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sábado, 8 de outubro de 2022

A Gruta do Escoural e a visita pública. Expectativas e frustrações no cinquentenário da descoberta. António Carlos Silva. «Francisco Porteiro orientava o melhor que podia e sabia os visitantes, munido do seu inseparável petromax e recorrendo à memória das escavações e das conversas com Farinha Santos»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O acompanhamento dos visitantes seria desde os primeiros tempos assegurado por Francisco Porteiro, trabalhador rural residente no Escoural e colaborador nas escavações de Farinha Santos. Abrigando-se num casebre de apoio à antiga pedreira, foi ficando como guarda da gruta, pago inicialmente pelas verbas sobrantes da arqueologia ou pelas gratificações dos próprios visitantes, para finalmente, em data que desconhecemos, ter integrado os quadros da Junta Distrital, de onde transitaria para o Instituto Português do Património Cultural (IPPC), após a fundação deste organismo em 1980. Ainda que as suas funções fossem essencialmente de vigilância, na ausência de outros meios e pese embora a sua falta de preparação, Francisco Porteiro orientava o melhor que podia e sabia os visitantes, munido do seu inseparável petromax e recorrendo à memória das escavações e das conversas com Farinha Santos. Localizada em propriedade privada mas classificada como Monumento Nacional logo no ano da sua descoberta (Decreto 45 327 de 25 de Outubro de 1963), podemos dizer que a gestão e salvaguarda do sítio, pelo menos até à criação do IPPC em 1980, se baseou quase em exclusivo na estreita relação pessoal mantida entre o arqueólogo Farinha Santos, entretanto já sem ligação institucional ao Museu Nacional de Arqueologia, e o guarda Francisco, pago pela Junta Distrital de Évora.

A situação apenas se alteraria com a criação do IPPC em 1980 e a instalação do respectivo Serviço Regional de Arqueologia do Sul (SRAS), com sede em Évora, dirigido por Caetano Melo Beirão. Era então assistente na recente Universidade de Évora, Jorge Pinho Monteiro que, conjuntamente com Mário Varela Gomes e o próprio Farinha Santos, havia retomado em 1977, os estudos da arte rupestre da Gruta do Escoural, com o apoio da CâmaraMunicipal de Montemor-o-Novo. Quer por via da Universidade, a cuja colaboração Caetano Beirão recorria na falta de meios próprios, quer pelas relações de amizade e trabalho que já mantinha com aqueles colegas, em particular com Mário Varela Gomes, a Gruta do Escoural, tornar-se-ia um dos sítios prioritários na actuação do Serviço Regional de Arqueologia do Sul. Por sua iniciativa, tirando partido da ocupação da Herdade da Sala por uma cooperativa local, os terrenos onde se situava a Gruta do Escoural, incluindo o chamado santuário rupestre exterior e o povoado calcolítico entretanto identificado pelos colaboradores de Farinha Santos, foram então vedados (1981). Por outro lado, a situação do guarda Francisco seria clarificada, sendo este integrado nos quadros do IPPC e passando a responder administrativamente perante os serviços de Évora». In António Carlos Silva, A Gruta do Escoural e a visita pública. Expectativas e frustrações no cinquentenário da descoberta, Almansor, Revista de Cultura n.º 1, 3.ª série, 2015, Wikipédia.

Cortesia da Revista Almansor/JDACT

 JDACT, Gruta do Escoural, Alentejo, Conhecimento, Cultura, Arqueologia,

terça-feira, 27 de setembro de 2022

A Gruta do Escoural e a visita pública. Expectativas e frustrações no cinquentenário da descoberta- António Carlos Silva. «Teve particular sucesso entre os visitantes da época, a exposição naquele Museu de uma grande placa de calcite proveniente da Gruta do Escoural, mostrando dois esqueletos humanos fossilizados, associados a vasos cerâmicos completos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Estão amplamente registadas as circunstâncias da descoberta há meio século (1963) de uma cavidade natural na Herdade da Sala, que ficaria conhecida como Gruta do Escoural, topónimo que recebeu da localidade vizinha de Santiago do Escoural (Santos 1964). O seu potencial arqueológico, reconhecido quase de imediato, graças à presença superficial de numerosos vestígios de uma necrópole pré-histórica, gerou grandes expectativas locais e regionais que viram neste achado um prometedor foco de futura atracção turística. Com efeito, à época em que estes eventos ocorreram, assistia-se na região de Évora a um surto de interesse pelos monumentos arqueológicos, promovido e apoiado pela própria Junta Distrital, que os reconhecia como factores potenciadores de turismo e desenvolvimento (Paço 1963). Data dessa mesma década, por exemplo, o apoio da Junta Distrital às investigações na Anta Grande do Zambujeiro, no Castelo do Giraldo ou mesmo no Cromeleque dos Almendres, monumentos que hoje fazem parte das rotas turísticas da região. A descoberta da Gruta do Escoural, largamente noticiada na imprensa regional, foi desde logo considerada por muitos, como uma nova atracção turística da maior relevância. Não admira pois que, interrompido o indiscriminado e abusivo acesso público verificado nos primeiros dias, iniciados os trabalhos de arqueologia promovidos pelo Museu Etnológico de Belém (actual Museu Nacional de Arqueologia) e noticiadas as primeiras saídas de materiais arqueológicos para Lisboa, a controvérsia se tenha instalado. Em boa parte decorrente de conflitos pessoais e institucionais que nada tinham a ver com esta nova descoberta, esta situação geraria uma inusitada polémica entre o Diretor do Museu, Manuel Heleno, e as autoridades regionais, que tive já oportunidade de relatar circunstanciadamente. Ainda hoje na vila do Escoural, meio século depois destes eventos, persiste alguma incompreensão ou mesmo frustração face ao contraste entre as elevadas expectativas então geradas e os fracos resultados práticos sentidos pela população. Neste trabalho, em que fazemos o balanço do mais recente programa de valorização da Gruta do Escoural promovido pela Direção Regional de Cultura do Alentejo, procuraremos recordar o passivo deste já longo processo, reflectindo sobre os motivos da frustração das expectativas iniciais, e perspectivar, através de propostas concretas, possíveis vias para finalmente colocar este património ao serviço do desenvolvimento local.

A Gruta do Escoural e a visita pública, da descoberta até aos recentes trabalhos de requalificação (1963- 2009)

Farinha Santos, o arqueólogo a quem Manuel Heleno confiou a missão de intervir no Escoural em nome do Museu Etnológico, é parco em informações sobre os trabalhos arqueológicos que dirigiu na Gruta e que se prolongaram nesta primeira fase, por diversas campanhas, pelo menos até 1968. Apoiados financeiramente pela Fundação Gulbenkian, nesses trabalhos participaram essencialmente trabalhadores rurais do Escoural, além de um ou outro técnico do Museu. Uma vez realizado o reconhecimento geral e a topografia da nova cavidade, Farinha Santos iniciou a investigação da vasta necrópole neolítica, com remoção sistemática da espessa placa calcítica que embalava a generalidade das deposições funerárias, seguida da escavação e crivagem dos sedimentos subjacentes, quase sempre até à rocha de base. Os numerosos materiais assim recolhidos, osteológicos, cerâmicos e líticos, eram transferidos para o Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia no final de cada campanha, tendo alguns deles sido rapidamente expostos, talvez como resposta às críticas regionais que não viam com bons olhos, a saída daquele espólio para Lisboa. Teve particular sucesso entre os visitantes da época, a exposição naquele Museu de uma grande placa de calcite proveniente da Gruta do Escoural, mostrando dois esqueletos humanos fossilizados, associados a vasos cerâmicos completos.

Apesar de encerrada ao público durante esta fase da investigação, a Gruta foi regularmente visitada, especialmente após a identificação da arte rupestre paleolítica, por arqueólogos ou outros especialistas, alguns dos quais estrangeiros, situação que ocasionando algum movimento na vila, mais aumentaria a expectativa futura. Após a aposentação de Manuel Heleno, vários indícios apontam para uma melhoria na relação entre Farinha Santos e as entidades locais. Em 1967 este arqueólogo profere uma conferência em Évora sobre a Arte Rupestre do Escoural, colaborando também na preparação da nova sala de arqueologia do Museu Regional. Inaugurada em 1970 no dia internacional dos Museus, incluía uma pequena selecção de materiais provenientes das suas escavações e cedidos pelo Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia. Não temos dados concretos sobre as datas e condições da instalação das primeiras estruturas que permitiriam a visita pública à Gruta do Escoural, mas tudo aponta para que tal se tivesse verificado no final da década de 60, com trabalhos promovidos e financiados pela própria Junta Distrital. Nessa altura foi construída uma escada de alvenaria vencendo o desnível entre o exterior e a grande sala de entrada e instalados estrados de madeira assentes em grossos barrotes de pinho tratado com pês, os quais facilitavam a circulação nas principais galerias, tendo ficado ao serviço até 2009, com pequenas reparações». In António Carlos Silva, A Gruta do Escoural e a visita pública. Expectativas e frustrações no cinquentenário da descoberta, Almansor, Revista de Cultura n.º 1, 3.ª série, 2015, Wikipédia.

