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sábado, 14 de janeiro de 2023

Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de João IV. Maria do Carmo T. Pinto.«O reino converteu-se em prisão por dívidas. A atitude de benevolência manifestada pelo monarca no início do seu reinado esfumava-se pouco a pouco…»

jdact

Com a devida vénia à Doutora Maria do Carmo Pinto

Heróis ou Anti-Heróis.

Filipe III e a Inquisição (maldita). Antes e depois do perdão de 1605

«(…) Perante as dificuldades financeiras que teimavam em persistir, Filipe III viu-se, novamente, na contingência de ter de procurar apoio junto dos cristãos-novos. Assim, durante a primeira metade de 1601, a gente de nação obteve a revogação da lei decretada por dom Henrique e confirmada por Filipe II, que os impedia de sair do reino e de venderem os seus bens, mediante um pagamento de 170 mil cruzados, que posteriormente passou a 200 mil, sendo-lhes, igualmente, dada permissão para se fixarem nos territórios portugueses além-mar. Ainda nesse mesmo ano, um alvará régio de 24 de Novembro de 1601 proibia a utilização da designação de cristão-novo, confesso, marrano ou judeu, relativamente a qualquer descendente dos conversos, sob pena de multa e prisão, sendo provável que a promulgação desta lei tenha sido obtida mediante o pagamento pelos cristãos-novos de avultada quantia. Contudo, à vontade expressa da Inquisição (maldita) sobrepunham-se as exigências do erário régio. Os que defendiam que o perdão fosse concedido argumentavam que era necessário organizar uma poderosa esquadra que afastasse, definitivamente, a navegação holandesa e inglesa das costas da Índia. Nem o dinheiro dos confiscos podia constituir solução, uma vez que o tempo escasseava e não chegaria a tempo.

Assim, os cristãos-novos prometiam a Filipe III um serviço voluntário de 1.700.000 cruzados62, prescindindo do pagamento de 225 mil cruzados que a fazenda devia a alguns deles, caso o monarca conseguisse obter o perdão geral das culpas de apostasia e judaísmo. Os cristãos-novos estavam tão apostados em garantir que as suas pretensões fossem ouvidas que tinham, inclusivamente, distribuído benesses financeiras, no valor de 100 mil cruzados, por diversas personagens importantes da corte madrilena, entre as quais o próprio duque de Lerma. Porém, o valido de Filipe III e o próprio monarca não se mostravam menos interessados no acordo, desejosos que estavam em obter o apoio dos financeiros portugueses. Num primeiro momento, entre aqueles que abandonaram Portugal e procuraram refúgio no reino vizinho, a par de importantes banqueiros, em especial lisboetas, e homens de negócio que se fixaram na corte e em Sevilha, porta de saída para as Índias de Castela, figuravam, também, modestos mercadores que entraram em Castela aproveitando o vazio deixado pela crise económica que varrera Castela no final do século XVI e pouco a pouco se foram integrando e enriquecendo. O duque de Lerma firmou com eles vários contratos, aproveitando, desta forma, os recursos e contactos que os cristãos-novos estavam em condições de oferecer em troca de certas concessões e de bons negócios. Os problemas religiosos e de limpeza de sangue foram relegados para segundo plano.

Poucos meses depois da publicação do perdão geral, por alvará de 5 de Junho de 1605, foi constituída, em Lisboa, uma Junta, presidida por Constantino Mello, incumbida do maneio e distribuição do referido serviço. Os cristãos-novos ou por que se encontrassem desiludidos com Filipe III por não os ter considerado em condições de exercerem certos cargos e honras, ou por que tivessem prometido verbas de que não dispunham, quando chegou o momento da cobrança não cumpriram aquilo a que se tinham obrigado. Impôs-se a coacção, mas os cristãos-novos regateavam o pagamento, vendiam seus bens e tentavam fugir. Perante este quadro o monarca considerou que não se encontrava mais obrigado a cumprir a sua promessa e no ano seguinte, em 1606, Filipe III proibiu os cristãos-novos de saírem do reino, sem provisão sua ou sem quitação do presidente da referida Junta. O reino converteu-se em prisão por dívidas. A atitude de benevolência manifestada pelo monarca no início do seu reinado esfumava-se pouco a pouco e os cristãos-novos não foram os únicos que sofreram com a alteração de comportamento de Filipe III». In Maria do Carmo Teixeira Pinto, Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de D. João IV, Heróis ou Anti-Heróis?, Dissertação de Doutoramento em História, Universidade Aberta, Lisboa, 2003.

Cortesia de UAberta/JDACT

JDACT, Conhecimentos, D. João IV, Elvas, Évora, Maria do Carmo T. Pinto, 

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de João IV. Maria do Carmo T. Pinto.«O dinheiro arrecadava-se (...) mas os cascos apodreciam desarmados, enquanto os piratas acoutavam os nossos mares. O erário régio exigia reformas profundas que tardavam e o desequilíbrio aumentava»

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Com a devida vénia à Doutora Maria do Carmo Pinto

Heróis ou Anti-Heróis.

Filipe III e a Inquisição (maldita). Antes e depois do perdão de 1605

«(…) Se analisarmos com algum cuidado a política de Filipe III, facilmente nos podemos aperceber que ocorreram profundas alterações na forma como se desenrolou o relacionamento entre o monarca e o Tribunal do Santo Ofício (maldito) e entre aquele e os cristãos-novos. No início do século XVII, a fazenda real, cuja última quebra tinha ocorrido em 1596, antes da subida de Filipe III ao trono, passava por novos apuros que culminou na bancarrota de 1607. O monarca determinou a imposição aos navios mercantes de um novo tributo, consulado, o qual deveria ser aplicado, exclusivamente, à defesa dos portos e do comércio marítimo. Esta decisão foi cumprida apenas durante alguns anos, uma vez que o produto do recente imposto, tal como já acontecera com a terça dos concelhos destinadas à reparação das fortalezas, depressa foi consumido nas despesas urgentes. O dinheiro arrecadava-se (...) mas os cascos apodreciam desarmados, enquanto os piratas acoutavam os nossos mares. O erário régio exigia reformas profundas que tardavam e o desequilíbrio aumentava. Mesmo o lançamento de um direito novo no valor de 220 réis sobre cada moio de sal exportado veio revelar-se insuficiente para resolver o problema financeiro. Considerando a conjuntura adequada a uma aceitação das suas exigências, os cristãos-novos tentaram a consciência do príncipe, prometendo-lhe avultadas quantias em troca da recuperação de imunidades que no reinado de dom Sebastião lhe tinham sido concedidas e cuja revogação por parte de dom Henrique foi confirmada por Filipe II. O desaparecimento de Filipe II e as dificuldades do tesouro nos primeiros anos do reinado de Filipe III aplanaram o caminho aos cristãos-novos. A súplica era audaz, mas a ocasião favorecia os requerentes.

O principal objectivo dos cristãos-novos era conseguirem, efectivamente, obter o perdão geral que havia muito procuravam alcançar e que, concedido por Clemente VII a 23 de Agosto de 1604, acabaria por ser publicado em 16 de Janeiro de 1605. Porém, até o conseguirem concretizar houve que percorrer um longo caminho, aliás iniciado ainda no reinado de Filipe II. Assim, logo em 1598, começaram por oferecer à Coroa 675 mil cruzados, além de lhe facultarem um empréstimo no valor de 500 mil ducados, sem juros, a ser aplicado às naus da Índia e cujo reembolso assentava na pimenta que as mesmas trouxessem. Tanto em Portugal como em Castela, a disponibilidade manifestada pelos cristãos-novos para ajudar Filipe III suscitou forte oposição. O impasse acabou por ser ultrapassado com a proposta apresentada pelos Governadores de Portugal, em Fevereiro de 1600, na qual o reino se comprometia a pagar um serviço de 800 mil cruzados, em prestações anuais, como forma de indemnizar a coroa das somas que deixaria de receber, obrigando-se o monarca, em contrapartida, a rejeitar a pretensão dos cristãos-novos ao perdão geral. O governo castelhano aceitou a proposta mas esta acabou por não obter a anuência do Senado da Câmara de Lisboa com base no facto de não terem sido ouvidos os representantes das cidades e lugares do reino com assento nas Cortes, pelo que o acordo ficou sem efeito, pelo Alvará de 30 de Outubro de 1601. In Maria do Carmo Teixeira Pinto, Os Cristãos-Novos de Elvas no reinado de D. João IV, Heróis ou Anti-Heróis?, Dissertação de Doutoramento em História, Universidade Aberta, Lisboa, 2003.

