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sábado, 30 de julho de 2016

O Clube do Adultério. Tess Stimson. «Deixa-me falar com ela e perguntar: qual é que ela sugere, postulo. Não sejas tolo, Nicholas. Tu é que disseste que ela estava a insistir... Há mais de uma maneira de insistir em relação a qualquer coisa»

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«(…) Pão-de-ló de chocolate e laranja aromatizado com baunilha e raspa de laranja e limão ou bolo axadrezado de alperce com cobertura de chocolate?, pergunta a Mal, sem esperar que eu fale. Consigo perceber pelo tom de voz sufocado da minha mulher que tem o auscultador do telefone preso entre o queixo e o peito e que está, sem dúvida, a bater qualquer coisa de fazer crescer água na boca, enquanto falamos. Posso permitir-me indagar se... Céus, Nicholas, não sejas tão pomposo, diz a Mal com vivacidade. Não estás no tribunal agora. O teu bolo de aniversário, como é óbvio. A Metheny insiste em acabá-lo esta tarde, antes de chegares a casa. Sorrio com a referência à minha filha mais nova, com a qual tenho em comum o dia de aniversário, os dedos dos pés anormalmente compridos e um estranho gosto por gelado de pistácio. Tinha esperanças de virmos a partilhar muito mais, mas a ecografia demonstrou ser muito exacta e o meu muito esperado rapaz e potencial companheiro de pesca e críquete acabou por ser uma surpreendente terceira menina. Como prémio de consolação, deixaram-me dar-lhe o nome do meu herói de toda a vida, o guitarrista de jazz Pat Metheny.
Deixa-me falar com ela e perguntar: qual é que ela sugere, postulo. Não sejas tolo, Nicholas. Tu é que disseste que ela estava a insistir... Há mais de uma maneira de insistir em relação a qualquer coisa, como deves saber. A sua voz doce assume, sem dúvida, um tom de cama, e sinto um súbito grito de ânimo nas minhas calças, à medida que vejo flashes espontâneos de imagens de coxas cor de caramelo, bem tonificadas, meias de seda e renda cor de café na minha imaginação. A feiticeira da minha mulher sabe bem o efeito que está a ter em mim, a julgar pelo riso que agora substitui o seu tom de voz sedutor. Seja como for, diz a cantar, não podes falar com ela ou deixa de ser uma surpresa. Eu dou-te a surpresa... Vá lá, não ia ser mesmo uma surpresa, pois não? És mesmo convencida, digo. O que te faz pensar que não estou a falar da última factura de impostos municipais? O que te faz pensar que eu não estou? Estás? Estou a falar de bolos, Nicholas. Vamos, decide-te antes que tenha de colocar duas velas no da Metheny, em vez de uma. Também vou ter direito a velas? Sim, mas não quarenta e três, senão o bolo derrete. Mulher cruel. Tu também vais ter quarenta e três um dia. Mas só daqui a seis anos. Agora, Nicholas. O pão-de-ló de chocolate e laranja, claro. Seria possível pedir raspas de chocolate amargo a acompanhar?
Sim. Metheny, tira o pé da tigela do papá, por favor. Obrigada. Como correu o caso da encantadora Sra. Stephenson? Sete dígitos, informo. Quase o dobro do último divórcio. Que maravilhoso. Eu podia pensar em divorciar-me. Oiço a minha mulher lamber os dedos e a minha erecção quase fica à vista por cima da secretária. Se eu achasse que conseguias obter sete dígitos com isso, querida, eu próprio tratava dos papéis por ti - proponho, gemendo para dentro, enquanto ajeito os testículos. Infelizmente, é impossível fazer omeletas sem ovos. Ah, antes que me esqueça: o Ginger telefonou da garagem, esta manhã, por causa do Volvo. Ele disse que arranjou não sei-quê desta vez, mas que não se vai aguentar muito mais tempo nas pernas. Ou deveria dizer rodas? A voz dela ecoa no meu ouvido, enquanto anda pela cozinha. Seja como for, ele acha que não vai ser capaz de tratar dele para a maldita inspecção, em Janeiro. Por isso, não há nada a fazer, tenho de arregaçar as mangas e acabar o 1ivro, receber o resto do adiantamento... Querida, eu penso que consigo comprar um carro novo para a minha mulher se ela precisar, interrompo, espicaçado. Às vezes parece que te esqueces que agora faço parte dos associados neste escritório, não tens necessidade nenhuma de dares cabo de ti a escrever livros de culinária nesta fase.
Eu gosto de escrever livros de culinária, diz a Mal tranquilamente. Oh, meu Deus, Metheny, não faças isso. Pobre coelho. Desculpa, Nicholas, tenho de ir. Encontramo-nos na estação. À hora do costume? Suprimo um suspiro de desespero. Pelo amor de Deus, Malinche, é a festa da reforma do William esta noite! Não me digas que te esqueceste! Ficaste de apanhar o das cinco e vinte e oito de Salisbury para Waterloo, lembras-te? Pois fiquei, concorda Mal, serena, não me esqueci mesmo, só não me lembrei por um momento. Espera um segundo...» In Tess Stimson, O Clube do Adultério, 2007, Publicações dom Quixote, LeYa, 2009, ISBN 978-972-203-792-4.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O Clube do Adultério. Tess Stimson. «Demasiada maquilhagem; mas tem boas pernas. Esbeltas, barriga das pernas bonita, tornozelos bem torneados. Mas não tem carne nos ossos e tem peito de rapaz»

