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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões»

Cortesia de purl

«[…]
Este arbítrio talvez não seja o mais conforme com os princípios; talvez seja porem o mais prudente; e há casos em que a prudência dispensa certos princípios de uma natureza não inteiramente obrigatória. Lembram também estas corporações a vantagem de permittir a transferência dos coupons em inscripções de assentamento como meio de tranquilisar alguns mais escrupulosos. A questão principal, porém, neste momento é a de saber se se devem ou não devem pagar os coupons falsos, e bom será resolvê-la quanto antes. Perdoe esta massada dada a quem ainda está doente; e eu aqui quasi estou ensinando o Padre Nosso ao vigário.

Este caso, depois de algumas soluções pouco aceitáveis que a Junta lhe deu, como a de obrigar os portadores a apresentarem os títulos com os próprios coupons, na ocasião do pagamento deles, veio a ficar resolvido pelo decreto de 30 de Janeiro de 1856, que mandou trocar por outros títulos as inscrições ao portador e encerrado finalmente pela lei que mandou pagar aos credores do estado prejudicados. Não valeria a pena de falar nesta ocorrência, se não fosse a carta escrita pelo Rei a Rodrigo Fonseca. Alem da perfeita observação que este documento revela, há a notar a claresa com que ele expõe o assunto e o interesse que lhe despertava qualquer incidente de administração. O que trazia absorvido o espírito público e o que dava cuidados ao Rei era, naquele momento, a questão das subsistências e também a da cólera mórbus que, entre outros factos a que deu origem, ocasionou o encerramento da Universidade e o ficar o Rei pouco bem visto pelos estudantes, em consequência da oposição que fez à concessão do perdão de acto.
Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o Rei, porem, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo:

Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Alem disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.

O expediente corria, entretanto, regularmente. O Rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões. Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame:

Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há-de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.

E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer.

Quanto ás coudelarias militares ou antes potrís eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.

No tocante à questão das subsistências, o Rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros…»

Cortesia de purl

«(…) Além do exame de latinidade, D. Pedro fez, com brilhante êxito, o de retórica e história, de inglês, ficando satisfeito o seu professor Graveley, aquele mesmo que acreditava todos os boatos que lhe encaixavam nos cascos e que os espalhava no Paço quando foi a revolta do marechal Saldanha. Durante o ano de 1851 estudou o príncipe a matemática com o dr. Filipe Folque, sem abandonar os outros estudos, fazendo os exames do costume em 22 de Dezembro. Assim se procedeu também no ano seguinte, dando o príncipe conta dos seus trabalhos no exame de 23 de Dezembro, que foi o último a que o sujeitaram. A mãe falecia-lhe em 15 de Novembro de 1853, e desde então D. Pedro, entregue a si próprio, numa quási libertação do poder paternal, entregara-se ao estudo de todos os assuntos com um afinco verdadeiramente sobrenatural. A mãe fora uma grande educadora. A consideração e favor que dedicava aos mestres; a atenção que dispensava à maneira como corriam os estudos; a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para ver se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros; todo o conjunto de cuidados, que sempre lhe pareciam poucos, com que se desvelava para que tivessem uma educação exemplar sob todos os aspectos, conferiam justamente a esta grande mulher o título da melhor das mães.
A lenda levava até o último recanto do país as repreensões que ela lhes dava em público, quando praticavam algum acto que o rigor da mãe julgava repreensível. Agora obrigava a creança a beijar o filho do povo que ela afastara de si, logo aplicava-lhe o vulgar puxão de orelhas para que o povo visse bem como ela o sabia corrigir. E assim, a Rainha, a figura mais nobre que teve o país constitucional, a vítima dos ódios recíprocos dos estadistas do seu tempo, ensinava às senhoras portuguesas com os exemplos vindos do trono, como o amor das mães se compadece com a austeridade empregada na educação dos filhos. Ainda obedecendo ao plano que a Rainha traçara para a educação do presuntivo herdeiro, percorrera D. Pedro, em duas viagens, quási todas as nações da Europa, estudando, apreciando e criticando sucessivamente tudo quanto vira, em dois Diários que, sem embargo dos descuidos de redacção em alguns pontos, devidos à pressa com que lançava no papel os seus apontamentos, revelam bem o alto critério e a grande ilustração do príncipe. Com esta preparação, e sendo certamente o talento mais precoce do seu tempo, e em todos os tempos raríssimo, compreende-se que pretendesse conhecer todos os negócios e quizesse impôr-se a toda a gente.
Era este temperamento, em parte natural e em parte proveniente da educação recebida, compatível com o sistema constitucional, em que os ministros nunca podem ser meros instrumentos em mãos alheias, por mais competentes que sejam, visto que são os únicos responsáveis pelos actos do governo? Certamente, não. E daí promanaram todos os desgostos do' Rei e, consequentemente, todos os ódios e rancores que o açulavam contra os homens que, conscientes do seu valor e dos seus direitos, resistiam às ordens do soberano, por vezes impertinentes.
Nos primeiros meses do reinado nenhum acontecimento extraordinário ocorreu. O novo Rei herdara três questões internacionais de extrema gravidade e delas faremos a história na ocasião oportuna e quando estiverem apuradas em todos os seus incidentes. Estas questões eram a da concordata com a Santa-Sé, a do Ambriz e ainda a da convenção com a Holanda a respeito de Timor e Solor. Todas preocuparam grandemente o ânimo do Rei. Entretanto, os factos corriam com certa aparência de serenidade. D. Pedro abria cuidadosamente as duas Caixas, e nenhum dos requerentes deixava de ter a desejada resposta no fim da semana.
Em 18 de Outubro assinou D. Pedro um decreto, demitindo do lugar de amanuense da Junta de Crédito Público Eduardo Mesquita Cabral Almeida, em vista da consulta da mesma Junta de 16, que participava haver conhecido que este empregado com inteiro esquecimento dos seus deveres duplicara uma porção de coupons que negociara e fora apresentada a pagamento. O decreto mandava também que a Junta remetesse à secretaria de estado todos os documentos comprovativos de tão desagradável ocorrência para se formar o competente processo afim de o delinquente ser punido com todo o rigor da lei. Chegados os documentos, pareceu que era caso para ouvir o conselho de Estado. O Rei estuda a questão e escreve a Rodrigo Fonseca (24 de Novembro):