Cortesia de UAberta/JDACT

JDACT, Conhecimentos, D. João IV, Elvas, Évora, Maria do Carmo T. Pinto,

domingo, 5 de setembro de 2021

Arte Religião e Imagens em Évora. Vitor Serrão. «… verdadeira política de reabilitação construtiva dos lugares hierofânicos relacionados com os seus martírios e os seus focos de devoção popular»

Cortesia de wikipedia e jdact

No Tempo do Arcebispo Teotónio de Bragança (1578-1602)

«(…) Nesse sentido, a figura do Arcebispo dom Teotónio de Bragança mostra, como aliás já acentuava o seu capelão, e atento biógrafo, padre Nicolau Agostinho, um originalíssimo perfil de prelado imbuído de intuitos renovadores, dentro do que podiam ser os preceitos de abertura e adaptação da Igreja contra reformista. Este aspecto da sua biografia, o do teólogo e homem da Igreja, está, no essencial, bem estudado através de uma série de contribuições incontornáveis. Um dos dois textos sinodais que redigiu, datado de 1587, foi justamente dedicado à plena adequação das paróquias eborenses às normas e decretos conciliares. Em termos de intervenção social conhece‑se, por exemplo, o seu importantíssimo papel durante os surtos de peste e fome que o Alentejo sofreu, designadamente em 1579‑1581, quando criou uma série de espaços assistenciais e albergarias e proveu as necessidades elementares dos carenciados, na cidade e nas vilas e aldeias. Neste campo, seguiu uma precisa orientação tridentina, olhos postos no exemplo assistencial do cardeal Carlos Borromeo durante a peste de Milão, sabiamente adaptado à realidade nacional, numa resposta muito directa à forma como a Coroa tinha organizado o campo, preenchendo os espaços deixados abertos pelo poder político. Nesse sentido também se entendem os contactos com Miguel Giginta, autor do Tratado de Remedio de Pobres (Coimbra, 1579), que defendia um modelo inovador de casas da caridade, razão pela qual chegou a ser chamado a Évora pelo Arcebispo, que lhe ofereceu a oportunidade de desenvolver na cidade o projecto que Lisboa recusara. Esse projecto foi seguido em Évora à luz das circunstâncias e possibilidades existentes.

Mas observam‑se outros aspectos relevantes a considerar na acção do Arcebispo, entre eles o do mecenas das artes e das letras, campos em que dom Teotónio de Bragança investiu muito do seu saber e réditos, tornando a cidade de Évora o mais importante centro da Contra‑Reforma portuguesa, logo a seguir a Lisboa, o que urge ser analisado com a devida atenção. O seu mecenato renovador no campo construtivo e de decoração artística eborense não se restringiu a obras de eleição como foram os Mosteiros de Scala Coeli, primeira sede portuguesa de monges cartuxos, e de Santo António da Piedade, casa de franciscanos capuchos, ambos muito conhecidos e bem estudados pelos historiadores. Também não se limitou a custear obras nas paróquias da cidade e a reunir na sua colecção centenas de livros e muitas peças de arte, entre elas alguns testemunhos do seu interesse pelos novos mundos. Durante os vinte e três anos de governo daquela que era uma das maiores Arquidioceses de toda a Cristandade, o ilustrado epíscope preocupou‑se também em assinalar e recuperar o património paleo‑cristao existente no seu território, em definir estratégias de restauro storico desses acervos segundo as directrizes romanas de autores como o cardeal Cesare Baronio, e em organizar os programas de decoração sacra das igrejas dentro dos princípios romanos promulgados na Roma Felix e que foram dominantes durante o pontificado de Sisto V (1585‑1590).

Essas linhas caracterizadoras de desenvolvimento da Évora teotonina assinalam um caminho que, em reacção aos ataques da Reforma protestante, atestou as valências da antichità christiana do seu historial, reforçada pela afirmação de santos eborenses cujo culto se recuperou, ou pela primeira vez se instalou, como são os casos de São Manços, de São Jordão e das suas irmãs Santas Comba e Inonimata, dos santos mártires Vicente, Sabina e Cristeta, de São Torpes, de São Cucufate, de São Brissos, de São Romão e de outros mártires com alegadas origens ou ligações alentejanos durante a era paleo‑cristã, em parte já assinalados nos textos dos humanistas, como o celebérrimo livro de André  Resende Historia da Antiguidade de Cidade de Evora (cuja primeira edição data de 1553). À luz do princípio da concinnitas promulgado pelo arquitecto quatrocentista Léon Battista Alberti, uma busca da harmonia clássica muito seguida nos textos e na prática de Resende em nome da salvaguarda do património da cidade, os pretensos santos fundadores do cristianismo no Alentejo foram nesta altura alvo de novas investigações, por vezes através de campanhas arqueológicas, e de uma verdadeira política de reabilitação construtiva dos lugares hierofânicos relacionados com os seus martírios e os seus focos de devoção popular». In Vitor Serrão, Arte Religião e Imagens em Évora, No Tempo do Arcebispo Teotónio de Bragança (1578-1602), 2015, Fundação Casa de Bragança, 2015, ISBN 978-989-691-361-8.

Cortesia da FCdeBragança/JDACT

JDACT, Vitor Serrão, Cultura e Conhecimento, Caso de Estudo, Évora, História,

sábado, 4 de setembro de 2021

Arte Religião e Imagens em Évora. Vitor Serrão. «A cidade de Évora era vista, de há muito, como a segunda do Reino em importância e notabilidade, tendo chegado a albergar a corte de João III por alguns anos e sendo desde sempre elogiada pelo seu estatuto de Colonia Romana»

Cortesia de wikipedia e jdact

No Tempo do Arcebispo Teotónio de Bragança (1578-1602)

«Este ensaio aborda a vertente mecenática de dom Teotónio de Bragança à frente do Arcebispado de Évora, mostrando a importância dos seus empreendimentos construtivos e de decoração artística e o modo actualizado como adaptou os princípios tridentinos do restauro storico e de revitalização das sacrae imagines em lugares de alegado culto paleo‑cristao. Desenvolveu um novo tipo de arquitectura sacra servindo‑se de artistas de formação romana, como o arquitecto Nicolau Frias ou o seu arquitecto e escultor Pero Vaz Pereira. São muito relevantes as construções que custeou, como o Mosteiro da Scala Coeli da Cartuxa , e muitas outras igrejas em vilas e aldeias da Arquidiocese. A arte que nasce em Évora no fim do século XVI, sob signo da Contra‑Maniera, atinge assim um brilho que rivaliza com os anos do reinado de João III e do humanista André Resende. Velhos cultos e novos temas iconográficos emergem com dom Teotónio, como os de São Manços, São Jordão, São Brissos, Santa Comba, São Torpes e outros mártires considerados eborenses. Fez encomendas em Madrid, Roma e Florença para enriquecer a Sé e o grandioso Mosteiro de Scala Coeli da Cartuxa, por si fundado. Trata‑se, portanto, de um capítulo notabilíssimo da arte portuguesa sob signo de Trento, que merece ser devidamente analisado» In Resumo.

