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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «O manto negro de Sahra ultrapassava as pontas dos seus dedos e chegava até ao chão; a cada palavra e gesto seu, ela buscava expressar sua submissão à vontade de Alá…»



Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Toda uma cultura e sua religião pesam sobre cada muçulmano, mas o maior dos pesos recai desproporcionalmente sobre os ombros da mulher. Somos obrigadas a obedecer e somos obrigadas a viver na castidade e na vergonha por Alá, pelo Profeta e pelos pais e maridos que são nossos guardiões. As mulheres na Whitechapel Road carregam o fardo de todas as obrigações e regras religiosas que, no Islão, se concentram de forma obsessiva nas mulheres, com a mesma inexorabilidade que observam suas irmãs na África Oriental. Eu ainda sentia a dor provocada pela ideia de ter manchado o bom nome do meu pai. Por ser uma apóstata, uma descrente, por viver agora como uma mulher ocidental, eu o tinha magoado, prejudicado e até profanado com minha rebelião. Mas eu sabia também que aquilo era necessário, vital. Sahra tinha adoptado o caminho inverso. Ela não se rebolou. Magool me dissera que Sahra era muito religiosa e que usava o jilbab, um longo roupão preto que cobre o cabelo e todo o corpo além dos tornozelos e pulsos, mas não o rosto. O manto negro de Sahra ultrapassava as pontas dos seus dedos e chegava até ao chão; a cada palavra e gesto seu, ela buscava expressar sua submissão à vontade de Alá e à autoridade dos homens. O véu muçulmano, os diferentes tipos de máscaras e burcas, são gradações da escravidão mental. É preciso pedir permissão para sair de casa, e, quando saímos, somos invariavelmente obrigadas a nos esconder sob tecidos espessos. Envergonhadas do próprio corpo, suprimindo nossos desejos, sobra algum espaço na vida, por menor que seja, para ser chamado de nosso?

O véu marca deliberadamente as mulheres como propriedade particular e restrita, como não pessoas. O véu separa as mulheres dos homens e do mundo; ele as restringe, confina, educa para a docilidade. A mente pode receber um espaço tão limitado quanto o corpo, e o véu muçulmano restringe tanto a visão da mulher quanto o seu destino. Trata-se da marca de uma espécie de apartheid, reflectindo não a dominação de uma raça, mas de um género. Enquanto o carro avançava pela Whitechapel Road, senti raiva ao ver que essa submissão, ainda que não fosse promovida, era silenciosamente tolerada não apenas pelos britânicos, mas por tantas sociedades ocidentais nas quais a igualdade entre os sexos é protegida pela lei.

Do aeroporto, telefonei para Sahra e contei que tinha ido visitar o nosso pai e estava partindo de volta para os Estados Unidos. Você foi realmente abençoada com a boa sorte!, disse em somali, rindo com a brincadeira que fizera com o meu nome, Ayaan, afortunada. Desde que falou com ele pelo telefone semanas atrás, ele não parou de falar a seu respeito. Conversamos um pouco sobre a família. Tomei o cuidado de não dizer nada que ela pudesse considerar ofensivo. Perguntei à minha irmã porque o hospital tinha internado o pai sob um nome falso, e ela respondeu: Ah, este é o nome que ele usou quando pediu asilo no Reino Unido. Conversamos sobre o hospital, e Sahra me contou uma história engraçada. Quando meu pai foi levado para lá, a mãe dela disse aos enfermeiros que era esposa dele; então sua primeira mulher, Maryan Farah, foi visitá-lo, pois também morava na Inglaterra, e disse aos enfermeiros que ela era a mulher do meu pai. A equipe do hospital parecia se divertir com o número impossível de pessoas que afirmavam ser irmãos e primos dele. Eu ri. Eles devem pensar que somos todos loucos, disse Sahra. Eu disse a ela que provavelmente aquela não era a primeira vez que o hospital via uma situação do tipo.

À semelhança da mãe, cada frase dita por Sahra parecia terminar em Inshallah, é a vontade de Alá. De início, isso me pareceu um sinal de bom comportamento e de um alto grau de civilização, mas, depois de tantos suspiros de aceitação, tantas invocações da vontade de Alá e tantos pedidos pela bênção de Alá, envergonho-me de admitir que aquilo começou a me irritar. Passei a desconfiar dela; Sahra não era mais a criança feliz e saltitante que conheci em 1992». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Ayaan Hirsi Ali, Direitos Humanos, JDACT, Literatura,

sábado, 10 de julho de 2021

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Todos falavam, numa balbúrdia amigável de fofocas e críticas aos habash, palavra usada pelos somalis para se referir aos etíopes»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não soube ao certo se o estado da roupa era um indício de pobreza ou se apenas seguia o modo etíope de tratar as crianças. Quando morávamos em Adis Abeba, todos vestiam farrapos e pareciam ser negligenciados pelos pais. Quando pequena, eu considerava essa negligência a epítome da liberdade. Queria ser deixada em paz, brincar por quanto tempo desejasse, fosse dia ou noite, em vez de ser obrigada a trabalhar. A mãe de Sahra parecia ser tão indulgente quanto a minha fora austera e proibidora. Mas o vestido da minha meia-irmã não era a única coisa em frangalhos. O apartamento se encontrava no mesmo estado. Estávamos num cómodo apertado, separado dos demais espaços por um fino lençol de algodão que já fora branco, mas estava manchado pela fumaça e pelo pó. O cimento do prédio residencial já tinha sido liso e plano, e agora, como tantos outros apartamentos partilhados, tinha rachaduras e buracos grandes e pequenos que eram preenchidos por pequenas poças d’água. Nenhum dos ocupantes podia arcar com o custo dos reparos, e eles não se uniam para levantar o dinheiro necessário para a manutenção e a limpeza das áreas comuns. No fim da tarde, mosquitos gordos zumbiam e se lamentavam perto dos meus ouvidos. Decidi fazer uso do meu melhor árabe e amárico para propor que secássemos as poças d’água.

Minha madrasta dera de ombros numa encantadora manifestação de conformismo. É a vontade de Alá, disse. As poças secarão quando parar de chover. Alá traz a chuva e Alá faz o sol brilhar. A terceira esposa do meu pai aceitava a vida da maneira que se apresentava a ela. Como minha mãe, ela era passiva, mas sua passividade era diferente. As duas eram versadas em autopiedade, resignadas às circunstâncias. Porém, minha mãe amaldiçoava, ralhava, gritava, exigia e insultava aqueles que considerava responsáveis. A mãe de Sahra sorria e repreendia com doçura; abaixava o olhar e parecia contente. O que quer que o próximo dia lhe trouxesse seria a vontade de Alá, e ela não via razão para desafiar os acontecimentos, seu marido nem seu Deus. Todas as suas frases terminavam com Inshallah, é a vontade de Alá. Era este o seu método de sobrevivência. Não tive a energia nem a habilidade linguística para sugerir que, embora pudéssemos deixar que Alá se encarregasse de coisas como trazer a chuva e o brilho do sol, talvez pudéssemos secar as poças nós mesmas. Tive malária duas vezes durante a infância e aprendi nas aulas de ciências e higiene, tanto em Juja Road quanto na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano, que o parasita responsável pela malária deposita seus ovos na água parada. Para evitar a doença, combatíamos os insectos com veneno e dormíamos sob filós, mas tínhamos também que secar as poças d’água que se formavam no nosso complexo habitacional e até nas ruas em torno da nossa casa. É claro que nunca conseguimos erradicar as poças de nosso bairro, mas, enquanto crescia, sequei nosso complexo habitacional em Nairóbi com o zelo de uma sobrevivente e contei a meus parentes somalis sobre animais invisíveis que se reproduziam na água.

A pequena Sahra e sua mãe levavam uma vida bastante comunitária. Durante todo o dia as pessoas entravam e saíam do edifício que abrigava o complexo. Num dos cantos do pátio havia uma grande jarra d’água feita de pedra, e os homens entravam, apanhavam um pouco de água com a concha de alumínio e bebiam directamente a partir dela. As mulheres usavam a mesma jarra para fazer chá e encher suas panelas. A certa altura daquela tarde, alguém disse algo sobre a higiene: lave as mãos antes de usar a jarra. Todos bebemos daí. O quê?, disse um jovem com um sorriso confuso. Lavar as mãos com o quê? Não há mais água. De facto, a concha metálica bateu contra o fundo da jarra de pedra fazendo muito barulho, indicando que estava vazia, e as senhoras mais velhas começaram a se lamentar e gritar, pedindo às mais novas que fossem buscar água. As preocupações com a higiene se perderam no meio do burburinho. Todos falavam, numa balbúrdia amigável de fofocas e críticas aos habash, palavra usada pelos somalis para se referir aos etíopes. Todas as frases que diziam eram pontuadas por expressões como pela vontade de Alá ou pelo amor de Alá.