Hoje tivemos o Conselho de Estado, e do que nele se passou lhe terão certamente já dado parte os seus colegas. Aconteceu o que acontece quando se juntam mais de duas pessoas, quer dizer foram tantas as opiniões quantas as pessoas. No entretanto de cada um se aproveita o que for bom, e o Governo fará aquilo que em consciência entender. A questão divide-se em três pontos: o primeiro constitue a acusação á Junta pela sua pouca vigilância, e desleixo em proceder contra o delinquente; o segundo: devem ou não pagar-se os coupons falsos ou para falar com mais propriedade, duplicados; 3.° quais os meios a empregar para evitar a repetição de um caso semelhante? Sobre todos estes pontos discorreu-se largamente.
A opinião de duas corporações muito respeitáveis, o banco e a associação comercial é, como sabe, que se paguem as obrigações dos coupons sem distinção de qualidade, para evitar o abalo do crédito que em tal caso, apesar das asserções em contrário, não pode deixar de se produzir.
[…]
In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

domingo, 19 de agosto de 2018

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida»

Cortesia de purl

«(…) Mal podia sonhar o mestre que o discípulo se ria das suas lucubraçoes alfarrábicas e tabacais. E verdade que para o consolar, o discípulo o presenteara com um capote finíssimo de pano azul ferrete, gola de veludo, e forrado de orleans, com seus cordões mui compridos, e borlas de retrós preto e tudo na maior perfeição. Também lhe adoçara a boca com uma condeça de doces muito finos e primorosos, uma pouca de anona muricata, duas excelentes maçãs e seis penas de escrever. E assim fazendo progressos na língua latina, chegou D. Pedro ao fim de 1847. Emquanto estudava o latim, dedicava-se também à música, à pintura e à história natural, colecionando conchas e insectos afim de organisar um museu. Esta tendência para a coleccionação acompanha-o ainda nos anos seguintes. Em 4 de Junho de 1851 escreve de Sintra a Sarmento:

Consagrei a tarde a uma excursão conchiliológica com o visconde, a qual me deu oito espécies que o mano Luiz lhe mostrará.

E em 1855, já depois de Rei, pede a Rodrigo da Fonseca que tenham cuidado com uns pássaros que vem do Chile para ele a bordo do patacho Indústria. Foi chamado para organisar o museu Francisco Tomás Silveira Franco, lente de medicina no Hospital de S. José. No dia 3 de Abril de 1848 dava D. Pedro a primeira prova pública do seu adiantamento nos estudos. Fazia exame de latim perante a corte. Mas antes quiz ir à capela, onde naquele dia havia lausperenne, para implorar o auxílio do Senhor, esclarecendo-lhe o entendimento afim de fazer bom exame. E fê-lo bom na verdade, porque traduziu, com desembaraço, um capítulo de Eutropio e uma fábula de Phedro. Tinha então onze anos de idade e apenas seis meses de tradução latina. O resultado do exame foi sujeito à votação dos presentes. Todos votaram, muito bem, ou muitíssimo bem, só a mãe, sempre grave e austera, lhe concedeu simplesmente um Bem. Esta nota, que a muitos parecerá indiferente, revela, contudo, fielmente o carácter da Rainha. Altamente satisfeita com o exame do filho, gosta de que todos o elogiem, mas para não o lisongear excitando-lhe a vaidade, e para se não mostrar parcial, é quem lhe dá o voto menos laudatório. Bem; e nada mais. O professor extasia-se perante os conhecimentos do discípulo e não se cança de lhe festejar o talento e a aplicação:

A tal ponto chegava o amor que Sua Magestade tinha aos livros latinos que achando-se doente de uma angina na primavera de 1848, queria que lhe trouxessem os seus livros para a cama, e até os guardava debaixo do travesseiro, onde eu mesmo os encontrava, e pedia a Sua Magestade que tomasse descanço, porque não faltava tempo em que pudesse estudar. Que hei de fazer?, disse Sua Magestade, hei de perder os meus estudos, deixando-me atrasar? Esta mesma resposta dava a todos.

O velho professor tinha às vezes adoráveis ingenuidades. Quando a Rainha, em 1848, deu à luz o príncipe Leopoldo, Martins Bastos escrevia nas suas Memórias:

Sua Magestade El-rei, pela sua edade e mais ainda pela sua inocência, nada disto empreendia, e somente pensava que um menino, seu primo, estava chegando ou havia chegado da Alemanha.

Neste tempo, quando o primo chegava da Alemanha, já D. Pedro se ocupava das aventesmas que povoavam o Paço. No princípio de 1849 D. Pedro traduzia as epístolas de Cícero, e escrevia cartas em latim ao seu mestre, datadas de Sintra, uma do segundo dia antes das Calendas de Agosto, de 1849, outra do quarto dia antes dos idos de Julho, de 1850. Já conhecia Salustio, Tito Livio e Virgílio, e era preciso dar-lhe mestre de grego, retórica, filosofia racional e moral e princípios de direito natural. Veio continuar a educação do príncipe António José Viale, conhecido humanista e perito nos estudos clássicos. No domingo antes do Natal de 1849, fez o príncipe novo exame público de latim, de grego, de inglês, de música, e de desenho. Manuel Inocêncio ensinara-lhe a música; a pintura o insigne artista António Manuel Fonseca. Em 1850 D. Pedro já conhecia, além dos autores citados, Ovídio, Horácio e Tácito, e em 23 de Dezembro fez o terceiro exame, assim descrito por Martins Bastos:

Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por El-rei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida; e uma ode inteira de Horácio, aberto tudo à sorte por El-rei, como fica dito. Não é possível traduzir com mais propriedade e elegância, do que o fez Sua Magestade, no que me enchi da maior glória, por ser aquele o último exame daquela disciplina que Sua Magestade fez».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. «… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta…»

Cortesia de purl

«(…) No governo, confirmado pelo novo Monarca, achavam-se o duque de Saldanha na Presidência do conselho e na pasta da Guerra; no Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães; na Justiça Frederico Guilherme; na Fazenda Fontes Pereira de Melo; na Marinha visconde de Athoguia. Fontes tinha também a pasta das Obras Públicas, e Athoguia a dos Estrangeiros. Eram ainda os representantes da revolução, ou antes da revolta de 1851. E era com eles que o Rei tinha de governar, emquanto os factos não lhe aconselhassem ou impuzessem uma mudança de ministério. O primeiro acto, praticado por D. Pedro, foi a instituição da Caixa Verde. Dois dias depois da aclamação, aparecia na folha oficial este anúncio na última página do periódico:

O Camarista de Semana previne o Público que do dia 20 do corrente mês em diante, Sua Magestade El-Rei não receberá requerimentos, nem papéis alguns na rua, e que para este fim se mandarão no Real Paço das Necessidades, junto á portaria do antigo convento, colocar duas caixas para os receber; uma, pintada de azul, destinada aos requerimentos que tendam a obter socorros ou esmolas; outra, pintada de verde, para as súplicas dirigidas a outros fins. Igualmente se previne que todos os sábados as pessoas interessadas ali poderão ir receber o despacho das suas súplicas do meio dia ás duas horas da tarde. Paço das Necessidades, 18 de Setembro de 1855, conde de Linhares, Camarista de Semana.