Évora Tridentina. Uma Nova Roma

Dom Teotónio de Bragança (1530‑1602), quarto Arcebispo de Évora, foi uma das mais fortes personalidades da Igreja Católica portuguesa no final do século XVI, com uma acção que se manifestou em vários domínios, incluindo os da política de fomento artístico, em que foi verdadeiro mecenas. Sem deixar nunca de ser um Bragança, ou seja, um membro da mais destacada família da nobreza portuguesa, investiu‑se de papel muito relevante na implementação dos valores de reforma que a Igreja assumira a seguir ao Concílio de Trento (1545‑1563). Homem de educação esmerada, já que, depois de receber aprendizado livresco no Paço Ducal de Vila Viçosa, estudou Humanidades no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, a que se seguiu uma passagem por Roma, com os jesuítas, e a frequência das Universidades de Paris e Bordéus, onde se formou, Dom Teotónio teve oportunidade de viajar pela Europa do Renascimento, de Itália a França, a Espanha e a Inglaterra, convivendo com as experiências culturais que aí se desenvolviam. No contexto da nova situação política estabelecida com o primeiro reinado da Monarquia Dual e o início da governação filipina, por um lado, e com um dirigismo centrado em Évora nas vésperas do triunfal Jubileu católico de 1600, por outro, o Arcebispo assumiu então um papel decisivo no campo da arquitectura e ao nível do equipamento artístico das igrejas da sua Arquidiocese, dando incremento aos focos influentes de mecenatismo e revelando um gosto por demais actualizado em termos de soluções e modelos seguidos.

A cidade de Évora era vista, de há muito, como a segunda do Reino em importância e notabilidade, tendo chegado a albergar a corte de João III por alguns anos e sendo desde sempre elogiada pelo seu estatuto de Colonia Romana, com a sua muralha quase intacta, os seus monumentos romanos, medievais e renascentistas, e a sua riqueza artística consensualmente reconhecida. O cargo de Arcebispo de Évora era, pois, muito ambicionado, ainda que impusesse um perfil de pessoa com especiais responsabilidades, perfil esse encontrado em dom Teotónio de Bragança ao ser indigitado em 1578, certamente por recomendação do cardeal dom Henrique, para ocupar o cargo. Viviam‑se então as dramáticas circunstâncias políticas decorrentes do desastre de Alcácer Quibir e da subsequente morte do monarca Sebastião, o que levara o cardeal dom Henrique a ser designado rei, abandonando o cargo arcebispal, e abrindo um período que, a breve trecho, desembocaria na crise sucessória que levará Filipe II ao trono português. Embora sempre se tenha destacado no múnus de dom Teotónio de Bragança o aspecto catequético, no que cabe dizer a respeito da prática pastoral empreendida, dos sínodos que organizou, da revisão de certos aspectos teológicos segundo os princípios conciliares, do apoio assistencial aos desfavorecidos e das estratégias gerais em favor do engrandecimento da Arquidiocese (com dinâmicas que contrastam, de certo modo, com as do governo precedente do Cardeal‑Rei dom Henrique, um homem da Renascença), a verdade é que também a vertente cultural e construtiva ganhou peso com o seu governo, através de empreendimentos de monta. Tal acento de proselitismo contra reformista só foi possível porque se tratava de uma personalidade culta e viageira, que dispôs de uma base muito sólida de investigação histórica, assente num gosto romanizado e na consciencialização da importância de um património comum». In Vitor Serrão, Arte Religião e Imagens em Évora, No Tempo do Arcebispo Teotónio de Bragança (1578-1602), 2015, Fundação Casa de Bragança, 2015, ISBN 978-989-691-361-8.

Cortesia da FCdeBragança/JDACT

JDACT, Vitor Serrão, Cultura e Conhecimento, Caso de Estudo, Évora, História, 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

A Igreja de S Francisco e o Paço Real de Évora. Francisco Bilou. «… abóbadas das cabeceiras das igrejas de São Francisco de Évora e de Nossa Senhora da Conceição de Beja (1459-1473)…»

Cortesia de wikipedia e jdact

A obra e os protagonistas 500 anos depois

«Já muito se escreveu sobre a obra tardo-gótica de São Francisco de Évora, seja no enquadramento da reforma arquitectónica do corpo do mosteiro, seja no detalhe do seu programa decorativo. Sem dúvida que a qualidade da obra, no seu conjunto, bem como as várias peças documentais que a acompanham, têm favorecido a recorrência do tema, muito enriquecido ao longo do tempo pelo contributo de reputados historiadores nacionais. Pese embora esta evidência, o certo é que algumas dúvidas, imprecisões e omissões têm acompanhado a historiografia do monumento, quer ao nível da análise dos seus elementos arquitectónicos e artísticos e correspondentes enquadramentos temporais, quer da interpretação documental que sustenta os factos e as figuras que lhe deram origem. Foi, precisamente, para responder a esta constatação que nos atrevemos a insistir na análise detalhada da empreitada tardo-gótica, sobretudo a manuelina, tentando reconstituir-lhe um ordenamento factual e cronológico plausível.

Com efeito, relendo o que de substantivo se escreveu até ao momento sobre o assunto, não é óbvia nem consensual a interpretação sobre as diversas intervenções no edifício entre o final do século XV e o início do século seguinte. Desde logo as que andam atribuídas dubitativamente aos investimentos beneméritos de Afonso V e de seu filho, João II, pois se do primeiro dizem as crónicas ter restaurado a arruinada igreja gótica com sua mão poderosa, ao segundo se deve, sem dúvida, se não a traça adoptada por Manuel I, pelo menos uma campanha intermédia de obras, como testemunha a divisa do Príncipe Perfeito na fachada principal da igreja, a par da divisa do Venturoso. O mesmo se pode dizer da interpretação cronológica do ciclo manuelino que, apesar de melhor documentado, ainda assim apresenta zonas de penumbra, quase sempre contornadas com indisfarçável silêncio por muitos dos que se ocuparam do tema. Estão neste caso as datas de arranque e de conclusão do corpo da igreja, alguns passos intermédios da empreitada e, sobretudo, a interpretação de um documento com a duvidosa data de 500, a qual tem servido, invariavelmente, para atrapalhar as propostas de datação da obra.

 

A obra inicial nos reinados de Afonso V e João II

Um dos temas onde as dúvidas abundam é, desde logo, o do momento inicial da reforma tardo-gótica da igreja. Se as memórias transmitidas pelos cronistas são omissas ou inconclusivas, já José Custódio Vieira Silva, no mais completo e assertivo estudo feito ao monumento, deu conta de um primeiro investimento estrutural iniciado nos últimos anos da década de setenta do século XV, o qual, prolongando-se pelo reinado de João II, acabou por ficar circunscrito à reconstrução da capela-mor e dos braços do transepto. Em abono desta análise, refira-se a pertinente comparação feita por este historiador às abóbadas das cabeceiras das igrejas de São Francisco de Évora e de Nossa Senhora da Conceição de Beja (1459-1473) com o propósito de as relacionar estilística e cronologicamente. Só faltou à solidez da sua argumentação o necessário suporte documental. Vejamo-lo agora: na chancelaria de Afonso V encontra-se o registo de uma decisão régia pela qual Afonso Anes Guimarães fica obrigado ao pagamento de mjl reais brancos para as obras e coro de sam francisquo da nossa cidade d’evora. Este documento, datado de Agosto de 1466 e direccionado a uma empreitada específica num edifício religioso, parece comprovar que as primeiras obras em São Francisco já decorriam por essa época, tendo como foco provável a zona da capela-mor, o que faz sentido pela lógica sequencial da construção e pela referência ao coro da igreja, estrutura de aparato litúrgico, ainda hoje, comum àquele espaço. Em reforço desta ideia, também se sabe documentalmente que estando o rei Afonso V em Évora, em 1470, fez saber aos juízes, vereadores e procurador da cidade que havia mandado Soeiro Mendes, cavaleiro de sua casa e alcaide-mor de Arguim, transferir a mancebia da proximidade do mosteiro de São Francisco para o monturo dos oleiros num prazo de cinco meses, dando-lhe para isso uma verba de dez mil reaes dos dinheiros das obras desta cidade e que nom cumprindo elle assy no dito tempo o avemos por apenado em dez mil reaes pera as obras do moesteiro de sam francisco daqui. Ou seja, em 1470 as obras continuavam e o rei impunha medidas de requalificação e dignificação da área envolvente ao mosteiro (e ao paço régio), libertando-o da indesejada vizinhança de casas de prostituição que aí se encontravam instaladas pelo menos desde 1456. A urgência na resolução do problema e a garantia financeira acordada com Soeiro Mendes são sintomas do envolvimento pessoal do monarca no projecto da reforma da casa franciscana de Évora. Acresce a estas duas evidências documentais um outro dado pouco ou nada valorizado pela historiografia, a presença da cruz flordelisada numa das chaves da abóbada da cabeceira da igreja, elemento iconográfico associado à dinastia de Avis mas caído em desuso com João II, após 1485». In Francisco Bilou, A Igreja de S Francisco e o Paço Real de Évora, Fernando Mão de Ferro, Edições Colibri, 2014.

