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quarta-feira, 13 de março de 2024

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «Isto é mais do que uma mera tempestade. A voz do Pai vacila. Inclina o ouvido para o canto da cozinha, como se ouvisse uma tempestade levantar-se ao longe»

jdact

Salamanca

«Batem com força à porta de entrada, acordando Ari das suas divagações. Ouve vozes no átrio, pousa a pena e levanta-se, para dar com o Pai a tentar apoiar um homem velho e pequeno, que se arrasta a custo no outro lado do átrio. Assim que Ari vê os seus rostos cor de cinza, sabe que aconteceu mesmo qualquer coisa especial, e que hoje não será um dia igual aos outros.

Pai! Rabi Isaac!, grita, correndo em seu auxílio. O que se passa? O idoso rabi faz uma careta de dor quando o sentam com cuidado numa cadeira da cozinha. Tem a respiração ofegante e o rosto, coberto por tufos de barba branca, reluz brandamente sob uma fina camada de suor. Ari vai buscar água e leva o copo aos lábios do rabi. Ele bebe devagar, parando entre goles para balbuciar em voz baixa. Engasga-se e gagueja como se ainda tivesse qualquer coisa do pequeno-almoço presa na garganta. Finalmente, numa voz rouca do esforço, sai-lhe uma palavra de um jacto. Exílio!

As quatro sílabas ficam suspensas no ar. Atónito, Ari agarra no braço do Pai e sonda-lhe o rosto. Ele sabe pela Torá que o exílio é o caminho para a redenção. Então, porque se mostra o rabi tão receoso?

Não faz sentido! De certeza que o Pai, com todo o seu saber, vai conseguir explicar! Mas os olhos do Pai, normalmente calmos, estão agora vítreos. Tem as feições de pedra e o sangue fugiu-lhe da face, como se tivesse uma dor de dentes. Também está a ter dificuldade em mover o queixo.

Saiu um édito, balbucia, com a voz pesada de desespero. Temos três meses para ir embora. O choque invade Ari de repente. O mesmo choque que sentiu quando era criança, quando caiu da ponte para o rio. A torrente engole-o, tirando-lhe o ar dos pulmões. Não consegue respirar. Sente o sangue a latejar-lhe nos ouvidos. Está a afogar-se, vira-se para o Pai, à procura de ajuda, mas ele já se deixou cair como uma trouxa mal feita na cadeira ao lado do rabi.

Samuel deve ter ouvido toda aquela agitação, porque está encostado à porta, a fungar e a assoar-se com um lenço húmido. Apoiando-se na mesa de madeira acabada de esfregar, Ari olha de novo para o Pai, à espera de uma orientação. Mas o Pai tem os olhos fechados e uma expressão de descrença no rosto, como se tivesse acabado de descobrir que uma das leis universais que tanto ama tivesse sido violada.

Uma onda de vergonha apodera-se de Ari. E se os céus o ouviram? E se tudo aquilo for culpa dele? Desejara que acontecesse qualquer coisa de empolgante. Esperara que houvesse uma mudança. Não vale a pena tentar negá-lo. A culpa é mesmo dele. Devia ter estado a trabalhar nos seus  cálculos. Em vez disso, rezara para que acontecesse qualquer coisa de extraordinário. E agora tinha acontecido. Mas era uma coisa tão terrível que ninguém no seu perfeito juízo o teria desejado alguma vez!

Inclina-se para a frente e sussurra ansiosamente ao ouvido do pai: Pai, a culpa e minha! Sou eu o culpado. Desejei que acontecesse qualquer coisa especial que mudasse tudo! O Pai ergue os olhos para ele, espantado. Depois o rosto dele suaviza-se, e os seus olhos cinzentos enchem-se de lágrimas. Não! A culpa não é tua, Art, diz ele, estendendo a mão e pegando-lhe no braço. Estavas só a sonhar outra vez. Ainda nem sequer és um homem. Como poderia a culpa ser tua?

O ar volta a entrar nos pulmões de Ari. O Pai tem razão. Como poderia ser culpa dele? Um rapaz de 14 anos? Quase 15! As suas ideias arrebatadas? Era impossível, mas então de quem era a culpa? Quem faria uma coisa destas? Deve haver um engano qualquer. As lágrimas descem pelo rosto do Pai sem que ele se aperceba. Tem uma expressão perplexa. No silêncio da cozinha, o rabi é o primeiro a falar.

Não há engano nenhum, diz, com a voz estrangulada. O inquisidor da rainha proclamou o édito na praça ainda esta manhã. Está uma cópia afixada na porta da catedral. Mas porquê?, pergunta Ari. É o castigo de Deus. Mas que mal é que nós fizemos? Com os olhos vermelhos, Samuel aperta o lenço na mão.

