Mostrar mensagens com a etiqueta 500 Anos de Camões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta 500 Anos de Camões. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Dr. José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «sirva de exemplo claro meu tormento, com que todos conheçam claramente que quanto ao mundo apraz é breve sonho»

Cortesia de Publicações Foriente

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910

Volta de Ceuta

«(…)

Vós, que escuitais em rimas derramado

dos suspiros o som, que me alentava

na juvenil idade, quando andava

em outro em parte do que sou mudado,

 

sabei que busca só, do já cantado

no tempo em que eu temia ou esperava,

de quem o mal provou, que eu tanto amava,

piedade, e não perdão, o meu cuidado.

 

Pois vejo que tamanho sentimento

só me rendeu ser fabula da gente

(do que comigo mesmo me envergonho),

 

sirva de exemplo claro meu tormento,

com que todos conheçam claramente

que quanto ao mundo apraz é breve sonho.

(Soneto 101)

 

É certo que este soneto é, por assim dizer, uma tradução do 1.º soneto de Petrarca; mas não se segue d'ahi que nelle se não encontrem elementos autobiographicos do nosso poeta. Reproduzo o soneto do poeta italiano, porque é um elemento de interpretação para o de Camões.

 

Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono

di quei sospiri ond'io nudriva il core

in sul mio primo giovenile errore,

quand'era in parte altr'uom da quel ch'i'sono;

 

Del vario stile in ch'io piango e ragiono

fra le vane speranze e'l van dolore,

ove sia chi per prova intenda amore,

spero trovar pietà, non che perdono.

 

Ma ben veggi'or si come ai popol tutto

favola fui gran tempo: onde sovente

di me medesmo meço mi vergogno:

 

e dei mio vaneggiar vergogna è'l frutto,

e '1 pentirse, e '1 conoscer chiaramente

che quanto piace ai mondo è breve sogno.

In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

 Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões,

Dr. José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «Porém, pois o destino trabalhoso, que me escurece a Musa fraca e lassa, louvor de tanto preço não sustenta…»

Cortesia de Publicações Foriente

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910

Volta de Ceuta

«(…)

Como já fica dicto, esta egloga foi dirigida a dona Francisca de Aragão. Na egloga 5.ª, escripta na mesma occasião, e bem assim no soneto 190, allude também Camões á projectada epopea. Em Ceuta ainda não pensava nella, como se infere da epistola 1.ª, est. 23-35, e se vê do soneto 267, manifestamente contemporâneo desta epistola, e dirigido pelo poeta a um seu admirador, que também fazia versos:

 

Se a fortuna inquieta e mal olhada,

que a justa lei do ceu comsigo infama,

a vida quieta, que ella mais desama,

me concedêra, honesta e repousada.

 

Pudera ser que a Musa, alevantada

com luz de mais ardente e viva flamma,

fizera ao Tejo, lá na pátria cama,

adormecer ao som da lyra amada.

 

Porém, pois o destino trabalhoso,

que me escurece a Musa fraca e lassa,

louvor de tanto preço não sustenta,

 

a vossa, de louvar-me pouco escassa,

outro sogeito busque valeroso,

tal qual em vós ao mundo se apresenta.

 

Forçado a desistir dos seus altos pensamentos, não tendo podido conseguir que a menina dos olhos verdes tornasse a olhar para elle, ferido no coração e no amor próprio, o poeta viu-se, com vergonha sua, fabula da gente, começou a servir de assumpto á maledicência». In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões,

Dr. José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «co prado em gentileza, por quem o pastor triste endoudecia, por a praia do Tejo discorria a lavar a beatilha e o trançado. O sol já consentia que saísse da sombra o manso gado»

Cortesia de Publicações Foriente

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910

 Volta de Ceuta

«(…)

Passado já algum tempo que os amores

de Almeno, por seu mal, eram passados,

porque nunca Amor cumpre o que promette,

entre uns verdes ulmeiros apartado,

regando por o campo as brancas flores,

em lagrimas cansadas se derrete,

quando a linda pastora, que compete

co monte em aspereza,

co prado em gentileza,

por quem o pastor triste endoudecia,

por a praia do Tejo discorria

a lavar a beatilha e o trançado.

O sol já consentia

que saísse da sombra o manso gado.

 

Já acordado daquelle pensamento,

que tão desacordado sempre o teve, (ver nota)

viu por acerto o bem que incerto tinha;

e porque, donde o amor a mais se atreve,

alli mais enfraquece o entendimento,

não lhe soube dizer o que convinha.

(Egloga 3.ª est. 1-2).

 

NOTA: Relêa-se o bellissimo soneto 279, que começa:

Doce sonho, suave e soberano.

se por mais longo tempo me durára!

Ah! Quem de sonho tal nunca acordara,

pois havia de ver tal desengano!

 

Pois se até ao invocar a musa inspiradora para o poema épico que vai emprehender, se presénte que o som vem d'uma parte, mas que a pancada é em outra!