Estava aqui a origem dos maiores dissabores que o Rei havia de ter por muito tempo, emquanto a Caixa não fosse retirada, e das desavenças constantes entre ele e os seus ministros. O Rei não despachava sem ler primeiro os decretos, demorando, por vezes, alguns para os estudar, pedindo informações que o habilitassem a dar uma referenda concienciosa. Dez dias depois de ter principiado o seu governo escrevia D. Pedro a Rodrigo da Fonseca:

Como ontem ao despacho não houvesse o tempo para lê-lo (um regulamento) e como eu não quero poder acusar-me de ter assinado um papel sem o ter lido, fiquei com ele até esta manhã; que só agora achei o tempo para lê-lo.

E a Saldanha dizia:

Eu não desejo autorisar medida alguma que eu não tenha estudado. Desejo sempre estar seguro e em plena consciência do que faço.

A Caixa Verde funcionava sem novidade. Em 25 de Setembro dizia D. Pedro a Rodrigo:

Entre os papéis que hoje recebi da Caixa achei uma representação sobre a gerência administrativa da Santa Casa da Nazaré. Se os factos são verdadeiros merecem algum remédio, sobretudo o corte de pinhais de que nela é acusada a Administração.

Faria Rodrigo obra pelas denúncias anónimas lançadas na Caixa Verde? Não é de crer. A maior parte dos decretos vinham glosados pelo Rei. Os dois de 28 de Novembro, um aprovando os novos estatutos dos sócios do Montepio das Secretarias do Estado e outro a Caixa de Socorros Mútuos voltavam acompanhados de comentários feitos por seu punho. Esta interferência activa do Rei nos negócios públicos, o desejo de os estudar, provinham principalmente da educação que recebera. O Rei, era na sua principal feição, um escolar, trabalhando no seu gabinete e tendo prazer no esforço da sua inteligência. Aos dezoito anos sabia tudo, porque muito lhe tinham ensinado e muito também tinha aprendido nos livros, nas viagens e no trato com os homens eminentes do seu país.
Deixando a mestra dona Maria Carolina Mishisch, fora em 5 de Agosto de 1847, aos 10 anos, entregue aos cuidados de Martins Bastos que lhe ensinou latinidade. Dirigiu-lhe toda a educação o visconde da Carreira, como seu aio, e cujos serviços D. Pedro retribuiu com a maior dedicação. Entregue ao compêndio de gramática latina do padre António Pereira, deu logo a primeira lição, sabida na ponta da língua, no dia 11 de Agosto. Já no meiado de Outubro, decorridos apenas dois meses de gramática, D. Pedro estava a braços com o Eutropio e com o Phedro. O professor extasia-se perante a inteligência do aluno e escreve:

… afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta, uma índole tão dócil, uma gravidade e modéstia que se lhe possa assemelhar, de modo que mais parecia um homem de edade madura do que um menino de nove anos e dez meses».

In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da AC de Lisboa/JDACT

terça-feira, 29 de março de 2016

D. Pedro V. O seu Reinado. Júlio Vilhena. «O rei anunciava às Cortes o que elas já sabiam: que havia boas relações entre Portugal e as outras potências; que prosseguiam as negociações para a concordata quanto ao padroado português na Índia…»

jdact e wikipedia

De acordo com o original

«(…) Aprecia a liberdade de comércio nas crises de subsistências: As vantagens da liberdade de comércio nesta questão, como em todas, são grandes e reaes; mas pergunto se há casos em que as circunstâncias se revestem de uma tal força que não lhes convenha obtemperar? Essas circunstâncias são, como muito bem sabe, necessidades e prejuízos. Aqui entendo debaixo do nome de necessidades: a difficuldade de comunicações entre uns pontos do reino e outros, a consequente paralisação do Comércio interno, e o isolamento em que umas terras menos favorecidas ficam relativamente a outras mais favorecidas. Absolutamente falando, Lisboa é dos pontos mais favorecidos pela sua produção e pela facilidade de exportação, mas estas circumstâncias estam-se hoje tornando contra ela para assim dizer. Quanto aos prejuízos, bem sabemos, e a história está aí para atestar a força que eles teem, a fortiori, quando eles invocam o auxilio da fome, ou para falar com mais propriedade, da idea da fome.
E, por fim, estuda a causa geral das crises: Amanhã terei o gosto de vê-lo, e então poderemos falar mais largamente sobre este assuntto que para mim não tem passado despercebido. Falando em geral, e não referindo-me unicamente a Portugal, eu sustentaria, e com o auxílio de boas autoridades, que a carestia na produção de 1855 é meramente relativa, e acha a sua explicação no aumento de população do globo, desproporcionado para o aumento muito menos rápido da cultura do solo. Além disso a questão do ouro, tão bem tratada no Jornal dos Debates por Mr. M. Chevalier, não pode ser estranha a esta e é-lhe para assim dizer correlativa; porque é um facto que o valor dos géneros, a respeito dos quais não se dá a carestia que se dá com os cereais, tem crescido quási na mesma rasão destes últimos. Em Novembro, Fontes partira para Londres e Paris afim de acomodar os credores estrangeiros, queixosos pela conversão dos títulos externos com redução de juros, e de abrir o Stock-Exchange à cotação dos nossos fundos, sem o que não lhe era possível recorrer ao crédito de que absolutamente precisava para continuar a construção das linhas férreas. A vida política ia, pois, animar-se com o regresso de Fontes, que trazia projectos de natureza a despertarem, sem dúvida, o interesse público.