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«O divórcio é um assunto difícil. Ainda mais, penso eu, quando a nossa cliente declara autoritariamente que todos os homens são uns canalhas e acabamos por ficar a remexer-nos desconfortavelmente no nosso assento, tentando que o nosso pénis passe despercebido. Nem todos os homens, sra. Stephenson, ouso dizer. A minha cliente ignora o meu sorriso cordial. Os seus olhos cinzentos movem-se rapidamente, com desdém, pelo meu escritório forrado a painéis de carvalho. O olhar dela pára, por momentos, na fotografia da minha mulher, numa moldura de prata, encostada ao mata-borrão de pele, em cima da minha secretária; a sua expressão de pena pela minha mulher coloca-me indubitavelmente junto dos infelizes cujos pais negligenciaram os detalhes legais antes de se deitarem juntos. Uma vez que acabo de garantir-lhe um acordo de sete dígitos extremamente generoso por parte do ex-marido, considero o seu desdém por todos os membros do meu sexo um pouco injusto. Ela põe-se de pé e eu levanto-me também, ajeitando a minha gravata de seda. Estende-me um braço magricela de tweed cor-de-rosa; a sua mão na minha parece um peixe molhado. É capaz de ter razão, sr. Lyon, diz secamente. Talvez sejam apenas os homens com quem caso. O perfume dela é pungente e excessivo: mijo de gato sintético. Demasiada maquilhagem; não consigo imaginar-me a beijar aqueles lábios vermelhos melados. É o tipo de mulher que se encontra toda esborratada nos lençóis de manhã, com a cara gravada na fronha, como no sudário de Turim. Mas tem boas pernas. Esbeltas, barriga das pernas bonita, tornozelos bem torneados. Mas não tem carne nos ossos e tem peito de rapaz. O meu sorriso profissional não se desmancha, enquanto a acompanho até à porta. Esforço-me por não julgar moralmente os meus clientes: distrai e não é produtivo. No contexto das leis do divórcio não há lugar para emoções e sentimentalismos; já temos suficientes por parte dos nossos clientes. A minha mulher, como é evidente, sendo mulher, permite-se discordar. Eu considero-me meramente objectivo. A Malinche, todavia, afirma que a minha verdade brutal, como ela emotivamente lhe chama, é o mesmo que julgar a pele de uma mulher apenas à cruel luz do dia, em vez de ser à suave luminosidade do fogo. Não consigo perceber exactamente o que quer dizer. A minha cliente pára subitamente à entrada; quase esbarro nela. Tem a sua cabeça baixa, como se rezasse, expondo vértebras suaves, pálidas, por baixo do seu denso e curto cabelo loiro. A nuca de uma mulher, tão vulnerável, tão quixotescamente erótica. Sempre pensei..., esperei, silenciando o choro, que ele mudasse de ideias. Sinto-me perdido. Sem dúvida que nunca pensei que esta mulher fosse obstinada. Ainda perto dos quarenta, já tinha arranjado um trio remunerativo de ex-maridos ricos, o que, apesar de todos os esforços de objectividade, leva a fazer determinadas suposições. Em suma: a última coisa que estava à espera era que o amor viesse à baila. Os ombros magros da mulher começam a tremer. Oh, meu Deus. Sou um inútil nestas situações. Os meus braços crispam-se em vão. É completamente inapropriado abraçar, mas o que fazer se, Deus queira que não, ela começar a chorar descontrolada? Subitamente, ergue a cabeça e endireita os ombros, recordando-me a minha filha mais velha, Sophie, no seu primeiro dia de escola. Sem uma palavra, atravessa, determinada, a ampla secretaria e passa para lá do hall. Dou um pesado suspiro de alívio. Graças a Deus. Que raio foi aquilo? Quando vou a fechar a minha porta, Emma, a minha secretária, acena. Sr. Lyon, tem a sua esposa na linha dois. Pede desculpa por estar a incomodá-lo, mas queria saber se pode dar-lhe uma palavrinha rápida? Com certeza. Hesito à entrada da porta. Há qualquer coisa, não consigo exactamente... É o meu cabelo, sr. Lyon, diz a Emma pacientemente. Fui cortá-lo à hora de almoço. Uma pena. Gostava bastante dele comprido. Regresso à minha secretária e olho para a fotografia de Malinche, que tanto contribuiu para a compaixão irritante da minha cliente, enquanto levanto o telefone. Foi tirada há dois Natais atrás, irritantemente, pelo Kit, em vez de por mim, no momento em que sorrindo, olhou por cima do ombro, semidobrada, para tirar o peru do forno. Sinto um golpe de gratidão cada vez que olho para ela. É tolo, eu sei, mas, mesmo passados dez anos, ainda me entusiasmo com as palavras a sua esposa. Como é que eu consegui conquistar o coração desta mulher linda e extraordinária está completamente para além da minha compreensão. Sinto-me eternamente grato por tê-lo conseguido». In Tess Stimson, O Clube do Adultério, 2007, Publicações dom Quixote, LeYa, 2009, ISBN 978-972-203-792-4.

Cortesia de Pdom Quixote/JDACT