Foram o rei e a rainha que assim planearam, diz o rabi, passando uma mão cansada pela face. Ari vê uma luz de esperança acender-se no rosto do Pai. A rainha, diz ele, com os lábios a tremer. Talvez eu consiga uma audiência na Corte. Pedir que atenda ao nosso caso. Por causa do meu trabalho...

Não se trata só do rei e da rainha, diz o rabi Isaac. Trata-se do inquisidor-mor e da Santa Irmandade, com todo o poder da Igreja Católica a apoiá-los.

O Pai passa os dedos trémulos pela barba. Tosse e tenta de novo. Talvez a rainha abra uma excepção para nós... Não, Abraão, não haverá excepções. Tem razâo. O Pai torce as mãos; desapareceu-lhe a luz da face. Tenho andado a estudar as constelações e vi os sinais que vêm dos céus.

Coragem, diz o rabi Isaac, reunindo as suas forças. Pense em das as tempestades celestiais que já nos caíram sobre a cabeça. Isto é mais do que uma mera tempestade. A voz do Pai vacila. Inclina o ouvido para o canto da cozinha, como se ouvisse uma tempestade levantar-se ao longe. Há indícios de grandes mudanças, conjunções dos Planetas que significam destruição e revolta. Nunca acreditei nisso até agora.

Lembra-te, Abraão, diz o rabi. Não há nenhum Planeta que tenha poderes para nos governar. Não. A voz do Pai adquire uma ênfase súbita. Vem aí o fim do mundo. Isto é o Apocalipse». In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

 Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, Brigid Hampton, História, Conhecimento, João II, Cartografia, Literatura, 

terça-feira, 12 de março de 2024

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «Os teus cálculos estão péssimos. Devias estar a estudar. Ari baixa os olhos para o exercício, molha a pena no tinteiro e segura-a, suspensa, sobre o papel»

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Sevilha, 1492

«(Ismael desviou ou olhos. Não disse o que Paloma já tinha adivinhado. Os documentos que planeara esconder continham cópias de um mapa . que ele e o Papá tinham roubado da Corte. Se fossem apanhados, seriam todos julgados como traidores e queimados nas piras da Inquisição (maldita).

Ao longe, ouve-se ladrar um cão solitário. A alça do saco de Paloma enterra-se-lhe dolorosamente no ombro, e sente um bater desordenado no peito, no sítio onde o Papá diz que fica o coração. Tropeça e pega na mão de David, rezando para conseguirem passar em segurança. Isto é só o princípio do fim. Não é o fim. O que lhes trará a manhã?

Esforça-se por pensar na rota que Ismael planeia seguir, atravessando o rio Guadalquivir, passando pelas ruínas de Itálica através dos velhos campos de trigo de Roma, e depois subindo as colinas. Avançam-apressadamente e em silêncio. O vapor da sua respiração ofegante flutua acima deles, dissolvendo-se na noite.

Salamanca

O fumo é sempre a primeira coisa que Ari procura quando abre a janela. Nos dias em que queimam conversos na praça, consegue ouvir os gritos e os uivos da multidão.

Sente o estômago às voltas só de pensar nisso. Nesses dias, é-lhe impossível concentrar-se. Tem de trancar as janelas para evitar o fedor enjoativo que o vento traz da pira, e ao cair da tarde há uma camada de cinzas gordurentas que se lhe cola aos dedos se não limpar primeiro o beiral da janela.

Debruça-se sobre o parapeito para afastar as portadas. Hoje a viela está silenciosa. O céu é de um azul transparente. Ao longe, consegue ver os contornos do pináculo da catedral. Abaixo, nas margens do rio, há mulheres a lavar roupa e a pendurá-la nas cordas que se estendem entre as árvores, com as suas vozes cantadas a erguer-se por cima do rio'

Nem um sopro de vento. Nem o mais pequeno cheiro a fumo. Graças sejam dadas a Deus! Hoje não há autos de fé na praça. Com um suspiro de alívio, volta para o escritório. Há uma tira de luz que se projecta à sua frente, lançando uma luz dourada sobre a página em branco do seu livro, numa dança brincalhona. O irmão mais velho, Samuel, já está sentado à secretária. Com a pena na mão, tem o olhar fixo nos cálculos que o Pai lhes deixou para completar.

Fecha a janela, diz Samuel, sem erguer os olhos. Espirra e limpa com um lenço o nariz a pingar. O Pai quer que acabemos estes hoje. Ari fecha a janela e senta-se ao lado do irmão. Distraído, agita-se no lugar, brinca com a pena de junco, fazendo agitar à volta do dedo. O dia estende-se à sua frente numa monotonia sufocante e interminável.