Cortesia EColibri/JDACT

JDACT, Francisco Bilou, Religião, Évora, Cultura e Conhecimento,

quinta-feira, 26 de março de 2020

As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540. Maria Leonor FOS Santos. «… resta-nos a Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra de Ossa, um movimento de cariz eremítico surgido no Alto Alentejo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Com efeito, das formas de vida religiosa que se praticavam no reino de Portugal e por todo o Ocidente, ficaram longe da diocese de Évora as variantes do modelo monástico protagonizadas pelos beneditinos e cistercienses. Os Eremitas de São Paulo da Serra de Ossa e os Jerónimos, duas novas famílias de origem eremítica que em finais do século XIV integraram a forma de vida monástica, constituam, quase exclusivamente, a única representação deste modelo de vida no além Tejo já que, apesar de se tratarem de instituições que adoptaram observâncias influenciadas pelas práticas mendicantes, não devem deixar de se considerar ordens monásticas, pelo valor que ambas conferiram ao afastamento do mundo, à vida contemplativa e de oração e à vida comunitária, desde que consumada a renúncia ao eremitismo.
Os beneditinos nunca chegaram a ter qualquer mosteiro na diocese e a presença dos cistercienses ficou atestada por uma única fundação, a do mosteiro feminino de São Bento de Cástris que, mais do que reflexo do interesse de Cister pelos territórios do sul, correspondeu a uma necessidade prática de enquadramento institucional de um grupo de mulheres piedosas que viviam em comunidade, num local, junto às muralhas de Évora e que, a conselho do cardeal Pedro Julião, futuro papa João XXI, terão tido a iniciativa de desencadear o processo de filiação da sua comunidade à abadia cisterciense de Alcobaça (data de 1275, a filiação da pequena comunidade de mulheres piedosas de Évora ao mosteiro de Alcobaça e a imposição, por parte do abade de Alcobaça, do estabelecimento das religiosas numa zona mais afastada da cidade. Sobre a história deste mosteiro). Quanto aos Jerónimos, uma ordem que se instalou em Portugal a partir de 1400, a sua presença na diocese ficou marcada pela fundação do cenóbio masculino de Nossa Senhora do Espinheiro de Évora. Neste caso, uma fundação levada a cabo pelo bispo metropolita Jorge Perdigão e que correspondeu à concretização do projecto de um seu antecessor, Pedro Noronha. Fundado por bula de Calisto III, de 25 de Novembro de 1457 (bula Pia Deo), o mosteiro foi edificado na periferia de Évora, no lugar onde já existia uma capela dedicada a Nossa Senhora do Espinheiro e veio a destacar-se, entre as várias fundações monástico-conventuais da diocese, pela protecção e frequência de monarcas como Afonso V, João II e Manuel I, por ter sido o local eleito para realização das cortes de 1481 e pela importante oficina de pintura que albergou (Desta oficina de pintura irradiou a escola flamenga de Évora , que teve como mestre o famoso fr. Carlos).
Ainda no seio da grande família monástica, resta-nos a Congregação dos Eremitas de São Paulo da Serra de Ossa, um movimento de cariz eremítico surgido no Alto Alentejo a partir da segunda metade do século XIV, que embora enquadrado na forma de vida monástica, foi fortemente influenciado por práticas mendicantes, como a autoridade centralizada, a realização de capítulos gerais e de visitações ou a eleição de superiores temporários e não vitalícios, como era prática entre as outras variantes do modelo monástico. Daí podermos sublinhar para a diocese de Évora a implantação de um clero regular com uma configuração bastante distinta do tradicional monaquismo. Com uma rápida expansão a partir da Serra de Ossa, local de onde partiram vários pobres para reformar alguns lugares ou para fundar novas casas, os homens da pobre vida em pouco mais de um século, entre 1366 e finais do século XV, instalaram, na diocese de Évora e sobretudo no Alto Alentejo, um total de treze eremitérios. Depois da Serra de Ossa, pelos anos de 1371, fixaram-se no actual concelho de Avis, dando origem ao Mosteiro de Nossa Senhora da Azambujeira de Fonte Arcada, do qual se desconhece a localização precisa; daí, passaram ao Redondo, mais especificamente a Vale Abraão e Vale de Infante, onde fundaram dois eremitérios, respectivamente em 1371 e 1372; depois, instalaram-se em Elvas, Évora, Vila Viçosa, Portel, Borba, Montemor-o-Novo, Guadalupe, na periferia de Évora, Sines e, por fim, Serpa». In Maria Leonor FOS Santos, As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540, Comunicação a Novembro de 2007, nas V Jornadas de História Religiosa organizadas pelo Instituto de Superior de Teologia de Évora, Medievalista, Ano 5, Nº 7, 2009, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