Cortesia da Revista Almansor/JDACT

JDACT, Gruta do Escoural, Alentejo, Conhecimento, Cultura, Arqueologia,

quinta-feira, 3 de maio de 2018

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Ligado desde cedo ao comércio do Mediterrâneo, a este pequeno porto atlântico chegaram também os ecos e as consequências dos grandes acontecimentos que ali se desenrolavam»

jdact

«(…) Quem hoje passa pela Rua Augusta também está longe de imaginar que, instalado no rés do chão da sede do Millennium BCP, no Núcleo Arqueológico da Rua dos Correeiros, se escondem séculos de histórias e vivências, e a soleira da porta onde o pescador arranjava as suas redes. Aqui, o passado chega até nós não através de histórias contadas à lareira, mas de um conjunto de intervenções arqueológicas, iniciadas em 1991. Devido a um projecto de remodelação que pretendia criar garagens subterrâneas num edifício pombalino, a existência de vários vestígios levou a que o espaço fosse alvo de uma escavação integral e musealizado. Após a conclusão, em 1995,o novo Núcleo Museológico (doravante NARC) abriu as portas e as histórias ao público.
O NARC é hoje um sítio a não perder na cidade de Lisboa, onde os vestígios arqueológicos e as vitrinas recheadas de peças contam a História daquele local, tão diferente do que já foi! Na verdade, olhando à volta para a Baixa Pombalina e as suas ruas geometricamente organizadas, poucos conseguem imaginar o profundo vale que aqui se estendia há dois mil anos, escavado por duas ribeiras que confluíam junto ao actual Rossio e se juntavam a um braço do rio, uma pequena enseada do Tejo. Sobre o leito encanado desses cursos de água descem hoje as avenidas da Liberdade e Almirante Reis, e o vale separa as colinas hoje chamadas do Castelo e de São Francisco, tendo perdido a sua profundidade depois de séculos de aterros e da construção de uma nova cidade.
Nas margens deste esteiro estendiam-se as praias onde, desde o século VIII a. C., aportaram e se estabeleceram vários povos oriundos do Mediterrâneo Oriental e do Norte de África, na sua demanda por metais que pudessem comerciar e exportar para várias zonas do Mediterrâneo. Assim surge o nome fenício de Allis Ubbo, que significa pequena enseada, descrição apropriada para este porto seguro onde Fenícios e  Cartagineses se fixam e abrem os seus entrepostos comerciais. Nas praias fluviais do braço do rio vão também criar uma pequena comunidade, um núcleo de pescadores vivendo em simples habitações, que surgem à nossa frente quando descemos ao piso subterrâneo do NARC. Aqui as casas têm planta rectangular, e as quatro habitações que foram escavadas encostam-se umas às outras, partilhando paredes comuns. Hoje apenas conseguimos ver a sua base em pedra, uma vez que as paredes, construídas em canas e barro, há muito desapareceram. Também o restante casario fica entregue à nossa imaginação, estendendo-se para além das fundações que rodeiam a área arqueológica. No interior das casas, ao centro, pequenas lareiras de seixos rolados iluminavam e aqueciam os habitantes, que ali cozinhavam e se reuniam à luz da fogueira.
As peças do dia a dia desta comunidade, incluídas na exposição, reflectem bem as actividades ali desenvolvidas, como os pesos utilizados nas redes de pesca, os grandes potes de cerâmica para armazenar alimentos ou os pequenos fragmentos de taças, como aquela onde se vê gravado o pequeno barco fenício que hoje dá a imagem ao Núcleo Arqueológico.
Ligado desde cedo ao comércio do Mediterrâneo, a este pequeno porto atlântico chegaram também os ecos e as consequências dos grandes acontecimentos que ali se desenrolavam. O crescimento de um novo Império e as guerras pelo domínio do comércio marítimo, a destruição de Cartago e o fim da influência púnica chegam à Península pela mão das Guerras Púnicas e de um novo conquistador, o Império Romano.
Em 138 a.C., o general romano Décimo Júnio Bruto conquista a região e estabelece-se no topo da actual colina do Castelo. Tem início um próspero período para a nova cidade romana de Felicitas Iulia Olisipo, que adquire grande importância comercial pela sua posição estratégica no comércio marítimo entre o mar Mediterrâneo e o Norte da Europa. Relevante para a prosperidade da cidade foram também os recursos naturais da região, que permitiram o desenvolvimento de uma importante indústria de conservas de peixe, ainda hoje tão próximas da nossa gastronomia. A abundância de peixe e sal e a proximidade com o rio fizeram surgir ao longo da costa de Olisipo dezenas de fábricas que se dedicavam a produzir variados tipos de conservas, desde o simples peixe salgado às pastas e molhos como o garum e o liquamen.
Uma das bases da alimentação romana, os produtos piscícolas eram aproveitados por uma indústria muito desenvolvida que levava o pescado a todos os romanos que não viviam perto da costa e com acesso ao melhor peixe fresco. Sem acesso a conservantes artificiais ou frigoríficos, maravilhas do século XX, a salga foi, durante milénios, a única forma de conservar o peixe e a carne». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Muitos séculos tinham passado desde que os grandes barcos a remos chegavam e partiam daquelas costas repletos do cobre e estanho que os locais exploravam rio acima»

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«(…) Depois de muitos anos afastado da vida da cidade, abre hoje os seus braços e recebe portugueses e estrangeiros de igual forma, mostrando-se no seu melhor. Quem sabe, alguns poderão ouvir ainda os apressados passos de dona Mécia a caminho das cozinhas, sons de um passado longínquo que continuam a ecoar nestas ruas e paredes tão antigas.

O núcleo arqueológico da Rua dos Correeiros. Um bolo de camadas sob a sede de um banco
O Sol descia lentamente sobre o rio e levava consigo os últimos raios de luz de um dia de trabalho árduo. Sentado à porta da sua cabana, o pescador apressa as mãos e tenta dar os últimos pontos na rede que estava a remendar. Se não conseguisse acabar a tarefa enquanto ainda havia sol não poderia voltar ao rio na manhã seguinte, o que significaria mais um dia de trabalho perdido. Do interior da cabana chegavam os ruídos típicos de uma família na azáfama das tarefas domésticas. Sobre o barulho das panelas e do almofariz sobressaía a discussão dos mais novos sobre quem acenderia o lume na pequena lareira escavada no centro da casa, e os resmungos do vencido, a quem cabia a tarefa de ir buscar água para começar a fazer o jantar. A falta de peixe fresco causada pelas redes estragadas e pela paragem forçada do pescador obrigaria a uma refeição de peixe seco, o que, por sua vez, reduziria os ganhos da venda deste produto no mercado da povoação. Mas enfim, eram os contratempos habituais da vida de pescador, e certamente que alguma outra família cederia uns quantos mexilhões frescos para ajudar a compor a refeição, como ele próprio tantas vezes fizera.
Na pequena comunidade de pescadores da praia, a proximidade e a amizade cresciam através das paredes partilhadas das cabanas e do espírito de entre ajuda, ligação esta que não se estendia ao restante núcleo da povoação que habitava o topo da colina e se dedicava ainda ao comércio dos metais com os povos de longe. Concentrado no ritmo da agulha que rapidamente passava pelas malhas da rede, o pescador relembrava as histórias que desde miúdo ouvia contar aos mais velhos, sobre as gerações mais antigas e a grande viagem que as trouxera até à pequena enseada onde viviam desde então. À volta da lareira, reviviam as aventuras dos antigos navegadores que tinham saído do pequeno mar que banhava as costas da Fenícia e atravessado o estreito, rumo a um desconhecido oceano e aos famosos metais da península.
Muitos séculos tinham passado desde que os grandes barcos a remos chegavam e partiam daquelas costas repletos do cobre e estanho que os locais exploravam rio acima. Nos seus dias, esses comerciantes eram já ama minoria entre uma população dedicada ao trabalho do campo, à pesca e à olaria, que desenvolvera a cidade e assim encontrara uma alternativa às épocas de crise que, mesmo por mar traziam conflitos e a queda do valor dos metais, até então a base das colónias fenícias. Da soleira da sua porta, o pescador não consegue imaginar que novas mudanças a sua aldeia ainda irá sentir nos próximos anos. Na paz da sua enseada, muito menos conseguirá imaginar os séculos de conquistas e os impérios que por ali passarão e mudarão completamente a paisagem daquela pequena colina que um dia se chamará Lisboa». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Em dias de sol também é comum ver os actuais moradores, deste local deitados sobre as ruínas, dormindo grandes sestas enquanto ignoram os visitantes. Os gatos e os pavões do Castelo são uma das grandes atracções…»