Se ao menos acontecesse qualquer coisa. Uma coisa diferente. Uma coisa fora do comum. Nada que se pareça com mais autos de fé na praça. Deus nos livre! Mas uma coisa especial. Uma mudança qualquer que lhe desse uma desculpa para sair da secretária, da interminável rotina de tabelas e ângulos e cálculos feitos sob o olhar cinzento e incansável do Pai.

E vê lá se estás quieto. Samuel afasta dos olhos uma mecha de cabelo. Estás a sonhar outra vez. Os teus cálculos estão péssimos. Devias estar a estudar.

Ari baixa os olhos para o exercício, molha a pena no tinteiro e segura-a, suspensa, sobre o papel. O Pai vai regressar em breve para verificar o trabalho deles. Diz que só através do estudo se ganha mérito. Os números são tudo o que conta, segundo o Pai. São o padrão e a razão do mundo, explicam as leis do universo.

Se o mérito se ganha através dos números, então ele, Ari, nunca terá nenhum. Samuel é bom a fazer cálculos. Tem carradas de mérito. Com um mérito daqueles, seria de esperar que ele se entendesse com o mundo. Ou, pelo menos, que aprendesse a amar melhor o próprio irmão!» In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

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sexta-feira, 6 de outubro de 2023

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «E se nos pararem e interrogarem?, perguntou o Papá. Serão uma família de peregrinos que vão em direcção à cidade do Porto, para daí seguirem o caminho da peregrinação até Santiago de Compostela»

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Sevilha, 1492

«O Papá surge do escuro como um fantasma. Põe o braço à volta dos ombros da Mamá e puxa-a para a viela; a seguir, fecha a porta atrás deles com um ruído seco. Por baixo do casaco do Papá, Paloma entrevê o reflexo do punhal que traz sempre consigo encaixado no cinto, uma lâmina curta com punho de madeira, um presente que o pai dele lhe dera quando se fizera ao mar pela primeira vez. Está afiado e pronto para cortar pão, amanhar peixe ou espetar entre as costelas de um homem'

Servir-me-ei dele, se for preciso - dissera o Papá há pouco tempo, enquanto afiava o punhal, ignorando a expressão horrorizada da Mamá, que se encolhera toda ao ver a lâmina aguçada. Paloma olha a arma com inveja. se ao menos ela tivesse o seu próprio punhal! Um punhal com uma lâmina tão afiada como o do Papá. E havia de usá-lo, sem dúvida. um só punhal nunca será suficiente para os proteger a todos.

A viela estreita está mergulhada na mais completa escuridão, e os muros à volta transmitem-lhes um sentimento de opressão. À medida que caminha, Paloma sente a pressão do alaúde que lhe cinge os ombros e o peso familiar da chave no bolso. Naquele silêncio mortal, a respiração arquejante ecoa-lhe dentro da cabeça, e o ritmo dos próprios passos repete-se incessantemente aos seus ouvidos. Vão-se embora. Vão-se embora. Vão-se embora.

O Papá acelera o passo, e agora os pés dela voam sobre o caminho de terra, atravessando o negrume estonteante da praça e entrando pelo labirinto escuro de casas dentro. Passam pela sombra da Igreja de Santa Maria La Blanca, outrora a principal sinagoga da comunidade, uma rajada de vento varre os cheiros fétidos a esgoto e a fumo pelas vielas fora, erguendo uma nuvem de poeira que lhes apaga as pegadas.

Depois, deixam para trás a torre da Igreja de Santa Catalina, : o minarete da antiga mesquita de São Marcos ergue-se na escuridão. A madrugada ainda vem longe, a Lua é um pálido crescente na taça de ébano da noite. Já passou o equinócio da Primavera. Este ano não houve chuvas. Terão uma visão nítida das Estrelas que os guiarão em direcção ao Ocidente.

Agora já falta pouco para a porta na muralha da cidade. O amigo do Papá, o mouro Ismael, vai estar lá à espera deles. Naquela tarde, quando for buscar os documentos e valores da família, avisou-os de que não se atreveria a arriscar acordar de noite a vizinhança com o som das ferraduras dos cavalos no chão. Encontramo-nos na porta da cidade, dissera ele. Trarei mulas e mantimentos para a viagem. Os papéis e as jóias vou escondê-los num compartimento secreto da carroça, onde estarão a salvo. Iremos por um caminho que conheço através das colinas do sopé de Al-Andaluz até à  fronteira de Portugal.

