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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. Leonel Borrela. «… edições bilingues e de origem portuguesa, prova de que, aos investigadores franceses, a nossa crítica, mesmo que significativa, não é para levar a sério. Se fosse traduzida para a língua francesa uma obra como a de António Belard da Fonseca, seria suficiente para clarificar melhor a autenticidade feminina e portuguesa das Cartas»

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Análise quantitativa
Numa primeira análise pode dizer-se que a internacionalização das Cartas Portuguesas ajudou a consolidá-las e a criar-lhes uma imagem literária de singularidade reconhecida por leitores de todo o mundo. A primeira obra impressa das cinco Cartas é traduzida para a língua francesa e editada no ano de 1669, o mesmo acontecendo a todas as edições, reedições e contrafacções, dos séculos XVII e XVIII, as quais virão gradualmente misturando as cinco cartas com as sete de uma dama secular, mais as respostas dos amantes. O idioma francês domina este período das Luzes como se pode observar pela análise dos resultados estatísticos, embora nem todas as edições sejam de origem francesa, encontram-se assim distribuídas:
  • sete edições no século XVII, em Paris 1, Lyon 2, Amesterdão 2 e Haia 2; 
  • quatro edições no século XVIII, em Haia 3 e Paris 1.
No século XIX saem do prelo 23 edições em vários idiomas:
  • francês 4, 
  • castelhano 1, 
  • inglês 3, 
  • dinamarquês 1, 
  • holandês 1, 
  • português 11, 
  • bilingues luso-gálica 1 e franco-britanica 1.
É o século da nota Boissonade (1810), do desvendar do nome de Mariana Alcoforado, a provocar uma reviravolta no centro das atenções literárias europeias; e também uma benesse para Portugal, tão necessitado de valores que revitalizem a nação cada vez mais depauperada, e para as investigações de Luciano Cordeiro (1888; 1891). As edições em língua portuguesa, mais a bilingue, representam já 50% do total deste século, sobem a primeiro plano e vão influenciar, através da actuação de um diplomata e investigador inglês, Edgar Prestage, que traduz para a sua língua e torna conhecida, em Londres e Portland-Maine, parte do estudo de Soror Marianna de Cordeiro, ao mesmo tempo que motiva as edições de Copenhaga e de Amesterdão.
Do século XX aos nossos dias o aumento das publicações é significativo (93% do total da colecção). O conjunto dos séculos XVII, XVIII e XIX, com 34 exemplarcs (7% da colecção), é ainda maioritariamente francês (44%), logo seguido do português (32%), contudo a partir do século XX, aumenta consideravelmente o número de traduções, além das já mencionadas, para alemão, italiano, norueguês, grego, galego, catalão, japonês, checo, polaco e chinês. A posição da língua portuguesa cresce para 354 exemplares (73% do total da colecção), a francesa para 56 (11,5%), seguidas das inglesa (3,3%) e castelhana (3%) com respectivamente 16 e 15 exemplares cada uma e, para as línguas italiana (1,6%) e alemã (1,5%) com respectivamente 8 e 7 exemplares cada uma. Na língua japonesa editam-se 3 exemplares, na checa 2, reduzindo-se as restantes a 1 exemplar cada; salientam-se as 12 edições bilingues luso-gálicas (2,5%), sinal da partilha e troca de ideias, aliadas a uma certa competição, entre editoras e autores de ambos os países. Porém, a maioria dessas edições bilingues e de origem portuguesa, prova de que, aos investigadores franceses, a nossa crítica, mesmo que significativa, não é para levar a sério. Se fosse traduzida para a língua francesa uma obra como a de António Belard da Fonseca, seria suficiente para clarificar melhor a autenticidade feminina e portuguesa das Cartas.
Além do exponencial aumento das edições em língua portuguesa interessa conhecer, dadas as mudanças políticas operadas no país nos últimos quase duzentos anos, o comportamento de algumas das variáveis mais importantes. Por exemplo, enquanto para o Período Liberal se contabilizam 13 exemplares, para a I República alcançam-se 48, para o Estado Novo os 85, e a partir de Abril de 1974 atingem-se os 188, mais 20 sem data, perfazem 354 exemplares. Nem todas as publicações são livros, também há periódicos, assim 352 são livros e 132 são periódicos (a maioria publicados depois de Abril de 1974), mais 1 álbum de fotografias afecto ao livro de Luciano Cordeiro (1891). Portanto, para o Período Liberal, justificam-se os 13 exemplares, por um lado, pela emergente mas ainda fraca divulgação das Cartas, pelo analfabetismo reinante (atingia os 70% em 1910) e, quiçá, pela raridade e dificuldade de laboração nas principais cidades das oficinas tipográficas, pois a crise económica e financeira é grave, descontrolada, e afecta todos os sectores da sociedade; à medida que esses factores se invertem, aumenta o número de publicações de todo o género e, nos escassos dezasseis anos da I Republica, com uma Grande Guerra de permeio, chegam a 48 as edições, enquanto nos quarenta e oito anos do Estado Novo somente se editam 85 obras, proporcionalmente menos do que seria de esperar, pois a tipografia clássica da zincogravura e dos tipos dará gradualmente lugar ao moderno offset e a censura (palermas) política, num caso isolado, o das Três Marias e das suas Novas Cartas Portuguesas (1972-1974), não hostiliza as Lettres, nem Mariana, que aliás lhe interessa para engrandecer a fachada dos heróis nacionais; porém, com o 25 de Abril, a abolição da censura, a restauração das liberdades fundamentais a todos os cidadãos e a expansão de uma livre economia de mercado, crescem as empresas gráficas, as editoras e dá-se a mediatização rápida dos meios de informação, só assim se compreendendo os 188 exemplares publicados neste período com vantagem para os periódicos». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. Leonel Borrela. «Os séculos XVII, XVIII e boa parte do XIX, privilegiaram a língua francesa, o idioma que mais se falava, lia e escrevia, em quase todo o ocidente europeu dominado pelas Luzes e pela nova realidade política, após Revolução Francesa»

