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sábado, 2 de setembro de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Principais cidades e vilas

«Os besteiros provinham da gente dos ofícios mecânicos, sapateiros, ferreiros, alfaiates, que maioritariamente laboravam nos centros urbanos. Assim sendo, o rol dos besteiros de 1421, publicado nas Ordenações Afonsinas, permite assinalar no mapa os principais povoados, o mesmo é dizer. permite-nos medir a força do povo miúdo, meão e melhor, isto é dos burgueses ou homens dos burgos. O rol tem servido também para calcular o número de portugueses. Seriam um milhão ou mais.

Apuraram-se 4906 besteiros, assim distribuídos: Alentejo 1700, Estremadura 1179,Beira 1077, Entre Douro e Minho 550, Trás-os-Montes 400. Comparando estes números com os 1000 besteiros ordenados pelas Cortes de Guadalajara de 1390 ou os 8000 do reino de França, infere-se que Portugal não descurava os perigos que vinham de Castela nem os riscos que vinham da política do Mar. As preocupações com a segurança levaram João I a criar, em 1392, um corpo de elite, os besteiros de cavalo.

Os números evidenciam o povoamento disperso característico do Norte, em particular da região de Entre Douro e Minho, e o povoamento agrupado do Sul. Indicam também que os lugares mais povoados se situavam na Estremadura, no Alentejo e no Algarve.

Por ordem decrescente e até 30 besteiros, as localidades ordenavam-se do seguinte modo: Lisboa 300, Évora 100, Coimbra 100, Santarém 100, Guimarães 100. Eram os principais centros urbanos do reino: um em Entre Douro e Minho, outro no Alentejo e três na Estremadura. mas Lisboa vinha muito à frente.

Num segundo patamar, ficavam Elvas 80, Beja 80, Setúbal 65, Torres Vedras 62, Almada 60, Braga 50, Guarda,50. O Porto, burgo por excelência, vivia do comércio marítimo, da pesca e da construção naval, mas só participava com 40 besteiros, ao lado de Olivença 40, Estremoz 40,Leiria 40, Tomar 40, Mértola 40.

No último patamar ficavam Valelhas 39, Faria e Rates 33, Pena Maior 32, Alcácer 30. Silves 30, Faro 30, Tavira 30, Serpa 30, Portalegre 30, Avis 30, Vila Viçosa 30, Monsaraz 34, Montemor-o-Novo 30, Abrantes e Punhete 30, Montemor-o-Velho 30, Ponte de Lima 30, Vila Real 30, Terra de Chaves 30, Bragança 30, Pinhel 30, Covilhã 30, Viseu 30. Lafões 30, Castelo Branco 30.

Como comarca, o Alentejo vinha muito à frente: 1700 besteiros contra 1179 da Estremadura onde se situavam três dos centros urbanos mais populosos. Nalgumas províncias, as cidades e vilas eram ilhas num mar de ruralidade, dominado pela fidalguia e os senhores eclesiásticos.

Os campos

A massa da população dedicava-se à agricultura e à criação de gado. Havia grandes diferenças entre o Norte, o Centro e o Sul. Nas Cortes de Lisboa de 1427, dizia-se que em Entre Douro e Minho e na Beira não haveria cavões e jornaleiros por dinheiro. Tal não significava que não existissem, desde há muito, cabaneiros, homens que viviam do trabalho braçal, em boa parte pago em géneros, e que não tinham mais que uma cabana. Significava que aí era predominante a economia assente em casais, adubados com o suor familiar e exauridos pela renda feudal». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos,

quinta-feira, 31 de agosto de 2023

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo…»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

Avanço do mundo mercantil

«João I estabeleceu o imposto da sisa, tornando-o obrigatório para o comprador e o vendedor, fosse fidalgo ou clérigo. Democratizava assim o imposto e a vida pública. Fernão Lopes contabiliza o rendimento do rei em oitenta e dois contos de reais. Os direitos do reino contribuíam com vinte e um milhões, ao passo que o rendimento das sisas subia a sessenta milhões de reais, ou seja, a três quartos. O mundo mercantil ganhava um papel crescente.

Uma companhia de mercadores, formada pelo italiano Persifal e por Rui Garcia Lisboa e Martim Afonso Dinis e Lourenço de Sousa, do Porto, emprestaram ao rei 25 000 coroas de ouro para o casamento da sua filha Beatriz. O reembolso atingirá a soma de 11 535 000 libras. Em 1432 o dote de Isabel de Portugal, duquesa de Borgonha, subirá para 154 000 coroas de ouro, pagas por Pedro Eanes, feitor do rei e mercador português na Flandres.

Vasco Anes, tesoureiro-mor, recebeu do rei em usofruto pelo menos quatro naus e duas barcas. Podia fretar, pôr mestres, escrivães. mercadores, marinheiros, receber o dinheiro dos fretes, os ganhos e empregá-los em mercadorias, tomar contas aos mestres e dar-lhes quitações, sem que lhe peçam contas. Grande depositante na Comuna de Florença, o rei João tornava-se grande armador e encarregava do negócio o seu feitor Vasco Anes. O mundo novo ganhava outro fôlego.

Uma carta régia de 1426 determinava que qualquer pessoa de Lisboa ou de outro lugar que compre pão na Beira, em Entre Douro e Minho ou em Trás-os-Montes, uma vez que não seja pão da cidade do Porto ou do seu termo, pode carregá-lo do Porto para Lisboa, porquanto nós temos ordenado que todos os mantimentos se corram de umas partes para outras por todos os nossos reinos.

A estabilidade pública dependia do preço e da abundância do pão. Na década de setenta do século XIV, os preços do alqueire de trigo aumentaram e continuaram em ascensão até 1384. Baixaram, com algumas excepções. até ao final do século XV. A fome consumiu os lisboetas durante o cerco castelhano de 1384. Houve escassez de pão em 1391 e em 1394. Em 1399, a vereação de Lisboa contratou com os mercadores estrangeiros a troca de sal por pão.

Nos anos de 1401 e 1411 muitos castelhanos atravessaram a fronteira em busca de alimento. Nuno Álvares Pereira socorreu-os com o trigo dos seus celeiros. No ano de 1418 perderam-se as colheitas. E em 1422 e 1427 Lisboa e o seu termo recolheram o ouro necessário para mandar vir trigo de fora do reino». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

 Cortesia de ECaminho/JDACT

JDACT, António Borges Coelho, Ceuta, Cultura e Conhecimento, História, Descobrimentos, 

No 31. Largada das Naus. António Borges Coelho. «… o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«Os actos mais importantes da governação foram decididos mediante a audição do verdadeiro parlamento nacional: pedidos para a guerra, leis sobre os salários e sobre política económica, queixas dos fidalgos, do clero e dos concelhos, estabelecimento das casas dos infantes, abusos dos funcionários régios, cláusulas do tratado de paz.

Nas Cortes de Lisboa de 1389, João I estabeleceu um pacto com os concelhos: sempre que se deslocassem para guerra de fronteira, as tropas dos municípios receberiam soldo como os fidalgos.

Nas Cortes de Évora de 1408, as três ordens do reino concordaram em contribuir para montar as casas dos infantes Duarte, Pedro e Henrique, mediante o terço do rendimento das sisas, mas a recolha do dinheiro e a compra dos bens ficavam nas mãos dos homens bons, escolhidos nessas Cortes pelos concelhos. O próprio rei confirma a força deste parlamento quando responde à crítica dos fidalgos: não pode deixar de descontar o rendimento das terras da coroa no pagamento das suas quantias, porque assim. em suas Cortes fora ordenado.

Em 1386. o rei João revogou as medidas que proibiam a exportação de mercadorias sem o pagamento da dízima em prata e sem prévio juramento de que trariam em retorno mercadorias de valor igual. Esta decisão incrementava a produção destinada ao mercado interno e à exportação.

O comércio de mantimentos e de armas e a defesa de Ceuta levaram a um incremento da construção naval e da marinharia. uma armada portuguesa auxiliou os ingleses de Henrique V na batalha de Azincourt. No cerco de Ceuta de 1418-1419, a armada de Granada não se atreveu a defrontar a frota portuguesa de socorro. Antes, nos tempos do monarca Fernando, os galiotes eram arrebanhados à força pelos campos e levados em baraços para as galés. Mesmo agora, segundo uma ordenação, datada de 1420, os homens válidos fugiam e desamparavam a terra. Uns pagavam para serem substituídos, outros perdiam os bens e fugiam.