Sentada no carro que me levava para longe do meu pai após tê-lo visto pela última vez, pensei no que teria me afastado da minha família e dele durante tanto tempo: a regra que dita que um homem deve contar com a obediência de suas mulheres, de suas esposas e de suas filhas, e que elas devem se submeter a ele. Se as mulheres de um homem rejeitarem a submissão, elas . atingem; sua reputação, sua autoridade, a ideia de que ele é leal, forte e cumpridor de sua palavra. Essa ideia faz parte de uma crença mais ampla segundo a qual os indivíduos não têm importância, suas escolhas e seus desejos não têm significado, principalmente se os indivíduos em questão forem mulheres. Essa ideia de honra e direito masculino restringe drasticamente as escolhas das mulheres». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

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domingo, 22 de dezembro de 2019

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «As cabines telefónicas e as placas do metro londrino eram britânicas, mas seria difícil acreditar que estávamos na Inglaterra. Senti o cheiro das lancheiras das minhas colegas na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano em Nairóbi…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O horário de visitas se aproximava. Logo a torrente de somalis sobre a qual Sahra me alertara começaria a chegar para ver meu pai, e eu não poderia suportar a ideia de um confronto. Assim, dolorosamente, despedi-me de abeh. Quando os homens da Scotland Yard me escoltaram para fora do hospital, eu me vi na Whitechapel Road, centro da maior população muçulmana do Reino Unido. Um ruidoso mercado coberto com uma lona ficava do outro lado da rua, repleto de barracas vendendo sáris de todos os tamanhos, cartões telefónicos internacionais e sanduíches de cordeiro picantes. Ao meu lado, na calçada, no ponto de autocarro perto da escadaria do hospital, havia um grupo de muçulmanas usando cada variedade imaginável de coberta islâmica, desde um lenço pastel sobre a cabeça até o espesso niqab preto que cobre o corpo completamente, com um véu de tecido também preto que esconde o rosto e os olhos. Eram mulheres jovens e fortes, e não velhas senis; algumas estavam grávidas, a maioria tinha muitas crianças pequenas, e estavam sob o sol na rua fazendo compras para a família. Muitas usavam uma variação que eu não conhecia: além de um longo roupão e de um lenço sobre a cabeça, elas tinham um véu extra para o rosto afixado com velcro, com duas tiras espessas de tecido preto presas de modo a deixar visível apenas cerca de dois centímetros, o suficiente para revelar os cílios.
As cabines telefónicas e as placas do metro londrino eram britânicas, mas seria difícil acreditar que estávamos na Inglaterra. Senti o cheiro das lancheiras das minhas colegas na Escola Feminina de Ensino Fundamental Muçulmano em Nairóbi, um embate de temperos e alimentos, e óleos perfumados para o cabelo. Aqui havia novamente a ruidosa agitação da rua e a mistura de pessoas, somalis e, imagino, paquistaneses e bengalis, que se amontoavam no mercado. Os simples odores me causaram uma pontada de saudades da inocência da juventude. Não sei se em outras culturas o sentimento de pertencer a uma comunidade é tão forte, mas para alguém que cresceu dentro de um clã, a sensação, o cheiro, da família é muito poderosa. E se alguém em meio a essa multidão me reconhecesse e decidisse comprar uma briga? Aos olhos de muitos deles, sou uma infiel e uma traidora, que anda por aí sem receber o devido castigo.
Eu e meus guarda-costas voltamos para o carro e dirigimos pela Whitechapel Road, lentamente, em meio ao tráfego pesado. Sentada do lado de fora de um fast-food halal, vi uma mulher pequena usando um longo roupão preto com um coque de tecido bordado sobre o nariz e a boca, ao estilo das argelinas. Duas crianças pequenas choravam no carrinho de bebé ao lado dela, que procurava animá-las e confortá-las enquanto erguia o tecido para tentar comer o quitute discretamente sob o véu. A criança mais velha também usava um véu. Não era um véu que cobria o rosto, e sim o cabelo e os ombros; era branco e folgado e possuía um elástico, fazendo com que se instalasse confortavelmente sobre a cabeça da criança. A menina não deveria ter mais do que três anos.
Um pouco mais adiante havia uma mesquita, a maior de Londres, de acordo com minha escolta. Uma pequena multidão de homens estava do lado de fora, todos usando roupas folgadas, barbas longas e chapéus brancos típicos. Todas aquelas pessoas tinham abandonado seus países de origem, indispostas a ou incapazes de deixar o passado para trás, apenas para se reunirem aqui, onde defendem a sua cultura com mais força do que em Nairóbi. Ali estava a mesquita, como um norte magnético simbólico, a força que levava as mulheres deles a se cobrir com tamanha ferocidade, para melhor separá-las da terrível influência da cultura e dos valores do país onde escolheram morar. Foi apenas um vislumbre, e ainda assim fui acometida por uma sensação instantânea de pânico e sufocamento. Eu estava de volta ao coração de tudo: dentro do mundo de véus e antolhos, do mundo em que as mulheres precisam esconder o cabelo e o corpo, precisam se encolher para comer em público, e precisam manter a distância de alguns passos quando acompanham o marido na rua. Uma teia de valores, de horror, de vergonha e de religião, ainda me enredava a todas aquelas mulheres no ponto de autocarro e a quase todas as mulheres que passavam pela Whitechapel Road naquela manhã. Estávamos todas muito longe de onde nasci, mas eu era a única que tinha deixado para trás aquela cultura. Elas trouxeram consigo a sua teia de valores, atravessando metade do mundo. Tive a sensação de ser a única verdadeira nómada.

A Minha meia-irmã
No caminho de volta até ao aeroporto de Heathrow, lembrei-me da primeira vez que encontrei a minha meia-irmã, Sahra, em 1992, na Etiópia. Ela tinha oito anos, e eu, com 22, tinha acabado de me casar e estava a caminho da Europa. Apelamos para a linguagem de sinais, sorrimos, ficamos de mãos dadas e falhando nas tentativas de compreender uma à outra. Sahra era uma criança adorável, com uma curiosidade luminosa e um jeito de demonstrar afeição fisicamente que herdara do meu pai. Ela corria pela casa com a mesma energia, entusiasmo e espírito brincalhão da minha irmã Haweya. Naquele dia, Sahra vestia um vestido sem mangas, rasgado e remendado em tantos pontos que não pude evitar de me sentir constrangida por não lhe ter trazido um novo». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.
                                                                                                                            
Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Não fui ao hospital em busca de absolvição. Já não acreditava na ideia de que se fizesse a coisa certa, como cumprir o meu dever de buscar o perdão dos meus pais e conquistar a sua bênção, meus pecados seriam lavados»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Eu precisava voar até Londres imediatamente. Sendo esta uma viagem urgente, não planeada e puramente pessoal, providenciar um esquema de segurança seria uma tarefa complicada, diferentemente de participar de uma conferência, quando tudo era coordenado com a polícia com semanas de antecedência. Eu sabia que não seria sábio simplesmente partir, acompanhada pelos homens que costumam proteger-me nos Estados Unidos. Esses homens não estavam familiarizados com o Reino Unido e não poderiam andar armados. Se fosse descuidada no meu planeamento, poderia colocar em risco tanto a mim como outras pessoas. Telefonei para alguns amigos na Europa que pensei serem influentes e pedi a eles que tentassem ajudar-me a conseguir a protecção necessária para fazer a viagem. Eles passaram muitas horas tentando ajudar-me, aparentemente sem sucesso. Um amigo ouviu de um funcionário do governo britânico que, como nasci na Somália, eu deveria pedir ajuda à embaixada somali; ela poderia entrar em contacto com o ministério britânico das Relações Exteriores e solicitar ajuda para providenciar a minha segurança. Essa lógica burocrática absurda poderia ser considerada cómica noutras circunstâncias, mas não diante da necessidade de chegar a Londres para ver meu pai moribundo.
Quando o meu avião partiu eu não sabia se poderia contar com a protecção de seguranças após a aterragem. Mas isso não importava mais; após dias de espera o meu único medo era o de chegar tarde demais. Eu sabia que se meu pai morresse não permitiriam que eu visse o corpo dele. Ele seria levado por parentes homens para ser lavado e enterrado num prazo de 24 horas. As mulheres não podem ficar ao lado do túmulo durante uma cerimónia fúnebre muçulmana. Acredita-se que a presença delas é uma distracção; elas podem-se tornar histéricas e até se jogar na cova para ficar junto do corpo. Seria inapropriado tentar participar da cerimónia. Meu pai tinha uma atitude contraditória em relação às mulheres. Ele adoptou algumas ideias modernas em relação à alfabetização, insistiu para que a sua primeira esposa frequentasse a universidade e defendeu que eu e minha irmã Haweya fôssemos à escola quando minha mãe resistiu à ideia. Ele acreditava na força das mulheres e insistia repetidas vezes que o nosso papel era valioso e importante. Mas, conforme ficou mais velho, tornou-se mais ortodoxo nas convicções islâmicas segundo as quais devemos nos cobrir, nos casar e nos submeter ao nosso marido. Apesar de suas opiniões frequentemente excêntricas, nem mesmo meu pai teria tolerado a presença de uma mulher num funeral.
Quando cheguei a Heathrow, o aeroporto de Londres, um grande carro preto da embaixada holandesa estava esperando para me receber; outro veículo, menor e mais seguro, trazia homens da Scotland Yard. Fomos directamente para o hospital. Agora, para meu alívio, o meu pai estava vivo diante de mim. Pobre abeh. Estava amarrado a um leito hospitalar, velho, vulnerável, doente. Sorriu profundamente ao ver-me e então cochilou, acordando de tempos em tempos em busca de ar, fazendo repetidas tentativas de falar, mas sem conseguir emitir nenhuma palavra, somente um ofegante Ash hah. Então ele me mandou beijos com um movimento dos lábios e apertou a minha mão com toda a força que lhe restava. Senti o peso do fardo de tudo aquilo que não havia dito a ele e dos anos que desperdiçamos afastados. As únicas palavras que fui capaz de encontrar foram mensagens simplórias de amor, e eu as repeti de novo e de novo. Era tarde demais para outra coisa.
Não fui ao hospital em busca de absolvição. Já não acreditava na ideia de que se fizesse a coisa certa, como cumprir o meu dever de buscar o perdão dos meus pais e conquistar a sua bênção, meus pecados seriam lavados. Talvez minha presença nem mesmo o agradasse muito, pois ele veria que a filha vestia calças e não usava lenço sobre a cabeça. Fui até lá apenas pela luz em seus olhos, para que me reconhecesse, pelo amor dele por mim e pelo amor que sentia por ele, um reconhecimento mútuo do facto de que sempre fomos preciosos um para o outro. Ele usava as suas últimas reservas de energia na tentativa de me dizer alguma coisa. Nunca saberei o que era. Para meu pai, Deus era o criador e o mantenedor, mas Deus também era feroz e cheio de ira. No fundo, compreendi que, no seu leito de morte, ele estava aterrorizado por eu ter incorrido na ira de Alá ao ter rejeitado a sua fé. O pai sempre nos ensinou que aqueles que Deus não perdoou levarão uma vida miserável na terra e queimarão no fogo eterno do além. Mas, apesar das nossas crenças não se terem reconciliado, o que seria impossível, pois são de mundos diferentes, acho que meu pai me perdoou. No fim, ele permitiu que o seu sentimento de amor paterno transcendesse a adesão às exigências do seu Deus inclemente». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.
                                                                                                                            
Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Alguns deles com certeza achariam que eu merecia a morte, e para muitos mais a minha simples presença seria uma profanação do leito de morte do meu pai»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Deixei-o falar. Não fiz falsas promessas de conversão. Se as tivesse feito, talvez desse mais paz a ele, mas não pude fazê-lo, não pude mentir a respeito disso. Consegui dizer gentilmente que, apesar de não concordar mais com o islão, eu ainda lia o Alcorão. Não acrescentei que a cada releitura eu me tornava mais crítica em relação às suas mensagens. Ele irrompeu numa série de súplicas: que Alá a proteja, que Ele a traga de volta para o rumo correcto, que Ele a leve ao Paraíso no além, que Alá a abençoe e preserve sua saúde. Ao fim de cada súplica, respondi com a fórmula exigida: amin, que assim seja.
Depois de algum tempo disse a meu pai de que precisava tomar um avião. Ele não perguntou para onde nem por quê; percebi que os detalhes dos assuntos terrenos tinham pouca importância para ele agora. Então desliguei, deixando entre nós muitas outras coisas por dizer, e quase perdi o avião que me levaria ao Brasil para uma conferência sobre multiculturalismo. No fim de Junho, após a conferência no Brasil, eu deveria ir até à Austrália para participar de um colóquio sobre o Iluminismo. Planeei visitar o meu pai no fim do verão. Mas em meados de Agosto, quando estava voltando da Austrália, recebi outro telefonema de Marco durante uma paragem em Los Angeles. Meu pai estava em coma. Telefonei novamente para a minha prima, Magool, e ela me deu o número de telemóvel da minha meia-irmã, Sahra. Quando vira a filha mais nova do meu pai pela última vez, em 1992, Sahra estava com oito ou nove anos, uma criança franzina e energética. Conhecemo-nos quando parei na Etiópia durante a viagem da minha casa, no Quénia, até à Alemanha.
De lá, sob as ordens do meu pai, eu deveria ir ao Canadá para me unir a um homem que mal conhecia, um primo distante que se havia tornado meu marido. Naquela época, Sahra morava em Adis Abeba com a mãe, que, como a minha própria mãe, ainda estava casada com meu pai apesar da sua ausência. Brinquei com esta meia-irmã durante toda a tarde, esforçando-me para lembrar o amárico da minha infância, o único idioma falado por ela na época e a língua que eu mesma falava quando tinha essa idade e ainda morava com meu pai.
Agora, no Verão de 2008, Sahra tinha 24 anos. Estava casada e tinha uma filha de quatro meses. Morava com a mãe, a terceira esposa do meu pai. Não contei a Sahra que pretendia visitar o meu pai no hospital. É horrível escrever algo deste tipo, mas a verdade é que eu não sabia se poderia confiar nela e dividir essa informação. Acredito que os membros mais próximos da minha família não desejam realmente matar-me, mas a verdade é que eu os envergonhei e magoei; eles têm de suportar a indignação causada pelas minhas declarações públicas, e sem dúvida alguns membros do meu clã querem matar-me por causa disso.
Mas Sahra adiantou-se e sugeriu que se eu quisesse visitar abeh seria melhor evitar o horário oficial de visitas, quando multidões de somalis procurariam o meu pai no Royal London Hospital em busca de uma bênção dele que melhorasse as suas chances de chegar ao Paraíso. Para muitos, abeh era um símbolo da luta contra o regime militar do presidente Siad Barre; ele era um homem que dedicou a maior parte de sua vida adulta à tentativa de derrubar aquele regime. No East End de Londres, as coisas eram como na Somália: muitas esposas, muitos filhos e netos, anciãos do clã e do subclã e dos subclãs irmãos, muitos e muitos parentes procuravam meu pai para manifestar o seu respeito por ele. Para muitos deles eu não seria bem-vinda ao lado da cama do meu pai por ser uma descrente, uma infiel, uma ateia declarada, uma fugitiva suja e, ainda pior, uma traidora do clã e da fé.
Alguns deles com certeza achariam que eu merecia a morte, e para muitos mais a minha simples presença seria uma profanação do leito de morte do meu pai, podendo até custar a ele o seu lugar no além. Entretanto, não senti em Sahra tamanha rejeição. Ela foi doce e silenciosa, um pouco como se participasse de uma conspiração, como se ao conversar com ela pelo telefone eu a tivesse envolvido em algo clandestino e perigoso». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

terça-feira, 11 de abril de 2017

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Aliás, outro dia, um dos membros mais destacados de nosso clã disse que desejava debater contigo»