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Quantidade e Qualidade nas Lettres Portugaises
«Concluído o inventário das obras bibliográficas da Colecção Alcoforadina  optámos por aplicar uma metodologia que vá ao encontro da que utilizou Fernando Guedes. O autor, após contextualizar a problemática da influência das Luzes no final de setecentos em Portugal, apresenta os resultados das suas análises quantitativas e qualitativas realizadas sobre o manancial de informação bibliográfica extraído de onze catálogos de livreiros lisboetas, de 1777 a 1797, cujas lacunas para os anos em falta preencheu com as listas de impressões efectuadas na Régia Oficina Tipográfica. Do mesmo modo procederá com a análise do primeiro quartel do século XIX. Enquanto F. Guedes analisa, de entre vastos sectores, livros de moral, filosofia, direito, história e novelas, caracterizando as mudanças de política editorial, aliadas à leitura, far-se-á uma incursão por algumas das principais obras que autores, ensaístas, escritores, artistas, políticos, actores, poetas, etc. e editores nos propiciaram na concepção de um livro temático, o das Lettres Portugaises.
Assim, viajaremos dos seculos XVII ao XXI; da Edição Princeps a uma das mais recentes; dos idiomas francês, passando por uma dezena de outros, até ao japonês, ao longo de 485 exemplares manifestamente impossíveis de valorizar individualmente.
No âmbito da edição internacional das Lettres Portugaises, as línguas francesa e portuguesa ocupam actualmente o lugar de destaque, embora em proporções desiguais, com grande vantagem para Portugal, mas nem sempre foi assim. Com efeito, os séculos XVII, XVIII e boa parte do XIX, privilegiaram a língua francesa, o idioma que mais se falava, lia e escrevia, em quase todo o ocidente europeu dominado pelas Luzes e pela nova realidade política, após Revolução Francesa (1789), de cariz republicano e liberal,  como revelam mais de sessenta edições publicadas, entre 1669 e 1747, em Paris, Grenoble, Lyon, Tournay, Colónia, Amesterdão, Haia, Bruxelas e Antuérpia. Ainda no século XVII, segundo o bibliófilo José dos Santos, virão a lume:
  • de Londres, em 1678, na língua inglesa, traduzida do francês por Roger L’Estrange, Five loveletters from a nun to a cavalier editado por Henry Brome; 
  • de Veneza, em italiano, no ano de 1682, as Lettere Amorose Portvghesi […] Trasportate dal Portughese in Francese, e dal Francese in Italiano, por Narbonte Pordone.
o século XVIII trar-nos-á uma edição alemã, de Rotenburg, datada de 1788, há outra mais antiga, Briefewechfed eine Portugiesisher none. No século XIX ainda saem do prelo boas edições francesas e bilingues luso-gálicas. Vê-se como era pobre o panorama das edições extra francófonas. Só a partir do século XIX, muito depois da Inglaterra, Países Baixos, Alemanha e Itália (Veneza), Portugal despertou, via nota Boissonade (1810), para a realidade cultural das Lettres, e, desde então, queremo-las tão portuguesas, que não param as edições, agora envolvidas por um crescente interesse internacional.

NOTA: As cartas também serviram para animar os descontentes do Portugal liberal, do nacionalismo crescente na transição de oitocentos. Numa edição popular de Luciano Cordeiro (1894), podemos ler o testemunho de Oliveira Martins (1845-1894): ‘Meu querido Luciano. Vibrei certamente, vibrei todo o dia ontem [alusão a uma frase da carta em que Luciano lhe oferecia um exemplar da 1.ª edição de Soror Marianna], lendo a sua primorosa obra. V. fez um milagre. Não queria escrever-lhe agradecendo o seu livro, antes de o ler, e não o li logo porque o tinha em prestado ao Moniz Barreto para ele escrever o artigo que lhe pedi e V. já leu, de certo. O Repórter cumpriu o seu dever. O livro das Cartas que V. fez é verdadeiramente definitivo; não há mais nada a dizer. V. esgotou a erudição e a crítica: não há que rebuscar nem observar mais. Está definido o caso patológico (?) e determinado o concurso de circunstâncias que se deu. Receba pois V., meu querido Luciano, os meus mais cordiais parabéns e creia-me sempre - Seu velho amigo, de uma amizade sempre moça’.

Do que conhecemos, fora das parcelas inventariadas da nossa colecção, e que, como complemento de estudo, consideremos importante, daremos notícia, pois será a maneira mais correcta de valorizarmos, ainda que de forma subsidiária, a historia do Livro e da Leitura, as Lettres Portugaises, Mariana Alcoforado e sua cidade de Beja». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

terça-feira, 26 de junho de 2012

Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. Leonel Borrela. «Apesar de considerarmos a obra extremamente positiva, supomos que a autora não visitou Beja e, se alguma vez veio a Portugal, não se apercebeu que seria impossível fazer em poucas horas, no século XVII e em tempo de guerra, o caminho entre Castelo Rodrigo e Beja, afinal bem distantes e quase diagonalmente opostas»