quarta-feira, 25 de março de 2020

As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540. Maria Leonor FOS Santos. «… pela disputa de territórios a sul do Tejo, hoje pertencentes à diocese de Portalegre, deram origem à assinatura de um acordo, em 1260…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Dominada pelos muçulmanos desde 715 e sob a sua influência durante quatro séculos e meio, a cidade de Évora foi definitivamente reconquistada pelas forças cristãs, lideradas por Geraldo, Sem Pavor, em 1165. Pouco tempo depois, no âmbito da política de reconstituição do mapa de dioceses de origem suevovisigoda, levada a cabo por Afonso Henriques, com vista à ordenação eclesiástica do território, a Sé de Évora encontrava-se já restaurada. Contudo, a nova diocese veio a ser bastante mais alargada que a primitiva. Sob o seu domínio jurisdicional ficou um vasto território que a sul veio a ser delimitado pela fronteira da diocese de Silves, restaurada em 1189, a norte, pelos limites meridionais da diocese da Guarda, para onde foi transferida a antiga catedral da Egitânia, ou Idanha, depois de 11995, a oeste e noroeste, pelos limites da diocese de Lisboa6, restaurada em11487 e a leste pela fronteira com Espanha.
É nesta vasta região que nos propomos observar o processo de implantação do clero regular, num período cronológico que medeia entre a data de restauração da diocese de Évora e a data de elevação da sua catedral à dignidade de metrópole, ou seja, entre 1165 e 1540, fase que Joaquim Lavajo identifica como um terceiro período da Época dos Bispos da diocese de Évora, depois do período de domínio romano-visigótico e do período de domínio islâmico. Naturalmente, ao longo deste tempo, e em época de ordenação eclesiástica do território, de definição de poderes e de órbitas de influência, os limites da diocese não se mantiveram inalteráveis e a obediência do bispo de Évora passou do metropolita de Braga ao de Compostela, em 1199, e deste ao de Lisboa, em 1394, com a elevação da Sé à dignidade de metrópole. No que respeita aos limites do espaço, se as fronteiras com as dioceses de Lisboa e do Algarve foram relativamente estáveis, o mesmo não aconteceu com a orla de contacto com a diocese da Guarda. Relativamente a esta última os conflitos, de meados do século XIII (o conflito, relativo à delimitação de fronteiras, entre as dioceses da Guarda e de Évora, arrastou-se vários anos e, em particular, durante os pontificados de Rodrigues Fernandes (1250-1267) e de Martinho (1249-1266), respectivamente bispos da Guarda e de Évora), pela disputa de territórios a sul do Tejo, hoje pertencentes à diocese de Portalegre, deram origem à assinatura de um acordo, em 1260, no qual foram reconhecidas como definitivamente pertencentes a Évora as povoações e termos de Elvas, Arronches, Monforte, Assumar, Alter do Chão, Crato, Arês e Amieira, bem como todas as posses da Ordem de Avis situadas na área que então se definia.
Depois deste acordo, as alterações de limites mais significativas verificaram-se, já, posteriormente a 1540 (antes desta data, provavelmente entre 1454 e 1534, o Crato e a Amieira terão passado para a jurisdição da diocese da Guarda) e tiveram a ver com a criação da diocese de Portalegre, em 1549 e da diocese de Elvas, em 1570. Assim, tomando por base, para definição dos limites da diocese, a fronteira com as áreas jurisdicionais das dioceses de Lisboa e do Algarve, o acordo entre os bispos da Guarda e de Évora, de 1260, e a informação sobre os bispados e seus territórios fornecida pelo Catálogo das igrejas de 1320-21, identificámos na diocese de Évora, ao longo do período considerado, a presença de onze ordens religiosas (Ordem do Carmo, Ordem de Cister, Congregação dos Cónegos Seculares de São João Evangelista (Lóios), Ordem dos Pregadores, Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, Ordem de São Paulo 1º Eremita da Serra de Ossa (Paulistas), Ordem dos Frades Menores, Ordem de São Jerónimo, Ordem dos Mercedários, Ordem de Avis e Ordem do Hospital) com um total de cinquenta e seis casas.
A condição de território de fronteira e de espaço de confronto entre as forças cristãs e muçulmanas, que caracterizou a diocese de Évora até à conquista definitiva do Algarve, em 1249, marcou definitivamente os primeiros tempos de ocupação cristã e veio também a influenciar todo o processo de implantação do clero regular na região de além Tejo, o qual assumiu características bem distintas do quadro existente a norte do país e até à fronteira geográfica natural definida pela linha do Tejo. A necessidade de assegurar a defesa das terras reconquistadas levou os primeiros monarcas a incentivar a implantação das ordens religiosas militares na região sul do reino, através de importantes concessões patrimoniais e benefícios senhoriais. A Ordem de Avis, presente em Évora a partir de 1176, viria, com as suas possessões e jurisdições, a influenciar fortemente a zona de fronteira a norte da diocese, enquanto a Ordem Militar de Santiago, já fixada em Alcácer, pelos anos de 1175, ocupou uma larga faixa de território, ao longo de todo o litoral alentejano e até à península de Setúbal. A sujeição destas zonas à influência das ordens militares terá, também, vindo a condicionar a penetração e instalação das outras ordens religiosas, as quais quase esqueceram a região norte e oeste da diocese». In Maria Leonor FOS Santos, As Ordens Religiosas na Diocese de Évora 1165-1540, Comunicação a Novembro de 2007, nas V Jornadas de História Religiosa organizadas pelo Instituto de Superior de Teologia de Évora, Medievalista, Ano 5, Nº 7, 2009, ISSN 1646-740X.

Cortesia de Medievalista/JDACT

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Inquisição de Évora. Dos Primórdios a 1668. António Borges Coelho. «A alguns ameaçam com tratos; a outros põem a vista deles; a outros aparelham por lhos darem, sem determinação de os executarem em nenhum deles…»

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Cárceres e quotidiano
Polé e potro
«(…)
Potro
l. Sentar o réu no potro e pôr-lhe a coleira.
2. Atar em oito partes sem apertar (uma corda por cada braço por 4 partes e outra corda em 4 partes por cada perna).
3. Meter os arrochos nas quatro partes.
4. Meter os arrochos nas oito partes.
5. Começar a apertar em quatro partes.
6. Começar a apertar em oito partes.
7. Apertar ¼ de volta em 4 partes.
8. Apertar ¼ de volta em 8 partes.
9. Apertar meia volta em 8 partes.
l0. Volta inteira em oito partes.

Alguns presos suportaram dois, três e mais tratos espertos. Francisco Lopes, o Serralvo, sapateiro de Beja, 50 apos, assentado no potro, recebeu cinco voltas e falou. Por ter comprometido diferentes pessoas, terminaria assassinado na serra de Monchique quando já noite se preparava para dar de beber ao jumento. Álvaro Fernandes Castanho, de Loulé, 64 anos, que vivia por sua fazenda, sofreu em 14 de Junho de 1636 três tratos espertos de que resultou quebrar um braço, vindo a morrer no dia seguinte pisado do peito e ensanguentado.
Também Isabel Gomes, meia cristã-nova, casada com um hortelão cristão-velho de Arraiolos, 45 anos, foi posta a tormenta a 17 de Setembro de 1640. Aplicaram-lhe um trato esperto. E por lhe ter rebentado o sangue nos braços faleceu no dia seguinte. Lembramos de novo o padre Gaspar Miranda: des que os prendem(maldita) de Évora dão-se agora [tormentos] a muitas mais pessoas, e a cada uma mais graves, ou mais em número, do que se davam dantes. O memorando de Gaspar Miranda constitui um implacável requisitório:
até que os soltam padecem muitos e graves tormentos nos corpos, e nas almas, principalmente os que estão em tal cárcere que por si só é tormento. E prossegue: na Inquisição

A alguns ameaçam com tratos; a outros põem a vista deles; a outros aparelham por lhos darem, sem determinação de os executarem em nenhum deles, porque os não merecem. Mas para que assim confessem, fazem os inquisidores figuras, ou ficções, e usam de invenções, com que os enganam e persuadem que realmente lhes darão tratos se não confessarem. E por isto confessam, principalmente os fracos, ou simplices, ou moços, ou mulheres.

Mas não se trata só de simulação ou de coacção psicológica. Comummente se dão tão cruéis, acrescenta Gaspar Miranda reportando-se aos tormentos, que toda a vida duram os sinais. E algumas pessoas ficam aleijadas e inúteis, outras morrem neles ou perigam gravissimamente, maxime velhos ou fracos. Assim os constrangem a confessar falsidades de si e de outros. E recebem-nas. E procedem neles como se fossem verdades confessadas livremente.

Céu de chumbo
Mandai-lhes que não chorem nem suspirem rijo porque presumem que é darem sinal aos dos outros cárceres. Se falam de um cárcere para outro ou batem nas paredes, vem o castigo. Com pregão do guarda, põem-lhes mordaça e açoutam-nos pelos corredores, não escapando donzelas e moças. Estas palavras de Notícias Recônditas são confirmadas pelo Regimento de 1640: ordenará [o alcaide] que haja sempre muita quietação no cárcere; e que os presos não tenham brigas ou diferenças entre si; nem joguem jogo algum; nem usem nomes diferentes dos que tiveram; nem tenham livros; nem se comuniquem de um cárcere para outro batendo, falando ou escrevendo. E que falem manso naquele em que estiverem». In António Borges Coelho, Inquisição de Évora, dos Primórdios a 1668, volume 1, Editorial Caminho, colecção Universitária, Instituto Português do Livro e da Leitura, 1987.

