é vossa,
Comvosco me ha de ficar.
Assi que, só por levar
A minha alma, se me fôr,
Vos levarei, meu amor.

Que mal pode maltratar-me,
Que comvosco seja mal?
Ou que bem póde ser tal,
Que sem vós possa alegrar-me?
O mal não pode enojar-me,
O bem me será maior,
Se vos levar, meu amor.

Vejamos agora como, alludindo a uma predicção, o poeta nos dá noticia das duas desgraças que lhe aconteceram em um só dia, a perda dos haveres que tinha agenciado no Oriente e com que contava para a velhice, e a morte da sua alegre e doce companheira:

Cantando estava um dia, bem seguro,
Quando passava Sylvio e me dizia
(Sylvio, pastor antigo, que sabia
Por o canto das aves o futuro):

Liso, quando quiser o fado escuro,
A opprimir-te virão em um só dia
Dous lobos; logo a voz e melodia
Te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi, porque um me degolou
Quanto gado vaccum pastava e tinha,
De que grandes soldadas esperava;

E, por mais dano, o outro me matou
A cordeira gentil, que eu tanto amava,
Perpetua saudade da alma minha.
(Soneto 172).

E, vagueando pelos logares próximos da terrível catastrophe, de que a custo salvara a vida e o Canto, em que celebrava os feitos dos portugueses, o poeta exprime a sua dor pela morte da cordeira gentil, em versos de incomparável belleza.

O ceu, a terra, o vento sossegado…
As ondas, que se estendem por a area...
Os peixes, que no mar o somno enfreia...
O nocturno silencio repousado...

O pescador Aonio, que, deitado
Onde co vento a agua se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não póde ser mais que nomeado:

Ondas, dizia, antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha nympha, que tão cedo
Me fizestes á morte estar sujeita!

Ninguém responde. O mar de longe bate.
Move-se brandamente o arvoredo.
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita…
(Soneto 173).

Ah minha Dynamene! Assi deixaste
Quem nunca deixar pôde de querer-te?
Que já, nympha gentil, não possa ver-te!
Que tão veloz a vida desprezaste!

Como por tanto tempo te apartaste
De quem tão longe andava de perder-te?
Puderam essas aguas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem somente fallar-te a dura morte
Me deixou, que, apressada, o negro manto
Lançar sobre os teus olhos consentiste.

Oh mar! ó ceu! ó minha escura sorte!
Qual vida perderei que valha tanto,
Se inda tenho por pouco o viver triste?
(Soneto 170).

In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Esta foi a celeste formosura da minha Circe, e o magico veneno, que pôde transformar meu pensamento»

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(…) No soneto Quando cuido, contemporâneo da canção 6.ª insiste o poeta no receio que tem de se esquecer da infanta:

Quando cuido no tempo que contente
Vi as pérolas, neve, rosa e ouro,
Como quem vê por sonhos um tesouro,
Parece tudo tenho aqui presente.

Mas, tanto que se passa este accidente,
E vejo o quão distante de vós mouro,
Temo quanto imagino por agouro
Porque de imaginar também me ausente.

Já foram dias em que por ventura
Vos vi, Senhora, se, assi dizendo, posso
Co coração seguro estar sem medo.
[……. se isto dizer posso
Co coração seguro, sem ter medo]

Agora, em tanto mal, não me assegura
A própria fantasia, e nojo vosso.
Eu não posso entender este segredo!

Qual a causa porque o poeta receava ausentar-se de imaginar na infanta? Seria effectivamente por ver quão distante della morria?
Mas não se lê na elegia 3.ª:

Uma cousa, Senhor, por certa asselle:
Que nunca amor se afina, nem se apura.
Em quanto está presente a causa delle?

Seria porque estava convencido de que a infanta não era estranha ao seu desterro para as Molucas e castigava com tão grave penitencia tão pequeno erro, como era o ter-lhe amor? Mas não diz elle na canção 6.ª :

... Se tão longo c misero desterro
Vos dá contentamento,
Nunca me acabe nelle meu tormento?

Nota: Veja-se também o soneto 68, já citado:
Dai-me uma lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde, sob pena de enojar-vos.
Agora a própria phantasia não assegura o poeta de que não venha a aborrecer a infanta. É isso que elle leme.

É que estas causas, que, por si sós, lhe não arrancariam do coração o seu alto pensamento, começaram a avolumar-se, pela acção do magico veneno, que uma Circe, de celeste formosura, lhe ia ministrando. E, sentindo os effeitos desse veneno, Camões assustava-se com a ideia de olvidar a bem-amada. Como era possível que se lhe apagasse da alma aquelle gesto tão soberano, que lhe havia mudado o ser, de humano em divino? Como era possível que abandonasse aquelle seu pensamento, pelo qual teria morrido contente?