No dia 31 de Dezembro lia, pela segunda ou terceira vez, o rei Pedro V o projecto do discurso da Coroa que lhe enviara o seu ministro do Reino, Rodrigo Fonseca Magalhães. Achava-o longo e desejava esclarecimentos sobre alguns pontos. Eu desejaria, escrevia o rei, em carta dessa data (carta a Rodrigo Fonseca Magalhães, de 31 de Dezembro de 1885), não lhe causando isso incómodo, que por aqui passasse pela volta do meio dia para me dar alguns esclarecimentos, sobre alguns pontos em que se toca no Discurso do Trono. Se possível fosse, eu desejaria que ele fosse mais breve, reservando-se os ministros nos seus relatórios ás camaras a desenvolver os pontos a que nele se alude. Sobre isto falaremos, se por aqui vier. Declaro que concordo com o teor do discurso. Só desejaria poder dizer as cousas em menos palavras. Era o costume, o rei não aprovava nada sem fazer objecções. Depois de prestados os esclarecimentos por parte do ministro e feitas as necessárias amputações na longa e desataviada prosa, foi aberta a sessão no dia 2 de Janeiro com as formalidades do estilo, não faltando o condestável que então era o príncipe Luís, mais tarde rei com o nome de Luis I. Iniciava-se a quarta sessão da legislatura e a primeira sessão parlamentar do novo reinado. Não obstante o amor do rei à brevidade e ao laconismo, o discurso ocupa três colunas no Diário do Governo. É como todos os anteriores e como haviam de ser todos os que vieram no suceder dos anos: uma narração fria, sem estilo, de factos ocorrentes no intervalo das sessões e de trabalhos a fazer, conforme o programa do governo. Aquele género especial de literatura não exigia mais.
O rei anunciava às Cortes o que elas já sabiam: que havia boas relações entre Portugal e as outras potências; que prosseguiam as negociações para a concordata quanto ao padroado português na Índia; que se tinham trocado as ratificações do tratado de comércio e navegação com a República Argentina e da convenção com o Brasil sobre moeda falsa; que recebera muitas congratulações pela sua ascensão ao trono; que havia tranquilidade no país; que infelismente fora o território nacional invadido pela colera-morbus, procedente das povoações de Hespanha fronteiras à raia, comunicando-se primeiro aos distritos da Guarda e Bragança e depois às terras do norte e sul do Reino; que foram, por virtude da epidemia, suspensos os estudos públicos em Coimbra, mas que já se ordenara para este mês de Janeiro a sua continuação. Referindo-se à situação da agricultura, falava da moléstia das videiras, e para consolar o povo amigo do vinho, acrescentava que era de esperar que viesse a acontecer entre nós o que já se observava em outros países: o decrescimento e a extinção do mal que felizmente não ataca a vitalidade da planta». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

D. Pedro V. O seu Reinado. Júlio Vilhena. «No tocante à questão das subsistências, o rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver»

jdact e wikipedia

De acordo com o original

«(…) Em 21 de Dezembro foi reaberta a Universidade, mandando-se começar os trabalhos no dia 7 de Janeiro. Deste modo o ano lectivo de 1855-1856 ficou encurtado em relação ao ano normal, não obstante as aulas de direito, teologia e medicina funcionarem até 20 de Junho e as de filosofia e matemática até 10 de Julho. Lembraram-se os estudantes de pedir perdão d’acto; o rei, porém, não se mostrava inclinado a conceder-lho. E, para que o seu governo não pudesse alegar ignorância, escrevia a Rodrigo: Não sei qual será a opinião do Governo a semelhante respeito; a minha, quási que escusaria de dizê-lo, é contrária ao que considero um grande mal não só para a instrução como também para os interesses da fazenda. Se em tempos ordinários é tão grande a produção de bacharéis, e tão escassos os meios de dar vasão a esse produto; que será se facilitarmos ainda mais essa produção! Além disso tendo-me eu constantemente ocupado da instrução pública e lamentando os males que provêem da facilidade com que entre nós se alcança a instrução superior, seria, creio eu, uma singular contradição eu não opor-me a pedidos absurdos, que nem sei se efectivamente existem. No entretanto julguei dever referir isto que acabo de dizer, porque entendo que é sempre melhor prevenir do que remediar.
O expediente corria, entretanto, regularmente. O rei aprovava os estatutos do Montepio das Secretarias de Estado e parecia-lhe que este seria o melhor modo de regular as pensões (carta a Rodrigo Fonseca, de 25 de Novembro de 1855). Também lhe submeteram à assinatura um decreto sobre o ensino veterinário, mas esse ficou dependente de mais acurado exame: Quanto ao decreto reformando o ensino veterinário ainda me reservo examiná-lo mais miudamente, e para isso pedi ao duque que viesse cá. Concordo com muitas das disposições, quanto a outras careço de conhecer os motivos que lhes deram razão de existência. A demora que daí possa provir não há de ser grande, e certamente não se estenderá como em certos papéis urgentes, por exemplo, de Julho de 1853 a 1855. No projecto não se pode negar que existem alguma poesia, e algumas ilusões.
E em outra carta (21 de Dezembro) indica o que supõe mais conveniente fazer: Quanto ás coudelarias militares ou antes potris eu lembraria que, estabelecendo-se em princípio, se estabeleçam na realidade como ensaios em ponto limitado e só naquellas localidades que para isso apresentarem melhores condições. Igual reflexão farei relativamente ao estabelecimento do ensino veterinário em todas as escolas regionais. Eu julgaria a propósito começarmos pelo ensaio no Instituto de Lisboa ou num dos dois do reino. O sistema de ensaios, sobretudo nestas cousas que variam segundo as necessidades dos paises, parece-me sempre o melhor. Recebe-se assim a confirmação ou desengano das ideas, sem correr o perigo de gastar grossas somas com a sua generalisação.
No tocante à questão das subsistências, o rei desejava que se fizessem inquéritos e outros trabalhos que se publicassem para que o país conhecesse as diligências empregadas para a resolver. Em 15 de Dezembro dizia a Rodrigo: Eu tinha lembrado ao Fontes, antes da sua partida para Londres, a vantagem do governo mandar proceder a trabalhos tendentes a esclarecer esta questão. Dando-se publicidade a esses trabalhos, ter-se hia, no meu intender, justificado pela linguagem dos factos a conduta que se seguisse. Em França o Governo seguiu, segundo as notícias que tenho, esta marcha, como se pode ver por um interessante artigo de Mr. de Villèle na Revue Contemporaine; e a franqueza com que falou ao país fez-lhe bem. Verdade é que em França tudo quanto o governo fizer é bem feito, porque não há nesse país quem se possa colocar na posição de contradizer os actos de uma autoridade omnipotente. Respondeu-me ele Fontes que estes documentos os tinha o governo em seu poder, mas que lhe parecia que seria espalhar o terror o dar uma grande atenção a factos que, com quanto graves, comtudo não se apresentavam com um aspecto ameaçador. Como eu muitas vezes me posso enganar e forçosamente me hei de enganar, não insisti, deixando ao tempo o decidir da judiciosidade da minha idea.
E acrescenta: Muito longe de mim dar a importância que se pretende dar aos factos ultimamente conhecidos, muito longe de mim o acreditar na gravidade da nossa situação alimentícia, todavia perguntarei agora que um mês se passou desde que me lembrei de aventar essa idea: não teria o governo ganho na opinião pública mostrando, ainda mesmo quando fosse deitando poeira aos olhos, que tomava a peito uma questão séria, e que procurava os meios de esclarecer sobre ela o público para impedir os terrores, etc? A questão tem sido fortemente debatida pela imprensa periódica. Gosto dessas discussões; estimarei que as haja sempre que se trate de um objecto sério e que afecte a sociedade toda. Sinto, porém, que o princípio de oposição tão necessário para a existência de um governo constitucional, se desvirtue fazendo-o passar da altura em que êle devera ser colocado ao campo das misérias pessoaes». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quarta-feira, 2 de março de 2016