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«Muito resumidamente, Myriam Cyr, exceptuando pequenas lacunas de ordem bibliográfica, aproxima-se bastante do Estado da Arte, quase conseguindo fazer o ponto da situação em que se encontram os estudos acerca do tema, com a vantagem, para Portugal, de defender a autoria portuguesa das cartas, referenciando, para os leitores de língua inglesa e francesa, os autores portugueses e estrangeiros que a admitem.
Aqui para nós, que ninguém nos ouve, Mariana Alcoforado e as “Lettres Portugaises", constituem, inexplicavelmente, uma relação de intimidade a desfazer pela maioria dos nossos letrados desde o século XIX. Há mais de trinta anos que assistimos no Museu Regional de Beja, instalado no convento onde viveu Mariana, aos esgares ridículos e sobranceiros de uma certa pseudo-intelectualidade portuguesa que, perante a janela das Portas de Mértola, se afana na mesquinhez...
Desconhecemos se, com o nosso entusiasmo pelo assunto, contagiámos, ainda mais, algumas das personalidades que nos visitaram nos últimos anos,  como Giovanni Piazza, Isamu Taniguchi, Graça Lobo, Carlos Quevedo, Rubens Coura, Teresa Corte-real, Michelle Navarro, entre outras. Lisa Forrel, encenadora inglesa de Myriam Cyr, aquando da sua interpretação das Cartas num dos teatros de Nova lorque. Num dos dias da encenação as duas amigas encontraram-se com Katherine Vaz, falaram de nós, de Beja, e do romance histórico "Mariana" desta escritora luso-americana. Parece-nos indispensável, especialmente para a cidade de Beja, a insistência nestes contactos, cujos bons resultados veremos dentro de poucos anos, razão por que urge adoptar uma atitude em tudo explícita, em nada hesitante, acerca da autoria portuguesa das cartas.

Revela uma obra bem estruturada, bem documentada na bibliografia, mas confunde os nomes dos reis portugueses e a leitura de alguns documentos. Apesar de considerarmos a obra extremamente positiva, supomos que a autora não visitou Beja e, se alguma vez veio a Portugal, não se apercebeu que seria impossível fazer em poucas horas, no século XVII e em tempo de guerra, o caminho entre Castelo Rodrigo e Beja, afinal bem distantes e quase diagonalmente opostas; Claude Barbin, o primeiro editor das cartas, em 1669, nunca que saibamos referiu, nas edições, o nome de Guilleragues, nem como seu tradutor nem como autor; a dado momento lê-se que “A capela de Santa Maria pertencia à cidade pitoresca de Beja, situada no Baixo-Alentejo, a região mais a sul de Portugal”. Ora, a capela de Santa Maria, é simplesmente a mais importante igreja paroquial da cidade, a que apresenta melhores pergaminhos históricos, na penúltima região mais a sul, no continente; devido provavelmente à proximidade da meia dúzia de frades do demolido hospício de Santo António, actual local do Teatro Pax-Julia, considera que os mesmos viviam também nas instalações do convento da Conceição, cenóbio de Mariana e das outras freiras clarissas. Enfim, são pequenas fantasias que, esperemos, os detractores da autoria portuguesa das Cartas não deverão aproveitar em benefício próprio.

Todavia reafirmamos o interesse incontornável que esta edição tem para Portugal, Beja e Soror Mariana Alcoforado. Sem outros comentários, a propósito da condição feminina portuguesa, diz-nos Myriam Cyr:
  • "O catolicismo português, uma mescla de vestígios de costumes muçulmanos, crenças pagãs e devoção religiosa [cristã], era o palco ideal para subjugar as mulheres. As esposas eram deliberadamente mantidas analfabetas. Usavam a versão católica do chador sob a forma de um lenço apertado à volta da cara. Comiam no chão, sobre uma esteira de cortiça, enquanto os homens se sentavam à mesa, [...]".
In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Leonel Borrela. Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. «Mergulhar nas cartas de Mariana Alcoforado é sentir-lhe as lágrimas, o amor vivido, eterno, que a sua paixão alimentou; é sentir também como foi tristemente limitado ao claustro (primeira carta), do qual desejava sair, o seu quotidiano; como foram severas as leis deste país para com as religiosas (terceira carta)…»



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Cartas Polémicas
«Barbin registou uma antologia de vários autores sob o nome de Guilleragues, assinalando com minúsculas as “Lettres Portugaises”. Belard da Fonseca também criticou a metodologia utilizada pelo professor Green na análise do registo, pois não o confrontou com outros de Barbin e de outros autores e livreiros. Belard, ao comparar o teor de registos coevos aos de Barbin, notouìhes as incongruências e alvitrou a hipótese de que possivelmente só a obra ou as duas obras mais chegadas ao nome de Guileragues é que seriam de sua autoria. Nem mais.
Decididamente, as Cartas Portuguesas cativam e apaixonam quem as lê. Portanto, há os que crêem, neste crer há muito trabalho de investigação que reúne fortes indícios, favoráveis à tese portuguesa e feminina, quase impossíveis de contornar, que as cartas foram de facto escritas por Mariana Alcoforado; em oposição total, os que atribuem a Guilleragues a autoria das epístolas; ainda os que não acreditam no romance entre Mariana e Chamilly, independentemente de quem as escreveu; houve quem as atribuísse a outros homens e também a outras mulheres. De Túlio Espanca (1913-1993), poucos dias depois da sua morte, saía no Jornal de Letras um estudo atribuindo a autoria das Cartas Portuguesas a Francisco Manuel de Melo (1608-1666).

Têm-se revelado frágeis as bases de contestação da autoria feminina e portuguesa das “Lettres”, pelo que não se deve desistir da contra argumentação, conferindo e dando o devido valor à quantidade e qualidade dos testemunhos visíveis.
Mergulhar nas cartas de Mariana Alcoforado é sentir-lhe as lágrimas, o amor vivido, eterno, que a sua paixão alimentou; é sentir também como foi tristemente limitado ao claustro (primeira carta), do qual desejava sair, o seu quotidiano; como foram severas as leis deste país para com as religiosas (terceira carta) e austera a sua família; é, ainda, sentirmos o quanto é ilimitada a capacidade de amar, de tentar através das palavras, as únicas, angustiadas, que não lhe podem tirar, ultrapassar todos os obstáculos porque aquém do maior amor do mundo, para Mariana, “tout le rest n'est rien”.