A armação duma galé provocava sempre alvoroço. Tendo em mente estes factos, o rei considera errada a obrigatoriedade de servir nas galés e, de acordo com o seu conselho, liberta todos os marítimos dessa servidão. Os galiotes passarão a ser contratados mediante o pagamento de soldo, alguns metros de pano e a partilha nos despojos». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Largada das Naus. António Borges Coelho. «Nunca os concelhos intervieram tão activa e decisivamente na política nacional. Nos cinquenta anos em que João I governou, as Cortes reuniram-se vinte e oito vezes, mais vezes do que em todos os reinados dos séculos XIV e XV»

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Tempos de Boa Memória (1383-1433)

«A convulsão social, as guerras, a fome, a desvalorização brutal da moeda não ofuscaram a boa memória do rei João. Os sucessos obtidos no campo político e militar refundaram a independência do reino e criaram um capital mítico que rendeu até aos nossos dias.

Nos anos da revolução, as oportunidades de ascensão social permitiram que um escudeiro de quatro rocins, embora filho de mestre e neto de arcebispo, pudesse criar, quase do nada, o maior senhorio de Portugal. Um tanoeiro alçou-se a alcaide da cidade de Lisboa. Um cavaleiro mercador e corsário. filho e neto de mercadores, tornou-se rico-homem, capitão-mor do mar, alcaide-mor de Lisboa, conde de Abranches. na Normandia. e cavaleiro da Ordem da Jarreteira.

Lançaram-se dez pedidos gerais para as despesas da guerra; gastaram-se 280 000 dobras na conquista de Ceuta, 500 000 em casamentos, viagens, expedições às Canárias. descerco de Ceuta; armaram-se frotas; iniciaram-se obras monumentais como a do mosteiro da Batalha; a moeda desvalorizou, segundo Costa Lobo, 1109 vezes. A Coroa e a economia resistiram. Alguns reais de prata, cunhados nos dias da revolução, foram pendurados ao pescoço como talismã.

As queixas principais vieram dos fidalgos. Os senhorios recebiam a renda em dinheiro e deixavam uma parte maior dos excedentes nas mãos dos produtores. Com os excedentes animavam-se as feiras e o comércio. Por outro lado, os concelhos das cidades e das vilas que, de armas na mão e com o dinheiro da sua bolsa, sustentaram a parte maior da guerra, não se esqueceram de pugnar pela libertação dos tributos feudais que oneravam a produção e o desenvolvimento de uma economia progressivamente mercantil.

Assinado o tratado de paz em 1411, o Conselho Régio decidiu em ordenança um efectivo militar de 3200 lanças, assim distribuídas: Capitães 500, Escudeiros de uma lança 2360, Ordem de Cristo e Ordem de Santiago 100 cada, Ordem de Avis e do Hospital 80. Os escudeiros de uma lança subiam a mais de dois terços dos efectivos. O capitão e ex-juiz de Lisboa Antão Vasques comandara mais de 70 lanças, algumas de fidalgos de linhagem. Vemos bem de que lado social estava a força.

As Cortes

Nunca os concelhos intervieram tão activa e decisivamente na política nacional. Nos cinquenta anos em que João I governou, as Cortes reuniram-se vinte e oito vezes, mais vezes do que em todos os reinados dos séculos XIV e XV. Realizaram-se em dez cidades e vilas: à cabeça, Lisboa, Coimbra, Santarém, mas também em Viseu, Braga, Guimarães, Montemor-o-Novo e Estremoz». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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Largada das Naus. António Borges Coelho. «Esse projecto nascia da necessidade de firmar um pé fora, no esforço de segurar a independência política e de acalmar o medo de Castela. E da necessidade de dar emprego aos jovens candidatos a fidalgos»

 

jdact

«A palavra mercador, corrente na época, tinha contra si o episódio evangélico da flagelação dos vendilhões do templo e a condenação jurídica e moral dos empréstimos a juros por parte do Direito Canónico. Por isso, a palavra e a actividade do mercador se escondem por trás de outros vocábulos como homem bom, homem honrado, cidadão e com crescente frequência por trás de criado d’el-rei, escudeiro, cavaleiro e mesmo cavaleiro fidalgo.

Toda a sociedade portuguesa participou, como dissemos, e foi marcada pelo movimento da expansão marítima. Mas, socialmente, os grupos determinantes têm origem urbana, honrados ou náo.

São os que constroem barcos e navegam no Mar Oceano, os que aumentam em caudal as rendas do rei e pugnam pelo fortalecimento da Coroa, os que empregam e acumulam crescentes cabedais, mas que seriam excluídos da direcção nominal suprema.

Do ponto de vista das relações exteriores, a posse de Ceuta implicava a manutenção de um corpo militar permanente, calculado em cerca de três mil homens. Portugal era um cruzado militante. O papa abençoava o seu exemplo e esforço. Esta bênção aliviava a i pressão que pudesse ser exercida por príncipes cristãos, designadamente por Castela, e propagandeava os feitos e o poder militar do eino de Portugal.

A conquista de Ceuta envolveu também, desde logo, um projecto mais largo, o de criar um Portugal Além-Mar em África, ao menos o domínio de outras praças marítimas e ainda o assentamento nas ilhas descobertas e a descobrir. Esse projecto nascia da necessidade de firmar um pé fora, no esforço de segurar a independência política e de acalmar o medo de Castela. E da necessidade de dar emprego aos jovens candidatos a fidalgos.

Vale a pena enumerar a fardagem dos títulos que ostentava o rei de Castela, pela graça de Deus, rei de Castela, de Leão, de Toledo, da Galiza, de Sevilha, de Córdova, de Múrcia, de Jaen, do Algarve, de Algeciras e senhor de Biscaia e de Molina. Pelo seu lado. em 1410, o rei de Aragão estendia o seu domínio às ilhas Baleares, à Sardenha, à Sicília. João I era tão só rei de Portugal e do Algarve, a que juntava agora o título de senhor de Ceuta.

Com os seus navios e corsários, Ceuta controlou nos séculos XV e XVI a navegação que velejava pelo Estreito de Gibraltar. Tornou-se escola de milícia e modelo de arquitectura militar. Nos séculos XVI e XVII, responderá ao corso que flagelava as armadas portuguesas e espanholas que regressavam do Oriente, do Brasil, da costa africana e das Américas». In António Borges Coelho, Largada das Naus, História de Portugal, 1385-1500, Editorial Caminho, 2011, ISBN 978-972-212-464-5.

Cortesia de ECaminho/JDACT

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terça-feira, 28 de julho de 2020