Cortesia Caminho/JDACT

Inquisição de Évora. Dos Primórdios a 1668. António Borges Coelho. «No ano de 1569, dois ratinhos que vieram este Verão trabalhar em Alentejo denunciaram Rui Vicente de Elvas, por lhes dizer: se os inquisidores os [cristãos-novos] metiam nas casinhas…»

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Cárceres e quotidiano
Polé e potro
«(…) E como não temos prática nem experiência do potro, não temos também no teor dos graus que correspondem nele ao que temos dito. Pelo que pedimos a V. A. nos faça mercê mandar-nos avisar de como neste devemos proceder, porque os doutores que temos nisto e que falam nestes graus somente põem exemplo nos tratos de polé. E porque também o ministro que temos não sabe como se há-de haver neste tormento, pareceu devíamos lembrar a V. A. convinha vir cá o que dá nessa Inquisição (maldita) porque, com uma semana que cá esteja, ficará o outro instruído de maneira que corra nesse particular com facilidade. Em 18 de Janeiro de 1594 já Inês Fernandes, de 45 anos, natural de Serpa e moradora em Beja, viúva de Diogo Rodrigues Dourado, o Poeta, e filha de homem de negócio, experimentava os torniquetes do potro. Três anos antes, resistira como negativa a um trato esperto. Agora despojam-na dos vestidos, ficando com umas ceroulas compridas até baixo e uma camisa grande por cima. Sentam-na no potro e admoestam-na. Atam-lhe depois os braços descobertos e, deitada, amarram-lhe os braços e as pernas e admoestam-na de novo. Levou seis voltas, uma em cada braço, duas nas coxas e duas nas pernas. E depois de novamente admoestada, taparam-lhe o rosto com o véu e lançaram-lhe quatro púcaros de água pela boca.
Os notários dos diferentes processos dão notícia de tormentos mas ignoram, por exemplo, as acusações do jesuíta Gaspar Miranda: alguns de todos os ministros do Santo Ofício (maldito) se mostram inclinados a tratos, e desumanos, quando assistem neles. E dizem palavras com que afligem mais aos tratados, e os afrontam. E noutro passo: dão-se com menos decência, principalmente a mulheres. Não faltam também referências a presos algemados nas suas casinhas, a açoites com pregão e a outros tipos de tortura. No ano de 1569, dois ratinhos que vieram este Verão trabalhar em Alentejo denunciaram Rui Vicente de Elvas, por lhes dizer: se os inquisidores os [cristãos-novos] metiam nas casinhas e lhe rapavam as solas dos pés e os faziam passear por trigo e lhe davam outros tormentos como não confessariam o que não era? Podemos seguir a fórmula geral dos autos de tormento servindo-nos ainda do processo de Isabel Álvares, tia-bisavó de Bento Espinosa: 7 de Fevereiro de 1598. Acórdão os inquisidores ordinários e deputados da Santa Inquisição (maldita) que, vistos estes autos e qualidade da confissão de Isabel Álvares, cristã-nova da vila da Vidigueira, per que se mostra ela não confessar inteiramente suas culpas, como era obrigada, e os grandes indícios que contra ela resultam de encobrir pessoas de sua nação, especialmente suas conjuntas, com as quais comunicou a crença da Lei de Moisés; antes de outro despacho, seja posta a tormento, conforme ao assento, que neste seu processo está tomado, onde será perguntada pelo sobredito, para que manifeste a verdade para remédio de sua alma e das ditas pessoas, o que assim mandam sem prejuízo do provado e por ela confessado.
Os inquisidores Salvador Mesquita e António Furtado Mendonça, o notário António Pires Dantas e os oficiais do tormento (carrasco e cirurgião ou médico) deram execução ao acórdão. Sigamos o registo do notário Dantas: e publicada a dita sentença, foi a ré outra vez admoestada acabasse de confessar suas culpas e não se queira ver em trabalhos. E por não dizer nada, foram chamados os ministros para dentro, aos quais foi dado juramento dos Santos Evangelhos, em que puseram suas mãos, sob cargo do qual lhes foi mandado que bem e verdadeiramente fizessem seu ofício e tivessem segredo no caso. O que eles prometeram fazer. E logo a ré foi assentada na cadeira aonde foi outra vez admoestada que acabasse de confessar. E por não querer, lhe foi dito que se ela morresse neste tormento ou quebrasse algum membro de seu corpo, a culpa fosse sua e não deles nem por isso incorressem em irregularidade. E foi começada a atar com a primeira correia. E sendo atada de todo e posto o balancé, foi alevantada até à roldana, digo, até ao lugar do libelo aonde lhe foi lido. E depois de lido, foi alevantada até ao lugar da roldana aonde estando foi admoestada que acabasse de confessar. E por não querer, foi deixada cair e teve um trato esperto. Os tormentos, potro e polé graduavam-se por ordem crescente de gravidade numa tabela de equivalências:

Polé
l.º Ad faciem tormenti (o réu é posto no banco com as mãos atrás).
2.º Começar a atar (atar a primeira correia sem apertar).
3.º Pôr correia sem apertar.
4.º Pôr segunda correia.
5.º Atado perfeitamente, isto é, ligado ao calabre para içar.
6.º Começar a levantar até ao primeiro sobrado.
7.º Levantar até ao libelo, isto é, até ao segundo sobrado.
8.º Levantar até à roldana.
9.º Um trato corrido (descer lentamente).
l0.º Um trato esperto (descida brusca)».

In António Borges Coelho, Inquisição de Évora, dos Primórdios a 1668, volume 1, Editorial Caminho, colecção Universitária, Instituto Português do Livro e da Leitura, 1987.

Cortesia Caminho/JDACT

domingo, 25 de novembro de 2018

Inquisição de Évora. Dos Primórdios a 1668. António Borges Coelho. «Haverá uma casa com os instrumentos necessários para nela se dar tormento aos presos. A planta de Mateus do Couto não indica expressamente a sala do tormento…»

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Cárceres e quotidiano
Nos cárceres de vigia
«(…) Com estas testemunhas e estes testemunhos se preparavam juridicamente as pessoas para a morte. Manuel Fernandes Vila Real (queimado no Terreiro do Paço no dia 1.º de Dezembro de 1652, na presença do rei João IV a quem tanto ajudara a segurar a coroa), Manuel Fernandes Vila Real vira agravada a sua situação ao descobrir o segredo dos cárceres de vigia da Inquisição (maldita) de Lisboa. Sem querer dizer de seus irmãos que tem nesta cidade nem de pessoa alguma que nela resida e ser tão manhoso que atinou com os buracos das vigias dos cárceres e tapou os da quinta casa do meio novo [...] Causaria notável prejuízo ao ministério do Santo Ofício (maldito) publicando e descobrindo o segredo das vigias, que é de tanta importância, podendo-se temer com toda a certeza que seria o réu, escapando, de grandíssimo dano ao tribunal da Inquisição (maldita) e seu justo procedimento, o que muito se devia e deve atender ainda no caso que este réu pudesse chegar a estado de escapar com vida.

Polé e potro
Haverá uma casa com os instrumentos necessários para nela se dar tormento aos presos.
A planta de Mateus do Couto não indica expressamente a sala do tormento, a qual, apesar disso, funcionava, pelo menos aplicando os tratos de polé desde os primeiros anos da Inquisição (maldita) de Évora. Inclinamo-nos, à vista da planta, a situá-la no piso térreo, numa das duas salas que também serviam de prisão, uma delas amurada ao templo romano/açougue. Em 1542, Duarte Fernandes, marceiro, de 45 anos, natural de Lisboa e residente em Moura (o pai fora trapeiro fabricando panos), foi submetido a tormento. Subido no ar, foi-lhe lido o libelo e aplicaram-lhe três tratos, leves e fracos os dois primeiros, o terceiro mais forte. Descido, foi novamente içado, sofrendo o quarto trato. Em 1572, Tomás Alvares Barselai, de Beja, de 50 anos, que vivia por sua fazenda, foi atado pelos ditos ministros e amoestado com caridade. Disse que todos serão hereges e maus cristãos, o que disse com clamores grandes [...] E logo disse que tudo o conteúdo no dito libelo confessava. E disse que o descessem abaixo que todos serão judeus. E perguntado o que queria dizer, disse que não sabia que dissesse. Que acabassem de o matar. E foi alevantado. E estando alevantado do chão disse por muitas vezes que todos eram judeus na vontade e não lhes vira fazer cerimónias. E foi levado a toda a riba da polé. Disse que não sabia mais que dissesse. E logo foi solto e deixado cair. E tornado a amoestar por muitas vezes com caridade sempre disse que tinha dito muita verdade e foi mandado levar ao seu cárcere. A palavra caridade queima aqui como ácido.
Em 20 de Novembro de 1593, os inquisidores Jerónimo Teixeira Cabral, João Bragança e Rui Pires Veiga escreveram ao arquiduque Alberto, cardeal, governador e inquisidor-geral do reino de Portugal. Senhor, querendo proceder a execução do tormento com as pessoas que forem despachados com ele, achamos que alguns deles eram quebrados e outros doentes destes males. E porque esses e outros, conforme ao parecer do médico e cirurgião, não podem ter trato esperto sem provável perigo de sua vida, nos pareceu que o melhor remédio que havia, para a justiça não perder seu direito e eles poderem salvar suas almos, dizendo a verdade de suas culpas, era fazer-se nesta Inquisição (maldita) um potro como o há na de Lisboa. Porque no tormento dele não correm as ditas pessoas o perigo que arreceamos no outro. E poderia também servir para velhos e outros que têm algum impedimento por respeito dos quais o tormento da polé lhes fica mais dificultoso. O cardeal Alberto respondeu favoravelmente.
A 29 de Novembro insistem os inquisidores de Évora: recebemos a carta de V. Alteza de 24 do presente em que V. Alteza há por bem haja nesta Inquisição (maldita) o potro, que escrevemos nos parecia houvesse nela para os que não podiam ter tormento de polé. O que faremos logo e daqui por diante usaremos dele com todos. Como V. Alteza manda para este o que está na Inquisição (maldita) dessa cidade e fazer então por ele vai lá Lourenço Dias, carpinteiro desta casa, da maneira que V. Alteza mandou. A prática que até agora tínhamos no tormento de polé era dar a cada um os graus de tormento, conforme aos indícios que tinha. E estes graus eram ad faciem tormenti; começá-lo a atar; atado de todo; começá-los a levantar; alevantá-los até, ao lugar em que se lhes lê o libelo; alevantados até à roldana; tratos corridos; um esperto; dois espertos; e os que pudesse levar a arbítrio». In António Borges Coelho, Inquisição de Évora, dos Primórdios a 1668, volume 1, Editorial Caminho, colecção Universitária, Instituto Português do Livro e da Leitura, 1987.