“O amor proibido de uma freira portuguesa”, editado em Lisboa, pela Esquilo, em 2006, numa tradução de Maria de Lurdes Feio, da autoria de Myriam Cyr, actriz de teatro norte americana, é a primeira obra de investigação estrangeira, ainda que ligeiramente romanceada, traduzida para português, acerca da polémica que persiste em torno da autoria das Cartas Portuguesas. Myriam crê com veemência nos encontros amorosos entre Mariana e Chamilly, tentando explicar a conjuntura especial que os reúne nessa tão ardente paixão e encara com naturalidade a escrita amorosa e literária da freira portuguesa.
A autora cita e reforça, com perspicácia, as teses de autores portugueses como Luciano Cordeiro (1891), Manuel Ribeiro (1940) e António Belard da Fonseca (1966), embora defenda um maior conhecimento da língua francesa por parte da religiosa, não invalidando a utilização nas Cartas de uma escrita mista que lhes dá o toque luso que possuem; contrapõe as teses de outros, portugueses e estrangeiros, como A. Gonçalves Rodrigues, F. Deloffre e J. Rougeot; e, aparentemente, só porque não a vimos na bibliografia consultada, parece desconhecer a obra “O infeliz amor de soror Mariana”, também ela uma obra chave para a atribuição da autoria portuguesa das cartas a Mariana Alcoforado, editada no Rio de Janeiro, em 1964, pelo general Humberto Delgado.
Castro e Brito, com “A doçaria de Beja na tradição provincial”, editada em Lisboa, pela Império, em 1940, integra os cerca de 140 exemplares bibliográficos alcoforadinos ou que, não o sendo, se prestam à contextualização do ensaio romanceado da autora, apadrinhando com os sabores alentejanos dulcificados o amargo da desventurada paixão». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

domingo, 1 de abril de 2012

Leonel Borrela. Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. «Camilo já tinha referido a existência em Beja de uma família Alcoforado e Luciano confirmou-a, em 1888 e 1891, com fartos documentos, além de encontrar outros relativos à própria religiosa Mariana Alcoforado; enfim, datas, lugares, nomes, circunstancias várias narradas nas cartas…»


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Cartas Polémicas
«Do século XVIII acode à contestação o desamparado pressentimento de Rousseau que "apostava tudo em como a autoria das cartas era de um homem", pois que, segundo o seu ponto de vista, uma mulher nunca teria inteligência para tal empresa. Mais conservadores quanto às possibilidades femininas deveriam ser os homens do século anterior e, mesmo assim, deixaram passar as referidas cartas, mas, Rousseau, não!
A nota Boissonade é fulcral na abordagem à problemática da autoria feminina das “Lettres Portugaises”, porquanto traz para a ribalta o nome de família de Mariana, os Alcoforados da cidade de Beja, Filinto Elísio e o Morgado de Mateus, exilados em França, são os primeiros portugueses a fazer, respectivamente, em 1818 - 1819 e 1823 - 1824, retroversões para a língua materna, enquanto nos anos seguintes Alexandre Herculano, Lopes de Mendonça e Camilo C. Branco, negam, sem sustentabilidade, a sua autoria feminina, seja ela portuguesa ou estrangeira. Acreditam também que as Cartas foram inicialmente escritas em francês. Será Luciano Cordeiro o primeiro investigador, digno deste nome, da questão das “Lettres Portugaises". Camilo já tinha referido a existência em Beja de uma família Alcoforado e Luciano confirmou-a, em 1888 e 1891, com fartos documentos, além de encontrar outros relativos à própria religiosa Mariana Alcoforado; enfim, datas, lugares, nomes, circunstancias várias narradas nas cartas, tudo parecia, e parece, comprovar a origem feminina e portuguesa das cinco cartas editadas em paris, em 1669.

F. C. Green, em 1926, publica um valioso documento: o Registo solicitado por Barbin, datado de 17 de Novembro de 1669, para um livro intitulado “Les Valentines lettres portugaises Epigrames et Madrigaux de Guilleragues”. O Privilegio Real, datado de 28 de Outubro de 1668, permitia ao livreiro a exclusividade editorial durante cinco anos. Desde então, o mundo literário, francês e português, em acordo ou em dissonância, procura a hipótese que considera mais correcta e quase nem distingue a escrita minúscula de “lettres portugaises” das maiúsculas de “Valentines [...] Epigrames et Madrigaux”. Será que Guilleragues pediu a Barbin o registo, como seria normal para a época, das suas “Valentinas" com roupagem das já conhecidas, e traduzidas por si, ‘Cartas Portuguesas’, para que a reputação destas lhas pudesse catapultar e servir de benefício económico? E provável, porquanto o mercado livreiro de então já tinha, também, as suas subtilezas. O facto das ‘Cartas’ virem discriminadas no registo com letras minúsculas alguma coisa de diferente devem querer dizer. Os três nomes que têm a inicial maiúscula corresponderiam, naturalmente, a obras de Guilleragues, enquanto os dois com minúscula poderiam acusar a tradução. Roger Chartier, a propósito da constituição de bibliotecas reais no final do século XVI, destaca o caso das obras da "autoria" de François de La Croix du Maine, mesmo que compiladas de outros autores, testemunho das bolandas autorais em que andaram inicialmente "perdidas" muitas obras bibliográficas.

Fac-símile do Registo das obras de Guilleragues realizado por Barbin em 1668. BNF.
Leitura: "Ce jourdhuy 17 Novembre 1668 nous a este prezenté un Privilege du Roy donné a Paris le 28 Octobre 1668 Signe Margeret pour cinq annees pour un livre intitule Les Valentines lettres portugaises Epigrames et Madriguax de Guilleraques".
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O professor António Gonçalves Rodrigues (1906-1999), foi um dos maiores opositores da tese alcoforadina (1935-1943). Fez a leitura linear do Registo de Privilégio concedido a Barbin, para publicar "obras" de Guilleragues, mas não reparou nas iniciais minúsculas de “lettres portugaises”, característica que as diferenciam, como vimos, de “Les Valentines, Epigrames e Madrigaux”.
Alain Viala refere na sua obra ‘O nascimento do escritor’, que, em 1669, uma maneira de um editor fugir à obrigação de mencionar o autor, imposta por lei desde 1571, era a de organizar uma colectânea, composta por uma série de obras de diversos autores, mas sob o nome de um único. Quando o autor tomava essa iniciativa, o privilegio vinha no seu nome, embora a maioria das obras não fossem suas.
Myriam Cyr, em “O Amor proibido de uma freira portuguesa”, descreve em pormenor, esta importante pesquisa de Viala que vem abrir, como diz a autora, uma nova interpretação do registo de privilégio, contudo descurou a versão correcta do "livro" de Guilleragues, que em lugar de ser "Valentines, Cartas Portuguesas, Epigramas e Madrigais", é, como muito bem reproduzem Rodrigues e Belard da Fonseca “Les Valentines lettres portugaises Epigrames et Madriguax" de Guileraques. Como já referimos anteriormente esta atitude propositada, adoptando as letras minúsculas para discriminar as ‘lettres portugaises’ está em perfeita sintonia com o resultado dos estudos de Viala». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