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«(…) No Núcleo Arqueológico da Praça Nova, a tarefa de imaginar um passado distante é facilitada pelas placas informativas e pela reconstituição de algumas estruturas que ali foram identificadas durante a intervenção arqueológica. Aqui foram escavadas estruturas habitacionais da Idade do Ferro ocupadas entre os séculos VII a. C. e II a. C.. A profundidade e que foram encontrados e a sua fragilidade leva a que estejam protegidas por uma estrutura que inclui um quadro explicativo das diversas unidades estratigráficas, as camadas de terra e materiais arqueológicos que se foram sobrepondo ao longo de diferentes épocas. O período romano não deixou nesta área quaisquer estruturas, apenas uma grande quantidade de material cerâmico que está exposto no Núcleo Museológico. Foi preciso esperar até ao século XI para que a Praça Nova se tornasse um bairro habitacional islâmico organizado por diversas ruas rodeadas de casas, uma das quais se prolongava pelo que é hoje o parque de estacionamento do Castelo em direcção ao castelejo. outra importante rua, que funcionou até ao terramoto de 1755, fazia a ligação entre a Porta do Moniz e a antiga mesquita, que estaria sob a actual Igreja de Santa Cruz do Castelo.
Deste bairro restam duas casas que foram reconstituídas para que os visitantes possam ter uma ideia de como era uma típica casa islâmica, organizada em torno de um pátio central pavimentado. Aqui ainda é possível sentir o aroma das ervas aromáticas, que, além de melhorar o ambiente, eram utilizadas na confecção das refeições da família. As divisões à esquerda estavam ocupadas pelas cozinhas, e à direita encontravam-se espaços de armazenamento e as latrinas. Ao fundo, a principal divisão da casa era o salão, a que se acedia por uma porta dupla e onde se faziam as refeições. De cada lado desta divisão estavam os quartos, ou alcovas, que estariam separadas por biombos ou cortinas para criar um ambiente mais acolhedor e reservado. Em ambas as casas ainda é possível ver o chão pavimentado a argamassa e o que resta dos estuques brancos e vermelhos que decoravam as paredes com motivos geométricos e representações do Cordão da Felicidade ou da Eternidade. Depois da conquista cristã, parte deste bairro foi reutilizada, enquanto uma larga área foi demolida para dar lugar ao Palácio dos Bispos, um enorme edifício que ocuparia a maior parte deste espaço. No século XVI, este palácio passou para os condes de Santiago, até ter sido praticamente destruído com o terramoto de 1755. Já no século XIX aqui funcionou uma cordoaria pertencente à Casa Pia de Lisboa. As obras da década de trinta desaterraram a área e rebaixaram o piso, destruindo muitas das estruturas ali enterradas. Do grande palácio, organizado em torno de dois pátios, pouco resta hoje. Conhece-se apenas uma entrada e uma pequena parte do piso térreo ocupada por arrumos e despensas. As estruturas de várias épocas que foram sendo identificadas revelam o reaproveitamento feito nas várias remodelações realizadas entre os séculos XII e XVIII. Numa das divisões é possível ver como estas sucessivas obras criaram três tipos de pavimento diferentes, desde o simples empedrado de seixos rolados às tijoleiras. Protegido por uma pala metálica, um dos pisos deste palácio revela um luxo caraterístico dos finais do século XV, formando um mosaico de pedras multicolores com um motivo central em estrela. Em dias de boa luz, este colorido conjunto é reflectido na pala, uma engenhosa solução que permite uma melhor observação do desenho.
Em dias de sol também é comum ver os actuais moradores, deste local deitados sobre as ruínas, dormindo grandes sestas enquanto ignoram os visitantes. Os gatos e os pavões do Castelo são, aliás, uma das grandes atracções dos dias de hoje, competindo para ver quem é mais fotografado. Entre os sustos e as gargalhadas causados pelo grito de pavões empoleirados nos locais mais inusitados e as festas dadas aos felinos que ali se passeiam, as longas horas de esplanada ou os visitantes que se deliciam com o sol lisboeta no fosso e nos miradouros, o Castelo de São Jorge é hoje um local cheio de vida e animação. O ambiente de um passado em que por ali viviam e passavam inúmeras pessoas é também animado pelas várias actividades organizadas pelos Serviços Educativos, como as reconstituições históricas, demonstrações de armas, as danças antigas e até exposições de aves de rapina. Tudo isto faz do Castelo de São Jorge um agradável local de passeio e visita obrigatória para todos quantos queiram conhecer melhor o passado de Lisboa. No topo da colina, escondida debaixo dos nossos pés, encontra-se a origem desta cidade, a génese de uma História de muitos séculos e que ainda tem alguns segredos para revelar». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «A menos que optasse por entrar pela “pequena Porta da Traição”, tão famosa nos castelos portugueses e que ainda hoje se pode ver aberta na muralha da segunda praça»


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O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) Destacando-se dentro do castelo, o castelejo é hoje uma imponente visão. De origem islâmica, foi construído no século XI mas as sucessivas reconstruções cristãs não permitem hoje saber com exactidão a cronologia de cada torre, pano de muralha ou escada. Construído como último reduto de uma alcáçova invadida, acabou por nunca exercer a sua função original mas toda a sua construção faria dele um local muito difícil de conquistar. Quem tentasse conquistar o castelejo teria de começar por dar a volta ao edifício, já que a entrada actual e a ponte de acesso foram obra dos anos 30. Na verdade, o invasor teria de entrar pelo lado direito e, além de transpor o fosso e conseguir passar a ponte levadiça, teria ainda de conquistar a porta aberta na barbacã, uma primeira muralha equipada com seteiras que protegia o lado mais acessível do castelejo. Uma vez lá dentro, ainda era necessário conquistar mais uma porta para entrar no castelejo, e esta estava do outro lado da fortaleza, pelo que havia que dar novamente a volta ao edifício.
Chegando à entrada para o coração do castelejo entrava-se num pequeno pátio e ainda seria preciso transpor uma terceira porta para conseguir entrar numa das duas praças que compunham o castelejo. Todo este processo seria feito debaixo de uma chuva de setas, pedras e qualquer outro objecto à mão de quem defendia a praça do topo das torres e ao longo do adarve, o caminho que percorria as muralhas. A divisão do interior do castelejo em duas praças permitia um maior controlo, já que possibilitava uma melhor comunicação entre as várias torres e criava ainda mais uma dificuldade ao invasor, que teria de abrir mais uma porta para chegar à segunda praça. A menos que optasse por entrar pela pequena Porta da Traição, tão famosa nos castelos portugueses e que ainda hoje se pode ver aberta na muralha da segunda praça.
O castelejo seria protegido por 10 torres que assumiam especial importância no lado da entrada para proteger a barbacã, e que eram a principal defesa do lado Norte juntamente com o declive acentuado da colina. O acesso a um ponto de água era assegurado por uma torre couraça, que estava afastada do corpo principal do castelo mas ligada a ele através de uma muralha. Esta torre tem hoje o nome de Torre de São Lourenço, e acabou por ser integrada da Muralha Fernandina do século XIV. Quem se detém na ponte de pedra vê à sua frente a Torre de Ulisses, ou Torre do Tombo, onde hoje funciona a Camara Obscura, um periscópio que permite ver a cidade a 360 e ao perto. À sua esquerda está a Torre do Paço, assim chamada pois ainda esteve integrada no paço real, tal como o edifício que preenchia o espaço entre as duas. É por isso que, hoje em dia, um olhar mais atento percebe que as ameias que as ligam são na verdade parapeitos das janelas que ainda restam deste edifício, que também chegou a albergar o Arquivo Régio.
À direita da Torre de Ulisses encontra-se a Torre de Menagem, a mais importante dos castelos medievais por ali estar hasteada a bandeira do seu senhor. Ali foi instalado, em 1779, o primeiro observatório Astronómico de Lisboa com o patrocínio de dona Maria I e da Academia das Ciências de Lisboa. No seguimento da Torre de Menagem estava a Torre da Cisterna, no canto do castelejo, onde ainda é possível ver a água que ali se armazena. Em todo este conjunto é impossível ignorar a magnífica vista sobre a cidade. Quem hoje atravessa os caminhos de ronda ou se aventura nas escadas da torre de São Lourenço tem a oportunidade de olhar para baixo e imaginar a cidade medieval encavalitada na colina, rodeada dos verdes campos, que, entretanto, foram sendo reclamados pela cidade e os seus habitantes». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Depois de um passeio pelas ruas do bairro, a entrada na zona monumentalizada faz-se junto à Casa do Governador, onde estão as bilheteiras. Passando os torniquetes, abre-se a grande Praça de Armas…»