Ciência e Experiência nos Descobrimentos Portugueses. Luís Albuquerque. «Como consequência dele, os périplos da Antiguidade, já então chamados portulanos, passaram a acrescentar às distâncias que separavam dois portos o rumo (magnético) que o piloto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Antecedentes da Náutica dos Descobrimentos
A Náutica Medieval
«Desde a Antiguidade que os homens do mar, responsáveis pelo êxito das navegações, criaram o hábito de registar por escrito as indicações consideradas importantes para assegurar o êxito da viagem, caso viessem a repeti-la. Fazendo uma navegação quanto possível costeira, esses primitivos apontamentos dos pilotos e navegadores, não obstante o seu grande interesse histórico, fornecem um pequeno número de dados. Lendo, por exemplo, o Périplo do Mar Eriteu, redigido em grego por autor desconhecido antes de iniciada a nossa era, verifica-se que esse texto aponta o nome dos principais portos do Mar Vermelho, indicando quase sempre a distância (em estádios) que separa entre si dois ancoradouros consecutivos, e ainda algumas breves informações sobre os habitantes (ictiofágios e agriofágios, por exemplo) que viviam nas terras circunvizinhas desses lugares marítimos. Mas os esclarecimentos prestados são, na maioria dos casos, sucintos e imprecisos; é certo que, excepcionalmente, podem descer a alguns pormenores de interesse, mas nunca apontam o rumo pelo qual o navio devia ser encaminhado, como na Idade Média se leria nos textos análogos; tal falta é apenas significativa de que a navegação não se fazia nesse tempo por rumos geográficos ou magnéticos; o piloto impunha à sua embarcação, como já ficou dito, uma derrota à vista de costa, e isso dispensava qualquer tipo de orientação geográfica, que se tornaria mais tarde indispensável, quando tais condições se alteraram. Há testemunhos suficientes, embora de diversas origens, de terem existido vários textos deste tipo; eles constituem os mais antigos livros de náutica de que temos conhecimento, sendo de salientar que não há naqueles que nos chegaram em fragmentos ou integralmente outros dados suplementares que pudessem auxiliar o piloto na sua tarefa. Para citar um exemplo, direi que nenhum desses textos alude a qualquer determinação de latitude, que aliás seria absolutamente inútil para a arte de navegar a que se recorria; é certo que se tem sustentado ter Pytheas de Marselha medido esta coordenada geográfica umas quatro vezes nas suas deambulações oceânicas, que o teriam levado até a ilha de Tule, às costas da Noruega e ao Báltico; Laguarda Trias estudou-as cuidadosamente, mas a verdade é que tais pretendidas observações foram todas feitas em terra e em lugares desconhecidos (apenas de uma delas se sabe que teve lugar em Marselha); o seu interesse para a náutica é, por conseguinte, nulo ou muito longínquo. As navegações mediterrânicas da Idade Média, seriam bastante mais exigentes à medida que se intensificaram, e sobretudo depois que os pilotos começaram a utilizar a agulha marear; este acontecimento de que se não sabe exactamente a história, verificou-se, o mais tardar, no decorrer do século XIII (embora existam em autores europeus referências às propriedades da agulha magnetizada anteriores a essa data). Como consequência dele, os périplos da Antiguidade, já então chamados portulanos, passaram a acrescentar às distâncias que separavam dois portos o rumo (magnético) que o piloto devia adoptar para se dirigir de um a outro.
Dois outros aperfeiçoamentos da náutica aparecem também antes do século XV: a carta de navegar (a que modernamente se deu o nome de carta-portulano, por estar intimamente relacionada com os textos náuticos designados por portulanos) e a toleta ou raxon de marteloio. Quanto à carta, e a despeito de muitas especulações que em torno do seu traçado têm sido feitas, continuo persuadido que ela de facto surgiu exclusivamente como desejo de dar expressão gráfica aos portulanos; quer dizer que, em minha opinião, não seguiu qualquer sistema de representação matemática, como muitos historiadores pretenderam, por vezes relacionando-a sobre o muito falado sistema de projecção de Marino de Tiro, de que não há notícias satisfatórias; um estudo atento das cartas deste tipo mostra, com efeito, que nelas se utilizaram os elementos que estavam escritos nos portulanos, e que foram transpostos para o desenho tal como hoje ainda se faz um levantamento topográfico expedito, para representação de áreas restritas; é claro que, dada a extensão das áreas representadas na carta portulano, ela apresentava-se geograficamente errada; mas cortada de linhas de rumos magnéticos (inicialmente em números de dezasseis, que foi dentro de pouco tempo duplicado), ou seja, exactamente os rumos seguidos pelos pilotos, adaptava-se perfeitamente à náutica, quer dizer, estava nauticamente correcta. Tanto assim é que os seus erros só vieram a ser notados pelos seus utilizadores quando a arte de navegar passou a recorrer a outros dados que entravam em conflito aberto com o traçado da carta.
Os dois dados até aqui referidos saíram da prática dos pilotos; os portulanos correspondiam ao mais elementar cuidado de preservar experiência vivida, e não envolviam, de início (na sua fase de périplos) mais do que o cálculo estimado das distâncias percorridas (com tendência para arredondar os números para as centenas, nos textos da Antiguidade) e a leitura, feita pela bússola, do rumo adoptado; o desenho da carta, embora exigisse já uma técnica (e ficaram célebres as escolas mediterrânicas de Génova, Veneza e Maiorca), não implicava mais do que alguns conhecimentos muito elementares de geometria». In Luís Albuquerque, Ciência e Experiência nos Descobrimentos Portugueses, Conselho da Europa, 1983, Biblioteca Breve 73, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Livraria Bertrand, Instituto Camões.

Cortesia BibliotecaBreve/JDACT

domingo, 5 de abril de 2020

Conferência. Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon). Oliveira Martins. «Por los datos conocidos del tiempo del rey Fernando, el tráfico marítimo de Lisboa no debía bajar de 250 á 300 mil toneladas. Era ya un gran puerto comercial»

jdact e wikipedia

Ateneo de Madrid. Navegaciones. 24 de Fevereiro de 1892
Señores:
«(…) Y entre las varias empresas navales de estos tiempos hay una que muy especialmente llama nuestra atención. Es la que por dos veces, en los tiempos del rey Alfonso IV, se extendió en el mar hacia el Sur en demanda de las Canarias. Es este el primer viaje de descubrimiento, si es que acaso el conocimiento de la existencia de las Canarias alguna vez se llegó á obscurecer del todo. Sabemos de esa expedición, ó por lo menos de su proyecto, por la carta del Rey de Portugal á Clemente VI. Y para concluir esta primera parte de nuestro discurso, ya que asistimos al desenvolvimiento embrionario de la marina portuguesa, réstanos ver ahora lo que era Portugal marítimo en la época inmediatamente anterior al período de las navegaciones.
Por los datos conocidos del tiempo del rey Fernando, el tráfico marítimo de Lisboa no debía bajar de 250 á 300 mil toneladas. Era ya un gran puerto comercial. Era ya una gran ciudad de muchas y desvariadas gentes, como dice Fernán Lopes. Había allí estantes y residentes de varias tierras y casas comerciales de multiplicadas naciones: genoveses, lombardos, aragoneses, mallorquines, milaneses, corsos, vizcaínos, disfrutando privilegios y exenciones de que los reyes no eran avaros. Los navios iban y venían de Lisboa á Inglaterra, á Italia, cruzando por el mar del Norte y por el Mediterráneo, llevando los productos agrícolas nacionales y trayendo tejidos y manufacturas. Ahora bien; cuando nosotros pensamos, señores, en los horizontes nuevos que, por un lado las Cruzadas, por otro y principalmente el contacto íntimo con los moros, en la larga epopeya de la reconquista, abrieron al instinto del comercio; cuando sabemos cómo los árabes habían llenado la España de ricos productos del Oriente, y que el lujo de las cortes moriscas de Sevilla y Granada era imitado en las cristianas; cuando observamos el pensamiento definido de fomentar el comercio marítimo, y cuando asistimos á la creación de la marina nacional, no podemos dejar de ver en todo esto los impulsos aun indefinidos, aun inconscientes, para un destino que está próximo á florecer nítidamente en el espíritu heroico del infante Enrique, encarnación del alma portuguesa.
Es de fines del siglo XIV la legislación naval del rey. Fernando, cuerpo en el que encontramos punto por punto instituciones á que hoy vuelven las naciones que están al frente de la marina del mundo: tanto es verdadero el dicho salomónico, al que es menester aumentar que la razón crítica nada descubre que la espontaneidad plástica del instinto no tuviese anteriormente adivinado.
La legislación del rey Fernando incluye la franquicia del abanderamiento, para sustituir, á los textos de las viejas crónicas, los términos de los presentes días. Instituye los premios de construcción y navegación, siempre que los navios obedezcan á ciertas reglas que permitan armarlos en guerra, evitando así al Tesoro el onus v á la nación el peligro de los fletes de navios extranjeros. Crea la estadística naval y la inspección técnica, para evitar las averías y naufragios. Establece, por último, en Lisboa y Oporto, dos Bolsas marítimas, ó asociaciones de armadores, que funcionan como sociedades de seguros mutuos.
Yo querría, señores, exponer al detalle los rasgos particulares de esta legislación fernandina, ya porque su influencia en los destinos ulteriores de la nación es indudablemente enorme; ya porque, exponiéndolos, se vería cuánto la Historia se repite y cómo las instituciones á las que los pueblos marítimos de hoy van á buscar amparo y protección, son exactamente idênticas á las que en el siglo XIV dieron á la marina portuguesa el vigor necesario para emprender sus grandes hazañas. No me permite, no obstante, el tiempo, ni el lugar, entrar en los pormenores de leyes de las que apenas expuse el pensamiento sumario. Sí, los Reyes eran banqueros y legisladores fecundos en sentido proteccionista; eran más todavía. Eran, á la manera de los príncipes italianos, comerciantes, reservando para sí propios la exclusiva de ciertos géneros». In Oliveira Martins, Conferência, Descobrimentos dos Portugueses (anteriores a Colon), Navegaciones, 1892, Ateneo de Madrid, Establecimiento tipográfico Sucesores de Rivadexeyra, Impresores de la Real Casa, 1892.