domingo, 11 de março de 2012

Leonel Borrela. Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. «Era um homem alto e gordo, o melhor, o mais bravo, e o mais temente aos princípios da honra; mas tão estúpido e tão bronco que mesmo não se entendia que possuísse alguns talentos para a guerra. [...] Ao vê-lo e ouvi-lo ninguém se persuadiria que tivesse inspirado um amor tão desconforme como esse que é a alma das famosas “Lettres Portugaises”»


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De Mariana e da autoria das Cartas
«Afinal, se alguns anonimatos haviam, eram os de Chamilly e Guilleragues, a religiosa tinha um nome, Marianna, que se traduziu para Marianne:
  • [...] Deixa, deixa, infeliz Mariana, de te ralar em vão e de procurar um amante que não verás jamais, que atravessou os mares para te fugir e está em França no meio dos seus prazeres, que não pensa sequer no teu sofrimento e que dispensa todos esses enlevos, que nunca te agradecerá.
Quer no documento de baptismo, quer no de óbito, ou nos que assinou como escrivã e vigária, Mariana, vem escrito: Marianna (com dois n), nos dois primeiros registos e, nos outros, assinados por ela, como Maria Anna. É a mesma pessoa, a caprichar com o seu nome composto de Maria mais Ana, mas também tem sido o suficiente para alguns investigadores darem ares da sua erudição, como Denis Fauconnier que tenta não relacionar Maria Anna Alcoforado com a Marianna Alcoforado mencionada por Boissonade.
Nos assentos de baptismo e de óbito vê-se bem como escreviam o seu nome e como a chamavam, ‘Marianna’.
Se Barbin e os outros editores coevos como, Phillippe e Loyson, mentiram quanto à autenticidade das missivas, ditas portuguesas, e usufruíram da credulidade de um público acrítico, é estranho que durante tanto tempo ninguém os tenha contestado e denunciado.

Cortesia de 100Luz

Gabriel Guéret, no seu manuscrito "La Promenade de Saint-Cloud" ou diálogo sobre os autores, datado do Verão de 1669, mas somente publicado em 1751, nas “Mémoires historiques, critiques et littéraires” de Bruys, critica o jogo artificioso de Claude Barbin aplicado à sua edição das Cartas, embora não afirme que são obra de um homem, ou de qualquer outra pessoa que não seja a religiosa. Constata o que ainda hoje acontece: há obras literariamente boas que ficam nas prateleiras das lojas a ganhar pó e outras, sem estilo e com a maior parte dos períodos sem medida, além da repetição das mesmas frases e sentimentos, como é o caso das “Leftres Portugaises”, que a não ser pela novidade, não se percebe como vendem tanto. Estas observações de Guéret, sobre o não clacissismo das Cartas, têm sido usadas, apesar de tudo, contra a sua autoria portuguesa, quando na verdade o que se depreende é uma inveja enorme, da parte de Guéret, pelo sucesso de Barbin, aliada à tentativa de desvalorizar as obras que edita. Se as Cartas não obedeciam aos cânones da época, então é mais uma prova de que não são originárias do meio literário francês. 
Boileau Despreaux (1636-1711), o príncipe francês da sátira, coetâneo do livreiro Barbin, ao receber do 4º conde da Ericeira, Francisco Xavier de Menezes (1673-1743), a tradução portuguesa da sua Arte Poética e uma epístola em versos franceses, agradeceu-lhe, em carta datada de 1697, elogiando a distinção de que fora alvo e dando como exemplo, para grande contentamento do conde, que até as pedras em que este tocava se convertiam em jóias. Asseverava-lhe que na primeira edição das suas obras incluiria a tradução do conde. Passados quatro anos Boileau editava as suas obras, alegando como desculpa da promessa não cumprida que se tinha perdido o primeiro canto da tradução e que por vergonha não o pedira. Segundo Camilo Castelo Branco que narra este acontecimento, tratava-se de um subterfúgio, vulgaríssimo nos talentos superiores». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

quinta-feira, 1 de março de 2012

Leonel Borrela. Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. «O título original e o conteúdo das epístolas remetem-nos para a língua portuguesa, Portugal e, dada a referência a Mértola, para a região de Beja. Nas cinco cartas de amor só há uma verdade histórica, adversa a toda a persuasão que as pretende mitificar para o lado luso»