jdact e wikipedia

«(…) No entanto, se fosse até lá acompanhada pela polícia, isso certamente causaria ressentimentos, transmitindo a impressão de que eu não podia confiar nem na minha própria família. Segurança!, bradou meu pai. Precisa de segurança para quê? Alá vai protegê-la de todos que desejarem fazer-lhe mal! Ninguém da nossa comunidade vai encostar um dedo em si. Além disso, a nossa família nunca foi conhecida pela cobardia! Aliás, outro dia, um dos membros mais destacados de nosso clã disse que desejava debater contigo. Se quiser, posso pedir a eles que reúnam uma delegação para levá-la a Jidá, para que possa conversar com ele na Arábia Saudita! Por que não convoca uma conferência de imprensa para anunciar que não é mais uma infiel? Diga a eles que voltou ao islão e que agora é uma mulher de negócios!
Ri do meu pai em voz baixa e durante algum tempo dediquei-me apenas ao prazer de ouvi-lo falar. Então perguntei sobre a sua saúde. Ele respondeu: lembre-se, Ayaan, que a nossa saúde e a nossa vida estão nas mãos de Alá. Estou a caminho do além. O que quero, filha querida, é que leia apenas um capítulo do Alcorão. Laa-uqsim Bi-yawmi-il-qiyaama. Ele recitou, em árabe, é claro, apesar de estarmos conversando em somali, a sura da ressurreição: juro pelo Dia da Ressurreição! E juro pela alma, constante censora de si mesma, que ressuscitareis. O ser humano supõe que não lhe juntaremos os ossos? Sim! Juntar-lhos-emos, sendo Nós Poderosos para refazer-lhe as extremidades dos dedos. Mas o ser humano deseja ser ímpio, nos dias que tem à sua frente. Ele interroga Quando será o Dia da Ressurreição? Eu disse a meu pai que não mentiria para ele e que não acreditava mais no exemplo do Profeta. Ele interrompeu-me, e o tom de sua voz se tornou apaixonado, impaciente, depois admoestador. Ele leu para mim outros versos do Alcorão, traduzindo-os para o somali, e listou muitos exemplos de pessoas que tinham deixado o islão como eu, mas depois voltaram para a fé. Ele falou das hordas de não muçulmanos que se convertiam em todo o mundo e a respeito do único Deus verdadeiro; ele me alertou para não colocar em risco a minha existência no além.
Enquanto o ouvia, disse a mim mesma que aquele discurso professoral vinha de um pai que expressava o seu amor da única maneira que sabia. Queria acreditar que o facto de ele estar orientando-me significava que, em algum sentido mais profundo, ele tinha começado a perdoar-me pela pessoa que me havia tornado. Entretanto, acho que não foi nada disso. Talvez ele estivesse apenas cumprindo o seu dever. O facto de eu viver como uma ocidental significava que tinha perdido a minha honra; eu vestia roupas ocidentais, o que para ele não era melhor do que se não usasse roupa nenhuma. O pior de tudo é que eu tinha abjurado do islão e escrito um livro com o ousado e triunfante título de Infiel para proclamar a minha apostasia. Mas o meu pai sabia que a sua vida estava chegando ao fim e queria certificar-se de que todos os filhos, apesar dos seus erros, estivessem no caminho que leva ao Paraíso». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «Bebíamos água da torneira. Jamais conseguiríamos achar o caminho de volta se fôssemos pastorear rebanhos no deserto; não sabíamos nem mesmo ordenhar uma cabra sem levar um coice»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) Durante o resto da vida, minha avó foi impecável em tudo. Criou oito meninas e um menino, e nunca houve quem dissesse uma palavra capaz de lhe de trair a virtude ou o trabalho. Ela inculcou nos filhos força de vontade, obediência e senso de honra. Pastoreava os animais, ia buscar lenha, construía cercados de varas rendadas com galhos arrancados. Tinha mãos e cabeça duras, e, quando o marido presidia às reuniões de clã na qualidade de árbitro, a avó procurava manter as filhas bem longe e a salvo dos homens, das cantorias e dos tambores. Só à distância é que elas podiam ouvir os desafios poéticos e observar os homens trocarem bens e histórias. Minha avó não tinha ciúme da co-esposa mais velha, embora a mantivesse à distância; quando esta morreu, tolerou a presença da arrogante enteada Khadija, a garota quase da sua idade. Artan tinha nove filhas e uma esposa jovem. Era sumamente importante preservar a honra de todas essas mulheres. Ele as conservava bem longe dos outros nómades, passando semanas a errar em busca de um lugar com pasto e sem homens. Viajava incessantemente pelos mais remotos desertos. Debaixo da árvore da nossa casa de Mogadíscio, a avó sempre falava na bela vaziez (qualidade do que é ou está vazio) de se sentar diante da cabana que ela construíra com as próprias mãos e ficar contemplando a vastidão do espaço sem fim.
De certo modo, ela vivia na Idade do Ferro. Não havia sistema de escrita entre os nómadas. Os artefactos de metal eram raros e valiosos. Os ingleses e os italianos proclamavam-se senhores da Somália, mas isso não significava nada para ela. Para a avó, não havia senão os clãs: os grandes clãs nómadas dos isaq e dos darod, os inferiores agricultores hawiye e os sab, mais reles ainda. Aos trinta e poucos anos, quando viu um branco pela primeira vez, ela pensou que o sol tivesse queimado superficialmente, levemente, a pele do pobre homem. A minha mãe, Asha, nasceu no início da década de 1940, com a sua gémea idêntica, Halimo. A avó as pariu sozinha, debaixo de uma árvore. Eram a sua terceira e quarta filhas; ela tinha uns dezoito anos e estava pastoreando cabras e ovelhas quando sentiu as dores. Deitou-se e deu à luz; então cortou os cordões umbilicais com a sua faca. Algumas horas depois, arrebanhou as cabras e ovelhas e conseguiu levá-las para casa em segurança, antes do anoitecer, carregando as gémeas recém-nascidas. Ninguém deu importância à façanha: ela apenas tinha levado mais duas meninas para casa. Para a minha avó, os sentimentos não passavam de uma perversão imbecil. Mas o orgulho, sim, era importante, orgulho pelo trabalho, orgulho pela própria força, e a autoconfiança. Se fosse fraca, as pessoas falariam mal. Se as suas cercas de espinhos não fossem fortes o bastante, os seus animais seriam atacados por leões, hienas e raposas, o seu marido casaria com outra, as suas filhas perderiam a virgindade e seus filhos seriam objecto de desprezo. Aos olhos dela, éramos crianças inúteis. Criadas em uma casa de blocos de cimento, com telhado sólido, não sabíamos fazer nada que prestasse. Andávamos pelo leito da rua; a rua da nossa casa não tinha calçada, porém, mesmo assim, era uma via aberta na terra.Bebíamos água da torneira. Jamais conseguiríamos achar o caminho de volta se fôssemos pastorear rebanhos no deserto; não sabíamos nem mesmo ordenhar uma cabra sem levar um coice. A avó dedicava a mim um desprezo todo especial. Eu tinha pavor de insectos, por isso, na sua opinião, eu era uma criança verdadeiramente burra. Quando as suas filhas completavam cinco ou seis anos, ela já lhes havia ensinado as coisas mais importantes que precisavam saber para sobreviver. Eu não sabia nada. Minha mãe também nos contava histórias. Tinha aprendido a cuidar dos animais da família e a conduzi-los pelos desertos aos lugares mais seguros. As cabras eram presa fácil para o predador; as meninas também». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1.
Cortesia de CdasLetras/JDACT

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «Nem todos aceitarão esse argumento, bem sei. Tudo o que peço aos que não o aceitarem é que defendam o meu direito de enunciá-lo»

jdact e wikipedia

«(…) Aliás, nem sabemos seus nomes. Acalentamos a ilusão de que, por alguma razão, os nossos inimigos mais mortais não são influenciados pela ideologia que eles professam às claras. E depositamos as nossas esperanças numa maioria que evidentemente carece de uma liderança fidedigna e, na verdade, dá sinais de ser mais susceptível aos argumentos dos fanáticos do que aos dos dissidentes.