jdact e wikipedia

O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) A antiga alcáçova encontra-se hoje como que dividida em dois, o bairro e a zona monumentalizada, por um muro que só foi construído depois do século XVII. No Largo do Chão da Feira, como que a dar as melhores boas-vindas a todos os que alcançam o topo da colina, ergue-se a muralha exterior que protegia ambos com a ajuda das suas torres semicirculares. A porta mandada construir por Maria II, devidamente protegida pela imagem do santo que dá o nome ao castelo, dá entrada para o bairro do castelo. Em tempos idos, esta chamava-se Porta de São Jorge e ficaria no alinhamento da muralha. O acesso à alcáçova islâmica fazia-se através de mais três portas principais. A Porta de Santa Maria da Alcáçova está hoje desactivada e protegida por uma grade, localizando-se junto ao palácio Belmonte, no outro lado do Largo do Chão da Feira. No lado Norte do Castelo, quem vinha da zona da Graça entrava pela Porta do Norte e pela Porta do Moniz, nome associado ao mítico herói da conquista de Lisboa. Ambas foram abertas na muralha que hoje rodeia a Praça Nova. O bairro de Santa Cruz do castelo ainda se encontra habitado e continua a manter a tradição da Lisboa antiga, completa com casas de porta aberta, crianças a brincar na rua ou simpáticas vizinhas à conversa de uma janela para a outra. Tudo isto a par de novas lojas e cafés onde os visitantes e turistas se deliciam com as especialidades portuguesas. Os nomes das ruas ainda reflectem vivências do passado, relembrando áreas funcionais que não estavam integradas no Paço, como os fornos e as cozinhas.
Depois de um passeio pelas ruas do bairro, a entrada na zona monumentalizada faz-se junto à Casa do Governador, onde estão as bilheteiras. Passando os torniquetes, abre-se a grande Praça de Armas e uma das melhores vistas sobre Lisboa. O que os numerosos fotógrafos que ali se concentram não sabem é que esta praça só foi construída no período filipino com a criação de uma grande plataforma que tapou e nivelou a forte inclinação da colina. Até esta altura tudo o que ali havia era colina vazia e uma grande inclinação em direcção ao vale. Hoje a praça é um agradável miradouro vigiado de perto pela imponente figura de Afonso Henriques, oferecido pela cidade do Porto para a comemoração do VIII centenário da Conquista de Lisboa.
No topo da praça, uma velha oliveira recebe o viandante e abre caminho para o Jardim Romântico, onde uma escadaria de altos degraus será o que resta da entrada monumental do Paço. Quem hoje percorre a rua de acesso ao castelejo, dificilmente consegue imaginar que todo este espaço já esteve preenchido pelo grande paço real. O enorme conjunto de edifícios, de que apenas restam às actuais instalações do museu, do café e do restaurante Casa dos Leões, estendia-se de um lado ao outro da área monumentalizada, desde o que é hoje o miradouro dos canhões até à fronteira com o bairro de Santa Cruz. Em frente à estátua de Manuel I, uma pequena fonte ocupa o antigo altar da capela de São Miguel, localizada no interior do palácio e do qual só restou a abside, hoje apetrechada com banquinhos para o visitante mais cansado.
Atrás dos edifícios, uma rua ladeia a muralha e os vários canhões ali dispostos fazem esquecer que toda aquela área estava ocupada pelos edifícios do paço. Hoje podemos ver os poucos arcos que deles restaram e, no restaurante Casa dos Leões, permanece a memória de uma sala onde Afonso V guardou dois exemplares daquele imponente animal. Nas janelas do conjunto ainda se veem as grades colocadas quando ali funcionou a prisão filipina.  De prisão a Núcleo Museológico, aqui se encontra hoje parte da colecção recolhida ao longo das intervenções arqueológicas que decorreram no castelo entre 1996 e 2008. A entrada no museu faz-se através da sala ogival, onde se pode ver uma grande reprodução da Lisboa quinhentista e tentar adivinhar que edifícios ainda se encontram de pé tantos séculos depois. A colecção destaca a vivência do período islâmico no castelo, com exposição na sala das colunas e, na sala da cisterna, pequenos recantos expõem peças pertencentes a realidades que vão desde a Idade do Ferro até ao pós-terramoto. Mais de mil anos de História concentram-se numa sala que é por si só uma longa viagem no tempo». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Após 1640 foi instalado no castelo o Recolhimento das Orfãs do Castelo, uma instituição que estava sobre a alçada do monarca e que se destinava a albergar raparigas nobres órfãs»

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O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) Durante o período filipino as tropas castelhanas recuperaram a sua vocação militar, transformando o palácio em prisão e instalando na alcáçova vários quartéis e o governador da cidade. Deste período data também o Hospital Militar, que ainda foi reactivado e utilizado após a Restauração. A utilização pelos militares vai marcar vários séculos de vida do castelo, que foi utilizado como quartel até ao século XX. Após 1640 foi instalado no castelo o Recolhimento das Orfãs do Castelo, uma instituição que estava sobre a alçada do monarca e que se destinava a albergar raparigas nobres órfãs. Este edifício ainda hoje dá o nome à Rua do Recolhimento que atravessa o bairro do Castelo. O antigo paço real poderá ter recuperado alguma da sua função residencial nesta altura, tornando-se o Palácio dos Marqueses de Cascais, detentores do cargo de alcaide-mor do castelo desde o reinado de João IV até 1769. Apesar de assim aparecer nomeado em algumas plantas da Lisboa pré-terramoto, não é certo que alguma vez os marqueses tenham lá vivido, pelo que é possível que apenas presos e militares passassem os seus dias no topo da colina. Apesar disso, em 1709 foi da praça de Armas que voou a Passarola de Bartolomeu Gusmão, a primeira máquina aerostática a efectuar um voo em todo o mundo.
O grande terramoto de 1755, que tantos danos causou em Lisboa, causou uma grande destruição ao antigo paço e aos vários palácios nobres da alcáçova, ao Hospital e ao Recolhimento. A destruição foi de tal modo grande que, por toda a área do bairro, a solução foi construir os novos edifícios sobre o entulho do terramoto, ou deixar ao abandono as áreas com maiores escombros. Apenas a Igreja de Santa Cruz foi reconstruída. Dentro do castelo, os quartéis foram reactivados e foi preciso esperar até aos anos 30 do século XX para rever várias estruturas que ficaram cobertas pelos novos edifícios que ali foram surgindo. Apesar dos largos anos que passou ao serviço do exército, a ideia do castelo como monumento representativo da História de Lisboa e não como um edifício funcional só é oficializada a 16 de Junho de 1910, quando Manuel II o eleva à categoria de Monumento Nacional. Foi o início de um ciclo de discussão pública em que várias vozes ligadas à História e cultura reclamam a reintegração, do Castelo de São Jorge na vida pública da cidade de Lisboa.
Uma das vozes mais importantes nesta requalificação foi Augusto Vieira Silva, olisipógrafo que muito se debruçou sobre este edifício, publicando em 1898 a primeira monografia sobre o castelo, que ainda hoje constitui uma importante fonte de conhecimento sobre a sua história. Em 1938 começam as obras realizadas pela Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, instituição do Estado Novo que se dedicava a recuperar o património português num contexto de glorificação do passado nacional integrado na máquina propagandista do regime. Com o objectivo de integrar o castelo nas comemorações dos 300 anos da Fundação e Restauração da Nacionalidade, as obras de recuperação foram incentivadas por Duarte Pacheco e, apesar do curto prazo de realização, transformaram por completo o conjunto do antigo paco real e do castelejo que foi depois aberto ao público. Através de um plano de demolições, escavações e reconstruções que recorreram a métodos hoje considerados pouco ortodoxos, todos os quartéis foram demolidos, assim como as várias dependências militares, ruas e habitações que preenchiam aquele espaço e o tornariam irreconhecível aos olhos do visitante actual. Depois de todo este percurso, quem hoje visita o Castelo de São Jorge descobre um monumento que reflecte vários séculos de alterações e remodelações mas que mantém os ecos de um passado distante em que daquelas ameias e torres se protegia e defendia uma cidade, importante para os vários povos que por aqui passaram». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

sábado, 5 de março de 2016

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «Aliás, foi na câmara da rainha Maria de Aragão, que acabara de dar à luz o futuro João III, que teve lugar a primeira representação de um auto de Gil Vicente»