E se nos pararem e interrogarem?, perguntou o Papá. Serão uma família de peregrinos que vão em direcção à cidade do Porto, para daí seguirem o caminho da peregrinação até Santiago de Compostela. O guarda da porta da cidade é um pobre diabo que, se não estiver já bêbedo, em breve estará, por meia dúzia de ducados». In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

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quinta-feira, 28 de setembro de 2023

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «Desvia o olhar dos olhos vermelhos da mãe, ciente de uma dor surda que começou a latejar-lhe dentro da cabeça. Pelo menos, as lágrimas…»

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Sevilha, 1492

«Tudo o mais desapareceu, como se uma grande ave vinda do caos tivesse aterrado ali e arrebatado tudo, deixando apenas alguns vestígios da vida que tinham antes, uma taça em cacos junto da porta, um lume a morrer no meio das cinzas. Tudo desaparecera!

A Mamá que ela conhece também desapareceu, embora o fantasma dela permaneça de pé, mesmo ao seu lado. A aparência é a mesma, mas tem os olhos vítreos e a respiração difícil, entrecortada; torce o xaile nas mãos e põe-se a limpar qualquer superfície que encontre. Umas vezes, suspira, outras, chora com grandes soluços dilacerantes que não têm nada que ver com a Mamá que ela conhece, porque essa Mamá tem o mesmo humor maluco do David e está sempre a dar risadinhas a propósito de tudo e de nada.

Ainda ontem a casa estava cheia de conversas e risos, porque o papá adora ter amigos à sua volta. Encontra caras novas na rua, ou então simplesmente apanha-os nas docas de Triana e leva-os para casa. A essência da vida, chama-lhes ele.

Espera até ouvires esta história, diz, enquanto os encaminha para dentro de casa. E depois começam as histórias: de naufrágios ao largo da costa de África, ou escaramuças com os mouros, ou as ilhas do Mar Oceano. Tudo contado em voz tão alta que, por vezes, pela noite dentro e depois de ir para a cama, Paloma só deseja que se vão todos embora e a deixem dormir.

Os vagabundos do papá estão sempre esfomeados, e não tarda que ele chame a pedir a sopa de açafrão com almôndegas, ervas aromáticas e ovos que a mãe consegue preparar enquanto o diabo esfrega um olho. Quando ela acaba de cozinhar, e servir, e limpar a confusão que eles deixam, o papá pega-lhe na mão e puxa-a para si. Agora, o meu rouxinol vai cantar para nós.

Então a Mamá, com uma expressão radiante e marota, ri-se e finge-se surpreendida. Ergue uma sobrancelha, daquela maneira que ela tem de dizer: Quem, eu?, e, sem mais delongas, ajusta o xaile sobre os braços, ergue o queixo e começa a cantar, gorjeando como um pássaro enquanto as notas altas e cristalinas se escapam pelas traves do tecto. Paloma tem sempre a impressão de que é nesse momento que a magia acontece. À luz das velas, o cabelo da mãe cintila em feéricos dardos de luz, enquanto o rosto se lhe ilumina como num encantamento.

Uma pancada na porta interrompe-lhe os pensamentos. O sinal do papá. Tempo de partirem. Pegando nas mãos da mãe, Paloma desembaraça-as do xaile. Alisa-lhe os caracóis para trás, cobre-lhe a cabeça e aconchega-lhe a pesada capa de lã à volta dos ombros. Anda, Mamá, deixa isso agora. Temos de ir.

Desvia o olhar dos olhos vermelhos da mãe, ciente de uma dor surda que começou a latejar-lhe dentro da cabeça. Pelo menos, as lágrimas da Mamá pararam. Mas podia morrer-se afogado naqueles enormes lagos negros. Inspirando profundamente, apaga a vela, com todos os esforços concentrados em ignorar as perguntas que consegue ver nas suas profundezas. Onde havemos de viver agora?

Com dedos trémulos, roda a chave na fechadura, ouvindo aquele clique familiar de quando o trinco entra na ranhura. Agarra com força na chave, sentindo a sua textura áspera contra a palma da mão. Num sopro, murmura para si própria as palavras: Não demores. Não olhes para trás.

O fontanário canta no silêncio, e no ar pairam os cheiros quotidianos a terra molhada e a cozinhados, enquanto ela guia a mãe através do pátio. Na sombra da parede, David está de atalaia a eventuais informadores que possam rondar as ruas, mesmo àquela hora' Segura a porta aberta e diz, em voz sibilada e ansiosa: - Não há ninguém. Vamos! Vá lá, Estie, coragem!» In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

JDACT, Brigid Hampton, História, Conhecimento, João II, Cartografia, Literatura,

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

O Astrólogo e o Rei. Brigid Hampton. «Levanta-se para encher os jarros de água, sentindo-se enjoada e com as entranhas às voltas. Dói-lhe a garganta e arde-lhe o estômago. Com as mãos trémulas, prepara mantimentos para a viagem. Queijo. Pão. Ovos cozidos. Um belo repasto de pêsames»

jdact

Sevilha, 1492

«Nunca mais haverá uma noite tão longa quanto esta. Nem uma Lua tão implacável. Desliza, sorrateira, pelo céu, lançando a sua luz sobre a viela lá fora, arrastando a madrugada atrás de si.