Cortesia de ETSRivadexeyra/JDACT

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «A gradual ocupação do litoral resultante da expansão da colonização portuguesa reduziu paulatinamente o número de enseadas acessíveis aos navios franceses na Costa do Pau-Brasil»

jdact

A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) As tentativas francesas de criar colónias no Novo Mundo setentrional traduziram-se em rotundos fracassos. No decurso da sua terceira expedição (1541-1542), Jacques Cartier fundou o forte de Charlesbourg-Royal, nas imediações da embocadura do rio de São Lourenço, mas apenas conseguiu resistir dez meses, tendo iniciado a viagem de regresso à Europa em Junho de 1542. Francisco I nomeara, em 15 de Janeiro de 1541, o protestante Jean François de La Rocque, senhor de Roberval, tenente-general do Canadá, Saguenay e Ochelaga. As dificuldades de financiamento e de recrutamento obrigaram o rei e o dirigente da empresa a alistar nas prisões grande parte do contingente de 150 homens e mulheres. A frota de Roberval partiu de La Rochelle em Abril de 1542 e alcançou o seu destino em Agosto. Os colonos franceses reocuparam o estabelecimento fundado por Cartier, rebaptizado de France-Roy, mas não tiveram melhor sorte do que os seus antecessores, pois foram obrigados a retornar à Europa em Setembro de 1543. A oposição dos iroqueses, a dureza das condições climatéricas e o escorbuto dizimaram a maioria dos membros das expedições e contribuíram para o seu insucesso.
A continuada presença de navios franceses nas águas brasílicas constituía, ainda em 1548, um dos obstáculos que mais seriamente afectava o desenvolvimento da colonização lusitana. Em Maio desse ano, o alcaide de Igaraçu informava João III da passagem pela costa pernambucana de numerosas embarcações gaulesas destinadas à região dos potiguaras (que se estendia da Paraíba ao Cearát) e relatava a ocorrência de recontros navais com os franceses.
Luís Góis, residente na vila de Santos, alertava o rei, também em Maio de 1548, para o facto de a Coroa de Portugal correr o risco de perder o Brasil e os seus súbditos as vidas e as fazendas, devido às devastações provocadas no litoral vicentino pelas armadas gaulesas, compostas por sete a oito navios cada, que, desde 1546, demandavam anualmente o Cabo Frio e o Rio de Janeiro. O antigo companheiro de Martim Afonso instava o monarca a fornecer apoio naval aos moradores de São Vicente (mais de 600 portugueses e de 3 000 escravos) para, antes que fosse tarde de mais, expulsar os instrusos daquelas paragens.
Uma análise da conjuntura internacional em 1548 revelava a existência de sérios riscos para a manutenção da soberania lusitana sobre a totalidade do território brasílico. O falhanço das tentativas francesas de fixação no Canadá, bem como a cessação da guerra franco-espanhola criaram condições favoráveis para que o novo rei de França, Henrique II (1547-1559), apoiasse os anseios expansionistas dos seus súbditos normandos e bretões. Apesar de as negociações luso-francesas terem evoluído favoravelmente e permitido que o sucessor de Francisco I concordasse com o projecto de um duplo tribunal de arbitragem, que funcionaria simultaneamente em Paris e Lisboa, para dirimir os conflitos marítimos entre as duas Coroas, João III não nutriria grandes ilusões sobre a política que adoptaria o monarca gaulês relativamente ao Brasil logo que subjugasse a (revolta da gabelu, imposto sobre o sal) na Aquitânia e que terminasse a guerra com Eduardo VI de Inglaterra (1541-1553).
A gradual ocupação do litoral resultante da expansão da colonização portuguesa reduziu paulatinamente o número de enseadas acessíveis aos navios franceses na Costa do Pau-Brasil. As crescentes dificuldades encontradas pelos armadores norrnandos e bretões para manter as linhas comerciais com a América do Sul levaram-nos a envidar esforços no sentido de aliciar Henrique II a adoptar uma política oficial de apoio à penetração gaulesa nas paragens tropicais, até porque as várias tentativas de criação de estabelecimentos no hemisfério setentrional (Canadá), empreendidas pelo seu antecessor, haviam fracassado». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «Em Outubro, chegou ao local uma caravela que transportava Paulo Nunes, investido por João III no cargo de capitão de Pernambuco»

jdact

A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) A embarcação do almirante gaulês, equipada com 18 canhões e transportando 120 homens, atingiu o litoral pernambucano em Março de 1531, altura em que os dois grupos de combate da esquadra portuguesa se encontravam a norte e a sul da região nordestina. Os expedicionários franceses, dirigidos por Jean Duperret, atacaram, saquearam e arrasaram a feitoria lusitana, que contava apenas com seis portugueses e com índios amigos (tabajaras), e construíram um novo entreposto fortificado na ilha de Santo Aleixo, território dos seus aliados caetés, defendido por uma guarnição de 60 a 70 homens. Aquela nau, após ter sido carregada com 5 000 quintais de pau-brasil, 300 de algodão, 3 000 peles, 600 papagaios e grande número de símios, levantou ferro de Pernambuco com destino ao porto de origem.
Na viagem de regresso ao reino, iniciada a 22 de Maio de 1532, a flotilha de Pero Lopes Sousa, que compreendia a nau Nossa Senhora das Candeías, uma das três unidades apreendidas em 1531, e o galeáo São Vicente, detectou na ilha de Santo Aleixo, no início de Agosto, dois navios gauleses, tendo afundado uma das naus e apresado a outra. O forte, dirigido pelo senhor de La Motte, foi atacado, tendo-se a guarnição rendido depois de dezoito dias de bombardeamento. Como represália por uma tentativa de assassinato do capitão português, foram enforcados La Motte e vinte dos seus homens. Depois de ordenar a destruição do estabelecimento gaulês, Pero Lopes dirigiu a reconstrução da feitoria portuguesa, que foi fortificada, no sítio posteriormente designado dos Marcos, na margem direita do canal de ltamaracâ, tendo designado Vicente Martins Ferreira e o bombardeiro Diogo Vaz para as funções, respectivamente, de comandante e condestável. Em Outubro, chegou ao local uma caravela que transportava Paulo Nunes, investido por João III no cargo de capitão de Pernambuco.
A esquadra, acrescida da nau entretanto aprisionada, zarpou do local a 4 de Novembro, tendo aportado a Faro em Janeiro de 1533. O monarca, depois de ter recebido Pero Lopes em audiência, determinou que se encarcerassem os trinta franceses no Limoeiro, que os quatro reys da terra do brasil fossem bem tratados e vestidos de seda, que se anulassem as instruções transmitidas à armada de Duarte Coelho para destruir o forte gaulês em terras pernambucanas e, finalmente, que se procedesse à arrematação na praça lisboeta dos dois navios apresados. A nau marselhesa, que transportava uma carga de produtos brasílicos avaliada em 62 300 cruzados, não teve melhor sorte que a feitoria galo-pernambucana. Já se encontrava em águas mediterrânicas, após ter efectuado uma escala em Málaga, quando foi capturada, em Agosto de 1532, pela armada do Estreito, capitaneada por António Correia, e conduzida a Lisboa. O empreendimento americano do barão de Saint-Blancard redundou, por conseguinte, num completo insucesso.
A coroa gaulesa somente no reinado de Francisco I tomou a iniciativa de procurar ocupar uma parcela do continente americano, organizando, entre 1534 e 1542, quatro expedições com o objectivo de criar a Nova França. No início de 1534, a administração joanina tomou conhecimento de que em França se aprestava uma armada com destino à América. No porto de Saint-Malo, dois navios comandados por Jacques Cartier preparavam-se para partir para a Terra Novale». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