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O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) Os vestígios arqueológicos dizem-nos que o período islâmico assistiu ao renascer da função militar e civil desta área, a alcáçova de Uxbuna, onde estavam instalados os contingentes militares e o wali da cidade, o governador. A partir do século XI surge em Lisboa o primeiro castelo propriamente dito, uma fortificação que funcionava como base militar e incluía no seu interior a casa do governador, um bairro destinado à elite política e religiosa de Uxbuna e o último reduto da protecção, mais tarde chamado de Castelo Velho e hoje conhecido como Castelejo. Aos seus pés estendia-se a medina, preenchida pelas mesquitas, os souks e as tradicionais casas de tradição norte-africana, também ela protegida por uma muralha hoje conhecida como Cerca Moura. A Conquista Cristã de 1147 veio trazer uma nova vivência e muitas mudanças à cidade cristã de Lixbona. No castelo mudam os protagonistas e começam a fazer-se alterações. Os soldados muçulmanos são substituídos pelos cristãos, o wali dá lugar ao alcaide e o rei de Portugal ali passa a ter a pousada real, ocupando a antiga casa do governador muçulmano durante as suas estadas em Lisboa. O bairro islâmico da alcáçova mantém-se em funcionamento mas parte dele é arrasado para dar lugar ao Palácio dos Bispos, residência do primeiro bispo de Lisboa, Gilberto Hastings.
Esta nova realidade dá origem a remodelações e reconstruções contínuas, que se prolongam por séculos e dinastias, já que vários foram os reis que quiseram deixar a sua marca ao engrandecer o Paço Real da Alcáçova. Afonso III remodela a residência real e o Palácio dos Bispos, enquanto o rei Dinis não poupa esforços para melhorar as suas condições e criar um paço verdadeiramente régio com uma capela dedicada a São Miguel, o arcanjo protector do Reino. O mesmo fizeram Afonso IV e Fernando I, que mandou instalar o Arquivo Régio na Torre do Haver, onde já funcionava o Erário Régio, rebatizando-a de Torre do Tombo. Também João I fez grandes alterações ao paço, adicionando novas dependências e mandando aterrar o fosso do Castelo Velho. Mas a mudança que mais marcou o castelo e a cidade durante o seu reinado foi a nova protecção encomendada a São Jorge, evocado pelos exércitos portugueses na batalha de Aljubarrota e nomeado protector do castelo pela nova dinastia de Avis. Uma decisão que acabou por ter eco na tradição oral da cidade, já que com o passar do tempo o Castelo de Lisboa passou a ser chamado de Castelo de São Jorge.
Ao longo dos séculos e até ser abandonado por Manuel I em prol do novo Paço da Ribeira, o Paço da Alcáçova foi-se tornando um conjunto enorme e muito heterogéneo, constituído por vários edifícios construídos em diferentes épocas, de diferentes alturas e estilos, ao qual foram sendo adicionados a Casa das Rainhas, capelas e algumas instituições régias. À volta do paço, a alcáçova foi sendo procurada por famílias nobres que também ali construíram os seus palácios, de forma a ficarem mais perto da corte. A opinião geral de quem olhava para o paço real nesta altura considerava-o um feio representante do rei, mas os registos de época contam-nos a história de um espaço muito rico, recheado do melhor mobiliário, tapeçarias e peças de decoração da melhor qualidade. A beleza do interior do paço estava à altura dos seus habitantes e das grandes festas e ocasiões ali celebradas ao longo dos tempos. É no castelo que João I celebra o casamento da sua filha dona Isabel com o duque da Borgonha e onde, após a sua morte, o infante Duarte é coroado rei em 1433. Afonso V ali celebra o nascimento do Príncipe Perfeito, que anos mais tarde, também no castelo, é coroado João II, em 1481. Apesar de ter acabado por mudar de casa, Manuel I ainda fez bom uso do seu palácio em eventos relacionados com importantes episódios da História de Portugal. Em 1499 ali recebe Vasco da Gama no regresso da primeira viagem marítima à Índia com uma grande cerimónia, e as suas duas primeiras mulheres ali foram recebidas e tiveram os seus filhos. Aliás, foi na câmara da rainha Maria de Aragão, que acabara de dar à luz o futuro João III, que teve lugar a primeira representação de um auto de Gil Vicente. Após a saída da corte de Manuel I, o local ficou praticamente abandonado e sofreu grandes danos com o terramoto de 1531. O rei Sebastião, que nunca terá gostado de viver no paço da Ribeira, reedificou o velho paço e ali viveu durante algum tempo». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Policarpo. «À boa visibilidade que dali tinham para o território em redor e para o Tejo, juntava-se ainda a existência de nascentes de água, um bem precioso em qualquer época. Dali viram chegar os primeiros povos mediterrânicos»

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O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) Dona Mécia ficou satisfeita por ver que todas as suas raparigas estavam lá ao trabalho, reunindo em cima da grande bancada tudo o que era necessário para começar a fazer os bolos, pastéis e outros doces que terminariam a refeição. Dona Mécia supervisionava directamente as caldas doces que cobririam as amêndoas e outros frutos secos vindos especialmente de várias regiões do reino. Usava os seus muitos anos de experiência para medir as quantidades de mel, ervas e licores que deitava na mistura e para regular a força do lume, para que o resultado fosse a cremosa mistura doce e aromatizada que tantos apreciavam naquele castelo. As raparigas mais novas partiam os ovos e as moças mais velhas já mediam os outros ingredientes que eram depois misturados nos grandes alguidares vidrados. As várias formas de cobre e ferro empilhadas a um canto iriam ser enchidas com as várias massas de bolos, e dona Mécia já mandara perguntar aos fornos se havia espaço livre para elas. Os padeiros deveriam estar a tirar do forno as bases das tartes e em breve poderiam começar a recheá-las com frutos, nozes e amêndoas. As horas passavam rápido, e já o Sol baixava quando começa a ouvir-se o som da louça que os rapazes de serviço ao grande salão tiravam dos armários de madeira tosca perfilados ao longo das paredes. Os pratos de cerâmica vidrada e os canecos que cada comensal usaria eram guardados mais perto do salão, mas dali saíam as grandes taças e travessas cheias de comida de onde cada um se serviria e os jarros para o vinho e a cerveja, que andavam sempre numa roda-viva para serem novamente cheios. Tudo isto era cuidadosamente levado e colocado sobre as longas mesas de madeira que em breve seriam ocupadas por todos os membros da corte do rei João. Damas e cavaleiros, padres e frades, portugueses, ingleses e alguns castelhanos, todos se sentariam a partilhar a grande ceia, aquecidos pelas grandes lareiras e rodeados pelas longas tapeçarias que cobriam as paredes e tornavam aquele salão um espaço confortável e acolhedor. Ainda bem que assim era, pois a seguir ao repasto ainda muito se passaria, entre a música dos menestréis que cantavam as bravuras do seu rei, pequenos jogos e desafios improvisados e o inevitável passinho de dança. Toda esta animação era apreciada de perto pela mesa real, que encabeçava todo o conjunto. Recém-casados e entusiasmados com a vida que agora começavam, até o rei e a rainha se juntavam às danças e davam o mote para uma grande noite, digna desta jovem dinastia que agora reinava Portugal e em breve conquistaria o mundo.
Os passos de dona Mécia perdem-se no tempo juntamente com as histórias de todos quantos passaram pelo Castelo de São Jorge ao longo dos séculos. Histórias de guerreiros e comerciantes, reis e rainhas que se conjugam no topo de uma colina com vista para o rio. Tudo começa na Idade do Ferro, por volta do século VII a. C., quando ali se instalam populações atraídas pelas excelentes condições de defesa e que talvez tenham construído uma primeira muralha. À boa visibilidade que dali tinham para o território em redor e para o Tejo, juntava-se ainda a existência de nascentes de água, um bem precioso em qualquer época. Dali viram chegar os primeiros povos mediterrânicos, navegadores e comerciantes fenícios e púnicos oriundos da actual Síria e da colónia de Cartago, e que estabeleceram várias rotas comerciais no Mediterrâneo e costa Atlântica. Apoiados por colónias e entrepostos comerciais que se encarregavam de adquirir os produtos locais, estes recém-chegados trocavam-nos por mercadorias que ainda hoje surgem em escavações arqueológicas em Lisboa, como as cerâmicas gregas e fenícias. A importância comercial do pequeno porto de Allis Ubbo, a amena enseada, acabou por despertar o interesse de um império romano em expansão e em guerra contra Cartago. Em 138 a. C., o procônsul Décimo Junio Bruto chega a Olisipo e usa-a como base para a sua campanha de conquista dos povos lusitanos do Noroeste peninsular, construindo uma pequena fortificação e instalando o seu exército no topo da colina do Castelo. Depois de conquistada a paz romana, ao longo dos séculos seguintes a cidade imperial desenvolveu-se sobre a encosta e os vales em redor e o topo da colina perdeu importância. Liberto dos exércitos, poderá ter sido utilizado como espaço público civil ou religioso, que poucos vestígios deixou. Apesar disso, foram encontradas algumas inscrições romanas reaproveitadas na construção das paredes do paço real que depois surgiu». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Percursos do Património e da História. CM de Vila Franca de Xira. «A metodologia da intervenção deverá respeitar as técnicas e os materiais que compõem os vestígios das muralhas, salvaguardado a sua integridade e favorecer a leitura visual destas estruturas»