O dinheiro cintila à luz das velas, dois montes bem alinhados sobre a mesa, ducados de ouro e reais de prata. Cem Estrelas apanhadas do céu. Paloma escolhe uma moeda, erguendo-a bem presa entre o polegar e o indicador. Pequena, brilhante, tem gravados os nomes do rei e da rainha de Espanha. Engole!, berra-lhe o pai, com uma expressão resoluta e feroz que ela nunca lhe vira até ali. Tenho mesmo de engolir?, pergunta ela, ouvindo a sua própria respiração rouca encher a sala.

Quem mais queres que o faça por ti? O papá tira uma moeda de ouro e mete-a rapidamente na boca. Bebe um gole de água e engole-a de um trago. Não custa nada!, grita com uma careta. Pega na faca e lança-se a cortar o pão. Não vais sentir nada. Os ducados como-os eu.

Paloma pega numa crosta de pão, parte um pedaço e humedece-o na boca com um gole de água. Mastiga. Leva a moeda aos lábios, entontecida pelo seu cheiro, como se fosse sangue. Sente o sabor amargo da massa húmida e a acidez do metal sobre a língua, e a seguir obriga-se a enfiá-la pela garganta abaixo, engasgando-se com os rebordos ásperos da prata batida.

Vês? A voz do papá é rouca. Este pode ser o melhor pequeno-almoço que alguma vez comeste! Tem de nos fazer aguentar durante muito tempo.

A família está sentada em silêncio à volta da grande mesa de carvalho, mastigando, engasgando-se e engolindo, enquanto observa as pilhas a diminuir.

Isto é perfeito para uma jornada! David, o irmão mais novo, ergue as sobrancelhas e revira os olhos, percorrendo a sala. Vai ser uma trabalheira voltar a reunir estes dois montes!

Enche as bochechas de ar e põe-se a saltar a pés juntos à volta da mesa, como um gafanhoto, atirando uma moeda ao ar e apanhando-a na boca aberta. Paloma lança-lhe um olhar de aviso e sufoca uma gargalhada irreprimível perante a cara cómica do irmão' Não tem graça, mas as cócegas que sente no peito recordam-lhe que, numa qualquer outra noite, estariam todos a rir-se das palhaçadas dele.

Levanta-se para encher os jarros de água, sentindo-se enjoada e com as entranhas às voltas. Dói-lhe a garganta e arde-lhe o estômago. Com as mãos trémulas, prepara mantimentos para a viagem. Queijo. Pão. Ovos cozidos. Um belo repasto de pêsames.

Vê a sala a andar à roda, uma realidade estranha à claridade desbotada de uma única vela. No chão, a arca onde o papá guarda os seus manuscritos e mapas, partida, mostra uma fenda grande na tampa onde ele lhe bateu, primeiro com o machado e depois com o punho, percorrendo a casa como o Anjo da Morte, destruindo toda e qualquer coisa que não conseguissem transportar consigo». In Brigid Hampton, O Astrólogo e o Rei, Porto Editora, 2022, ISBN 978-972-003-487-8.

Cortesia de PortoE/JDACT

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

BNP. Mostra. 1812, a Campanha da Rússia. «O conflito foi moderno nos meios tecnológicos aplicados, total pela indiferenciação entre combatentes e não combatentes e anunciador das grandes guerras do século XX»


Gravura de “Campagnes des français sous le consulat et l’empire”
Cortesia da bnp

Mostra. 1812. A Campanha da Rússia
Até ao pf dia 10 de Novembro de 2012. Sala de Referência.

«No bicentenário da invasão da Rússia pela Grande Armée, campanha que precipitou a queda de Bonaparte e o fim da hegemonia política francesa, evoca-se o embate entre um projecto autoritário de unificação da Europa, construção artificial mantida pela força das armas, e o único Estado europeu com meios para se lhe opôr. O conflito foi moderno nos meios tecnológicos aplicados, total pela indiferenciação entre combatentes e não combatentes e anunciador das grandes guerras do século XX, pelo peso que nela tiveram a propaganda, a contra-informação e os movimentos da opinião pública. A Campanha de 1812 foi algo mais que uma guerra de proporções até aí jamais vivida; acontecimento marcante da consciência identitária da nação russa, revelou à Europa o poderio russo, consagrando-o como um dos polos do equilíbrio europeu. Na ‘Campanha’ participaram milhares de soldados da Legião Portuguesa, empurrados para a aventura russa que foi, para a quase totalidade, viagem sem regresso.
Em consequência da derrota de Napoleão na Rússia e das sublevações nacionais anti-francesas que se lhe seguiram, germinaria no Congresso de Viena a primeira tentativa para um acordo para a preservação da paz no continente envolvendo em concerto todos os estados europeus.
A mostra patente na Biblioteca Nacional de Portugal, para a qual foi produzido catálogo, exibe memórias, cartografia e iconografia, assim como manuscritos… tendo particular interesse documentos existentes nos arquivos russos, pela primeira vez revelados ao público português». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia de BNP/JDACT