D. Pedro V. O seu Reinado. Júlio Vilhena. «Hoje tivemos o Conselho de Estado, e do que nele se passou lhe terão certamente já dado parte os seus colegas. Aconteceu o que acontece quando se juntam mais de duas pessoas, quer dizer foram tantas as opiniões quantas as pessoas»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original:

«(…) E assim, a rainha, a figura mais nobre que teve o país constitucional, a vítima dos ódios recíprocos dos estadistas do seu tempo, ensinava às senhoras portuguesas com os exemplos vindos do trono, como o amor das mães se compadece com a austeridade empregada na educação dos filhos. Ainda obedecendo ao plano que a rainha traçara para a educação do presuntivo herdeiro, percorrera Pedro, em duas viagens, quási todas as nações da Europa, estudando, apreciando e criticando sucessivamente tudo quanto vira, em dois Diários que, sem embargo dos descuidos de redacção em alguns pontos, devidos à pressa com que lançava no papel os seus apontamentos, revelam bem o alto critério e a grande ilustração do príncipe. Com esta preparação, e sendo certamente o talento mais precoce do seu tempo, e em todos os tempos raríssimo, compreende-se que pretendesse conhecer todos os negócios e quizesse impôr-se a toda a gente. Era este temperamento, em parte natural e em parte proveniente da educação recebida, compatível com o sistema constitucional, em que os ministros nunca podem ser meros instrumentos em mãos alheias, por mais competentes que sejam, visto, que são os únicos responsáveis pelos actos do governo? Certamente, não. E daí promanaram todos os desgostos do rei e, consequentemente, todos os ódios e rancores que o açulavam contra os homens que, conscientes do seu valor e dos seus direitos, resistiam às ordens do soberano, por vezes impertinentes.
Nos primeiros meses do reinado nenhum acontecimento extraordinário ocorreu. O novo rei herdara três questões internacionais de extrema gravidade e delas faremos a história na ocasião oportuna e quando estiverem apuradas em todos os seus incidentes. Estas questões eram a da concordata com a Santa Sé, a do Ambriz e ainda a da convenção com a Holanda a respeito de Timor e Solor. Todas preocuparam grandemente o ânimo do rei. Entretanto, os factos corriam com certa aparência de serenidade. Pedro V abria cuidadosamente as duas Caixas, e nenhum dos requerentes deixava de ter a desejada resposta no fim da semana. Em 18 de Outubro assinou Pedro V um decreto, demitindo do lugar de amanuense da Junta de Crédito Público Eduardo Mesquita Cabral Almeida, em vista da consulta da mesma Junta de 16, que participava haver conhecido que este empregado com inteiro esquecimento dos seus deveres duplicara uma porção de coupons que negociara e fora apresentada a pagamento. O decreto mandava também que a Junta remetesse à secretaria de estado todos os documentos comprovativos de tão desagradável ocorrência para se formar o competente processo afim de o delinquente ser punido com todo o rigor da lei. Chegados os documentos, pareceu que era caso para ouvir o conselho de Estado. O rei estuda a questão e escreve a Rodrigo Fonseca (24 de novembro): Hoje tivemos o Conselho de Estado, e do que nele se passou lhe terão certamente já dado parte os seus colegas. Aconteceu o que acontece quando se juntam mais de duas pessoas, quer dizer foram tantas as opiniões quantas as pessoas. No entretanto de cada um se aproveita o que for bom, e o Governo fará aquilo que em consciência entender. A questão divide-se em três pontos: o primeiro constitue a acusação á Junta pela sua pouca vigilância, e desleixo em proceder contra o delinquente; o segundo: devem ou não pagar-se os coupons falsos ou para falar com mais propriedade, duplicados; 3.° quais os meios a empregar para evitar a repetição de um caso semelhante? Sobre todos estes pontos discorreu-se largamente. A opinião de duas corporações muito respeitáveis, o banco e a associação comercial é, como sabe, que se paguem as obrigações dos coupons sem distinção de qualidade, para evitar o abalo do crédito que em tal caso, apesar das asserções em contrário, não pode deixar de se produzir. Este arbítrio talvez não seja o mais conforme com os princípios; talvez seja porem o mais prudente; e há casos em que a prudência dispensa certos princípios de uma natureza não inteiramente obrigatória. Lembram também estas corporações a vantagem de permittir a transferência dos coupons em inscripções de assentamento como meio de tranquilisar alguns mais escrupulosos. A questão principal, porém, oeste momento é a de saber se se devem ou não devem pagar os coupons falsos, e bom será resolvê-la quanto antes. Perdoe esta massada dada a quem ainda está doente; e eu aqui quasi estou ensinando o Padre Nosso ao vigário.
Este caso, depois de algumas soluções pouco aceitáveis que a Junta lhe deu, como a de obrigar os portadores a apresentarem os títulos com os próprios coupons, na ocasião do pagamento deles, veiu a ficar resolvido pelo decreto de 30 de Janeiro de 1856, que mandou trocar por outros títulos as inscrições ao portador e encerrado finalmente pela lei que mandou pagar aos credores do estado prejudicados. Não valeria a pena de falar nesta ocorrência, se não fosse a carta escrita pelo rei a Rodrigo Fonseca. Alem da perfeita observação que este documento revela, há a notar a claresa com que ele expõe o assunto e o interesse que lhe despertava qualquer incidente de administração. O que trazia absorvido o espírito público e o que dava cuidados ao rei era, naquele momento, a questão das subsistências e também a da cólera mórbus que, entre outros factos a que deu origem, ocasionou o encerramento da Universidade e o ficar o rei pouco bem visto pelos estudantes, em consequência da oposição que fez à concessão do perdão de acto». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 23 de abril de 2015

D. Pedro V. O seu Reinado. Júlio Vilhena. «No domingo antes do Natal de 1849, fez o príncipe novo exame público de latim, de grego, de inglês, de música, e de desenho. Manuel Inocêncio ensinara-lhe a música; a pintura o insigne artista António Manuel Fonseca»

Cortesia de wikipedia e jdact

De acordo com o original:

«Emquanto estudava o latim, dedicava-se também à música, à pintura e à história natural, coleccionando conchas e insectos afim de organisar um museu. Esta tendência para a coleccionação acompanha-o ainda nos anos seguintes. Em 4 de Junho de 1851 escreve de Sintra a Sarmento: Consagrei a tarde a uma excursão conchiliológica com o visconde, a qual me deu oito espécies que o mano Luiz lhe mostrará. E em 1855, já depois de rei, pede a Rodrigo Fonseca que tenham cuidado com uns pássaros que vem do Chile para êle a bordo do patacho Indústria. Foi chamado para organisar o museu Francisco Silveira Franco, lente de medicina no Hospital de S. José. No dia 3 de Abril de 1848 dava Pedro V a primeira prova pública do seu adiantamento nos estudos. Fazia exame de latim perante a corte. Mas antes quiz ir à capela, onde naquele dia havia lausperenne, para implorar o auxílio do Senhor, esclarecendo-lhe o entendimento afim de fazer bom exame. E fê-lo bom na ver dade, porque traduziu, com desembaraço, um capítulo de Eutropio e uma fábula de Phedro. Tinha então onze anos de idade e apenas seis meses de tradução latina. O resultado do exame foi sujeito à votação dos presentes. Todos votaram, muito bem, ou muitíssimo bem, só a mãe, sempre grave e austera, lhe concedeu simplesmente um Bem. Esta nota, que a muitos parecerá indiferente, revela, contudo, fielmente o carácter da rainha. Altamente satisfeita com o exame do filho, gosta de que todos o elogiem, mas para não o lisongear excitando-lhe a vaidade, e para se não mostrar parcial, é quem lhe dá o voto menos laudatório. Bem; e nada mais. O professor extasia-se perante os conhecimentos do discípulo e não se cança de lhe festejar o talento e a aplicação: A tal ponto chegava o amor que Sua Magestade tinha aos livros latinos que achando-se doente de uma angina na primavera de 1848, queria que lhe trouxessem os seus livros para a cama, e até os guardava debaixo do travesseiro, onde eu mesmo os encontrava, e pedia a Sua Magestade que tomasse descanço, porque não faltava tempo em que pudesse estudar. Que hei de fazer? disse Sua Magestade, hei de perder os meus estudos, deixando-me atrasar? Esta mesma resposta dava a todos.
O velho professor tinha às vezes adoráveis ingenuidades. Quando a rainha, em 1848, deu à luz o príncipe Leopoldo, Martins Bastos escrevia nas suas Memórias: Sua Magestade El-rei, pela sua edade e mais ainda pela sua inocência, nada disto empreendia, e somente pensava que um menino, seu primo, estava chegando ou havia chegado da Alemanha. Neste tempo, quando o primo chegava da Alemanha, já Pedro se ocupava das aventesmas que povoavam o paço. No princípio de 1849 o príncipe Pedro traduzia as epístolas de Cícero, e escrevia cartas em latim ao seu mestre, datadas de Sintra, uma do segundo dia antes das Calendas de Agosto, de 1849, outra do quarto dia antes dos idos de Julho, de 1850. Já conhecia Salustio, Tito Livio e Virgílio, e era preciso dar-lhe mestre de grego, retórica, filosofia racional e moral e princípios de direito natural. Veiu continuar a educação do príncipe António José Viale, conhecido humanista e perito nos estudos clássicos. No domingo antes do Natal de 1849, fez o príncipe novo exame público de latim, de grego, de inglês, de música, e de desenho. Manuel Inocêncio ensinara-lhe a música; a pintura o insigne artista António Manuel Fonseca. Em 1850 o príncipe Pedro já conhecia, além dos autores citados, Ovídio, Horácio e Tácito, e em 23 de Dezembro fez o terceiro exame, assim descrito por Martins Bastos: Começou o exame pela latinidade; El-rei traduziu magnificamente parte de um capítulo de Tito Lívio, aberto à sorte por Elrei, seu pai; do mesmo modo um trecho de Virgílio na Eneida; e uma ode inteira de Horácio, aberto tudo à sorte por El-rei, como fica dito. Não é possível traduzir com mais propriedade e elegância, do que o fez Sua Magestade, no que me enchi da maior glória, por ser aquele o último exame daquela disciplina que Sua Magestade fez. Além do exame de latinidade, Pedro fez, com brilhante êxito, o de retórica e história, de inglês, ficando satisfeito o seu professor Graveley, aquele mesmo que acreditava todos os boatos que lhe encaixavam nos cascos e que os espalhava no paço quando foi a revolta do marechal Saldanha.
Durante o ano de 1851 estudou o príncipe a matemática com Filipe Folque, sem abandonar os outros estudos, fazendo os exames do costume em 22 de Dezembro. Assim se procedeu também no ano seguinte, dando o príncipe conta dos seus trabalhos no exame de 23 de Dezembro, que foi o último a que o sujeitaram. A mãe falecia-lhe em 15 de Novembro de 1853, e desde então Pedro, entregue a si próprio, numa quási libertação do poder paternal, entregara-se ao estudo de todos os assuntos com um afinco verdadeiramente sobrenatural. A mãe fora uma grande educadora. A consideração e favor que dedicava aos mestres; a atenção que dispensava à maneira como corriam os estudos; a sua vigilância que, como boa mãe burguesa e simples, exercia perante os filhos, a ponto de os espreitar pelo buraco da fechadura para vêr se estudavam ou se tinham adormecido sobre os livros; todo o conjunto de cuidados, que sempre lhe pareciam poucos, com que se desvelava para que tivessem uma educação exemplar sob todos os aspectos, conferiam justamente a esta grande mulher o título da melhor das mães. A lenda levava até o último recanto do país as repreensões que ela lhes dava em público, quando praticavam algum acto que o rigor da mãe julgava repreensível. Agora obrigava a creança a beijar o filho do povo que ela afastara de si, logo aplicava-lhe o vulgar puxão de orelhas para que o povo visse bem como ela o sabia corrigir». In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 23 de maio de 2013