Antigo desenho que representa o castelo com a forma de uma casa (1590)
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A muralha do castelo de Alverca
«Tendo em conta aquilo que se sabe sobre o antigo castelo de Alverca e a importância deste na memória colectiva da população da cidade, defende-se a conservação dos vestígios das muralhas ainda existentes e a valorização da área urbana antiga no alto de Alverca. É feita a descrição e o diagnóstico do estado de conservação das estruturas, bem como uma proposta fundamentada de intervenção de conservação e restauro.
Do castelo de Alverca do Ribatejo resta-nos a noção romântica de uma estrutura militar da época medieval com muralhas a envolver todo o aglomerado urbano no alto do morro. A memória colectiva da maioria dos alverquenses, nativos ou adoptivos, aproxima-se certamente desta imagem. Se passearmos pelo alto do monte onde outrora se impunha o castelo, verificamos a excelente vista panorâmica do horizonte quer a Sul sobre as lezírias e o estuário do Tejo quer a Norte sobre toda a vertente dos montes da serra da Aguieira. Assim, havendo a necessidade de construir uma estrutura militar nas proximidades, vemos que seria aqui o local perfeito. Na verdade, os vestígios que ainda hoje testemunham a sua existência, permitem-nos imaginar essa estrutura em blocos de pedra que protegia a povoação de possíveis invasores. Os dois panos de muralha com o seu cunhal em grandes pedras aparelhadas de calcário e um pequeno vestígio de uma estrutura de pedra semelhante, este mais para o lado Oeste, no entroncamento da Rua do Outeiro na Rua do Moinho, permitem-nos conjecturar o percurso da antiga muralha do castelo. A antiga documentação que se conhece evocando o castelo não nos permite avançar muito mais no que diz respeito à sua configuração original.
Sabemos que muito cedo o castelo perdeu a sua importância nas linhas defensivas, caindo no esquecimento. Muito embora não se conheçam descrições factuais, percebe-se que após o terramoto de 1755 houve a necessidade de recuperar todo aquele espaço, tendo-se construído sobre as suas fundações um conjunto de casas que desempenharam um papel importante na vivência da povoação de Alverca. Um antigo esquiço que representa o mapa da zona do castelo, desenha-o já com a configuração de uma casa de acordo com o que hoje se observa nas construções existentes em cima da muralha que resistiu ao tempo. Muito importante para a compreensão das estruturas e modos de vivência do passado é o trabalho de arqueologia, que aqui não foi descurado. Desde os anos 80 do século passado decorreram três escavações arqueológicas (escavação de emergência na edificação da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias; escavação na área da antiga Casa da Câmara; acompanhamento de obra de aberturas de valas nas ruas adjacentes), nas imediações do castelo, sendo uma delas na Travessa do Castelo e na Rua do Castelo sob a orientação dos arqueólogos do município, João Pimenta e Henrique Mendes. Muito embora estes trabalhos nos confirmem a permanência de ocupação humana desde o período romano, no que diz respeito às estruturas do castelo e das muralhas não nos permitem ainda obter conclusões. Em 2005, o município de Vila Franca de Xira promoveu um estudo urbanístico que consistiu no levantamento pormenorizado e classificação de todo o parque urbano da cidade de Alverca, incluindo cada casa do centro antigo, de forma que nesta zona se possam identificar com clareza as casas com interesse urbanístico, arquitectural e cultural. De acordo com este estudo, muitas das casas desta zona são consideradas como de Valor Testemunho e Imóveis de Acompanhamento. No entanto por se tratar de pequenas casas de construção popular sem grandes condições de habitabilidade e cujo valor comercial é desprezível, estão votadas ao abandono. Atendendo ao contexto do conjunto urbanístico, estas casas caracterizam os pequenos Largos inseridos na presumida área antiga entre muralhas, como é o caso do Largo do Outeiro bem como a própria Rua do Outeiro. Neste sentido, penso que não é justa a afirmação de que do castelo de Alverca só nos resta a toponímia, sendo certo que ainda subsiste matéria para preservar e através dela salvaguardar todo o Centro Histórico de Alverca, permitindo-nos a compreensão histórica e cultural deste espaço.
Considerando a forte presença destas estruturas na memória colectiva das pessoas de Alverca, que lhes confere valor patrimonial, e sabendo do seu mau estado de conservação, que se evidencia nas fotografias, julgo que é indispensável promover uma intervenção de conservação que restabeleça a coesão das estruturas e minimize a erosão futura destas. A metodologia da intervenção deverá respeitar as técnicas e os materiais que compõem os vestígios das muralhas, salvaguardado a sua integridade e, simultaneamente, favorecer a leitura visual destas estruturas, evidenciando todas as características que chegaram à actualidade. Os materiais já aplicados nas várias intervenções anteriores, quando tenham importância estrutural, deverão ser mantidos, sendo necessário melhorar alguns aspectos estéticos para estabelecer uma leitura do conjunto o mais homogénea possível. Torna-se assim evidente que para a valorização de toda a área envolvente é essencial a colaboração das entidades particulares que habitam ou têm propriedades nas imediações dos elementos patrimoniais». In Miguel Salgado, A Muralha do Castelo de Alverca na Memória Colectiva Local, CIRA, Boletim Cultural 12 (2014-2015), Pelouro da Cultura, CM de Vila Franca de Xira, Coordenação de Fátima Roque, 2015, ISSN 2183-4679.

Cortesia de CIRA/JDACT

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Plicarpo. «… o som dos almofarizes, onde se moíam as ervas locais e se faziam misturas com alguns preciosos produtos vindos do Oriente, que só alguns naquela cozinha sabiam e podiam usar»

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O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
«(…) Lisboa tinha respirado fundo nessa altura, e ela mais que muitos, para logo se preocupar com as notícias oriundas dos campos de batalha, novas de vitórias sofridas e de homens perdidos, mas também de um rei corajoso rodeado de fiéis validos, jovens valentes como Nuno Álvares Pereira, tão pio como bravo e o melhor amigo que João I podia ter. Tantas vitórias tinham acabado por lhe trazer este amargo de boca. Um bom rei, era certo, mas João I mais parecia pedreiro, tão dedicado estava a fazer obras nos palácios reais e agora até ali no castelo! Já não bastava tê-lo entregado à protecção de um santo inglês, e agora ainda tinha desatado a mudar o que ali havia e a construir novas casas. Um dos aios do rei bem lhe tinha tentado fazer mudar as ideias, explicando que o velho paço real iria ficar mais bonito e o castelo mais seguro, mas tudo isso não a fazia mudar de ideias e gostar de toda a confusão de obras que p’rali ia. Parecia que durante toda a sua vida tinha visto aquele castelo em obras, rei após rei fazendo alterações e acrescentando coisas. Cavalariças, palácios nobres, Casas das Rainhas, igrejas e capelas, tudo cabia no topo da colina. Ainda há poucos anos o rei Fernando I pusera a cidade em alvoroço com a construção da nova muralha à volta da cidade e o paço, quando trouxera para a Torre do Haver os arquivos do reino. É claro que ela sabia que a muralha a protegia e que se o rei queria os arquivos ali, ele é que sabia, mas desde então nunca mais ninguém lhe tirara o medo que uma vela mal apagada pusesse fogo a todos os papéis que ali guardavam e acabasse por consumir todo o paço.
Enquanto isso não acontecia, dona Mécia lá se tinha resignado a rezar ao santo dos ingleses, pedindo-lhe que protegesse este castelo que agora lhe fazia honra. Até porque, apesar de barulhentos, os poucos soldados ingleses que ainda por ali andavam nunca lhe tinham dado razão de queixa com brigas e más criações, e eram sempre simpáticos quando iam à cozinha pedir mais alguma cerveja ou carne. Certamente não queriam deixar ficar mal aquela que agora era rainha de Portugal, dona Filipa Lencastre, essa inglesa tão clara que quase parecia uma das imagens das igrejas. Pouco ainda a vira. e sempre ao longe, mas bastava-lhe saber que era uma boa cristã e que fazia o seu rei feliz, pois na corte ninguém conseguia ignorar o sentimento que acabara por unir aqueles esposos que só se tinham conhecido no dia do casamento. Estavam certamente fadados a uma vida feliz e com uma grande prole, querendo Deus.
Como fazia todas as manhãs desde que se lembrava, foi à Igreja de Santa Cruz dizer uma pequena prece pelo sucesso do reino antes de se dirigir às cozinhas. Atravessou depois o bairro em direcção ao paço, que já via por entre os telhados. Era um conjunto estranho, construído ao longo de várias décadas por vários reis que haviam adicionado novos andares, salas e salões, criando o que ao longe mais parecia uma pequena aldeia com telhados de diferentes alturas, pátios e capelas. Raramente lá ia, porque as cozinhas e todos os edifícios destinados aos criados ficavam numa zona à parte e era aí que fazia o seu trabalho, de supervisionar as doceiras que confecionavam as sobremesas e os doces com que a família real e a corte terminavam as refeições. A azáfama nas cozinhas era sempre muito grande, com várias dezenas de criados ocupando-se dos diferentes afazeres que uma cozinha real implicava. No pátio da entrada, a um canto, várias garotas depenavam galos e galinhas e descascavam os legumes que iriam depois ser usados nos guisados. Dentro do grande salão, há horas que os assadores tinham posto os animais no espeto e os padeiros haviam começado a fazer o pão e a massa das tartes. Esse lado da cozinha era sempre o mais fumarento, as grandes chaminés esforçando-se para dar vazão às fogueiras e aos fornos instalados num pequeno vão. Ali dona Mécia podia ainda ver vários criados de volta de largos panelões suspensos sobre as lareiras, onde se começavam os ensopados de grão, favas e carne. O recheio das tartes de miúdos já fritava nas grandes sertãs, normalmente penduradas em fileiras ao longo das paredes, deitando o doce aroma das especiarias e ervas aromáticas que as temperavam. Estas amontoavam-se em pequenos cestos de verga, espalhados pela grande cozinha para que todos pudessem chegar-lhes. Por todo o lado ecoava o som dos almofarizes, onde se moíam as ervas locais e se faziam misturas com alguns preciosos produtos vindos do Oriente, que só alguns naquela cozinha sabiam e podiam usar». In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Segredos de Lisboa. Inês Ribeiro e Raquel Plicarpo. «… através de histórias e personagens que poderão ou não ter existido nas várias Lisboas, alguns locais e momentos regressam à luz do dia e partilham o conhecimento de épocas e sítios que muitos desconhecem»