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Exposição. Leitores de Mapas. Dois séculos de História da Cartografia em Portugal. «… a colaboração entre estes três autores foi decisiva para a maturação de uma consciência epistemológica para esta disciplina iniciada na transição do século XVIII para o século XIX em torno da arte de ler os velhos mapas»


Cortesia da bnp

Até ao pf dia 15 de Outubro de 2012. Sala de Exposições. Piso 3.

«Organizada no âmbito do IV Simpósio Ibero-Americano de História da Cartografia a exposição apresenta uma ampla retrospectiva sobre os estudos de cartografia antiga realizados em Portugal ao longo dos últimos duzentos anos. É revisitada a obra produzida no domínio da história da cartografia por mais de uma dezena de investigadores portugueses, entre os quais sobressaem os nomes de Manuel Francisco Barros Sousa, Duarte Leite, Abel Fontoura da Costa, Jaime e Armando Cortesão, Luís de Albuquerque e Avelino Teixeira da Mota. Foram seleccionadas cerca de 80 peças pertencentes aos diversos fundos da BNP, incluindo livros, artigos, manuscritos autógrafos, fotografias, gravuras, atlas e mapas. A exposição ilustra os progressos de um campo do saber ao qual Portugal esteve associado desde a sua génese, nas primeiras décadas do século XIX. Encontra-se organizada em quatro núcleos, correspondentes a períodos definidos por contextos culturais, científicos e político-diplomáticos específicos.
O primeiro núcleo, intitulado ‘O século do visconde’, está centrado na extensa série de estudos preparados a partir da década de 1840 pelo diplomata Manuel Francisco de Barros Sousa, 2.º visconde de Santarém, os quais deram um horizonte disciplinar à própria história da cartografia. O segundo painel estrutura-se em torno do ‘círculo da náutica, designação escolhida para o período de transição do século XIX para o século XX, quando o projecto português para a história da cartografia foi relançado por um grupo de oficiais da Armada que ambicionaram construir um conhecimento científico dos territórios coloniais. Ernesto de Vasconcelos, Fontoura da Costa, Gago Coutinho e Teixeira da Mota revêem-se neste projecto, ao qual a Universidade de Coimbra também aparece associada através de Luciano Pereira Silva, Duarte Leite e Armando Cortesão. O terceiro período tratado ilustra a longa permanência de Jaime Cortesão no Brasil, entre 1940 e 1957, determinada por motivos políticos. Designado ‘O exílio do cartólogo’, destaca-se aqui a série de cursos sobre história da cartografia política brasileira que Jaime Cortesão leccionou no Ministério das Relações Exteriores do Brasil entre 1944 e 1950. Estes cursos abriram novas perspectivas ao estudo integrado dos mapas e da formação do território brasileiro e representaram a primeira experiência formal de ensino da história da cartografia no mundo. No último painel, chamado ‘Afirmação de uma ciência’, tratam-se articuladamente três nomes que deixaram uma marca profunda nos estudos sobre história da cartografia em Portugal na segunda metade do século XX: Armando Cortesão, Avelino Teixeira da Mota e Luís de Albuquerque. Tal como a exposição torna patente, a colaboração entre estes três autores foi decisiva para a maturação de uma consciência epistemológica para esta disciplina iniciada na transição do século XVIII para o século XIX em torno da arte de ler os velhos mapas.


A inauguração da exposição da BNP será acompanhada pela edição de um livro onde se reúne um conjunto de quinze estudos inéditos, assinados por um conjunto alargado de investigadores de distintas especialidades e procedência institucional. Estes estudos permitem realizar uma primeira leitura integrada ao desenvolvimento intelectual da história da cartografia em Portugal. Trata-se de uma edição conjunta do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa, do Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa e da Biblioteca Nacional de Portugal». In Biblioteca Nacional de Portugal, Francisco Roque Oliveira (coordenação geral da exposição), Centro de Estudos Geográficos, Universidade de Lisboa, Miguel Rodrigues Lourenço, Centro de História de Além-Mar, Universidade Nova de Lisboa, Maria Joaquina Feijão.