Cortesia de 100luz

De Mariana e da autoria das Cartas
«Subligny, um advogado francês, frequentador dos salões ilustrados, autor de uma comédia em prosa contra o Andromaco de Racine, de quem seria posteriormente um grande amigo, também foi apontado como tradutor das cinco cartas de amor, enquanto Guilleragues teria ficcionado as respostas de Chamilly. As cartas estavam na moda a tal ponto que, segundo alguns investigadores, La Fontaine e Molière teriam utilizado nas suas obras, respectivamente, “Les amours de Psyche” e “Monsieur de Pourceaugnac”, edita das ainda em 1669, uma frase da primeira Carta da edição ‘princeps’ que tem sido bastante cara aos seus admiradores incondicionais: […] ‘tout le reste n'est rien’ (tudo o resto não é nada). Madame Marie-Catherine, baronesse de Aulnoy (1650-1705), em 1695, revela nas suas “Mémoires de la Cour d'Angleterre”, a sua confiança na autoria portuguesa das Cartas, ao mesmo tempo que descreve a decepção que o duque de Buckingham teve quando viu o quanto eram convencionais umas cartas escritas, a seu pedido, por uma linda mulher portuguesa, D. Maria de Balbosa, acabada de chegar a Inglaterra. Não sabia escrever tão bem quanto a sua compatriota “Marianne”, a das ‘Lettres’.
Na polémica que subsiste, sobre a atribuição da autoria das cartas a Mariana, resta-nos, ppelo menos, a aquiescência da grande maioria dos mais contestatários, claro que são em muito menor número do que aqueles que acreditam na autoria feminina e portuguesa das cartas, ao acreditar que de facto deve ter havido uma paixão impetuosa e íntima entre uma religiosa de um convento português e um cavaleiro francês que integrou as tropas estrangeiras que nos auxiliaram durante a guerra da Restauração (1640-1668). Não acreditam na origem portuguesa das cartas, mas acreditam nos amores, valha-nos ao menos deste elogio, a Portugal e a Mariana, o conforto da sublime arte de amar.

Cortesia de 100luz

Todavia, este desconcerto tem muito a ver com uma postura contumaz, muito difundida a partir da segunda metade do século XX, que afirma desconhecer a razão, ou as razões válidas, porque andam as ditas cartas atribuídas a uma freira, revelando não só a ignorância do essencial das fontes de informação que são sobejamente conhecidas, a ‘edição princeps’ (1669), a nota Boissonade (1810) e o ensaio de Luciano Cordeiro (1888) que vêm provar a existência dos intervenientes na historia de amor e a possibilidade histórica do seu relacionamento e encontro na cidade de Beja e no Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição, mas tudo parecendo fazer crer para as ignorar.

Cartas Polémicas
Talvez as Cartas reflictam mesmo a veracidade de um ‘infeliz’,acontecimento que, à ‘boca calada’, todo o mundo conheceu. A nota Boissonade dá a entender isso mesmo, que já passou o tempo suficiente e já ninguém pode levar a mal que se diga o nome de quem escreveu as Cartas.
[…]
Fê-lo como resposta aos detractores da atribuição da autoria portuguesa das cartas, para quem uma mulher (!), freirinha de Beja, não saberia escrever, quanto mais expressar de forma tão sentida e literária uma paixão que só se poderia entender emanando de uma pessoa culta, a qual só poderia ser um homem! O autor de “A Freira de Beja e as Lettres Portugaises”, não só defendeu e bem a sua dama, como veio corroborar aquilo que já o Morgado de Mateus (1758-1825), em 1824, Luciano Cordeiro, em 1888, e Manuel Ribeiro, em 1913 e 1940, haviam assumido quanto à maternidade lusa das célebres “Lettres Portugaises traduites en françois”.

jdact e cortesia wikipedia

O título original e o conteúdo das epístolas remetem-nos para a língua portuguesa, Portugal e, dada a referência a Mértola, para a região de Beja. Nas cinco cartas de amor só há uma verdade histórica, adversa a toda a persuasão que as pretende mitificar para o lado luso, fazendo delas, em simultâneo, o expoente máximo da criação epistolar francesa. Belard da Fonseca (1966, 54-60), à semelhança de alguns outros autores como Keffler (1821), Manuel Ribeiro (1940), Paléologue (1889), Gosse (1905), Luciano Cordeiro (1888 e 1891) e Cerqueira de Vasconcelos (1935), rearrumou, na Senda de Gosse, a ordem das cartas impressas por Barbin, mudando somente a quarta carta da ‘edição princeps’ para o primeiro lugar, versão que aparentemente é a mais correcta, pondo fim às discrepâncias cronológicas que se notavam entre alguns acontecimentos. Tal incongruência, à época, não poderia deixar de ser notada pelo presumível autor francês, Guilleragues, pelo que o erro seria corrigido nas edições seguintes, mas nunca foi, constituindo este facto mais uma prova da sua autenticidade portuguesa.
A ‘edição princeps’ e as seguintes expressam bem a autoria portuguesa das Cartas. Porém, e apesar das edições subsequentes, excepto nas de Barbin que sempre respeitaram o anonimato, desvendarem gradualmente a identidade de alguns dos intervenientes, como sejam a do cavaleiro de Chamilly, como destinatário das cartas de amor, e de Guilleragues como tradutor, atribuições que ninguém coevo contestou com veemência, pouparam sempre a identidade familiar da religiosa que as escreveu. Contudo, este anonimato só existiu parcialmente». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Leonel Borrela. Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. «Mariana entrou para o Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Beja aos onze anos de idade, o seu dote foi negociado pelo pai, tomou o hábito de clarissa franciscana aos dezasseis anos e nunca mais de lá saiu»

Um autógrafo do tempo em qur foi escrivã, M. Alcaforado
Cortesia de 100luz

«As Cartas, julgamos, tiveram sucesso, porque não são uma obra literária, afectada por estereótipos, por clichés dos quais o leitor se enfadava, mas sim a verdade nua e crua de umas cartas bem escritas, sem voltar atrás no que se diz e no que se pensa, com verdadeiro sentimento, daí as contradições, os diferentes estados de espírito, e a novidade que, desde o século XVII, seduziu e se fez de imediato moda repercutida pelo mundo inteiro.

NOTA: Extracto da carta nº 34, de Rochers, domingo, 19 de Julho de 1671: «A minha filha, Madame de Grignan, escreveu a Mousse uma carta que lhe devo agradecer tanto como ele. É uma carta cheia de amizade por mim. D'Hacqueville foi bem amigo mandando à minha filha a minha. Enfim, Brancas escreveu-me uma [carta] com tantas provas de afecto, que compensa bem o seu antigo esquecimento. Fala-me do coração em todas as linhas; se lhe respondesse no mesmo tom, era uma [carta] portuguesa». In Nemésio, 1939.