D. Pedro V. O Seu Reinado. Júlio Vilhena. «Estava aqui a origem dos maiores dissabores que o rei havia de ter por muito tempo, enquanto a Caixa não fosse retirada, e das desavenças constantes entre ele e os seus ministros. O rei não despachava sem ler primeiro os decretos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) à edificação de uma casa de asilo para a infância desvalida no lugar do Campo Grande, e o resto e o mais que se pudesse alcançar,  em partes iguais para o Hospício das Irmãs da Caridade e para a nova casa de asilo que se projectava criar no sítio do Barreiro. Em 20 de Outubro foi decretada a amnistia geral.
Assim se inaugurou o reinado do monarca Pedro V.
No governo, confirmado pelo novo monarca, achavam-se o duque de Saldanha na Presidência do conselho e na pasta da Guerra; no Reino Rodrigo da Fonseca Magalhães; na Justiça Frederico Guilherme; na Fazenda Fontes Pereira de Melo; na Marinha visconde de Atouguia. Fontes tinha também a pasta das Obras Públicas, e Atouguia a dos Estrangeiros. Eram ainda os representantes da revolução, ou antes da revolta de 1851. E era com eles que o rei tinha de governar, enquanto os factos não lhe aconselhassem ou impusessem uma mudança de ministério. O primeiro acto, praticado por Pedro V, foi a instituição da Caixa Verde. Dois dias depois da aclamação, aparecia na folha oficial este anúncio na última página do periódico:
  • O Camarista de Semana previne o Público que do dia 20 do corrente mês em diante, Sua Magestade El-Rei não receberá requerimentos, nem papéis alguns na rua, e que para este fim se mandarão no Real Paço das Necessidades, junto à portaria do antigo convento, colocar duas caixas para os receber; uma, pintada de azul, destinada aos requerimentos que tendam a obter socorros ou esmolas; outra, pintada de verde, para as súplicas dirigidas a outros fins. Igualmente se previne que todos os sábados as pessoas interessadas ali poderão ir receber o despacho das suas súplicas do meio dia às duas horas da tarde. Paço das Necessidades, 18 de Setembro de 1855, conde de Linhares, Camarista de Semana.
Estava aqui a origem dos maiores dissabores que o rei havia de ter por muito tempo, enquanto a Caixa não fosse retirada, e das desavenças constantes entre ele e os seus ministros. O rei não despachava sem ler primeiro os decretos, demorando, por vezes, alguns para os estudar, pedindo informações que o habilitassem a dar uma referenda conscienciosa. Dez dias depois de ter principiado o seu governo escrevia Pedro V a Rodrigo da Fonseca:
  • Como ontem ao despacho não houvesse o tempo para lê-lo (um regulamento) e como eu não quero poder acusar-me de ter assinado um papel sem o ter lido, fiquei com ele até esta manhã; que só agora achei o tempo para lê-lo.
E a Saldanha dizia:
  • Eu não desejo autorisar medida alguma que eu não tenha estudado. Desejo sempre estar seguro e em plena consciência do que faço.
A Caixa Verde funcionava sem novidade. Em 25 de Setembro dizia o rei Pedro V a Rodrigo:
  • Entre os papéis que hoje recebi da Caixa achei uma representação sobre a gerência administrativa da Santa Casa da Nazaré. Se os factos são verdadeiros merecem algum remédio, sobretudo o corte de pinhais de que nela é acusada a Administração.
Faria Rodrigo obra pelas denúncias anónimas lançadas na Caixa Verde? Não é de crer. A maior parte dos decretos vinham glosados pelo rei. Os dois de 28 de Novembro, um aprovando os novos estatutos dos sócios do Montepio das Secretarias do Estado e outro a Caixa de Socorros Mútuos voltavam acompanhados de comentários feitos por seu punho. Esta interferência activa do rei nos negócios públicos, o desejo de os estudar, provinham principalmente da educação que recebera. O rei, era na sua principal feição, um escolar, trabalhando no seu gabinete e tendo prazer no esforço da sua inteligência. Aos dezoito anos sabia tudo, porque muito lhe tinham ensinado e muito também tinha aprendido nos livros, nas viagens e no trato com os homens eminentes do seu país.

Deixando a mestra D. Maria Carolina Mishisch, fora em 5 de Agosto de 1847, aos 10 anos, entregue aos cuidados de Martins Bastos que lhe ensinou latinidade. Dirigiu-lhe toda a educação o visconde da Carreira, como seu aio, e cujos serviços Pedro retribuiu com a maior dedicação. Entregue ao compêndio de gramática latina do padre António Pereira, deu logo a primeira lição, sabida na ponta da língua, no dia 11 de Agosto. Já no meado de Outubro, decorridos apenas dois meses de gramática, o infante Pedro estava a braços com o Eutropio e com o Phedro. O professor extasiase perante a inteligência do aluno e escreve:
  • … afirmo que, nem quando estudei nas aulas, nem depois que exerço o magistério, encontrei um talento tão abalisado, uma aplicação tão constante, uma vontade tão pronta, uma índole tão dócil, uma gravidade e modéstia que se lhe possa assemelhar, de modo que mais parecia um homem de edade madura do que um menino de nove anos e dez meses.
Mal podia sonhar o mestre que o discípulo se ria das suas lucubrações alfarrábicas e tabacais. É verdade que para o consolar, o discípulo o presenteara com um capote finíssimo de pano azul ferrete, gola de veludo, e forrado de orleans, com seus cordões mui compridos, e borlas de retrós preto e tudo na maior perfeição. Também lhe adoçara a boca com uma condeça de doces muito finos e primorosos, uma pouca de anona muricata, duas excelentes maçãs e seis penas de escrever. E assim fazendo progressos na língua latina, chegou Pedro ao fim de 1847».
In Júlio de Vilhena, D. Pedro V, O Seu Reinado, Academia das Ciências de Lisboa, DP 664V55, 610415, 4755, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.

Cortesia da U de Coimbra/JDACT

quinta-feira, 10 de maio de 2012

D. Pedro V e o seu Reinado. Júlio de Vilhena. Parte 2. «Não se esquecia de si nem mesmo naquele momento, pondo em relevo que fora ele quem contribuirá principalmente para a época de paz que assinalara a sua Regência. Nem Saldanha que tinha feito a obra de 1851, nem Rodrigo que pacificara os ânimos rebeldes protestaram contra as afirmações do Regente»