Cortesia da BNP/JDACT

domingo, 3 de abril de 2011

Navegações Portuguesas: Família Albernaz (segunda parte). Parte XIX. «Esta família de cartógrafos entronca-se na dos Teixeira, sendo os irmãos João Teixeira Albernaz (I) e Pedro Teixeira Albernaz filhos de Luís Teixeira. Além de outros autores de trabalhos menores, como Estevão Teixeira, integra também esta família João Teixeira Albernaz (II), neto do seu homónimo»

(c. 1595-1662)
Lisboa
Cortesia de wikipedia

«Seu irmão Pedro Teixeira, nasceu em Lisboa no final do século XVI, tendo desenvolvido a sua actividade em Espanha, a partir de 1619, quando aí se dirigiu com seu irmão João, a fim de cartografarem os locais constantes da relação de viagem dos irmãos Nodal. Enquanto seu irmão regressou a Portugal, findo o trabalho, Pedro optou por ficar em Madrid ao serviço de Filipe III. É escassa a sua produção conhecida, mas sabemos que desapareceram várias cartas deste cartógrafo. Entre elas, é justo destacar uma que continha a representação do Delta do Amazonas, para além da descrição da costa de Espanha, da qual existem várias cópias, mas que não incluem as cartas. Em 1623 vêmo-lo, juntamente com seu irmão, a examinar João Baptista de Serga. Dedicou-se principalmente a executar levantamentos topográficos, talvez por influência de João Baptista Lavanha.

Cortesia de lagospt
A sua produção compõe-se:
  • da Carta dos Estreitos de S. Vicente e Magalhães, de 1621, executada em colaboração com seu irmão;
  • de uma Planta de Madrid, de 1656, existente na Biblioteca Nacional de Paris;
  • da Carta de Portugal, gravada em Madrid em 1662. Em 1722 Manuel de Azevedo Fortes, afirmava que esta última ainda era a melhor carta de Portugal. Os levantamentos necessários teriam sido executados entre 1622 e 1630.
Desconhecemos porque motivo levou tanto tempo a elaborar esta carta, que serviu de modelo a várias cartas de Portugal impressas no estrangeiro.

Cortesia de amigosdepeniche  
São escassos os dados biográficos sobre o cartógrafo João Teixeira Albernaz II, o Moço, sendo que alguns já foram referidos quando tratamos de Albernaz I, que, por vezes, se confundem na documentação. No parecer de Manuel Pimentel a que já fizemos referência, este indica que João Teixeira Albernaz II, é neto de Albernaz I, dizendo, também, que fazia cartas com perfeição. Sabemos igualmente que ainda se encontrava vivo em 1699.

Na sua obra, nota-se a grande influência recebida de seu avô, que foi seu mestre, mas o traçado da letra e iluminuras são menos cuidados. Os Atlas do Brasil repetem, embora com alguns progressos, o que seu avô já tinha desenhado, embora tenham o mérito de ter influenciado a cartografia holandesa.
A sua obra mais importante é:
  • o Atlas de África de 1665, única no seu género, tendo sido encomendada por um francês, o que demonstra a procura da cartografia portuguesa no estrangeiro, ainda nesta época. Uma carta sua foi usada na Conferência de Badajoz (1681), a propósito da questão da Colónia do Sacramento, afirmando os seus membros que João Teixeira Albernaz II, o Moço era conhecido em toda a Europa.
É bastante vasta a sua produção cartogáfica, sendo de destacar as seguintes Cartas:
  • a Carta de 1655;
  • a Carta de 1665;
  • a Carta de 1667, que terá influenciado, possivelmente, o desenho holandês da Terra Nova;
  • a Carta de 1675;
  • a Carta de 1676, que tal como a de 1655, representa o Atlântico e o Índico, na qual estão marcadas as posições de um navio, o que indica que foi usada para a navegação;
  • a Carta de 1677;
  • a Carta de 1679, que foi usada na Conferência de Badajoz;
  • um fragmento de uma Carta de 1681, existente em Évora.


Cortesia de doportoenaoso
Para além das cartas atrás referidas, vários Atlas são da sua autoria: o Atlas de África, de 1655, que se encontra em Paris, é bastante preciso e o seu levantamento foi feito por ordem Real. Esta obra de 62 folhas e 29 cartas foi usada para publicações francesas; o Atlas do Brasil, de 1666, com 31 cartas, encontra-se no Ministério das Relações Exteriores do Rio de Janeiro; o Atlas de c. de 1666 contém 29 cartas, fez parte do códice de Diogo Barbosa Machado, Mappas do Reino de Portugal, na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. É muito semelhante às outras obras deste autor, mas não está assinado; um Atlas de c. de 1675, composto por 32 cartas, que pertenceu ao Cosmógrfo-Mor Manuel Pimentel.