Cinco Emendas
Nem todos aceitarão esse argumento, bem sei. Tudo o que peço aos que não o aceitarem é que defendam o meu direito de enunciá-lo. Mas, para aqueles que aceitam a proposição de que o extremismo islâmico tem raízes no islão, a questão central é: o que precisa acontecer para derrotarmos os extremistas de uma vez por todas? Ferramentas económicas, políticas, judiciais e militares já foram propostas, e algumas delas, empregadas. Mas acredito que elas serão pouco eficazes a menos que o próprio islão seja reformado. Uma reforma desse tipo já foi proposta repetidamente, por activistas muçulmanos como Muhammad Taha e académicos ocidentais como Bernard Lewis, no mínimo desde a queda do Império Otomano e a subsequente abolição do califado. Nesse sentido, esta não é uma obra original. O que ela tem de original é que eu especifico exactamente o que precisa ser reformado.
Identifiquei cinco preceitos centrais da fé que a tornam resistente à mudança histórica e à adaptação. Somente quando esses cinco aspectos forem reconhecidos como inerentemente nocivos e quando eles forem repudiados e invalidados alcançaremos uma verdadeira reforma muçulmana. Os cinco princípios a serem reformados são: 1. A posição de Maomé como semidivino e infalível, juntamente com a interpretação literal do Alcorão, em especial as partes que foram reveladas em Medina; 2. O investimento numa vida após a morte em detrimento da vida antes da morte; 3. A sharia, o conjunto de leis derivadas do Alcorão, o hadith e o resto da jurisprudência islâmica; 4. A prática de dar a indivíduos o poder de aplicar a lei islâmica ordenando o certo e proibindo o errado; 5. O imperativo de fazer a jihad, ou guerra santa.
Todos esses preceitos devem ser reformados ou descartados. Reconheço que a minha argumentação perturbará muitos muçulmanos. Alguns fatalmente dirão que se ofenderam com as emendas que proponho. Outros, sem dúvida, alegarão que não tenho qualificações para discutir essas questões complexas da tradição teológica e legal. E temo, imensamente, que ela venha a aumentar em alguns muçulmanos a vontade de me silenciar. Mas este não é um livro de teologia. Está mais na linha de uma intervenção pública no debate acerca do futuro do islão. O maior obstáculo à mudança no mundo muçulmano é justamente a supressão do tipo de pensamento crítico que tento enunciar aqui. Mesmo que este livro não logre nenhum outro resultado, eu o considerarei um sucesso se ele ao menos desencadear uma discussão séria sobre essas questões entre os próprios muçulmanos». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT

quarta-feira, 22 de março de 2017

Nómada. Ayaan Hirsi Ali. «Descobri sobre a doença dele em Junho de 2008, algumas semanas antes da sua morte. Eu tinha recebido uma mensagem de Marco, meu ex-namorado holandês»

jdact e wikipedia

«(…) Ao entrar na Unidade de Terapia Intensiva do Royal London Hospital para ver meu pai, receei ter chegado tarde demais. Ele estava estirado no leito hospitalar, com a boca estranhamente aberta, e numerosas e ameaçadoras máquinas estavam ligadas ao seu corpo. Elas emitiam bipes e tiques, e as linhas que se erguiam e mergulhavam em rápida sucessão nos seus monitores pareciam indicar uma breve contagem regressiva até à sua morte. Abeh, gritei com toda a força. Abeh, sou eu, Ayaan. Apertei a mão dele entre as minhas e, ansiosa, beijei a sua testa; os olhos do meu pai se abriram subitamente. Ele sorriu, e o calor do seu olhar e o seu sorriso encheram toda a sala. Pus a palma das minhas mãos sobre a mão direita dele, e ele as apertou e tentou falar, tentou obrigar algumas palavras a saírem. Mas só o que conseguiu foi emitir um chiado e tossir sem fôlego. Fez esforço para se sentar, mas não era capaz de sustentar o peso do próprio corpo. Ele estava coberto com lençóis brancos, e dava a aparência de estar amarrado na cama. Calvo, parecia ser muito menor do que nas minhas lembranças. Havia um terrível tubo na sua garganta que fornecia a ele oxigénio por meio de um respirador; outro tubo saía dos rins para uma máquina de diálise, e um emaranhado de tubos entrava-lhe pelo pulso. Sentei-me ao lado dele e acariciei-lhe o rosto, dizendo: abeh, abeh, está tudo bem. Abeh, meu pobre abeh, o senhor está tão doente. Ele não pôde responder. Quando tentava falar, caía novamente na cama, com o peito ofegante, e a máquina que lhe fornecia oxigênio sibilava em busca de mais ar. Então, depois de repousar por alguns instantes, ele fazia nova tentativa. Indicava com a mão direita que queria uma caneta para escrever, mas mal era capaz de segurá-la; seus músculos estavam muito fracos, e só conseguia fazer rabiscos no papel. O esforço para segurar a caneta era tamanho que começou a escorregar para fora da cama.
A ala hospitalar era ampla, e as enfermeiras estavam ocupadas trocando lençóis e dando remédios. Percebi que o médico tinha sotaque e, por um instante, pensei que fosse do México. Quando perguntei de onde vinha, ele disse-me que era espanhol. A ala era administrada quase que exclusivamente por imigrantes. Não soube distinguir os enfermeiros dos médicos e, enquanto olhava ao redor, tentei adivinhar a origem dos membros da equipa, dos técnicos e dos auxiliares: a península indiana, negros que pensei serem da África oriental ou ocidental, pessoas que pareciam do norte da África, algumas mulheres com lenços na cabeça sobre os uniformes médicos. Se havia funcionários somalis na ala, eu não os vi nem eles me viram, felizmente. Uma das enfermeiras desenrolou um avental de plástico, amarrou-o ao redor da cintura e pediu que eu me afastasse, mas meu pai não quis soltar-me e tive de forçar seus dedos a largarem minha mão. A enfermeira o deixou numa posição mais erecta, apoiando-o em travesseiros e olhando para mim com interesse. Uma das enfermeiras me disse que tinha lido uma reportagem sobre mim numa revista, e por isso algumas delas sabiam quem eu era. Afastei o olhar e reparei no prontuário médico afixado à cama; meu pai estava registado como Hirsi Magan Abdirahman, apesar de seu nome ser Hirsi Magan Isse. Um jovem médico contou-me que meu pai tinha leucemia. Ele poderia ter sobrevivido por mais um ano se não tivesse desenvolvido uma infecção, que se tornara séptica. Apesar de ter saído do coma no qual entrara alguns dias antes, apenas os aparelhos o mantinham vivo. Perguntei seguidas vezes se meu pai estava sentindo dor, mas o médico disse que não; que havia desconforto, mas não dor. Perguntei ao médico se poderia tirar uma foto com meu pai. Ele respondeu que não. Disse que para isso seria necessário pedir permissão ao paciente, e o paciente não estava em condições de tomar esse tipo de decisão.
Em 1992, quando o deixei em Nairóbi, o meu pai era um homem forte e vivaz. Ele podia ser feroz, até assustador, um leão, um líder entre os homens. Durante a minha infância ele foi o meu lorde, o meu herói, alguém cuja ausência era misteriosa, por cuja presença eu ansiava, cuja aprovação significava tudo e cuja ira eu temia. Agora eram muitas as desavenças entre nós. Eu o ofendera profundamente em 1992, ao fugir do marido somali que ele escolhera para o meu matrimónio. Ele tinha-me perdoado por isso; conversámos sobre o assunto, pouco à vontade, pelo telefone. Uma década mais tarde eu o ofendi novamente, quando me declarei incrédula e critiquei abertamente o tratamento dispensado pelo islão às mulheres. O nosso último conflito, o pior, ocorreu depois que fiz um filme sobre o abuso e a opressão a que são submetidas as muçulmanas, Submission, com Theo van Gogh, em 2004. Depois desse episódio o meu pai simplesmente parou de atender os meus telefonemas; ele recusou-se a falar comigo. Algum tempo depois da morte de Theo, quando tive de me esconder e o meu telefone foi-me retirado, parei de tentar entrar em contacto com ele. Quando as pessoas me perguntavam a seu respeito, eu respondia apenas que éramos distantes.
Descobri sobre a doença dele em Junho de 2008, algumas semanas antes da sua morte. Eu tinha recebido uma mensagem de Marco, meu ex-namorado holandês, dizendo que a minha prima que vivia na Inglaterra, Magool, estava procurando-me com urgência. Ela não é próxima da família do meu pai, mas tem recursos. Quando minha meia-irmã, Sahra, percebeu como o pai estava doente, ela pediu a Magool que tentasse encontrar-me, e Magool telefonou para Marco, a única pessoa de quem eu havia sido próxima que ela conhecera, cinco anos antes, da última vez que havíamos conversado. Telefonei para meu pai no seu apartamento num conjunto habitacional localizado no East End de Londres. Já era tarde, noite, onde ele se encontrava, e fazia uma linda tarde de sol na Costa Leste dos Estados Unidos, onde eu estava. Minhas mãos tremiam. Quando atendeu o telefone. A sua voz era exactamente como deveria ser, forte e enérgica. Ao ouvir a voz dele percebi as lágrimas enchendo os meus olhos e disse a única coisa que quis transmitir, que eu o amava, e pude ouvi-lo sorrir, um sorriso tão poderoso que pareceu atravessar a linha telefónica. É claro que me amas!, irrompeu ele. E é claro que eu te amo! Não reparou como os pais acalentam e se relacionam com os filhos? Não viu na natureza como os animais cuidam das suas crias e as lambém? É claro que eu te amo. És minha filha. Eu disse a meu pai o quanto queria vê-lo, mas expliquei que poderia ser difícil garantir a minha segurança numa visita ao seu apartamento, localizado numa área onde predominam os imigrantes, na sua maioria muçulmanos. Visitar um lugar como aquele, desprotegida, seria como um insecto minúsculo a voar numa sala repleta de imensas teias de aranha: a mosquinha pode chegar ao outro lado sem nada sofrer, mas se for apanhada as consequências são óbvias». In Ayaan Hirsi Ali, Nomad, From Islam to America, Nómade, tradução de Augusto Calil, Companhia das Letras, 2010, ISBN 978-858-086-374-1 e / ou In Ayaan Hirsi Ali, Nómada, Galaxia Gutenberg, 2011, ISBN 978-848-109-928-7.