domingo, 16 de junho de 2019

Os Herdeiros do infante e o Governo dos Açores (1460-1485). João Silva Sousa. «O infante Henrique soube sempre como actuar, nem que para isso levasse o tempo que fosse necessário»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Pelas demandas, reconhecimentos e investimentos económicos e diplomáticos em portos da Costa de África, entre os infiéis mouriscos e pagãos da Guiné, não acusou nunca qualquer interesse, saindo-se bem distanciado dos propósitos do falecido Navegador, seu padrinho. Antes, em 1449, após Alfarrobeira, contra as hostes do Infante Pedro, o Africano, entrega a Fernando o cargo de Condestável do reino, reforçando, deste modo, o seu poder militar e alargando o campo de manobra do jovem infante (o cargo do Condestável encontrava-se, até então, nas mãos de Pedro filho do regente, que o recebera após a morte do tio do rei, João, em 1442 e contra a vontade do conde de Ourém, que, sendo neto de Nuno Álvares Pereira, se sentia com direito a ele). Melhor sorte não poderia caber-lhe do que esta, após ter demonstrado um superior afecto e respeito pelo seu soberano que, por acaso, era seu irmão mais velho.
Uma contínua prestação de favores de vassalagem, aliada a laços familiares tão próximos, permitiria a Fernando explorar a vertente liberal do régio irmão que o beneficiaria desmesuradamente. Criavam-se raízes do ódio que o futuro Príncipe herdeiro nutriria pelos primos, levando-o a cercear rente o poder económico ilimitado destes representantes da Casa de Viseu, possidentes de qualquer coisa que estaria bem perto de um terço do território nacional continental, numa alargadíssima jurisdição e representação, inclusivamente, de direitos e ex-monopólios do rei.
Como sabemos, os bens de raiz da posse e propriedade do infante Navegador eram de tipologias muito variadas: peças de cultivo e produção de cereais, vinhas e legumes, para além de diversos géneros muito específicos; áreas propícias a gado bovino e lanígero; árvores-de-frutos, a que, em geral, se associava a vinha, terrenos com estruturas transformadoras decorrentes do plantio das respectivas espécies. O infante  Henrique tinha-os da Coroa, a título vitalício ou hereditário, com o objectivo de vir a poder negociar com eles, como e quando quisesse, mesmo em casos em que necessitasse de uma autorização por parte do trono, a qual, de um modo geral, nunca lhe foi negada. Direitos e tributos enriqueciam as despensas e os cofres senhoriais. Com efeito, desconhecemos também qualquer indeferimento aos pedidos do Navegador, para negociar imóveis seus e de todos recolhia proventos a que dava os fins mais convenientes. Mesmo se transacções houvesse que pudessem vir a ferir a lei então vigente, o facto é que ele se viu dela sempre isento, dados os termos em que haviam passado os bens da Coroa para as suas mãos e aqueles pelos quais o soberano o instituía donatário e senhor exclusivo de indústrias várias: da lã à pesca, do coral ao sabão, passando pelo corso e pelo comércio africano, do Cabo Não em diante.
Foi, assim, que, primeiro, o vimos dispor de grande parte dos seus bens, se não mesmo da totalidade deles, porque esta seria, por certo, a sua intenção inicial, doando-os, por legado testamentário, datado de 1436, a seu afilhado e sobrinho. Mas o processo foi lento e cuidado. O infante Henrique soube sempre como actuar, nem que para isso levasse o tempo que fosse necessário». In João Silva Sousa, Os Herdeiros do infante e o Governo dos Açores (1460-1485), Arquipélago, História, 2ª Série, IV, Nº 2, 2000, FCSHUNova de Lisboa, Wikipedia.

Cortesia de FCSHUNova de Lisboa/JDACT

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto. António Cândido Franco. «A grandeza do Passado, Antero não o diz explicitamente mas é fácil depreendê-lo, teria sido justamente a de ter contribuído como mais nenhum outro momento para a criação do mundo moderno»

jdact

O Mar e o Marão
«(…) Esta ideia dum mar fechado, vem já dos primórdios da expansão marítima, talvez do tempo das bulas de Nicolau V e Calisto III ao Infante Henrique, respectivamente de 1454 a 1456, e é outro dos sinais da imperfeição do nosso passado, um sinal que diminui decerto a grandeza dessa unidade física da Terra, a que os portugueses tão esforçadamente se entregaram. Essa unidade da Terra constitui, aliás muito justamente, um dos factos da glória portuguesa, mas, não constitui no entanto, o facto maior da sua grandeza passada ou futura.
O hábito de olhar exclusivamente para o passado quando procura, por os feitos da nossa glória, pode-nos colher indevidamente, escondendo-nos as mais altas sínteses da nossa história.
A ideia exposta por Antero de Quental nas Conferências do Casino sobre a decadência dos povos peninsulares tem uma frase paradigmática que, pelas implicações, vale a pena transcrever:

Nos dois últimos séculos não produziu a Península um único homem superior que se posso pôr ao lado dos grandes criadores da ciência moderna: não surgiu da Península nem uma só das grandes descobertas intelectuais, que são a maior obra e a maior honra do espírito moderno.

Antero dizia isto, visando então como século de viragem do Passado para o Futuro. Sem sabermos muito bem a partir de que valores uma tal transição aconteceria, tanto mais que Antero fica nesse aspecto muito aquém de qualquer definição em profundidade e não apenas em extensão, podemos no entanto inferir que aquilo que designámos de Futuro teria tido então aí o seu início.
Dissemos que na história dos homens o Passado estabelece uma relação contrapolar ou antitética com o Futuro como na história das coisas elementares a Luz estabelece uma relação binária com a Sombra. Antero, e antes dele Herculano, parece ter resolvido esta relação binária estabelecendo uma contradicção estritamente linear entre Passado e Futuro, relação esta que me parece ter tido apenas em conta a extensão e não a profundidade do problema. Quero eu dizer, em termos de valorização de que o Passado foi para Antero de grandeza, ideia esta que se encontra já bem explícita nas palavras iniciais d’O Bobo de Herculano, enquanto que o Futuro, antítese do seu antecedente, de decadência. A Revolução, esse cristianismo do mundo moderno como Antero lhe chamava seria para ele, como idade de progresso e de desenvolvimento racional, a possibilidade de superar essa decadência.
O juízo de Oliveira Martins, formulado na História da Civilização Ibérica (1879) como resposta a Antero, não parece porém afastar-se no essencial, se descontarmos talvez a hipótese revolucionária de Antero, da ideia de que a história portuguesa estaria sujeita a um ciclo do Passado, que teria terminado nos meados do século XVII, e onde residiria toda a nossa grandeza, e a um ciclo do Futuro, onde se teria progressivamente afirmado, em relação a esse mesmo passado, a nossa decadência. A Sombra, face baça e lunar da existência, seguir-se-ia, na sucessão das coisas, à luz mais alta e mais real.
A grandeza do Passado, Antero não o diz explicitamente mas é fácil depreendê-lo, teria sido justamente a de ter contribuído como mais nenhum outro momento para a criação do mundo moderno. E o mundo moderno tem como definição aquele fundamento existencial e moral, bem português, que preside à unidade física da Terra e à unidade cultural e social da humanidade. É a unidade cultural do homem que funda e determina a existência mesma do mundo contemporâneo. Torna-se óbvia, deste ponto de vista, mesmo deixando passar em aberto, como Antero e Oliveira Martins fizeram, as nódoas escuras do Passado, a grandeza que ambos atribuem aos antigos portugueses. Uma tal grandeza, mesmo que tenha raízes diversas, é um dos consensos mais evidentes entre todos aqueles que desde há cem anos têm vindo a estudar a história portuguesa». In António Cândido Franco, O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto, Junho de 1989, IADE, Lisboa.