O idioma francês dominava o Ocidente europeu, nos países danubianos ainda se escrevia em latim, o inglês começava lentamente a expandir-se, o centro do mundo era Paris, sede da progressiva Europa das Luzes e da cultura civilizacional da escrita, procurava-se a novidade, o exotismo, até mesmo dentro do seu próprio espaço geográfico. As Cartas portuguesas são oriundas de um país considerado exótico, daí também, além de serem bem escritas, mas não, de certeza, para serem publicadas, o interesse que despertam; Madame de Aulnoy viaja por Espanha, Hubert Vautrin pela Polónia, entre muitos outros viajantes por outros lugares da Europa. O desconhecido está na moda e edita livros de maior sucesso.

De Mariana e da autoria das Cartas
Mariana Alcoforado nasce em Beja, no dia 22 Abril de 1640, filha de Francisco da Costa Alcoforado e de Leonor Mendes, sendo padrinho de baptismo Francisco da Gama, conde da Vidigueira.

Cortesia de 100luz

Mariana entrou para o Real Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Beja aos onze anos de idade, o seu dote foi negociado pelo pai, tomou o hábito de clarissa franciscana aos dezasseis anos e nunca mais de lá saiu. Após a sua morte em 1723, foi sepultada em campa rasa, anepígrafe, como era norma, numa das galerias do claustro, local onde ainda se conserva o cemitério das religiosas e boa parte da decoração de azulejaria, pintura e capelas quinhentistas e seiscentistas que Mariana ainda deve ter conhecido.

NOTA: Durante o período liberal, após a extinção das ordens conventuais (1834) e da morte da última freira (1891), o município arrasou 75% do edifício, sendo aproveitado, depois de atribuladas obras que o deveriam adaptar a Sé de Beja, para Biblioteca e Museu Regional (1927). Actualmente só funciona como museu.

O ambiente era em grande parte preenchido pela decoração exuberante, própria do período barroco, até os portais de mármore gotico-manuelinos e os fechos de abobada eram cobertos pela pintura, tal como se vê numa das fotografias de Camacho obtidas no interior do convento, no ano de 1890, para ilustrar a 2ª edição de “Soror Marianna” de Luciano Cordeiro.
O convento, situado intramuros entre as Portas romanas de Mértola e as igrejas paroquiais de S. João (monumentos já demolidos, respectivamente em 1876 e 1920) e de Santa Maria, fora fundado, pelos primeiros duques de Beja. Portanto, o palacete, bastante modificado nos meados do século XIX (aquando da sua adaptação à Sociedade Bejense), onde nascera Mariana, na Rua do Touro, e a Igreja de Santa Maria, onde foi baptizada, ficavam pertíssimo do convento que a recebeu e no qual, uns bons anos depois das Cartas, chegou a exercer as funções de Escrivã e Vigária da comunidade religiosa e também a ser votada, embora sem Sucesso, nas eleições para o abadessado.

Assento do baptismo de M. Alcoforado
Cortesia de 100luz

De Mariana e da sua família pouco ou nada se conhecia até que a "nota" do erudito francês abade Boissonade (1774-1857) divulgada no jornal parisiense L’Empire, em 5 de Janeiro de 1810, desvenda o nome da freira, Mariana Alcoforado e, simultaneamente, corrobora o do oficial francês, Noel Bouton, mais conhecido como marquês de Chamilly, como os intervenientes directos da paixão que motivou as Cartas Portuguesas e o local preciso do acontecimento, num convento da cidade de Beja, situada entre a Estremadura e a Andaluzia, no reino de Portugal. Esta notícia vem despertar e estimular o interesse literário português pelas “Lettres”, para Portugal foi como que uma descoberta, e traz para a ribalta a discussão de um assunto sobre o qual praticamente ninguém falava, o da verdadeira autoria das epístolas, pois era pacífico que Guilleragues, um dos secretários de Luís XIV fora o seu tradutor, tal como constava desde as primeiras edições, atribuição que nem o próprio Boissonade contesta, nem duvida da informação manuscrita que integrava a edição princeps que, então, lhe chegara às mãos. Portanto, a partir do século XIX, irrompe a crítica literária que, essencialmente controlada por homens, se divide entre a aceitação da autoria portuguesa ou francesa das cartas, independentemente de as considerarem escritas por um homem (tendência que se atenua com o findar de oitocentos para se reacender no segundo quartel do século seguinte) ou por uma mulher, e ainda há nos nossos dias, apesar do evoluir dos tempos e da cada vez maior emancipação feminina, quem entenda que uma mulher nunca poderia escrever tais missivas, ainda por cima freira e de Beja, imagine-se!». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Leonel Borrela. Cartas de Soror Mariana Alcoforado. Das Lettres Portugaises. «Denunciam a sua eminente prostração, mas não a consomem, pois ela irá viver muitos mais anos, não sabemos se para cortar de vez com essa apaixonada obsessão ou se para vivê-la no silêncio»

Cortesia de 100luz

Das Cartas e da sua época
«Lettres Portugaises é a denominação por que são conhecidas mundialmente as célebres cartas de amor portuguesas editadas em Paris, em 1669, pelo livreiro francês Claude Barbin. O Privilégio Real, datado de 28 de Outubro de 1668, permitir-lhe-á o exclusivo editorial, em França, pelo prazo de cinco anos.
Com efeito, a primeira edição ou edição princeps, saiu do prelo no dia 4 de Janeiro de 1669, sob o título de “Lettres Portugaises traduites en François”. Há uma tendência bastante generalizada para negligenciar o teor da totalidade deste título. Normalmente sublinha-se somente “Lettres Portugaises” e, quando é citada a informação completa do título original, ignora-se, também bastantes vezes, o verbo francês ‘traduire’ (traduzir) substituindo-o por ‘écrire’ (escrever), além de se transcrever ‘françois’ como ‘français’ (forma actual). Cartas Portuguesas traduzidas em francês não é, obviamente, o mesmo que Cartas Portuguesas escritas (que poderiam ter sido ou não traduzidas) em francês. São pormenores desta natureza, involuntários ou não, mas ditos comezinhos por quem desconhece as características nefastas da sua diversidade e o peso mediático do seu somatório, que ocultam ou tentam ocultar, a verdade subjacente ao título, isto é, à autoria portuguesa das Cartas.