Cortesia da CdasLetras/GGutenberg/JDACT

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «O islão está numa encruzilhada. Os muçulmanos, não dezenas ou centenas, mas dezenas de milhões e até centenas de milhões, precisam tomar a decisão consciente de confrontar…»

jdact e wikipedia

«(…) Os muçulmanos de Medina podem explorar ideias desse tipo e ser uma ameaça para todos nós. No Médio Oriente e em outras partes, a sua visão de um retorno violento à época do Profeta ameaça potencialmente centenas de milhares com a morte e milhões com a subjugação. No Ocidente, implica não só um risco crescente de terrorismo, mas também uma subtil erosão das árduas conquistas das feministas e defensores dos direitos de minorias. Os muçulmanos de Medina também estão solapando a posição dos muçulmanos de Meca que tentam levar uma vida sossegada nos seus casulos culturais por todo o mundo ocidental. Mas a ameaça maior é para os dissidentes e reformistas: os muçulmanos modificados. São eles que enfrentam ostracismo e rejeição, que têm de sofrer todo o tipo de insulto, lidar com ameaças de morte, ou que são mortos. Até agora, os seus esforços têm sido difusos e individuais, em comparação com as acções colectivas altamente organizadas dos muçulmanos de Medina. É nosso dever para com os dissidentes, para com a sua coragem e convicção, mudar isso. Cheguei à conclusão de que a única estratégia viável que pode trazer uma esperança de conter a ameaça representada pelos muçulmanos de Medina é aliar-me aos dissidentes e reformistas e ajudá-los a: 1. identificar e repudiar as partes do legado moral de Maomé oriundas de Medina; e 2. persuadir os muçulmanos de Meca a aceitar essa mudança e rejeitar o chamado dos muçulmanos de Medina à intolerância e à guerra.
Este não é um livro de história. Não procuro dar uma nova explicação para o facto de cada vez mais muçulmanos aderirem aos elementos mais violentos do islão na minha época, por que razão, em resumo, os muçulmanos de Medina estão hoje em ascensão. Tento refutar a ideia, quase universal entre os liberais do Ocidente, de que a explicação reside nos problemas económicos e políticos do mundo muçulmano e que esses problemas, por sua vez, podem ser explicados com base na política externa ocidental. Isso é atribuir importância demasiada a forças exógenas. Há outras partes do mundo que lutam para fazer a democracia funcionar ou para lidar com a riqueza advinda do petróleo. Há outros povos além dos muçulmanos que se queixam do imperialismo norte americano. No entanto, quase não se tem indício de algum crescimento de terrorismo, explosões suicidas, guerra sectária, punições medievais e mortes em nome da honra no mundo não muçulmano. Existe uma razão para que uma proporção crescente da violência organizada no mundo esteja acontecendo em países onde o islamismo é a religião de uma parcela substancial da população.
O argumento deste livro é que as doutrinas religiosas fazem diferença e precisam de reforma. Factores não doutrinários, como o uso pelos sauditas das receitas do petróleo para financiar o wahabismo e o apoio do Ocidente ao regime saudita, são importantes, mas a doutrina religiosa é mais importante. Por mais que para muitos académicos ocidentais seja difícil acreditar, quando pessoas cometem actos violentos em nome da religião, elas não estão tentando dignificar de alguma forma os seus agravos socio-económicos ou políticos básicos. O islão está numa encruzilhada. Os muçulmanos, não dezenas ou centenas, mas dezenas de milhões e até centenas de milhões, precisam tomar a decisão consciente de confrontar, debater e por fim rejeitar os elementos violentos da sua religião. Em certo grau, em grande medida devido à repulsa generalizada pelas indizíveis atrocidades do EI, Al-Qaeda e o resto, esse processo já começou.
Mas, em última análise, ele requer a liderança dos dissidentes. E estes, por sua vez, não têm como conseguir sem o apoio do Ocidente. Imagine se, na Guerra Fria, o Ocidente tivesse apoiado não os dissidentes do Leste Europeu, como Václav Havel e Lech Walesa, mas a União Soviética, como representante dos comunistas moderados, na esperança de que o Kremlin nos ajudasse contra terroristas da estirpe da Facção do Exército Vermelho. Imagine-se um presidente norte-americano sofresse uma lavagem cerebral e saísse dizendo ao mundo que o comunismo é uma ideologia pacífica. Isso teria sido desastroso. No entanto, essa é essencialmente a postura do Ocidente em relação ao mundo muçulmano actual. Nós ignoramos os dissidentes». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «Podia fazer a sua própria casinha abobadada de galhos dobrados e esteiras, e depois desmontá-la e carregá-la num mal-humorado camelo de carga»

Cortesia de wikipedia e jdact
«(…) As histórias da avó eram de arrepiar. Havia as de uma bruxa horrorosa, chamada Matadora ou Carniceira, que tinha a faculdade de adoptar a aparência de uma pessoa querida, respeitável e, de súbito, saltava sobre a pessoa, rindo na sua cara, rarararará, e a matava com a comprida e afiada faca que trazia o tempo todo escondida nas dobras do vestido. E comia-a inteira. Minha avó também nos contava histórias da sua juventude, dos bandos de guerreiros que assolavam o deserto, roubando animais e mulheres, incendiando casarios. Falava sobre todos os desastres esquecidos da sua vida e da dos seus pais: sobre a peste endémica, a malária e a seca, que deixavam regiões inteiras despovoadas. Contava da sua vida. Dos bons tempos, quando as chuvas chegavam e tingiam tudo de verde, quando as enxurradas enchiam repentinamente o leito dos rios, e havia carne e leite em abundância. Tentava nos ensinar o que levava à decadência: quando o capim verdejava, os pastores se entregavam à preguiça e as crianças engordavam. Homens e mulheres se misturavam, cantando e batucando na penumbra, e isso lhes minava a precaução, impedindo-os de se prevenir contra o perigo. Tal combinação, dizia, levava à competição, ao conflito, à desgraça.
Às vezes, nas histórias da avó, surgiam mulheres valentes, mães, como a minha, que se valiam da astúcia e da coragem para salvar os filhos do perigo. Isso nos incutia segurança, de certo modo. A minha avó e também a minha mãe eram destemidas e inteligentes: decerto nos salvariam quando chegasse a nossa vez de enfrentar os monstros. Na Somália, as crianças aprendiam cedo a se precaver contra a traição. As coisas nem sempre eram o que pareciam; o menor deslize podia ser fatal. A moral de todas as histórias da minha avó mirava a nossa honra. Devíamos ser fortes, espertas, desconfiadas; devíamos acatar as normas do clã. A desconfiança era recomendável, principalmente para as meninas. Pois elas podiam ser roubadas. Ou podiam ceder. E aquela que perdesse a virgindade manchava não só a própria honra como a do pai, dos tios, dos irmãos, dos primos. Não havia nada pior do que ser agente de semelhante catástrofe. Por mais que gostássemos das suas histórias, geralmente não dávamos atenção à avó. Ela nos pastoreava quase como as cabras que costumava amarrar na nossa árvore, já que éramos mais desobedientes. O nosso passatempo eram as histórias e as brigas; acho que só vi um brinquedo aos oito anos, quando nos mudamos para a Arábia Saudita. Vivíamos implicando uns com os outros. Haweya e Mahad uniam-se contra mim, ou então Haweya e eu nos uníamos contra Mahad. Mas o meu irmão e eu nunca fazíamos nada juntos. Nós nos detestávamos. Minha avó sempre dizia que era pelo facto de eu ter nascido só um ano depois dele: roubei-lhe o colo da minha mãe. Não tínhamos pai, porque estava na prisão. Eu nem me lembrava dele. A maioria dos adultos que eu conhecia tinha sido criada nos desertos da Somália. País mais oriental e um dos mais pobres da África, a Somália se projectava no oceano Índico, resguardando qual mão protectora a ponta da península Arábica antes de mergulhar no litoral do Quénia. Minha família era de nómadas que percorriam constantemente os desertos do norte e do nordeste em busca de pastagens para os rebanhos. Às vezes, fixavam-se durante uma ou duas estações; quando já não havia água ou pastagem suficiente, ou quando as chuvas não chegavam, pegavam a cabana, punham as esteiras nos camelos e partiam à procura de um lugar melhor para manter os rebanhos vivos. Minha avó sabia tecer tão bem a palha seca que as suas moringas eram capazes de levar água por quilómetros e quilómetros.
Podia fazer a sua própria casinha abobadada de galhos dobrados e esteiras, e depois desmontá-la e carregá-la num mal-humorado camelo de carga. O seu pai, um pastor isaq, morrera quando a avó tinha uns dez anos. A sua mãe casara com o tio dela. (Era uma prática comum. Poupava o dote e evitava problemas.) Quando minha avó fez treze anos, um nómada rico chamado Artan, que já passava dos quarenta, pediu a sua mão a esse tio. Artan era um dhulbahante, uma boa estirpe dos darod. Respeitadíssimo, hábil com os animais e bom viandante, conhecia tão bem o ambiente que sempre sabia quando partir e aonde ir para encontrar a chuva. Os membros dos outros clãs pediam-lhe que arbitrasse as suas disputas. Artan já era casado, mas só tinha uma filha com a mulher, uma menina um pouco menor do que a minha avó. Ao decidir tomar outra esposa, escolheu primeiro o pai da noiva: que fosse um homem de bom clã e de reputação ilibada. A moça tinha que ser trabalhadora, forte, jovem e pura. A avó Ibaado era tudo isso. Artan pagou um lobolo por ela. Dias depois de Artan casar com ela e a levar embora, a minha avó fugiu. Tinha percorrido quase todo caminho de volta ao acampamento da mãe quando o marido a alcançou. Ele consentiu em deixá-la descansar um pouco com a família para se recuperar. Uma semana depois, o seu padrasto levou-a ao acampamento de Artan e lhe disse: este é o teu destino». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1. 
Cortesia de CdasLetras/JDACT