 

Em vós tenho Helicon, tenho Pégaso;

em vós tenho Calliope e Thalia

e as outras sete irmãs, co fero Marte.

Em vós deixou Minerva sua valia;

em vós estão os sonhos do Parnaso;

das Pierides em vós se encerra a arte.

Com qualquer pouca parte,

senhora, que me deis de ajuda vossa,

podeis fazer que eu possa

escurecer ao sol resplandecente;

podeis fazer que a gente

em mi do grão poder vosso se espante

e que vossos louvores sempre cante.

 

Podeis fazer que cresça de hora em hora

o nome Lusitano, e faça inveja

a Esmirna, que de Homero se engrandece.

Podeis fazer também que o mundo veja

soar na ruda frauta o que a sonora

cithara Mantuana só merece.

(Egloga 4.ª, est. 1.ª e 2.ª)

In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões, 

Dr. José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «Não me negueis, se andais para negar-me, porque, se contra mi 'stais levantados, eu vos ajudarei mesmo a matar-me»

Cortesia de Publicações Foriente

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910

Volta de Ceuta

«(…)

Amor, com a esperança já perdida,

teu soberano templo visitei;

por sinal do naufrágio que passei,

em lugar dos vestidos, pus a vida.

 

Que mais queres de mi, pois destruida

me tens a gloria toda que alcancei?

Não cuides de render-me, que não sei

tornar a entrar-me onde não ha saída.

 

Vês aqui a vida e a alma e a esperança,

doces despojos de meu bem passado,

em quanto o quis aquella que eu adoro.

 

Nelles podes tomar de mi vingança;

e, se te queres inda mais vingado,

contenta-te co as lagrimas que choro.

(Soneto 50).

 

Pensamentos, que agora novamente

cuidados vãos em mim resuscitais,

dizei-me: e ainda vos não contentais

de ter, a quem vos tem, tão descontente?

 

Que phantasia é esta, que presente

cada hora ante os olhos me mostrais?

Com uns sonhos tão vãos inda tentais

quem, nem por sonhos, póde ser contente?


Vejo-vos, pensamentos, alterados

e não quereis, de esquivos, declarar-me

que é isto, que vos traz tão enleados?


Não me negueis, se andais para negar-me,

porque, se contra mi 'stais levantados,

eu vos ajudarei mesmo a matar-me.

(Soneto 93).

Pois se nem mesmo em versos que se occupam ex professo da menina dos olhos verdes, Camões deixa de se referir aos seus passados amores!»

In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões,

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Dr José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «De vontades alheias, que eu roubava, e que enganosamente recolhia em meu fingido peito, me mantinha. O engano de maneira lhes fingia…»

Cortesia de Publicações Foriente

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910,

Em Lisboa

«Chronologicamente, a primeira poesia em que Camões se occupa da filha do rei Emanuel é, me parece, o soneto 134.

Apresentado á excelsa e gentil senhora e por ella afavelmente acolhido, o modesto escudeiro ficou deslumbrado !

No dia seguinte, o seu amigo João Lopes Leitão, pagem da lança do mallogrado principe herdeiro, e pessoa muito apreciada na corte, recebia estas confidencias:

Senhor João Lopes, o meu baixo estado

Ontem vi posto em grau tão excellente,

Que, sendo vós inveja a toda a gente,

Só por mi vos quiséreis ver trocado.

 

O gesto vi, suave e delicado,

Que já vos fez contente e descontente (1),

Lançar ao vento a voz tão docemente,

Que fez o ar sereno e sossegado.

 

(1) O poeta allude, naturalmente, a algum facto análogo (se não é o mesmo) ao que deu occasião a uns conhecidos versos de Andrade Caminha e á resposta de Lopes Leitão. Diz a rubrica, que precede esses versos: «A João Lopes Leitão, estando preso em sua casa, por entrar uma porta a ver as damas contra vontade do porteiro». P. de Andrade (Caminha, Poesias, p. 36 1 (Lisboa, 1791).

Eis como termina a resposta do jovial amigo de Camões:

Estou-me agora doendo

De quem tiver para si

Que é melhor andar vendo

Verduras, que estar aqui.

 

Ninguém haja dó de mi.

Por me ver nesta prisão ;

Hajam de meu coração.

Que vê tanto dano em si.

 

De vontades alheias, que eu roubava,

E que enganosamente recolhia

Em meu fingido peito, me mantinha.

O engano de maneira lhes fingia.

Que, despois que a meu mando as subjugava.

Com amor as matava, que eu não tinha

Porém logo o castigo que convinha

O vingativo Amor me fez sentir.