Barbin, na sua advertência “Av Lectevr” (Ao Leitor), refere o trabalho árduo que teve para obter nas melhores condições as cinco copias das cartas portuguesas que já andavam manuscritas e traduzidas para francês e argumenta que a publicação, além de prestar um bom serviço a quem tanto as procura, contribui para a sua preservação. Afirma também que desconhece quem as escreveu, quem as traduziu e a quem foram dedicadas, conquanto saliente “un Gentil homme de qualité, qui servoit en Portugal” (um gentil homem de qualidade, que serviu em Portugal).

A persistência das capitulares e dos ornamentos à cabeça
Cortesia de 100luz

A edição ‘princeps’ vai originar, ainda no mesmo ano de 1669, reedições, novas edições e contrafacções, sempre em língua francesa, mas em locais diferentes como Amesterdão (Holanda) ou Colónia (Alemanha), além de Grenoble e Lyon, igualmente em França. Seguir-se-ão muitas mais edições em francês, inglês, italiano e alemão, até ao começo do segundo quartel do século XX, período charneira de mudança de atitude, como veremos, face à tradicionalmente reconhecida autoria portuguesa das Cartas.
Numa outra edição, de Isaac van Dyck, do mesmo ano de 1669:
  • “Lettres d'une Religieuse Portugaise, traduites en françois”;
  • e ainda noutra, de Corneille de Graef também contemporânea das anteriores, mas de 1690 “Lettres d'Amour d'une Religieuse Portugaise ecrites au Chevalier de C. officier françois en Portugal”,vemos como os títulos vão esclarecendo quem escreve o quê e a quem.
A insistência da presença portuguesa expressa nos títulos, prefácios e conteúdo de obras seiscentistas portuguesas, publicadas por Barbin, como a que refere a crónica de Francisco Alcoforado (1427?), companheiro de Zarco, sobre a descoberta da ilha da Madeira, não parece ser coincidência, como que a tentar provar aos incrédulos a relação familiar, genuína, entre Mariana, cujo nome familiar só alguns conheceriam, e aquele membro mais antigo dos Alcoforados.

NOTA: De igual modo se poderia, provavelmente, relacionar a família de Mariana Alcoforado com um dos primeiros impressores de Braga, em 1521, Pedro Gonçalves Alcoforado, de que A. Forjaz de Sampaio dá notícia na sua obra ‘A Tipografia Portuguesa no século XVI’. Os Alcoforados foram também uma família ligada à tragédia, e não só através de Mariana, pois um seu antepassado, António Alcoforado, foi morto por ordem do 4º duque de Bragança, D. Jaime, em 1512, devido a uma intriga palaciana que o denunciara como amante da jovem duquesa D. Leonor, de 23 anos de idade. De um lado a escrita, a cultur e, do outro, a paixão e a desgraça...no tempo de Vasco da Gama, cujo descendente, D. Francisco da Gama, conde da Vidigueira, seria, em 1640, o padrinho de baptismo de Marianna.

Assento de baptismo de Mariano Alcoforado
Cortesia de 100luz

O sucesso das Cartas foi de tal natureza que bem depressa se lhe associaram mais sete (tal e o caso da edição do 2º tomo de Isaac van Dyck, de 1669), além das ficcionadas respostas de Chamilly (exemplo da edição de Corneille le Graef, de 1690). Assim, os livreiros, engrossavam a obra e aumentavam os lucros, fazendo até contrafacções para fugir ao fisco.
Mas, afinal, o que têm as Cartas de tão especial para a época, o que as distingue de tantas obras criadas, recriadas, imaginadas, por tantos eruditos de salão, desejosos de fama, de escândalos freiráticos, realengos e aristocratas, levando-os a competir uns com os outros por um lugar ao sol nos salões das não menos célebres madames de Maintenont, de La Fayette, de Scudéry, de Sabliere e de Sablé, entre muitas outras? Descomprimir um pouco dos códigos da corte de Luís XIV, proporcionava aos intervenientes, homens e mulheres, momentos de "honesta liberdade" e de rara felicidade, pois nesse tempo a possibilidade de um encontro privado era tão rara que um homem e uma mulher, quando o tinham, não podiam perder tempo com conversas de janela. Neste contexto, algo hedonista, surgem as primeiras edições das “Lettres Portugaises”, cuja menção é notória, em 1671, nalgumas das cartas escritas por Madame de Sévigné (1626-1696) a sua filha Madame de Grignan ao referir-se ao conteúdo tão afectuoso da carta que recebera de Madame Brancas. Porém, apesar de revelarem uma grande admiração pela exacerbada fogosidade das Cartas portuguesas e demonstrarem o quanto já eram conhecidas, a generalidade dos leitores só tomaria contacto com a intimidade e os assuntos tratados nas cartas de Sévigné depois da sua primeira edição clandestina e das seguintes, a partir de 1726. Acreditava-se que de facto aquelas cinco epístolas tinham sido escritas por uma mulher portuguesa, religiosa, enclausurada num convento em Portugal, a qual, de tão amorosa que foi, desditosamente, se perdeu apaixonadamente por um oficial francês, regressado a França, depois de ter combatido os espanhóis pela independência do nosso país. As Cartas são um grito de dor, de desencanto total, de repúdio pela constante indiferença que Mariana percebe através das parcas cartas do seu amado. Denunciam a sua eminente prostração, mas não a consomem, pois ela irá viver muitos mais anos, não sabemos se para cortar de vez com essa apaixonada obsessão ou se para vivê-la no silêncio». In Leonel Borrela, Cartas de Soror Mariana Alcoforado, Edição 100Luz, 2007, ISBN 978-972-99886-7-7.

Cortesia de 100Luz/JDACT