Os quatro Atlas são muito semelhantes, abrindo com uma carta geral do Brasil, seguindo-se depois as particulares. João Teixeira Albernaz II segue em geral o padrão desenhado por seu avô, João Teixeira Albernaz I». In Augusto Quirino de Sousa, Instituto Camões.

Cortesia de Instituto Camões/JDACT

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Filipe Folque: Um grande impulsionador da Cartografia em Portugal. Carta Topográfica da Cidade de Lisboa

Portalegre
(1800-1874)
Cortesia de igeo.pt/instituto
Filipe de Sousa Folque, foi um general de divisão, nascido na cidade de Portalegre. Assentou praça voluntariamente na Armada como aspirante de piloto, sendo mais tarde sido promovido a oficial. Estudou  na Universidade de Coimbra onde doutorou em Matemática. Foi nomeado Director das Obras do Rio Mondego e, em 1827, Ajudante do Observatório da Universidade de Coimbra. Em 1833 foi transferido para o Exército, sendo promovido a 1.º tenente adido ao Real Corpo de Engenheiros, onde fez toda a sua carreira militar.

Ainda decorria a Guerra Civil entre Liberais e Absolutistas, quando em 1833, começou a trabalhar na Comissão para os Trabalhos de Triangulação Geral e Levantamento da Carta Corográfica do Reino (Ministério da Guerra). Em 1852, em pleno período da Regeneração, chefiou a Comissão Geodésica e Topográfica do Reino que deu lugar a uma Direcção-Geral de Geodésica e Topográfica do Reino. As suas competências e designações foram-se alterando ao longo dos anos e, no final da sua vida Filipe Folque era Director-Geral dos Trabalhos Geodésicos, Topográficos, Hidrográficos e Geológicos do Reino.

Além de grande impulsionador da Cartografia em Portugal, colocando-a ao nível do que de melhor se fazia na Europa (como foi pública e internacionalmente reconhecido por sucessivos prémios), foi responsável pela adopção dos novos métodos de reprodução e divulgação da mesma, quer seja com a contratação do Mestre polaco Jan Lewicki para introdução da Litografia na Cartografia portuguesa.
Em termos de grandes marcos da cartografia nacional, é responsável:
  • Levantamento da Carta Geral do Reino ou Carta Corográfica de Portugal na escala 1: 100.000 (não obstante não ter tido tempo para assistir à sua conclusão, com a publicação das últimas folhas);
  • Carta Topográfica da Cidade de Lisboa, na escala 1: 1.000, em 65 folhas manuscritas e coloridas, que permitiram a elaboração da excelente Carta de Lisboa, litografada, na escala 1: 5.000;
  • Plano Hidrográfico da barra do Porto de Lisboa, na escala 1: 10.000, entre muitos outros trabalhos.


Dois exemplos da Carta Topográfica da Cidade de Lisboa
Cortesia de diasquevoam (Jorge Lima)
Com a criação da Escola Politécnica de Lisboa foi nomeado Lente de Astronomia. Foi mestre de Matemática dos filhos da Rainha D. Maria II e acompanhou estes, D. Pedro V e seu irmão Luiz, Duque do Porto (mais tarde Rei D. Luiz I) nas duas viagens que estes efectuaram à Europa em 1854 e 1855, já com a patente de Brigadeiro. Social e politicamente muito activo, foi deputado pelo círculo de Portalegre e de Lisboa.

Ainda em 1834, foi feito Sócio efectivo da Academia Real das Ciências de Lisboa, de que veio a ser Director de classe, em 1850. Lente jubilado da Escola Politécnica de Lisboa e da Escola do Exército, e devido aos seus grandes conhecimentos musicais (exímio flautista), colaborou activamente com Almeida Garrett na fundação do Conservatório Nacional. Escreveu várias obras científicas, que serviram de base a muitos estudiosos da matéria:
  • Memórias sobre os trabalhos geodésicos executados em Portugal;
  • Continuação das Memórias sobre os trabalhos geodésicos em Portugal;
  • Dicionário do Serviço dos trabalhos geodésicos e topográficos do Reino;
  • Instruções pelas quais se devem regular os Directores e Oficiais encarregados dos trabalhos geodésicos e topográficos, seguidas da descrição e rectificação do Teodolito;
  • rabalhos geodésicos do Reino;
  • Tábua para determinar a influência do erro dos ângulos sobre o cálculo dos lados do triângulo;
  • Tábuas para o cálculo trigonométrico das cotas de nível;
  • Tábuas para o cálculo de redução do centro;
  • Tábuas para o cálculo das distâncias à meridiana;
  • Colecção de notícias para a História e Geografia das Nações Ultramarinas e muitas outras obras...