(Canção 2ª)

Nesta canção, cscriptu cm Ceuta, o poeta uttribue ao Amor a culpa tida manuelpelo joven, transcreverei algumas passagens de obras e documentos coevos e de escriptores modernos, as quaes constituem o melhor commentario ao soneto que fica reproduzido, especialmente aos versos 5 a 10. Começarei pela informação que, em carta de 21 de Janeiro de 1557, enviava a Carlos V o seu embaixador, Sancho de Córdova, que tinha vindo a Lisboa tratar da entrega da filha do rei Emanuel a sua mãe, a rainha D. Leonor, já então viuva também de Francisco L Repare-se que o diplomata espanhol chega a empregar palavras que também se lecm no soneto. «(La senora Infanta) es persona de grande entendimento y cordura, y mui reposada, y de poças palabras y bien dichas y de las valerosas personas que he visto». In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

 Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões, 

terça-feira, 11 de junho de 2024

Dr José Maria Rodrigues. Camões. A Infanta D. Maria (1521-1577). «E vendo-se depennndo. De puro penado morre. Se a queixumes se soccorre, lança no fogo mais lenha. Não há mal que lhe não venha»

Cortesia de Publicações Foriente

 

Com a devida vénia ao Dr. José Maria Rodrigues (3.1761-06184643-2), Coimbra, 1910


«Entre as encantadoras redondilhas de Camões figuram as duas voltas ao mote:

Perdigão perdeo a penna",

Não ha mal que lhe não venha.

Dizem ellas, num tom de accentuada melancholia:

Perdigão, que o pensamento

Subio a um alto logar,

Perde a penna do voar,

Ganha a pena do tormento.

Não tem no ar, nem no vento,

Asas com que se sostenha.

Não ha mal que lhe não venha !

Quis voar a uma alta torre,

 

Mas achou-se desasado;

E vendo-se depennndo.

De puro penado morre.

Se a queixumes se soccorre,

I.ança no fogo mais lenha.

Não há mal que lhe não venha !

 

O próprio perdigão depenado, que nem ao menos se podia queixar, sem lançar mais lenha no fogo, sem aggravar a sua situação, era o próprio Camões. O alto logar até onde subio o seu pensamento, a alta torre a que quis voar, era uma das mais nobres e mais sympathicas figuras femininas que teem vivido sob este bello sol de Portugal:

era a filha mais nova del-rei Emanuel, a infanta D. Maria (1).

NOTA: (1)

«É muito interessante a monographia de D. Carolina Michaelis de Vasconcellos a respeito da infanta D. Maria de Portugal (1521-1577) e as suas datnas (Porto, 1902).

Della transcrevo aqui a seguinte passagem: «De sangue real, herdeira da coroa, se não morresse um anno antes da catastrophe de Alcacer-Quebir, pertence á historia e teve biographos conscienciosos. Em creança e na flor da edade viu refulgir diante de seus olhos a coroa de França ; foi escolhida repetidas vezes para o throno imperial, orbis destinata império, outras tantas para o império de Hespanha. Acariciando sempre, no intimo do coração, este ultimo projecto, ficou ainda assim innupta, uma triste sempre-noiva. Este estado tragicomico que lhe foi imposto, mas que afinal acceitou com sublime altivez, aparentando tê-lo escolhido livremente, despertou a dolente sympathia dos coevos. E ainda hoje é capaz de suscitar a dos pósteros».

(2) Basta citar por agora os sonetos 27 e 193:

NOTA:

«Males, que contra mim vos conjurastes,

Quanto ha de durar tão duro intento ?

Se dura, porque dure meu tormento,

Baste-vos quanto já me atormentastes.

Mas, se assi porfiais, porque cuidastes

Derribar o meu alto pensamento,

Mais pôde a causa delle, em que o sustento,

Que vós, que delia mesma o ser tomastes.

E, pois vossa tenção com minha morte

E de acabar o mal destes amores,

Dai já fim a tormento tão comprido.

Assi de ambos contente será a sorte :

Em vós, por acabar-me, vencedores ;

Em mim, porque acabei de vós vencido».

 

«Erros meus, má fortuna, amor ardente.

Em minha perdição se conjuraram.

Os erros e a fortuna sobejaram,

Que para mi bastava amor somente.

Tudo passei. . . Mas tenho tão presente

A grande dòr das cousas que passaram,

Que já as frequências suas me ensinaram

A desejos deixar de ser contente.

Errei todo o decurso de meus annos ;

Dei causa a que a fortuna castigasse

As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.

Oh ! Quem tanto pudesse, que fartasse

Este meu duro gcnio, de vinganças !»


In Dr José Maria Rodrigues, Camões e a Infanta D. Maria, Separata do Instituto, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 1910, há memória do Mal-Aventurado Príncipe Real Luís Philippe (3 1761 06184643.2), PQ 9214 R64 1910 C1 Robarts/.

Cortesia do AHistórico/UCoimbra/JDACT

Camões, Didácticas, Infanta D. Maria, JDACT, Dr José Maria Rodrigues, Universidade de Coimbra, 500 Anos  de Camões,