Cortesia de purl

«Fernando II foi o primeiro a falar. E com a sua voz nasalada disse no meio do geral silêncio:
  • «Mas o que posso declarar, à face dos Representantes desta ilustre Nação, é que jamais perdi de vista o que reputei o primeiro dos meus deveres: fazer amar o sistema representativo que nos rege; manter os direitos e as garantias dos cidadãos portugueses; apagar até os últimos vestígios de nossas passadas dissensões; e por este meio conservar sempre viçosas as esperanças de um Reinado feliz, caro ao povo português, e durante o qual se consolidem as nossas instituições livres; se arreigue profundamente a confiança na sua duração e no carácter leal e generoso do nosso Monarca. Da índole com que a Divina Providência dotou este Príncipe, e dos esforços empregados por Sua Augusta Mãe, de Saudosa Memória, e por mim, devo esperar que o Senhor Dom Pedro Quinto merecerá sempre o amor e o respeito dos seus súbditos; que Sua Majestade Será o primeiro mantenedor dos seus foros e liberdades; que dentro da esfera das Suas prerrogativas constitucionais concorrerá poderosamente para sustentar os direitos da Nação, a sua glória e dignidade, promovendo o maior desenvolvimento da riqueza e fortuna pública, de que essencialmente depende o esplendor do Trono».
Não se esquecia de si nem mesmo naquele momento, pondo em relevo que fora ele quem contribuirá principalmente para a época de paz que assinalara a sua Regência.
Nem Saldanha que tinha feito a obra de 1851, nem Rodrigo que pacificara os ânimos rebeldes protestaram contra as afirmações do Regente. Era certo que Fernando II, se não apagara os últimos vestígios das passadas dissensões, tinha para isso contribuído grandemente, à uma porque esquecera os próprios ressentimentos das ofensas recebidas, que muitas eram e graves a ponto de lhe bulirem na honra doméstica, à outra porque desinteressando-se das coisas públicas e presando sobretudo as suas comodidades, o que se conformava com o seu temperamento abúlico, entregara a Rodrigo da Fonseca, o mais inteligente, o mais hábil, o mais simpático e o mais útil de todos os desmoralizados políticos, a vida inteira da Nação. E este afagando uns, corrompendo outros com dádivas e promessas, pregando o perdão recíproco das antigas ofensas consolidava a obra que o Regente agora atribuía imodestamente ao seu labor.
Pedro V, tomando em seguida a palavra, começou por declarar que se reputava feliz de ser Rei deste povo, que tão heroicos feitos praticou e tantos sacrifícios fez pela restauração e defensa da Monarquia Constitucional e das liberdades pátrias. Depois agradeceu ao Regente, cujos extremosos desvelos de amor e benevolência paternal tanto suavizaram a perda de sua saudosa e respeitável mãe, e cuja sabedoria e ilustração encheu o país de extraordinários benefícios. Por fim, depois de ter prestado o juramento, ajoelhado e comovido, faz o seu programa de governo:
  • «Cumprindo o juramento que Dei, o Meu maior empenho consistirá em Promover o bem da Nação, cujo sólio Ocupo. Fiel aos princípios do Governo Representativo, e Respeitando os sagrados preceitos da Lei Fundamental do Estado, Velarei pela sua sincera execução. Farei manter, quanto em Mim caiba, os Direitos, as Garantias, e a Liberdade dos cidadãos portugueses. Empenhar-Me Hei, dentro da esfera das prerrogativas Reais, em promover todos os meios da pública prosperidade. Espero que as Cortes da Nação continuem a cooperar com o Meu Governo, e a prestar-lhe o auxílio necessário, para realizar os benefícios de que o povo carece, afim de gozar das vantagens da civilização, e de colher o fruto dos trabalhos úteis de que provêm a sua felicidade e a glória do Trono. Oxalá que o Reinado que hoje começa obtenha as bênçãos do Todo-Poderoso; que os povos desta Monarquia, que ainda hoje se estende a diversas partes do mundo, possam bem dizer o seu Monarca e o seu Governo; que a Justiça e a Liberdade reinem comigo, que só Posso Considerar-me feliz pela felicidade de todos».
Eram sinceras as palavras do novo Rei: fazer a felicidade de todos, trazer contente e muito ligado a si o seu povo, de modo que gozasse e sentisse a sua afeição, foi sempre essa a norma do seu procedimento. Terminou a solenidade o Cardial Patriarca, aceitando em nome das Cortes o juramento prestado, e não lhe esquecendo, como chefe da igreja lusitana e interpretando o sentir da população católica, de invocar em favor do Rei o auxílio da Divina Providência e o patrocínio da imaculada Virgem, mãe de Deus, especial protectora do Reino e da augusta casa de Bragança. Era a unção religiosa ministrada ao Rei pelo verbo do mais graduado chefe da igreja nacional. E erguendo a voz e o gesto bradou, pedindo que todos bradassem com ele:
  • «Viva e Reine por muitos  e ditosíssimos anos o muito Alto, muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal e Senhor Dom Pedro Quinto: Viva e Reine por muitos e ditosíssimos anos o muito Alto, muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal o Senhor Dom Pedro Quinto: Viva e Reine por muitos e ditosíssimos anos o muito Alto, muito Poderoso e Fidelíssimo Rei de Portugal o Senhor Dom Pedro Quinto».
Cortesia de imprensauniversidadedecoimbra

Das Cortes, e sempre no meio das maiores ovações, o Rei dirigiu-se à Patriarcal, onde assistiu a um solene Te-Deum, e voltando deste acto religioso veio ao Terreiro do Paço, onde o presidente e vereadores da Câmara Municipal lhe fizeram entrega das chaves da cidade.
Era meio-dia; o céu estava encoberto, corria alguma aragem; o tempo sombrio. A uma e meia chuviscava. Às três nublado e bafagem. O Rei, visivelmente incomodado, recolheu ao Paço, ficando a recepção oficial para o dia seguinte. A alegria em toda a cidade, e pode dizer-se que em todo o país, era ruidosa e sincera. Tudo queria festejar a aclamação.
Na véspera o Regente elogiara os Caixas gerais do contracto do sabão e tabaco por passarem cartas de perdão a todos os réus, presos nas diferentes cadeias do Reino e Ilhas por crime de contrabando. Também ofereceram 4 000$000 réis para esmolas aos pobres e desvalidos do concelho de Lisboa.
O Rei concede diferentes mercês aos seus melhores servidores. Em 16 o duque da Terceira é nomeado primeiro ajudante de campo e José Jorge Loureiro, ministro de estado honorário e marechal de campo, é também nomeado ajudante. O barão de Sarmento, que havia sido elevado a visconde ainda pelo Regente, e era dele ajudante de campo, foi nomeado gentil homem da real câmara. O Rei não se esquecia do amigo e confidente da sua infância.
Dias depois concedia-se ao visconde de Carreira o mesmo título, em mais uma vida, na pessoa de seu sobrinho, Luís Bravo de Abreu e Lima. A subscrição, aberta em Lisboa para celebrar a aclamação, entre alguns comerciantes nacionais e estrangeiros na importância de 5 095$000 réis, foi assim distribuída: 4 000$000 destinaram-se à edificação de uma casa de asilo para a infância desvalida no lugar do Campo Grande, e o resto e o mais que se pudesse alcançar, em partes iguais para o Hospício das Irmãs da Caridade e para a nova casa de asilo que se projectava criar no sítio do Barreiro.
Em 20 de Outubro foi decretada a amnistia geral.
Assim se inaugurou o reinado de Pedro V (9)In Júlio de Vilhena, D. Pedro V e o seu Reinado, DP 664 V55 610415, 4 de 07 de 1955, Academia das Ciências de Lisboa, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921.


Cortesia da AC de Lisboa/JDACT