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Vestígios arqueológicos surpreendentes sob as ruas da capital portuguesa
«Ao calcorrear as ruas de uma cidade, poucos são os que sabem que sob os seus pés permanecem escondidos séculos de História, vestígios de várias épocas que estão à espera de, quem sabe, um dia voltarem a ver a luz do dia. Na pressa do dia a dia ou na descoberta de uma nova cidade, é difícil parar e pensar no que já desapareceu, ver para além das pedras da calçada e imaginar os edifícios, ruas e antigas cidades que ali existiram antes. Passear pela Lisboa de hoje é passar sobre todo esse passado desaparecido. Sob os nossos pés, debaixo de linhas de eléctrico, ruas asfaltadas e túneis de metro, camadas e camadas de terra contam as histórias de quem por aqui passou, viveu, morreu. Contam momentos, eras, séculos de vivência de fenícios, romanos, muçulmanos, cristãos, uma imensidão de gentes que nestas colinas deixou a sua marca. Mas o passado não está esquecido. Escavação após escavação, obra após obra, os arqueólogos que aqui trabalham vão descobrindo todo este passado e, com as suas picaretas, colherins e escovas, tratam de o registar e trazer de volta à memória colectiva de um povo. As ruínas de uma casa, um conjunto de cacos, ou uma mão-cheia de espinhas de peixe são para estes profissionais importantes fontes de informação que mais tarde dará origem a mais conhecimento, mais História de Lisboa. Infelizmente nem tudo fica intacto para ser visto e apreciado pelo público, e muito do trabalho que é feito todos os dias, cada intervenção urbana, cada descoberta, fica sob a nova cidade que se vai construindo e reconstruindo. Sempre assim foi nesta Lisboa que já se recriou mais de uma vez. O futuro não pára de chegar, mas não é por isso que o Passado deve ficar esquecido. Nestas páginas, através de histórias e personagens que poderão ou não ter existido nas várias Lisboas, alguns locais e momentos regressam à luz do dia e partilham o conhecimento de épocas e sítios que muitos desconhecem. Alguns deles desapareceram para sempre, mas outros ainda podem ser visitados. Num museu, num parque de estacionamento ou numa casa de banho pública, todos estão à espera de receber visitas!

O castelo de São Jorge. Um gigante de vigia à cidade
Em tantos anos de vida nunca dona Mécia tinha visto tamanha desordem! Por todo o lado se espalhavam pedras de vários tamanhos e pilhas de madeiras, homens sujos trabalhavam numa grande azáfama enquanto outros passavam o dia gritando ordens, os carros de bois e as carroças carregadas de material sempre passando de um lado para o outro, cobrindo o chão de sujidade e largando um cheiro pestilento. Não gostava desta confusão, e assustavam-na os grandes engenhos de madeira, altas torres cheias de cordas penduradas que mais lhe pareciam forcas e que não sabia para o que serviam. Mas o que realmente a incomodava era a poeira, agora sempre pairando no ar, e o barulho constante do bater da pedra. Também não gostava de ter de se desviar do caminho de tantos anos e ser obrigada a dar uma tão grande volta para chegar às cozinhas. As suas pernas já não eram as mesmas que, há mais de 50 anos, haviam entrado naquele castelo conduzindo uma simples criada de cozinha ao seu primeiro dia de trabalho.
Muito tinha mudado desde essa altura. Pelos seus olhos e pelas suas cozinhas tinham passado as refeições de quatro reis, pois ainda vira o velho Afonso IV e o desafortunado Pedro que tantas histórias tinha feito contar por esse país afora. Pior só o seu filho, o desgraçado Fernando, que a si trouxera a má sorte ao casar com aquela Aleivosa, mulher de má fama que tanto mal causara ao reino. Felizmente poucas vezes a servira, pois sabendo-se pouco queridos em Lisboa raramente cá vinham suas majestades. Tudo era diferente agora, com o novo rei João, aquele Mestre de Avis que o povo escolhera ainda há poucos anos num dia sem igual em que a cidade saíra à rua para se fazer ouvir.
Dona Mécia bem ouvira o eco da gente que subira a colina, o bramor da multidão que se concentrara na Sé e no Paço a-par-de-S. Martinho a ver matar bispos e condes castelhanos. Não esquecera os longos meses de cerco que se tinham seguido, com os castelhanos acampados às portas da cidade sem deixar ninguém entrar ou sair. Muito tinha trabalhado nessa altura, tentando acudir a todos os que acorriam ao castelo a pedir a comida que ali também escasseava. Valera-lhes nessa altura a vontade de Deus, que tinha achado por bem enviar a peste aos malditos castelhanos para os obrigar a abandonar os arrabaldes e a voltar para de onde tinham vindo!» In Inês Ribeiro e Raquel Policarpo, Segredos de Lisboa, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2015, ISBN 978-989-626-706-3.

Cortesia de EdosLivros/JDACT

quinta-feira, 19 de março de 2015

A Igreja Sueva de São Martinho de Dume. Luís Fontes. «… potenciando a sua integração, com outros monumentos da época, num circuito da “Braga Cristã Antiga”. O visitante poderá não só observar o monumento funerário, como fazer uma ‘viagem no tempo’, circulando em cave pelo adro e interior da igreja»


jdact e cortesia de uaum/lfontes

Arquitectura Cristã Antiga de Braga. Antiguidade Tardia do Noroeste de Portugal
«(…) No mais vasto território bracarense, a revisão crítica da documentação e da bibliografia, a par de novos achados arqueológicos, proporcionam uma nova leitura da ocupação e organização do território, até hoje insuspeita. Mais abundantes e dispersos por toda a região do entre Douro-e-Minho, são os inúmeros locais correspondentes a povoados que oferecem testemunhos arqueológicos de ocupação continuada até à alta Idade Média: Cantelães, Parada de Bouro, Pandozes e Rossas, em Vieira do Minho; Lindoso, em Ponte da Barca; Lanhoso, Calvos e São João de Rei, em Póvoa de Lanhoso; Beiral do Lima, Facha, Boalhosa, Santo Ovídio e Santa Cruz do Lima, em Ponte de Lima; Santa Eulália de Águas Santas, Faria, Arefe, Lousado, Cristelo, Martim, Vila Cova e Abade de Neiva, em Barcelos; Cendufe, Eiras, Giela, Tavares, Parada e Santa Maria do Vale, em Arcos de Valdevez; Vila Mou, Areosa, Carmona e Santa Luzia, em Viana do Castelo; Lovelhe, em Vila Nova de Cerveira; Alvaredo, Paderne e Castro Laboreiro, em Melgaço (Fontes 2009). Se a estes vestígios, a que acrescem todos os outros, acrescentarmos as referências toponímicas de antroponímia genitiva, isto é, relativa a possessores ou proprietários, reconhecidamente anteriores ao domínio árabe na Península (Fernandes 1990), ficaremos com um quadro bem mais aproximado da densidade de ocupação do território durante os séculos V-VII.
No vasto território entre os rios Minho e Douro, os grandes povoados fortificados (os castra-castella de Idácio), são omnipresentes. Embora alguns devam ser de fundação contemporânea do domínio suevo-visigótico, a maior parte são de fundação bem mais antiga, ainda anterior ao domínio romano. Com ocupação continuada ou interrompida, esses povoados abrigaram as populações que, fortemente rarefeitas pelas fomes e pestes do século VII, sobreviveram aos tempos incertos de desarticulação do poder no século VIII e que no século seguinte viriam a sustentar o novo esforço de organização protagonizado pela expansão asturiana.
Abandonados definitivamente a partir dos séculos X-XI, continuaram a servir de referencial na localização das propriedades e na delimitação de termos durante toda a Idade Média. Ainda hoje chamados castros, permanecem agora envoltos em lendas de mouras encantadas, que parecem proteger as suas ruínas, até que alguém desvende os seus mistérios e construa as suas memórias.