Cortesia de IADE/JDACT

O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto. António Cândido Franco. «… uma excelente parábola da situação interna de muitos cristãos inteligentes entre eles a do próprio Damião de Góis, ao tempo cronista do rei…»

jdact

O Mar e o Marão
«(…) Já em 1534, numa altura em que as explorações do Pacífico se encontravam ainda numa fase praticamente inicial e em que os portugueses não tinham ainda atingido as ilhas de Cipango, consideradas o outro extremo do orbe, Damião de Góis nos restitui, através das palavras do embaixador etíope Zaga Zabo, cristão da Abissínia, onde os Portugueses pensaram encontrar o desejado Preste João, ter sido aquele embaixador expressamente proibido em Lisboa de comungar, pouco depois da sua chegada. As razões que levaram a esta proibição prendem-se com o cristianismo etíope, necessariamente diferente daquele que se desenvolveu na Europa a partir de Roma, que foi logo depois das primeiras impressões e apresentações, considerado como heresia. Zaga Zabo, cristão pertencente a uma das linhagens mais antigas do ramo cristão, aquela que descendia directamente da evangelização pelos apóstolos, neste caso o apóstolo Filipe (que teria baptizado Indich, criado da rainha Candace) foi considerado excomungado. Lembremos ainda que o reino cristão da Etiópia tem origem em Meilech, filho da Rainha de Sabá, chamada Magueda, e Salomão, que reinava em Jerusalém. Segundo a lenda, com Meileeh a Arca da Aliança, sinal de eleição passou de Jerusalém para a Abissínia.
A história de Zaga Zabo, que parece ter funcionado como uma excelente parábola da situação interna de muitos cristãos inteligentes entre eles a do próprio Damião de Góis, ao tempo cronista do rei está reproduzida no opúsculo do mesmo chamado Fídes, Religio, Moresque Aethiopum Sub Imperio Precíosi Joannis, publicado em Lovaina em 1540.
Mas se Zaga Zabo foi assim tratado como cristão no Portugal dos Descobrimentos físicos, o padre Francisco Álvares, que escreveu um magnífico relato da sua estada na Etiópia entre 1520 e 1526, Verdadeira Informaçam das Terras do Preste João, e a quem é preciso prestar justiça, chegou a celebrar missa na própria tenda do imperador Lebna Dengel, tendo sido grande amigo do Patriarca copta da Abissínia o Abuna Marcos, que por sua vez não se importou de beijar por veneração, o pé do padre Francisco Álvares. Porém as manifestações de verdadeira fraternização religiosa são a excepção e em 1634, com a morte do imperador Susenyoso os jesuítas portugueses devido à radical e violenta intolerância com que tratavam os cristãos etíopes, eram obrigados a deixar para sempre o país pondo assim ingloriamente fim a uma das mais antigas esperanças portuguesas do ciclo português do Mar: o encontro e a aproximação com o reino, espiritualmente desenvolvido, do Preste João.
A gravidade da nossa intolerância religiosa foi tão grande que acabou por se tornar autêntica perseguição étnica, a pontos de se ter quase assistido, com o estabelecimento e o desenvolvimento do Santo Ofício (maldito), e um etnocídio generalizado na Península quer dos judeus quer dos muçulmanos. Este etnocídio porventura o facto mais grave de toda a nossa consciência de povo dominará já todo o início dum outro ciclo da nossa história, que está para o Mar como o Futuro está para o Passado. É provável que a estas três vertentes que diminuem a grandeza do nosso passado será possível acrescentar, por indicação do mesmo Bruno, uma outra vertente, que teria por centro a conhecida teoria do padre Serafim Freitas exposta no seu livro De Justo Imperio Lusitanorum Asiatico, publicado em 1625, em Valhadolid, em que se negava a liberdade, e se afirmava o exclusivo monopólio material português». In António Cândido Franco, O Mar e o Marão. Conferência-Manifesto, Junho de 1989, IADE, Lisboa.

Cortesia de IADE/JDACT

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «Uma das finalidades primordiais da expedição comandada por Martim Afonso Sousa (1530-1532) relacionava-se com o combate à penetração francesa no Brasil»

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A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) As causas do insucesso da embaixada de Allesgle terão residido, por um lado, no facto de a Coroa lusitana considerar claramente atentatória dos seus direitos, à luz dos tratados internacionais e das bulas papais, ou seja, da doutrina do Mare Clausum, a intromissão de navios estrangeiros nas águas e territórios reservados a Portugal, pelo que julgava inteiramente legítimo que as suas esquadras reprimissem os infractores. Por outro lado, a enviatura gaulesa ocorreu na fase final das negociações com Carlos V para a resolução do problema das Molucas, circunstância que permite formular a hipótese de João III ter protelado propositadamente a resposta a dar ao representante da França enquanto não estivesse definitivamente solucionado o contencioso com o imperador. A missão de Allesgle contribuiu para que o governo joanino se certificasse de que a França não desistiria pacificamente de disputar a Portugal o comércio do pau-brasil e a soberania da Província de Santa Cruz. A celebração do Acordo de Saragoça (Abril de 1529), que encerrou o conflito com a Espanha sobre a delimitação das esferas de influência ibéricas no Pacífico, libertou João III de uma preocupação fundamental, uma vez que estava em jogo o monopólio do comércio das especiarias da Ásia de Sueste, e permitiu-lhe enfrentar mais resolutamente a ameaça turca no Índico e os desafios franceses no Atlântico e no Brasil.
O sistema de capitanias de mar e terra e a via diplomática revelaram-se incapazes de produzir os resultados desejados, ou seja, a eliminação da presença francesa na América do Sul. A manifesta insuficiência desse modelo para garantir o incontestável domínio português sobre o Brasil induziu o círculo governativo joanino a ponderar, no final da década de vinte, a adopção de soluções mais eficazes destinadas a assegurar a soberania lusitana sobre a totalidade do território americano que lhe pertencia de acordo com o Tratado de Tordesilhas. No entanto, o monarca francês não lhe reconhecia legitimidade, exigindo ironicamente que lhe mostrassem a cláusula do testamento de Adão que o excluía da partilha do Mundo.
Uma das finalidades primordiais da expedição comandada por Martim Afonso Sousa (1530-1532) relacionava-se com o combate à penetração francesa no Brasil. Logo a 31 de Janeiro de 1531, a esquadra apresou uma nau nas imediações do cabo de Percaauri (actual Pontal da Boa Vista) no litoral pernambucano. Aquela embarcação dispunha de artilharia e tinha os porões a abarrotar de pau-brasil. Na mesma data, foi detectada e tomada, nas proximidades da ilha de Santo Aleixo (9º 30' S), outra nau carregada do mesmo produto. No dia 2 de Fevereiro, a caravela então comandada por Pero Lopes Sousa abalroou e capturou, após renhido combate, uma terceira nau, igualmente provida de canhões, munições de guerra e grande carga de pau-brasil. Concluídas essas operações e efectuado o reagrupamento, a arnada rumou para norte, com destino a Igaraçu, onde, em meados de Fevereiro, tomou conhecimento de que a feitoria régía tinha sido assaltada e saqueada, em Dezembro de 1530, por um galeão francôs, tendo o respectivo feitor, Diogo Dias, dirigindo-se para abaía da Guanabara.
A 19 de Fevereiro de 1531, Martim Afonso decidiu queimar uma das naus apreendidas e enviar outra a Lisboa, sob o comando de João Sousa, com os prisioneiros franceses, 927 quintais de pau-brasil e relatórios dirigidos a João III. No mesmo mês em que partiu de Lisboa a armada lusitana, zarpou de Marselha La Pèlerine (antiga nau portuguesa São Tomé, pertencente ao armador portuense André Afonso, que fora capturada por corsários franceses) com destino ao Brasil. Tratava-se de um navio armado por Bertrand d’Ornesan, barão de Saint-Blancard, comandante da esquadra francesa de galés no Mediterrâneo, que pretendia fundar uma feitoria e estabelecer um núcleo de colonos no Novo Mundo português. Já não eram apenas os homens de negócios da França atlântica, sobretudo da Normandia e da Bretanha, que se interessavam pela Província de Santa Cruz. Os lucros proporcionados pelo comércio dos produtos brasílicos começavam, então, a despertar o interesse de alguns círculos navais e mercantis da França mediterrânica, onde se localizavam os centros económicos mais dinâmicos daquela monarquia, designadamente Lião e Marselha». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «João III deu posteriormente instruções ao seu embaixador em Paris para que diligenciasse no sentido de requerer a punição de Angoulême, por ter transmitido uma versão deturpada das negociações e ter ocultado a cópia do auto que então se redigira»