sábado, 17 de setembro de 2016

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «Devo odiar o cientista que descobriu a cura da malária? Devo ensinar minha filha a odiar pessoas apenas porque a religião delas é diferente? Por que transformamos nossa religião em uma religião de ódio…»

jdact e wikipedia

«(…) Voltarei a tratar desse grupo negligenciado e, em grande medida, desconhecido. Por ora, basta dizer que escolhi identificar-me com os dissidentes. Aos olhos dos muçulmanos de Medina, somos todos hereges, pois tivemos a temeridade de questionar a aplicabilidade de ensinamentos do século VII ao mundo do século XXI. Entre os dissidentes incluem-se pessoas como Abd Al-Hamid Al-Ansari, ex-decano de direito slâmico da Universidade do Catar, que condenou o ódio às religiões não islâmicas. Ele citou na íntegra uma mulher saudita que indagou por que sua filha devia ser ensinada a odiar não muçulmanos: eles querem que eu odeie o cientista judeu que descobriu a insulina, que uso para tratar minha mãe? Devo ensinar minha filha que ela tem de odiar Edison, o inventor da lâmpada elétrica que ilumina o mundo islâmico? Devo odiar o cientista que descobriu a cura da malária? Devo ensinar minha filha a odiar pessoas apenas porque a religião delas é diferente? Por que transformamos nossa religião em uma religião de ódio contra quem difere de nós? Al-Ansari cita então a resposta de um eminente clérigo saudita: isso não é da sua conta e a cooperação com os infiéis é permitida, mas só como recompensa por serviços, e não por amor. Al-Ansari propõe tornar o discurso religioso mais humano. E é precisamente nisso que reformistas residentes no Ocidente, como Irshad Manji, Maajid Nawaz e Zuhdi Jasser, se empenham. Eles têm em comum a tentativa de modificar, adaptar e reinterpretar a prática islâmica a fim de tornar o discurso religioso mais humano.
Quantos muçulmanos pertencem a cada grupo? Mesmo se fosse possível responder decisivamente essa questão, não sei se isso tem importância. No rádio e televisão, na comunicação social, em muitíssimas mesquitas e, obviamente, no campo de batalha, os muçulmanos de Medina chamam a atenção do mundo. Mais perturbador é o crescimento abrupto do número de jihadistas muçulmanos nascidos no Ocidente. Uma estimativa da ONU em Novembro de 2014 diz que cerca de 15 mil combatentes estrangeiros de no mínimo oitenta países viajaram para a Síria para se juntar aos jihadistas radicais. Mais ou menos um quarto deles provém da Europa Ocidental. E não são apenas homens jovens. De 10% a 15% dos oriundos de alguns países ocidentais que viajaram para a Síria são mulheres, segundo estimativas do grupo de pesquisa ICRS. Há estatísticas ainda mais preocupantes. Segundo estimativas do Pew Research Center, as projecções mostram que a população muçulmana dos Estados Unidos crescerá de aproximadamente 2,6 milhões actuais para 6,2 milhões em 2030, principalmente em consequência de imigração e de fecundidade acima da média. Embora em termos relativos isso venha a representar menos de 2% da população norte-americana total (1,7% para ser mais exacta, em comparação com cerca de 0,8% hoje), em termos absolutos essa população será mais numerosa que a de qualquer país da Europa Ocidental com excepção da França. Sendo imigrante de origem somali, não tenho objecção alguma a que milhões de outras pessoas do mundo muçulmano venham para os Estados Unidos em busca de uma vida melhor para si mesmas e suas famílias. O que me preocupa são as atitudes que muitos desses novos muçulmano-americanos trarão consigo. Aproximadamente dois quintos dos imigrantes muçulmanos entre hoje e 2030 provirão de apenas três países: Paquistão, Bangladesh e Iraque. Outro estudo do Pew, sobre a opinião no mundo muçulmano, mostra quantas pessoas nesses países têm ideias que a maioria dos ocidentais consideraria extremistas. Três quartos dos paquistaneses e mais de dois quintos dos bengaleses e iraquianos pensam que as pessoas que deixam o islão merecem a pena de morte. Mais de 80% dos paquistaneses e dois terços dos bengaleses e iraquianos acham que a lei da sharia é a palavra de Deus revelada. Proporções semelhantes dizem que o entretenimento ocidental fere a moralidade. Só minúsculas fracções dessa população não se incomodariam caso suas filhas se casassem com cristãos. Apenas uma minoria considera que matar mulheres nunca se justifica por motivo de honra. Um quarto dos bengaleses e um dentre oito paquistaneses acha que as explosões suicidas em defesa do islão são frequentemente ou às vezes justificadas». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT

sábado, 25 de junho de 2016

Infiel. Ayaan Hirsi Ali. «O estranho passou um ano na casa com o casal. Durante todo esse ano, a relva continuou verdejando e as chuvas voltaram, de modo que não havia razão para seguir viagem. A esposa teve outro filho na cabana»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aprenda bem isso, diz minha avó, brandindo uma vara na minha direcção. Os nomes lhe darão força. São a sua linhagem. Se os honrar, eles a manterão viva. Se os desonrar, você vai ser prescrita. Não será ninguém. Há-de levar uma vida desgraçada e há-de morrer sozinha. Repita. As crianças somalis precisam decorar sua genealogia: é mais importante do que quase tudo. Sempre que depara com um desconhecido, um somali pergunta: quem és? E os dois começam a retroceder em suas linhagens distintas até encontrarem um ancestral em comum. Se tiver o mesmo antepassado que um somali, mesmo que seja na oitava geração, os dois estão ligados como primos. São membros da grande família que forma o clã. Um oferece comida e hospitalidade ao outro. Embora o filho pertença ao clã do pai, é sempre útil recordar os detalhes da estirpe da mãe, caso viaje e precise da ajuda de um estranho.
Por isso, embora o suor escorresse por nossas costas naquelas longas tardes, o meu irmão mais velho, Mahad, e eu aprendíamos a recitar em uníssono os nomes das duas genealogias. Posteriormente, minha avó começou a ensinar Haweya, minha irmã caçula, a fazer o mesmo, mas não conseguiu. Haweya era viva e inteligente, porém muito mais irrequieta do que nós. A verdade é que esse conhecimento ancestral parecia inútil para nós, crianças modernas, criadas em casas de concreto, com telhados sólidos, por trás de paredes firmes e cercadas. Geralmente fugíamos, esquivando-nos das fortes pancadas que minha avó procurava dar nas nossas pernas com as varas arrancadas da árvore. Tratávamos era de trepar na árvore e ficar brincando nos galhos. Acima de tudo, adorávamos escutar as histórias da minha avó quando a mãe estava cozinhando no fogareiro a carvão e nós nos deitávamos em uma esteira debaixo da nossa árvore. Essas histórias nunca eram narradas quando a gente queria. Chegavam de surpresa. A avó podia estar entrançando uma esteira, resmungando consigo e, de repente, a gente percebia que o murmúrio tinha se transformado em um conto de fadas.
Era uma vez um rapaz nómada casado com uma bela mulher, e eles tinham um filho, ela começava. Os três sabíamos que devíamos nos calar instantaneamente e fingir que estávamos ocupados com alguma coisa; a menor interrupção bastava para irritá-la, e a avó então ralhava connosco e voltava a entrelaçar as finas hastes de palha seca que passava dia e noite costurando para fazer grandes e caprichados tapetes. As chuvas não vieram, e o nómada empreendeu a travessia do deserto em busca de pastagens em que pudesse se fixar com a família. Pouco depois de iniciar a caminhada, chegou a um trecho de relva verde e fresca. Lá havia uma cabana feita de galhos fortes, coberta de esteiras recém-tecidas e toda varrida. A cabana estava vazia. Ele voltou para junto da mulher e contou que, com apenas uma jornada, tinha encontrado o lugar perfeito. Mas, dois dias depois, ao voltar à pastagem com a esposa e o bebé, deu com um estranho postado à entrada da cabana. Não era alto, era um homem atarracado, de dentes muito brancos e pele lisa. Haweya estremecia de prazer. E de medo. O estranho disse: tem mulher e filho. Fique com a casa, seja bem-vindo, e sorriu. O jovem nómada achou aquele sujeito admiravelmente simpático e agradeceu; convidou-o a visitá-lo quando quisesse. Mas a esposa sentiu um mal-estar com o desconhecido. E o bebé começou a chorar assim que o viu. Naquela noite, um animal entrou sorrateiramente na cabana e arrebatou a criança do berço. O nómada tinha comido bem e dormia um sono profundo, não ouviu nada. Que desgraça. O desconhecido foi visitar o casal para dar os pêsames. Mas, quando ele falou, a mulher reparou nos pedacinhos de carne vermelha entre seus dentes e viu que um daqueles dentes fortes e brancos estava quebrado.
O estranho passou um ano na casa com o casal. Durante todo esse ano, a relva continuou verdejando e as chuvas voltaram, de modo que não havia razão para seguir viagem. A esposa teve outro filho na cabana, outro lindo bebé. Porém, uma vez mais, quando a criança completou apenas uma estação de idade, um bicho apareceu de madrugada e a levou entre os dentes. Dessa vez, o pai chegou a persegui-lo, mas era muito lerdo para alcançá-lo. Na terceira vez, o nómada se engalfinhou com o animal, lutou o quanto pôde, mas acabou vencido. E o monstro lhe devorou mais um filho! Por fim, ao perder o terceiro bebé, a mulher disse ao marido que ia deixá-lo. E assim aquele nómada idiota acabou perdendo tudo! Muito bem, o que acabam de aprender?, gritava a minha avó. Sabíamos a resposta. Que o nómada era um bom vagabundo. Ficou na primeira pastagem que encontrou, mesmo sabendo que havia algo errado com ela. Foi tolo: não soube interpretar os sinais, sinais que o bebê e a mulher perceberam instintivamente. Na verdade, o estranho era aquele que se coça com uma vara, o ser monstruoso que se transformava em hiena e comia a criança. Tínhamos entendido. O nómada fora ingénuo, vagaroso, fraco e covarde. Merecia mesmo perder tudo». In Ayaan Hirsi Ali, Infiel, 2006, tradução de Luís Araújo, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2007, ISBN 978-853-591-109-1.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Herege. Ayaan Hirsi Ali. «Para muitos desses muçulmanos, após anos de dissonância parece haver apenas duas alternativas: deixar o islão de uma vez, como eu fiz, ou abandonar a insípida rotina de observância diária»

jdact e wikipedia

«(…) Os muçulmanos de Medina acreditam que assassinar um infiel é obrigatório se ele não se converter voluntariamente ao islão. Pregam a jihad e glorificam a morte pelo martírio. Os homens e mulheres que aderem a grupos como Al-Qaeda, EI, Boko Haram e Al-Shabaab na minha Somália natal, para citar apenas quatro dentre centenas de organizações jihadistas, são todos muçulmanos de Medina. E são minoria esses muçulmanos de Medina? Ed Husain estima que apenas 3% dos muçulmanos do mundo concebem o islã nesses termos belicosos. Mas acontece que 3% de mais de 1,6 bilhão de crentes, 23% da população mundial, são 48 milhões: parece mais do que suficiente. Com base em levantamentos das atitudes em relação à sharia em países muçulmanos, calculo que a parcela é significativamente maior. Também acredito que ela está crescendo, conforme muçulmanos e convertidos ao islamismo gravitam em torno de Medina. Seja como for, os muçulmanos desse grupo não são susceptíveis à persuasão ou envolvimento pelos liberais ocidentais ou reformistas muçulmanos. Eles não são o público visado por este livro. São a razão de ele ter sido escrito.
O segundo grupo, sem dúvida alguma a maioria em todo o mundo muçulmano, compõe-se daqueles que são leais ao credo fundamental e fazem as suas devoções com fervor, mas não se sentem inclinados a praticar violência. Chamo-os de muçulmanos de Meca. Como os cristãos ou judeus devotos que seguem os serviços religiosos diariamente e cumprem regras religiosas na alimentação e no vestuário, os muçulmanos de Meca concentram-se na observância religiosa. Fui criada como uma muçulmana de Meca. Assim como a maioria dos muçulmanos, de Casablanca a Jacarta. Mas os muçulmanos de Meca têm um problema: as suas crenças religiosas vivem em incómoda tensão com a modernidade, o complexo das inovações económicas, culturais e políticas que não só remodelou o mundo ocidental mas também transformou tremendamente o mundo em desenvolvimento à medida que o Ocidente o exportou. Os valores racionais, seculares e individualistas da modernidade são fundamentalmente corrosivos para as sociedades tradicionais, sobretudo para as hierarquias baseadas em género, idade e status herdado.
Em países de maioria muçulmana, pode ser limitada a capacidade da modernidade para transformar as relações económicas, sociais e (em última instância) as de poder. Nessas sociedades, os muçulmanos podem usar telefone móvel e computador sem necessariamente ver um conflito entre a sua fé religiosa e a mentalidade racionalista e secular que possibilitou a tecnologia moderna. No Ocidente, contudo, onde o islão é uma religião minoritária, os muçulmanos devotos vivem numa condição que se poderia descrever muito bem como dissonância cognitiva. Encurralados entre dois mundos de crenças e experiências, esses muçulmanos travam uma luta diária para seguir o islamismo no contexto de uma sociedade secular e pluralista que contesta os valores e crenças islâmicos a cada momento. Muitos só conseguem resolver essas tensões isolando-se em enclaves (que cada vez mais são autogovernados). Chama-se encasulamento essa prática na qual os imigrantes muçulmanos tentam barrar as influências externas, permitindo apenas a educação islâmica para os seus filhos e desligando-se da comunidade não muçulmana maior.
Para muitos desses muçulmanos, após anos de dissonância parece haver apenas duas alternativas: deixar o islão de uma vez, como eu fiz, ou abandonar a insípida rotina de observância diária em favor do credo islâmico inflexível oferecido por aqueles que rejeitam explicitamente a modernidade ocidental, os muçulmanos de Medina. Espero trazer esse segundo grupo de muçulmanos, os que estão mais próximos de Meca do que de Medina, para um diálogo sobre o significado e a prática da sua fé. Espero que eles sejam um dos principais públicos deste livro. Reconheço, é claro, que esses muçulmanos provavelmente não dariam atenção a uma conclamação pela reforma doutrinária vinda de alguém que eles julgam apóstata e infiel. Mas talvez reconsiderem se eu puder persuadi-los a pensar em mim não como uma apóstata, e sim como uma herege: alguém dentre um número crescente de pessoas nascidas no islão que procura pensar, com uma postura crítica, a respeito da fé em que fomos criados. É com esse terceiro grupo, do qual apenas uns poucos deixaram de vez o islão, que hoje me identifico». In Ayaan Hirsi Ali, Herege, tradução de Laura Motta e Jussara Simões, Editora Schwarcz, Companhia das Letras, 2015, ISBN 978-854-380-373-9.

Cortesia de ESchwarcz/CLetras/JDACT