Eu não posso entender este segredo!

exclama o angustiado poeta. Mas o veneno foi produzindo os seus effeitos e operou a receada transformação. Eis como o poeta nos apresenta a estranha creatura, que se lhe apoderou do coração e dos sentidos, a ponto de obliterar a imagem da infanta:

Um mover d’olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quasi forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indicio da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar, uma brandura;
Um medo sem ter culpa, um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o magico veneno,
Que pôde transformar meu pensamento.
(Soneto 35).

De quem se trata? Naturalmente de alguma estonteadora formosura oriental, que, com a sua apparente impassibilidade, tão profunda revolução produziu na alma do apaixonado adorador da infanta. Do que me não resta duvida é de que o poeta trazia comsigo a seductora Circe, quando naufragou na costa da Cochinchina, e ahi a viu perecer afogada, sem lhe poder valer. E foi então que elle, ao exprimir a sua dor, attingiu o supremo grau na poesia lyrica». In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões. A Infanta dona Maria. José Maria Rodrigues. «Que em vós achem abrigo as maguas que aqui digo, emquanto der o sol virtude á lua; porque de gente em gente…»

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(…) Não é para mim motivo de afllicção ou receio, o temor de me esquecer da infanta, pois esse receio seria sígnal de que a esperança ainda não estava de todo morta em mim. Oxalá que neste perigo em que estou de me esquecer da bem-amada, eu tivesse receio de a esquecer.

[…]
Mas triste quem não pôde já perder!
Senhora, a culpa é vossa,
Que, para me matar,
Bastára um’hora só de vos não ver.
Pusestes-me em poder

De falsas esperanças,
E do que mais me espanto:
Que nunca vali tanto,
Que visse tanto bem como esquivanças.
Valia tão pequena

Não póde merecer tão doce pena.
Houve-se Amor comigo
Tão brando ou pouco irado,
Quanto agora em meus males se conhece.
Que não ha mór castigo,

Para quem tem errado,
Que negar-lhe o castigo que merece.
Da sorte que acontece
Ao misero doente,
Da cura despedido,

Que o medico advertido
Tudo quanto deseja lhe consente,
O Amor me consentia
Esperanças, desejos e ousadia.
E agora venho a dar

Nota: Lê-se na 1ª edição (versos 72-78)
E bem como acontesce
Que, assi como ao doente.
Da cura despedido,
O medico sabido
Tudo quanto deseja lhe consente,
Assi me consentia
Esperança, desejo & ousadia.

Conta do bem passado
A esta triste vida e longa ausência.
Quem póde imaginar
Que houvesse em mi pecado,
Digno duma tão grave penitencia?

Olhai que é consciência,
Por tão pequeno erro,
Senhora, tanta pena!
Não vedes que é onzena?
Mas, se tão longo e misero desterro

Vos dá contentamento,
Nunca me acabe nelle meu tormento.
Rio formoso e claro
E vós, ó arvoredos.
Que os justos vencedores coroais

E ao cultor avaro,
Continuamente lêdos,
De um tronco só diversos frutos dais,
Assim nunca sintais
Do tempo injuria algua,

Que em vós achem abrigo
As maguas que aqui digo,
Emquanto der o sol virtude á lua;
Porque de gente em gente
Saibam que já não mata vida ausente.

Canção, neste desterro viverás,
Voz nua e descoberta,
Até que o tempo em ecco te converta.
(canção 6ª)

Nota: Segundo W. Storck, que suppõe esta canção escripta nas ilhas de Banda, trata- se das moscadeiras. Estes diversos fructos, que nascem de um tronco só, não podem ser senão a flor e a noz moscada, o dúplice grão cheiroso da Myrijica aromática, tão bella na sua ramagem laurinea. Não resta, porém, duvida que o poeta falla aqui das palmeiras, que os justos vencedores coroam, e que tanto abundam nas Molucas. Os diversos fructos que provêm d’um só tronco podem significar os variados productos de certas palmeiras. Eis como elle começa: Ruano. Do arvore dos coquos, chamado assim dos Portuguezes, me dizei; que sempre ouvi dizer que era hum arvore que dava muitas cousas nesseçarias á vida humana. Orta. Dá tantas e nesseçarias, que não sey arvore que dê a sesta parte. Ou alludirá o poeta ao facto de terem o nome de palmeiras plantas que dão fructos tão differentes como o coco, a tâmara, a areca, etc.? A leitura de Barros, Década 3.ª, 5, 5, favorece a primeira explicação». In José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta Dona Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Principe Real Luis Philippe (3 1761 06184643.2, PQ 9214.R64 1910.C1.Robarts/.

Cortesia doAHistórico/UCoimbra/JDACT