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A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto
«(…) A existência de uma Casa de Valois relativamente poderosa no plano das forças terrestres tinha para a estratégia lusitana a vantagem de constituir uma ameaça latente à segurança das fronteiras imperiais, contribuindo, desse modo, para aliviar excessivas pressões espanholas sobre o Império Português, sobretudo numa conjuntura em que os contenciosos sobre as ilhas Molucas e a bacia platina se encontravam por solucionar. Daí que, apesar dos renhidos combates que se travaram entre portugueses e franceses no Atlântico e no Brasil, as duas monarquias tenham optado por nunca romper abertamente as hostilidades no âmbito europeu, já que receavam o imenso poderio territorial, económico e militar acumulado pelo imperador, bem como os prejuízos económicos que um total corte de relações acarretaria a ambos os reinos.
A França desejava continuar a exportar as suas produções para o espaço imperial português e a abastecer-se de mercadorias orientais em Lisboa. Portugal, por seu turno, pretendia que os súbditos de Francisco I não atacassem os navios que efectuavam as ligações com a feitoria da Flandres e que obrigatoriamente tinham de costear a região atlântica gaulesa. As informações provenientes de França de que uma armada de dez navios se aprestava para zarpar com destino ao Brasil levaram João III a investir Cristóvão Jaques nas funções de Governador das partes do Brasil, confiando-lhe a chefia de uma forte esquadra, formada por uma nau e quatro caravelas comandadas por experimentados capitães, designadamente Diogo Leite, Gonçalo Leite e Gaspar Correia, com a missão de aprisionar todas as embarcações estrangeiras que encontrasse na costa brasílica.
Os navios partiram de Lisboa, provavelmente no mês de Fevereiro de 1527, atingindo a feitoria de Pernambuco em finais de Abril ou inícios de Maio. Jaques tomou, então, conhecimento do ataque à nau San Gabriel, capitaneada por Rodrigo de Acuña, que se encontrava em reparação na embocadura do rio de São Francisco, perpetrado, no final de Outubro de 1526, por três navios franceses. Depois de ter mandado carregar a nau-capitânia de pau-brasil e de a despachar para Portugal com relatórios para o rei, Jaques decidiu empreender a busca das embarcações intrusas rumo ao Sul. Possivelmente em Julho, a esquadra lusitana surpreendeu, na Bahia, três naus bretoas. Após duro combate, foram afundados dois dos navios, apresado um terceiro e recuperada uma caravela portuguesa que havia sido capturada pela derrotada frota gaulesa. As tripulações francesas fugiram ou renderam-se, os pilotos e alguns membros da equipagem foram executados, tendo sido feito grande número de prisioneiros. Este grau de violência foi intencionalmente utilizado com o objectivo de dissuadir os mercadores normandos e bretões de continuarem a financiar o envio de navios ao Brasil, explicando-se ainda pelo facto de os comandantes das embarcações serem responsáveis pelo assalto do navio português destinado à Mina e pela morte de muitos dos seus tripulantes. Em Maio de 1528, o capitão-mor mandou regressar a caravela de Gonçalo Leite com uma remessa de pau-brasil e com cartas para João III. No final do ano, a armada de Jaques foi substituída por uma esquadra comandada por António Ribeiro que a 2 de Novembro já se encontrava em Pernambuco.
Os armadores dos navios franceses recorreram inicialmente ao conde de Lavall, lugar-tenente régio no ducado da Bretanha, e, posteriormente, ao próprio soberano no sentido de pressionar o rei de Portugal a compensá-los dos elevados prejuízos materiais e humanos provocados pela armada lusitana. Por carta-patente de 6 de Setembro de 1528, Francisco I cometeu ao rei de armas do título de Angoulême a incumbência de exigir ao governo de Lisboa uma indemnizaçáo no valor de 60 000 escudos para os seus súbditos bretões (Ivo Coadqungar, Francisco Guéret, Maturino Tournemouche, João Bureau e João Jamet), sob pena de mandar passar cartas de marca e represália contra os bens, navios e mercadorias dos portugueses até ressarcir integralmente aqueles homens de negócios das perdas sofridas.
O emissário do rei de França chegou à capital portuguesa a 18 de Janeiro de 1529, sendo.prontamente recebido por João III. Existem duas versões contraditórias sobre a forma como decorreram as negociações encetadas por Helies Allesgle na corte de Lisboa. O representante de Francisco I, através de um memorial datado de 3 de Julho desse ano, informou o seu soberano de que perïnanecera nove semanas na capital portuguesa sem que tivessem sido satisfeitas as reivindicações apresentadas, tendo-lhe o doutor Diogo Gouveia Sénior, um dos mais influentes conselheiros régios, retirado quaisquer esperanças na obtenção de sucesso para a sua missão. Todavia, aquele humanista ter-se-ia limitado a transmitir as deliberações oficiais, perfilhando a opinião de que se deveria proceder à libertação dos bretões para permitir o apuramento da verdade e o castigo dos franceses que afirmavam terem os homens de Cristóvão Jaques supliciado os prisioneiros.
O monarca lusitano comunicou a João da Silveira ter sugerido ao enviado francês que os queixosos recorressem aos tribunais portugueses que apreciariam o caso. O monarca João III deu posteriormente instruções ao seu embaixador em Paris para que diligenciasse no sentido de requerer a punição de Angoulême, por ter transmitido uma versão deturpada das negociações e ter ocultado a cópia do auto que então se redigira». In Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista. Maria Graça Ventura. «… da Casa de Austria, que ambicionava concretizar o projecto da monarquia universal, defendido por um dos mais influentes colaboradores de Carlos V, o chanceler Mercurino Gattinara»

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As Rotas
La Carrera de Indias: Inconvenientes y Ventajas del Sistema Español de Comunicaciones Transatlánticas
«(…) Por todo ello, y empleando una expresión marinera, el sistema de flotas hizo agua a mediados del siglo XVII. Lo realmente ilógico fue mantenerlo durante tanto tiempo. Por qué paso tal cosa? La razón debe buscarse, sin duda, en los intereses de los grandes comerciantes de la Carrera de Indias vinculados a los Consulados comerciales de Sevilla, México y Lima. Estos hombres preferían la certeza de unas ganacias perqueñas, pero relativamente seguras, a exponerse a cambiar sus tradicionales sistemas monopolistas y entrar en una carrera de competencia a base de barcos mercantes más agiles y que, aprovechandose de su superior velociad, pudiesen romper los bloqueos. Este problema en el que se mezclan motivos tanto económicos, como de pura mentalidad comercial, fue una importante rémora que evitó la reforma del sitema. Esta no se comenzó a encarar com decisión hasta mediados del siglo XVIII y fue avanzando lentamente. Primero se suprimieron los convoyes a Tierra Firme y la compleja ruta que
enlazaba el Peú con Espafra a través de Panamâ. Las expediciones a Nueva España, mucho más simples, resistieron algo más, pero al final tuvieron que sucumbir también ante la realidad de los cambios históricos. In Pablo Emílio Perez-Mallaina