O projecto de valorização das ruínas arqueológicas de Dume
Culminando um longo processo de petições e requerimentos, já iniciado em 1919 de modo informal, aquando da retirada do Túmulo dito de São Martinho de Dume da capela-mor da igreja paroquial de Dume, e mais formalmente desde 1981, foi superiormente determinado, por despacho do SEC, de 20 de Novembro de 1982, que se procedesse à instalação do referido túmulo na paróquia, devendo para o efeito serem criadas as condições indispensáveis. Entre 1987 e 1991, na sequência quer das obras de restauro da capela de NSª do Rosário, como da ampliação da igreja paroquial de Dume, realizaram-se escavações arqueológicas, financiadas pelo governo central através do ex-Instituto Português do Património Cultural e pela Fundação Calouste Gulbenkian, no subsolo do adro e no interior da igreja, colocando-se a descoberto um importante conjunto de vestígios da época de São Martinho de Dume. A importância e valor histórico, cultural e científico das ruínas arqueológicas de Dume, correspondentes aos vestígios da basílica cristã mandada construir pelo rei suevo Charrarico, em meados do século VI e de parte do mosteiro fundado por São Martinho de Dume, eaproveitando parte de uma uilla romana, da qual se conserva a totalidade da planta de um balneário, levaram à consideração, já em 1991, de que a instalação do túmulo dito de São Martinho de Dume na freguesia se deveria associar à conservação e valorização das ruínas arqueológicas descobertas em torno da igreja paroquial de Dume, abandonando-se o projecto inicial de colocação na capela de NSª do Rosário, a qual se veio a considerar inadequada.
Esta valorização deveria contemplar, numa 1.ª fase, a construção de raiz de um edifício para albergar o Túmulo dito de São Martinho de Dume e para funcionar como centro de recepção ao Núcleo Arqueológico de São Martinho de Dume, numa 2.ª fase, a criação de um percurso museológico entre o novo edifício e a igreja, à menor cota possível, isto é, sob o actual adro, de modo a proporcionar uma visita às ruínas conservadas; numa 3.ª fase, será completado o circuito com a valorização do balneário romano. Cumprindo todas as formalidades legais, que contemplaram a aprovação do projecto pelo Instituto Português do Património Arquitectónico, após escavações arqueológicas prévias entre 2003 e 2005 e satisfação dos requisitos de funcionalidade e de segurança estabelecidos pelo Museu Regional de Arqueologia Diogo Sousa, construiu-se em 2006, com financiamento do Município de Braga, o edifício para albergar o Túmulo dito de São Martinho Dumiense. Com este equipamento, inaugurado no dia 6 de Agosto (dia da festa litúrgica de São Martinho de Dume), pretendeu a JF de Dume criar um pólo destinado a fins culturais e lúdicos, funcionando como centro de interpretação do conjunto de ruínas arqueológicas de Dume, podendo albergar exposições, recepcionar visitas organizadas de público escolar e público indiferenciado mas também de especialistas em Arqueologia e História, potenciando a sua integração, com outros monumentos da época, num circuito da Braga Cristã Antiga. O visitante poderá, assim, no futuro, não só observar o monumento funerário, como fazer uma espécie de viagem no tempo, circulando em cave pelo adro e interior da igreja, vendo ruínas da uilla romana e do mosteiro e basílica suevas». In Luís Fontes, A Igreja Sueva de São Martinho de Dume, Arquitectura Cristã Antiga de Braga e na Antiguidade Tardia do Noroeste de Portugal, Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho, Revista de História da Arte, 2008.

Cortesia da UAUAveiro/JDACT

domingo, 22 de fevereiro de 2015

O assassínio dos Medici. The History Channel. «Houve um tempo em que a República de Florença era o pulsar cultural do mundo e o seu coração foram os jovens irmãos Médici, Lourenço e Julião. A sua influência na banca, na religião e na política espalhava-se por toda a península Itálica»

Cortesia de wikipedia

«Os Médici foram uma das famílias mais importantes do Renascimento italiano. De extraordinária influência na arte, no comércio e na religião, as suas desapiedadas redes de influência e alianças trouxeram-lhes muitos inimigos que os quiseram afastar do poder. Em 1478, os seus rivais uniram-se para matar os irmãos Lourenço e Julião de Médici na catedral de Florença, conhecida por Duomo. Durante quinhentos anos, a a versão popular da conjura interpretou o que se passou como uma disputa entre duas poderosas famílias: os Médici e os seus rivais, os Pazzi. Não há dúvida de que membros da família Pazzi mataram Julião, e também quase conseguiram eliminar Lourenço, mas, na realidade, o crime de há quinhentos anos ainda é um caso por resolver. Foram realmente os Pazzi os cérebros desta tentativa de assassínio e foi apenas uma luta entre famílias? No ano 2000, um estudante da Universidade de Yale, Marcello Simonetta, encontrou uma carta secreta nos arquivos de Urbino que indica as forças impulsionadoras daquele acto sangrento, descrevendo-o como uma complexa conspiração com tentáculos que chegavam até ao papado.
Houve um tempo em que a República de Florença era o pulsar cultural do mundo e o seu coração foram os jovens irmãos Médici, Lourenço e Julião. A sua influência na banca, na religião e na política espalhava-se por toda a península Itálica, uma força que Lourenço entendia muito bem, apesar de ter apenas 20 anos quando chegou ao poder. Culto, refinado, brilhante e audaz, muito seguro de si e dotado de grande inteligência, Lourenço de Médici, digno neto de Cosme, realizou durante o seu principado (1469-1492) o ideal do Renascimento italiano: poeta, filósofo, mecenas e diplomata, era muito consciente do poder da cultura florentina como ferramenta diplomática, assegura a historiadora Melissa Bullard, da Universidade da Carolina do Norte. O seu irmão mais novo, Julião, aberto, atraente e nada político, era seu assessor. O trabalho dos dois irmãos era muito diversificado: proteger artistas como Miguel Ângelo, atribuir cargos, ser a importantíssima banca do papado, conquistar novos territórios... Porém, pela sua juventude, davam a impressão de vulnerabilidade e a inexperiência criava-lhes inimigos.
Em 1470, Lourenço cometeu muitos erros políticos. Distanciou-se de muita gente. Os irmãos enfrentavam adversários em todas as esferas de influência, explica o historiador Niccolò Capponi. Na banca, a família Pazzi receava o poder e a riqueza deles. Na Igreja, o papa Sisto IV ofendeu-se com a recusa de Lourenço em lhe conceder um empréstimo. E, na política, outros senhores, como o duque de Urbino, mudaram a sua lealdade da Florença de Lourenço para outras cidades, procurando sempre unir forças com quem possuísse o maior poder na península naquele momento. Os ingredientes desta poção de rancor eram sobejamente conhecidos mas, ao longo dos séculos, prevaleceu uma história sobre a conspiração dos Pazzi, baseada na tentativa de matar os dois irmãos durante a missa pascal no Duomo de Florença. No entanto, culpabilizar só os Pazzi simplifica demasiado o assassínio, fazendo que pareça que a família dos banqueiros foi a única responsável. O historiador Marcello Simonetta começou a investigar o acontecido após o descobrimento de uma carta escrita em 1478 por Frederico II de Montefeltro,9.º conde e primeiro duque de Urbino, suposto amigo dos Médici, a Cicco Simonetta, regente de Milão e importante aliado de Lourenço de Médici, além de antepassado renascentista do historiador. Investigando a vida do seu antepassado, encontrou essa carta, num achado que aumentou a sua curiosidade. Marcello Simonetta começou então uma pesquisa para reconstruir os acontecimentos anteriores à conspiração e encontrar pistas sobre o artífice da trama. A pista seguinte foi-lhe trazida por uma segunda carta do duque de Urbino, indicando a Cicco que tivesse cuidado com Lourenço e advertindo-o de que não era um aliado seguro. A carta descrevia Lourenço como inimigo secreto de Cicco Simonetta, explica Marcello Simonetta, actual historiador e professor da Universidade Wesleyan. O duque de Urbino tinha capitaneado operações militares de Lourenço e actuava dos dois lados, pondo Cicco contra Lourenço. Esta contradição fez Marcello Simonetta pensar que o duque tinha a chave do mistério sobre o artífice da chamada conspiração dos Pazzi. Mas uma coisa eram as suas suposições e outra muito diferente seria conseguir as provas da conjura». In The History Channel, Los Grandes Misterios de la Historia, Randon House Mondadori, 2008, O assassínio dos Medici, tradução de Maria Irene Carvalho, Clube do Autor, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-845-206-1.

Cortesia de CdoAutor/JDACT