Cortesia Caminho/JDACT

Inquisição de Évora. Dos Primórdios a 1668. António Borges Coelho. «O terceiro vigia do dia foi Gonçalo Fernandes, homem do meirinho. Viu estar a dita presa assentada sobre a cama fazendo rede e tinha a sua comida coberta sobre o fogareiro»


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Cárceres e quotidiano
«(…) Não faltam os corredores, como vemos pelas plantas de Mateus Couto. O que falta é, espaço, mesmo quando o preso ocupa sozinho uma cela. Os desgraçados não sabem se hão-de estar sós ou acompanha-os. Se ficam sós têm falta de todo o comércio humano, porque só lhe abrem a porta de fora, às suas horas, pela grade da segunda porta. O mercador e lavrador Lopo Gonçalves, o Cavaleiro, de Elvas, de 58 anos, pertinaz e negativo, podia desfrutar ainda do conforto relativo, à sua custa, de que dá notícia o espólio que deixou na cela quando saiu a caminho da fogueira: um cobertor de Castela (velho); outro cobertor branco já roto; mantéu, calças, camisas, lenços, cinta, chinelos, dois pelotes, mantéu pardo, colchão, coberta; toalhas de mesa; pano de cabeça; guardanapos velhos; um bufete velho e paus de talabarte; uma bolsa velha com trinta réis e dois ceitis; meia caixa de marmelada e outra vazia; um pente; um pouco de açúcar torrado, umas Horas de Nossa Senhora muito velhas; e uma canastra pequena onde estão as miudezas.

Nos cárceres de vigia
Havia cárceres especiais, os cárceres de vigia, onde, por orifícios escondidos nas paredes ou no tecto, o preso ou presa incomunicáveis eram controlados nos seus passos as vinte e quatro horas do dia. Isabel Álvares, tia-bisavó do filósofo Bento Espinosa, viúva, natural da Vidigueira, condenada a relaxe à justiça secular e, usando com ela de muita misericórdia, deixando o rigor de direito que suas culpas mereciam, reconciliada já no cadafalso do auto-da-fé de 12-7-1598 (processo nº 4676), esteve num destes cárceres de vigia da Inquisição (maldita) de Évora. O primeiro espia escalado, Agostinho Fernandes, familiar do Santo Ofício (maldito), foi por mandado dos senhores inquisidores à vigia da quarta casa do corredor novo de cima. Isabel Álvares esteve deitada até às sete horas da manhã. Nessa altura bateram à porta do cárcere e deram-lhe uma brasa de lume com que acendeu o fogareiro. E concertou nele um pouco de arroz com azeite e açúcar e sal. E assou um ovo e uma maçã. E depois da dita comida feita, a cobriu no mesmo fogareiro, por estar já o fogo apagado, e a deixou ficar sem comer nada dela. Dera os bons-dias às vizinhas com sinais batidos na parede. E que Isabel Álvares, mãos postas olhando o céu, exclamara: Senhor, livrai-me! Senhor, ajudai-me que já tardais!
Por sua vez o segundo espreita, Pedro Correia, guarda do cárcere declarava ao inquisidor: e se foi duas vezes à fresta do dito cárcere, subindo pelas grades, lançando a mão fora pela dita fresta, cabeceando com a cabeça, olhando para o céu, bulindo os beiços. O terceiro vigia do dia foi Gonçalo Fernandes, homem do meirinho. Viu estar a dita presa assentada sobre a cama fazendo rede e tinha a sua comida coberta sobre o fogareiro. Que cortara as unhas por três vezes. E depois do céu ter já, estrelas, começou a cear da comida que tinha no fogareiro, começando pela maçã assada e depois comeu o ovo. Noutro dia e noutro jejum, relata o guarda Gregório Fernandes, Isabel Álvares em pé, abria as mãos e as fechava, olhando para a fresta, bulindo com os beiços (mas ele testemunha não entendia o que ela falava), o que fez depois disto por duas vezes. E depois de o fazer a primeira vez, lavou todo o corpo; e as mãos lavou quatro ou cinco vezes; e as unhas das mãos cortou três vezes. A ceia fora agora sardinha e pão.
Num terceiro jejum ceou sardinha com cebola, pão e arroz. Quando fizeram sinal na Sé para alevantarem o Santíssimo Sacramento, a dita presa não fez oração ainda que, depois disso, deu os bons-dias a seus vizinhos do mesmo cárcere batendo na parede. Outro vigia declara:

Uma das ditas vezes, indo defronte da fresta, se foi deitar sobre a cama; e estava com as mãos postas e olhos fechados por algum espaço. E depois abrindo os olhos e as mãos, disse estas palavras; Senhor, livrai-me que estou perdida! E noutra altura; Senhor, ajudai-me e a duas filhas minhas que estamos aqui nesta amargura! E em latim; Nune demitis servum tuum! (Não abandones o teu servo!).

In António Borges Coelho, Inquisição de Évora, dos Primórdios a 1668, volume 1, Editorial Caminho, colecção Universitária, Instituto Português do Livro e da Leitura, 1987.