A disputa luso-francesa pelo domínio do Brasil até 1580
Jorge Couto

Em Maio de 1505 retornaram a Honfleur os sobreviventes da nau L'Espoir, orientada por dois portugueses (Sebastião Moura e Diogo Couto) contratados em Lisboa a peso de ouro. O navio destinava-se ao Oriente, mas, devido ao insuficiente domínio das técnicas de navegação na região austral, acabou por arribar, em 1504, ao Brasil, tendo os seus tripulantes permanecido vários meses na região de Santa Catarina. Entre o reduzido grupo que, na viagem de regresso, escapou ao ataque de um pirata bretão, encontrava-se Essomericq, filho do chefe carijó Arosca, que por todos os lugares de passagem era muito bem olhado, por não ter jamais havido em França personagem de tão longínquo país.
Os relatos dos homens da expedição capitaneada por Binot Paulmier de Gonneville espalharam-se velozmente pelos portos da França atlântica, divulgando notícias sobre as gentes e os produtos das terras austrais, facto que atraiu o interesse dos activos homens de negócios da Normandia (Ruão, Dieppe, Harfleur, Honfleur e Caen) e da Bretanha (Brest e Saint-Malo). Os armadores normandos e bretões começaram, a partir de então, a enviar cada vez com maior frequência navios para se abastecerem directamente de pau-brasil na Terra de Santa Cruz, assegurando, desse modo, o fornecimento de matérias corantes aos grandes centros gauleses produtores de tecidos. Utilizavam, ainda, intérpretes normandos, os truchements, que se fixaram em crescente número junto de alguns grupos tribais tupis.
A intensa actuação de corsários no Atlântico e de armadores bretões e normandos na América Portuguesa transformou-se rapidamente numa das preocupações prioritárias do governo de Lisboa. João III (1521 - 1557), firmemente determinado a afastar os súbditos do rei de França do Atlântico português e do Brasil, optou por uma estratégia que combinava uma intensa acção persuasiva junto da corte de Francisco I (1515 - 1547) com a adopção de medidas de cariz defensivo. No campo diplomático, o rei procedeu à nomeação de João Silveira para representar os interesses portugueses perante o monarca gaulês (de 1522 a Abril ou Maio de 1530). Idêntica medida tomou o governo de Paris, designando Honorato Cais para desempenhar as funções de seu embaixador em Lisboa, cargo que exerceu, embora de forma intermitente, ao longo de trinta e seis anos (de 1523 a 1558).
Nas suas relações com Portugal, Francisco I pretendia atingir simultaneamente dois objectivos que, no entanto, se revelavam contraditórios. Por um lado, procurava combater o monopólio português em Africa, no Brasil e no Oriente com a finalidade de proporcionar lucrativos negócios aos seus armadores e mercadores, contribuindo, desse modo, para fortalecer a componente atlântica da navegação e do comércio franceses e para criar melhores oportunidades de cobrança de receitas ao tesouro régio gaulês, depauperado pelos elevados custos das Guerras de Itália. Por outro lado, desejava firmar um tratado de aliança com o monarca lusitano com vista a obter apoios que lhe permitissem combater mais eficazmente Carlos V (1516 – 1519 - 1556). Apesar dos sérios prejuízos que os vassalos de Francisco I causavam à navegação e ao comércio portugueses, do forte sentimento popular anti-francês e das opiniões dos mais influentes membros do Conselho Régio, nomeadamente o infante Luís e o bispo de Viseu, partidários de uma política de claro alinhamento com o imperador e de frontal oposição à França, João III não quis adoptar medidas que contribuíssem para que o reino gaulês fosse demasiadamente enfraquecido pela dinastia de Habsburgo, em virtude de esta já estender a sua influência a uma vasta área que englobava a Espanha e o seu Império Americano, uma parte da Itália, o Império Germânico, a Flandres, o Artois e, por vezes, conforme a sorte das armas, a Borgonha. Com esta actuaçáo, o monarca português visava contrabalançar as tendências hegemónicas da Casa de Austria, que ambicionava concretizar o projecto da monarquia universal, defendido por um dos mais influentes colaboradores de Carlos V, o chanceler Mercurino Gattinara». In Pablo Emílio Perez-Mallaina e Jorge Couto, Viagens e Viajantes no Atlântico Quinhentista, coordenação de Maria da Graça Ventura, Edições Colibri, Faculdade de Letras de Lisboa, Lisboa, 1996, ISBN 972-8288-21-2.

Cortesia de Colibri/JDACT

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Vera Cruz. João Morgado. «À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo»

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«(…) Houve um alarido tremendo na costa e nas águas. A gentiaga acorreu à beira-mar e alguns mais afoitos foram de almadias até às novas embarcações, uns por curiosidade, outros mais arrojados a tentar escambo com os estranhos que pareciam de bolsa farta. Mas aqueles homens de além-mar tinham carrancas barbudas que davam mostras de pouca amizade. Só uns tantos saíram a terra. Degredados de pouca valia, gente ruim por quem ninguém verteria uma lágrima e outros tantos homens de armas. Saiu também Fernão Martins, que era o língua da armada, um homem de muitos falares. Ficaram deslumbrados com aquele estranho povo, uns escanzelados de barbas brancas e poucas vestes, outros anafados e de bons panos coloridos. Gente muito variada e muitos animais exóticos. Pelos adentros das narinas entrava um cheiro adocicado que indicava as praças de mercadores de especiarias. Os portugueses sorriram, mas por pouco tempo, pois a mourama era belicosa e as escaramuças aumentavam a olhos vistos. Depois de muito cruzar lâminas e injúrias, Fernão Martins lá encontrou um árabe que era mais senhor de falas que de espadas. E arabiando os dois, lá se entenderam e assim convenceram o dito a subir a bordo para falar com o capitão-mor. Sou Vasco da Gama, dizei ao samorim que quero falar-lhe. Trago uma missiva do meu rei e senhor, Manuel I, rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d’Além-Mar em Africa.
Moçaide, o árabe, era homem viajado. Tinha navegado no Mediterrâneo e conhecia a fama dos portugueses. No seu arengar meio-genovês, meio-castelhano, agradeceu as mordomias recebidas e prometeu ser célere em marcar audiência com o soberano daquelas terras. Mas o sultão era homem acautelado e, não sabendo dos intuitos daqueles forasteiros, tinha pegado no seu séquito e partido para um outro palácio, lá no anteparo da floresta, distante dos mares e do poder de fogo de tal gente. Por isso demorou tempo a resposta do soberano e muito tardou também a viagem dos portugueses pelo matagal adentro, sob um sol que matava e uma humidade que fazia gotejar os corpos; as fatiotas tiradas da arca húmida para tão especial ocasião estavam já encharcadas de um suor fétido. Os portugueses seguiram transportados em liteiras, mas sempre nervosos e desconfiados dos beberes e das poucas comidas que lhes eram dados. Só quando chegaram ao seu destino tudo esqueceram e abriram a boca num espanto sem fim, tinham chegado à terra dos seus devaneios. Por certo, nem em sonhos tinham estado num tão luxurioso lugar.
Todo o palácio era uma ilha de tesouros, nunca os portugueses tinham visto tal coisa: o debuxo ornamentado do edifício; os adornos de pedraria; o sem-fim de guerreiros e serviçais; um ror de gente coberta de sedas e pedras preciosas. Caminharam pelo palácio adentro em passo firme, orgulhosos, mas os presentes torciam o rosto e levavam lenços ao nariz. Uns serviçais foram borrifá-los com uns líquidos. Água benta por certo, devem ser cristãos, comentou Gama, escarrando no chão. Mas na realidade era perfume, pois o odor a esterco e suor estava-lhes apegado ao corpo. Por contraste, o samorim Manavikraman Rajá, homem de muitos anos, estava estirado num dossel bordado a ouro e reclinado em grande soma de almofadas cor de pérola. Convidou Gama a sentar-se e brindou a comitiva com fruta e beberagens frescas. Gama discorreu então sobre o reino de Portugal e seus egrégios antepassados, o seu poderio militar e económico, o seu agigantar nas aventuras do mar tenebroso. Fazia questão que das suas palavras emergisse a grandeza impressionante de um reino que a todos desse o mesmo pensar, melhor o ter por afeiçoado que por desavindo. O samorim ouvia a tradução das línguas mas não largava o lenço aromatizado sobre o nariz; desesperava com tal gente e mostrava cara de enfado. À sua volta todos franziam igualmente o sobrolho, pouco crentes na grandiosidade de um reino que se fazia representar por um barbudo porco e nauseabundo.
Vasco da Gama sentia que o ambiente lhe era adverso, por isso lhe tremiam os termos e as ideias, o que maior desagrado causava entre os presentes,- não dizia iá coisa com coisa. Aquela era gente perfumada, de corpo depilado e pele tratada, carregada de jóias e sedas coloridas. Em toda a volta tudo era primor e riqueza, deslumbre e opulência. Só aquela gente que escarrava no chão parecia saída da imundície. Por isso lhe pediam que falasse com as mãos sobre a boca, para que o hálito não emporcasse mais ainda aquele ambiente luzidio.
Vasco da Gama sentia que tudo revoluteava à sua volta, como se estivesse ainda no cabo tormentoso onde a morte tinha chamado por ele. E se a água o não tinha tragado, sentia agora que este povinho efeminado e senhoril o queria esmagar com uma vaga de desprezo. Temeu então que se perdesse o encargo que o rei Manuel I lhe confiara. Não posso malograr esta missão, repetia de si para si mesmo. O futuro do reino está nas minhas mãos, não posso falhar». In João Morgado, Vera Cruz, Clube do Autor, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-724-207-6.

Cortesia de CAutor/JDACT