Cortesia Caminho/JDACT

terça-feira, 11 de julho de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Mas os vestígios romanos encontram-se em vários pontos ao redor da cidade: na Glória, a 300 m da Porta de Alconchel; na Horta do Bispo, a 600 m da Porta do Raimundo…»

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«(…) A muralha romana que parcialmente se conserva data de fins do século III. Quanto ao aqueduto, não temos dúvidas sobre a sua construção no tempo dos Romanos, pois só assim se justifica a existência da Rua do Cano, que já no século XIII se encostava ao velho aqueduto. O templo que, em meados do século II, se ergueu no ponto mais alto da cidade estava consagrado ao culto imperial, tendo por sacerdotes os servi Augustales. A divindade oriental de Némesis tinha também uma comunidade de fiéis em Évora, os amici Nemesiaci, que formavam uma confraria cuja função era dar sepultura aos seus membros. Évora era a cidade da Lusitânia onde habitava maior número de famílias de origem romana, como Júlia, Calpúrnia, Canídia e Catínia. Algumas tinham as suas residências nas villae dos arredores. Uma das mais importantes, que no início do século II pertencia à família Júlia, ficava na Tourega, por onde passava a via de Ebora a Salacia (é de notar que este lugar foi um centro de civilização megalítica, como o provam as antas de Valverde e do Barrrocal; aí fica o chamado castelo do Geraldo, e perto encontra-se o grande relevo metalúrgico da serra dos Monges, onde abunda o ferro; neste lugar encontra-se a Fonte Senta, à qual se ligam lendas de mártires cristãos).
Mas os vestígios romanos encontram-se em vários pontos ao redor da cidade: na Glória, a 300 m da Porta de Alconchel; na Horta do Bispo, a 600 m da Porta do Raimundo, à beira da estrada para Viana; na Herdade da Fonte Coberta, 10 km a sueste de Évora; na Herdade da Curraleira e na Herdade da Morgada, a caminho de S. Miguel de Machede. Na freguesia de S. Vicente de Valongo existe um pequeno forte que deve datar dos primeiros tempos do império e que, tal como o castelo da Lousa, na margem esquerda do Guadiana, tinha funções eminentemente defensivas. As setenta inscrições conhecidas provenientes de Évora e dos concelhos limítrofes são prova inegável da importância que a cidade alcançou na época rornana. A confirmar a supremacia de Évora conta-se o facto de, já no início do século IV, ser sede de bispado, suplantando deste modo a capital do convento pacensce, que só no século VI ascendeu àquela dignidade». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0.

Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT

sábado, 8 de julho de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Ebora era ponto obrigatório para quem, vindo de Emerita, se dirigia para os portos marítimos de Olisippo, Cetobriga e Salacia»

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«(…)
Antecedentes históricos
O antigo nome da cidade, Ebora, é, em si, um facto de civilização. Ele aparece noutros lugares da Península (como na Galiza e na Bética, sob a forma Ebora ou Ebura) e entre os Lusitanos existia Eburobrittium. Na Gália ficava Eburodunum e viviam os Eburones; o primitivo nome da ciclacle inglesa de York foi Eboracum. Trata-se de uma palavra de origem celta que testemunha a presença de povos celtas a sul do Tejo no primeiro milénio. Esta presença é ainda confirmada por Estrabão no século I a.C., no Livro III da Geografia, ao afirmar que na mesopotâmia, delimitada pelo Tejo e pelo Anas (Guadiana) viviam os Célticos e alguns lusitanos trazidos para as suas colónias pelos Romanos. Por importante que tenha sido a influência dos povos celtas na civilização do Ocidente peninsular, podemos, contudo, afirmar que é com os Romanos que a vida urbana se impôe. O domínio romano constitui, por isso, urn marco decisivo no destino da cidade.

Évora na época romana
Pode atribuir-se a André Resende a origem da lenda erudita que liga Sertório à cidade de Évora. Na luta que, à frente dos Lusitanos, sustentou contra Roma, Sertório teria escolhido a cidade para sua capital. Para isso mandou construir as muralhas e o aqueduto. Os seguidores de Resende encarregaram-se de acrescentar mais pormenores Entre eles conta-se o padre Manuel Fialho, autor de Évora Ilustrada, que atribuiu a Sertório a cronstrução do templo que chamou de Diana.
Sabe-se actualmente que esta tradição não tem fundamento e que o centro de operações de Sertório foi Osca (Huesca), mas é provável que tenha tido outras a ocidente, visto que o palco da guerra entre Sertório e Metelo foi o Alentejo e o Algarve, sendo as bases militares deste, entre outras, Metellinum (sobre o (Guadiana) e Caeciliana, (perto da actual Setúbal). Júlio César, governador da Hispânia Ulterior desde 61, desenvolveu a romanização do território além-Tejo, concedeu a Ebora o título de Liberalitas Julia e fundou possivelmente a colónia de Pax Julia (Beja). Com a divisão provincial da Península efectuada por Augusto, a Lusitânia estava dividida em três conventos jurídicos: Augusta Emerita, Pax Julia e Scallabis. Ebora pertencia ao convento pacence.
Segundo o célebre naturalista Plínio, o Velho, na sua Historia Naturalis, Évora era uma cidade-fortaleza (oppidum) que tinha a categoria de município com direito antigo do Lácio, tal como Mértola e Salacia (Alcácer do Sal). Situada no centro da plataforrna alentejana, num cruzamento de estradas militares, é como cidade-encruzilhada que Évora vai prosperar nos primeiros séculos do império. Segundo podemos constatar através do Itinerário de Antonino, do início do século III, Ebora era ponto obrigatório para quem, vindo de Emerita, se dirigia para os portos marítimos de Olisippo, Cetobriga e Salacia. Por ela tinha igualmente de transitar quem de Pax Julia se dirigisse para Scallabis. Como qualquer cidade romana, Évora obedece à organização dos acampamentos militares: portas orientadas segundo os pontos cardiais, duas vias que se cruzam em ângulo recto e, na intercepção de ambas, o forum». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0.


Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Évora na Idade Média. Maria Ângela Beirante. «Reconhecendo a dificuldade de filiar a arte do barro numa única origem histórica, Orlando Ribeiro admite como provável a sua remota filiação ibérica»

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«(…) Os factorcs climáticos reflectem-se inevitavelmente no manto vegetal que, na sua forrna espontânea, se caracteriza pelo predomínio de árvores e arbustos de folha perene e odorífera e tem a sua expressão mais típica na charneca. A este tipo de vegetação associa-se, em regra, o gado ovino e suíno. Todos os elementos que acabamos de enumerar dizem respeito ao território que cronstitui o quadro geográfico da cidade. Porém, como lembra Orlando Ribeiro, o território de um povo já não é um simples dom da natureza, mas sim uma cornbinação original entre dois elementos: território e civilização. O povoamento concentrado e a fraca densidadc populacional; o regime latifundiário e a cultura extensiva; o pastoreio independente da agricultura que se observam na região alentejana são exemplos dessa combinaçào original de território e civilização.
Para o geógrafo do Mediterrâneo (Orlando Ribeiro), o Alentejo integra-se por inteiro na civilização do barro, que tem como elemento característico a preferência dada ao barro (taipa, adobe e tijolo) na arte de construir; mas aqui a respons:rlrilidade cabe muito mais à história do que à natureza. Segundo o mesmo autor, o Alentejo possui bons afloramentos graníticos, que nos tempos pré-históricos possibilitaram a construção de grandes necrópoles dolménicas nos actuais concelhos de Évora, Reguengos de Monsaraz, Mora (Pavia), Montemor-o-Novo. Arraiolos e Estremoz e fizeram desta região um importante centro de civilização megalítica. Todavia, a civilização do granito, que noss tempos históricos continuou florescente no Norte, foi suplantada no Sul pela civilização do barro, em virtude de uma maior susceptibilidade deste às correntes de civilização.
Reconhecendo a dificuldade de filiar a arte do barro numa única origem histórica, Orlando Ribeiro admite como provável a sua remota filiação ibérica e como centro difusor os planaltos castelhanos onde falta a pedra. Embora sublinhe o emprego do tijolo pelos Romanos, considera que foram os Mouros os principais responsáveis pela generalizaçào da taipa, que já traziam do mundo muçulmano. Não podemos, entretanto, deixar de lembrar que o uso da taipa e do adobe é apanágio das construções humildes. Só deste modo se justifica que, na actualidade, outro geógrafo (Amorim Girão) possa reivindicar para Évora (mais do que para Lisboa) o direito ao título de cidade de mármore e granito, e que na Idade Média, as construções da cidade, embora recorressem largamente ao barro, sempre tenham utilizado a pedra. A esta persistência não são alheios os dois factores convergentes da natureza e da história: de um lado, a abundância de material lítico; do outro, a marca indelével da arquitectura romana consubstanciada no próprio templo de granito». In Maria Ângela Rocha Beirante, Évora na Idade Média, Textos Universitários de Ciências Sociais e Humanas, Dissertação de Doutoramento em História, Fundação Calouste Gulbenkian, 1ª Edição, 1995, ISBN 972-310-693-0. 
Cortesia de FCG, CMÉvora/JDACT